Uma Questão de Terminologia Gramatical - A Classificacao Dos Morfemas

March 26, 2018 | Author: lewry | Category: Word, Pronoun, Linguistic Morphology, Syntactic Relationships, Morphology


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UMA QUESTÃO DE TERMINOLOGIA GRAMATICALA CLASSIFICAÇÃO DOS MORFEMAS Ana Paula Araujo Silva (UERJ) Uma das características da linguagem humana é o que Martinet (1974: 11), lingüista francês, chamou de dupla articulação: A linguagem humana é não somente articulada, mas duplamente articulada em dois planos, aquele em que, para usar os termos do falar cotidiano, os enunciados se articulam em palavras, e aquele em que as palavras se articulam em sons. A primeira articulação tem como constituintes mínimos, segundo Martinet, unidades significativas, denominadas monemas: “monema é o menor segmento de discurso ao qual se pode atribuir um sentido” (MARTINET, 1974: 13). A segunda, unidades distintivas (os fonemas). O lingüista francês reservou a denominação de morfemas para as unidades mínimas significativas gramaticais. As lexicais foram designadas lexemas. A nomenclatura das formas mínimas varia entre os autores. Pottier (1968: 53-4) usa o termo morfema como genérico; mantém a designação de lexemas, mas chama de gramemas os morfemas gramaticais. O lingüista brasileiro Câmara Jr. (1977: 91-3) adota a de Vendryes (1978: 91-2), que chama de semantemas as formas mínimas de valor lexical e de morfemas as de valor gramatical. Será, aqui, adotada a terminologia dos autores norte-americanos, que parece estar mais próxima dos hábitos didáticos brasileiros: morfema (termo geral), morfema lexical e morfema gramatical (cf. AZEREDO, 2002: 69-71; SILVA & KOCH, 1997:12). É comum o valor significativo dos morfemas, tanto lexicais quanto gramaticais, ser enfatizado. Câmara Jr. (2002: 218) afirma que os primeiros apresentam uma significação externa e os últimos, uma significação interna: Ao lado da significação dos semantemas, dita significação externa, há para considerar a significação interna, ou gramatical, que se refere aos morfemas e pode ser categórica (indicativa de uma categoria gramatical) ou relacional (quanto à função do morfema como conectivo). Coseriu (1978) define cinco tipos de significado – léxico, categorial, instrumental, estrutural e ôntico. O significado léxico é o correspondente, como a própria denominação evidencia, aos morfemas lexicais: O significado léxico, que corresponde ao quê da apreensão do mundo extralingüístico; por exemplo, o significado que é comum a todas as palavras de cada uma das séries: quente – calor – esquentar, rico – riqueza – enriquecer, branco – brancura – branquear – *brancamente, e que, ao mesmo tempo, diferencia cada uma destas séries, como um todo, de outras séries do mesmo tipo. [1] Já o significado dos morfemas gramaticais é denominado instrumental pelo autor: O significado instrumental, ou seja, o significado dos morfemas, e, este, independentemente de serem palavras ou não; assim, por exemplo, o em o homem, tem o significado «atualizador», e –s, em mesa-s, tem o significado «pluralizador».[2] cit. a comparação de falamos. Após essas considerações. Câmara Jr. preferindo a de “unidade gramatical mínima”. concluímos que –mos é que é o morfema da 1 a pessoa do plural.. em falamos.). ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS PARA A ANÁLISE MÓRFICA O método utilizado na análise mórfica (depreensão dos morfemas) é a comutação.. respectivamente. em princípio – mas não obrigatoriamente –. Assim. com morfemas -va. entretanto. faláramos. (1996: 72-3) exemplifica a comutação com o vocábulo falamos: A primeira comutação que ocorre é um zero (Æ).. Comparemos.e -ra-. indica um presente e um pretérito com morfema zero e dois outros pretéritos. em que se concentra a significação específica do ato que o verbo expressa: fal-.. O que Câmara Jr. de morfemas -re.) a análise formal da palavra pode dar também como resultado unidades gramaticais mínimas carentes de significado.. (op.) de significado instrumental parece ser. cit. Ao dizer cantávamos. falaremos e falaríamos. podemos afirmar que o morfema é a unidade mínima da língua que possui..(tônico) e -ria. relevantes em sua estrutura ou constituição morfológica. necessariamente. a primeira é semanticamente vazia enquanto a segunda expressa dúvida. mas sem ser. significativa ou distintiva: (. as conjunções integrantes que e se (morfemas gramaticais). que não pode ser decomposta em outras. na verdade. é preciso reconhecer que nem sempre o morfema é uma entidade de dupla face. que consiste na substituição de elementos a partir da qual resulta um novo vocábulo. por exemplo. A afirmação de que os morfemas são sempre significativos pode ser questionada se relacionarmos o significado ao conteúdo que o emissor acredita estar vinculando. Ambas têm a mesma função. ou 4a pessoa gramatical. critica a definição do morfema como “unidade significativa mínima”. ou da de gritamos (morfema lexical grit-) (. comum a todas as formas de cada um dos verbos. todavia. Por outro lado. significante e significado.[3] O autor espanhol cita as vogais temáticas e os interfixos como exemplos de unidades carentes de significado. Há morfema sem significante (morfema zero) e morfema sem significado. a vogal temática verbal é um morfema sem significado. Logo. referente a uma atividade vocal distinta da de cantamos (morfema lexical cant-). cit. (. por exemplo. e ao que o receptor entende. não faz parte do projeto de discurso comunicar que cantar é um verbo da primeira conjugação.(com tonicidade no /i/). é o morfema lexical. como falávamos. respectivamente. e com dois futuros. que nos dá o vocábulo fala. a função dos morfemas gramaticais.) O primeiro elemento indivisível. ou seja. . Como passa então a se tratar de outra pessoa gramatical (a 3 a pessoa do singular).).) chama de significação interna e Coseriu (op. como frisa Pena (op. O que quer dizer que a definição do morfema como ‘signo mínimo’ ou ‘unidade significativa mínima’ resulta inadequada por ser demasiado restritiva e não poder assim caracterizar a totalidade das unidades obtidas na análise formal da palavra.Pena (2000). 26-7). não haverá. na maioria das vezes. *grit/i/r). Kehdi (op. visto que da troca de uma vogal temática nominal ou verbal por outra resulta. têm-se -ra. a um morfema. Em ônibus. uma forma inexistente (mes/a. cit. é apenas uma seqüência de fonemas. CUMULAÇÃO Entende-se por morfema cumulativo aquele que traz em si mais de uma noção gramatical. por exemplo. por exemplo. Para se estabelecer a forma básica. é necessário utilizar o segundo critério.traz a noção de modo (indicativo). visto que ambos ocorrem com a mesma freqüência (três vezes). Assim. o primeiro é uma entidade abstrata e o segundo.quanto i.indicam negação. Todavia.+ presente) e onívoro (oni. os morfemas modo-temporais apresentam. utilizam-se dois critérios (KEHDI. *mes/e.. mas em nada se relaciona com ônibus. há.É necessário associar à comutação o critério semântico para.e r-). tempo (pretérito) e ainda aspecto (imperfeito ou inconcluso). sua concretização. Em infeliz e imutável. uma vez que ônibus é uma palavra simples.é um morfema lexical. m.e -re-). as desinências modo-temporal e número-pessoal são morfemas cumulativos. *mes/o. para maior simplicidade na descrição.+ -bus. verificar se um segmento fônico corresponde.será considerada a forma básica. conforme explica Câmara Jr. (1977: 95). onipresente (oni. como i. op. e as demais. a primeira deve ser considerada a forma básica. alomorfes. Podemos citar as vogais temáticas como exemplo. No último caso. Voltando ao exemplo acima. tanto in. aqui. SILVA & KOCH. grit/a/r. cit.+ potente). Já o morfema -mos indica o número (plural) e a pessoa (primeira). ALOMORFIA Alomorfia é a variação de um morfema sem mudança no seu significado. . o morfema -va. Vejamos ainda a diferença entre morfema e morfe.+ ciente). p. Em onipotente (oni.como variante.como forma básica e -re. onisciente (oni. p. estatisticamente. 2002: 20-1): o estatístico (qual das variantes é a mais freqüente) e o da regularidade (caso os alomorfes apresentem a mesma freqüência). Como. sendo considerada a forma básica o morfema.. *grit/e/r. no entanto. O vocábulo bus[4] até existe em português. havendo uma forma isolada e outra que só ocorra junto a um novo elemento. Cita o autor chapéu e chapel. a forma básica em –a e a variante em -e. A homonímia pode abranger todos os morfemas de uma palavra como em canto (“ângulo”) e canto (“ato de cantar”). por exemplo. No caso dos morfemas de modo e tempo no futuro do presente do indicativo (-ra. ‘aprecio o canto de Gigli’)”. realmente. Em português. por exemplo. um morfema de negação que se realiza através dos morfes in.só ocorre diante de determinadas consoantes (l-. in. na verdade. oni. ‘a cadeira estava num canto’. retomando os exemplos infeliz e imutável.ou i-. O critério semântico é importante também para o reconhecimento da homonímia em pares como caso – casa.(em chapelaria e chapeleiro) como exemplos. no português.+ -voro). Para alguns autores (cf. “é o contexto ou a situação que identifica a forma (cf. No estágio atual da língua não há como pensar em uma divisão ôni. Em cantávamos. É preciso ressaltar que há morfemas que não podem ser depreendidos diretamente pelo método da comutação. rigor na distinção entre os termos morfema e morfe. 22) mostra ainda que. ocorre a neutralização. A neutralização. A diferença entre os dois fenômenos está no fato de o primeiro ocorrer em qualquer contexto e o segundo.. O sincretismo. há sincretismo. No entanto. em outras seções do mesmo paradigma ou em outros paradigmas análogos. por isso. Câmara Jr. ao analisarmos diversas formas verbais. em determinado contexto. Bechara (2001: 345). O mesmo ocorre com o tempo. por exemplo. Já em teme e parte. Na 3ª pessoa do plural. venderam. uma vez que não ocorre suspensão da oposição entre pretérito perfeito e mais-que-perfeito em contexto algum: Não se há de confundir neutralização e sincretismo.. não há forma verbal em que o número seja indicado por um morfema e a pessoa por outro. apenas no plano formal. entre o pretérito perfeito e o mais-que-perfeito (falaram..SUPERPOSIÇÃO Nem sempre os autores distinguem a cumulação da superposição. em falaram como forma da 3ª pessoa do plural do pret. (. NEUTRALIZAÇÃO Há neutralização quando a oposição distintiva entre dois morfemas deixa de existir pelo aparecimento de um morfema único. modo e aspecto são sempre representadas por uma única forma. em formas como cantaste e cantastes os morfemas número-pessoais -ste e -stes marcam também tempo. . oposição recuperada na forma de 3ª pessoa do singular (falou/falara) e ainda pelo contexto. percebemos que as noções de número e pessoa bem como as de tempo.). se manifesta também materialmente (. (1996: 74) cita dois exemplos de sua ocorrência no plano mórfico. mais-que-perfeito do indicativo [grifo nosso]. perf. e não neutralização. a indistinção entre a 2ª e a 3ª conjugação é conseqüência de uma neutralização fonológica. apenas em determinados contextos. partiram). de uma oposição funcional que existe na língua em um dos seus dois planos: o da expressão ou do conteúdo. o modo e o aspecto. é a suspensão. discorda que o primeiro exemplo citado seja um caso da neutralização.) haverá sincretismo. de uma distinção de conteúdo que. O autor propõe duas maneiras de resolver a ambigüidade causada pela neutralização mórfica: o paradigma (falou x falaram / falara x falaram) e o contexto da comunicação (os pretéritos perfeito e mais-que-perfeito são empregados em diferentes tipos de frase). ou seja. e do pret. Para o autor. aspecto e modo (pretérito perfeito do indicativo) e são. no entanto. Assim. numa seção de um paradigma ou em um paradigma. é a ausência de manifestação material.. considerados morfemas superpostos. por seu turno. em classificatórios. servem à gramática da língua e pertencem a uma lista fechada. que reaparece no plural (mares = *mare + s). temáticas[5]. e ainda outros que se referem à raiz como o radical primário de uma palavra. Para alguns autores o morfema -o de menino e de gato é uma vogal temática. é marca nítida de gênero.TIPOS DE MORFEMAS Os morfemas podem ser divididos em lexicais e gramaticais. Muitos autores. uma vez que. denominados Subdividem-se em nominais (-a. à 3a. outros que empregam o primeiro no sentido diacrônico e o último no sincrônico. op. só sendo criados ao longo de muito tempo. -e.. enquanto aquelas não desempenham essa função tão claramente. Há alguns autores que os tomam como sinônimos.e -mos). Cada um dos morfemas classificatórios verbais agrupa os verbos em uma determinada conjugação verbal. vogais relacionais. SILVA. Os últimos. Assim. Ambos constam na NGB. pois podem ser criados a qualquer momento. por exemplo. cit. 2004: 47-63). por outro lado. não pode ser um obstáculo para a inclusão das vogais temáticas entre os morfemas. Os substantivos terminados em vogal tônica (como café. mais coerente considerar -es um alomorfe da desinência de número -s e mar uma forma atemática. e partir. conforme já abordado no início deste artigo. geralmente. Que diferenças flexionais há entre os nomes terminados em -o. Os primeiros apresentam o significado básico da palavra. p. o segmento “irredutível a que se chega dentro da língua portuguesa e comum a todas as palavras de uma mesma família” (BECHARA. Há discordância quanto à classificação do morfema átono final de nomes masculinos que apresentam um par opositivo como menino (x menina) e gato (x gata). Além disso. -o[6]) e verbais (-a. Os morfemas classificatórios são. É importante contrastarmos os termos raiz e radical. vender. nela. ou seja. Em cantávamos. -va. há um morfema lexical (cant-) e três morfemas gramaticais (-a-. conforme abordado anteriormente. nem sempre o morfema é uma entidade de dupla face. Esse fato. Há de se admitir neste caso. -e. assim como o morfema -a do feminino (cf. cantar pertence à 1a conjugação. obviamente. 341). não há temas teóricos que não existem como palavras. O morfema lexical corresponde ao radical de uma palavra. esta opção sincrônica de análise evita abstrações. Os morfemas gramaticais podem ser subdivididos categóricos e derivacionais. à 2a. saci e bambu) são considerados atemáticos[7]. preferem postular uma vogal temática teórica (*-e). no entanto. de acordo com sua função. -a e -e? . -i). Parece-nos. todavia. Como as vogais temáticas não acrescentam nenhum significado ao vocábulo. Os terminados em consoante também podem ser assim considerados. percebemos que estas dividem os verbos em grupos que se flexionam de maneira distinta. sincronicamente. um alomorfe -es da desinência de plural -s. não há acordo entre os lingüistas a respeito de sua inclusão entre os morfemas. Ao compararmos as vogais temáticas nominais e verbais. representam elementos externos à língua e pertencem a uma lista aberta. para outros. O autor conclui que os substantivos terminados em -o são. p. a denominação de “atualizadores léxicos”. Os sintagmas formados pelas preposições substituem ora os sintagmas adjetivais (líquido sem cor / líquido incolor) ora os adverbiais (agiu com prudência / agiu prudentemente). / Todos sabem o preço da casa. conjunções adverbiais e integrantes e pronomes relativos. São chamados também de morfemas flexionais e servem para indicar as categorias gramaticais próprias dos nomes (gênero[10] e número) e verbos (modo. considera preposições. / Vi sua chegada. sufixos. As introduzidas por conjunções adverbiais formam sintagmas adverbiais (Ele saiu quando ela ligou). acrobata. p. verbos auxiliares e pronomes relativos. vigia. como principal motivo para as vogais temáticas nominais serem reconhecidas. instrumentos da transposição. masculinos.). No artigo "Atualizadores léxicos". cit. podem alguns. entre outros) em -a. Já os pronomes relativos iniciam orações que funcionam como sintagmas adjetivais (Não comprei a roupa que vi na loja. pronomes indefinidos[9] e desinências aspectuais. cantando e cantado). -r ou -l. Em relação aos substantivos em -e. papa. de acordo com a posição em que se juntam à base. -z. as quais podem ser sintagmas básicos ou orações” (AZEREDO. op. o infinitivo. no entanto. aspecto. ou seja. infixos. -o e -a é permitir que o conjunto de formantes léxicos (denominado tema pelo autor) “seja integrado no léxico. Salvo raras exceções. em português. paz / pazes)”[8]. secundariamente. Carvalho (1973: 49-60) questiona a função das vogais átonas finais dos nomes. p. e o segundo traz a noção de número (plural) e pessoa (primeira). circunfixos e confixos[11]. Os morfemas derivacionais criam novas palavras na língua a partir do morfema lexical e podem ser divididos em prefixos.). Carvalho (op.. para uns. As desinências aspectuais –r. atualizado com um dos seus elementos (primeira atualização da palavra). transpositores. opor-se a um feminino em -a (mestre – mestra. muitos podem funcionar como adjetivos (poliglota. advérbios interrogativos (Vi como ele chegou. o gerúndio e o particípio dos verbos (cantar.) ou masculinos (dia. autodidata etc. indicar o gênero. / Ele sabe o esconderijo dos meninos. o primeiro marca o plural. termo que representaria a verdadeira função desses morfemas. infante – infanta). homicida. a única proposta de análise desses vocábulos. “que se torna patente no plural (cor / cores.). dentre outros. Propõe. cit. . há um bom número de substantivos de dois gêneros (guia. os nomes no singular terminam em vogal. Quanto aos terminados nas consoantes -s.. e em seguida realizado concretamente no discurso (segunda atualização)”. predominantemente. – ndo e –do formam. 210-2). Acredita. mapa. 211). então. tempo. Subdividem-se em preposições. / Não comprei a roupa vista na loja. o autor se posiciona a favor da postulação de um morfema vocálico latente -e. apresentando um minucioso levantamento a fim de esclarecer a relação entre essas vogais e o gênero. assim. conjunções. bem como advérbios interrogativos. número e pessoa).Henriques (2002: 17) apresenta. Os morfemas categóricos não criam palavras novas. que a função primária dos morfemas nominais -e.) formam sintagmas nominais. Os morfemas -s de casas e -mos de cantamos são exemplos de morfemas categóricos. As orações introduzidas por conjunções integrantes (Ele sabe que os meninos se escondem lá. Os morfemas relacionais têm a função de conectar palavras e/ou orações. interfixos. Entretanto. respectivamente. formar o tema para outros”. cit. que a terminação -a é característica de elementos da classe do feminino e que o morfema -e é indiferente à categoria de gênero. que é o “processo pelo qual se formam sintagmas derivados de outras unidades. patriarca..) e pronomes indefinidos (Todos sabem quanto custou a casa. Ressalta também que -o e -a podem. sua função de “viabilizar o radical como vocábulo. 58) constata que. Azeredo (op. Essa não é. carioca etc. Dentre os primeiros. referentes a seres animados. enquanto outros refutam tal idéia. por exemplo). Bechara (op. op. Os infixos se intercalam. Já Bechara (op. forma substantivos abstratos a partir de adjetivos: igualdade. de tal modo que não existirá na língua a forma somente com prefixo ou sufixo como anoitecer (não existem as formas *anoite nem *noitecer). o acréscimo dos afixos deve ser simultâneo. não devem ser confundidos com infixos por serem facilitadores da pronúncia desprovidos de significado. Como se vê. Monteiro (op. Os prefixos podem ser de dois tipos: os que são meras partículas. 59-62) as analisa como morfemas independentes. o conceito de derivação parassintética varia entre os estudiosos. por exemplo. p 339) assegura que “o que se costuma apontar como infixos não interessa à gramática descritiva portuguesa” e ressalta que os elementos de ligação. p.). cit. p.. 340). Em seguida. basta haver prefixo e sufixo no derivado para que ele seja considerado parassintético (como em infelizmente)..em refazer) e os que costumam funcionar também como palavras independentes (contra. parece ser mais vantajoso para a descrição interpretar. sem existência própria na língua (como re. p. usados freqüentemente como formas livres (preposições nocionais ou advérbios). Entretanto. vogais e consoantes. sempre que possível. cit.. o autor propõe a solução que parece ideal para esse impasse – a prefixação é um tipo de derivação. cit. Alguns autores preferem considerar o último caso como um exemplo de composição. dentro da raiz. Monteiro (op. Os circunfixos caracterizam-se como afixos descontínuos por serem aplicados simultaneamente à base dando origem a formações parassintéticas (entardecer). Monteiro (2002: 139) faz um breve confronto entre as duas posições e constata uma acentuada tendência para se incluir a prefixação no mecanismo da derivação. Para outros. Alguns estudiosos de nossa língua defendem a existência desse afixo em português. apontando para a natureza lexical dos prefixos. Alguns preferem interpretá-las como morfemas independentes. apesar de não apresentarem significado.Os prefixos se antepõem à base (infeliz) enquanto os sufixos vêm após esta (felizmente). cit. Na verdade. Na prefixação. geralmente. Para alguns. cit. filósofo). p. prefixos e sufixos se diferenciam não somente pela posição em que se juntam à base para formar um novo vocábulo. as ditas vogais e consoantes de ligação como último segmento fônico do radical ou primeiro do sufixo.. alegando não haver critério definido para a incorporação das vogais e consoantes de ligação a outro morfe e chamando a atenção para o crescimento do número de alomorfes caso não se admitam os interfixos como morfes segmentáveis. e uma boa descrição deve reduzi-las ao mínimo necessário. uma vez que morfemas sem significado são formas atípicas.em contradizer. Os interfixos servem de ligação entre o radical e um sufixo ou entre dois radicais de um composto (glorificar. crueldade etc. dos circunfixos: . não há mudança na classe da palavra. 343) aponta ainda uma terceira análise que nega a existência desse processo de formação de palavras e. mas podem ser interpretados como integrantes “de um conglomerado de sufixos” ou “como resultado de um alongamento de sufixo” ( BECHARA.. Apesar das alegações do autor. 62-3) expõe a defesa dos infixos no português e cita exemplos como pinicar e cineminha. Os sufixos não ocorrem independentemente na língua. contra e super. não há consenso entre os autores na análise das chamadas vogais e consoantes de ligação. conseqüentemente. Outros optam por incorporá-las aos radicais que as antecedem ou aos sufixos que as seguem. emprestam uma idéia acessória ao vocábulo a que se juntam e determinam a classe a que este pertence (o sufixo –dade. mas devem ser retirados do rol dos prefixos elementos como extra. subtrativos.e -edro. A segunda análise parece ser a mais adequada. op. polígono e tetraedro. Os morfemas também podem ser classificados. A alternância pode ser apenas um morfema redundante (ou submorfema). cit. entre outros. morfema zero (Ø) é. Há. Temos um morfema subtrativo quando a indicação gramatical se dá pela supressão de fonemas como em réu – ré. cit. é um submorfema. que só aparecem em combinações como poliedro. 45-7). além de contribuir na reflexão sobre o conceito de morfema. Os morfemas aditivos são os mais produtivos na língua portuguesa e consistem em segmentos que se acrescem a um radical[12]. e a terceira lida com formas teóricas. Os morfemas alternativos ou de alternância resultam da troca de fonemas que ocorre dentro do morfema lexical. É um morfema quando ocorre como única marca da noção gramatical a se expressar como em avô – avó. Monteiro (op. por exemplo.. alternativos e zero. Fechando o quadro de morfemas derivacionais. Por fim. KEHDI. esperando ter alcançado nosso objetivo. 53. p. não poucas vezes ocorre o pulo de etapa do processo. . de modo que só virtualmente no sistema exista a forma primitiva. e os últimos situam-se entre a Morfologia e a Sintaxe.. Em porco – porca. parte-se de um virtual *farmacolar (à semelhança de doutorar em relação à doutorando). um morfema de número zero que o opõe a casas (morfema de número plural –s). não existe a parassíntese. se partirmos do fato de que. finalizamos aqui este artigo. no vocábulo cantava. Bechara (op. 65) aponta como exemplos as formas. em casa. Assim. Não serão incluídos aqui os morfemas reduplicativos nem os de posição. Podem exprimir uma indicação gramatical ou formar uma nova palavra. quando apenas reforça uma noção gramatical já indicada por um morfema segmental. para se chegar a farmacolando. em nossa língua. a rigor. mas apresentar um quadro coeso e possível de classificação. a cantávamos (morfema número-pessoal -mos) e. como definiu Câmara Jr. a oposição entre masculino e feminino é apenas reforçada pela alternância entre o timbre fechado e o aberto. em aditivos. numa cadeia de novas formações. por exemplo. temos os confixos. Nos dois últimos casos. Por outro lado. para prefeitável.). poli. órfão – órfã e irmão – irmã. uma vez que os primeiros podem.Pode-se ainda entender que. p. acréscimo de –a e posterior crase: “irmão → irmã(o) + a → irmãa → irmã (por crase)”. formas que só aparecem combinadas com outros elementos.. (1996: 72). um morfema número-pessoal zero que o opõe. ser analisados como um recurso de caráter expressivo. p. que aparece noutro vocábulo e estabelece com o primeiro uma oposição significativa”. uma vez que a primeira não leva em conta a noção dos constituintes imediatos. 35). prefere considerar que há supressão da vogal temática. de um virtual *prefeitar (. (cf. “a ausência de um morfema.. já citadas por Martinet.. num dado vocábulo. Ressaltando que o intuito deste trabalho não foi abranger todas as classificações dos morfemas. cit. ou. do ponto de vista do significante. ). v. 24ª ed. Bernard. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Morfologia portuguesa. 2002. Claudio Cezar. FERREIRA. 2000. Partes de la morfologia. Ana Paula Araujo. Maria Carlota. 1999. BECHARA.. 2ª ed. Evanildo. M. 2001. Dissertação de Mestrado. HOUAISS. . CD-ROM. de Souza & KOCH. Morfemas do português. KEHDI. Petrópolis: Vozes. Ignacio. CÂMARA Jr. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.e. 1978. HENRIQUES. 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Lo que quiere decir que la definición del morfema como ‘signo mínimo’ o ‘unidad significativa mínima’ resulta inadecuada por ser demasiado restrictiva y no poder así caracterizar la totalidad de las unidades obtenidas en el análisis formal de la palabra. p. por isso. p. de otras series del mismo tipo. es decir. o uso popular de "bus". Reconheçamos. o que e quem que introduzem frases interrogativas e exclamativas como “Qual de vocês pode me acompanhar?” e “Quem diria!”. no entanto. . [6] Em alguns poucos vocábulos. [5] A chamada vogal temática nominal também pode ser representada por uma semivogal. por ejemplo. os substantivos não apresentam flexão de gênero (cf. [10] Para alguns autores.” ( PENA. p. XXI diz: substantivo masculino (“coisa nenhuma”) e pronome indefinido (“nada”). MONTEIRO. em um sentido amplo. porém... como sinônimo de "ônibus". tiene el significado «actualizador».. diferencia a cada una de estas series. que corresponde al qué de la aprehensión del mundo extralingüístico.. por ejemplo. y que. op. a vogal temática pode ser representada pelo grafema -i (júri.. relevantes en su estructura o constitución morfológica. tiene el significado «pluralizador». isoladamente.. morfemas derivacionais que se inserem em mais de um ponto na raiz.séc. que. SILVA. No entanto. [8] A explicação "estar latente" é também sincrônica. el significado de los morfemas. cit. cit. cit. en mesa-s. táxi) e pelo grafema -u (chapéu e nau). como un todo. al mismo tiempo. é ponto comum entre gramáticos e lingüistas o fato de tais afixos não ocorrerem em nossa língua (cf. y. independientemente de si son palabras o no. [11] Há ainda os transfixos. [9] Azeredo (op. 137) [3] “(. tanto vogais quanto semivogais. alguns autores preferem utilizar o termo índice temático. 53). así. 2004: 26-38). 136-7) [2] “El significado instrumental. op. segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.[1] “El significado léxico. rico – riqueza – enriquecer. el significado que es común a todas las palabras de cada una de las series: caliente – calor – calentar. cit. blanco – blancura – blanquear – blancamente. 125) classifica como indefinidos os pronomes qual. p. op. o que pode ser explicado como um caso de abreviação ou mesmo como uma incorporação da forma inglesa – a despeito de o empréstimo ter origem no francês (voiture omnibus).. É preciso ressaltar. [7] Tema = radical + vogal temática.” (COSERIU. cit. ello. que o termo vogal abrange. Dizemos que a posição de outros estudiosos é de base diacrônica pressupondo uma relação com os nomes da 3 a declinação do latim. [12] Rosa (2002: 51) considera o próprio radical um morfema aditivo. .
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