Jane Jacobs

March 25, 2018 | Author: ilkesamar | Category: City, Urban Planning, Economics, Urbanism, Sociology


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Jane Jacobs1 Quando Jane Jacobs lançou o seu primeiro livro, em 1961, aos 45 anos de idade, talvez não tivesse idéia do impacto que sua obra teria na consciência dos urbanistas e políticos e nos rumos do planejamento urbano. Uma conferência em Harvard em 1956 e artigos na imprensa preparam o caminho para a grande receptividade de seu Death and Life of Great American Cities(cujas traduções omitem do título - como a edição brasileira - a especificidade norte-americana de suas análises), que se tornou uma referência crítica seminal contra as doutrinas modernas do urbanismo de meados do século 20. Jornalista autodidata, colaboradora e mais tarde editora associada da revista Architectural Forum, um marido arquiteto - a quem credita sua cultura urbanística -, Jacobs mantinha um distanciamento crítico do cotidiano dos urbanistas que lhe permitiu escrever um dos mais belos libelos contra as palavras-de-ordem do urbanismo moderno. Ou mais precisamente, das práticas urbanísticas em voga nos Estados Unidos, cujas origens Jacobs identificava nas propostas de Ebenezer Howard e suas cidades-jardins (1898), nas idéias contidas na Ville Radieuse (1935) de Le Corbusier e, em menor grau, o movimento City Beautiful (1893) ideado por Daniel Burnham. O contexto dos ataques de Jacobs ao urbanismo moderno ortodoxo era o programa norte-americano de renovação urbana das áreas centrais das cidades, do fazer tábula rasa de setores urbanos consolidados, substituídos por megaprojetos de reurbanização nos quais uma arquitetura burocrática ou monumental, viadutos, elevados, vias expressas e florestas de concreto configuravam a nova paisagem das grandes cidades. Fenômeno que extrapolou as fronteiras norte-americanas, banalizando-se enquanto intervenções urbanas tardias em cidades como Caracas ou São Paulo nos anos 1970. Contra o bucolismo das cidades-jardins, Jacobs defendia a densidade das metrópoles. Todavia, não a ordenada metrópole ideada por Le Corbusier - cujo exemplo mais vigoroso seria Brasília -, mas a cidade tradicional. Que cidade tradicional, porém? O sabor dos relatos de Jacobs reside em sua fluente escrita de observadora não-contaminada pelo jargão dos urbanistas e sua vivência como moradora do Greenwich Village em Nova York. Numa etnografia jornalística, a autora procurou identificar no cotidiano de grandes cidades norte-americanas as razões da violência, da sujeira e do abandono, ou o contrário, a boa manutenção, a segurança e a qualidade de vida de lugares que constituíam a cena real das metrópoles, em simetria ao esquematismo dos modos de vida que os planejadores previam em seus modelos urbanos ideais. Ao contrário das fisicamente imaculadas e espiritualmente vazias proposições modernistas, o caos urbano e o microcosmo dos bairros constituíam uma vida rica e densa de significados. Do registro empírico das maneiras de se apropriar dos lugares (os subtítulos dos textos são diretos: "Os usos das calçadas: segurança, contato, integrando as cri-anças..." etc), Jacobs formulou a crítica aos axiomas do planejamento (separação das funções/zoneamento, a lógica da circulação pelo exaltação do sistema viário, etc) e seu reverso, a prescrição de soluções. A principal e duradoura lição pregada por Jacobs é a necessidade da diversidade urbana: funções que gerem presença de pessoas em horários diferentes ("a necessidade de usos principais combinados" é um capítulo) e em alta concentração, valorização de esquinas e percursos ( "a necessidade de quadras curtas", outro capítulo), edifícios variados e de diferentes idades ("a necessidade de prédios antigos"), e ressaltando outras medidas profiláticas para uma melhor qualificação urbana: "a subvenção de moradias", A clareza da escrita e as posições antimodernistas de Morte e Vida de Grandes Cidades trouxeram grande prestígio à autora. O seu foco principal decorre do indispensável conhecimento sobre o funcionamento e necessidades das cidades para. com isso."erosão das cidades ou redução dos automóveis". The Nature of Economies. das relações de poder. Um livro que. anotando sobre o emergir de códigos simbólicos de distinção social na arquitetura e no urbanismo pelo enaltecimento da ornamentação. Jacobs afirma que há um mito em relação a dinheiro suficiente para erradicar todos os problemas de uma cidade. "projetos de revitalização". há uma crítica evidente em relação à função. Parte de suas idéias lograram grande audiência nos debates urbanísticos dos anos 1970/80.e provavelmente de uma São Francisco. . trouxe retratos e episódios de recantos de cidades norte-americanas que poderiam ser depoimentos de uma época como as de Charles Dickens sobre a Londres da segunda metade do século 19 . os órgãos superiores desenvolvem uma prática de reurbanização que ainda não suprem as necessidades mais urgentes da população. sobretudo com o advento da discussão pósmoderna e sua apologia da diversidade. No seu relato. de Jane Jacobs. se baseia em questionar o desenvolvimento do planejamento urbano nas cidades e os princípios de reurbanização em contrapartida às questões de natureza sócioeconômicas. sem respeito à preexistência e aos valores sociais desfavorecendo sempre os mais necessitados de lazer. David Harvey. A cidade é um grande cenário de vivências. tornando-a uma leitura obrigatória nos cursos de arquitetura e urbanismo. 2 O livro Morte e vida de grandes cidades. Aos 84 anos de idade. uso e ocupação das construções. É um engano. desde a eliminação dos cortiços até a solução de problemas de infra-estrutura. que a tornou uma guru do planejamento urbano. do embelezamento. de paisagens e da falta de respeito com o principal personagem. moradia e mobilidade. com um crescimento urbano indiferente às necessidades de cunho social. principalmente. comentava: "Não tenho nenhuma certeza de que tenha sido isso que Jane Jacobs tinha em mente quando criticou o planejamento urbano modernista. "ordem visual: limitações e potencialidades". geografia e ciências sociais. lançou em março passado seu sexto livro. diferenças sociais. acumular informações em prol das diretrizes coerentes para o planejamento urbano. o indivíduo enquanto cidadão. um relato fascinante de uma inquieta ex-moradora da rua Hudson em Nova York. etc. Nova York ou Boston que não existem mais. decorridos quase 40 anos de seu lançamento. para desespero de seus defensores. pela decoração. afirma Jacobs. Mas o prestígio internacional. ao ponto de alimentar tendências díspares do urbanismo como as muitas formas de ativismo comunitário como no discurso de frentes como a Nova Direita norte-americana. Mas o capital disponível é empregado de forma incoerente e. atrelado a infra-estrutura. arquitetônicas. que creditam à vulgarização das idéias da jornalista pelas bobagens a ela atribuídas. veio de Morte e Vida de Grandes Cidades. que não valoriza a escala humana. “O raciocínio econômico da reurbanização atual é um embuste”." Jane Jacobs mudou-se com a família para Toronto em 1968 (temendo o envolvimento dos filhos na guerra do Vietnã) e tornou-se cidadã canadense em 1974. Jacobs é considerada a "mãe" do neoconservador New Urbanism. pois mesmo sabendo que as favelas e outras habitações ou bairros precários são considerados parte integrante das cidades. no sentido figurado. mas é um engano pensar que seja independente em relação à cidade.. mercadorias. Claro que. Os especialistas e estudiosos não conseguem interpretar os gritos de desespero de uma sociedade que vive em cidades cheias de erros e insultos.. este uso pode ser conflitante embora seja um fator totalmente positivo para a dinâmica do local. por pedaços de pau formando espécies de traves em um final de semana agradável e se deparou com crianças correndo de um lado a outro atrás de uma bola na busca incessante do gol?! São situações como essa que o planejamento urbano deveria se basear para desenvolver projetos que supram à necessidade e demandas de determinadas áreas. segundo Jacobs. Novos barulhos... matérias. parquinhos. As ruas e calçadas. a cidade é um grande papel rascunho. conseqüentemente. São os únicos “espaços concretos” devido ao fato de não haverem áreas públicas convidativas para atrair este contingente populacional. pois eles são diferentes tanto no sentido social quanto cultural e econômico. Em muitos casos. Diagnosticar os problemas de um bairro e tentar resolvê-los antes que tome proporções alarmantes é um dos principais fatores que torna uma vizinhança bem sucedida. Quem nunca passou por uma rua. analisada. a dominar todas as paisagens. ainda mais porque ele é parte integrante da mesma. um território de relações no qual cada cidadão/cidadã busca satisfazer suas necessidades e realizar seus quereres. destinada à passagem de carros. pois é nelas que se dá toda a integração e convivência de uma sociedade. para quando necessário derrubar as barreiras invisíveis criadas pela própria sociedade. que podem dificultar ou não a convivência entre os cidadãos e o espaço urbano. sendo que os principais protagonistas do uso e ocupação das ruas e calçadas são as pessoas. a cidade é.. “Muito mais do que um espaço urbano fechado. O bairro é um misto. existem profissionais sérios. encontrando possíveis erros e fracassos para serem melhoradas. tanto positivos quanto negativos. em especial as de baixa renda. quadras e playgrounds particulares. recortado por ruas e avenidas. Limite este abstrato.. As pessoas que vivem em determinadas ruas e calçadas não devem esquecer que fazem parte de um bairro e conseqüentemente de uma cidade. as ruas são os únicos “espaços concretos” onde as crianças podem despejar toda sua energia e vivacidade. As relações devem ser muito maiores e ter compromisso com as causas e representar bem àquela comunidade. Ela é composta e compõe uma rede de fluxos de pessoas. as crianças se limitam a usufruir somente das ruas e calçadas. Na falta de opções e de espaços públicos. pois não possuem.Para a autora. ruídos e aromas se instalam na presença delas. energias em constante movimento. onde a teoria deveria ser posta em prática. sem dúvida alguma. Claro que esta integração implica em conflitos.. pois a imaginação de uma criança pode alcançar vôos bem altos! De certa forma. As ruas e calçadas ganham mais vida e espontaneidade com a presença de crianças. de usos e atividades que transmitem uma visível “independência”.) É uma realidade viva. Esta “mudança” de uso das ruas e calçadas é um processo natural. as cidades passam a ser não funcionais. (. como em condomínios fechados. fechada. são os órgãos vitais de uma cidade.” (1) O contato transmite mais vida às ruas e calçadas e este contato não deve ter limites físicos. pulsante. mas não é isto que acontece. . construído com blocos de concreto e lajes de aço. comprometidos e dispostos que buscam compreender a grande diversidade do funcionamento urbano e social.. Esta. etc. principalmente. Um bairro. Existem aqueles que são mais valorizados. Percebe-se. e de uma alimentação saudável. de forma a casar um com o outro. de certa forma. e aqueles que crescem sem planejamento. aqueles que são planejados para se tornar uma cidade dentro da própria cidade. Creio que a grande lição do livro é a de que o mundo precisa de políticas liberais. E os preceitos desenvolvidos no urbanismo. Além disso. pode conseguir bons benefícios que irão refletir. sintetizar na forma de um livro uma correlação entre o liberalismo e o planejamento urbano. Como já comentei com amigos. dentro da escola conhecido por New Urbanism. e tenho procurado contruir é uma teoria urbana capaz de dar conta desta relação. tem feito uma leitura muito porca da obra de Jane Jacobs. econômica e cultural torna-se um retrocesso. um dia. que despertam um maior interesse econômico das camadas superiores. Jane Jacobs não fornece esta teoria de modo completo. é mais ou menos abrangente sobre a história da disciplina. e várias percepções sobre a realidade que ocultam diversas premissas. O que me falta. tanto americana como brasileira. então. A primeira vista pode-se perguntar o que uma epígrafe de John Maynard Keynes estaria fazendo na introdução de uma resenha sobre o livro de Jane Jacobs "Morte e vida de grandes cidade". totalmente desordenados e sem infra-estrutura para comportá-lo. Porque a autora parte de um .A conformação espacial de um bairro está diretamente ligada à história da relativa cidade. Tampouco teria o mesmo aproveitamento caso não fosse estudante do tema desenvolvimento urbano e regional. Requer uma análise macro e micro-urbana. Mas é na diversidade que encontraremos a resposta para muitos dos problemas criados pela mentalidade (para usarmos um chavão e ao mesmo tempo um conceito) fordista que se implantou em nosso meio. que o planejamento urbano e de reurbanização de uma determinada cidade não é nada fácil. na própria imagem da cidade. e se não tivesse uma forte aversão ao planejamento municipal nos moldes que se tem desenvolvido. que apesar de pequeno. Esta resenha sobre o livro será comprida. a depender da participação popular. Acredito que o livro de Jane Jacobs não teria para mim o mesmo sentido se eu não tivesse o conhecimento que tenho sobre economia. 3. buscando sempre a percepção de como funciona esta cidade e das necessidades mais urgentes da população. que as cidades necessitam destas políticas e as pessoas também. acabam descambando para uma ideologia de controle social que inviabiliza a própria aplicação do princípio da diversidade sobre o meio urbano. não perceber a vivacidade que as ruas e calçadas apresentam e sua enorme função social. como e quando ela teve surgimento e se desenvolveu. mas dá aulas e mais aulas sobre o que é a base fundamental de uma vida urbana saudável: a diversidade. apesar de não dizer isto diretamente no livro. Meu grande sonho profissional é poder. E há vários temas que cabe explorar separadamente. A resposta a esta questão é simples: o planejamento urbano que matava as cidades americanas. na visão de Jacobs é o mesmo proposto por Keynes. é a mesma receita de uma economia saudável. bem detalhada. porque o livro é ele próprio muito comprido. a esquerda universitária. de Le Corbousier.. É a base da constituição americana.) cristalizar o poder. dos arquitetos e urbanistas americanos. o meio urbano.princípio fundamental que é idéia de que as pessoas são capazes de identificar os próprios interesses e lutar por eles. e que pode ser diretamente relacionado com a sugestão de Keynes que compõem esta epígrafe: "O planejamento urbano convencional trata os cortiços e seus habitantes de forma inteiramente paternalista. mas todas marcadas pela mesma premissa básica: mudar o homem. ao Estado. 2001. por uma nova aristocracia de especialistas em planejamento urbano altruístas[1]. Na página 302. Dentre os objetivos do planejamento a ser atingidos pelos planos físicos. porque igualdade significa." (JACOBS.) sob as diretrizes rígidas de um plano empresarial monopolista [de forma a reinstaurar] uma sociedade estática. na maior parte das vezes. o que certamente são. cujo fundador é Ebnezer Howard. As forças necessárias para a criação de ruas capazes de oferecer segurança e diversidade para seus freqüentadores e moradores e as forças que impedem este mesmo desenvolvimento. de certa forma. as cidades devem ser pensadas a partir do ponto de vista das relações sociais nelas desenvolvidas. para perseguir os próprios interesses. na visão da autora: 1. convivência e proximidade. e os usos e os aumentos de recursos financeiros segundo um modelo estático. Para solucionar o problema dos cortiços. e este é o combustível do dinamismo econômico. as pessoas. O problema dos paternalistas é que eles querem empreender mudanças muito profundas e optam por meios superficiais e ineficazes.. 302) Jacobs adota o princípio de que a cidade é uma obra coletiva que pertence às pessoas. São ideologias aparentemente distantes. Fomentar ruas vivas e atraentes. isto é. a ideologia da beautiful city. que culmina no modo de fazer e compor cidades conhecido pela arquitetura modernista. que abrange. Jacobs critica o que chama de planejamento urbano ortodoxo no começo do livro. em tudo que fosse importante.322 que o objetivo de Howard era: "(. quando Jacobs fala do problema dos cortiços. não ao poder público. De certa forma. Como ela mesma afirma na p. a ideologia da Ville Radiouse. prefeitura ou. a meta deve ser. e esta premissa é especialmente verdadeira para as grandes cidades. isto é mais uma esperança e um axioma que uma verdade ou um consenso. de modo mais genérico. governada. social e cultural das cidades. as utopias do final do século XIX sobre o que seriam sociedades perfeitas: a ideologia das cidades jardins. transformar a natureza humana por meio da transformação do meio humano por excelência. ela coloca o pressuposto que baseia suas políticas. que diz que cada cidadão deve ser livre para buscar a felicidade. facilmente controlável (." Jane Jacobs também se preocupa em apresentar as estratégias necessárias para poder financiar as melhorias urbanas e superar os cortiços.. precisamos encarar seus habitantes como pessoas capazes de compreender seus interesses pessoais e lidar com eles.. A idéia de que todos são iguais perante a lei também norteia o princípio fundador da diversidade. Por isso. . que em seu título original é mais específico. A maior parte dos usos surge da interação entre as solidões humanas. a construção da individualidade face aos outros é dada pelos usos e costumes. Neste ponto do livro. ou Grande Praga da Monotonia como chama a autora. creio que há uma compreensão profunda por parte de Jane Jacobs do que é uma sociedade humana. Como bem ressalta o filósofo espanhol José Ortega-y-Gasset. Jacobs compreende esta necessidade da vida urbana. 4. pela disseminação da "urbanidade" entre as pessoas recém chegadas às grandes cidades. Esta observação decorre na idéia muito clara que Jane Jacobs tem do que é uma grande cidade: grande cidade não é uma coleção de cidades pequenas. Não precisamos dizer bom dia para uma pessoa que divide conosco o leito durante a noite. fazemos trocas e compartilhamos os espaços públicos nos são predominantemente desconhecidos. e pela capacidade deles de intervir em favor de outros desconhecidos em caso de necessidade que só é possível através dos códigos implícitos de conduta. ou seja.2. 3. utilizá-los para intensificar e alinhavar a complexidade e a multiplicidade de usos desse tecido. Enfatizar a identidade funcional de áreas suficientemente extensas para funcionar como distritos. praças e edifícios públicos integrem esse tecido de ruas. elas afastam as pessoas. O livro Morte e Vida de Grandes Cidades. Um fato interessante. Esta dinâmica das grandes cidades faz com que o controle social das ruas. Quando as ruas tornam-se monótonas. é que as cidades que a autora procura descrever são aquelas em que é possível o pedestrianismo. A monotonia. Eles não devem ser usados para isolar usos diferentes ou isolar subdistritos. mas este uso é necessário para nos aproximarmos de um indivíduo desconhecido. O maior obstáculo para os deslocamentos a pé e a monotonia das ruas. "The death and life of great american cities". Estas metas do planejamento são obtidas através e diversas medidas discutidas ao longo do livro. que na vida urbana se dá permanentemente entre desconhecidos. trás lições aplicáveis a todas as grandes cidades de diversas partes do mundo. Fazer com que parques. E ruas pouco movimentadas são. seja feito pelos olhos atentos de todos estes desconhecidos. é vista como a maior inimiga das ruas e das grandes cidades. que é exercido apenas parcialmente pela polícia. um chamariz para a criminalidade. e ressalta que o controle social que impede a violência nas ruas é construído pela interação social. justapostas: uma grande cidade é um local onde a grande maioria das pessoas com as quais nos relacionamos. a morte e a vida das grandes cidades americanas. Obviamente que as soluções apontadas para o problema dos cortiços não podem ser simplesmente . mas sempre tendo em mente a promoção da diversidade. Fazer com que o tecido destas ruas forme uma malha o mais contínua possível por todo um distrito que possua o tamanho e poder necessário para constituir uma subcidade em potencial. nas grandes cidades. sejam do estado ou de grandes corporações. A edição original do livro de Jacobs é de 1961. creio que vale a pena comentar o uso que tem sido feito da obra de Jacobs por conta de "urbanistas" brasileiros. O desenvolvimento urbano norteamericano. que criticam a especulação imobiliária mas criam leis de direito de edificação. O que não quer dizer que sua crítica ao urbanismo modernista não tenha servido de base para as obras "pós-modernas". Os subúrbios empurraram a agricultura para regiões áridas do meio oeste. que veja no planejamento e no estado a redenção para uma humanidade degenerada. sua influência entre os idealizadores do Estatuto das Cidades é praticamente nula. e foram feitos na base da associação dos setores bancários e suas hipotecas. mas propõem planos diretores para todos os municípios. contamina as mentes dos planejadores brasileiros. quer pelo capitalismo. seu pensamento para as cidades são tão diametralmente opostos as propostas de Keynes para Londres. em conluio com construtoras de rodovias ligadas às construtoras de condomínios e shopping centers/malls. não a vontade altruísta de algum planejador. principalmente para as críticas que foram feitas aos modernistas. que na segunda metade do século XX se fez quase todo sob a égide da cidade jardim. a iniciativa individual. A obra de Jacobs não é contrária a iniciativa privada. com subúrbios que se estendem por milhares de quilômetros. e que a dinâmica das sociedades abertas é que permite a ascensão social.transpostas para a abordagem das favelas enquanto problema urbano e social. quer pela urbanização ou ainda pela secularização. Mas ainda assim. das grandes freeways. a pobreza ou a riqueza. Para compreender a obra de Jacobs e as demandas . médios e grandes empreendedores. e não deixada a cargo de monopolistas ou oligopolistas. e até então Jacobs aparecia como uma notória desconhecida. suburbano. Ela acredita que a classe média surge da melhoria das condições sociais das classes baixas. e leva ao desperdício de espaço com gramados improdutivos que sequer cumprem adequadamente alguma função ambiental. É uma obra contrária aos técnicos que se julgam esclarecidos e clamam do alto de suas cátedras por déspotas que lhes dêem poder para implantar suas distopias. Por fim. A mesma lógica de desenvolvimento espraiado. Creio que o débito de Edward Soja e David Harvey[2] para com ela seja grande. levou a América a ser um país dependente do automóvel. permite-nos compreender parte da vitalidade e da morbidade de bairros brasileiros das nossas grandes cidades. Jacobs permite-se ser dura com os planejadores. Ao contrário de pessoas que criticam o planejamento urbano. Por isso os ideais de Jacobs. porque. Portanto. que permita que a cidade seja feita e refeita pelos pequenos. O desenvolvimento urbano norte-americano foi especialmente afetado por ideologias do socialismo fabiano de Keynes e todas as intervenções dele decorrentes. Esta obre foi traduzida para o português apenas em 2001. até onde sei não foi militante de qualquer ideologia estatizante. Ela acredita e aposta na capacidade dos indivíduos em seguirem seus próprios interesses e em construir suas cidades e bairros. Jacobs propõem um planejamento não restritivo. ou de Niemayer para as cidades brasileiras. é preciso se desvencilhar de qualquer tipo de ideologia de engenharia social.para a aplicação de seus princípios. . não podem compreender e aplicar as idéias de Jane Jacobs. Os esquerdistas. sejam tucanos sejam petralhas. que procurarei desenvolver em outros textos. Ao devolver para as pessoas o controle. de controle social. Jacobs apresenta uma visão extremamente libertária de cidade. e partir para uma perspectiva que vise descentralização do poder e intervenção controlada e pontual do Estado. porque elas não servem para controle social.
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