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May 23, 2018 | Author: pbarreto_625248 | Category: Behaviorism, Natural Language, Linguistics, Grammar, Learning


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Teorias cognitivas e abordagens no ensino de segunda língua (L2) e de língua estrangeira (LE) Profª. Ana Adelina Lôpo Ramos Universidade de Brasília [email protected] Considerações iniciais A preocupação com a maneira de como o homem adquire ou aprende o conhecimento sempre inquietou estudiosos desde a antiguidade até investigações científicas contemporâneas. Diferentes princípios teóricos têm especulado acerca de como o ser humano se apropria das informações que a ele são expostas e como ele internamente processa essas informações a ponto de transformá-las em conhecimento. No que diz respeito à linguagem, particularmente, três dessas teorias apresentam princípios efetivamente relevantes no campo em discussão: Behaviorismo, Inatismo e Interacionismo. Dessas, duas têm influência direta no nos processos de ensino e de aprendizagem de uma segunda língua – L2 e de língua estrangeira - LE, área de importância no nosso estudo. 1 – Behaviorismo e Abordagem Estruturalista 1.1 – Behaviorismo Behaviorismo é uma teoria da Psicologia que tem como “principal objeto de estudo o comportamento (behavior) ou conduta do organismo e não de algum processo interno inobservável, determinante desse comportamento” (Rivers, 1974, p.179). Segundo os princípios dessa corrente, o conhecimento é adquirido a partir dos estímulos a que se é exposto, estímulos cujas respostas são fisicamente palpáveis e mensuráveis, de modo que cada um dos estímulos condiciona uma resposta, sempre previsível. São muitos os adeptos dessa corrente, desde os primeiros estudos sobre os reflexos condicionados, de Pavlov, passando pelo Condicionamento Contínuo, de Guthier, pelo Intencionalismo ou Teoria da Expectativa, desenvolvida por Tolman, pela Teoria Sistemática da Redução de Impulso, de Hull, até o Condicionamento de modo bem sucedido. destaca-se o americano Leonard Bloomfield. Seguidores das concepções de língua como estrutura. proclamadas pelo mestre genebrino. enfim das línguas empíricas. do francês. consiste na ideia de que a criança fala quando a ela é oferecido estímulo linguístico que deve ser repetido até que essa criança consiga expressar. cuja proposta teórica de análise linguística. ecoava preceitos da teoria behaviorista ou comportamentalista. multiplicaram-se além do continente europeu. mecânico. A Abordagem Estruturalista orientou e ainda continua orientando práticas pedagógicas do inglês. assim. estavam em efervescência os estudos linguísticos estruturalistas. O conceito de Condicionamento Operante. p. A concepção de língua como estrutura associada ao princípio da aprendizagem pela repetição e pelo reforço positivo resultou no surgimento de uma abordagem de ensino de língua que dominou como única a área da língua estrangeira durante as décadas de 60 e 70 do século passado. do espanhol. “o Behaviorismo (condutismo ou comportamentalismo) tornou-se conhecido como Psicologia do ER” (Rivers. baseados nas proposições de Ferdinand de Saussure. as “coisas” do mundo existem independentes do homem.Operante. Apesar dessa concepção limitada. morfológico. uma vez que muitos professores ainda acreditam ser a língua algo meramente estrutural. fundador da visão científica sobre a língua. Entre esses. Distribucionismo. em níveis hierárquicos (fonológico. mecanicamente. formulado por Skinner. o condicionamento. que as acessa somente se lhe forem expostas de modo repetido.179). o que deve ser recompensado. Por isso. o sistema linguístico consiste em uma estrutura formada por constituintes imediatos. do português. a Abordagem Estruturalista . ponto comum havia entre eles: o conhecimento é adquirido pela relação de condicionamento que se traduz pelo par estímulo/resposta. o que reflete a ideia comportamentalista de que os objetos. Em que pesem determinadas diferenças na maneira de cada um desses estudiosos conduzir suas pesquisas. Essas ideias trouxeram repercussões no campo da pedagogia de língua. 1974. No auge do Behaviorismo. efetivando-se. Para Bloomfield. presente nas experiências de Skinner. cujas relações se estabelecem de modo previsível. sintático). de modo automático. então. não reflete o complexo universo de qualquer língua em uso. o estabelecimento de ligações entre colunas. O maior expoente dessa teoria na área da Linguística é Noam Chomsky. conjunto de regras 1 A respeito do tratamento dado ao texto nas abordagens. Essa teoria postula esse ser como naturalmente cognitivo. como pretenderam argumentar os behavioristas. pois produzidos para aquela atividade: são utilizados tão-somente com o propósito de se trabalharem aspectos de ordem gramatical. . isto é. propositor da existência de uma Gramática universal (GU). pois já nasce biologicamente dotado da capacidade linguística. morfema. trata de única espécie animal dotado geneticamente de linguagem. não é usado em situações reais de fala. Os textos são artificiais1. palavra e estruturas sintáticas) são trabalhados no limite do sistema linguístico. de modo que os elementos linguísticos em foco (fonema. 2 – Inatismo O Inatismo. mas.constituiu um momento importante para o ensino de língua. os aspectos culturais da língua alvo.2 – Abordagem Estruturalista Compreendemos. leia capítulo XXXXXXXXX. pois o que se vinha praticando era o ensino ora pautado no equivocado processo de tradução. defende que o ser humano não é uma “tábula rasa”. consequentemente. sobretudo de Bloomfield. que o Behaviorismo é a teoria da psicologia que. que como já sabemos. uma vez que o nível informacional não importa nessa abordagem. sempre a partir de um modelo proposto que. sem se considerar o conteúdo que ele apresenta. As atividades têm sempre o objetivo de desenvolver o automatismo linguístico sobre aquele conteúdo que se está aprendendo. muitas vezes. sim. conjuntamente ao estruturalismo linguístico. fornece os princípios de cognição e de análise que fundamentam a abordagem que concebe a língua como uma estrutura a ser apreendida por metodologia de repetição. disponível no ambiente. 1. A Abordagem Estruturalista contempla em seu conjunto de técnicas o preenchimento de lacunas. e. não se considera o contexto de uso. ora somente em preceitos do que conhecemos por Gramatical Tradicional. em contrapartida à visão externalista do Bahaviorismo. mesmo tendo sido exposta a estímulos linguísticos pobres. Essa gramática é o dispositivo responsável pelo fato de uma criança criar frases complexas e até inusitadas em sua língua. português. para esse teórico. não contribuíram diretamente para o surgimento de uma abordagem em contexto de ensino de L2/LE. Para esse 2 Apesar de o termo cognitivistas ser atribuído tradicionalmente aos defensores da existência de um conhecimento interno ao individuo. Isso traz a baila outro princípio da linguística inatista: a idea de que a língua é um conjunto finito com possibilidades infinitas. o Sociolinguista Dell Hymes (1972). conforme apresentado na seção anterior. segundo o qual alguém é competente linguisticamente quando sabe utilizar a língua adequadamente em cada contexto sociocultural. analisando as relações comunicativas dos grupos sociais. . francês. Desenvolver a língua. viam o ser humano como um ser desprovido de qualquer conhecimento enquanto indivíduo. O princípio internalista conduz Chomsky a propor o conceito de Competência Linguística. dominar estruturas sintáticas complexas. Ao questionar a proposição chomskyana de competência linguística. como inglês.O conceito de competência e a Abordagem Comunicativa As idéias de Chomsky. tornando-se cognitivo somente quando exposto a conjunto repetido de estímulos externos. postulando que o homem é o único animal linguisticamente competente. O aspecto da criatividade defendida pelos cognitivistas2 é ponto que contrapõe essa teoria aos postulados behavioristas que. as línguas empíricas. 3 . diferentemente das de cunho comportamentalista.linguísticas que todo ser humano possui e que lhe permite desenvolver qualquer idioma. ou seja. propôs o conceito de falante competente (competente speaker). mas o conceito de competência linguística foi seminal para o surgimento de outro que motivou a emergência da famosa Abordagem Comunicativa. é uma habilidade fisiológica como e andar ou andar de bicicleta. encontra-se em pleno desenvolvimento desde o nascimento do bebê. pode-se entender que todos aqueles que se preocupam em especular como a relação homem e cognição são estudiosos cognitivistas. A GU. apresentando um período critico quando a criança encontra-se por volta dos oito anos de idade. por exemplo. segundo Chomsky. que diz respeito à capacidade de combinar formas gramaticais e significados para alcançar um texto unificado. Tal modelo é assim constituído: competência lingüística (conhecimento). em diferentes gêneros. sendo a gramática um dos aspectos. Essas duas contemplam subtipos de competências: a primeira. entre as quais a que trata do ensino de L2 e de LE. à capacidade de elaborar um discurso coeso e coerente. ou execução da competência. A palavra de ordem adotada nesse contexto era comunicação. que se refere à compreensão adequada da língua em contextos sociolingüísticos diferentes. e d) competência estratégica. como vocabulário. O conceito de competência foi ampliado em vários modelos propostos para o ensino de LE. que consiste no domínio do código lingüístico verbal. ou seja. que contempla quatro componentes. pronúncia. b) competência discursiva. escrito ou falado. Dizendo de outro modo. c) competência gramatical. ortografia e semântica. dependentes de fatores contextuais. a idéia a ser alcançada era a de que ensinar e aprender uma língua não consistia somente em passar a dominar um conjunto de regras gramaticais fundamentadas. competência gramatical e . ou competência. estruturas.88). propósito da interação e normas ou convenções de interações. consiste no conhecimento. O modelo é composto por: a) competência sociolingüística. p. e capacidade de implementação. como status dos participantes. sim. ser competente vai além do domínio de estruturas linguísticas. saber se comunicar em diversas situações da língua alvo. mas. que é a habilidade de ter atitudes estratégicas no sentido de compensar problemas de comunicação por ausência de conhecimento lingüístico quando se pretende expressar alguma idéia. em grande parte.estudioso. em preceitos da gramática tradicional. Bachman (1980) apresenta outro modelo para descrição de competência comunicativa. no uso contextualizado da comunicação linguística” (2005. das regras gramaticais. Além de Canale e Swain. que inclui competência organizacional e competência pragmática. sem dúvida de grande repercussão nesta área. Denominado de “Communicative Language Ability Model (CLA). Um deles. portanto. Esse conceito de Hymes repercutiu em várias áreas das ciências sociais. pois o individuo precisa saber se comunicar também com base em regras sociais do uso linguístico. foi o de Canale e Swain (1980). adotada como aquela única que garantiria efetivamente o processo de aprendizagem de uma língua. as intenções dos usuários da língua. registros. assim. intencional. A competência sociolingüística é definida em termos de sensibilidade em relação a aspectos do contexto de uso lingüístico. possibilita a compreensão e interpretação dos textos e. p. Assim surgiu o que se tem denominado de Abordagem Comunicativa. Nessa perspectiva. 1980). identificações em recepções de hotéis. O objetivo era. competência funcional e competência sociolingüística. como vocabulário. . às funções exercidas pela língua como ideacional. Já a competência textual diz respeito ao conhecimento sobre a organização dos enunciados que formam um texto. 2) têm dúvidas de que exista uma teoria de ação humana que possa adequadamente explicar “habilidade de uso” e fornecer base para explicar os princípios do syllabus design3.7). segundo afirma a autora. heurística e imaginativa. como questões de cunho dialetal. 1980. Essa competência. surgiram os livros didáticos fundamentados na ideia de que a comunicação na língua estudada era a meta a ser atingida e. a apreensão de diálogos para que o 3 O termo é recorrente nas áreas de L2 e LE e diz respeito à organização gramatical da língua. Canale e Swain não incluem a habilidade comunicativa de uso de Hymes. como apresentações pessoais. e justificam apontando duas razões: 1) alegam que tal noção não foi investigada com rigor nas pesquisas sobre competência comunicativa. morfologia.competência textual. que é “a realização das competências e suas interações na produção e compreensão dos enunciados” (Canale e Swain. por isso mesmo. aspectos culturais e aqueles relacionados à fala. sintaxe e fonologia. verificou-se uma recorrência a textos que espelhavam situações possíveis de uso daquela língua. situações em restaurantes etc. considera o discurso. manipulatória. ao invés de apenas refletir tal noção (Canale e Swain. a competência gramatical envolve os aspectos do sistema linguístico. como o próprio nome sugere. para o uso da língua. A competência funcional ou ilocucionária refere-se. a segunda. por assim dizer. Para Bachman (2005). Sendo assim. regulatória. os autores falam em desempenho comunicativo. portanto. realizáveis a partir de modelo cujas respostas são sempre previsíveis. Essa concepção de língua como elemento de comunicação contrapõe-se radicalmente àquela de cunho estruturalista. Behaviorismo. a maioria das atividades contempladas em livros de língua estrangeira espelha técnicas da Abordagem Estruturalista. aspecto contemplado na Abordagem Sociointeracional. em que . não se pode negar o importante papel que essa abordagem cumpre no contexto de letramento educacional de L2 e de LE. a começar pelo tratamento dado aos textos que. apesar de terem sido incluídos como recursos metodológicos. em que pese a sua massiva adoção pelos cursos de línguas. Além disso. Desse modo. essa abordagem não possui identidade genuína. Nessa direção. Considerem-se. para índios e para estrangeiros de línguas semíticas ou de línguas orientais. preenchimento de lacunas. correlação entre colunas e exercícios. fundamentadas nos automatismos proclamados pelo 3. por exemplo. Embora a Abordagem Comunicativa seja reconhecidamente um avanço por conceber a língua além das estruturas sintáticas. pois constitui um momento de mediação e de engajamento da estrutura linguística no conjunto das práticas sociais.1 . Em diversos livros. sendo a gramática um componente ancilar na aprendizagem de alguns alunos (Widdowson. os modelos podem constituir recurso relevante quando utilizados adequadamente. detectam-se técnicas como repetição. 1978). situações de ensino da escrita do português para surdos. Ademais. a ser comentada na seção seguinte. senão vejamos. observa-se que são abordados apenas como um pretexto para o ensino de regras gramaticais.aprendiz percebesse o uso linguístico.Abordagem Comunicativa: um ritual de passagem Apesar dessa ausência identitária. tanto do ponto de vista de uma teoria cognitivista que a fundamente como do ponto de vista metodológico. caracterizando assim a presença de técnicas estruturalistas. também caminham os estudos no campo de pesquisa e ensino de segunda língua ou de língua estrangeira: a comunicação é o objetivo da instrução na aprendizagem nesses contextos. tendo seguidores até os dias atuais. que são usuários de língua espaço-visual. não são estudados como unidades de sentido. é a que trata da aquisição do conhecimento como resultado de um processo a partir das relações de interação. para quem “conhecer” é um processo inter e intraindividualmte. Dizendo de outra maneira. pelo riso aberto. constitui parte integrante de uma cultura marcada. língua em foco. como assinalado anteriormente. longe disso. . desta feita. mas de pensar a tensão entre esses dois pólos. (Marcuschi: 2006). Embora a teoria interacionista tenha efeitos em contextos pedagógicos. constrói-se social e individualmente. de tal modo que tocar alguém com quem se está conversando. na recorrência de uso de gestos e de proximidades físicas entre os interlocutores. mas não é simples promiscuidade com o empírico e o experimental. Assim sendo. 4 – Sociointeracionismo Uma terceira teoria cognitivista. a cognição não é descarnada. sobretudo por considerar a língua como um elemento fundamental da cultura. trabalhar com simulacros de situações linguísticas considerando contextos culturais pode ser de grande valia como recurso metodológico. significa uma relação entre os dois lados. o que resulta. Não se trata aqui de juntar as concepções behaviorista e inatista em uma terceira. Além da aprendizagem linguística. isto é. é um ato comum. em que atitudes. atitude corriqueira sobretudo em estados do nordeste. o modelo situado pode ser revelador de aspectos socioculturais importantes para o conhecimento de padrões de comportamento na cultura alvo. Essa ideia tem base na propositura de estudiosos como Piaget e Vigotski. com grande impacto em contexto de ensino e de aprendizagem.tanto o modelo de textos escritos como os de situação de fala podem constituir ponto de partida em direção a uma posterior construção de autonomia do aprendiz frente em relação à língua estudada. Não se trata de defender algum tipo de fundacionalismo internalista nem externalista. como movimentos corporais podem e devem ser compreendidos pelos aprendizes. Isso significa ir além da atividade de comunicar. O português brasileiro. de modo que um influencia diretamente o outro. pela solidariedade. os estudos de Vigotski são os que trazem maior contribuição àqueles concernentes à L2 e à LE. muito embora esta esteja contemplada na de interagir. em geral. pela descontração. Cada objeto tem. O homem se desenvolve inserido em contextos sociais. de modo que o conhecimento por ele adquirido resulta do processo interativo com o meio. p. os signos cumprem um papel fundamental. os sistemas simbólicos construídos socialmente é que vão definir as muitas possibilidades de funções do cérebro. portanto essa não seria mais mera expressão de reflexos” (Freitas. mas apresenta natureza flexível para absorver novas experiências e construir conceitos a partir das mudanças que a própria sociedade apresenta. a estrutura mental não é algo fechado. Assim. nas ideias de Vigotski. a ser a própria construção interna dessa atividade. Segundo defende. é o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Ponto fundamental no sociointeracionismo de Vigotski é a ideia de mediação. transformando-se em meios de regulação interna ou auto-regulação. por outro. moldando o seu próprio funcionamento psicológico. 2003. proporcionados pela cultura.e. no interior (intrapsicológica). pelas pessoas do meio . A dimensão social. o autor postula forte ligação entre os processos psicológicos e a inserção em contextos sociohistóricos específicos. que passa. é de tamanha importância que. mas que são construídos a partir de informações culturais. cumprindo a linguagem importante papel. p. componentes sociais da cultura e da história. por um lado. primeiro. A noção de cognição na perspectiva vigotskiana envolve. Desse modo. posteriormente. (modificam) dialeticamente a estrutura da conduta externa. no nível social. Afirma Vigotski (1984. quando trata do aspecto biológico no funcionamento psicológico. e. Isso permite estabelecer relações mentais mesmo na ausência de referentes concretos. depois. pois. entre pessoas (interpsicológica). todo processo de internalização ocorre exatamente a partir da atividade externa. A . pois. porque ao “interiorizarem-se. no nível individual. concretizadas em tarefas que o sujeito venha a cumprir. e depois.91). modos de representação na mente do sujeito. e.Para esse autor. pois são. Outro aspecto nessa teoria.64): Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro. e de grande repercussão nos projetos atuais de educação.pelos outros . A mediação consiste no fato de o homem ter acesso aos objetos reais por meios dos sistemas simbólicos construídos socialmente. cujo objetivo. De acordo com essa visão. aqui a meta vai além do ato de comunicar. considerando os contextos socioculturais dos usos linguísticos. práticas essas que consistem em eventos de fala e são configurações convencionalizadas socioculturalmente na dinâmica dos processos comunicativos face a face entre os membros de um grupo. 4 Tradução minha. ação. experiências possam ser aprendidas. Yong & Hall. o autor defende que uma boa escola deve sempre estar atenta para que os programas pedagógicos prevejam esse processo de maturação. definido como um “conjunto de criação de dada forma. ou seja. interagir é algo mais do que comunicar: é agir na aquisição e construção do conhecimento e do desenvolvimento de habilidades. 4. como o próprio nome já sugere. 2003. é vista como algo social e não como questão unicamente cognitiva que resida apenas na mente do indivíduo.expressão diz respeito ao momento em que processos cognitivos já maturados pela criança potencializam o aprendizado de outros novos. p. A escola deve preparar a criança para aquilo que ela ainda não seja capaz de fazer.1 – Vigotski e a Abordagem Sociointeracional As ideias de Vigotski contribuíram sobremaneira para o surgimento da Abordagem Sociointeracional. mas é construído no ato interacional. É pela participação nas práticas interativas que os indivíduos adquirem recursos de muitos tipos. postura.4 A interação. atividade. interpretação. Portanto. consiste em alcançar a interação dos aprendizes. pois a língua é concebida na perspectiva da ação: quem fala age e provoca em seu interlocutor uma inter-ação. Essa tese conduziu às primeiras manifestações do sociointeracionismo em termos de língua estrangeira com os estudos teóricos investigadores da Competência Interacional. É vista como um processo de co-construção. representa o nível de desenvolvimento potencial para que outras habilidades.97). a partir de modelos. identidade. como “vocabulário e sintaxe. instituição. a interação ocorre nas práticas orais. O conhecimento não é dado a priori. desse modo. aspectos retóricos e habilidades” (Johnson apud. conhecimento sobre mudança de turnos. . Assim. Por isso. por isso mesmo. de modo “fossilizado”. emoção ou outra realidade de significação cultural” (Johnson. Portanto. 2003. . encontra fundamento no princípio vigotskiano segundo o qual o conhecimento individual (intra) é socialmente (inter) e dialogicamente derivado. apud Ochs. por outro lado. mas. requisitaram níveis de regulação ou assistência diferentes. 1998). O mecanismo do “andaime” é usado para promover a internalização do que é considerado “novidade”. 97). ideologia. e. Esse mecanismo. fixação na mente do aprendiz. Alguns estudos têm revelado que. Tomando como base a Teoria Sociocultural. pode constituir uma fonte de fossilização6. Segundo esse princípio. A incidência do erro leva a incrustação. para expandir os seus próprios conhecimentos. é cada dia mais unânime a defesa pela importância do processo interativo na aprendizagem de língua estrangeira. esse é um momento de estudo fornecedor de elementos para se estabelecerem diferenças entre comportamento linguístico fossilizado e nãofossilizado. embora no mesmo nível de aprendizagem. a participação coletiva cria uma espécie de “ajuda” que permite a cada participante da interação elevar o nível de conhecimento linguístico a partir do que é negociado em grupo. não só para estabelecer relação de troca de input entre os aprendizes.Collective Scaffolding (Donato. utilizado com sucesso em vários estudos. pode despertar para o significativo desenvolvimento dos aprendizes. Assim sendo. o que possibilita a construção do conhecimento linguístico e social. diferenciando os falantes que apresentam fossilizações daqueles que não apresentam. que é construída primeiramente na atividade social desenvolvida entre os pares. observa-se cada vez mais a presença do que foi denominado por Donato de “Andaime Coletivo” . proposta da teoria de Vigotski. nas negociações do jogo interativo em contexto de aprendizagem de língua estrangeira. Fossilização em contexto de L2 e de LE consiste na repetição do erro cometido pelo aprendiz e que não foi corrigido. No entanto. durante o processo interativo os indivíduos estão socialmente situados. também se observou que a aprendizagem não ocorre satisfatoriamente quando a oferta de 5 6 Tradução minha. p.5 Por essa razão. sobretudo. Mas. aprendizes exibiram ZDPs diferentes. considerar a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). A atividade interativa.habilidade. de algum modo. os diálogos que refletem situações do cotidiano. que demonstrem a inclusão de um sujeito-aprendiz. partícipe da construção de seu conhecimento. mas. essa fala assinala a atenção do aprendiz para a auto-regulação e. que cada abordagem dessa expressa por meio das técnicas a concepção teórica da aquisição do conhecimento. Considerações finais Nessa breve exposição. No contexto de LE. utilização dos textos autênticos na perspectiva do gênero textual e do discurso. Um terceiro princípio da Teoria Sociocultural de Vigotski. outros fatores auxiliam a conexão entre fala privada e proficiência: natureza da tarefa. como a Abordagem Estruturalista e a Sociointeracionista. Para exemplificar algumas das técnicas que revelam a presença dessa teoria no ensino e. assim. motivação e antecedentes culturais do sujeito. o surgimento das abordagens de ensino em contexto de segunda língua e de língua estrangeira.input é demasiada ou se a tarefa a ser solucionada for considerada fácil. pelo conceito de competência comunicativa. ainda. apresenta técnicas de cunho behaviorista. o linguístico. Observou-se. predisposição. Isso pode levar a compreensão de que. para controle do seu crescimento cognitivo (Cafferty. comentaram-se as teorias cognitivistas que influenciaram diretamente ou motivaram. Isso reforça uma atenção maior sobre a regulação da ZDP de cada aprendiz. leituras críticas (opinião). consequentemente. relevante na aprendizagem de língua estrangeira. no caso. o que pode trazer contribuições para o planejamento pedagógico nesse contexto de aprendizagem. a fala privada é clara ilustração da relação linguagem-pensamento. sim. Viu-se também que essas abordagens apresentam técnicas que espelham princípios dessas teorias. diz respeito ao papel da “fala privada”. proposto por Hymes. que prevê a construção do conhecimento nas instâncias da interação. 1998). destaquem-se os exercícios contextualizados e de retextualização. a adoção da Abordagem Sociointeracional. Aliados a esse. Já a Comunicativa pelo fato de não ter sido fundamentada em uma teoria cognitivista diretamente. Segundo defende o autor. pelo fato de ter concepção . produção/construção textual. M. nº 2. para não resultar em incoerência teórica. (org. não é o que se tem verificado do ponto de vista do ensino. Oxford: Oxford University Press. 1999. 199 CANALE. mas essas estruturas precisam fazer sentido no contexto das práticas sociais.distinta. . CHOMSKY. De outro modo: não se fala ou se escreve uma língua sem conhecer e se apropriar de suas estruturas. Florianópolis: Insular. Referências Bibliográficas BONINI. ao que tudo indica. Embora esse raciocínio seja lógico. propiciando uma compreensão linguística que vai desde a estrutura até o funcionamento no contexto das práticas sociais. Rod. Stella Maris “To What degree is a speech event feasible? A study of linguistic resources and communicative stress” In:D. Talvez pelo fato de cada teoria cognitivista conceber a língua sob uma perspectiva particular seja exatamente o aspecto que as complementem em termos de aplicação no ensino. M. 1-47. Second Language Acquisition. em que tanto as estruturas linguísticas quanto o seu enquadre nos contextos de uso constituem conteúdos da mesma forma relevantes para o aprendizado. HARRÉ R. 1994. 2002. Dayse Batista. O importante é saber utilizar a abordagem adequada a cada conteúdo. Gêneros textuais e cognição. 1980. M. 1. “Uma proposta heterodoxa para o ensino de português a falantes de espanhol” In: NORIMAR J. Desse modo. & SWAIN. N.T. Porto Alegre: Artmed. Reflexões sobre a linguagem. Martins Fontes. & GILLETT. uma vez que língua é comunicação e interação. Vol. A.A. BORTONI.).) Português para estrangeiros: perspectivas de quem ensina. Niterói: Intertexto. (trad. 2002. deve-se adotar apenas umas dessas abordagens na prática pedagógica. 1975. “Theoretical bases of communicative approaches to second language teaching and testing” In: Applied Linguistics. considerando-se sempre as demandas dos aprendizes. GRANNIER. A mente discursiva – os avanços na ciência cognitiva. São Paulo. ELLIS. D. 7. 1.L. a adoção do ecletismo de abordagens pode proporcionar ao aprendiz o acesso mais bem sucedido à língua e à cultura alvo.E. VIGOTSKI. ROGOFF. L. São Paulo: Marins fontes. “Cognitive psychology and discourse: recalling and summarizing stories. (digit. A. São Paulo : Martins Fontes. & KELLERMAN. linguagem e prática Sociointeracionais. ____________A formação social da mente. KRASHEN. Recife.. A. B. E. L.) Maria da Penha Vilalobos. Marcuschi. W. 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