Umbandista

March 26, 2018 | Author: Francisco Allison Peixoto | Category: Spiritism, Religion And Belief, People


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Umbanda é uma religião heterodoxa brasileira, cuja evolução do polissincretismo religioso existente no Brasil foi resultado de motivações diversas, inclusive de ordem social, que originaram um culto à feição e moda do país. O vocábulo é oriundo da língua quimbundo, de Angola, e significa arte de curar, segundo a Gramática de Kimbundo, do Professor José L. Quintão, citada na obra O que é a Umbanda, de Armando Cavalcanti Bandeira, editora Eco, 19701 . Já os autores de vertente esotérica fazem alusão ao sânscrito a partir da junção dos termos Aum e Bandha, o elo entre os planos divino e terreno. A palavra mântrica Aumbandhan teria sido passada de boca a ouvido e chegado até nós como A Umbanda. O sincretismo religioso no Brasil, ou seja, a mistura de concepções, fundamentos, preceitos, ritualísticas e divindades se processou num quádruplo aspecto: negro, índio, católico e espírita porque outros foram menos dominantes ou de modo superficial e restrito a certas áreas. O marco inicial surge com a escravatura do índio feita pelos primeiros colonizadores no Brasil. Entretanto, o aborígene pelas suas características de raça, de elemento da terra, conhecedor das matas, espírito guerreiro exaltado, sem qualquer organização com um rudimento de estrutura social, tendo a liberdade como apanágio de toda sua vida, não aceitou o jugo da escravidão. Tinha, contudo, uma crença no espírito e suas religiões. A influência do índio contribuiu para a formação da Umbanda fornecendo elementos da sua mitologia e cultivos, tais quais, a Pajelança, o Toré, o Catimbó, entre outros. Ademais, o caboclo, ancestral do índio que incorporava em suas manifestações, foi consolidado na prática umbandista 2 O colonizador, portanto, foi buscar nas terras africanas o elemento negro, o qual oferecia condições mais favoráveis para os misteres da lavoura, já conhecidos nas regiões de origem. Desse modo, houve um circuito branco-índio-negro que contribuiu sobremaneira para o complexo da formação brasileira, nele ressalvando, como uma constante a religiosidade em vários aspectos. Na época das senzalas, os negros escravos costumavam incorporar o que se conhece hoje como pretos-velhos, antigos escravos, que ao se manifestarem, compartilhavam conselhos e consolo aos escravos. O sincretismo católico, produto da simbiose dos cultos de escravo e escravocratas no Brasil, chegou a tal ponto que se cultiva um orixá com nome e imagem do santo católico, não se podendo diferenciar em certas exteriorizações onde começa um onde termina o outro. São flagrantes os casos de São Jorge, Ogum, Nosso Senhor do Bonfim, Oxalá, São Cosme e São Damião, Ibeji, e Santa Bárbara, Iansã. Não raro, muitos chefes de terreiro mandam rezar missas e se declaram também católicos, além de haver um grande número de praticantes que frequentam as duas religiões. Houve, portanto, uma consolidação do santo católico, admitido já sob o aspecto de espírito superior, de guia-chefe ou como orixá, enquanto os candomblés procuraram mais se distanciar do sincretismo e não aceitar as imagens. O primeiro relato histórico, segundo Cavalcanti Bandeira, cabe a Nina Rodrigues, falecido em 1906, quando já estava quase pronta a impressão do seu livro Os africanos no Brasil, referente aos estudos feitos entre 1890 e 1905, nos quais consta a descrição de um ritual praticado na Bahia, o mais semelhante da Umbanda atual, que é o seguinte: Entre os casos que poderíamos citar, tomamos por sua importância à pastoral de um Prelado Brasileiro ilustre a descrição eloquentíssima do Cabula, por ele estudada, que mais não é do que uma instituição religiosa africana sob vestes católicas. Diz d. João Corrêa Nery: A Cabula: Houve alguém que disse ser grande e mais prejudicial do que pensamos, a influência exercida pelos africanos sobre os brasileiros. Parece mesmo que muito se tem escrito nesse sentido. Em certa região de nossa Diocese, tivemos, em nossa última excursão, oportunidade de observar a verdade desse asserto. Encontramos três freguesias largamente minadas por uma seita misteriosa que nos parece de origem africana. Nossa desconfiança mais se acentuou, quando nos asseveraram que antes da libertação dos escravos, tais cerimônias só se praticavam entre os pretos e mui reservadamente. Depois da lei de 13 de maio, porém, generalizou-se a seita, tendo chegado, entre as freguesias, a haver para mais de 8.000 pessoas iniciadas. Bem que agora esteja privada dos elementos mais importantes, que infelizmente possuiu outrora, ainda encontramos crescido número de adeptos. O tom misterioso e tímido com que nos falavam a seu respeito e a notícia da grande quantidade de iniciados ainda existentes, nos levaram, não só a procurar do púlpito invectivar essa tremenda anomalia, como também a tomar algumas notas que oferecemos à consideração e ao estudo dos curiosos. Graças a Deus nosso trabalho não foi inútil. Tivemos a "consolação" de ver centenas de cabulistas abandonarem os campos inimigos e voltarem novamente a N. S. Jesus Cristo, ao mesmo que tempo que, de muito bom grado, nos forneciam informações sobre a natureza, fins da associação que pertenciam. A nosso ver a Cabula é semelhante ao Espiritismo e à Maçonaria, reduzidos a proporções para a capacidade africana e outras do mesmo grau. Em vez de sessão, a reunião dos cabulistas tem o nome de mesa. O chefe de mesa é chamado de embanda e é secundado nos trabalhos por outros chamados cambones. União Espiritista de Umbanda do Brasil, a Casa Mater de Umbanda Pensa-se que a expressão embanda possa ser uma corruptela do termo Umbanda ou Quimbanda, mas de qualquer modo demonstra a antiguidade do ritual na Bahia, Espírito Santo pontificavam diversas casas de culto. em relação a um fato no culto que estudou naquele estado. hoje gira. Monjolo. Linha de Mina. teve a primazia de fixar num livro brasileiro a palavra Umbanda. com essa grafia. como marco. depois da Luta dos Ogãs. em alguns a iniciação dos profitentes do culto. Cassange. de Edison Carneiro. Embora predominasse o culto de Angola. em que surge à tona o nome Umbanda ao referir: "nos candomblés de caboclo. Linha do Mar. sem qualquer alteração. consegui registrar as impressões umbanda e embanda. bem como a de Nagô. Moçambique. sacerdote do radical mbanda: Ké ké mim ké umbanda." De acordo com Cavalcanti Bandeira. Uma referência com outra data precisa se encontra no livro Religiões Negras. como a Linha das Almas. Cabula. em 1933. Começou a fusão praticamente. teria estado na Bahia para fazer essa verificação. onde teve a linha mestra de uma de suas origens sob certos aspectos. o modo de aceitar um novo membro do corpo de médiuns da casa. sua prática no Rio de Janeiro remonta ao tempo do Império. no Lins de Vasconcelos. embora conhecido e usado nesse período ao que parece. 1963. pois os baianos que até então não se entrosavam nas cultuações. as vestes brancas. quando na Serra dos Pretos Forros. a engira. tinha uma apresentação distanciada da .e Rio de Janeiro. na década de 1910 a 1920. além do cambone. de Rebolo. do Congo. foram aos poucos convivendo no conjunto religioso. não se referindo ao nome Umbanda que. Sobressaíam-se os rituais de Angola. porém com a característica afro-brasileira bem nítida. Cabinda. e as chamadas Linhas Cruzadas. cada uma dentro de uma linha tradicional africanista. Entretanto. Edison Carneiro. a chegada do santé que é o santo como hoje se diz. Muçurumi. a marcação de pontos. de Guiné. quando João do Rio publicou as suas reportagens enfeixadas depois no livro Religiões do Rio. seguindo a tradição nagô dos candomblés (as macumbas como eram chamadas). Todo mundo mim ké Umbanda. a disposição das velas em sentido cabalístico como nos riscados. atual Estrada Grajaú-Jacarepaguá. seitas e religiões existentes na época e por ele vistos. Na descrição do ritual cabulista é identificado o bater das palmas. o chamado assistente cambono. Já no tempo da República se achavam espalhadas pelos diversos bairros. já no século XIX. não tinha galgado a evidência e nem definia um culto de largas proporções. onde aprecia e relata todos os cultos. Pode ser fixado o ano de 1905 para a Guanabara. Assim. citando Arthur Ramos. a Umbanda. ligadas ao . por exemplo. muitos centros foram surgindo. com a criação do chamado Estado Novo. e surge a partir da inserção de kardecistas insatisfeitos com a ortodoxia que não permitia a manifestação de caboclos e preto-velhos por serem considerados "espíritos atrasados". que usavam os centros praticantes desse ritual. fundada a 13 de outubro de 1924. o da chamada Quebra de Xangô. Também data desse ano o início do Cadastro Policial. na então 4º Delegacia Auxiliar. conhecido por sua amizade com líderes de religiões afro-brasileiras. No período de 1930 a 1940 a situação das tendas e terreiros melhorou bastante através da liberdade consentida e depois assegurada por lei. concorrendo para isso uma aglutinação pelos recessos motivados pelas perseguições havidas dos governos. As primeiras lideranças da Umbanda foram. quando eram tiradas as licenças para as chamadas Festas Africanas. nessa época apenas se favorecia ao kardecismo. em 1930. na Mangueira e de Morro de São Carlos. Seu regime.3 . se solidificaria.rigidez do misticismo baiano. como por exemplo. e os terreiros eram mais conhecidos como bandas ou pelo nome das entidades. o nome Umbanda foi mais preponderante no decênio de 1920 a 1930. os terreiros destruídos e os praticantes presos. Entre os inúmeros episódios desse tipo. no Rio de Janeiro. em Maceió. No conjunto de cultos bantos. direta ou indiretamente. Na época não havia liberdade religiosa. Todas as religiões que apontavam semelhanças com rituais africanos eram perseguidas. a Umbanda deriva da macumba carioca. a Tenda Espírita Mirim. XX. a 2 de fevereiro de 1912. propiciou e contribuiu para sua formação. diz que o autor chama esse novo produto. Em uma ação organizada pela Liga dos Republicanos Combatentes. Assim. sendo o nome comum de Tenda Espírita. que também exigia licença para os incipientes Terreiros de Umbanda. Ambos os autores a reconhecem como religião brasileira. Diamantino Fernandes Trindade relata em seu livro Umbanda e sua História que o início da expansão do Movimento Umbandista coincide com a subida ao poder de Getúlio Vargas. Mesmo assim. ou dos seus dirigentes. em 1937. muitos já haviam surgido no Morro do Castelo. destacou-se.4 Para Prandi5 e Oliveira6 . de caráter autoritário. em 1934. o que segundo os mesmos. entre outros. um período de urbanização e industrialização. e visou atingir o então governador Euclides Malta. de Santo Antônio. praticando o ritual de Umbanda. os mais importantes terreiros de Xangô foram destruídos na capital alagoana. Detalhe da fachada de uma tenda de Umbanda Sales. no estado de Alagoas. A ação teve como um de seus líderes o ex-governador Fernandes Lima. de jejenagô-mussulmi-banto-caboclo-espírita-católico. como o Muçurumi do Rio de Janeiro. tendo pais de santo e religiosos sido espancados e imagens de culto destruídas. pois. surgida nas primeiras décadas do séc. Uma lei de 1934 enquadrava a Umbanda. . em São Gonçalo. seguindo inicialmente o Espiritismo codificado por Allan Kardec. Os cultos eram vítimas da extorsão em troca de proteção da polícia. Há relatos de que a perseguição do governo Washington Luís (1926 a 1930) foi bastante intensa do que no governo seguinte de Vargas. A lei vigorou até 1964. com o Cavaleiro Vermelho. era identificado na década de 1930. Vila Isabel. o Kardecismo. na seção especial de Costumes e Diversões do Departamento de Tóxicos e Mistificações do Rio de Janeiro. sob a influência do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Alguns terreiros exibiam em suas paredes fotos do ditador. os quais foram instalados na cidade do Rio de Janeiro. o médium Zélio Fernandino de Moraes. fundada a 5 de março de 1935 e em funcionamento até 2012 na rua Visconde de Vila Isabel. jogo e prostituição. Centro.com Durval de Souza.com José Meireles. enquanto o termo terreiro era aplicado aos centros que funcionavam no mesmo plano da rua. prática atualmente comum nos jogos de azar. declarou certa feita numa reunião do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (SOUESP). drogas. eram as casas que funcionavam em sobrados. Em 1908.regime. Fundada a 8 de setembro de 1927. que várias vezes havia sido preso e sua libertação ocorrera por ordem direta de Vargas com quem mantinha relações cordiais.7 recebeu a incumbência de fundar sete centros. comuns na cidade. especialmente foi marcante a influência da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. 39. a autoridade se resguardava na justificativa de que a macumba dava cobertura a tipos considerados comunistas. da Guia . falecido em 1989. Trata-se do mesmo departamento que lidava com álcool. as Religiões Afro-Brasileiras. fundada a 16 de novembro de 1908. Muitos terreiros surgiram do kardecismo ou foram fundados por espíritas que recebiam caboclos e pretos-velhos. entre 1930 e 1937. ex-atleta de futebol do Corinthians. na rua Camerino. na época. 59. a Maçonaria. com os nomes de Tenda Espírita. os praticantes ainda sofreram perseguições e repressões que durariam até 1945. entre outras. a qual funcionava no bairro de Neves. pois este último teria sido um frequentador assíduo dos cultos afro-brasileiros. Tenda Espírita Nossa Sra. Ogum. o orixá sincretizado com São Jorge. Apesar do apoio ao governo. Ressalta-se que tenda. Quando contrariada. De acordo com relatos da época. em um sobrado da Praça XV de Novembro. Pai Jaú. Centro. As sete tendas e seus responsáveis: Tenda Espírita São Pedro . Tenda Espírita Oxalá . Em outubro de 1952. Das sete tendas. sem sede fixa. no Engenho de Dentro). A 26 de agosto de 1939 foi fundada a Federação Espírita de Umbanda sediada à rua São Bento. Praça Mauá. no bairro Rio Comprido.com José Álvares Pessoa (Capitão Pessoa).com João Aguiar. sob a presidência de Eurico Lagden Moerbeck. Posteriormente a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade passou a funcionar na cidade do Rio de Janeiro. Cabana Espírita Senhor do Bonfim (6 de setembro de 1939. Cabana Pai Thomé do Senhor do Bonfim (em setembro de 1941). membro da Tenda Espírita Mirim8 . Centro. Centro Espírita Caminheiros da Verdade (em 4 de março de 1932. Lygia de Moraes Cunha. em Boca do Mato.com João Severino Ramos. Centro Espírita Religioso São João Batista (em setembro de 1941). em Vila Isabel com sessões às segundas-feiras. Presidente Vargas. teve papel preponderante na organização. desde a Praça Onze e Rio Comprido até os subúrbios mais distantes. da Conceição .com Paulo Lavois. Alfredo Antonio Rêgo e o escritor Diamantino Coelho Fernandes. na Praça Mauá. O sincretismo entre brancos. 28. Grupo Espírita Humildes de Jesus (em 12 de dezembro de 1928) e muitos outros. e em 1960. na rua Visconde de Itaboraí. Fundada a 9 de janeiro de 1935. promoveu o Primeiro Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda. Tenda Espírita São Jorge . sem sede fixa. na atual Av. índios e negros formou a Umbanda No período ainda surgiram vários centros como a Tenda Espírita Nossa Senhora do Rosário. A Tenda Espírita São Jorge está sediada à rua Senador Nabuco. Atualmente se localiza na Cabana do Pai Antonio. 298. 45. especialmente nos municípios limítrofes do Rio de Janeiro.Tenda Espírita Nossa Sra. Centro. (em setembro de 1941). 51. Centro Espírita Caridade de Jesus. No encontro foi proposta a desafricanização da Umbanda com o intuito de fuga da repressão policial. na Praça Duque de Caxias. de 19 a 26 de outubro de 1941. 1° andar. em 1932. Como União Espiritualista Umbanda de Jesus (UEUJ). 8. 2567. Fundada a 11 de novembro de 1939. 28 de julho de 1937). 231. O órgão. na rua Dom Gerardo. Tenda Espírita São Jerônimo . Tenda Espírita Fé e Humildade (em setembro de 1941). Já a Tenda Espírita Oxalá se localiza à rua Ambiré Cavalcanti. Fundada a 15 de fevereiro de 1935. distrito de Cachoeiras de Macacu sob a direção da neta de Zélio. ainda em funcionamento no bairro de Todos os Santos). Tenda Espírita Santa Bárbara . edição e . em 1944. Casa de Ogum Timbiri. Foi a primeira das tendas de Zélio de Moraes a promover sessões de exu. na rua Dom Gerardo. 122. Fundada a 18 de janeiro de 1918.com Antônio Eliezer Leal de Souza. apenas duas se encontram em funcionamento até 2012. A comissão foi composta por Jayme Madruga. Cabana Pai Joaquim de Luanda (Méier. em Vila Isabel. Tenda Africana São Sebastião. Tenda Espírita Humildade e Caridade. além da Tenda Mirim. Contava com vários colaboradores.elaboração do livro O Culto de Umbanda em Face da Lei. 101. No território brasileiro existem muitos templos que foram fundados direta ou indiretamente pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. a Tenda Espírita Beneficente Santa Luzia. W. Está situada à rua Comendador João Carneiro de Almeida. em 1942. além do Primado de Umbanda. se transferiu para a avenida Marechal Rondon. ao se criar estatutos e ordenamentos legais para evitar as terríveis perseguições ao culto. A União funciona atualmente à rua Conselheiro Agostinho. grandes trabalhadores da Umbanda Em 1940. Engenho de Dentro. A histórica casa deixou inúmeras filiais. sob a orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas também em São Paulo. criada a 4 de março de 1932. compondo uma doutrinação disciplinar e hierárquica bastante contundente. a Cabana Espírita Senhor do Bonfim. 597. entre outras. homogeneizar as diversas classes participantes e as práticas ritualísticas de maneira simplificada dentro das diretrizes doutrinárias preconizadas nas bases estabelecidas. em São Francisco Xavier. na Tenda Umbandista Oriental (T. se notabilizou como uma das mais influentes no estado. . no qual apresentava os anseios e direitos da comunidade religiosa perante a Constituição e a sociedade brasileira. Já a Casa Espírita Caminheiros da Verdade. fundada em 1924. a partir das sete primeiras. 52. o Comandante Cícero dos Santos e Olívio Novaes. Benjamin Gonçalves Figueiredo. Foi também a responsável pela criação do primeiro periódico sobre o assunto. no estado do Rio de Janeiro. entre os quais. Inicialmente localizada à rua Sotero dos Reis.). em 1947. 133. entregue ao presidente Getúlio Vargas. Espírito Santo. ou enviava representantes à organização e direção das novas tendas umbandistas. pelo médium do Caboclo Mirim. a Escola Iniciática da Corrente Astral do Aumbhandan. por Márcia Justino. da Matta e Silva. Rio Grande do Sul. sob a liderança de Tarcizo Antonio Carneiro de Almeida. Zélio de Moraes se fazia presente. Minas Gerais. Pará. através do irmão Frederico. Pretos-velhos. seu nome foi alterado para União Espiritista de Umbanda do Brasil. o Jornal de Umbanda. Em 1947. A seguir foram criadas diversas tendas umbandistas. para uniformizar o culto umbandista. por Manuel Floriano da Fonseca. o escritor Diamantino Coelho Fernandes. a Umbanda Esotérica. a Cabana de Pai Joaquim de Luanda. Se filiaram. é fundada por W.O. O objetivo principal na época era o de reunir as diversas tendas. no dimensionamento doutrinário da Linha Branca. em Todos os Santos. criado em 1952. e dirigida pelo Comendador João Carneiro de Almeida. Alagoas e Bahia. estabelecer o uso do branco no vestuário. Não raro. incluindo outros que descendem dos originais. na Praça da Bandeira. Foi a primeira entidade federativa do país a congregar os centros já existentes. em Itacuruçá.U. Um caso notório foi o do Tenente Joaquim Bentes Monteiro que solicitou a sua transferência para Belém do Pará a fim de fundar e dirigir a Tenda Santo Expedito. entre outros fenômenos. Os estudiosos brasileiros também começaram a se interessar seriamente pela cultura afro-brasileira. Segundo esse pensamento. ou seja. as religiões afro-brasileiras. O Espiritismo. passaram a se identificar com o termo espírita. a perseguição às pessoas envolvidas se intensificou. Nesse ínterim. Ao optarem por essa denominação. em Casa Grande e Senzala (1933) era um de seus defensores9 . os umbandistas têm freqüentemente uma atitude ambígua em relação às tradições afro-brasileiras. sempre foi evidente uma autonomia dos terreiros no que tange à prática do culto. o que é refletido nas tendências sócio-culturais dominantes na sociedade. era ainda proibido por lei. o termo espírita foi amplamente utilizado como fuga da repressão e ainda para dissociar os praticantes das novas religiões de sua ascendência afro-brasileira. a emergência de movimentos nacionalistas e fascistas. O período de grande nacionalismo foi marcado pelo começo de ideologia da democracia racial. que haviam sido relegadas ao mais baixo status por causa de sua associação com os negros foram então reconhecidas como componentes importantes da cultura nacional. que são freqüentemente antagônicos. usado apenas pelos espíritas kardecistas. em conjunto com o guia-chefe da casa. Portanto. A religião se originou na conjuntura de um período político bastante tumultuado que assistiu. De acordo com Diana Brown. também intitulado diretor espiritual. pai de santo. com a nacionalização e institucionalização da cultura afro-brasileira. os umbandistas. interesses e influências diretas ou indiretas. em que ocorreu também a formação da Umbanda. especialmente o pejorativamente chamado baixo espiritismo representado pelas religiões afro-brasileiras. página 206. Contudo. O dirigente. um gesto que recorda o uso do sincretismo católico nos cultos afro-brasileiros durante o período da escravatura10 . como o carnaval e as escolas de samba. em Umbanda: Religion and Politics in Urban Brazil. líderes e do próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas de codificar. Durante o período da ditadura. dogmatizar e unificar a ritualística da Umbanda. A Umbanda pode ser considerada uma união de diferentes tradições religiosas representadas pelos vários grupos étnicos e sociais existentes no país. Contudo. de Getúlio Vargas. Mas seus efeitos já se faziam sentir no fim dos anos 1920. a qual continuaria profundamente enraizada na realidade social brasileira. com o chamado Estado Novo. Gilberto Freyre. Práticas culturais. de 1994. os praticantes se associaram com o Kardecismo e com o então chamado alto espiritismo. . é o responsável pela própria forma de praticar a Umbanda de acordo com a sua formação. a ditadura aboliu os movimentos negros que lutavam contra a discriminação racial. zelador ou sacerdote. Esse desenrolar político culminou na ditadura de 1937. o igualitarismo racial e seus vários grupos teriam tido igual importância na formação da civilização brasileira. que desde o início era vista de forma exótica e folclórica. Por conseguinte. a repressão era voltada aos praticantes do então baixo espiritismo. se criou uma falsa crença de que o preconceito racial não existia no Brasil.Apesar do esforço inicial e ao longo da história por parte de autores. por questão de sobrevivência. alguns fundadores dos centros originais da Umbanda do Rio de Janeiro. a União Espiritista de Umbanda do Brasil (UEUB). raças e nacionalidades. A legitimação envolveu a desafricanização e o embranquecimento da Umbanda. que se crê geralmente derivado da África. O caboclo. Em 1941.A ideologia da democracia brasileira era legitimada e manifestada por uma hegemonia branca. Declarou-se que Umbanda seria oriundo do sânscrito aum bhanda. termos que foram traduzidos como limitado no ilimitado. No esforço em legitimá-la como uma religião original e evoluída. mas vista como corrupção da tradição religiosa original. Outro jeito de sublinhar o caráter africano da Umbanda foi expresso no reconhecimento de que ela se originou na África. A origem da Umbanda foi então traçada no Oriente de onde. defeitos psicológicos e étnicos13 . No continente africano a Umbanda degenerou em fetichismo. portanto. refletiu na definição do termo Umbanda. na parte mais ocidental e civilizada do continente14 . um continente remoto e perdido. inclusive Zélio de Moraes. somada à negação das africanas. os espíritos considerados fundamentais. A Umbanda. teria se espalhado para a Lemúria. Princípio Divino. uma tentativa de definir e codificar a Umbanda como uma religião com direitos próprios que uniria todas as religiões. A federação foi criada para dogmatizar. Os participantes do congresso se esforçaram em associa-lá às tradições religiosas esotéricas europeias e as novas correntes religiosas da Índia. como os caboclos e o pretos-velhos ainda eram considerados espíritos muito evoluídos. Declarou-se que que existia como uma religião organizada há bilhões de anos. . A influência africana da Umbanda não era negada. Em 1939. defender e organizar a Umbanda como uma religião coerente e hegemônica e assim obter legitimação social. se dizia. os participantes procuraram dissociá-la de suas raízes afro-brasileiras. Os participantes ainda concordaram em utilizar a obra de Allan Kardec como a doutrina operante da Umbanda. na sua fase anterior de evolução. Entretanto. luz radiante. a União promoveu o Primeiro Congresso de Espiritismo da Umbanda. representadas pela Vivekananda. A invenção de raízes orientais. praticada por povos de costumes rudes. na sua forma vulgar dos costumes. teria ficado exposta ao barbarismo africano. e daí para a África. Dessa forma foi trazida para o Brasil pelos escravos negros12 . estabeleceram a primeira federação de Umbanda. mas na África Oriental (Egito). unificar. Os participantes se esforçaram durante o encontro em legitimar a Umbanda como uma religião bastante evoluída. fonte de vida eterna e evolução constante15 . A conferência é ainda conhecida por promover maior dissociação com as religiões afro-brasileiras. entidade presente na Umbanda Um dos objetivos da conferência era o de traçar as raízes genuínas da Umbanda no Oriente. e portanto estaria à frente de outras religiões11 . Nesse contexto houve a primeira tentativa de legitimar a Umbanda como religião. associada ao mal. em entrevista Leal de Souza. O Candomblé. representados pela magia negra. e os da esquerda. foi o porta-voz doutrinário do culto umbandista. a Congregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB). Elas eram positivas e negativas.A influência africana da Umbanda foi reconhecida como um mal necessário que serviu meramente para explicar sua chegada e desenvolvimento no Brasil. insatisfeito. em uma macumba que ele visitava pela primeira vez. maus. que deveria funcionar na capital. considerados pessoas simples e humildes. Umbanda Limpa. J. a entidade vivenciou dificuldades de relacionamento entre elementos da sua administração. conhecido como Capitão Pessoa. era olhado como um estágio anterior da Umbanda. Olívio Novaes. Umbanda Branca e Umbanda de Linha Branca associada à magia branca. A lavagem branca da origem da Umbanda era expressa em termos como Umbanda Pura. centralizado no nordeste do Brasil. a qual existiu até 1967. dirigente da Tenda Espírita São Jerônimo. Após a instauração do Regime Militar no país. os bons. W. vindo a constituir com outros companheiros. Até ali. Tancredo. Alves de Oliveira. a fundação da Umbanda foi decidida em Niterói (estado do Rio) há mais de trinta anos. da Matta e Silva. ele fora um espírita kardecista. Em 1945. liderados pelo tata ti inkice (sacerdote na etnia banto) Tancredo da Silva Pinto. que havia se desenvolvido no sudeste. transcrita na página 439. O Candomblé. Segundo ele. que durante mais de duas décadas. Os negros brasileiros eram aceitos porque afinal tinham alma branca16 . tendo como colaboradores Cavalcanti Bandeira. W. A linha daqueles que se encontram à direita. Em 1950. As únicas instâncias de identificação positiva da influência africana da Umbanda eram os pretosvelhos. desligou-se. As religiões africanas no Brasil. A atitude dos participantes em relação à herança religiosa africana era assim caracterizada pela ambiguidade. a partir de 1964. ainda notabilizado pela barbárie dos rituais africanos. surgiu o Jornal de Umbanda. seu braço-direito. Ademais. em 20 de Janeiro de 1968. assumiu a . Os termos faziam oposição à magia negra. O pai de santo investiu-o dos poderes de presidente da Tenda de São Jerônimo. e lhe disse que importava organizar a Umbanda como religião. era assim associado com a magia negra. fundaram a Confederação Espírita Umbandista do Brasil. mas espíritos muito evoluídos. Em 1947. José Álvares Pessoa. os defensores das práticas africanistas na Umbanda. em 1979. relegados do primeiro congresso e da União Espiritista de Umbanda do Brasil. Já a África era tida como um continente heroico e sofredor. a quem classificavam com a imagem de humilde escrava. do livro de Roger Bastide. Martinho Mendes Ferreira. criou-se uma espécie de divisão de espíritos. entre outros. Após o falecimento de seu presidente e fundador. oscilando da tentativa de dissocia-los das tradições religiosas africanas até sua atitude distintamente paternalista para com a África. obteve junto ao Congresso Nacional a legalização da prática da Umbanda. em 1960. em Minas Gerais. Ele conquistou grande liderança entre os mais humildes. Sebastião Costa e o Tenente Vereda. de Demétrio Domingues. Com o intuito de divulgar os cultos afros. Em 1953. no Rio de Janeiro. Em 1956. de Félix Nascente Pinto. antes de morrer. houve a penetração no Rio Grande do Sul. presidido por Henrique Landi Júnior. Relata Diamantino Fernandes Trindade. a União de Tendas Espíritas de Umbanda do Estado de São Paulo (UTEUESP). como o cavaquinho. organizado pelo General Nelson Braga Moreira. que ainda na década de 1950. em Pampulha. os representantes das duas correntes. a festa de Xangô. e finalmente a festa da fusão do estado do Rio de Janeiro com a Guanabara. além do evento Você sabe o que é Umbanda?. os umbandistas ganharam força e conseguiram eleger vários candidatos em alguns estados. surgiu a FUGABC (Federação Umbandista do Grande ABC). o Primado de Umbanda. fundada por Luis Carlos de Moura Acciolli. realizado no Estádio do Maracanã. dirigida por Ronaldo Linhares. através de uma coluna semana no jornal O Dia. no Rio de Janeiro. Pai Jaú. a Associação Paulista de Umbanda. Tancredo. que chegou a ser eleito deputado estadual. em Inhoaíba. a atual presidente. recomendava uma forma africana para os rituais. na cidade do Rio de Janeiro. realizada no centro da Ponte Rio-Niterói. a qual seria entregue a Fátima Damas. através de Moab Caldas. que participaram do Primeiro Congresso de Umbanda. superaram algumas divergências e formaram uma coligação que reunia as principais federações do Rio de Janeiro. os defensores do africanismo continuariam as suas práticas. na administração de Carlos Lacerda. No mesmo ano aconteceu na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) o Segundo Congresso Brasileiro de Umbanda. Em 1958. ao adicionar elementos. a festa a Yaloxá.instituição. foi registrada em cartório a primeira federação de São Paulo. . Tancredo criou as festas religiosas de Yemanjá. o falecido Átila Nunes. Em 1961. Outras associações foram fundadas. já haviam criado a Liga de São Jerônimo no ano seguinte. sob a direção de Jamil Rachid. Em 1973. fora eleito no Rio de Janeiro. tais quais. e secretariado pelo escritor João de Freitas. É importante frisar que apesar das perseguições policiais. a UTEUESP passou a registrar roças de Candomblé e mudou sua denominação para UUTEUCESP (União de Tendas Espíritas de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo). Cruzandê. Em 1968. conceituado radialista e dono do programa Melodias de terreiro. ocorreu o Primeiro Congresso Umbandista do Estado de São Paulo. a Federação Umbandista do Estado de São Paulo (FUESP). A organização recebeu o nome de Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul e tinha a União Espiritista de Umbanda do Brasil como principal articuladora. e promover rodas de samba para iludir a repressão policial. em 1941. fundada por Costa Moura. Ocorreu ainda uma rápida expansão para o estado de São Paulo. em Pernambuco. eleito pelas comissões organizadoras. Por conseguinte. homenageando a grande yalorixá Mãe Senhora. Tancredo da Silva Pinto esteve presente e chegou a ser um dos presidentes. a festa do PretoVelho. de 2009: o Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul organizou o Segundo Congresso Nacional de Umbanda. aprovada. Cavalcanti Bandeira apresentou a tese. incluindo dessa vez. que em busca de sua cura procurou o auxílio do Caboclo das Sete Encruzilhadas. com a participação de Félix Nascente Pinto. De acordo com o escritor Diamantino Fernandes Trindade. de que o vocábulo Umbanda é oriundo da língua quimbundo e significa "arte de curar". em 1961. Nesse congresso o Hino da Umbanda foi oficialmente adotado em todo o Brasil em caráter oficial. Um dos objetivos desse evento era fazer uma avaliação das mudanças ocorridas no panorama umbandista nos vinte anos que se passaram desde o primeiro evento. Muitos discos são lançados contendo os pontos . Mesmo não obtendo êxito. Algumas discordâncias políticas fizeram com que outras federações se unissem em torno do Tenente Hílton de Paiva Tupinambá. Houvera sido composto por um cego. e fundassem o SOUCESP (Supremo Órgão de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo) que se tornou forte oponente do antecessor. Quando todas já estavam com suas teses elaboradas. Já a melodia foi composta por Dalmo da Trindade Reis17 .Ao assumir a presidência. em seu livro Umbanda Brasileira Um século de história. além de grande público assistente. na qual compareceram cerca de quatro mil médiuns uniformizados. que no Congresso de 1941 situava a palavra tendo origem em antigas civilizações e no sânscrito18 . General Nélson Braga Moreira. Dr. Zélio de Moraes a apreciou tanto que decidiu apresentá-la no Segundo Congresso. Esse evento foi organizado por Leopoldo Bettiol. Na oportunidade se constituiu o SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo). delegado representante da Tenda Mirim. Durante as décadas de 1960 e 1970 a Umbanda atrai olhares curiosos do mundo inteiro e se torna manchete de jornais e revistas. chamado José Manoel Alves. passou a coordenar os trabalhos das comissões e reuniões preliminares em outros estados. Apenas o estado de São Paulo conseguiu criar o então chamado SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo) marcando presença no congresso posterior. Armando Quaresma e Dr. no Rio de Janeiro. ainda na década de 1960. A comissão paulista foi a mais numerosa e representativa. congregando as Federações. Também nesse Congresso foi apresentada uma tese diferente da que havia sido veiculada no primeiro sobre a “Interpretação histórica e etimológica do vocábulo Umbanda”. Estevão Monte Belo. O Congresso ocorreu no Maracanãzinho e milhares de umbandistas estiveram presentes. a festa de congraçamento. Oswaldo Santos Lima e Cavalcanti Bandeira. em 1941. ocorreu no Maracanãzinho. Neste congresso definiu-se a criação do Superior Órgão de Umbanda para cada Estado. tese apresentada por Cavalcanti Bandeira em contraponto a tese de Diamantino Fernandes. escreveu a letra para mostrar que era possível vislumbrar o mundo e a religião à sua maneira. representantes de dez estados e vários políticos municipais e estaduais. em 1976. a 28 de junho de 1961. dentre elas a Associação Paulista de Umbanda e a Federação de Centros Espíritas e de Umbanda do Estado de São Paulo19 . O Rio de Janeiro foi representado pelas mais importantes autoridades da Umbanda. Primado de Umbanda e Federação Nacional das Sociedades Religiosas de Umbanda. os cultos e a legislação oficial. no Grajaú. aspectos administrativos. realizou-se no Rio de Janeiro o Terceiro Congresso Nacional de Umbanda. no decorrer da década de 1980. organização religiosa. A revista citava: os umbandistas desejam consolidar o dia da Umbanda e preservar os rituais comuns e afins. No evento o dia 15 de novembro foi instituído como o "Dia Nacional da Umbanda". Diamantino Fernandes Trindade relata a respeito em sua obra Umbanda Brasileira . no Estádio de São Januário. foi realizado novamente no Rio de Janeiro. por conta da morte de dirigentes e a consequente extinção de várias federações. A 12 de setembro de 1977. a entidade perdeu força e encerrou suas atividades. ambulatórios etc. foi criado o Conselho Nacional Deliberativo de Umbanda (CONDU). o Terceiro Congresso Brasileiro de Umbanda.cantados. práticas e rituais. 69. a fim de evitar as distorções e os abusos que são cometidos em nome da Umbanda. legitimando assim a manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas como fundador da religião e Zélio de Moraes como seu pioneiro. Piauí e Santa Catarina. os temas propostos abordavam: Aspectos doutrinários e filosóficos. cujo exotismo despertava a atenção das pessoas. Seu objetivo que era o de agrupar as federações de Umbanda espalhadas pelo Brasil. temas livres e teses sobre a Umbanda. música dança e cânticos. São Paulo foi representado pelo SOUESP. de 2009: em 1973. simbologia. teologias e crenças. Outros estados representados foram: Paraná. a religião umbandista afirmou-se como uma das que mais crescem no Brasil e uma força significativa no campo das atividades sociais. Chegou a reunir 46 associações. Nessa época. diversos terreiros contavam com escolas. A revista Mundo de Umbanda. Após o Congresso foram fundadas onze novas federações. Contudo. publicada pelo Primado de Umbanda. Segundo a revista. a presidente e fundadora da . Wheatstone Pereira propôs a criação da Cartilha Umbandista e José Maria Bittencourt apresentou um trabalho sobre Casamento e Batismo na Umbanda. no Rio de Janeiro. Rio Grande do Sul. por meio de seu presidente General Nelson Braga Moreira. dois anos após o seu desencarne. O núcleo inicial era composto por cinco grupos: Confederação Nacional Espírita Umbandista dos Cultos Afro-brasileiros. Congregação Espírita Umbandista do Brasil. fazia referências às destemidas atuações de Cavalcanti Bandeira e outros umbandistas para a realização do evento. sob a presidência do General Mauro Porto. órgão nacional inter federativo. estabelecido à rua Sá Viana. de 1973. Sua fase de maior êxito ocorreu no decorrer da década de 1970 quando chegaram a integrar seu quadro o pesquisador e escritor José Beniste. moral e ética religiosas. de 15 a 21 de julho. Manchete e Planeta são publicações que destinam sempre notícias ou estudos sobre a religião. ambos aprovados por unanimidade. proclamando o desejo de congregarem num colegiado nacional os órgãos associativos e federações estaduais. União Espiritista de Umbanda do Brasil. número 1. Nesse evento. iniciação e desenvolvimento. sob o comando de Cavalcanti Bandeira. Depois outras entidades se agregaram. creches.Um século de história. Em 1973. sincretismo religioso. Alegavam que a Umbanda seria uma veneração aos demônios. Rosalvo da Cunha Leal (CNEUCAP – RJ). Marne Franco Rosa (RS). a Igreja Evangélica Pentecostal ganhou muitos seguidores e influência na América Latina. Os pentecostais tentaram converter. Esperança. Lília Ribeiro. e algumas vezes. além de prática de magia negra. que se encontravam em poder de Lília Ribeiro. falecida em abril de 2004. a Umbanda enfrentou forte oposição das igrejas neo-pentecostais. o presidente da Aliança Umbandista do Estado do Rio de Janeiro (ALUERJ). Martinho Mendes Ferreira. a Umbanda ganhou uma decisão contra um canal de televisão patrocinado pelos pentecostais. O Ministério Público declarou ilegal que programas de televisão se referissem às religiões afro-brasileiras de forma derrogatória e discriminatória. o qual enfim os entregou aos cuidados de Fátima Damas. Os arquivos do finado CONDU. Ao iniciar suas atividades nos anos 50. conhecido como Omolubá. causando o desprezo dos que estavam na oposição ao governo. O regime diretamente apoiou a Umbanda para usá-la com o objetivo de manipular as massas. Joaquim Brito de Carvalho (SP). entre os quais. . José Vareda e Silva (SP). Em 2005. Abrumolio Vainer (Círculo Umbandista do Brasil) (SP). Evaldo Pina e ainda membros de fora do estado do Rio de Janeiro. A partir dos anos 1980. foram estipulados em mais ou menos um quarto da população do Brasil. Raymundo Viriato Baptista Rodrigues (AM). o escritor Celso Rosa (Decelso da Congregação Religiosa Umbandista Brasileira. presidente da Congregação Espírita Umbandista do Brasil20 . Floriano Manoel da Fonseca. Carlos Leal Rodrigues (PB). Já a incorporação dos Orixás seria uma forma de possessão demoníaca21 . Loris Lugheri. interessadas em se expandir e abarcar o maior número possível de fiéis. por conta do projeto nacionalista. perseguiram os seguidores da Umbanda e outras religiões afro-brasileiras. passaram às mãos de José Beniste. declarados e não declarados. o campista José Raymundo de Carvalho. Fraternidade (TULEF). no estado de São Paulo. Guiomar Bussili (SP). Começou o período de intensa decadência da religião. Ney Néri dos Santos. Durante a ditadura militar (1964-1985) a Umbanda obteve reconhecimento oficial e legitimação.Tenda de Umbanda Luz. o presidente da Congregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB). Djalma Rodrigues da Rocha (PI) e Flávio Nicolino (SC). Carlos Alberto Dias Bellone (Confederação Umbandista do Paraná). Asy Sgambato (Congregação Religiosa Umbandista Brasileira) (RJ). Por volta de 1974 os praticantes de Umbanda. da Cruzada Federativa de Umbanda de SP. o pai de santo e escritor. primitiva e pagã. Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?. no Rio de Janeiro. Aponta-se essa data como provável causa da escolha. contava com seis terreiros de Umbanda. sua obra Orixás. a Umbanda em especial. Ele insufla seus fiéis a serem preconceituosos e a desrespeitar os umbandistas25 . além de demonizar e reprimir as práticas da referidas religiões.. não respeitando sequer o principio universal de amor e compaixão para com o próximo e a total liberdade de crença23 . um terreiro de Candomblé e um centro espírita. pois ocorreu o aniversario de falecimento da Mãe Gilda de Ogum. mulheres e crianças. Edir Macedo é profícuo na publicação de obras polêmicas. especialmente entre as camadas mais desfavorecidas da população. no ano de 1990. Atualmente a Lei 11. os umbandistas enfrentam grandes preconceitos por parte da sociedade em geral. Em seu livro publicado pela Editora Gráfica Universal Ltda. A Justiça entendeu que o objetivo da obra era de propor uma ação persecutória aos adeptos das religiões de matriz africana. que sofreu um infarto fulminante após ver seu nome e imagem atrelados a uma reportagem do Jornal Folha Universal da Igreja Universal do Reino de Deus em uma matéria intitulada Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes e ter seu terreiro invadido por fiéis neo-pentecostais24 . a grande maioria das pessoas é influenciada pelo senso comum de que a Umbanda é coisa do mal. homens. Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios? foi recolhida por determinação judicial em vários estados brasileiros. a favela Dona Marta. O que chama mais atenção para o conteúdo de tal livro. o que chama mais atenção é a crueldade com a qual o Bispo Edir Macedo descreve a Umbanda. Em meados dos anos 80. A intolerância não perdoa nenhuma faixa etária ou hierarquia religiosa. . intitulado Orixás. atingindo idosos. No que diz respeito aos cultos religiosos de matriz afro-brasileiros. Aponta-se para tal repúdio diversos fatores. porém. Apesar disso ainda é possível encontrar a publicação em várias igrejas neo-pentecostais e na própria sede da IURD26 . Ainda hoje. estabeleceu o dia 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. No final da década de 80.635 referendada em 27 de dezembro de 2007 pelo ministro Gilberto Gil e sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva. as igrejas pentecostais converteram muitos umbandistas. Surgiram no lugar oito igrejas neo-pentecostais22 . distorcida e ofensiva sobre a Umbanda e suas entidades. há uma análise preconceituosa. apesar de existirem leis que reprimem o preconceito e a intolerância religiosa. é a influencia que exercida sobre os seguidores de tal religião.Ainda assim. mãe-de-santo. (Brown 1994: 38-41). pois eram médiuns de caboclos e pretos-velhos. Portanto. os quais acharam muito mais competentes e eficientes que os espíritos kardecistas para o atendimento e cura de doenças. Por seu turno. classe média. Em janeiro de 2013 a ministra Luiza Barros. o que deve predominar é o respeito à pluralidade e as diversas formas de manifestações divinas. de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. entretanto. Como Zélio. o Caboclo das Sete Encruzilhadas. O legado de Zélio de Moraes Zélio de Moraes era branco. nas escolas e em locais públicos como hospitais27 . Ele afirma que. o Caboclo das Sete Encruzilhadas se revelou a ele e lhe disse que ele seria o fundador de uma nova religião. Ambas essas entidades eram frequentemente rejeitadas e tidas como atrasadas pelos kardecistas. contrariando o ritual estabelecido. genuinamente brasileira dedicada a dois espíritos brasileiros: O caboclo e o preto-velho. Eles consideravam o Espiritismo Kardecista inadequado. repeliram outros. fica nítido que o mau exemplo dado por um líder religioso como Edir Macedo só faz aumentar o preconceito contra as religiões de matrizes afro. os sacrifícios de animais. Portanto. Terreiros constantemente são invadidos por fiéis das igrejas neo-pentecostais da Universal do Reino de Deus. Além do mais. ele nunca exerceu sua mediunidade como profissão. Tal preconceito reflete nas ruas. É importante frisar que a Tenda Espírita São Jorge. Em uma sociedade cujo homem desfruta do livre arbítrio. além da conduta frequentemente grosseira e o ambiente social baixo dos centros de Macumba. Se os então kardecistas foram inspirados por certos aspectos da Macumba. Trabalhava . os exus. em 1920. Em meados dos anos 20. o espírito que encarnara como o jesuíta Gabriel Malagrita. Zélio fundou seu primeiro centro de Umbanda e nos anos seguintes vários outros centros de Umbanda foram fundados por iniciativa do seu caboclo que assumira essa denominação porque não haveriam caminhos fechados para mim. tais quais. e anula quaisquer possibilidades de erradicar a intolerância religiosa. considerados espíritos ruins. os rituais da Macumba eram considerados mais emocionantes que as sessões pouco ritualizadas do Espiritismo Kardecista. que comumente era chamado O chefe pelos seus adeptos. os primeiros fundadores de centros de Umbanda eram antigos kardecistas e de classe média branca. ao contrário das demais fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. adquiriram gosto pelos espíritos africanos e indígenas da Macumba. sempre realizou sessões de exu. declarou que os evangélicos estão mais intolerantes e desejam acabar com as religiões de matriz africana28 .Sendo assim. nunca permitiu que seu médium recebesse qualquer tipo de recompensa pelos trabalhos prestados. Episódios tristes diariamente chamam nossa atenção no que concerne ao preconceito que os adeptos das religiões afros sentem. e filho de um espírita kardecista. que dizia que a Umbanda é a manifestação do Espírito para a caridade. Aceitem meu voto de paz. Nesse recanto. Em 1967. na Cabana de Pai Antonio. para que os necessitados possam encontrar socorro nas nossas casas de caridade. em Cachoeiras de Macacu. Nunca recebi um centavo pelas curas praticadas pelos guias. falecida em 1981. gravou a última mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas que na íntegra diz o seguinte: Meus irmãos: sejam humildes. ao lado de sua esposa Dona Isabel. Segundo suas filhas Zélia e Zilméia. São eles: . entregou a direção dos trabalhos às filhas Zélia e Zilméia. privilegiado da natureza. Depois de 66 anos de mediunidade. tendo podido dizer de cabeça erguida: O Caboclo das Sete Encruzilhadas nunca determinou o sacrifício de aves e animais. presidente da Federação Umbandista do Grande ABC.para sustentar a família e muitas vezes para manter as tendas fundadas pelo chefe. saúde e felicidade com humildade. quer para fortificar a minha mediunidade. Não raro. Tragam amor no coração para que vossa mediunidade possa receber espíritos superiores.. continuou a atender os necessitados do corpo e da alma. Existem alguns conceitos básicos que são encontrados na maioria das casas e assim podem. O Caboclo abominava a retribuição monetária ao trabalho mediúnico. passando a viver no distrito de Boca do Mato. ficava sem dinheiro para dar às pessoas que batiam à sua porta. Fundamentos Os fundamentos da Umbanda variam conforme a vertente que a pratique. médium do Caboclo Roxo. serem generalizados. que retribuiu uma cura (e foram aos milhares) com dinheiro. muitas vezes elas precisaram acolher desabrigados e doentes que seu pai trazia para casa e que de lá só saíam quando estavam curados. sempre afinados com as virtudes que Jesus pregou na Terra. a 160 km do Rio de Janeiro. com certa ressalva e cuidado. Não há ninguém que possa dizer. no decorrer destes 66 anos. quer para homenagear entidades. Zélio faleceu no sábado. Ronaldo Linhares. amor e carinho. 3 de setembro de 1975.. após 59 anos de atividade junto a Tenda Nossa Senhora da Piedade. dependendo da vertente da casa. quando incorporadas. também chamados de "cavalos". Magia com foco no bem estar do ser humano. caboclos. Algumas das entidades. boiadeiros etc. para caboclos. arcos. mas são todos o mesmo Deus. A manifestação dos guias para exercer o trabalho espiritual incorporado em seus médiuns ou "aparelhos".. podendo sim o templo receber as contribuições para o andamento e manutenção. Serviço social constante nos centros. O mediunismo como forma de contato entre o mundo físico e o espiritual. O culto aos orixás como manifestações divinas. Ritual variando pela origem. brancas. O compromisso com "a manifestação do espírito para a caridade". A desafricanização da Umbanda Exu João Caveira . A crença na imortalidade da alma. um Deus supremo. consagra e casa. machados. como por exemplo Tupã. uma regra. A crença na reencarnação e nas leis cármicas. ou ainda pedras. espiritismo. uma conduta moral e espiritual que é seguida em cada casa de forma variada e diferenciada. Exemplos: imagens de santos católicas. africanos. baianos. marinheiros. Bases: africanismo. Congá ou Peji com imagens ou elementos que simbolizem as divindades cultuadas pelo Templo.29 O que significa que a ajuda ao próximo não ser retribuída em dinheiro ou valor de qualquer espécie para o médium. pode receber os nomes Zambi. catolicismo. Altar. entre outros. Vale ressaltar que o surgimento da Umbanda por meio do Zélio é apenas mais uma vertente da possibilidade do surgimento dessa grandiosa e diversificada religião. pretos-velhos. Sacrifício de animais em determinados rituais. amerindismo. Uma doutrina. Vestes. mas que existe para nortear os trabalhos de cada terreiro.A existência de uma fonte criadora universal. em geral. Batiza. madeiras. podem nomeá-lo de outra forma. manifestado de diferentes formas. Olorum ou Oxalá. etc. Os exus. freqüentemente denominado Quimbanda. estão os fundadores espirituais da Umbanda: os caboclos e pretos-velhos. e o mundo inferior ou submundo. que freqüentemente corresponde a um santo católico. malandros e ladrões. Eram vistos como maus por conta da falta de evolução espiritual. tais quais. O exu foi elevado à categoria de importante trabalhador da Umbanda. no qual todas em as cerimônias estão concentrados e são incorporados pelos filhos de santo. seriam os responsáveis. seriam os agentes do mal. Os especialistas. eles permanecem na esfera astral. O caboclo é geralmente descrito como o representante de um indígena inculto. raramente são incorporados pelos médiuns a não ser na forma de falangeiros ou mensageiros. A Terra constitui a plataforma para espíritos que experienciam sua encarnação humana em diferentes níveis de evolução espiritual. existe uma tradição oral e escrita referente às figuras do caboclo e do preto-velho. Já o pretovelho é o representante do escravo africano. que focalizam a desafricanização da Umbanda. sendo substituído pelo elemento nacional. Tem sido enfatizado que apesar das diferenças. O mundo astral é um lar hierárquico. Ela é visitada por espíritos do mundo astral. Brasil. na qual os verdadeiros espíritos inferiores. Na Umbanda os orixás afro-brasileiros foram marginalizados e tem menos importância que no Candomblé. não só pela proteção e vigília do terreiro. Tais espíritos podiam subir à Terra para causar danos que tinham de ser desfeitos pelos espíritos mais evoluídos do astral. De acordo com essa visão seria habitado por espíritos que viveram sua encarnação com caráter extremamente duvidoso. No entanto. como os incumbidos de afastar os maus espíritos dos consulentes. O mundo astral é presidido por Deus. além de partilhar a experiência histórica comum de terem sido escravizados. foi anos ligado à magia negra. em algumas casas os caboclos e pretos-velhos têm tomado na Umbanda a posição que os orixás tradicionalmente ocupam no Candomblé. tem procurado mostrar como a África e as tradições religiosas afro-brasileiras são reinterpretadas na sua cosmologia. Nas cerimônias da Umbanda. Representava uma anti-estrutura da Umbanda. diferenciando-se da Kiumbanda. a terra. Porém. onde cada figura religiosa é colocada segundo o seu nível de evolução espiritual. África. os orixás normalmente são periféricos. Desde o século XIX. Nos níveis mais baixos. O submundo. prostitutas. Cada uma é guiada por um orixá.A cosmologia da Umbanda é dividida em três níveis: o mundo astral. portanto. Devido à sua posição elevada na hierarquia. A substituição dos orixás orgulhosos e livres pelos pretosvelhos e escravos também tem sido concebida como um símbolo da transformação da África. selvagem e orgulhoso que se tornou símbolo da antiga idade do ouro do Brasil. E a Quimbanda como parte da Umbanda. que são incorporados pelos médiuns nos centros de Umbanda para ajudar os mais necessitados. e é seguido por várias linhas. A substituição dos orixás pelos pretos-velhos é interpretada como uma expressão do estrangeiro. Essa substituição tem sido vista como . os kiumbas. ambos são marcados pelo processo de aculturação e civilização. de ter sido livre na África e se tornado escravo no Brasil. Sobre os orixás é considerado que são manifestações do Grande Deus. Normalmente os orixás cultuados são Oxalá. Nanã. por exemplo. e se tornaria o legislador da Quimbanda. e Iemanjá. Ocorre associação semelhante com Ossain e Oxóssi no que tange à irradiação do reino vegetal. Outra reinterpretação umbandista já ultrapassada inseria exu na ordem evolucionista de precedência conforme o modelo kardecista. Omolu. raramente são incorporados pelos médiuns a não ser na forma de falangeiros ou mensageiros. Iemanjá. O brincalhão exu. Culto aos orixás Na Umbanda os orixás não incorporam. Exu foi associado com o demônio antes da fundação da Umbanda. essa figura maligna foi complementada. . Oxum. As emanações da água. entretanto. Oxóssi. Nessa religião. apesar do rito de passagem do batismo. Era relegado a um espírito menos evoluído que precisava evoluir para se tornar um espírito bom. do perigo e da imoralidade. Orixá é um termo yorubano que designa um ser sobre-humano ou um deus30 . Todo o universo surge de Olorum através das radiações que são individualizadas e personificadas em orixás. os primeiros umbandistas associaram exu com africanos e escravos rebeldes. Por causa dessas peculiaridades. domesticação e embranquecimento da identidade africana na sua transformação em identidade afro-brasileira e nacionalidade brasileira (Brown 1994: 37-38). do perigo e da imoralidade (Ortiz 1991: 137-144). Porém. que entre outras coisas representa o mensageiro dos orixás no Candomblé. Exu era considerado o representante do demônio. que se submeteu à doutrinação e encontrou o caminho certo da escalada da evolução. do submundo. pântano. podem ser subdivididas em Oxum. Novamente este batismo do Exu pagão tem sido interpretado como uma expressão e aculturação e domesticação do mal. Alguns umbandistas ainda distinguem o exu pagão e o batizado. são periféricos. que define a distinção que é certamente novo. é outra figura africana e afro-brasileira que foi reinterpretada e marginalizada inicialmente na Umbanda. Exu foi portanto segregado da Umbanda.uma instância de sua aculturação. Olorum. criador de tudo. Xangô. A mudança sobre a figura de exu sofreria mudanças positivas com o passar das décadas. em algumas casas os caboclos e pretos-velhos têm tomado na Umbanda a posição que os orixás tradicionalmente ocupam no Candomblé. eles permanecem na esfera astral. mar. água doce. Portanto. Esta distinção reflete algo do caráter original ambivalente de exu. No entanto. Nanã Buruquê. cada orixá é considerado uma manifestação antropomorfizada dos elementos da natureza. Ogum e Iansã. devido à sua posição elevada na hierarquia. de tal modo que não há uma unidade de entendimento. Seu principal lema é dar de graça o que de graça receber com amor. A tribo tinha no orixá um símbolo da união. às quais abrangem reinos e falanges. caridade e fé. na Umbanda. se entrelaçam nas linhas de cultivo. à natureza e a Deus. A Umbanda prega a existência pacífica e o respeito ao ser humano. reencarnação. o que permite uma ampla liberdade de manifestação da crença e diversas formas válidas de culto. mesmo que esteja em desacordo com os demais. que apresentam muita controvérsia em suas denominações e divisões. que trouxe o cristianismo e seus santos que foram sincretizados pelos negros Africanos). pois cada praticante procura explicar a seu modo e defender o seu ponto de vista. distribuídas em Sete Linhas encimadas pela Linha de Oxalá. Nessa visão. progresso espiritual). pela sua vibração. Em decorrência de suas raízes. dentro de sua linha em um mensageiro ou falangeiro que se manifesta nos terreiros de Umbanda. Respeitando todas as manifestações de fé. lei do carma. humildade. católicos (o europeu.Por ocasião do tráfico negreiro e comércio de escravos no Brasil. compreende a diversidade e valoriza as diferenças. mas não necessariamente. Mais complexas se tornam as divisões em reinos e falanges. os diversas orixás de tribos distantes se encontraram em terras brasileiras e formaram o grande panteão do Candomblé. Geralmente era o próprio fundador da tribo e deixava grande influência por suas características incomuns de liderança. ainda própria dos ritos tribais. O orixá. o orixá era um ancestral que os integrantes tribais localmente tinham em comum. Portanto. tem um caráter eminentemente pluralista. sendo geralmente. poderes espirituais e habilidades. negros de tribos diferentes foram misturados. influi na sua falange. independentes da religião. Espiritismo (fundamentos espíritas. pois todos eram filhos diretamente desse grande ancestral. Os orixás. indígenas (culto aos antepassados e elementos da natureza). Não há dogmas ou liturgia universalmente adotadas entre os praticantes. . Sincretismo A Umbanda é uma junção de elementos africanos (orixás e culto aos antepassados). São Paulo.Jesus Cristo. Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora da Conceição . Omolu .São Jorge. Xangô . mais correntemente chamado de sacerdote umbandista. O culto umbandista A Umbanda tem como lugar religioso o templo.Há discordâncias sobre as cores votivas de cada orixá conforme a região do Brasil e a tradição seguida por seus seguidores. principalmente no centro-sul do Brasil e Santo Antonio.Nossa Senhora de Aparecida e em alguns lugares Nossa Senhora da Conceição. o local no qual os umbandistas se encontram em sessões. Zambi ou Olorum .Nossa Senhora dos Navegantes. no Rio Grande do Sul. sincretizado com o orixá Ogum Exu . e São Jorge. São quem coordenam as giras e que irão incorporar o guia-chefe. Iemanjá . tenda ou terreiro.Santa Bárbara. principalmente no centro-sul do Brasil.Santo Antonio. São João Batista e São Miguel Arcanjo. Nanã . giras ou cultos para promover atendimentos espirituais por meio da incorporação dos seus guias e entidades. na Bahia. O chefe é o pai ou mãe de santo.Deus. . no Rio de Janeiro. Oxalá . São os médiuns mais experientes e com maior conhecimento. Oxóssi . Normalmente o sincretismo religioso de orixá e santo católico é feito da forma abaixo.Sant'Anna. Da mesma forma quanto ao santo sincretizado a cada orixá. normalmente fundadores do templo. que comandará a espiritualidade e a materialidade durante os trabalhos. Ogum . centro. Ibeji .São Roque e São Lázaro. Iansã .São Sebastião. Alguns exemplos: São Jorge. chamado de Bará.São Jerônimo. na Bahia. Oxum .Cosme e Damião. baianos. As sessões de Umbanda O culto nos terreiros geralmente é dividido em sessões de desenvolvimento e de consulta e são subdivididas em giras. crianças. mineiros e ciganos. Há também os ogãs que transmitem a vibração da espiritualidade superior por via do som dos atabaques e das curimbas ou pontos cantados. boiadeiros. pela vidência (ver). criando um campo energético favorável à atração de determinados espíritos.Como uma religião espiritualista. Portanto. Normalmente há os médiuns de incorporação. orientais. deve se preparar através do estudo. seja pela mecânica da incorporação. as entidades que são incorporadas pelos médiuns são os guias: pretos-velhos. pela audiência (ouvir) ou pela psicografia (escrever movido pela influência de espíritos). de acordo com o tipo de mediunidade. Embora caiba ao sacerdote ou à sacerdotisa responsável o comando vibratório do rito. Na umbanda existem várias classes de médiuns. De forma geral. para . pombagiras e malandros (no caso específico do Rio de Janeiro). tem a capacidade de se comunicar com entidades desencarnadas ou espíritos. segundo a doutrina espírita. A Umbanda crê que o médium tem o compromisso de servir como um instrumento de guias ou entidades espirituais superiores. sendo muitas vezes responsáveis pela harmonia da gira. a ligação entre os encarnados e os desencarnados se faz por meio dos médiuns. provisionando todo o material necessário para a realização dos trabalhos. marinheiros. grande importância é dada à cooperação e ao trabalho coletivo de toda a corrente mediúnica. Nas sessões de Quimbanda: exus. caboclos. Há os cambonos que são os que comandam os cânticos e as cambonas que são encarregadas de atender às entidades. Médiuns Médium é toda pessoa que. que irão "emprestar" seus corpos para os guias. O médium deve fazer uso. podendo estar os pés descalços. Há vertentes que optam pelas cores do orixá homenageado ou guia. mas no decorrer do tempo houve uma proliferação de obras sobre várias vertentes de Umbanda. Por isso. Em alguns terreiros são permitidos determinados . a caridade em seu coração. mas como uma oportunidade valiosa para praticar o bem e a caridade. As listas de discussão e rede sociais da internet também têm contribuindo para a divulgação mais coesa da diversidade e da pluralidade existentes na religião. sempre prezando sua elevação moral e espiritual. Paramentos Na Umbanda os médiuns usam normalmente como paramentos apenas roupas brancas. e saber que a Umbanda deve ser vivenciada no dia a dia. estar pontualmente no terreiro com sua roupa sempre limpa e recorrer ao chefe espiritual do terreiro quando tiver alguma dúvida ou problema espiritual ou material. atrairá forças negativas. atributos comumente aludidos ao culto. dos banhos de descarga adequados aos seus orixás e guias. Trata-se de um dom concedido que na realidade não lhe pertence para fins de resgate cármico e expiação de faltas pregressas antes de sua reencarnação. do respeito aos guias e orixás. O médium deve conceber sua mediunidade como um meio de caridade e de amor ao próximo. Por isso. É possível que em determinadas casas uma preta-velha solicite uma saia ou um lenço para amarrar os cabelos. o que representa a simplicidade e a humildade. obsessores ou espíritos não evoluídos que vagam pelo mundo espiritual na busca de encarnados desequilibrados que estejam na sua faixa vibracional. além da assiduidade e compromisso com sua casa. sempre que necessário. Uma das regras básicas da Umbanda é que a mediunidade não deve ser algo que envaideça o seu médium. o desenvolvimento da mediunidade é um processo que deve ser encarado de forma séria e vivenciado através de um profundo estudo da religião através de seus conceitos morais e éticos. nenhum tipo de mediunidade deve ser encarado como fardo ou como meio de ganhar dinheiro.desenvolver a sua mediunidade. amor e fé em sua mente e espírito. a aprendizagem conceitual e prática do bem. Ter um comportamento moral e profissional dignos e ser honesto e íntegro em suas atitudes é uma obrigação. Uma grande parte dos centros ainda utiliza as obras espíritas codificadas por Allan Kardec. Caso contrário. Existem médiuns que se perdem no caminho da vaidade e do deslumbramento passando a agir de forma leviana. não apenas no terreiro. ou vista uma roupa diferente da habitual. Alguns terreiros concebem a ideia de que nas giras de exu as roupas podem ser pretas e vermelhas. machadinhas de pedra ou chocalhos. O ritual é variável de acordo com a orientação espiritual da casa e de seu sacerdote.apetrechos para os guias. Os caboclos costumam utilizar cocares. .
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