Hugo-de-Sao-Vitor-Da-Arte-de-Ler-Didascalicon-completo.pdf

March 28, 2018 | Author: Thyez Ciara Monteiro | Category: God, Science, Reason, Wisdom, Abbey


Comments



Description

Paris vê chegar, no começo de 1100, ondas de jovens vindos de todos os cantos de utna Europa finalmente pacificada, que vivia um novo florescimento das cidades, após as invasões bárbaras dos séculos V-VIII e após a anarquia feudal e sombria dos séculos IX-X. Era um momento cultural único, quando o papel vindo da China, o velino em pergaminhos finos, a tinta dos árabes, a minúscula carolíngia, a adoção da escrita em itálico e a caneta com ponta de feltro facilitavam nas oficinas dos copistas a compilação de livros, que eram encomendados por bibliotecas, juristas, mercadores e senhores. Este florescer do século XII em artes e escolas marca, segundo o pedagogo Ivan 111 ich, o advento da “cultura livresca”, que vem até os nossos dias, quando o livro está sendo substituído pelo video. Hugo de São Vítor é um dos atores desta “revolução cultural do século Xli”. Havia na França três escolas renomadas: a de Chartres, a de NotreDame e, mais famosa, a da Abadia de São Vítor, na margem esquerda do Seria, Delas nascerá, em 1215, a Universidade de Paris. Hugo encarna o espírito da Escola de Sãp Vítor e era .conhecido pelos estudantes como filósofo, teóíogo, exegeta, místico, gramático. Vendo tantos jovens desejosos de estudar, o Mestre Hugo quis oferecerlhes uma introdução ao saber, um livro que apresentasse as várias disciplinas e auxiliasse o estudante a montar o seu próprio itinerário intelectual. Nasce, assim, em 1127, o Didascálicon da arte de ler, resumo dos saberes seculares e divinos da época e exortação acerca do que ler, como ler, em qual ordem ler. Trata-se, na história, do primeiro livro endereçado aos estudantes. Pela primeira vez na história as “ciências mecânicas", isto é, o trabalho manual, passam a fazer parte da reflexão DIDASCALICON DA ARTE DE LER 4 EDITORA VOZES*-'^ ' Coleção Pensaííento Humano - Confissões - Santo Agostinho - Ser e lempo (Parte I) - Martin Heidegger - Ser e tempo (Parte U) - Martin Heidegger - Sonetos a ürfeu e elegías de Duíno - R.M. Rilke - A cidade de Deus (Parte I; Livros 1 a X) ~ Santo Agostinho - A cidade de Dem (Parte //; Livros XI a XXll) - Santo Agostinho - O Uoro da divina consolação (e outros textos seletos} - Mestre Eckhart - O conceito de ironia - S.A. Kierkegaard - Os pensadores originários - Anaximandro, Parmênides e Heráclito - A essência da liberdade humana - F.W. Scheiling. “ Fenomenología do espirito (Parte I) - G.W.F. Hegel - Fenomenología do espírito (Farte II) - G.W.F. Hegel - Hipérion ou o eremita na Grécia - Friedrich Hölderlin - Da rct'iraira//íz das valores - Max Sch el er - Investigações filosóficas - Ludwig Wittgenstein - Verdade e méforfo - Hans Georg Gadamer - Hermenéutica - Friedrich D.E. Scli leier mâcher - Didascdlicon da A r f e de Ler ~ Hugo de São Vítor Coordenação: Emmanuel Carneiro Leão Conselho Editorial Hermógenes Harada Sérgio Wrublewski Cilvan Fogel Arcângelo R. Buzai Gilberto Gonçalves Garcia Mareia Sá Cavalcante Schuback Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) de São Vítor, Hugo, 1096-1141 Didascálicon da arte de ler / Hugo de São Vítor ; Introdução e tradução Antonio Marchtonni. - Petrópolis, RJ ; Vozes, 2001. Título original; Didascaticon de Studio Legend! Bibliografia, ISBN 85.326.25:17-1 1. Conliecimenlo 2, Filosofia medieval 3. Livros e leitura I. Marchionni, Antonio. II. Título. 01.0209 CDD-028 índices para catálogo sistemático: 1, Arte de 1er ; Obras medievais 028 . por sua vez. mas um ato desta e. precisamente quando se pre­ vé para o livro um outro status ou um outro destino. é agora tornado acessível ao público de língua portuguesa. como fruto. destinado a fazer-se árvore. Isto o Vitorino logra à saciedade. Che­ ga o momento de dar-lhe a palavra. para que ele a dé. no que Ihe cabe. a constitui. ao mestre medieval da arte de 1er. não apenas acolhe e transmite. ele próprio. mas nela integra o que colhe em seu meló e em seus tempos. preservando-a qual movimento ativo.UNICAMP . O fruto que produz. Francisco Benjamín de Souza Neto Professor Livre-Docente do Depto. bem como. Antonio Marchionni. do labor académico do Dr. como tal. o exato contrario de um depósito.trina. de Filosofia . o livro do Vitorino não é apenas um marco da tradição. que naquele momento iam adquirindo uma nova vitalidade após os séculos da anarquia feudal. I. 1991. sobre a arte de 1er de Hugo de São Vítor). de um "antes e após Hugo”. prancheta onde leremos on Une via rádio jornais. diz Illich. Os autores da época costumavam dar às 1. (Da arte de ler. Prefácio) O leitor de língua portuguesa tem em mãos. em que ordem se deve ler. Em inglés: !n the Vineyard of the Text: A Commentary to Hugh's Didascalicon (Na seara do texto: comentário ao Didascálicon de Hugo de São Vítor). o leitor jovem e adulto mergulha no mundo cultural do começo do segundo mi­ lênio. este livro de Hugo de São Vítor é considerado um divisor de águas no saber mundial.. que daria vida à Universidade e dura­ ria até 0 começo deste terceiro milênio. Percorrendo a obra Da arte de ler. como se deve ler. du Cerí. incitando seus jovens a "ler tudo”. Com efeito. Éd. Illich. University of Chicago Press. de maneira a poder-se falar. sur VArt de lire de Mugues de Saint-Victor (Do lisívcl ao visível. quando o livro está sendo substituído pela página eletrônica. O título completo é Didascálicon da arte de ler (Didascalicon de Studio Legendi). París.INTRODUÇÃO "São três as regras mais necessárias à leitura. revistas e livros. Esta obra de Hugo é mais conhecida como Didascálicon. uma por uma". . um dos livros medievais atualmente mais lidos nos círculos culturais do mundo. saber o que se deve ler. Du lisible au visible. 1993. Hugo estava inau­ gurando aquela era do livro. quando os jovens de toda a Europa acorriam para as esco­ las das cidades européias. finalmente. Sobretudo depois que o famoso pedagogo Ivan Illich escre­ veu Du lisible au visible\ que é um ensaio sobre a revolução inte­ lectual do século XII a partir do Da arte de ler. Neste livro se trabalha sobre estas três regras. Jesus.é a nossa origem. Mas esta Sapiência não é alguma coi­ sa.suas obras um título grego e o termo Didascálicon queria sig­ nificar ‘‘coisas concernentes à escola”. A grande salacom abóbadas ogivaís ressoa o burburinho dos jovens alunos. a Mente de Deus. sentindo sobre si os olhos sagazes da classe. na qual reside a forma do bem perfeito”. não traduzi­ ría bem a pregnâncía do latim Sapientia. 0 termo sabedoria.: *'De todas as coisas a serem procuradas. o Verbo. o Verbo e Filho de Deus. Os alunos se levantam. 0 Logos. conhecemos a nós mesmos. Por que esta Sapiência deve ser a primeira a ser procurada? Porque ela . eles fixam os olhos na entrada da sala. por exemplo.continua o Mestre . onde finalmente aparece a figura do renomado Mestre Hugo. Faz-se si­ lêncio. como é usado por Hugo de São Vítor na esteira da tradição patrística e posterior. Conhecendo-a. mais usual na língua portuguesa falada. leitor. o Mestre declama pausadamente a primeira frase do livro. a primeira. 0 Pensamento divino.. Nós preferimos apresen­ tar esta tradução com o título Da arte de ler e o subtítulo me­ nor Didascálicon. A primeira é a Sapiência Nesta Introdução e em toda a Tradução do livro.. No silêncio total. expressão que encontramos também no Dr dascálicon da arte de ler (IV. o primeiro dia de aula no começo de se­ tembro de 1127 na Escola de São Vítor em Paris. Senta. mantere­ mos 0 termo Sapiência significando a Mente de Deus. e todos sentam. entre to­ das as coisas. que segura na mão seu últi­ mo livro apenas escrito: Didascálicon da arte de ler. que vieram dos quatro cantos da Europa pacificada. Em Agostinho e em Francisco de Assis. Com efeito . um estágio do conhecimento ou uma sabedoria qualquer. a primeira é a Sapiência. é invocado como "a Sapiência do Pai” (Sapientia Patris).es10 . Curiosos. É a Segunda Pessoa da Trindade. O Mestre sobe à cátedra e entoa uma reza de iluminação.explica Hugo . Imagine você. Ao jovem aluno é logo ensinado que a Sapiência é. 8). A Sapiência é Alguém. na sua forma boa. pessoa alguma. na Sapiência. tudo aquilo que o homem quer saber sobre si mes­ mo está lá. O mundo e o homem estiveram dentro da­ quela forma e foram moldados por ela antes de serem criados.começava o ano escolástico na Escola da Abadia de São Vítor. I.lava escrito na trípode do templo de Apolo em Delfos o famoso ditado: "Conhece-te a ti mesmo”. não despreza escrito al­ gum. Basta olhar para dentro de si. o que significa para o ho­ mem conhecer-se a si mesmo. lê tudo. que é bom e perfeito. lendo. Ela é. O homem medieval vivia com as antenas viradas para o alto. seguido pelo ato de refletir e enfim pelo ato de contemplar. Em segundo lugar. pois nenhum texto há. nada mais é que um exercício de amizade com Deus: "A procura da Sapiência é uma amizade com a divindade e com a sua pura mente” {Sapienti­ ae studium est divinitatis et purae mentis illius amicitia. antes de tudo. Em suma. Era normal inaugurar um ano escolar com urna exortação de cunho espiritual-metafísico.. 2). esta forma transfere a sua bondade perfeita para todo o univer­ so. E como é que o homem chega a conhecer esta Sapiência? Hugo responde que tudo começa com o ato de ler. sondando os sinais do eterno.. que não tenha algo a ser aproveitado. Estudar. quando é lido no tempo e no modo apropriado” {III. na margem esquerda do rio Sena. Em vão . diz Hugo. ou como 0 arquiteto engendra a casa na sua mente antes de transpô-la para a prancheta. portanto. bom. descobrindo em si os traços da Sapiência. O mundo é bom. Mas. Com esta saudação programática . senão conhecer a sua própria ori­ gem. a filosofia. Por isso. como a massa de areia e cimento é posta numa fôrma ou molde antes de vi­ rar tijolo.procurem primeiro a Sa­ piencia! . é a forma do mundo. Como forma causai que cria o mun­ do. O homem é. contrariamente a quanto acontece 11 . 0 lugar divino de onde veio? A Sapiência é forma do bem perfeito. A leitura. significa conhecer a Sapiên­ cia. da mesma forma que o filho se autoconhece descobrindo em si a fôrma genética do seu genitor. originariamente.o homem procura conhecer fora de si aquilo que ele é. "ouve corn prazer todos. é o começo do saber O bom aluno. 13). que começa com a leitura. na sua origem. a forma do próprio Deus. doutrina alguma. no seu arquétipo.diz Hugo . Hugo injetava nos jovens uma gran­ de fome de ler e saber. Criando o mundo. Deus. Nele. Este conceito de Ratio é um dos mais importantes na filosofia do Da arte de 1er. que dá ao mundo a existência (causa agente). tudo é explicado com a luz da razão. entre os maiores luminares da cena cultu­ ral de Paris e da Europa. A razão lógica é um fato hu­ mano.hoje entre nós. cujo ponto de partida c a existência do Ser Transcendente. nos 3 últimos livros. 12 . como faria a teologia. onde ficava a Abadia de São Vítor.se lógico tudo aquilo que está na mente humana. de uma filosofia cristã. de sua pró­ pria ordem. a forma (causa formal). em Da arte de 1er. Não longe da Escola de São Vítor. Hugo ensina como 1er os livros sagrados. de onde desciam os vinhedos até o vale. claramente. onde os jovens se encanta­ vam com as argumentações do Mestre Abelardo. a finalidade (causa final). que questionaríamos como ingerência indevida da religião uma exortação deste tipo diante de uma classe. ao redor de 1200. Deus dota-o de sua própria racionalidade. é definido por Mugo sobretudo com a palavra Razão {Ratio). Destas escolas nascerá. a Universi­ dade de Paris. Abelardo é mais exegético e lógico. antes de tudo. uma ordem. na primeira metade do século XII. Deus é. Uma filosofia cristã Da arte de 1er é. Trata-se. é a regra do pensar mental na condução do saber científi­ co. um texto de filosofia. na Ilha do Rio Sena. a ma­ téria (causa material). em si. havia. como faz a filosofia. uma inteligência racional. a de Notre-Dame. Nele não se faz recurso à autoridade dos livros sagrados. I. o faz numa compostura racional. Os mestres Hugo e Abelardo brilham. A razão dos modernos é apenas a capa­ cidade cognitiva e discursiva do homem. Mesmo quando. A Sapiência criadora é "A Razão única e primeira de todas as coisas” {sola rerum primaeua ratio. Em seguida. Ela é uma função neurológica do cérebro humano. filosófico e teológico. uma outra escola. uma harmonia. 2) Não se trata de uma razão lógica ou instrumental. Abelardo transferirá o seu ensino na colina de Sainte-Geneviève. como nas filosofias modernas. Chama-. sem ne­ nhum parentesco com a divindade. Hugo é mais místico. Deus. inclusive o próprio Deus. Ela é o arquetipo do mundo. a Ratio divina in-forma o mundo. Nisto insere-se o alo de ler. o Comentário de Macrobio ao ciceroniano Somnium Scipionis e os escritos de Boecio inspiram conceituai e verbalmen­ te as páginas do Da arte de ler. antes des­ ta. A Razão Divina.A Ratio do Da arte de ler é a Ratio onto-logica de Alguém que é {ontos) independentemente da mente humana. a reciprocidade da Ratio em seus três níveis: na mente divina. Esta Ratio. 1). Forma perfeita do mundo. simulacrum. no homem. cuja finalidade é introduzir aquele que lê e estuda naquele conheci­ mento que restaura em nós a semelhança com a divindade. sobretudo. mediante a atividade manual do trabalho e. Como restaurar esta ordem? A se­ melhança do homem com a Sapiência é restaurada pelo próprio homem. a di­ vindade do intelecto humano. como ler. é um pouco tudo {omnia esse dicitur. e possui as condições para compreender tudo. E a mente humana. causa e ordem desta. orientais e cristãos a um só tempo. torna-o semelhante a si mesma. divinamente ordenado e harmónico. nela ca­ bendo tudo [universorum capax est. Urna filosofía da educação Enquanto destinado a ensinar o que ler. nesta filosofia de Hugo. I. o Da arte de ler é também um texto de filosofía da educação. encontra-se estendida. decor­ rentes do Timeu de Platão e dos neoplatônicos Filón e Plotino. por que ler. simulacro. semelhança. /. não apenas metaforicamente. parecida com as es­ truturas racionais do universo {rerum omnium similitudine in­ signita. conceitos como a correspondencia entre a alma do mundo e a alma do homem. portanto. Desta Ratio o mundo e o homem são constitutivamente. i). I. a Sapiência. pela atividade intelectual: "somos reparados pelo conhecimen­ to” {doctrina reparamur. a definição do homem essencialmente como alma. Esta ordem racional do homem no universo é continua­ mente ferida no corpo e no espírito pelas formas sensíveis e ma­ teriais que distraem o homem. I. depositada no universo e sobretudo no homem. O Pseudo-Díonfsio. 1). Particularmente vivos são. speculum). Con­ cepção grandiosa do saber humano! É evidente. criando o mundo. espelho {simili­ tudo. 1). na natureza. 13 . o seu parentesco com con­ ceitos neoplatônicos. Era uma espécie de colegial. discutiam-se as sentenças de algum pensador exí­ mio [auctoritas). Galeno e as sumas árabes de Avicena e Averroes. e em seguida proce­ dia-se a questões (quaestio) e discussões (disputatio). Além disso. na história. o primeiro livro peda­ gógico direcionado diretamente aos alunos^. acedia-se às faculdades de teologia. 14 . estudava-se na faculdade das artes o jnvio (três vias. É. direito ou medi­ cina. que duravam 6 anos para adquirir a licença e o doutorado.que neje encq vam um roteiro sobre o^que ler e como ler. música. jovem. conhecendo as maravilhas da natureza. Em direito. e o doutorado em teologia podia ser obtido com a idade mínima de 35 anos. direito e medicina tem a fi­ nalidade de. lição). Fazer artes.ler e o ensinar são um entretenimento com a Mente divina. quer ir mediante o estudo e a leitura? Para onde um professor de então e de hoje quer levar o aluno pelo ato de ensinar? A resposta é clara em Hugo. matemática. que acontecia en­ tre os 14 e os 20 anos. geome­ tria. dialética e retórica) e o qua­ drivio (quatro vias. árabes e dos próprios mestres que davam os cursos. Eip suma. o. o currículo escolar da época. estudavam-se Hipócrates. o Mestre Hugo concebeu a idéia de apresentar-lhes um quadro geral dos estudos e das disciplinas. Depois. para que eles se situas­ sem e pudessem escolher. va­ riável antes da criação das universidades em 1200. Vejamos. cuja virtude suprema é a disciplina. física e metafísica dos filósofos gregos. Para que serve a educação? Para onde você. As aulas costumavam começar com a leitura de um texto de um grande autor {lectio. artes das coisas: aritmética. teologia. Mas 0 estudo da teologia durava de 8 a 15 anos. nele os jo­ vens êhcontravam conselhos sobre as qualidades que fazem do jovem um bom discípulo. Em teologia. por um momento. Em medicina. astronomia). Primeiro. Em artes. artes da linguagem. gramática. mais fixo com a multiplicação delas. estudavam-se os livros de lógi­ ca. estudavam-se princi­ palmente os decretos canônicos da Igreja e a legislação imperial.Vendo aquelas ondas de jovens que chegavam nas escolas de Paris. conhecer o Artífice dela. as quais lhe servem de fontes: o Da Doutrina Cristã de Agostinho (século V). pois aquele que se alimentou da leitura deve alimentar a cidade. 3) declara a intenção da filosofia. a primeira introdução escrita no segundo milênio. VII). 6) dá explicações sobre cada uma das partes nas quais a filosofia se subdivide. responde a todas estas perguntas: 1) elenca quatro definições de filosofia. em seus primeiros três livros. isto é. 4) mostra a sua finalidade. o que é a filosofia. de outros grandes pedagogos. as Institui­ ções das lições divinas e seculares de Cassiodoro (s. vigi­ ando sobre ela como urna sentinela. a primeira definição é a etimológica. o Dà formação dos clérigos de Ha­ bano Mauro (s. a reflexão mais profunda sobre o significa­ do das várias ciências. acrescentando a novidade das ciências mecâ­ nicas. na qual a filoso- 15 . Hugo tinha diante dos olhos outras introduções ao saber. Acerca da primeira pergunta. 5) propõe as di­ visões da filosofia. IX). V). estende-se pelos ambientes sírio-árabes e penetra nos ambientes latinos a partir de Boecio. Os alexandrinos e os árabes foram os primeiros a iniciar o costume de enquadrar estas introduções em seis perguntas: 1) o que é a filosofia? 2) por que é chamada assim? 3) qual é a sua intenção? 4) qual a sua finalidade? 5) quais as suas divisões e subdivisões? 6) o que deve-se dizer sobre cada uma delas? O Da arte de ler. ou melhor. VI). 0 trabalho manual. Urna introdução ao saber O Da arte de ler é também uma Introdução aos estudos. atribuída a Pitágoras.Mas o ato de 1er é também um ato moral e político. o Das núpcias da filologia e de Mercúrio de Marciano Capeila (s. no século V. O termo filosofia era utilizado para indicar o saber em geral. Este gênero de Introduções ao saber nasce em ambientes alexandrinos na metade do século II. 2) ex­ plica a origem grega do termo atribuída a Pitágoras. as Eti­ mologias de Isidoro (s. Trata-se da morte desejada ou física. Repentinamente. chegam até Hugo duas tradições: a) a tradição platônico-estóico-agostiniano-isidorense. é mente viva e única causa primordial das coisas (I. 2\ II. 4. 1). A segunda definição. I). 1). que con­ vém sobretudo aos cristãos. b) a tradição aristotélico-alexandrino-boeciana. o trabalho como parte do saber filosófico Em termos dé divisão gèral do saber e de classificação das ciências. A quarta definição chama em causa a idéia da morte. não carecendo de nada. A preocupação com a morte {cura mortis) é. 1). 16 . nos Padres e na Escolástica. A terceira definição evoca a mentalidade grega: A filosofia é a arte das artes e a disciplina das disciplinas (II. a Sap^ncia. araando-a. a qual. por meio da convivência especulativa já vivem à semelhança da pátria futura (II. Uma novidade na cultura mundial. mas aquele que humildemente procura. II. que divide a filosofia em teórica. que divide a filosofia em físi­ ca. os quais. agostinianos e latinos: A filosofia é a disciplina que investiga exaustivamente as razões de todas as coisas humanas e divinas (I. como disse­ mos. de sabor estoico. O filósofo não é aqúele que possui a Sapiencia. o século XII explode. sob o impacto dos textos greco-árabes e dos primeiros textos científicos de Aristóteles. urna "fontç de sabedoria”: A filosofia é a meditação sobre a morte. subjugada a ambição deste século. prática e poiética. Esta Sapiencia em Hugo é. Deus: A filosofia é o amor e o zelo e em um certo sentido urna amizade para com a Sapiencia. É 0 momento do Da arte de ler. é conhecida em ambi­ entes romanos. que para o estoico representa o grau máximo de liberdade.fia é 0 amor {filia) da Sapiência [sofía). ética e lógica. De 900 a 1100 corre um período de silêncio nas Introduções à Filosofia. bizantinos. a Mente de. em Cicero. medicina. caça. A mecânica engloba 7 ciências: manufatura da lã. pela primeira vez na história. lógica. A lógica se divide em gramática (arte de escrever) e ratio disserendi (arte de argumen­ tar). civil). a arte de argumentar se divide em demonstrativa. A prática se divide em solitária (ética. moral). As 7 ciências mecânicas. geome­ tria. na­ vegação. agricultura. A teórica se divide em teologia. teóri­ ca. armadura. a matemática compreende aritmética.Hugo Introduz uma grande novidade. adquirem o status de saber à parte. acrescentando à filo­ sofia as ciências mecânicas e dividindo-a em quatro partes. pública (política. Eis o esquema: 17 . as sete artes liberais do trivio e do quadrivio situam-se nas subdivisões da matemática e da lógica. Como pode-se observar. mecânica. lazer. dispensativa). provável e sofística. astronomia e música. a provável se divide em dialética e retórica. ma­ temática e física. prática. privada (econômica. Esta divisão quaternária da filosofia em Hugo evidencia uma novidade enorme em comparação com o número 3 recor­ rente nas divisões anteriores. Hugo introduz na divisão do saber as ciências mecânicas, isto é, o trabalho humano. A seguir dire­ mos algo específico sobre este ponto. Isto revela que Hugo ado ta 0 princípio aristotélico pelo qual é necessário haver tantas partes da filosofia quantas são as diversidades dos seres, mas observa que o trabalho do homem tinha ficado, até então, fora da reflexão filosófica. Hugo lê a história e percebe que o tempo estava grávido da necessidade de inserir o agir manual do homem no saber filosó­ fico. E 0 tempo era o do século XII, que representa a aurora de novos dias na Europa e na história da humanidade A “revolução intelectual” do século XII. Da natureza resolvida em teologia à natureza resolvida em ciência e filosofia \ Hugo de São Vítor, juntamente com Abelardo, Adelardo de Bath, Thierry de Chartres, Gilberto de Poitiers, Guilherme de Conches, John de Salisbury, Pedro Lombardo e São Bernardo, integra o grupo de pensadores que, na primeira metade do sécu­ lo XII, interpretam um novo papel da razão no estudo do mundo natural e supranatural. Anteriores de cem anos ao espírito empí­ rico do franciscano Roger Bacon, eles aparecem nas cidades em desenvolvimento da França e da Inglaterra. Discutem literatura, medicina, lógica, gramática, dialética, retórica, geografia, preo­ cupados em descerrar a Razão, a constituição profunda das coi­ sas, e as regras da linguagem na interpretação da ciência. "Nin­ guém pode discutir sobre as coisas - afirma Hugo - se antes não conhecer o modo de falar correta e verdadeiramente”. Trata-se, evidentemente, de uma nova maneira de debruçar-se sobre as coisas da natureza^ Eles não conseguiram avanços maiores nas 2. As mudanças intelectuais implicadas na revalorização do mundo terreno nos séculos Xlt-XCV estão ilustradas no volume de um congresso internacional em La Méndola. Alpes italianos, em 1964: La Filusofia delia Naiura nel Medioevo, Società Editrice Vita e Pensiero, Milano, 1966. 18 ciencias da natureza, porque faltava-lhes o cálculo infinitesimal (descoberto em 1700 por Newton e Leibniz) e faltava-lhes sobre­ tudo a luneta (descoberta em 1600 pelos holandeses e utilizada por Galileu). Antes do ano mil em vão procuraríamos na patrística crista um conceito físico e científico da ordem cósmica. Para os Padres gregos e latinos o mundo é o conjunto das coisas que Deus criou nos seis dias do Gênese. Prevalece o conceito teológico-místico: mais que a estrutura do mundo físico e o estudo das leis que re­ gulam a mecánica do universo, procurava-se neste o vestigium (vestigio) de Deus^ Passados os séculos obscuros das invasões bárbaras (V-VII) e da anarquia feudal (IX-X), séculos de primitivismo, brutalida­ de, destruição, medos e incerteza, ao redor do ano mil desponta a aurora de tempos diversos. Tinha terminado o período das migra­ ções internas de povos inteiros pela Europa, e, com ele, terminava o período das guerras ininterruptas. A segurança européia do ini­ cio do segundo milenio fixa os homens ao trabalho nas campa­ nhas ao redor do castelo senhorial e nos núcleos urbanos, produ­ zindo uma retomada demográfica, que é efeito e causa de uma re­ vitalização agrária. A isso concorrem novidades técnicas, como o arado pesado, a ferradura e o peitoral nos cavalos, a rotação bie­ nal e trienal na semeadura, o acesso aos l^umes com a diminui­ ção de doenças, e o moinho de vento, que se junta ao moinho d’água para moer os grãos e mover aparelhos destinados a curtu­ mes, fabricação de tecidos, trabalho em lenho e empastamento do papel. Generaliza se o costume de vestir-se com tecidos. O aumento da produção agrícola com o fim das guerras pro­ voca 0 aumento da população e da expectativa de vida. O vigor agrícola e demográfico leva ao comércio, ao mercado, às feiras e às viagens, enquanto o excedente populacional faz aparecer no­ vos povoados ao redor da capela do senhor transformada em pa­ róquia e ao redor da igreja-catedral e da residência do bispo, onde se aglomeram refugiados provenientes das glebas. É a ci3. Nardi, B., Sguardo panorâmico alia filosofia delia natura nel Medioevo, em La Filo­ sofia delta Naiura net Medioevo, op. cit^ p. II. 19 dade comunal (íV Comune), fortificada e autônoma como o cas­ telo, povoada por camadas intermédias entre a casta feudal e a ca­ mada rural, com palácios e templos góticos, mercados e praças, onde se cruzam estudantes, engenheiros, artesãos, letrados, notários, advogados, vagabundos, cruzados, mercadores, cavaleiros, clérigos, médicos, juizes e professores. Já não basta mais o esejuema trifuncional, atribuído a Adalberão de Laon, que dividia a so­ ciedade medieval em orantes, guerreadores e trabalhadores {ora­ tores, bellatores, laboratoresf. A cidade ferve de idéias, obras, or­ ganizações e instituições. Isto impulsiona o homem medieval a uma nova estima de suas capacidades, substituindo o medo da na­ tureza misteriosa e hostil com o domínio sobre aquela natureza. No horizonte profissional despontam novas figuras de ju­ ristas, notários, médicos, artistas, professores e mestres, que as­ cendem a cargos educacionais, econômicos e políticos, superan­ do 0 rígido verticalismo feudal e dando vida a uma nova ordem de convivência cívico-comunitária. Em filosofia, à fuga e ao desprezo do mundo substitui-se a estima do mundo, estimulada pelas obras do Pseudo-Dionísio (s. V), cuja Hierarquia, comentada por Scoto Eriúgena e pelo próprio Hugo, lança nova luz sobre o operar construtivo e terre­ no do homem em sinergia criativa com o Sumo Bem. A razão se pretende uma instância cognitiva com estatuto próprio, intensi­ ficando seus serviços ao mundo e à natureza, que se tornam te­ mas das escolas de Chartres e de São Vítor. Isto acontece sobre­ tudo na França capetíngia, revigorada econômica e culturalmen­ te pelo rei Luís VI, enquanto a reforma gregoriana promovida pelo monge cluniacense Hildebrando, futuro papa Gregorio VII; injeta nos ambientes eclesiásticos novos ardores espirituais com novos desafios jurídicos, exegéticos, apologéticos, teológicos, organizativos e curriculares. Aumenta o nível cultural do clero e, conseqüentemente, dos funcionários públicos, enquanto as es­ colas, que até então eram administradas pelas abadias benediti­ nas sob 0 signo do espiritual, transferem-se para as catedrais e 4. Le Coff, J., Le travail dans les systèmes de valeur, em Le Travail au Moyen Age, Actes du Colloque international de Louvain-la-Neuve, 1987, Louvain-la-Neuve, 1990. 20 outras instituições canônicas, com enfoques naturalísticos so­ bre a ciência, o indivíduo e a sociedade^ Nestas escolas começa a modernidade, quando a tradição e o princípio de autoridade {traditio e auctoritas) são acrescidas pela indagação e disputa {quaestio e disputatió), ou seja, pelo debate criativo, que será o cerne do método escolástico de ensino. Em física registra-se a inventividade de um renovado espíri­ to empírico, de modo que hoje se fala de uma “revolução intelec­ tual do século Xíl”, um gênero de iluminismo medieval a meio caminho entre o iluminismo de Mileto de 600 aC e o iluminismo francês de 1750®. Na verdade, trata-se de mais um renascimento acrescido à renascença carolfngia do século IX e à renascença de 1500. Alguns, reservando o termo renascença ao século XV, preferem falar, com relação às outras renascenças, de pré-modernidade ou proto-renascença^. Propensa a ver a Idade Média dos séculos XII e XIII como o ápice da metafísica e como ascensão para a síntese clássico-cristâ de Santo Tomás e Dante Alighieri, a historiografia moderna apenas últimamente começou a dar atenção ao aparecer de uma mentalidade empírica entre 1075 e 1150. A novidade do século XII é sintetizada por Bruno Nardi nestes termos; a uma física lida em chave teológica se junta uma físicajida em chave filoso* fico-científica. E, para confortar esta afirmação, costuma-se re­ correr a duas expressões de Hugo de S. Vítor, a primeira indican­ do a interpretação religioso-alegórica do mundo, a segunda real­ çando a interpretação científica do mundo: 1) Este universo sensível é como um livro escrito pelo dedo de Deus, isto é, criado pela força divina, e todas as criaturas são como figuras não inventadas pela vontade humana, mas organizadas pela vontade divina para manifestar a Sapiência de Deus {De tribus diebusf. 5. Morris, C., The Discovery of the Individual 1050-1200, London 1972. 6. Haskins, C., The Renaissance of the Twelfth Century, Cambridge, 1927. 7. Giard, L, Hugues de Saint-Victor cartographe su savoir, em L'Abbaye parisienne de Saint-Victor au Moyen Âge {Biblioteca Victorina 1), Paris-Turnhout, Brépols, 1991, 253-269, p. 255. 8. Hugonis deSancto Victore, De Tribus Diebus{lÀberVl \ ào Didascàlicon), PL 176,814. 21 2) A natureza é um fogo criador que nasce de alguma força para gerar as coisas sensíveis. De fato, os físicos dizem que todas as coisas são geradas pelo calor e pela umidade {I, 11). Caráter típico desta revolução intelectual no século XII é, segundo Ivan lilich no livro acima citado, a revolução do livro ou cultura livresca. O papel vindo da China via Toledo, o velino em pergaminhos finos, a tinta, a minúscula carolíngia, a adoção da escrita em itálico e a caneta com ponta de feltro facilitam nas ofi­ cinas dos copistas {scriptoria) a compilação de livros, que são encomendados por bibliotecas, juristas, mercadores e senhores. 0 Livro da revelação, do doutor, do filósofo, da autoridade, é agora ladeado por livros de professores e pesquisadores, com ín­ dices, parágrafos, resumos, palavras-chave e, em geral, uma nova organização técnica e estética da página. Ao copista se acrescen­ ta 0 autor {auctor, do latim augere, aumentar, aquele que au­ menta 0 saber), à leitura monacal acrescenta-se a invenção esco­ lástica, à narração a reflexão, à leitura a compilação, à escuta a disputa. 0 homem aprende a manusear os conhecimentos ao in­ vés de apenas lê-los e a novidade do ato de escrever cria a novi­ dade do ato de ler e ensinar. De acordo com Illich, do mesmo modo que a substituição dos ideogramas pelo alfabeto fenicio no século VIII aC signifi­ cou a primeira revolução cultural da humanidade, que deu o nascimento à filosofia grega, ã cultura livresca do século XII re­ presenta a segunda revolução cultural da humanidade, que dá origem à Universidade. Gutenberg, três séculos depois, apenas acelerará com a tipografia esta nova onda cultural desencadea­ da no século XII. Hoje, segundo Illich, com a aparição do vídeo-livro, estamos assistindo à terceira revolução cultural da hu­ manidade, que dará origem a não sabemos quais novos campos do saber pelo ciberespaço. É esta a época que o Da arte de ler de Hugo interpreta. Alguns dizem que data destes anos o início da era moderna, quando desaparecem da cena bizantinos, árabes e povos invaso­ res e entram em ação as cidades do centro e do norte da Europa, juntamente com o aparecer das escolas de direito de Pavia, Mi- 22 É a tese de Taylor. O nascimento da Escola de São Vítor é datado de 1108. herdeira da tradição e partidária das reformas. espiritual e intelectual. os primeiros vidros sustentados com chumbo davam início à arte gótica nas janelas da Igreja de Saint-Denis em Paris. e se instala em urna ca­ pela em honra de São Vítor. Sapiência e ciência {sapie n f i a et scientia). Laon.. Verona e Bolonha. cônego e professor. 1991. Mantova. Notre Dame. }. Notre-Dame. Hugo nasceu em Ypres. da escola médica de Salerno e. 10. P„ Hugues de Samt-Vidor et son École. a Chanson de Roland celebrava o Sacro Romano Impé­ rio e dava início às literaturas autóctones. quando as primei­ ras cruzadas conquistavam Jerusalém. Segundo Baron. das escolas filosófico-teológico-Jiterárias de Chartres. A cavalo entre o antigo e o moderno. na margem es9. Notes biographiques sur Hugues de Saint-Victor. contemplativa e ativa. Saint-Victor. lirepols. os mosteiros cistercienses eram erguidos sobre a disciplina do trabalho manual e inte­ lectual. Hugo nasce ao redor de 1095. é encarnada pela Escola de Sâo Vítor.. e chega a Paris ao redor de 1115. 1956.The Origin of Early Life of Hugues of Si. 1957. Eram os dias de grandes acontecimentos. E dentro da Abadia de São Vítor é o Mestre Hugo. Victor: an Evaluation of the Tradition. no norte. ano em que o arquidiácono Guilherme de Champeaux deixa a Ilha da Cidade (île de la Cité). 23 . o cristianismo se re­ novava nas leis e no espírito. p. R. Sicard. São Vítor é uma escola interna e ex­ terna. morrendo em 1141. Baron. 60. cf. provavelmente na Saxônía*®. da teologia simbólica para o debate dialético. "Revue d'histoire ecclésiastiques". A Escola de Sâo Vítor: lugar e tempo de transição A complexa e inexorável passagem do simbolismo da nature­ za para a pesquisa sobre a natureza. o tratado de Worms punha fim à contenda das investiduras. onde ensinava. que encarna o espírito da Escola. deri­ vando daí a expressão Hugo e sua Escola^. p. tios Flandres. 920-934.Jâo. com alguns anexos. terminada em 1530. o abade Gilduíno. iniciando logo urna escola. quando este ardor diminui. três vicários. parece. que. mas os meios financeiros e fundiários da abadia são re­ lativamente escassos. que foi discípulo e crítico de Gui­ lherme na questão dos universais. o no­ viciado. Hugo é certamente espectador atento a estes trabalhos. que fazem de São Vítor um rico complexo da capital. Em sua Historia das minhas desgraças. A partir desta data. que nomeia Gilduíno como primeiro prior.abadia é assim formado. Os cônegos de São Vítor organizam-se em uma Ordem com uma Regra e um cerimonial. um vice-prior. feito bispo de Châlons. enquanto o fundador Guilherme. um ecónomo. trazido por um rico tio arquidiácono de Halberstadt. Em 1114 a abadia é reconhecida pelo papa Pascal II. enquanto as casas da Ordem se ra­ mificam na França e fora dela até o final do século XII. Em 1113 o rei Luís VI promove o local a abadia e a entrega aos cônegos de Santo Agostinho. três clérigos. a enfermaria de 60 metros com uma capela. em 1148. À volta de 1115 chega o jovem Hugo. Ao redor de 1125 a abadia possui preben­ das e terrenos espremidos entre a montanha de Sainte-Geneviè­ ve e a île. lá morre em 1121. conta que este "no próprio monasterio para onde se retirou por razões religiosas. Ao redor de 1135 o capítulo da . doou o dinheiro para construir uma nova igreja e as moradas monásticas. que era também confessor do rei. um local reservado aos estudantes externos de São Vítor. as salas do 24 . quatro diáconos.querda do Sena. 0 prior Eudes. Em 1504 um raio destrói a igreja e sobre ela é construída uma nova. abriu uma escola pública". um mestre ou magister (Hugo). um pátio quadrado de 30 metros ao redor do qual situam-se o refeitório e os dormitórios dos clérigos. Abelardo. a biblioteca. Ao redor da igreja ficam a casa reservada ao bispo de Paris. ao qual. estátuas e decorações. Na metade do século XV se procede a traba­ lhos de restauração e ampliação. um edifí­ cio de 25 metros de comprimento reservado à escola. é anexada também a abadia de Sainte-Geneviève. três subdiáconos. a abadia recebe uma onda de simpatia e um afluxo de doações. a julgar pela cura com a qual descreve os utensílios e as ações da construção civil em Da arte de 1er. restam da antiga abadia alguns poucos locais restaurados. André (m. Achard (m. ornamentações em estátuas e pinturas. é protegida pelos reis e pelos papas. Garnier. Go­ do f redo. Adam. Hugo distingue-se como cartó­ grafo do saber. Tomás Gálico. cartas e sermões. filósofos. e em . filósofo. sábios. pregadores. lá encontramos em 1134 o jovem Pedro Lombar­ do. a escola vê florescer teólogos. Os moradores do povoado próximo à abadia se adentram nos terre­ nos da mesma. sobre os quais foram erguidas construções. contemplativo e místico. o complexo de São Vítor é destruído quase totalmente pela Revolução Francesa. De lá são escolhidos cardeais e confessores de reis e papas. força intelectual e força política. O scriptorium da Abadia fervilha de minia­ turistas e escreventes de tratados. e 0 número delas parecia notável já em 1154 ao cronista Ro25 . O desenvolvimento intelectual da Escola de São Vítor regis­ tra algumas décadas de ouro. Após ter recebido. no século XVIII. para lá bispos e arcebispos dirigem-se para fazer reti­ ros espirituais. teó­ logo da história. 1175) destaca-se na prática da exegese bíblica e da crítica textual. provavelmen­ te. Ricardo (m. perto da atual Rue de Saint-Victor. pelas bibliotecas. Em lógica e teologia bri­ lha Guilherme de Champeaux. pedagogo. discípulo de Hugo. mas um relatório de 1803 assinala o estado de precariedade total do conjunto. 1171) é teólogo e místico. ocupadas pelo Corpo dos Bombei­ ros da cidade de Paris. A obra de Hugo O Mestre Hugo impressiona pela fertilidade em obras escri­ tas.capítulo. leitor da Escritura e hermenêutico. pelas casas privadas e pelas escolas. Estimula­ da pelo ensino de Hugo. 1173) é autor fecundo em pedagogia e mística. O que resta depois dela permanece sob a autoridade do Império. poetas. A Abadia.1813 a abadia de São Vítor desaparece dos mapas urbanos. que vão de 1125 a 1185. gramático e geómetra. Brilharam também os nomes dos Mestres Gauthier. cuja produ­ ção manuscrita se espalha pelos departamentos da administração real. Hoje. confessores. acolhido por recomendação de São Bernardo e. Está em prepara­ ção uma nova edição de todas as obras de Hugo por iniciativa do Hugo-von-Sankt-Viktor Institut.. agora. PL 202. di­ vididos em obras exegéticas. recentemen­ te aceito como autêntico. catalã. 176. Dos sacramen­ tos da fé cristã. Tomus 175. A Patrología Latina de Migne reúne em três volumes^^ o acervo de obras.177. O manuscrito mais antigo de que dispomos {Vaticano Regina 167). italiana. Da união do espírito e do corpo. número aproximado que se man­ tém até os nossos dias. Robert de Torigny. que são as de Paris em 1518 e 1526. Os manuscritos posteriores à primeira organização das obras. místicas e epístolas. alemã. Vários livros do Vitorino foram traduzidos em língua france­ sa. Entre as obras de Hugo mais recordadas e comenta­ das encontram-se: Didascálicon da arte de ler. quando este registrava que o mestre Hugo “es­ creveu tantos livros que não haveria modo de enumerá-los. 12. 11. datado da metade do século XII. de Veneza em 1588. Da arca mística de Noé. Com centenas de manuscritos espalhados por 45 bibliotecas européias. op. or­ denada pelo abade Gilduíno em 1152. em Frankfurt. quando os estudiosos fazem consistir as obras de Hugo em 48 títulos autênticos e oito duvidosos". já listam 54 títulos. de Magonza e Colônia em 1617. Soliloquio sobre o penhor da alma. o Descrição do mapa do mundo. 13. tão espalhados eles estão”". flamenga. Em louvor do Amor. de Rouen em 1648. Da arca moral de Noé. Sobre o Eclesiastes. Da essência do amor. as obras de Hugo foram objeto de várias edições. cit. De immutatione ordinis monachorum. enumera 15 tratados de Hugo. de Migne em 1854 e 1879.bert de Torigny. na Alemanha. também portuguesa. P. dogmáticas. Dos três dias. Baseamo-s esta afirmação na bibliografia oferecida por Sicard. Sobre a hierarquia celeste do Santo Dionisio. Hugo escreveu também um livro de geografia. dez anos depois da morte do mestre. 26 . 1313. opúsculos e cartas de auto­ ria certa e duvidosa do nosso autor. inglesa e. em um total de 52 títulos. além de edições parciais de escritos específicos. Ê um livro de grande fortuna. em geral. a critical text by Bro­ ther Charles Henry Buttimer. The Catholic University Press. sobretu­ do nos últimos decenios. escrito em 1127. 1987. Victor: a media the Latin with an introduction and notes by Jero versity Press. translated from Taylor. o Da arte de ler é a obra mais famosa do Vitorino em termos de racionalidade filosófica. número que atesta o interes­ se pela obra durante sete séculos. Herder. Didascalicon De Studio legendi. ora antropológico. Primeira entre todas. ora pedagógico. Uga diSan Vittore. É de 1991 a tradução francesa". 17. 1991. The didascalicon of Hugh of Si. 1991. Columbia Uni- 18. Dependendo do ângulo de análise. Didascalicon. Rusconi. como se deduz de um rápi­ do passeio pelos currículos universitarios alocados na Internet. está voltando a atrair as mentes.Da arte de 1er O Da arte de ler. ao lado do Dos sacramentos. Discorso in Iode del divino amore. para o portugués. traduction et notes par Michel Lemoine. é visto como um livro ora filosófico. Símbolo da efervescencia de urna épo­ ca. A tradução para o alemão data de 1997". ora místico. Introduction. O Da arte de ler é. New York. a figura de Hugo está sendo vistosamente revi­ sitada nos últimos decênios enquanto propulsora de novos tem­ pos. Paris. um currículo medie­ val dos estudos. traduzione e note di Vincenzo Liccaro. A última tradução do Da arte de ler é a presente. Hugo von Sankt Viktor. Freiburg. o Da arte de /er incorpora o espí14. que evidencia a face teológica do Vitorino. f dont della promessadivina. 1939. L 'art de iire Didascalicon. M. reeditada em 1991" Todas estas traduções baseiam-se no texto crítico latino elaborado pelo ame­ ricano Buttimer em 1939". Washington. As edições e traduções baseiam-se em bem 126 manuscritos. que já exercitou notável influencia nos séculos suces­ sivos à sua aparição. precede quase todos os outros escritos de Hugo. L'essenza delî’amore. 16. entre outras coisas. Éditions du Cerf. é a tra­ dução para o ingles de 1961. 27 . übersetzt und cingeleitet von Thilo Offeigeld. Com certeza. Hugues de Saint-Victor. Didascalicon de studio legendi. Milano. Esta obra. Se. guide to the aris. Hugonis de Sancto Victore. Introduzione. 15.A. ora ético. 1997. que segue de perto a tradução italiana de 1987".. o Da arte de ler em particular é objeto de estudos literários e filosóficos em várias universidades. O Livro III dá aos jovens conselhos sobre como ler e o que ler. quais foram os autores das artes. significado dos nomes dos livros sa­ grados. seu canon. No Livro V Hugo dá as regras exegéticas de interpretação na leitura dos livros sagrados: modo de ler. exilio. mundo sublunar e supralunar. o agir do homem e de Deus. o agir pensando. prática-teoria. a matemática com as artes do quadrívio. Também esta divisão equalitária entre a esfera da razão e a da revelação sinaliza a centralidade da união corpo-espírito. carta. O Livro IVabre a série dedicada à leitura dos livros sagrados. O Da arte de ler é composto de seis livros. a essência das coisas. o tríplice método histórico-alegórico-tropológico no estudo das Escrituras. combinado com o ser­ viço ao próximo e com as novas exigencias da cidade medieval. autores do Novo Testamento. escritos auténticos e apócrifos. a natureza. ou melhor. O Livro 1 resume as bases ontológico-gnoseológicas da filo­ sofia de Hugo: a alma do mundo e a alma individual. significa­ do das palavras e das coisas. pergaminho e outros. concilios. meditação. as ciencias mecánicas em número de 7. as sete regras com as quais a Escri­ tura se exprime. consti­ tuem o método da obra. a física. a lógica com as artes do trivio. O Liuro II apresenta as artes: a teología. os obstáculos ao estudo. número e ordem dos livros. despojamento.rito das novas organizações religiosas da época. seus autores e tradutores. manu­ al-intelectual no pensamento de Hugo. humildade. a quadratura da alma e do corpo. no rasto do ora et labora (trabalha rezando). o fruto da leitura divi­ 28 . artes prioritarias na leitu­ ra. três dedicados ao conhecimento das coisas do homem pela leitura dos escritos lite­ rários e três dedicados ao conhecimento das coisas de Deus pela leitura da Sagrada Escritura. silencio. O pensar e o agir em realimentação recíproca. semelhança do homem com Deus. etimologia de certos nomes como código. disciplina. tendentes a recapturar o ascetismo da Igreja primitiva. a razão. discernimento no estudo. temporal-eterno. a abrangên­ cia e a divisão da filosofia. volume. memoria. sentença e meditação. outros. na história das idéias. reflexões sobre os termos letra. 29 . a ação eficaz do trabalho humano sobre a natureza. enfim. Uma filosofia do trabalho em Da arte de 1er. significado. o do traba- 19. Qual o signifi­ cado de tal ato? Alguns acham que trata-se de algo apenas aleató­ rio. outros. interpretação alegórica segundo a ordem de conhecimento {ordo cognitionis). como fazer da Escritura um meio para corrigir os costumes. O Apêndice dá um resumo aforístico sobre as três maneiras de existirem das coisas na mente divina. o Didascálicon não usa a expressão artes mecânicas. na natureza.na. Um fio condutor entre a Idade Média e a Modernidade? Grandes discussões foram travadas sobre a introdução das ciências mecânicas na filosofia por obra de Hugo. [i. Hugo é notável por ter sido o primeiro. Qual? Pode a Idade Média contribuir para um dos temas mais decisivos do novo milênio. Outros afirmam que Hugo possuía um esboço de filosofia do trabalho humano. a situar dentro da filosofia as ciências mecãnicas^'^. os três tipos de leitores da Escritura. a salvação. a maravilha. os estágios do estudo e do entendimento para chegar à perfei­ ção. corrente nos comentaristas. interpretação tropologica (mo­ ral) com atenção às coisas mais que às palavras. ou seja. A esta revalo­ rização do trabalho manual e do trabalho em geral corresponde uma filosofia do mesmo. O Livro VI dedica-se mais amplamente ao estudo dos três métodos de interpretação da Escritura e oferece outros conse­ lhos de leitura: interpretação histórica em sua ordem temporal {ordo temporis). D id. entre os quais al­ guns procuram somente a ciência. na mente do homem. Demonstrei na minha tese de Doutorado em Fi­ losofia na Unicamp Trabalho e Razão no Didascálicon de Hugo de São Vitaros elementos de uma filosofia do trabalho em Hugo. XX-XXVII. R. freqüentemente os medievalistas centraram suas pesquisas sobre o trabalho na Idade Média. 1970. transformando-se em seu equivalente univer­ sal. a partir dos Manuscritos econõmico-íilosóficos^^ de Marx. Paz e Terra. que ameaça o equilíbrio entre os povos. fato que se desdobra em mistifi­ cações econômicas. 30 . mas a propriedade do mesmo pertence ao capita­ lista. Mas Hugo oferece a possibilidade de termos também um significado filosófico do trabalho humano. que é a separação entre o trabalho e a propriedade do mesmo. Marx. nos quais a anarquia financeira mundial. Fromm. jurídico e técnico^”. Rio de Janeiro. 83-170.Iho humano? A nível filosófico. a partir da encíclica papal 20. de outro Congresso Inter­ nacional em Morítreal em 1967. 1992. sociais e culturais. São Paulo. Manuscritos econômicos e fíhsófícos de 1844. 21. perda) no trabalho. certamenle sim. social. como uma das maiores ameaças à convivência humana^\ A solução deste descolamento entre trabalho e propriedade do mesmo se dá pela devolução ao trabalhador da propriedade do seu trabalho. A esta necessidade responde o recente reavivamento dos estudos sobre o trabalho humano seja em ambientes marxistas. O trabalho na Idade Média foi tema de um Congresso da Universidade de Perugia em 1980. para além do seu significado tecnológico mercadológico. 22. 0 autor conclui pela urgência de restabelecer no mundo o primado do “trabalho vivo" (produção) so­ bre 0 "trabalho morto” (dinheiro). o trabalho é do trabalhador. Nos coloquios dos últimos quarenta anos. evidencia-se como criatura de um erro fundamenta]. veio no­ vamente à cena nos últimos anos. de um Coloquio Internacional em Lovaina em 1987. Zahar. como em ambientes católicos. tra­ tando-o sob o aspecto histórico. hoje. O colapso da modernização. os produtos fabricados pelo trabalhador adquirem vida própria no mercado pelas mãos do capitalista e se tornam mercadorias fetichizadas com poder anti-humano. Esta fetichização dos produtos do trabalho humano é ainda mais virulenta quan­ do as mercadorias. A partir desta dissociação {alienação. Kurz. que é 0 dinheiro. políticas. dão vida ao sistema financeiro. p. cujo proces­ so de centralização a nível mundial é apontado. No liberalismo. Conceito marxista de homem. 0 interesse pelo significado humano-subjetivo do trabalho. em E. K. parece-nos que o moderno conceito de reflexividade no trabalho está presente também no pensamento de Hugo. o objeto do trabalho é in-formado por uma forma originada na mente humana. 1984. São Paulo. consubstancia­ da na fórmula neoplatônica e agostiniana de saída-retorno {exitus-reditus). do próprio trabalhador: diz-me como trabalhas e te direi quem és! Numa leitura atenta do Da arte de ler. é um simulacro do arquéti­ po divino. na Mente divina. Em Hugo 0 trabalho humano é uma imitação da natureza {imitatio naturae). o trabalho constrói a essên­ cia. que é a Mente divina {Sapientiá). Na verdade. depois no homem. por sua vez. foi Hegel o primeiro dos pen­ sadores modernos a refletir sobre o trabalho como autoformação do homem e sobre a necessidade de o trabalho liberar-se da negatividade do sistema de trabalho dependente. na^natureza e. que. que se exterioriza na natureza. Isto constitui um fio condutor. É fascinante. para retornar a si mesma na atividade mental-ma23. o cérebro. que imita as formas divinas presentes na natureza e as contempla no objeto produzido. são apropriadas pela mente do homem e fi­ nalmente são transferidas para o objeto do trabalho humano. O conceito de reflexividade do trabalho sobre a pessoa do trabalhador é assumido hoje como o fulcro de todas as filosofias do trabalho: construindo objetos. Vozes. A mente do trabalhador. interessado a impulsio­ nar 0 atual trabalho dependente para uma nova forma de traba­ lho livre e associado. há uma distinção entre o esquema hugoniano-cristão e 0 esquema dos materialistas. resta in formada {in-formatur) por uma estética divi­ na. No final do processo. Certo. onde o ponto de partida é a Mente divi­ na. dizemos que as formas presentes na ''forma do bem perfeito". Numa lógica descendente-ascendente. O esquema de Hugo contém a di­ mensão transcendente. Carta encíclica de João Paulo Sobre o trabalho humano. Temos aqui a reflexividade de que falam os modernos. O trans-formar pelo trabalho é um processo de transferir-formas. final­ mente. que ligaria organicamente o pensa­ mento medieval ao pensamento moderno. depois nas obras do homem. 31 .Laborem Exercens^. materiaiizam-se nas formas da natureza. se exterioriza na natureza transformada pelo trabalho. constituindo-se em auto-realizaçâo do homem. um ócio {otium). que é uma amizade com a Sapiência. Mészáros. numa reciprocidade dialética teoria-práxis. realimentando. todavia. Zahar. O ponto de partida é a mente do homem. H. 1981. é Han­ nah Arendt. Cf. que. áutodesenvolvimento do ho­ mem. que assume o concreto vivido como única fonte da teoria.nual do homem (filosofia). Vale a pena refletir um instante sobre este termo. Condição humana. p. 96. 25. ao contrário. O homem. não há subjetividade anterior ao trabalho: o homem realiza a sua essência unicamente no trabalho. em sociabilidade com os ou­ tros. mas nasce do acontecimento da ex­ periência vivida e a partir desta inicia o seu exercício teórico“. 32 . Em Marx há um movimento triangular de relação recíproca entre três pólos: homem-natureza“trabalhü-homem^\ Seja em Hugo seja em Marx o trabalho medeia a relação do homem com a natureza. Há um movimento circular entre quatro elementos: Mente djvina-natureza-homem-trabalho-Mente divina. esta essência é restaurada em continuação. como se expressava também Hegel. é o único mediador do próprio homem.. Em Hugo. para quem o pensamento não jorra de alguma filoso­ fia ou metafísica da história. uma nova representação de si. da natureza e dos outros. Edusp. São Paulo. Pelo trabalho manual. Rio de Janeiro. condição corpórea do trabalho intelectual. Arendt. A teoria da alienaf^ão. por obra da Mente divina. que é forma do homem. neste monismo materialista. a essência do homem é dada antes do trabalho. 24. vir-a-ser e. Ao passo que o esquema materialista de Marx e epígonos se mantém nos limites imanentes da natureza material. 1981. No esquema materia­ lista. Expressão acabada desta atitude prometéica. Marx. [. mostrando a sua conexão com o trabalho. O otium (ócio) como atividade O ato de 1er é. em Hugo. atividade essencial. que é con­ dição única da gênese histórica. negação do otium . onde se discute. em grego. Por fim. lição e explica­ ção de obras eruditas. mui­ to diverso do suor e calor do dia representado pelo trabalho. tempo livre (em oposição a negócio . schola vem indicar o pensamento de um mestre seguido por discípulos em seitas e correntes.trabalho.. A escola é um otium. se pensa. ou seja. um clima espiritual e um estado do espírito. para que a mente não se perca em desejos ilícitos. 5). que carrega o significado de pausa. indolência. leitura. O grego skholé flui para o latim schola. repouso. schola em latim. tempo disponí­ vel. ou exterior. Em Da arte de 1er. disponibilidade para escrever.o termo otium em latim significa: a) inação. como tam­ bém a galeria onde os homens cultos se reúnem e onde as obras-de-arte são expostas. Hugo diz que o otium é a quietude exterior da vida para dedi­ car-se a estudos dignos e úteis: A quietude da vida é ou interior. para que o tempo livre (otium) e a comodidade permitam estu­ dos honestos e úteis. explanação de um objeto científico ou literário. inocupação. a saia de espera dos banhos públicos com suas longas conversas. dá lição. o termo schola vem designar também o lugar onde isto tudo acontece. tempo livre e também coloquio científico. parada. O otium é. 33 Ï-. . carrega consigo o signifi­ cado de atividade pensativa e artística do homem. recitação. que vai da leitura à meditação e à contemplação. em italiano scuola e em português escola. O Vitorino destaca que o tempo livre {otium) dedica­ do aos estudos torna-se motivo de vergonha se não é conduzido com ordem e método: O método é tão importante. pressa). Em breve. Metonimicamente. o otium. 4). o termo otium existe no sentido de dedi­ cação ao saber. diz Cí­ cero em Ofícios 2. repouso. Uma e outra pertencem à disciplina mo­ ral (III.. skholé. disquisição. os lugares de reunião. 16). skholé em grego. as sedes das corporações. Deste último significado deriva a skholé como o lugar onde o mestre lê. b) dedicação aos estudos e à expansão da consciência humana {scribendi otium. que significa pesquisa douta. que sem ele qualquer tempo dedicado aos estudos (otium) é torpe e todo trabalho inútil (V. 1995. Mas a leitura é o começo da aprendizagem {prmcipium doc­ cujo ato final. Knquanto heterogêneo com respeito ao trabalho. um ócio reparador. Cf. por uma reflexão filosófica sobre o próprio trabalho. 1). em um nível superior com relação ao trabalho e à técnica. Quem a (I. O é uma dimensão da vida. felicidade a quem a encontra. isto é.Oportunamente. para Hugo. é um modo de viver. p. dá significado a todas as ações do homem. o exercício da unidade moral que. a festa. uma finalida­ de. que podemos chamar de vertical. complementariamente. 26. O otium é expansão da consciência humana peios campos artísticos. O trabalho subordina-se ao otium como meio para o fim. O otium pertence a outro tipo de ativi­ dade. e 0 otium é a instância que reveste o trabalho de justifica­ ção e valorai otium A filosofia do Da arte de ler sobre o trabalho humano é uin que confere à atividade manual um sentido. um afeto de amizade. Há. é o vóo li- trinae). Bagoiiiii. A perfeição do saber está na ação e na contemplação Ler. já sem regras e amarras físicas. comunitários. A finalidade do otium é a de lançar uma luz intelectual sobre a concretude do agir humano. um ato moral e social. A filosofia do trabalho. e quem a possui é beato conforto na vida. uma plenitude. religiosos. O otium é a reflexão. O ler é 0 início do saber. algumas filosofias do trabalho afirmam que 0 trabalho perde o seu sentido se não é vivificado pelo otium. heterogênea à dimensão horizontal do trabalho. uma atividade-trabalho e uma atividade-oííum. 34 . mas comple­ mentar a ela. A leitura como sabor da Sapiência dá consolo a quem a pro­ cura. LTr. o otium não se opõe a ele. restaurador e inspira­ dor. béatitude a quem a possui: a procura da Sapiência é o máximo encontra é feliz. I-. culturais. ultrapas­ sando a particularidade dos interesses cotidianos por meio de uma visão unitária da existência. São Paulo. otium. e cortejar ora estas ora aquelas causas das coi­ sas. Segue a prática. a leitura. sua graça restaura. e ora penetrar em coisas profundas.. 2) a meditação. na qual a vontade firme exercíta-se na execução de boas obras e na pesquisa dos melhores ca­ minhos a seguir na vida. 3) a oração. a quem a escolhe. na contemplação ê. Entre a leitura e a contemplação existem outros degraus pelos quais o estudante deve passar. A meditação contemplativa. São estes os cinco degraus: 1) a leitura. em uma liberdade que Hugo assim descreve: A contemplação. 10). sua Sapiência ordena. é dos principi­ antes. pois é obra de Deus tudo aquilo que a sua potência cria. a perfeição do saber. instruindo o ânimo com a ciência e pre­ enchendo-o de leticia. 3Ó . ê dos perfeitos W' 1' (V. A contemplação orienta os passos da leitura. por sua vez. na qual 0 agir é aprovado em sua validade cristalina. uma vida jucunda e o máximo de consolo na tribulação. r- {III. através das coisas que foram cria­ das. e deixar nada ambíguo. 9). a fim de al­ cançar a perfeição. Por último. realimenta todos os degraus anterio­ res. deleitando-se a correr pela campina aberta. a contemplação. segregando a alma do barulho do dia e fazendo-a degustar nesta vida a doçura da paz que será total na vida além da morte. nada obscuro. A contemplação faz compreender melhor a ética. onde possa se deleita fixar seu em livre vagar por olhax campos aber­ contemplação da verdade.. portanto. O princípio do saber está na lei­ tura. mas logo se li­ bera das regras da leitura. A meditação contemplativa oferece. 5) a contemplação. De­ pois vem a oração. na qual adquire-se a força e a clarividência para o agir (o agnóstico moderno mudaria o termo oração por consciência). dando-lhes sentido. o primeiro degrau. Entre es­ tes cinco degraus. tos. fixando a agudeza do ato contemplativo sobre a verdade. A contemplação en­ sina a procurar e a entender. A leitura informativa. 4) a prática. aquele que as criou. e o supremo. vem a contemplação. na qual alcança-se o discernimento crítico. deve ser seguida pela refle­ xão meditativa.vre da contemplação. os mandamentos e as obras de Deus. pois não é louvável a ciência maculada por uma vida impúdica (III. vivendo de modo louvável. É o que Hugo afirma ao descrever as três coisas necessárias ao estu­ dante: a) 0 talento natural para compreender e memorizar rapi­ damente os ensinamentos. ruminação A procura do saber. 8). para harmonizar a conduta com o saber. O primeiro fixou o seu amor ao mundo. resumida nas atitudes de humildade. um passo poético do Da arte de ler (III. é amor e devotamento zeloso (amor et studium). (iS if' tf: U. E a mente que queira alcançar a tranqüilidade moral necessária ao conhecimento deve livrar-se dos desejos ilí­ citos.Leitura e moral Leitura e moral são duas faces do ato de ler. Mas o bom costume é também condição para uma boa leitura. o agir é dos perfeitos (V. 12). b) o exercício para educar o talento.í: IV r Amor. 6). Quem procura o conhecimento não pode negligenciar a dis­ ciplina moral. É famoso. A leitura tende para a ação: a leitura é própria do principiante. da tirania do supérfluo e até do apego ao lugar. A ética é 0 pressuposto para o conhecimento do bem. reflexão silenciosa. austeridade de vida. pois conhecimento e ética iluminam-se reciprocamente. como ins36 !:■ fv rí . vida quieta. doçura. 0 segundo o espalhou. c) a disciplina moral. o terceiro o extinguiu. si. mas na verdade é perfeito aquele para o qual o mundo inteiro é um exílio. para que. o estudante harmonize a conduta com o sa­ ber (III. para que depois possa ser perspicaz na in­ vestigação teórica da verdade (VI. 14). iluminação. e éjá forte aquele para o qual qualquer terra é a pátria. O preceito é o de compor o saber com a vida. como procura da Sapiência. 19): É delicado aquele para o qual a pátria é doce. O ato de 1er. E ainda: o olho do coração deve ser purificado pela prática da virtude. zelo em que­ rer. neste último sentido. Matéria e alma. cantos de cisne mais doces que os habituais. e a leitura permite colher seus frutos dulcissimos. entre tantas doçuras. o corpo humano é celebrado em Hugo de São Vítor seja em seu esforço material no trabalho como em sua ten­ 37 . E. tudo isso provocando a doçura do entendimento espiritual {spiritalis intelligentiae suavitatem). Em Da arte de 1er. com os adjetivos iluminado e doce. nas Escrituras. Os bens eternos são doces. proporciona uma doçura tal. Como se vê. os substantivos iluminação. Os mistérios divinos re­ vestem-se. Hugo nos leva aos exilados e emigrantes. Os estudos da juventude proporcionam na velhice “frutos dulcissimos”. Hugo conta em pormenores aquilo que fazia desde me­ nino para aprender. em relação aos quais diz que não sabe por qual doçura todos são conduzidos a pensar na sua terra natal. Citando os seus esforços no estudo. iluminação e doçura. citando os versos de Virgí­ lio. ainda que aparentemente ári­ da em sua simplicidade lexical.trumento desta procura. Entre outras coisas. Os velhos sábios cantaram. E. conta como aprendia a proporção dos sons ouvindo as cordas musicais presas numa madeira. doçura e mel. ornamentam e aquecem a ação intelectual do homem. corpo e espírito vivem em simbiose de gáu­ dio na atividade intelectual do homem. e. pois sob uma mão de cor escondem a falsidade e a precariedade das coisas passageiras. aproximando-se da morte. Os escritos de Gregorio ressoam docemente aos ouvidos e na alma. não podiam faltar em seu livro menções aos doces de sobremesa preparados na cozinha. da mesma forma que as cordas do violão fixam-se na madeira e o lenho torna o som das cordas mais doce. enquanto as leituras profanas muitas vezes não passam de parede de barro caiado {luteus paries dealbatus). enquanto os ouvidos se instruíam sobre os interva­ los dos sons. A leitura dos divinos elóquios. é um momento de amor. a sua alma enchia-se de doçura semelhante à do mel. A Escritura Sagrada é como uma selva. assim como o mel é mais doce no favo. que apropriadamente aqueles elóquios são comparados ao favo de mel. o verbo iluminar. Dizia Homero que da boca do velho Nestor flu­ íam palavras mais doces que o mel. de letras humanas. O ato de ler. é 0 sol que ilumina o caminho do homem para a ceia celeste. a certa altura. 1). Paraíso XII. seguindo-te diri­ ja os teus pés no caminho da paz {V. citado na Bibliografia e editado nos Estados Unidos em 1939 a partir da Patrología Latina de Migne (1879). o "co­ nhece-te a ti mesmo”. capaz de dar volume e esplendor à Forma divina. que. é seguido por um ato de ruminação. habitado pelos espíritos sábios. que 27. Buttimer. era suma. presente no mundo. da mesma forma que 0 boi. apontando ao poeta um grupinho de sábios. Esta claridade da iluminação reina também no quarto céu ádi Divina comédia. à Sapiência. Iluminado. Aquilo que os olhos. pois o corpo é como o lenho do violino e o favo do mel. que. I. E a contemplação. indo à tua frente. Chegando a este céu. 5). 9). H. o homem adquire o discer­ nimento para traduzir em boas obras aquilo que conheceu. para alimentar-se. '"k Sapiência ilumina o homem" {Sapientia illuminat homf nem. A Sapiência'. a gra­ ça de Deus. os ouvidos e a mente captam na leitu­ ra é ruminado pacientemente na meditação. e à semelhança dos maniras ruminados pelos monges no alto do Tibet. o homem realiza o gnóthi teautón. te iluminou. como todo trabalho intelectual. ato final do es­ tudo. 38 . céu do sol. lhe diz: '*Hugo de São Vítor está aqui com eles »j27 Sobre o texto e a tradução O texto latino apresentado é o da edição crítica de Ch. Assim clareado. traz para o paladar aquilo que acu­ mulara no ventre: colhemos na leitura frutos dulcissimos e na reflexão os ruminamos (V. à semelhança das ruminações dos versícu­ los da Bíblia pela boca dos monges durante os trabalhos manuais. Dante. faz pregustar a doçura da paz eterna.são intelectual. Dante Alighieri recebe como guia São Boaventura. 176. Dos três Apêndices apostos à tradução. ou tentar uma tradução literária. A tradução podia seguir dois caminhos: ou fazer uma tradu­ ção livre. 39 .contém as obras de Hugo de São Vítor em tres volumes (175. Freqüentemente. francesa e alemã. por razões didáticas. mas pre­ feri seguir 0 esquema das traduções inglesa. seja porque o estilo de Hugo de São Vítor possui uma poeticidade própria e uma flexão ingenhosa da frase. belezas que seria um pecado trair. seja porque percebí que não dificultaria sobremaneira a lei­ tura. os primeiros dois (Apêndice A e B) aparecem no texto de Buttimer como os últimos dois capítulos do Livro VI.177). quebrei um longo pará­ grafo do original em parágrafos menores. A subdivisão dos seis Livros em pequenos capítulos é a mesma apresentada por Buttimer. Optei por esta últi­ ma. . uma para o texto latino e outra para o texto traduzido. Quanto às notas de rodapé.DIDASCÁLICON DA ARTE DE LER* * Nesta edição bilingüe. nas páginas pares encontra-se o texto latino e nas ímpa­ res o respectivo texto traduzido. . uma ressalva importante: existem duas sequências de notas. optamos por colocar o texto latino espelhado com o texto da tra­ dução brasileira. ou seja. obtinere merentur effectu voluntatis. S! 35. inquit.4. quoniam summa se comprehendere nequaquam posse sentiunt. scientiam vero detestare. quo minima quae intelligere possent discere fugiunt Unde psalmista. Nam sunt quidam. nec usuram boni operis quaerunt. intelligere ut bene agerent”\ Lon­ ge enim aliud est nescire atque aliud nolle scire. qui. qui profecto valde de­ testabiles sunt. licet suam hebetudinem non igno­ rent. cum plerosque fame siti nuditate laborantes ad scientiae fructum pertingere videamus. quibus. "noluerunt. et ex eo nec fructum sapi­ entiae.PRAEFATIO Multi sunt quos ipsa adeo natura ingenio destitutos reliquit ut ea etiam quae facilia sunt intellectu vix capere possint. pravae voluntatis. Nam sunt plerique qui negotiis huius saeculi et curis super quam necesse sit impliciti aut vitiis et voluptatibus corpo­ ris dediti. 42 . Est aliud hominum genus quos admodum natura ingenio di­ tavit et facilem ad veritatem veniendi aditum praestitit. Et tamen aliud est 1. non eadem tamen omnibus virtus aut voluntas est per exercitia et doctrinam naturalem sensum excolendi. et quasi in suo torpore securi quiescentes eo amplius in maximis lumen veritatis per­ dunt. Ast alii. et in­ desinenter studio insistentes. et horum duo genera mihi esse videntur. Rursus aliis rei familiares inopia et tenuis census discendi facultatem minuit. talentum Dei terra obruunt. Quos tamen plene per hoc excusari minime posse credimus. minima etiam negligunt. etsi impar sit valitudo ingenii. quod minus habent effectu operis. Nescire siqui­ dem infirmitatis est. eo tamen quo valent conamine ad scientiam anhelant. e destas pessoas parece-me haver dois tipos. mesmo não ignorando os seus próprios limi­ tes. sepultam na terra o ta­ lento recebido por Deus e não almejam obter dele nem o fruto da sabedoria nem os juros das boas obras. Com efeito. para não ter que agir retamente”. mesmo sofrendo de fome. que têm dificuldade para entender até as coi­ sas fáceis. Não saber e não querer saber são de longe duas coisas bem di­ versas. quanto mais fogem das coisas mínimas que poderíam aprender. sede e nudez. ainda. nem em todos há a mesma virtude e a mesma vonta­ de de educar a capacidade natural por meio de exercícios e de instrução. mas detestar o sa­ ber é perversidade da vontade. Mas há outros os quais. Por isso. que a natureza do­ tou de engenho. o salmista diz: "Não quiseram entender. como que repousando em seu próprio torpor. todai^ia. Há alguns que. sentindo que nunca poderíam com­ preender as coisas altíssimas. muitos destes. Nestes. desprezam também as coisas míni­ mas e. Estes são realmente muito detestáveis. tanto mais perdem a luz da verdade nas coisas sumas.PREFACIO Há muitas pessoas que a própria natureza deixou tão desprovi­ das de capacidades. Achamos. que estes não podem ser minimamente des­ culpados. alcançam o fruto do saber. que merecem obter. Há um outro tipo de indivíduos. mesmo havendo uma alta capacidade de engenho. a pobreza do patrimônio familiar e os recursos escassos dificultam a possibilidade de aprender. todavia. mergulhados mais do que 0 necessário nos afazeres e nas preocupações desta vida ou da­ dos aos vícios e aos prazeres do corpo. aquilo que não obteriam pela eficácia do estudo em si. uma vez que vemos muitos os quais. Uma coisa é 43 . oferecendo-lhes um acesso fácil para chegar à verdade. buscam o saber com tal afinco e insistem tão obstinadamen­ te no estudo. Em outras pessoas. Não saber é questão de incapacidade. todavia. por obra da vontade. De his tribus per singula agitur in hoc libro. vel contineatur ab alia. in secunda parte divinum lectorem. 44 É i . sic profecto turpius est vigere ingenio. Postea agit de quibusdam proprietatibus divinae scripturae quae magis sunt necessariae. Docet autem hoc modo os­ tendendo primum quid legendum sit. In prima parte docet lectorem artium. facile non possis discere. quarum unaquaeqqe tres habet distinctiones. Deinde enumerat auctores artium et postea ostendit quae ex his videli­ cet artibus praecipue legendae sint. divitiis affluere. videlicet lectio et meditatio. quomodo legere debeat. et de hac tractat liber iste dando prae­ cepta legendi. in prima parte primum numerat originem omnium artium deinde descriptionem et partitionem earum. id est. Deinde etiam quo ordine et quomodo legendae sint. Sicut enim gloriosius est. pri­ mum. Ut autem sciri possit quid legendum sit aut quid praecipue legendum sit. et torpe­ re otio. Ad ultimum docet illum qui propter amorem scientiae eam legit. aut ut verius dicam. tertium. aperit. quid postea. et sic finitur prima pars. et sic secunda quoque pars finem accipit. at­ que aliud posse et nolle scire. Tria autem sunt praecepta magis lectioni necessaria. quo­ modo unaquaeque contineat aliam. Unde et in duas partes dividitur. Deinde docet qualiter legere debeat sacram scriptu­ ram is qui in ea correctionem morum suorum et formam vivendi quaerit. quid prius. e quibus lectio priorem in doctrina obtinet locum. ut sciat quisque quid legere debeat. secundum. quo ordine legere debeat.cum non possis. Instruit autem tam saecularium quam divinarum scripturarum lectorem. In secunda parte determinat quae scripturae divinae appel­ landae sint. id est. deinde quo ordine et quo­ modo legendum sit. se­ cans philosophiam a summo usque ad ultima membra. sola virtute sapientiam apprehendere. Duae praecipue res sunt quibus quisque ad scientiam ins­ truitur. cum nul­ lae suppetant facultates. Postremo legentibus vitae suae disciplinam praescribit. deinde numerum et ordinem divinorum librorum et auctores eorum et interpretationes nominum. e assim ter­ mina a primeira parte. Depois. dando as regras do 1er. Na primeira parte dá instruções ao leitor das artes. e assim termina também a segunda parte. o que depois. Em seguida. na primeira parte o livro primeiro enumera a origem de todas as artes e depois apresenta a descrição e a divisão delas. na segunda ao leitor dos livros divinos. Para que se possa saber o que 1er ou o que 1er prioritaria­ mente. Neste livro se discorre sobre estas três regras. de­ pois em qual ordem e como se deve 1er. o livro enumera os inventores das artes e em seguida mostra quais destas artes merecera ser lidas com prioridade. trata de algumas peculiaridades mais importantes da Sagrada Escritura. como se deve 1er. sem dispor de possibilidade alguma. 0 livro prescreve aos leitores uma disciplina de vida. Na segunda parte. 0 que 1er antes. Por último. a leitura detém o primeiro lugar na instrução. Se é mais glorioso aprender a sabedoria somente por meio da virtude. e dela se ocupa este livro. uma por uma. e entorpecer no ócio. abundar em riquezas. saber o que se deve 1er. terceiro. segundo. Por fim. dividindo a filosofia do vértice até os últimos elementos. o livro instrui a pes­ soa que lê tais Escrituras por amor do saber. ele se divide em duas partes. E explica também em qual ordem e como devem ser lidas. ensina como deve 1er a Sa­ grada Escritura aquele que procura nela a correção dos seus costumes e uma forma de vida. em que ordem se deve 1er. São três as regras mais necessárias para a leitura: primeiro. 45 .você não poder aprender. Por isso. o livro determina quais Escrituras devem ser chamadas divinas. O li­ vro dá instruções seja sobre as leituras profanas seja sobre a lei­ tura dos textos sagrados. O li­ vro procede de modo a mostrar primeiro o que deve ser lido. cada qual tendo três capítulos. Existem principalmente duas coisas por meio das quais uma pessoa adquire conhecimentos. e apresenta o número e a ordem dos livros sagrados. Em seguida. assim como os seus autores e as explicações dos no­ mes. é certamente mais torpe possuir o en­ genho. como cada uma contenha a outra ou é contida por ou­ tra. a leitura e a meditação. ou melhor. outra coisa é poder e não querer aprender. Destas. ou seja. ou seja. não poder com facilidade. ou seja. immortalis quippe animus sapientia illustratus respicit prin­ cipium suum et quam sit indecorum agnoscit. in qua perfecti boni forma consistit. qui cete­ ris similis fuit cum se prae ceteris factum esse non intellexit.LIBER PRIMUS Caput I: De Origine artium Omnium expetendorum prima est sapientia. ut extra se quid­ quam quaerat cui quod ipse est satis esse poterat Scriptum legitur in tripode Apollinis: “gnoti seauton"^ id est “cognosce te ipsum”. Et Timaeus Platonis ex dividua et individua mixtaque substantia. 46 . Xenofonte.24. 2. entelechiam formavit. Memorabilia 4.2. et ex utroque commixta natura. quo universitas designa­ tur. itemque eadem et di­ versa. quia nimirum homo si non originis suae immemor esset omne quod mutabilitati obnoxium est quam sit nihil. agnosceret Probata apud philosophos sententia animam ex cunctis na­ turae partibus asserit esse compactam. Sapientia illuminat hominem ut seipsum agnoscat. na qual o mundo e o homem fo­ ram pensados como numa forma. A mente imortal do homem. É a Segunda Pessoa da Trindade. indivisível e uma mistura das duas. empasta a matéria valendo-se das formas inteligíveis. a forma boa do mundo e do homem. quando não sabe que foi feito acima das outras con sas. a sua substância divina. se volta para o seu principio. E a tudo isso ele deu o nome de universo\ 1. elemento inteligível (o mesmo. o Verbo. e de uma natureza idêntica e diversa e uma mistura das duas. da qual Hugo fala. o homem que não esqueceu a sua origem sabe que é nada tudo aquilo que é sujeito à mutabi]idade^ Uma convicção aceita entre os filósofos afirma que a alma é formada de todas as partes da natureza. toda vez que Hugo de São Vitor se refere à Mente de Deus. Em Platão o universo (enteléquia) é formado pela alma do mundo. 0 termo sabedoria não traduziría tal significado de Sapientia (cí. é um conceito fundamental na filosofia cris­ tã para explicar o conhecimento e o autoconhecimento. e percebe quanto é inconveniente ao homem procurar coisas fora de si. 47 . urna vez que poderla ser-lhe suficiente aquilo que ele próprio é. Lê-se. acaba achando-se semelhante a qualquer outra coisa^. E é a for­ ma perfeita cie Deus bom como. ou seja. O Demiurgo. num molde. na qual reside a forma do bem perfeito*. A Sapiência não é algo. ao Pensamento Divino. 2. divisível). Esta Sapiência. "conhece-te a ti mesmo”. A Sapiencia ilumina o homem para que conheça a si mes­ mo. É mutável no homem a sua materialidade. não criador. indivisível) e pela matéria (o diverso.LIVRO I CAPÍTULO 1: Da origem das artes De todas as coisas a serem buscadas. que é o Deus organi­ zador do universo. iluminada pela Sapiencia. IV. 3. E cr Timeu de Platão diz que a enteléquia é formada de uma substância divisível. mas dentro de si que o homem se autoconhece. Esta "iluminação". por parte da Sapiência. nele. 4. é a Mente Divina. escrito na trípode de Apolo. é Alguém. a primeira é a Sapien­ cia. Não é fora de si. que é origem f princípio do homem. pela criação. o termo latino Sapientia será traduzido por Sapiência. num arquétipo. 8). Nesta tradução.0 autoconhecimento do homem se dá olhando dentro de si os traços da Sapiência. gnoti seauton. De fato. em itálico. o Logos e Pensamento de Deus. É imutável. ele que. ex omni substantia atque natura. 3. ad seipsam rerum similitudines trahens regyrat. secundum quod dicit quidam: "Terram terreno comprehendimus. nullatenus omnia comprehendere posset. quod ulla se partium quantitate distenderet. Calcidius. cit. ut scilicet anima rationalis nisi ex omnibus composita fo­ ret. dicebant ex omnibus naturis constare. Pythagoricum namque dogma erat similia similibus compre­ hendi. Boethius. coaptatur. Humorem liquido. Calcidius. “sectaque in orbes geminos motum g l o m e r a t q u i a sive per sensus ad sensibilia exeat sive per intelligentiam ad invisibilia ascendat. et hoc est quod eadem mens. ut apertius mirabilem eius demons­ trarent potentiam. cit. op. 48 . 4. op. nostro spirabile flatu"^. e.Ipsa namque “et initia et quae initia consequuntur”^ capit.. iti9. quo similitudinis repraesentet figuram. Nam sicut Varro in Periphysion dicit: “Non omnis varietas extrinse­ cus rebus accidit. “non secundum compositionem sed secundum compositionis ratio­ nem jiG Neque enim haec rerum omnium similitudo aliunde aut ex­ trinsecus animae advenire credenda est. Nec tamen existimare debemus viros in omni rerum natura peritissimos hoc de simplici essentia sensisse. 228. sed ipsa potius eam in se et ex se nativa quadam potentia et propria virtute capit. et visibiles actualium formas per sensuum passiones colligit. 5. Timaeus a Calcidio translatus commentariogue instructus 52. Calcidius. aethera flammis. quae universorum capax est. sed. 51. quia et invisibiles per intelligentiam rerum causas comprehen­ dit. Anicii Manlii Boethii Philosophiae Consolatio 3. é simples. eles esclareciam que ela era formada de todas as coisas “não segundo uma composição real. mediante o conheci­ mento. aquilo que sopra através do nosso respiro”. 0 fogo através daquilo que queima. 0 molhado através do líquido. com efeito. Por isso a aima é capaz de reconhecer e trazer para dentro de si. se a alma racio­ nal não fosse composta de todas as coisas. Isto quer dizer que esta mente. alguém disse: "Compreendemos a terra através das coisas terrenas. 49 . Esta alma é um microcos­ mo. mas segundo uma composição virtual”®. 6. Esta alma conhece através do conhecimento sensível dos senti­ dos e do conhecimento inteligível da mente. A alma. Ela pode conhecer tudo. ela reúne o seu movi­ mento em dois círculos”. Se B e C são semelhantes a A. pois pela inteligência compreende as causas in­ visíveis das coisas. todavia. “Dividida. as coisas e a alma têm. De fato. De fato. Nem devemos crer que esta semelhança cora todas as coisas venha à alma de outro lugar ou de fora. se­ melhanças com a Sapiência. possuindo dentro de sí “todas as coisas”. pois. c pelas impressões dos sentidos recolhe as for­ mas visíveis das coisas corpóreas. ambas. Para me­ lhor evidenciar a potência da alma. conhece os elementos e as coisas que deri­ vam dos elementos. sendo espiritual. B e C são semelhantes entre si. nâo realmente.A alma. é formada de cada substância e natureza. como diz Varro no Perifiseos'. “nem todas as mudanças ocorrem às coi5. as semelhanças ou imagens de todas as coisas. De modo algum. A tota­ lidade das coisas está dentro da aima virtualmentc. seja que pelos sentidos ela se volte para as coisas sensíveis. não divisível como a matéria. em dois movimentos indicados como cír­ culos circunscritos. nâo composta. cujo ponto de partida e chegada é a alma. seja que pela inteligência ascenda às coisas invisíveis. pois ela mesma possui esta semelhança por si e de dentro de si em força de uma certa qual potência nativa e de sua própria capacidade. para que possa re­ presentar em si a imagem das coisas semelhantes a ela^ Era uma afirmação pitagórica a de que os semelhantes são compreendidos pelos semelhantes. de modo algum ela po­ dería compreender todas as coisas. Neste sentido. Aqui Hugo estabelece um paralelo entre a alma do mundo platônica e a alma do ho­ mem na filosofia cristã. ela circula trazendo para si as semelhanças das coisas. que é capaz de captar todas as coi­ sas. devemos pensar que os homens versados na natureza de cada coisa achassem que uma essência simples possa consistir de uma quantidade de partes. de maneira que. maluitque philosophos dici. Sic nimirum mens. nam antea sophos. et ut discamus extra non quaerere quod in nobis pos­ sumus invenire. Cum vero impressor metallo figuram imprimit. Videmus cum paries extrinsecus adveniente forma imaginis cuiuslibet similitudinem accipit. non integraliter. De institutione musica 2. corporeis passionibus consopitus et per sensibiles formas extra semetipsum abductus. quia nil aliud fuisse se meminit. quam qui invenit felix est. 7. dt. id est. et qui possidet beatus. Boethius.ut necesse sit quidquid variatur.. Caput II. oblitus est quid fuerit. atque ex omnibus compositionem susci­ pere. et. aut amittere aliquid quod habu­ it. 3. nil praeter quod videtur esse credit Reparamur autem per doctrinam.2. Boethius. 8. ut nostram agnoscamus naturam. sed ex propria virtute et naturali habilitate aliud iam aliquid repraesen­ tare incipit. sed virtualiter atque potentialiter contine­ re. sapientes dicebantur. sed non omnes aeque noverunt Animus enim. aut aliquid aliud et diversura extrinsecus quod non habuit assumere^'. rerum omnium similitudine insig­ nita.1.2. op. omnia esse dicitur. et haec est illa naturae nostrae dignitas quam omnes aeque na­ turaliter habent. "Summum igitur in vita solamen”^ est studium sapientiae. 50 . ipsum quidem non extrinsecus. Quod studium sapientiae philosophia sit "Primus omnium Pythagoras studium sapientiae philo­ sophiam nuncupavit”®. ou seja. l 7. quando é adormecido sob 0 efeito das paixões corporais e arrastado para fora de si por obra das formas sensíveis. como acontece. mas virtual e potenciaf. se acha como sendo apenas aquilo que ele parece ser®. mas nem todos conhe­ cem na mesma medida. sábios. esquece o que ele foi. cum-natus. com-nascido. o homem reconstitui den­ tro de si a semelhança com a Sapiência. No capítulo 7 Hugo dirá que o homem é "cognatus" da natureza divina. Mas. cunhado. no fundo. por sua própria natureza e substância. Pitágoras deu à procura da sabedo­ ria 0 nome de filosofia”. e quem a possui é beato. não vinda ou acrescida de fora. por exemplo. CAPÍTULO 2: A filosofia é a procura da Sapiência "Primeiro. A procura da Sapiência é. de fato. "um grande conforto na vida”. é cor­ rompida pela ação das paixões. E esta é a dignidade da nos­ sa natureza. é um movimento cognitivo inserido dentro do conhecimento maior que Deus tem de si mesmo! 0. enquanto antes se falava simplesmente de sóphoi. como é explicado no capítulo 2. fato que permite o conhecimento. com efeito. entre todos. não em virtude de algo que vem de fora. isto é. que todos têm igualmente. não lembran­ do de 1er sido outra coisa. é num certo sen­ tido todas as coisas e é composta de todas as coisas.sas a partir do exterior. coma dirá também no capítulo 8. 51 . como se fosse necessário que urna coisa só mude quando perdeu algo que possuía ou receba de fora al­ guma outra coisa que não tinha”. Hugo afirma a finalidade da leitura e do estudo: pela leitu­ ra e pelo estudo. a semelhança com todas as coisas e com a Sapiência. A seguir. E assim se diz que a mente. não em sen­ tido efetivo. A dignidade da natureza humana. Hugo acaba de dizer que a alma humana e a sua faculdade intelectiva ou mente possui dentro de si. quando uma parede recebe a cópia de alguma imagem mediante uma forma que vem de fora. mas por sua própria força e capacidade natural. quando um impressor imprime uma figura no metal quente. Este tema da corrupção e restauração da natureza humana é um tema fundamental do livro. que arrastam o espírito em direção às coisas. afastan­ do-o da Sapiência. cunhada com a semelhança de todas as coisas. que levam ao conhecimento ou "doutrina". e. para que conheçamos a nos­ sa natureza e aprendamos a não procurar fora de nós aquilo que podemos encontrar dentro de nós. e ele preferiu ser chamado "filósofo”. este começa a representar uma ou­ tra coisa. Quem a encontra é fe­ liz. Somos reerguidos pelo estudo. O espírito. constituída pela semelhança com a Sapiência. O conhecimento humano. Est autem hic amor sapientiae. difficile tamen ipsam ut est veritatem comprehendere queat. 1. "Est autem philosophia amor et studium et amicitia quo­ dammodo sapientiae. vivax mens et sola rerum primaeva ratio est. intelligentis animi ab illa pura sapientia illuminatio. Caput III: De triplici vi animae et solum hominem ratione praeditum “Triplex omnino animae vis in vegetandis corporibus depre­ henditur. quae in ferra­ mentis quibusdam. alendoque subsistat.1. ut viae filo quodam procedat oratio. In Isagogen Commenta pr. et sancta pu­ raque actuum castimonia"'®. ut videatur sapienti­ ae studium divinitatis et purae mentis illius amicitia. 10. Hinc nascitur speculationum cogitationumque veritas. disciplinam constituit. Philosophiam autem "earum rerum. In Isagogen Commenta sec. sapientiae vero non huius. "Quoniam vero humanis animis hoc excellentissimum bo­ num philosophiae comparatum est. et ad propriam naturae vim puritatemque reducit. quae vere essent suique immutabilem substantiam sortiren­ tur"’. ut eius amore quantumlibet mens ardeat. quae nullius indigens. Boethius. Boethius. quia nimirum adeo latet omne verum. ut nascendo crescat. et in aliqua fabrili scientia notitiaque versa­ tur. 1. De instiiutione arilmetica 1. Alia 9. 52 . quantumlibet ad eius in­ quisitionem assurgat. Haec igitur sapientia cuncto animarum generi meritum suae divinitatis im­ ponit.Pulchre quidem inquisitores veritatis non sapientes sed amato­ res sapientiae vocat. et quodam­ modo ad seipsam retractio atque advocatio. Boethius.3. sed illius sapientiae. 11. quarum una quidem vitam solum corpori subminis­ trat.1. ab ipsis animae efficientiis ordiendum est”". A segun9. mas é também um ato de Deus. pois a verdade total está tão escondida. 53 . Num certo sentido. é difícil chegar a enten­ der a verdade como ela realmente é. é bonito que ele chame os pesquisadores da verdade não sábios. portanto. No ato de filosofar. Por isso.Com efeito. e num certo sentido um retorno e um chamamento para si por parte daquela Sapiência. 0 homem olha para a Sapiência e re­ cupera a sua semelhança com Ela. o ato humano de filosofar é um ato do homem. Daqui nasce a verdade das especulações e dos pensamen­ tos. que segue um certo fio condutor. alimentando-se. chamando-o para si. a procura. e uma certa ami­ zade para com a Sapiência. deve começar pelas próprias capacidades da alma”. por mais que se empenhe na sua inquirição. é mente viva e "única razão pri­ mordial das coisas”. nascendo. continue a viver. "A filosofia é. e sim aquela Sapiên­ cia que. "Sendo que foi concedido aos espíritos humanos este bom ex­ celentíssimo da filosofia. esta nossa exposição. peias quais fícam garantidos os dois objetivos do filosofar a verdade nos pensamentos e a ética nos atos. Uma confere ao corpo somente a vida. 10. Pela filosofia. mas não aquela sabedoria que se ocu­ pa de tecnologias e de ciências produtivas. pode ser detectada uma potência tríplice da alma em sustentar os corpos. E esta Sapiência transfere para todo tipo de almas o primor de sua divindade e as traz de volta para a sua própria força e pureza na­ tural. a Sapiência ilumina o homem e recupera a integrida­ de divina que tinha infundido nele. o amor. a alma do homem recupera a sua pureza e força originária. cresça e. para que. Deus ganha e o homem ganha. por mais que a mente arda do seu amor. mas amantes da sabedoria. Este amor da Sapiência é uma iluminação do espírito inteligente por aquela pura Sapiência. que. a filosofia c um exercício de amizade entre a mente humana e a Sapiência. não carecendo de nada. para que este se recolo­ que na sua dimensão divina originária. a Mente divina ilumina a mente do homem. assim como a compostura santa e pura dos atos"'®. E assim ele definiu a filoso­ fia como a doutrina daquelas coisas que fossem verdadeiras e possuíssem uma substância imutável. CAPÍTULO 3: Da tríplice potência da alma e como somente o homem é dotado de razão Em geral. de modo a poder-se concluir que a procura da Sapiên­ cia é uma amizade com a divindade e com a sua mente pura®. quod imaginatio suggessit explicat atque confirmat Itaque. vel in absentium intelligentia. Quibus vero sensus adest non tantum eas rerum capiunt formas quibus sensibili corpore feriuntur praesente. vel in ig­ notarum inquisitione versatur. nutrien­ dis alendisque corporibus praesto sit nullum vero praestet rati­ onis sensusve iudiciura. ut dic­ tum est huic divinae naturae 54 . ac multiforme iudicium capit Omne enim animal. Haec autem est herbarum atque arbo­ rum. et in partem constituens varium de quibus potest capere. sed abscedente quoque sensu sensibilibusque sepositis. cognitarum sensu formarum imagines te­ nent memoriamque conficiunt et prout quodque animal valet longius breviusque custodit Sed eas imaginationes confusas at­ que inevidentes sumunt ut nihil ex earum coniunctione ac com­ positione efficere possint atque idcirco meminisse quidem nec aeque omnia. et alitur. et nutritur. Haec tantum humano generi praes­ to est quae non solum sensus imaginationesque perfectas et non inconditas capit sed etiam pleno actu intelligentiae. quae secum priores alendi ac sentien­ di trahit hisque velut famulis atque obedientibus utitur. eadem tota in ratione est constituta. nascendi scilicet atque nutriendi. eaque vel in rerum praesentium firmissima conclusione.vero sentiendi iudictum praebet Tertia vi mentis et ratione sub­ nixa est. amissam vero oblivionem recolligere ac revocare non possunt Futuri vero his nulla cognitio est Sed vis animae tertia. Sensus vero diversi sunt et usque ad quinarium numerum crescunt ita quid­ quid tantum alitur. vero composita atque coniuncla est ac primam sibi sumens. Secunda. non etiam sentit quidquid vero sentire po­ test etiam alitur. probatur esse subiecta. et quidquid terrae radicitus affixum tenetur. ei prima quoque vis animae. Quarum quidem primae id officium est ut creandis. quod sensu viget idem et nascitur. das árvores. nem lembram de tudo. con­ servam as imagens das formas conhecidas na sensação. e de tudo aquilo que está afixado na terra pela raiz. o sensitivo. depois que termina a sensação e os objetos desaparecem. consiste toda na razão. a de fazer nascer e nutrir.da oferece a capacidade de discernimento mediante a percepção sensível. do outro lado um ser dotado de sen­ sações também se alimenta. A alma humana se mostra em três modos. e isso demonstra que a primeira po­ tência da alma. está sujeita à segunda. e ela capta não somente sensações e imaginações perfeitas e fundamenta­ das. assumindo a primeira potência como parte de si. desen­ volvem a memória delas e. de modo que. sem nenhum discernimento da ra­ zão e dos sentidos. é ali­ mentado e cresce. Esta força é a das ervas. é composta e agrupa­ da. nutri­ ção e crescimento dos corpos. Mas a terceira potência da alma. que traz consigo as duas anteriores. e se ocupa ou da de­ dução a partir das coisas presentes ou do conhecimento das coi­ sas ausentes ou da pesquisa das coisas desconhecidas. e destas se serve como de servos obedientes. o vegetativo. nem conseguem retomar e chamar de volta aquilo que foi esquecido. eles percebem estas imaginações dé"modo confuso e não evi­ dente. Toda­ via. a da nutrição e a da sensação. porém. A função da primeira potencia é a de servir à criação. alcança um discernimento vário e multiforme sobre aquilo que conse­ gue captar. Todo animal dotado de sentidos também nasce. mas também explica e confirma com pleno ato da inteligên­ cia aquilo que a imaginação sugeriu. Os seres dotados de sentidos não captam somente aquelas for­ mas que são percebidas na presença de um corpo sensível. mas. e consequentemente não conseguem fazer nada através da conjunção e composição de tais imaginações. Esta tercei­ ra potência está dada somente ao gênero humano. 55 . A segunda potência da alma. raantêm-na por um tempo mais longo ou mais breve. segundo as capacidades de cada ani­ mal. A terceira é dotada da força da mente e da razão". Os sentidos são vários e chegam ao número de cinco. tl. Para esta natureza divina. o racional. se de um lado um ser que somente se ali­ menta não tem sensações. e. Do futuro eles não têm conhecimento algum. Si enim brutorum animalium natura. hominum natura sortita est. nec non et cur sit. et ratione nihilo­ minus vestigat Cum igitur hic actus sit humani animi. cuius animae vis intelligentiae motibus non caret. 13.1-2. opor tet agnoscere. De Boethius. ut semper in praesen­ tium comprehensione.12. quid sit addubitat Quod. ut dictum est. motus suos 12. aut si esse constiterit. Ibid. vocabulorum quoque positionibus ape­ rit. cur ita sit quaerit. ut per ea quae sibi nota sunt. 56 . et quale sit. verum etiam ex sensibilibus imaginatione concep­ ta. atque in eo cetera accidentium momen­ ta perquirit Quibus cognitis. duo sunt in qui­ bus omnem operam vis animae ratiocinantis impendit unum quidem ut rerum naturas inquisitionis ratione cognoscat alte­ rum vero. quae subiecta sensibus comprehendit. et quod intelligentiae ratione comprehendit. Illud quoque ei naturae proprium est. "inextricabilem" iam ipso loquendi ordine "labyrinthum incidimus”ubi nobis non perplexus sermo. sed res obscura difficultatem pariat Quia enim de studio sapientiae loqui suscepimus. Philosophiae Cons. quae nullo regitur rationis iudicio. aut in ig­ notarum inquisitione atque inventione versetur. idque solis hominibus quodam naturae privi­ legio competere attestati sumus. ut ad scientiam prius veniat quod post gravitas mora­ lis exerceat” Caput IV: Quae res ad philosophiam pertineant Sed ut video. qua in his quattuor proprie vim rationis exercet Aut enim aliquid an sit inquirit. 3. Quam triplicem animae vim sola. ignota vestiget. et absentibus rebus nomina indere potest. aut in absentium intelligentia.non ea tantum in cognitione sufficiunt. et non solum unumquodque an sit. 1. sed quid sit etiam. consequenter nunc omnium humanorum actuum moderatricem quandam sapientiam posu­ isse videmur.30. si etiam utriusque scientiam ratione possidet quale sit unumquodque vestigat. e dissemos que isto compete somente aos homens por um certo privilégio da natureza. ela pode dar o nome às coisas ausentes e expli­ car com aposições de vocábulos aquilo que ela compreende com a razão da inteligência. que não é regida por nenhum juízo da razão. pois exerce a força da razão exata­ mente em quatro funções. pergunta o que ela é. onde a dificuldade é causada não pelo discurso obscuro. investi­ ga 0 que cada coisa é. E. como é. mas também o que é. Quais coisas pertençam à filosofia Mas me apercebo que. É próprio da natureza dela investigar as coisas desconhecidas a partir das coisas conhecidas. falando destas coisas.não é suficiente apenas conhecer as coisas sujeitas aos sentidos. com efeito. conseqüentemente agora parece que te­ mos colocado uma certa Sapiência como guia de todos os atos humanos. como dissemos. recebeu esta tríplice potência da alma. e isto exige conhecer de qualquer coisa não somente se é. Se. distende seus movimentos 57 . ela pergunta por que a coisa é assim. se a sua existência foi constatada. Uma vez que começamos a falar da procura da Sapiência. a outra em primeiro conhecer aqui­ lo que depois a seriedade moral deve realizar. a natureza dos animais brutos. CAPÍTULO 4. se pela razão já possui o conhecimento destas duas coisas. e porque é. E esta força da alma não carece dos movimentos da inteligência. duas são as coisas às quais a força da alma pensante dedica todo o esforço: uma em conhecer as naturezas das coisas medi­ ante 0 método da indagação. mas também. Somente a natureza humana. Sendo que a atividade do espírito humano consiste ou na compreensão contínua das coisas presentes. Ou pesquisa se uma coisa existe ou. mas pela obscuridade da matéria em discus­ são. caímos num "labirinto inextricável”. concebida uma representação mental a partir das coisas sensíveis. e ¡mediatamente investiga isto com a razão. ou na inteligência das ausentes ou na pesquisa e descoberta das coisas desconheci­ das. Conhecido tudo isso. e nisso inquire também os vários influxos dos acidentes. restat ut rationalis ani­ mae actus caeca cupiditas non rapiat. sed moderatrix semper sa­ pientia praecedat Quod si verum esse constiterit. et sui exemplaris for­ mam. 58 . qua imitantur. Secundum quam acceptionem. verum etiam omnium humanorum actuum seu studio­ rum rationes. imitantur tamen naturam. verbi gratia. Nec movere debet quod supra diximus philosophiam esse amorem et studium sapientiae. ratione exprimunt. et ab ea excludi secundum administrationem. quae natura est. administratio rustici. sed eius sapientiae "quae sola rerum primaeva ratio Po­ test namque idem actus et ad philosophiam pertinere secundum rationem suam. agricultura. Boelhius. Philosophia est disciplina omnium rerum humana­ rum atque divinarum rationes plene investigans. sed caeco quodam carnis affectu impellitur. opera artificum. iam non so­ lum ea studia in quibus vel de rerum natura vel disciplina agitur morum.3. Vides iam qua ratione cogimur philosophiam in omnes ac­ tus hominum diffundere. et in appetendo seu fugiendo aliquid non intelligentiae utitur discretione. sic philosophiam definire possumus. Praeterea. ¡n Isagogen 1. etsi natura non sint. et cetera huiusmodi. non incongrue ad philosophiam pertinere dice­ mus. non huius quae instrumentis ex­ plicatur ut est architectura.secundum solas sensuum passiones diffundit. ut iam necesse sit 14. ut de praesenti loquamur: agriculturae ratio philo­ sophi est. como é explicado no capitulo 6. Hugo considera o trabalho humano como parte da filo­ sofia. a teoria racional da agricultura é coisa do fi­ lósofo. pertencem à tecnologia. através da qual imitam Você já pode ver por qual motivo somos obrigados a alargar a filosofia para todos os atos dos homens. O artífice ou trabalhador. Hoje te­ mos outra visão do mundo supralunar. pela primeira vez na história. os traba­ lhos dos artífices. e isto não perten­ ce à filosofia: mas. Além disso. enquanto executados. por exemplo. mas sejam sempre precedidos por uma Sapiência moderadora. podemos definir a filo­ sofia assim: a filosofia é a disciplina que investiga exaustivamen­ te as razões de todas as coisas humanas e divinas. como é a arquitetura. deduz-se que os atos da alma racional não devam ser arrasta­ dos pela voracidade cega. de modo que já é ne. com efeito. Por esta razão. pode pertencer à filosofia em seus princípios teóricos. Todos os atos humanos podem ser colhidos em duas dimensões: pensados e executa" dos. lugar das essências imortais criadas por Deus. e expressam pela razão a forma do seu modelo. Não devemos ficar surpresos pelo fato de termos dito anteri­ ormente que a filosofia é o amor e a procura da Sapiência. sendo que a terra sublunar é "obra da natureza”. também hoje. imitando-os.* *12. a “natureza". sua execução é coisa do camponês. que é a natureza. movida como é por urna certa qual propensão cega da car­ ne. a agricultura e coisas parecidas. continua válido o conceito de que todo ato humano e toda obra produtiva podem ser pensados.apenas segundo as sensações dos sentidos e não se utiliza de ne­ nhum discernimento da razão na hora de desejar ou fugir de algo. como ten­ do seu modelo na Mente Divina ou no Espírito do universo. todavia imitam a natureza. pois 0 trabalho possui uma dimensão filosófica quando é executado com os olhos voltados para os modelos divinos das obras humanas. afirmamos que propriamente pertencem à filosofia não somente aqueles estu­ dos nos quais se discute ou a natureza das coisas ou a disciplina dos costumes. Enquanto pensados. não daquela que é exercida na tecnologia. todavia. enquanto pensa suas obras. Imitando a natureza. E se isto for verdade. é o mundo divino supralunar. Este ato é filosófico. o artífice está olhando para as essências divinas supralunares. 59 . criada e mortal. mas também as razões de todos os atos e esforços humanos. O mesmo ato. tem a ver com a filosofia. executa obras. Ora. para fi­ car no mesmo dado. por exemplo. mas pode ser excluído dela em sua realização prática. O trabalho humano tem a ver com o Artífice da natureza. mesmo não sendo a naturez^a. De acordo com este conceito. mas daquela Sapiência “que é a única razão primordial das coisas”. com a "razão única e primordial das coisas". ele conecta-se aos modelos vindos da natureza. et haec aeterna nominantur. ut vel naturae nostrae reparetur integritas vel defectuum. bonum et malum. finis et intentio ad hoc spectare debet. scientia et virtute. qui nisi sensibus fidem praestare nesciunt. temperetur necessitas. mechanicae Omnium autem humanarum actionum seu studiorum. Et haec est ultima pars rerum. mortalitati et mutabilitati obnoxius est. immortalis est. quibus praesens subiacet vita. secundum unam partem suam quae potior est. quae sola his. Caput V: De ortu thcoricae. ut apertius id quod oportet dicam. natura et vitium. 60 . Integritas vero naturae humanae duobus perficitur. excludendum est. ut natura reparetur et excludatur vitium. quia corruptum est. alia quae principium idem habent. Caput VI: Dc tribus rerum tnaneriis Sunt namque in rebus alia quae nec principium habent nec finem. et. Duo sunt in homine. quia natura non est. ubi toties mori necesse est.tot esse philosophiae partes quot sunt rerum diversitates. cogni­ ta est. Malum quia vitium est. sed gemi­ na compactus substantia. quae ipse est. Secundum alteram vero partem quae caduca est. quae principium et finem habet. quia corruptio est. exerci­ tio reparandum est. ad quas ipsam pertinere constiterit. quia minus est. Dicam apertius quod dixi. quae sapientia moderatur. practicae. quoties amittere id quod est. quae nobis cum supernis et divinis substantiis simili­ tudo sola est Nam homo. cum simplex natura non sit. Hoc est omnino quod agendum est. Bo­ num quia natura est. saltem adhibito remedio temperandum est. Quod si funditus extermi­ nari non potest. De fato o homem. deve ser restabelecido através do empenho pessoal. Dos três típos de coisas Entre as várias coisas há aquelas que não têm nem início nem fim. dado que é corrupção. que é passageira. Duas coisas existem no homem. CAPÍTULO 5. às quais. aquela que tem um princípio e um fim. razão pela qual é necessário morrer todas as vezes que se perde aquilo que ele é.cessário haver tantas partes da filosofia. No que diz respeito à outra parte. a natureza original e a sua depravação. às quais a vida presente está sujeita. da mecânica I A finalidade e a intenção de todas as ações e esforços huma­ nos. que são guiados pela Sapiência. o homem é sujei­ to à mortalidade e à mutabilidade. é imortal no que diz respeito a uma parte dele. O bem. pelo menos deve ser reprimido com a aplicação de um re­ médio. quantas são as diversi­ dades das coisas. outras que têm um início. é necessário dizê-lo mais explícitamente. sendo que não é a natureza originária. se realiza de duas maneiras. mas 61 . da prática. devem mirar ou a restabe­ lecer a integridade da nossa natureza ou a mitigar a fatalidade das privações. ela se refere. Isto é exatamente aquilo que deve ser feito para que a na­ tureza seja recuperada e o vício eliminado. visto que se depravou. deve ser extirpado. é ele mesmo. que é a única conhecida por aque­ les que não sabem acreditar senão nos sentidos. O mal. como ficou daro. E esta é a úl­ tima das coisas. E se não pode ser extirpado pela raiz. dado que não é uma natureza simples mas é composto de duas substâncias. pelo conhecimento e pela viftude. visto que ficou diminuto. por sinal. dado que é depravação. que é a mais importante e que. o bem e o mal. sendo que é a natureza ori­ ginária. Explicarei mais claramente o que acabo de dizer. e esta é a úni­ ca semelhança que temos com as substâncias superiores e divi­ nas. e estas são chamadas eternas. ■ A integridade da natureza humana. Da origem da teórica. CAPÍTULO 6. Non enim essentiae rerum transeunt. ut esse inciperet. qui vi quadam descendit in res sensibiles procreandas. divina appellata sunt. Illud vero cui aliud est esse. 62 . et id quod est. et ex causa praecedente in actum profluxit. In primo ordine id constituimus cui non est aliud esse. "Nihil in mundo moritur”. cuius causa et effectus diversa non sunt. et dicuntur perpetua. idque in gemina secatur: est quiddam quod a causis suis primordiali­ bus. et cuncta superlunaris mundi corpora. De illis ergo dictum est. ibique immutabile omnis finis atque vicissi­ tudinis expers consistit (eiusmodi sunt rerum substantiae quas Graeci ousias dicunt). ut est solus natu­ rae genitor et artifex. quae oriun­ tur super terram sub lunari globo. ad actum prodit solo divinae voluntatis arbitrio.sed nullo fine clauduntur. alia quae et ini­ tium habent et finem. et id quod est id est. sed sunt opera naturae. sed formae. et haec sunt temporalia. nullo movente. Tertia pars rerum est quae principium et finem habent. id est quod aliun­ de ad esse venit. eo quod nulla essentia pereat. movente igne artifice. ut esse incipiat. et per se ad esse non veniunt. quod non aliunde sed a seraetipso subsistere habet. quae mundum continet omnem. natura est. quae etiam ideo quod non mutentur. Em Deus. Nos outros seres. Sobre a segunda categoria de coisas foi dito: “nada no mun­ do morre”. que circunda o mundo inteiro. como é o único pai e artífice da natureza”. porque as essências são imortais. os quais. pelo fato que não mudam. nos outros seres são distintos. 14. O mundo sublunar. fogo. foram também chamados divinos. O mundo supralunar tem princípio. mas não tem fim. mas em virtude de si mesmo. passa para a existência atual uni­ camente por decisão da vontade divina. Ela se divide em duas partes: uma parte é aquilo que começa a existir em virtude de suas causas originárias e. o qual possui o existir não em virtude de algo de fora. De fato. no qual existem os espíritos ou essências. que desce com uma certa qual força para produzir as coisas sensíveis’*. e não vêm à existência por si mesmas. veio à existência por obra do fogo artífice do mundo supralunar. ou seja. e estas são as temporais. o existir e a essência são simultaneamente eternos. Na segunda ordem está aquilo no qual o “ser” e “aquilo que é” são distintos. a essência deles está na Mente Divina. podendo vir a existir ou não. e ou­ tras que têm início e fim. A terceira categoria das coisas são aquelas que têm um iní­ cio e um fim. e a partir daí continua imutável e livre de qualquer fim ou mudança (deste tipo são as essências das coisas que os gregos chamam ousiai)-. o termo "natureza" indica somente o mundo supralunar. a outra par­ te são todos os corpos do mundo supralunar. Como se vê. e isto pelo fato que nenhuma essência perece. mas são obras da natureza. composto pelos quatro elementos ar. li' K 13. água. o existir ("ser) e a essência ("aquilo que é") são idênticos. terra. aquilo que vem a existir em virtude de algo de fora e veio à realidade por ação de uma causa anterior para que iniciasse a existir. isto é. não são as essências das coisas que passam.não são limitadas por nenhum fim. mas as suas formas. aquilo que uma coisa é. sob o impulso do fogo artífice. Na primeira ordem situamos aquilo no qual não há diferen­ ça entre o “ser" e “aquilo que é". portanto. sem 0 concurso de outra coisa. Em Deus. cha­ mados divinos. O mundo sublunar tem princípio e fim. e os corpos supratunares. porque foi criado. mas a existência depende de um ato dê criação. criadas diretamenle por Deus. chama-se "obra da natureza". 63 . as quais nascenr-sobre a terra debaixo do globo lunar. O "ser" é o existir de uma coisa e "aquilo que é’’ é a essência desta coisa. e isto é a natureza. no qual a causa e o efeito não são duas coisas distintas. e sao ditas perpétuas. De bello iugixrUno 2.Cum vero forma transire dicitur. Persius. Saturae 3. eo unde venerat reversurum sit. quae in eo vitalis spiritus infusione vegetantur. sed etiam ut alendo sub­ sistant Eundem etiam superiorem mundum tempus vocabant. ita eodem actu temporaliter destructo. 15. Item su­ perlunarem. propter cursum et motum siderum quae in eo sunt. vel sic fortassis ut quae iuncta fuerant. non sic intellîgendum est. 64 . 16. quod fuit ante nihir. ab in­ vicem separentur. De his dictum est: "Omnia orta occidunt. propter perpetuam lucis et quietis tranquillitatem. in nihilum nil posse r e v e r t i ” e o quod omnis natura et pri­ mordialem habet causam et subsistentiam perpetuam. vel quae separata erant. a superioribus per invisibiles meatus infusum nutrimentum acci­ piunt. opus naturae. ita etiam finis aliena non sunt De iliis dictum est: “De nihilo ni­ hil. Caput VII: De mundo superlunari et sublunari Hinc est quod mathematici mundum in duas partes divise­ runt: in eam videlicet partem quae est a circulo lunae sursum. eo quod ibi omnia primordiali lege consistant. ct in eam quae deorsum est. naturam appellabant. inferiorem. vel quae nunc erant.84. sublunarem. eo quod omne opus naturae sicut temporaliter ex occulta causa in actum profluit. Sallustius. non solum ut nascendo crescant. Et superlunarem mundum. sed variari potius. in quibus omnibus esse rerum nihil detrimenti patitur. temporalem. coniungantur. De his dictum est: "Et redit ad nihilum.3. vel quae hic erant. elysium. ut ali­ qua res existons perire omnino et esse suum amittere credatur. quia omnium genera animantium. et aucta senescunt”’^ eo quod cuncta naturae opera. quia secundum motus superiores agitur. tunc subsis­ tant. illuc transeant. id est superioris. sicut principium habent. deverá voltar para o lugar de onde viera. porque todo o gênero dos viventes. para que não somente nas­ çam e cresçam. obra da parte superior. mas também se alimentem e evoluam. Sobre esta segunda categoria das coisas foi também dito: “Nenhuma coisa vem do nada.E quando se diz que uma forma desaparece. ainda. e nenhuma coisa pode tornar-se simplesmente nada”. Sobre as coisas da terceira categoria. e em todas elas o ser das coisas não sofre perda alguma. nomeavam o mundo supralunar de "elisio”. porque se move segundo os movimentos do mundo superior. e chamaram o mundo inferior de “temporal’^. por causa do curso e do movimento das estrelas que lá se encontram. e outra que fica debaixo dela. Igualmente. ou porque as que estavam aqui passam para lá. em virtude da perpétua tranquilidade de luz e paz. mas antes que ela muda. isto é. assim como veio à existência temporariamen­ te em virtude de uma causa oculta. que no mundo sublunar são fortificados pela infusão de um espírito vital. recebem das essências superiores o alimento infuso através de percursos invisíveis. Com efeito. ou. Do mundo supralunar e sublunar Em razão dessas diferenças os matemáticos dividiram o mundo em duas partes: uma que fica acima da órbita da lua. E chamaram de “natureza” o mun­ do supralunar. não se quer dizer que uma coisa desapareça simplesmente e perca o seu ser. do mesmo modo. porém. porque coisas que eram neste momento come­ çam a existir em outro. e chamaram o mundo sublunar de “obra da natureza". removido temporariamente o ato de existir. foi dito: “E vol­ tou para o nada aquilo que antes era nada”. pois a inteira natureza possui seja uma cau­ sa originária como uma subsistência perpétua. cada obra da natureza. porque lá todas as coisas subsistem em virtude de uma iei primordial. E também apelidaram aquele mundo superior de “tempo”. CAPÍTULO 7. 65 . ou porque elementos que estavam juntos se separam uns dos outros ou porque coisas que estavam separa­ das agora são juntadas. primum. in ea vero. Cum igitur ad reparandam naturam nostram intendimus. munit. hanc vero. Possumus autem non incongrue illam. di­ vina actio est. Ex quo colligi potest id quod supra dictum est. cum vero illi quod infirmum in nobis est necessa­ ria providemus.h u n c autem propter inconstantiam et confusionem rerum fluc­ tuantium. divinitati esse cognatum. Omnis igitur actio vel divina est vel hu­ mana.. qua in parte mutabilitatis particeps est. quod contra molesta. Quia in hoc homo Deo similis est. id est. intelligentiam appellare. trimodum genus est. quod naturae nutrimentum administrat. quae extrinsecus accidere possunt. ut vel divinae imaginis similitudo in nobis res­ tauretur. in ea quoque ne­ cessitati esse obnoxium. Illarum vero actionum quae huius vitae necessitati deservi­ unt. quod sapiens et iusLus e^t. vel huius vitae necessitudini consulatur. quod videlicet omnium humanarum actionum ad hunc finem concurrit intentio. quae quo faci­ lius laedi potest adversis. eo magis foveri et conservari indiget. sed iste mu­ tabiliter. humana. ille immutabiliter et sapiens et iustus est. speculatio veritatis et virtutis exercitium. secundum. qua immortalis est. infernum nuncupabant Haec paulo latius prosecuti sumus ut ostendamus homi­ nem. quod contra iam illata praes­ tat remedium. tertium. 66 . eo quod de superi­ oribus habeatur. Caput VIII: In quo homo similis sit Deo Duo vero sunt quae divinam in homine similitudinem repa­ rant. ern sua parte imor­ tal. Podemos apropriadamente chamar aquela de “inteligência”. CAPÍTULO 8: Em que 0 homem é semelhante a Deus Duas são as coisas que recuperam no homem a semelhança divina. e são elas: 1) a especulação da verdade e 2) o exercício da virtude. na parte que é partícipe da mutabílidade. Todo este livro de Hugo. esta é uma ação humana. Era teoria antiga e medieval que entre o mundo supralunar e o sublunar havia fluidos que alimentavam este último. Pois o homem é semelhante a Deus quando é sábio e justo. pelo fato de que se ocupa das coisas superiores. e esta de “ciência”. é composto de dois ele­ mentos: pelo elemento pertencente ao mundo supralunar. nes­ ta é também sujeito à necessidade. Disto pode-se deduzir o que dissemos aci­ ma. mas ele. portanto. isto é.e nomearam o mundo inferior de “inferno”. Quanto às ações que provêm às necessidades desta vida. que a finalidade de todas as ações humanas é direcionada para dois fins: 1) ou para que em nós seja reparada a ima­ gem divina. o segun­ do fortalece contra as moléstias que podem vir de fora. mas quando providencia­ mos as coisas necessárias àquela parte de nós que é fraca. Toda ação. há três tipos: o primeiro administra o alimento à natureza. portanto. nos dedicamos a reparar a nossa natu­ reza (divina). 2) ou para que se proveja às necessidades desta vida. 0 homem. o homem é imortal. 15. ele é mortal. o tercei­ ro oferece remédio contra as moléstias Já sofridas. Deus de maneira imutável. é ou divina ou humana. como se díz a seguir. 67 . ainda que o homem seja sábio e justo de maneira mutável. a qual. tan­ to mais precisa ser nutrida e conservada. é afim à divindade. pelo ele­ mento pertencente ao mundo sublunar. esta é uma ação divina. devido à inconstân­ cia e à confusão das coisas que mudam’^ Nos detivemos um pouco mais sobre estas coisas para mos­ trar que 0 homem. Quando. ao falar das artes. quanto mais pode ser danificada pelas adversidades. indica quais delas estão ordenadas ao elemento mortal do homem {cuidar das necessidades da vida) e quais ao elemento imortal (reparar em nós a imagem divina}. 23. quoniam et in investigations veritatis et in morum considerations laborat. di­ camus. quia opera humana prosequitur. id est. congrue me­ chanica. Gn 3. 17. scientiam vocare.1. id est. ut supra dictum est. dt. opus artificis imitantis naturam”^^ Opus Dei est. quod non erat creare. quae etiam ethica. 13. Scientia vero. Unde illud. speculativam. opus Dei. id est. Caput IX: De tribus operibus “Sunt etenim tria opera. “In principio creavit Deus caelum et terram”^®. Si igitur sapientia. op. Gn 1. opus naturae. in theoricam. Opus naturae. id est. 68 .7. id est. Unde illud: "Consuerunt sibi perizomata"^". adulterina vocatur. 20.11. et quasi quodam consilio indiget. Rursus intelligentia. quod latuit ad actum producere.quia de inferioribus habetur. id est. Opus artificis est disgregata coniungere vel coniuncta segre­ gare. Gn 1. Unde illud: “Producat terra herbam virentem”^® etc. eam in duas species dividi­ mus. Calcidius. consequens est iam ut sapientiam has duas partes continere. cunctas quae ratio­ ne fiunt moderatur actiones. et practicam. 19. acti­ vam. intelligentiam et scientiam. moralis appellatur. como se diz a seguir. que é o mundo divino supralunar. não no sentido pejorativo de "impróprias". e “mekanikós”. 1) a inteligência e 2) a ciência. Por isso foi escrito: “Costuraram para si cinturas". a Sapiencia. adulterino. 1) urna teórica. Alguns textos medievais confundiam as etimologias gregas "mêkos". 69 . 3) a obra do artífice que imita a natureza"’”. e esta se chama também ética. nos espiritualistas de ontem e hoje. Se. a primeira dedicada à alma e a segunda ao corpo. A inteligencia. são chamadas "adulterinas". Por isso foi escrito: “No início criou Deus o céu e a terra”. é lógico dizermos que a Sa~ piéncia abrange duas partes. A ciência. isto é.porque se ocupa das coisas inferiores e precisa de um certo qual conselho^®. especulativa. adulterina”. pela primeira vez na história. mediante a ra­ zão. porque o trabalho do artífice “imita" a natureza. O Mestre. A obra de Deus consiste em criar aquilo que não existia. ou seja. mas no sentido de "imitativas”. a ciência. CAPÍTULO 9: Das três obras “Há. portanto. é um motivo fundamental da filosofia cristã. per­ manece a distinção fundamental entre "intelecto ou inteligência” e “razão ou ciência ou lógica". dado que realiza as ações humanas. etc. isto é. ou seja. que. é apta a conhecer as coisas divinas. A obra do artífice consiste em unir as coisas separadas e separar as coisas unidas. e é ilustrada por inúmeros escri­ tos durante os tempos. 17. destinadas ao corpo. Esta divisão entre inteligência e ciência. como dissemos acima. A obra da natureza consiste em trazer para a realidade aquilo que estava escondido. 2) a outra práti­ ca. enquanto Mente Divina a ser procurada na filosofia. 2) a obra da natureza. 18. por sua vez. seja a atividade divina do homem como sua atividade corpo­ ral no trabalho. moral. 1) a obra de Deus. mecânico. Em geral. com efeito. apropriadamente é chamada mecânica. As ciências mecânicas. Relativamente à teoria do conhecimento. ou seja. é dividida em duas partes. no qual Hugo insere o trabalho do homem como imita­ tivo do mundo divino da natureza supralunar. Relembremos que Deus cria a natureza. aqui. A Sapiência. três obras. a inteligência. e da natu­ reza deriva o mundo . guia todas as ações feitas pelo homem racional. ativa. ou seja. Por isso foi escrito: “Produza a terra a erva verde”. está justificando a in­ serção do trabalho na dignidade filosófica. aqui c em outras passagens do livro. indica o inundo divino. abran­ ge. por outro lado. como dissemos. facul­ dade divina no homem.sublunar. dado que trabalha: a) na investiga­ ção da verdade e b) na reflexão sobre os costumes. 16. conhece as ciências naturais. concha testudinem ex­ cipit. quod natura non est sed imitatur naturam. vel homo herbam producere. intra medium mon­ tium perstransibunt aquae"^\ Eminentia montium aquas non re­ tinet. Quia enim. quae sibi providere nesciunt. cum singula animantium naturae suae arma secum nata habeant. SI 104. ebur elephantem iacula non timere facit Nec tamen sine causa factum est quod. natura consuleret. consideravit quod sin­ gula quaeque nascentium propria quaedam habeant munimenta quibus naturam suam ab incommodis defendunt Cortex ambit arborem. pilus iumenta et feras vestit. Possumus tamen exempli causa in paucis id demonstrare. piscem squama operit. ut ait propheta. Qui domum fecit. adul­ terinum nominatur. montem respexit. homini autem ex hoc etiam maior experiendi occasio praestaretur. cum illa. quemadmodum et clavis subintroducta me­ chanica dicitur. lana ovem induit. solus homo inermis nascitur et nu­ dus. Qualiter autem opus artificis imitetur naturam longum est et onerosum prosequr per singula. 21.Neque enim potuit vel terra caelum creare. mechanicum. Qui usum vestimentorum primus adinvenit. penna tegit velucrem. id est. hominem in­ tuitus est. "qui emittis fontes in convallibus. qui nec palmum ad staturam suam addere potest in his tribus operibus convenienter opus humanum. Ita domus in altum quoddam cacumen levanda fuit.10- 70 . propria ratione sibi inveniret Multo enim nunc magis enitet ratio homi­ nis haec eadem inveniendo quam habendo claruisset Nec sine causa proverbium sonat quod: “Ingeniosa fames omnes excuderit artes”. quae ceteris naturaliter data sunt. Qui statuam fudit. Oportuit enim ut illis. ut ir­ ruentium tempestatum molestias tuto excipere posset. enquanto cada um dos seres animado:? possui por nascença as armas de sua própria natureza. ele que nem pode acrescentar um palmo à sua estatura. Quem. com a qual □ adúltero entra no aposento do pecado. observou o homem. com as quais defendem a sua própria natureza contra os incômodos. que a natureza provesse àqueles que não conseguem prover a si mesmos. a concha acolhe a tartaruga. a escama cobre o peixe. A título de exemplo. a lã aquece a ovelha. o pêlo ves­ te os jumentos e as feras.Pois nao pôde a terra criar o céu. adulterina. Não sem razão o provérbio reza que "a fome engenhosa forjou todas as artes”. é convenientemente chamada de me­ cânica. pois. mas imita a natureza. porém. Foi conveniente. isto é. portanto. que não é a natu­ reza. Muito mais brilha a razão do homem inven­ tando estas mesmas coisas. a obra do homem. enquanto ao homem foi reservada uma maior oportunidade de experimentar. somente o homem nasce sem ar­ mas e nu. como diz o profeta: "Tu fazes jorrar as fontes nos vales e as águas escorrerão entre os montes”. A casca abraça a árvore. o marfim não deixa o elefante temer as lanças. A respeito de como o trabalho do artífice imita a natureza. da mesma maneira que uma chave fur­ tiva é dita mecânica*^. E não foi sem razão que. A chave furtiva é a cópia ou "imitação" daquela chave. 71 . 19. ao ter que encontrar para si com a razão aquilo que aos outros é dado naturalmente. a pluma protege o pássaro. As cris­ tas das montanhas não seguram as águas. observou que todas as espécies daqueles que nascem possuem cada qual algumas pro­ teções próprias. Entre estas três obras. seria longo e oneroso expô-lo em detalhes. para que pudesse su­ portar com segurança os riscos das violentas tempestades. de quanto teria resplandecido se já as tivesse. a casa teve que ser levantada até o alto da cumeeira. E assim. Aquele que fez a casa olhou a montanha. podemos demonstrá-lo com poucas palavras. 0 artífice que fundiu a estátua. nem o homem produzir ervas. 0 conceito sobre o qual se insiste não é o da desautorização das ciências mecânicas. mas o da "imitação". inventou o uso de vestimentas. primeiro. fundendi. Cui significationi talis definitio assignatur: “Natu­ ra unamquamque rem informans propria differentia dicitur”“. quod in mente divina est. 72 . Huic significationi talis defini­ tio assignatur: "Natura est quae unicuique rei suum esse attri­ buit”. “Natura est omnia pondera 22. Hac eadem pingendi. non tamen huius vocabuli significatio omnino silentio praetereunda videtur. Boethius. 23.24. sculpendi. infinita genera exorta sunt. Quantum tamen ego ex eorum dic­ tis conicere possum. ut iam cum na­ tura ipsum miremur artificem. cuius ratione omnia formata sunt.34. tribus maxime modis huius vocabuli signifi­ catione uti solebant. ut ait Tul­ lius. texendi. flheiorid libri duo <}ui vocantur de inventione 1. singulis suam definitionem assignando. Secundum quam significationem dicere solemus. id quod possumus tacere debemus. licet. reperta sunt. Secundo modo naturam esse dicebant proprium esse unius­ cuiusque rei. "naturam definire difficile sit”“. Primo modo per hoc nomen significare voluenint illud ar­ chetypum exemplar rerum omnium. sed nihil ita ut non aliquid restare videatur. Plura veteres de natura dixisse inveniuntur. et dicebant naturam esse uniuscuiusque rei primordialem causam suam.Hac equidem ratione illa quae nunc excellentissima in studi­ is hominum vides. Contra Eulychen 1. quia non omnia quae volumus dicere possumus. Cicero. Neque. a qua non solum esse sed etiam talis esse habeat. Caput X: Qtlid sit natura Quia vero iam toties naturam nominavimus. CAPÍTULO 10: O quc é a natureza Uma vez que já nomeamos tantas vezes a natureza. para que. sobretudo do sol. E a este significado aplicavam a seguinte definição: "A Natureza é a própria diferença que enforma cada coisa". Mesmo não podendo dizer tudo o que queremos. Encontram-se muitas noções nos antigos sobre a natureza. A tal significação é aplicada esta definição: “A natureza é aquela que atribui a cada coisa o seu ser"“. tecer. ainda que. parece-nos que o significado desta palavra não deve ser preterido sob silêncio. íorma e arquéti­ po de todas as coisas. “seja difícil definir a na­ tureza”. de três modos. não devemos silenciar aquilo que podemos dizer. Por esta mesma razão nasceram infinitas maneiras de pintar. admirando a natureza. por cuja essência todas as coisas foram formadas.É por esta razão que foram descobertas todas aquelas coi­ sas excelentíssimas que você vê nos esforços dos homens. somente a terceira corresponde ao signi­ ficado de "natureza" utilizado ate' aqui por Hugo: a natureza é um fogo artífice vindo do mundo supralunar. da qual esta coisa recebia não apenas o existir. fundir. razão. como diz Túlio. 21. admiremos o próprio artífice. 73 . Num primeiro modo. das três definições recolhidas. dando a cada um uma definição própria^“. mas também a es­ sência. pelo qual os 4 elementos do mundo sublu­ nar sáo produzidos. Segundo esta definição. Num segundo modo diziam que a natureza era o próprio ser de cada coisa. a natureza é a própria Mente Divina. Como se verá. sobretudo. com esta palavra quiseram significar aquele modelo arquetípico de todas as coisas que reside na men­ te divina. esculpir. costumavam utilizar o significado deste vocábulo. E nes­ te sentido costumamos dizer: "A Natureza é todos os pesos pender 20. e di­ ziam que a natureza era a causa primordial de cada coisa. mas não tantas que não pareça restar algo a ser ainda dito. Pelo que eu posso deduzir das palavras deles. Hoc au­ tem idcirco huic atque aliis accidisse manifestum est. "Natura est ignis artifex. De natura deorum 2. centum quoque res illi numero sublectas esse necesse est. quoniam per imperitiam disputandi. Ceterae prius repertae fuerant. id sine dubio in res quoque ipsas evenire necesse est. omnia ex calore et humore procreari. ut si ex calculo centum contigerit. Vergilius. “ut in multis evenit Epicuro. qui atomis mun­ dum consistere putat et honestum voluptatem mentitur. Nam sicut dicit Boethius: Cum primitus antiqui circa naturas re­ rum et morum qualitates investigandas operam impenderent. ex qua­ dam vi procedens in res sensibiles procreandas”^^ Physici nam­ que dicunt.382. aquam humectare". quia vocum et intellectuum discretio­ nem non habebant. Caput XI. ignem urere. 25.57. 24. Neque enim sese res ut in numeris. Hic vero magnus est error. ita etiam in ratiocinationibus habent. levia alta petere. De ortu logicae Postquam igitur theoricae et practicae et mechanicae or­ tum demonstravimus. Progenitor genitrixque deum verum unus et idetfi. nisi prius recte et veraciter loquendi rationem agnoverit. superest logicae quoque originem investi­ gare. hoc in res quoque ipsas evenire arbitrabantur. Unde Vergilius Oceanum patrem^^ appellat et Valerius Soranus in quodam ver­ su de love in significatione ignis aetherei dicit: luppiier omnipotens rerum regumque repertor. Tertia definitio talis est. Cicero. necesse fuit saepe falli eos. quidquid ratiocinatione comprehen­ derant. 74 .ad terram vergere. quoniam nemo de rebus convenienter disserere potest. In numeris enim quidquid in digitis recte computantis evenerit. quam idcirco ultimam annumero quia postremo inventa est. sed necesse fuit logicam quoque inveniri. Georgica 4. achavam que tudo quanto concebiam na mente acontecia tam­ bém nas próprias coisas. por urna certa força. que considera o mundo constituído de átomos e se equivoca ao consi­ derar a volúpia como sendo algo honesto. de fato. de fato. Razão pela qual Virgílio chama o oceano de "pai". 22. Os fí­ sicos. a este número devem necessariamente corresponder cem coisas. mas foi necessário que também a lógica fosse explicitada. a produzir as coisas sensíveis”. As outras ciencias foram organizadas antes. "como amiúde aconteceu a Epicuro. dizem que tudo é criado pelo calor e pela umida­ de. e Valério Sorano diz num certo verso a propósito de Júpiter em sentido de fogo etéreo: "Júpiter onipotente. tudo aquilo que é compu­ tado corretamente nos dedos.para a terra. se de um cálculo se chegou a cem. inevitavelmente tiveram de enganar-se freqüentemente. porque ninguém pode discutir apropriadamente sobre as coisas se antes não conheceu a maneira de falar correta­ mente e verdadeiramente. Esta segunda definição coincide com o conceito moderno. pro­ penso. Progenitor e genitor dos deuses. 75 . Boecio diz: Quando os antigos pela primeira vez se dedicaram a investigar a natureza das coisas e as qualidades dos costumes. E este é um erro realmente grande. porque não detinham a distinção das palavras e dos conceitos. isto sem dúvida deve acontecer nas coisas. criador das coisas e dos reis. dada a impericia em discutir. como quando. Nos números. É claro que isto aconteceu a ele e a outros exatamente porque. As coisas não se comportam nos raciocínios do mesmo modo que nos números. as coisas leves tender para o alto. o fogo queimar. Neste sentido. da prática e da me­ cánica. a água umedecer”^^ A terceira definição é esta: "A Natureza é o fogo artífice. realmente um e o mesmo” CAPÍTULO 11: Da origetn da lógica Tendo demonstrado a origem da teórica. pelo qual a natureza de uma coisa é o conjunto de suas qualidades específicas. resta-nos investigar a origem da lógica que enumero em último lugar porque foi ordenada por último. quae numquam falsa possit agnosci”“. quae verisimilem. Dicitur enim logos sermo sive ratio. id in natura fixum tenetur. Neque enim quid­ quid sermonum decursus invenerit. quae ratiocinatio veram teneat semitam disputandi. nunc autem falsa. falsa quae­ dam sibi et contraria in disputatione colligerent. Cum igitur veteres saepe multis lapsi erroribus. Qua cognita. ut de eadem re contraria conclusione fac­ ta. sine quibus nul­ lus philosophiae tractatus rationabiliter explicari potest Logica dicitur a Graeco logos. Haec tempore quidem postrema est. visum est prius disputationis ipsius veram atque integram consi­ derare naturam. et agnoverit quae fida. practicam. esset ambiguum. atque id fieri impossibile videretur. quam quartam post theoricam. quod per dispu­ tationem inveniretur. propterea quod in ea docetur vocum et intellectum natura. Hinc igitur profecta logicae peritia disciplinae. quae possit esse suspecta. quae sibi dissentiens ratiocinatio con­ clusisset. In Isagogen see. Quare necesse est falli. rerum incor­ rupta veritas ex ratiocinatione non potest inveniri. 26. Logica sermocinalis genus est ad grammaticam. dialecti­ cam atque rhetoricam. an vere comprehensum esset. continet dialecticam et rhetori­ cam. utraque essent vera. quae vero semper falsa. qui abiecta scientia disputandi. 76 . Boethius. sed ordine prima. ut quae ratiocinatio nunc quidem vera. 2. et inde lo­ gica sermocinalis sive rationalis scientia dici potest Logica rati­ onalis. mechanicam annumeramus. cuive ratiocinationi credi oporteret. et continet sub se dissertivam. tum illud quoque.Hoc vero non aeque in disputatione servatur. de rerum natura perquirerent. Nisi enim prius ad scientiam venerit. Haec enim incohantibus philosophiam prima legenda est. posset intelligi. Et haec est logica sermocinalis. quae dispu­ tandi modos atque ipsas ratiocinationes internoscendi vias pa­ rat. quae dissertiva dicitur. quod nomen geminam habet interpretationem. se não se conhece qual raciocínio pode ser confiável. Ela é a primeira a dever-se estudar pelos iniciantes na filosofia. a dialética e a retórica e contém sob si a argumentati­ va. aquilo que o encadeamento dos argumentos conclui. sem os quais nenhum tratado de filosofia pode ser explicado de maneira racional. e dado que a eles não estava claro qual raciocínio levasse a conclusões discordantes das premissas e a qual raciocínio se pu­ desse crer. e lhes parecia impossível acontecer que. preocu­ par-se com a natureza verdadeira e íntegra do próprio raciocínio. A lógica vem do grego logos. nem sempre se mantém constante na natureza. Se antes não se conhece qual ra­ ciocínio garante o caminho verdadeiro da disputa. prática e mecânica. e por isso a lógica pode ser dita ciência do discurso ou ciência da razão. qual garante apenas a verossimilhança. 77 . A lógica do discurso é um gênero relacionado com a gramática. as duas fossem verda­ deiras. A lógica. de modo a poder-se saber qual raciocínio é ora verdadeiro ora falso. aí era possível também entender se o resulta­ do das disputas estava sendo compreendido de maneira verdadei­ ra. De fato. Tendo-a conhecida. Por esta razão com certeza estão fada­ dos ao erro aqueles que pesquisam a natureza das coisas. abrange a dialética e a retórica. portanto. depois da teórica. pois nela é ensinada a natureza das palavras e dos conceitos. Logos pode significar "discurso” ou "razão”. Os antigos. consideraram oportuno. É esta lógica do discurso que incluímos como quarta parte da filosofia. caídos freqüentemente em muitos erros. qual é sempre falso e qual nunca é falso”. dado que colhiam nas disputas algumas conclusões falsas e em si con­ traditórias. aí a verdade incorrupta das coisas não pode ser alcançada pelo raciocínio. Daí deu-se a perícia avançada da disciplina lógica. dadas duas conclusões contrárias sobre a mesma coisa. é última no tempo.rk 0 mesmo não se observa nas disputas. como primeira coisa. mas desprezam a ciência da disputa. A ló­ gica racional que se diz argumentativa. que possibi­ lita discernir os vários modos de discutir e os próprios silogismos. nome que possuí duas acep­ ções. mas primeira na fila. qual pode ser suspeito. Nulla adhuc recte loquendi vel disputandi praecepta data erant. Erant prius et sermones communes et litterae.Nec putandum est ideo logicam. scientiam numerandi habebant. quae reliquas om­ nes continent. quae in speculatione veritatis laborat. ut facilior fiat transi­ tus ad sequentia. quae morum disciplinam considerat. quae licet ab usu principium sumpse­ rint. Priusquam esset rhetorica iura civilia tractabant. coeperunt. id est. Sed considerantes deinde homines usum in artem posse converti et quod vagum fuerat et licentio­ sum prius certis r'egulis et praeceptis posse restringi. et mechanicam. id quod pravum usus habebat emendantes. sermodnalem dici. id est. agros mensurabant Priusquam esset as­ tronomia. theoricam. Priusquam esset musica. Priusquam esset dialectica. ad artem reducere. per cursus stellarum discretiones temporum capie­ bant Sed venerunt artes. quod ante eius inventionem nulli fuerint sermones. sed volo quadam prius philo­ sophiae divisione singulas a se invicem discernere. quod minus habebat supplentes. quando extiterint aut ubi. Omnes enim scientiae prius erant in usu quam in arte. usu tamen meliores sunt Hic locus esset exponere qui fuerint singularum artium in­ ventores. Oportet ergo breviter recapitulare quae supradicta sunt. Priusquam esset arithmetica. ut dictum est. ratio­ cinando verum a falso discernebant. et practicara. quae huius vitae actiones dispensat. Huiusmodi fuit origo omnium artium. partim natura exorta fuerat. et quasi ho­ mines mutuas locutiones prius non habuerint. hoc per singula cur­ rentes verum invenimus. Quattuor tantum diximus esse scientias. consuetudinem quae partim casu. quae recte loquendi et acute disputandi scientiam praestat 78 . Prius­ quam esset geometria. Priusquam esset grammatica et scribe­ bant et loquebantur homines. logicam quo­ que. et de cetero singulis certas regulas et prae­ cepta praescribentes. quod superfluum habebat resecantes. sed nondum ratio sermonum et litterarum in artem redacta fuerat. canebant. aut quomodo per eos disci­ plinae exordium sumpserint. desta vida. É oportuno. sim. que ordena as ações. Antes que exis­ tisse a aritmética. quero. Assim. que trata da investigação da verdade. Todas as ciências existiam no uso antes de exis­ tir como disciplinas. eles sabiam contar. como se antes da sua organização não houvesse discursos. distinguir as artes uma da outra. Aqui seria o lugar de expor quais foram os inventores de cada arte. 2) a prática. Antes que existisse a astronomiàT captavam os ritmos dos tempos através dos cursos das estrelas. que podia ser amarrado em certas regras e princípios aquilo que antes fora vago e arbitrário. portan­ to. 79 . dando a cada caso regras certas e preceitos. e encontramos esta ver­ dade percorrendo caso por caso. cantavam. que ensina a falar corretamente e a disputar agudamente. Antes que existisse a músi­ ca. corrigindo aquilo que era usado mal. mas as leis dos discursos e das escritas ainda nao tinham sido or­ ganizadas numa arte. eles distinguiam o verdadeiro do falso. através de uma certa qual divisão da filosofia. e são 1) a teórica. considerando que o uso coti­ diano pode ser transformado em arte e considerando. outrossim. Mas. discursos comuns e escritos. eles tratavam dos direitos civis. antes que existisse a gramática. como dissemos. mediam os cam­ pos. Mas os homens. Dissemos que as ciências são somente quatro. ou como através deles as disciplinas iniciaram-se. a organi­ zar em arte o costume nascido um pouco por acaso e um pouco por necessidade. aumentan­ do aquilo que era pouco. que abran­ gem todas as outras. são melhores que o uso. como se antes os homens não tivessem conversas recí­ procas. recapitular tudo quanto foi dito até agora. E aí vieram as artes. Antes que exis­ tisse a retórica. as quais. quando viveram e onde. bem que derivadas do uso.Mas não se deve pensar que esta lógica é denominada cien­ cia do discurso. para que se torne mais fácil a passagem para o argumento seguinte. antes. cortando aquilo que era supérfluo. quanto ao resto. e enfim 4) a lógica. os homens escreviam e falavam. que estuda a disciplina dos costumes. e. Não havia regra nenhuma do falar e dispu­ tar corretamente. Anteriormente existiam. Assim foi a origem de todas as artes. 3) a mecânica. começaram. Antes que existisse a geometria. Antes que existisse a dialética. quem ob reverentiam sui antiqui in ius iurandum ascive­ rant Unde et illud dictum est: “Per qui nostrae animae numerum dedit ille quaternum’^\ Hae qualiter sub philosophia contineantur.41.Hic itaque non absurde ille quaternarius animae intelligi po­ test. repetita breviter definitione philosophiae os­ tendemus. 27. 80 . Commentarium in Somnium Scipionis 1. Macrobius.6. et rursum quas sub se contineant. após ter repetido brevemente a definição de filoso­ fia.-■ fef I- 81 . e quais. que os antigos. Dizia-se: “Por aquele que deu à nossa alma o número quatro". I:. acolheram no juramento. elas contenham sob si. por sua vez. E agora. mostraremos como estas ciências estão compreendidas na fi­ losofia.Devido a isso. não é absurdo poder-se entender aquele nú­ mero "quatro” da alma. com reverência ao qua­ tro. LIBER SECUNDUS Caput I: De discretione artium “Philosophia est amor sapientiae.5. divina sapi­ entia significatur. id est amor sapientiae. amor dicitur Latine. et disciplina disciplina­ rum"^®. apud illum incommutabile consistit. 29. Etymologiae 1. “quae nullius indi­ gens.24. 28. et sola rerum primaeva ratio est". et inde philosophia tracta est. quae “artis praeceptis regulisque consistit"®®. Isidorus. quae nullius indigens. hoc intendunt. 82 . ad quam omnes artes et disciplinae spectant Ars dici potest scientia. “Primaeva ratio rerum est" quia ad eius similitudinem cuncta formata sunt. 30. quod in eius ratione semper fuit. Dicunt quidam quod illud unde agunt artes semper maneat.3.3. Deo natura. ut divina similitudo in nobis reparetur.2. quae propterea nullius indigere dicitur. quae nobis forma est. 1. Philos enim Graece. Tunc enim in nobis incipit relucere. Quod autem additur. quodque in no­ bis transit. Hoc ergo omnes artes agunt. Cassiodorus. sapientia. Aliter: "Philosophia est ars artium. "Vivax mens" idcirco appellatur quia quod semel in divina fuerit ratione nulla umquam oblivione abo­ letur. sophia. Boethius.1.9. Etymologiae 2. quia nihil minus continet. vivax mens. Insiituliones 2. sed semel et simui omnia intuetur praeteri­ ta. cui quanto magis conformamur tanto magis sapimus. In isagogen pr. Haec definitio ma­ gis ad etymologiam nominis spectat. Isidorus. id est. vi­ vax mens et sola rerum primaeva ratio est"^®. praesentia et futura. mas conhece de uma vez por todas e simultaneamente a totalidade das coisas passadas. do Verbo. Alguns dizem que aquilo de que as artes se ocupam fica váli­ do para sempre. a mente humana.LIVRO II CAPÍTULO 1: Da diferença das artes "A filosofia é 0 amor à Sapiência. e quanto mais a ela nos conformamos. De fato. de fato. como foi anotado no começo do Livro I. que o termo latino Sapientia é traduzido aqui por Sapiência. e disto foi composta a palavra filosofia. isto é. não carecendo de nada. que para nós é uma forma e para Deus é sua própria natureza. a isto se orde­ nam. Por isso. ela "co­ nhece a totalidade das coisas passadas. que. 83 . e o grego Sophía em latim é Sabedoria. Relembremos. presentes e futuras" e “todas as coisas foram formadas semelhantes a ela". pois ela contém nada de incompleto. daí ser o conhecimento filosófico uma "amizade” entre as duas c uma espécie de retorno da Mente Divina. não carecendo de nada. Ela é “razão primordial das coisas” porque todas as coisas foram formadas semelhantes a ela^®. Outra definição: “A filosofia é a arte das artes e a disciplina das disciplinas”. Esta Sapiência. entre estas. como se depreende expressamente do tex­ to. presentes e futuras. A especificação “que. conforme a primeira frase do Da arte de 1er. isto é. E aí começa a resplandecer em nós aquilo que sempre esteve na mente de Deus. da qual se diz que não carece de nada. De fato. é mente viva e única razão primordial das coisas” aplica-se à Sa­ piência divina. exteriorizada na mente humana e nas coisas. aquilo que em nós é passageiro mas nele permanece imutável. à etimologia do termo. tanto mais sabemos. Ela é chamada "mente viva” porque aquilo que esteve só uma vez na mente divina não será cancelado por nenhum es­ quecimento. por tratar-se não da sabedoria em sentido grego ou moderno. a que seja reparada em nós a semelBança divina. é mente viva e única razão primordial das coisas”. o grego philos em latim se diz amor. sobretudo. mas da Mente Divina. Esta de­ finição se refere. A mente humana é “cunhada” da Mente Divina. amor à Sabedoria. Pode ser denominado arte aquilo que “consiste 23. nela reside a forma das coisas formadas no mundo. para si mesma. é "mente viva" e “razão primordial das coisas". aquela para a qual todas as artes e disci­ plinas olham. isto todas as artes fazem. 1.13. quod fit in subiecta ma­ teria et explicatur per operationem. 84 . mechanica. "quando aliquid verisimile atque opinabile tractatur". quae dicitur plena”^\ ut est in doctrina. quod magis con­ venit Christianis. ut architectura. "disciplina. id est.5. mathematicam. theoricen secans in intellectibi­ lem et intelligibilem et naturalem. Etymologiae 2.3. Denique intellectibile ita definit Caput II: De theologia “intellectibile est quod unum atque idem per se in propria semper divinitate consistens. Etymologiae 1. sermocinalis. 33. Quam differentiam Plato et Aristoteles esse voluerunt inter ar­ tem et discipIinam"^^ Vel ars dici potest.1. Quae 31. quam alio nomine ethicam. qui saeculi ambitione calcata. Hae quattuor omnem continent scientiam. quae in speculatione consistit et per solam explicatur ratio­ cinationem. physicam. Theorica di­ viditur in theologiam. sed sola tantum mente intellectuque capitur. practica. moralem dicunt. eo quod mores in bona actione consistent. Isidores. Isidorus.ut est in scriptura. logica. quia circa humana opera ver­ satur. quia de vocibus tractat. 34. nullis umquam sensibus. et ideo philosophia aliquo modo ad omnes res pertinere dicitur. Isidorus. disciplina vero. mathematicam et Physicam. 1. Cassiodorus. Philosophia dividitur in theoricam. veris disputationibus aliquid disseritur. 32. Etymologiae 1. ut logica.2. per intelligibilem. conversatione disciplinali. Administratio non omnis philosophica est.1. Vel ars dici potest. quae aliter se habere non possunt.9. per intellectibilem significans theologiam. "Philosophia est disciplina omnium rerum divinarum atque humanarum rationes probabiliter investigans”^^ Sic om­ nium studiorum ratio ad philosophiam spectat.5-7. quando de "his.17.3. Hanc divisio­ nem Boethius facit aliis verbis. Th^orica interpretatur speculativa. per naturalem. activa. Isidorus. Institulioms 2. Instituiioms 2. practicam. adulterina. mechanicam et logicam. Cassiodorus. Aliter: “Philosophia est meditatio mortis. disciplina. similitudine futurae patriae vivunt”'^l Aliter.24. aos cristãos. enquanto a disciplina é aquela que consiste na investigação e se realiza exclusivamente no raciocinio. Esta diferença entre arte e disciplina foi estabeleci­ da por Platão e Aristóteles”. "A filosofia é a disciplina que investiga com provas plausíveis as razões de todas as coisas divinas e huma­ nas”. a razão teórica de todas as atividades humanas é de competência da filosofia. Logo depois ele define o intelectível da seguinte maneira. Outra definição. A prática é considerada ativa. Outra definição: "A filosofia é a meditação da morte. com outro nome. desprezada a am­ bição terrena. Estas quatro abarcam todo o saber. porque trata dos traba­ lhos humanos. Esta 24. mas somente pela mente e pelo intelecto.das regras e dos preceitos de uma arte”. eJ chamada. dividindo a teórica em intelectível. A teórica é considerada espe­ culativa. Ou pode ser chamado arte aquilo que é operado na matéria inerte e é realizado mediante opera­ ções. Eatenda-se adulterina no sentido de “imitativa” como é explicado ñas notas 17 e 19. prática. Boécio faz esta divisão com outras palavras. como é a lógica. moral. nunca é alcançado por al­ gum dos sentidos. E assim. A lógica é ciência do discurso porque trata das pa­ lavras. e por isso dizemos que a filosofia diz respeito a todas as coisas "sob um certo aspecto”. e com natural a física. como é o escrever. como é o caso da arquitetura. 85 . os quais. porque a moralidade consiste na boa ação. vivem num estilo de vida disciplinado. Mas nem toda atividade prática é fi­ losófica. como na matemáti­ ca. significando com intelectível a teolo­ gia. e dis­ ciplina urna ciencia "considerada completa”. CAPÍTULO 2: A teologia "O intelectível é aquilo que. ética. à semelhan­ ça da pátria futura”. A mecânica é chamada adulterina”. matemática e física. Ou pode-se falar de arte "quando é tratado algo verossímil ou opinável” e de disciplina quando "se discute algo com argumen­ tações verdadeiras sobre coisas que nao podem comportar-se di­ versamente. mecânica e lógica. isto é. A teórica se divide em teologia. com inteligível a matemática. permanecendo sempre um e o mesmo por si em sua própria divindade. inteligível e natural. coisa que convém sobretudo. A filosofia se divide em teórica. In Isag.13. In Isag. vel ab aliis accidentibus. quam intelligant et intelligentiae puritate tunc beatiora sint quoties sese intellectibilibus applicarint”^®. pr. et significat superstitionem illorum. “quae abstractam considerat quantitatem. impar. pr. 86 . 1. philosophiae indagatione componitur. et huiuscemodi. Boethius. intellectibilem. logos sermo vel ratio interpretatur. Hanc Boethius “intelligibilem” appellat “quae primam par­ tem. Caput III: De mathematica Mathematica autem doctrinalis scientia dicitur. “quando aut ineffabilem naturam Dei aut spirituales creatu­ ras ex aliqua parte profundissima qualitate disserimus”^®.6. et quidquid sub lunari globo beatiore animo atque purio­ re substantia valet et postremo humanarum animarum. 1. doctrinam sonat Haec autem est. Etymologiae 2. Cassiodorus.6. 35. 36.24. Cassiodorus. quae omnia cum prioris illius intellectibilis substantiae fuissent cor­ porum tactu ab intellectibilibus ad intelligibilia degenerarunt ut non magis ipsa intelligantur. cogitatione atque intelligentia compre­ hendit quae sunt omnium caelestium operum supernae divini­ tatis. in sola ratiocinatione traGtamus”^^ quod doctrina facit non natura. Mathesis enim quando t habet sine aspiratione. theos enim Deus. ut est par. Institutiones 2. 37. interpretatur vanitas.3.3.13. quam intellectu a matçria se­ parantes.2. inquit. Etymologiae 2.res ad speculationem Dei atque ad animi incorporalitatem consi­ derationemque verae.3. quam”.3. Theologia igitur est. Isidorus.24. 38. isidorus. Boethius. Abstracta enim quantitas dicitur. Institutiones 2. "Graeci theologiam nominant"■^^ Dicta autem theologia quasi sermo habitus de divinis. qui fata hominum in constella­ tionibus ponunt Unde et huiusmodi mathematici appellati sunt Quando autem t habet aspiratum. Aqui e a seguir Hugo reflete a doutrina pela qual a alma humana possui duas dimen­ sões. pois theos significa Deus e logos significa discurso ou razão. se tornam tanto mais felizes quanto mais se aplica­ rem às coisas intelectíveis”“. tendo já feito parte daquela substância intelectíve! primordial. CAPÍTULO 3: A matemática A matemática é chamada doutrina científica. é escrita com “th" aspirado. uma intelectível. é misturada com a pri­ meira parte.atividade comporta a indagação sobre a especulação de Deus. Em sua natureza simples a alma faz teologia. "conhecimento". portanto. como é o par. Chamamos abstrata aquela quantidade que tratamos só nos raciocínios. o intelectível. Por isso. 25. e neste caso temos o "L" simples não aspirado. porém. enquanto obra do pensamento e da inteligência. enquanto inteligência pura e simples semelhante aos corpos celestes. em virtude da pureza da in­ teligência. esse tipo de indivíduos são chamados matemáticos. A teologia é chamada assim porque é como um discurso sobre Deus. "sem fundamento”). o ímpar e coisas do tipo".“e os gregos . “quando pomos em discussão. agora. so­ bre a imortalidade do espírito e sobre a consideração da verdadei­ ra filosofia. enquanto é ligada ao corpo e conhece os corpos sensíveis compostos. Quem faz esta abstração é a ciência. significa doutrina matemática“. pelo contato com os corpos degeneraram de intelectíveis para inteligíveis. e neste caso se refere à superstição daqueles que depositam o destino dos homens nas constelações. ("aprender". Na verdade as duas palavras em grego são mais diferentes uma da outra. com aplicação profundíssima. e enfim as almas humanas. conhecem. "nulidade”). Quando. uma vez queTertencem ao intelectível todas as obras celestes da suprema divindade como tam­ bém tudo aquilo que sob o globo lunar é dotado do espírito mais feliz e da substância mais pura. Máthesis sig­ nifica vaidade quando é escrita com o “t" não aspirado. A outra é mótii (estulticia) ou ^iáTaloç (“vão". em sua natureza composta misturada aos corpos faz matemática. A matemática é o ensino “que se ocupa da quantidade abs­ trata. Uma é potórjou. Faz-se teologia. e. a outra inteligível. algum aspecto da inefável natureza de Deus ou das criaturas espirituais". separando-a pelo intelecto da matéria ou dos outros acidentes. "ciência") onde o “0” é um “t" aspirado e se refere à nossa matemática. de modo que elas.diz Boecio . Boecio chama inteligível esta atividade “e ela. 26. de onde vem naratÓTriç ("vaidade".denominam isso teologia”. não a natureza. 87 . To­ das estas almas. mais que serem conhecidas. quia Imaginationem vel sen­ sum habet. quod si­ militudo quidem est sensibilium. Intellecti­ bile est enim. eorumque similitudinem per imaginationem ad se trahit. quia incorporea et simplex est. Eadem igitur res diversis respectibus intellectibilis simul et intelligibilis est Intellectibilis eo quod incorporea sit natura.Spirituum namque et animarum natura. quoties aliquibus contrariae passionis qualitatibus informa­ tur. fit beatior intellectibilis substantiae participatione. Cum vero ab hac distractione ad puram intelligentiam cons­ cendens in unum se colligit. et nullo sensu comprehendi possit Intelligibilis vero ideo. in eo quodammodo suam simplicitatem deserit. nec similitudo sensibilis. nec tamen sensibilis. quo ea quae sensibus subiacent comprehendit Tangendo ergo corpora degenerat quia. 88 . quod composito simile est. sed non solo intellectu percipit. quod nec sensibile est. Intelligibile autem quod ipsum quidem solo percipitur intellec­ tu. dum in visibiles cor­ porum formas per sensuum passiones procurrit easque attactas per imaginationem in se trahit. quo compositionis rationem amittit Neque enim omnimodo simplex dici potest. toties a sua simplicitate scindi­ tur. intellectibilis substantiae particeps est Sed quia per instrumenta sensuum non uniformiter ad sensibilia comprehen­ denda descendit. A natureza dos espíritos e das almas. de fato. pelas impressões dos sentidos. portanto. A distinção entre intelecto e imaginação racionai é fundamental nas filosofias religio­ sas. Toda­ via. é partícipe da substancia intelectível. uma vez alcançadas. pode ser ao mesmo tempo. O primeiro alcança as coisas divinas. mas não percebe só com o intelecto. percebido somente com o intelecto. o intelectível fica cindido em sua simplicida­ de tantas vezes quantas fica informado por algumas qualidades de uma .stino. sim.sensação contrária. o intelectível se degenera. É inteligível aquilo que é. Seu de. mesmo não sendo sensível. que saiu de Deus como um intelectível mas mislurou-se aos corpos e tornou-se inteli­ gível. Uma mesma coisa. para dentro de si pela imaginação. Não pode dizer-se totalmente sim­ ples aquilo que se assemelha ao composto. a alma.s números. perdendo de uma certa forma a sua simplicidade na medida em que acolhe uma certa qual composição. sendo in­ corpórea e simples. todavia. torna-se mais feliz pela participação na substância intelectível^®. ao tender-se para as formas visíveis dos corpos pelas sensações dos sentidos e ao trazê-las. É inteligível pelo fato de ter semelhança com as coisas sensíveis. com efeito. Este movimento de progressão de Deu. e não pode ser compreendida pelos sentidos. 28. ele se recolhe em um. pelos quais compreende as coisas que são objeto dos sentidos^\ Tocando os corpos. Mas quarrdo. 27. desee de maneira não uniforme [não pura) para a compreensão dos objetos físicos e traz para si as imagens deles através da imaginação. sob aspectos diferentes.s (exitus) e regressão a ele (reditus) é elucidado a seguir pela teoria do. pois. É intelectível en­ quanto natureza incorpórea. é o de retornar para a sua pureza e simplicidade original. remontando desta se­ paração para a inteligência pura. É intelectível aquilo que não é sensível nem tem semelhança com o sensível. Hugo acaba de ilustrar o processo de exitus-reditus (saída-retorno} da alma humana. 89 . a segunda as coisas corpóreas objeto das ciências naturais. pois possui a imaginação e os sentidos. intelectível e inteligível. dic: ter novem fiunt viginti septem. ut semper in quarto gradu unitas emine­ at Rectissime autem simplex animae essentia unitate exprimi­ tur. nec aliud. quod eadem unitas in ternario multiplicante ter invenitur. idemque evenire videbis. per rationem inter utrumque discernat Et recte a mona­ de in triadem profluere dicitur. Ecce tibi in quarto gradu unitas pri­ ma occurrit. sed una eandemque substantia secundum diversas potenti­ as suas diversa sortitur vocabula. nec minus ira quam anima. 90 . proprie ad corpus pertinet Prima igitur progressio animae est qua de simplici essentia sua.Caput IV: De quaternario animae Huius quoque progressionis regressionisque rationem ipse etiam numerus docet Dic: ter unum fiunt tria. si usque ad infinitum du­ xeris multiplicationem. nec aliud. nec minus sit in substantia ratio quam anima. dic: ter viginti sep­ tem fiunt octoginta unum. quae ipsa quoque incorporea est Ternarius quoque propter indissolubile mediae unitatis vinculum congrue ad animam re­ fertur. quoniam anima non per partes. sicut quaternarius. aliud per iram con­ temnat. ubi iam per concupiscentiam aliud appetat. dic: ter tria fiunt novem. in virtualem ternarium se extendit. sed tota in singulis suis potentiis consistat Neque enim vel rationem solam vel iram solam vel concupiscentiam so­ lam tertiam partem animae dicere possumus. quia duo media habet ideoque disso­ lubilis est. quia omnis essentia naturaliter prior est potentia sua. nec minus concupiscentia quam ani­ ma. Rursum. hoc significat. Deinde a virtuali ternario secunda progressione ad regen­ dam humani corporis musicam descendit quae novenario com­ ponitur. quae monade figuratur. cum nec aliud. quia novem sunt foramina in humano corpore quibus secundum naturalem contemperantiam influit et effluit omne quo idem corpus vegetatur et regitur. Hic quoque ordo est. do ternario virtual. a partir da sua essência simples. Eis que no quarto passo retorna a primeira unidade {o número um). representa­ da pelo número nove. levando a multiplicação ao infinito.CAPÍTULO 4: O número quatro da alma 0 próprio número também ensina a essência desta progressão e regressão. diga: três vezes vinte e sete faz oi­ tenta e um. Era comum aos antigos e medievais descrever as progressões do número Um. a alma desce para reger a música do corpo humano. ela se desdobra para uma atividade ternária. isto quer dizer quê a alma existe não separada em partes mas toda em cada uma das suas três potências. 3) pela razão discerne entre as duas. da mesma forma que o número quatro. Não podemos dizer que a razão. a alma. entra e sai tudo aquilo do qual o próprio corpo se alimenta e se sustenta. que adquire nomes diversos segundo suas diversas potências. ele próprio. dado que o próprio um recorre três vezes quando é multiplicado por três. Também o número três é atri­ buído oportunamente à alma em razão da impossibilidade de ser dividido no meio. sozinha. com ritmo natural. o nosso L). pertence propriamente ao corpo^^ A primeira progressão da alma acontece quando. 29. Em seguida. ou a concupiscencia. sozinha. mas trata-se de uma única e mesma substância. figurada pelo um. diga. Pois. e você verá que. pelos quais. figura de Deus. três vezes nove faz vinte e sete. em forma de lambda grego (A. ou a ira. sejam cada qual um terço da alma. dos quais o universo é formado: 1 2 3 4 9 27 8 91 .segunda progres­ são. Diga: três vezes um faz três. por ter duas metades e ser divisível. três vezes três faz nove. que é. Muito apropriadamente a essência simples da alma é expressa pelo núme­ ro um. E ainda. pois toda essência é naturalmente anterior à sua potência [exercido de suas capacidades). Com razão se diz que a mónada flui para a tríade. onde 1) pela concupiscênda deseja uma coisa. significando o ímpar e o par. o es­ pírito e 0 corpo. lhe acontecerá sempre que no quarto passo sobressai o um. 2) pela ira condena outra coisa. nove sào os furos no corpo humano. por uma . Aqui também temos uma ordem. a ira não é coisa diversa ou menor que a alma. a concupiscencia não é coisa diversa ou menor que a alma. incorpóreo. pois em sua substância a razãq^não é coisa diversa ou menor que a alma. sozinha. sim­ plicitatis redeat. inquit. a quo multiplicatio initium sumpsit. ut evidenter clareat quod anima post huius vitae terminum. SI 90. ad differentiam quaternarii corporis. Dic: bis duo fiunt quat­ tuor. bis quattuor fiunt octo. Quod autem in octoginta meta hu­ manae vitae naturaliter consistat. propheta declarat: "Si. tibi occurrit. ita dias corpori congruit. idemque si in infinitum processeris. Et hic est quaternarius corporis.10. dic: bis octo fiunt sedecim. dic. quae per viginti septem. Sicut monas animae. per infinitas actiones dissipatur. dic: bis sedecim fiunt triginta duo. id est binarius. qui per octoginta designatur. 92 . in quo intelligi datur omne quod a solubi­ libus compositionem accipit ipsum quoque esse dissolubile. quaternarium animae appellatum. indubitanter continget ut quarto semper gradu binarius emineat. monas in sum­ mo apparet. Caput V: De quaternario corporis Nam corpori quoque suum assignant quaternarium. in valetudine octoginta anni. a qua prius discesserat cum ad humanum cor­ pus regendum descendebat.quia prius naturaliter anima potentias suas habet quam corpori commisceatur. quidam intelligendum putant eumque. qui solidus nu­ merus est et trina dimensione ad similitudinem corporis exten­ ditur. Hic in quarto loco similiter idem numerus. de quo supra locuti sumus. ideoque in quarta multiplicatione. ubi ter viginti septem in octoginta unum excrevit. et amplius eorum labor et dolor”^^ Hanc quadruplam progressionem illum quaternarium ani­ mae. ad unitatem suae . figurantur dispensanda. 39. In quarta autem progressione soluta a corpore ad puritatem simplicitatis suae revertitur. Postea autem in tertia progressione per sensus iam extra se profusa ad visibilia haec. diga: duas vezes dezes seis faz trinta e dois. a alma protende-se em infinitas ações para as outras coisas visíveis. Aqui. onde três vezes vinte e sete crescem para oitenta e um. no quarto passo. diga. terminado o curso desta vida. solta do corpo. o quatro. É o profeta a declarar que a meta da vida humana consiste naturalmente no número oitenta: "Se. mais do que isso é sofrimento e dor”. já tendo fluído pelos sen­ tidos para fora de si. eu chegar em boa saúde aos oitenta anos. Por isso. à semelhança do corpo. da qual antes tinha descido para reger o corpo humano.uma vez que a alma por natureza já possui suas próprias potên­ cias {figuradas no número 5) antes de misturar-se ao corpo. 93 . E este é o quaternário do corpo. deve ser entendido como figura desta progres­ são quádrupla. se você continuar ao infinito. do qual aca­ bamos de falar. CAPÍTULO 5: O quaternário do corpo Também ao corpo é atribuído um seu número. Em sua quarta progressão. Co­ mo a mónada {o um) convém à alma. volta para a unidade da sua simplicidade. Alguns acham que este número quatro da alma. Depois. e o chamam quaternário da alma para diferendá-lo do quaternário do corpo. duas vezes oito faz deze.sseis. aparece no final o número um. assim a díade (o dois) convém ao corpo. representado pelo número oitenta. em sua exeqüibilidade pelo número vinte e sete. em três dimensões. duas vezes dois faz quatro. duas vezes quatro faz oito. número sólido que se estende. ele diz. sem dúvida acontecerá que no quarto passo lhe aparecerá sempre o número dois. no qual se dá a conhecer que tudo quanto é composto de coisas divisíveis. retorna igualmente o mesmo número dois. a alma retorna para a pureza de sua simplicidade. do qual a multiplicação começou. diga. que são representadas. eie próprio é divisível. Diga. numa terceira progressão. e assim fica evidente e claro que a alma. igualmente. na quarta multipli­ cação. quomodo animae de intel­ lectibilibus ad Intelligibilia degenerant. alia ad aliquid ut duplum. alia immobilia. et hyle. ut arbor. ad visibilium imaginationem descendunt rursumque beatiores fi­ unt. 94 . Intelligentia vero est de solis rerum principiis. intelligibile vero id quod est imaginatio. Est igitur.Vides nunc satis aperte. quattuor. ut puto. ad mathematicam proprie pertineat abstractam attendere quantitatem. sesquitertium. quasi quodam optimae figurae signo impres­ sae. ideis. quae multitudo appellatur. quando se ab hac distractione ad simplicem naturae suae fontem colligentes. populus. intellectibile in nobis id quod est intelligentia. ses­ quialterum. ut supradictum est. Ima­ ginatio est memoria sensuum ex corporum reliquiis inhaerenti­ bus animo. cuius geminae sunt partes: una continua. quae nulla corporum fuscatur imagine. et de incorporeis substantiis. Caput VI: De quadrivio Cum igitur. pura certaque cognitio. Sensus est passio animae in corpore ex qualitatibus extra acci­ dentibus. alia discreta. Rursus multitudinis alia sunt per se. in partibus quanti­ tatis species eius quaerere oportet. quando a puritate sim­ plicis intelligentiae. componuntur. id est. ut sphaera mundi. ut grex. principium cognitionis per se nihil certum habens. Deo. quae in imaginatione consistit. ut terra. quae magnitudo dici­ tur. ut apertius dicam. Quantitas abstracta nihil est aliud nisi forma visibilis secundum lineamentarem dimensionem animo impressa. vel quodlibet tale. ut tres. vel quilibet alter numerus. Magnitudinis vero alia sunt mobilia. lapis. dimidium. creio eu. a partir da pureza da inteligência simples. 3) algumas são móveis. quando. 2) outras são relativas a alguma coisa.Agora você pode ver bastante claramente. Na pluralidade. por sua vez. Elas. enquanto o inteligível é aquilo que é objeto da imaginação. CAPÍTULO G: O quadrívio Dado que. como a esfera do universo. como três. um ter­ ço a mais. Está resumida. uma vez e meio. e esta se chama pluralidade. da qual fa­ lamos. e é chamada grandeza. como dissemos acima. 95 . recoIhendo-se desta dispersão para a fonte pura da sua natureza. isto é. quantidade que existe na imagina­ ção e se divide em duas partes: uma contínua. é necessário procurar suas subdivisões nas divisões da quantidade. e não possui nenhum princípio certo de conhe­ cimento. para dizê-lo mais precisamente. como o re­ banho ou o povo. quatro ou qualquer outro número.ssão recebida pela alma no cor­ po e proveniente das qualidades das coisas vindas de fora^'*. A quantidade abs­ trata nada mais é que uma forma visível impressa na mente se­ gundo uma dimensão linear. Em nós. o intelectível é aqui­ lo que é objeto da inteligência. 30. A sensação é uma impre. e assim em diante. 1) algumas quantidades são tais por si mesmas. como a árvore ou o lápis. porém. como as almas degeneram das coisas intelectíveis para as inteligíveis. A inteligência é o conhecimento puro e certo somente dos princípios das coisas. descendem para a imaginação das coisas sensíveis. destinada às coisas espirituais. que não é ofuscada por nenhuma imagem dos corpos. da matéria primordial e das substâncias incorpóreas. A imagina­ ção é a memória dos sentidos advinda das imagens dos corpos im­ pressas na mente. metade. cabe propriamente à mate­ mática ocupar-se da quantidade abstrato. como a terra. como duplo. de Deus. 4) outras imóveis. entre intelecto ou inteligência. destinada às coisas materiais. acjui a importante doutrina do conhecimento e a distinção. como marcadas pelo signo da máxima figura {que é Deus). Quanto às grandezas. a outra descontínua. e imaginação ou razão científica. conseguem ficar novamente felizes quando. das idéias. se recompõem. musicam. Caput VII: De arithmetica Ares Graece. illam autem quae ad aliquid est. perti­ cis et funibus terram mensurare coeperunt Deinde a sapienti­ bus etiam ad spatia maris et caeli et aeris et quorumlibet corpo­ rum mensuranda deducta sunt et extensa. geometriam. 96 '■ ■ -Í Si" . Virtus autem numeri est. eo quod nulla eupho­ nia. musica. astronomiam. sine humore fieri possit Caput IX: De geometria Geometria mensura terrae interpretatur. rithmus numerus. quod ad eius similitudinem cuncta formata sunt.Multitudinem ergo quae per se est arithmetica speculatur. Mathematica igitur dividitur in arith­ meticam. eo quod haec disci­ plina primum ab Aegyptiis reperta sit. Mobilis vero scientiam astronomicae disciplinae peritia vindicat. quod as­ tronomia de lege astrorum nomen sumpsit. virtus interpretatur Latine. id est bona sonoritas. inde arithmetica virtus numeri dicitur. Caput X: De astronomia . Caput VIII: De musica Musica ab aqua vocabulum sumpsit. quorum terminos cum Ni­ lus inundatione sua limo obduceret et confunderet limites. Immobilis magnitudinis geo­ metria pollicetur notitiam. Astronomia et astrologia in hoc differre videntur. quando. do ar e de qualquer corpo. devido ao fato de que o Nilo. A^eometria fornece o conhecimento da grandeza imóvel. 97 . do céu. por tanto. Daí. CAPÍTULO 7: A aritmética A palavra grega ápcTiji. pois esta disciplina foi descoberta inicialmente pelos egípcios. É uma referência ao som da água e aos ór­ gãos hidráulicos. A força do número consiste no fato de que todas as coisas foram formadas a sua semelhança. CAPÍTULO 8: A música A música tomou o nome da água. pode acontecer sem umidade^^ CAPÍTULO 9. Mais tarde estes métodos foram aplicados e es­ tendidos pelos homens de ciência à mensuração dos espaços do mar. começaram a medir a terra com varas e cordas. Diziam que o grego "moys" significa água. CAPÍTULO 10: A astronomia A astronomia e a astrologia se diferenciam pelo fato de a astronomia ter derivado o seu nome da lei dos astros. aritmética quer dizer força do número. Mas o conheci­ mento da grandeza móvel é reivindicado pela habilidade da dis­ ciplina astronómica.A grandeza que é tal por si mesma é objeto da aritmética. com sua inundação. sonoridade elegante. A geometria Geometria significa medição da terra. geometria. em latim significa virtude. porque nenhuma eufonía. A matemática. isto é. a grandeza relativa a alguma coisa é objeto da música. cobria de lama os territórios e assim confundia os confins. se divide em arit­ mética. 31. e o ter­ mo ápi0póç significa número. astronomia. música. alia in annis. in elementis. tertia per se secundus et compositus. mutatione ve­ ris. cursus. alia in elementis. Par numerus alius est pariter par. quae partim naturalis est. quae se­ cundum superiorum contemperantiam variantur. alia in pondere. alia in mensu­ ra. instrumentalis. alius pariter impar. ad alios comparatus primus et incompositus. tempestas. crementis detrimentisque lunaribus. secunda secundus et compositus. ortus et occasus siderum. alia in situ. quam partem mathematici tractant. et hiemis.astrologia autem dicta est quasi sermo de astris disserens. Ita astronomia vide­ tur esse quae de lege astrorum et conversione caeli disserit. superstitio­ sa. alia in mensibus. Astrologia autem quae astra considerat secundum nativitatis et mortis et quorumlibet alio­ rum eventuum observantiam. Caput XI: De arithmetica Arithmetica materiam habet parem et imparem numerum. Nomia enim lex et iogos sermo interpretatur. Mundana. circulos. aestatis. naturalis in complexionibus corporum. in planetis. humana. alius impa­ riter par. 98 . alia in motu. ae­ gritudo. autumni. alia in diebus. Impar quoque numerus tres habet species. Prima est primus et incompositus. vicissitudine lucis et noctis. fertilitas et sterilitas. in tempori­ bus. alia in tempori­ bus. et cur unum­ quodque ita vocetur. ut sanitas. Caput XII: De musica Tres sunt musicae: mundana. partim superstitiosa. investigans. in contingentibus et his quae libero arbitrio subiacent. alia in planetis. serenitas. alia in natura. regi­ ones. alia in numero. a astrologia do discurso sobre os astros. De fato, nomía significa lei e logos discurso. E assim, a astronomia é a ciencia que discu­ te a lei dos astros e a revolução do céu, investigando as regiões, as órbitas, os movimentos, o raiar e pôr-se das estrelas e as ra­ zões do nome de cada urna. A astrologia, por sua vez, considera os astros em seu influxo sobre o nascimento ou a morte ou qual­ quer outro evento, influxo que é em parte natural e em parte su­ persticioso. Tal influxo é natural sobre a complexâo dos corpos, os quais variam de acordo com o ritmo dos corpos superiores, como é 0 caso da saúde, doença, tempestade, estiagem, fertilida­ de e esterilidade; mas esse influxo é supersticioso com relação às coisas contingentes ou que dependem do livre-arbítrio. CAPÍTULO 11: A aritmética O objeto da aritmética é o número par e ímpar. O número par pode ser par-par, par-ímpar ou ímpar-par. Também o número ímpar tem três espécies. A primeira espécie é o número primeiro e não composto, a segunda é o número segundo e composto, a terceira é o número segundo e composto em si mesmo, mas pri­ meiro e não composto quando é relacionado com os outros.^^ CAPÍTULO 12: A música Há três tipos de música; do universo, do homem, dos instru­ mentos. A música do universo existe nos elementos, nos planetas, nos tempos. Nos elementos ela consiste em peso, número e me­ dida. Nos planetas consiste em lugar, movimento, natureza. Nos tempos, ela consiste nos dias, mediante a alternância da luz e da noite, nos meses, mediante a lua crescente e decres­ cente, nos anos, mediante a mudança da primavera, do verão, do outono e do inverno. 32. Par par é o número que pode ser dividido várias vezes em duas partes iguais até chegar a 1 {ex. 32-16-8-4-2-1). Par-ímpar é o número que pode ser dividido uma só vez em duas partes iguais, tornando-se logo ímpar e indivisível {ex. 22). ímpar-par é o número que pode ser dividido várias vezes em duas partes até tomar se indivisível (ex. 12-6-3). Entre os números impares, é não-composto o número que pode ser dividido somente por 1 ou por si mesmo {ex. 3,5, 7), é composto o impar que pode ser dividido por outros números além do 1 {ex. 9:3,15: .5,21:7). Hugo está citando asBfymo/off/ae de tsidoro, III, V. 99 Humana musica, alia in corpore, alia in anima, alia in conne­ xu utriusque; in corpore, alia est in vegetatione, secundum quam crescit quae omnibus nascentibus convenit, alia est in humoribus, ex quorum complexione humanum corpus subsistit, quae sensibi­ libus communis est, alia in operationibus, quae specialiter ratio­ nalibus congruit, quibus mechanica praeest, quae, si modum non excesserint bonae sunt, ut inde non nutriatur cupiditas unde in­ firmitas foveri debet, sicut Lucanus in laudem Catonis refert; “Huic epulae vicisse famem, magnique penates Submovisse hiemem tecto: pretiosaque vestis Hirtam membra super, Romani more Quiritis, Induxisse togam Musica in anima alia est in virtutibus, ut est iustitia, pietas et temperantia, alia in potentiis, ut est ratio, ira, et concupiscen­ tia. Musica inter corpus et animam est illa naturalis amicitia qua anima corpori non corporeis vinculis, se affectibus quibusdam colligatur, ad movendum et sensificandum ipsum corpus, secun­ dum quam amicitiam "nemo carnem suam odio habuit”**. Musi­ ca haec est, ut ametur caro, sed plus spiritus, ut foveatur corpus, non perimatur virtus. Musica instrumentalis alia in pulsu, ut fit in tympanis et chordis, alia in flatu, ut in tibiis et organis, aiia in voce, ut in car­ minibus et cantilenis. "Tria quoque sunt genera musicorum; unum quod carmina fingit, aliud quod instrumentis agitur, terti­ um quod instrumentorum opus carmenque diiudicat”'’^ Caput XIll: De geometria Geometria tres habet partes, planimetriam, altimetriam, cosmimetriam. Planimetria planum metitur, id est, longum et la­ tum, et extenditur ante et retro, dextrorsum et sinistrorsum. Altimetria altum metitur et extenditur sursum et deorsum. Nam et mare altum dicitur, id est, 40. Lucanus, De Bello Civile 2,384-387, 41. Ef5,29. 42. Boethius, De musica 1,34. 100 /n A música humana existe ora no corpo, ora na aima, ora na conexão dos dois. A música do corpo consiste ora na atividade vegetativa, pela qual ele cresce como convém a todos os seres que nascem, ora nos líquidos, cujo fluxo faz o corpo subsistir como é comum aos seres com vida sensitiva, ora ñas atividades produtivas, como convém de modo especial aos seres racionais. A estas últi­ mas operações preside a mecánica, as quais sao boas quando não excedem a moderação, para que a ganância não se nutra daquilo de que a fraqueza deveria sustentar-se, como diz Lucano em iouvor de Catão; “Para ele era um banquete ter vencido a fome, urna grande habitação ter afugentado o frio sob um teto, uma veste preciosa ter vestido uma toga rúvida sobre os ombros, nos moldes de um Quirite Romano”. A música da alma, uma consiste nas virtudes, como justiça, piedade e temperança, a outra nas potências, como razão, ira e concupiscencia. A música entre o corpo e a alma é aquela amiza­ de natural com a qual a alma se liga ao corpo não com vínculos corporais mas com determinados afetos, para mover e tornar sensível o próprio corpo, amizade pela qual “ninguém odiou sua própria carne”. Esta música consiste em que a carne seja amada, mas 0 espírito ainda mais, o corpo sejaTeforçado e a virtude não seja destruída. A música instrumental consiste uma na percussão, como acontece nos tímpanos e cordas, outra no sopro, como nas flau­ tas c órgãos, outra na voz, como nos versos e cantos. "Há três ti­ pos de músicos; um que compõe os versos, outro que toca os ins­ trumentos, um terceiro que julga o desempenho dos instrumen­ tos e os versos”. CAPÍTULO 13: A geometria A geometria se divide em três partes; planimetria, altime­ tria, cosmometria. A planimetria mede a superfície plana, isto é, 0 longo e o largo, e se estende para frente e para trás, para a di­ reita e para a esquerda. A altimetria mede a altura e se estende para cima e para baixo. De fato, também o mar se diz alto, isto é, 101 profundum, et arbor alta, id est, sublimis. Cosmos mundus inter­ pretatur, et inde dicta est cosmimetria, id est mensura mundi. Haec metitur sphaerica, id est, globosa et rotunda, sicut est pila et ovum, unde etiam a sphaera mundi propter excellentiam dicta est cosmimetria, non quia tantum de mundi mensura agat, sed quia mundi sphaera inter omnia sphaerica dignior sit. Caput XIV: De astronomia Nec contrarium est, quod superius immobilem magnitudi­ nem geometriae attribuimus et mobilem astronomiae, quia hoc secundum primam inventionem dictum est, secundum quam eti­ am geometria mensura terrae dicitur. Vel possumus dicere quod id quod geometria in sphaera mundi considerat, id est, dimensio regionum et circulorum caelestium, immobile sit, secundum hoc quod ad geometricam considerationem pertinet. Geometria enim non considerat motum, sed spatium. Quod autem astrono­ mia speculatur mobile sit, id est, cursus astrorum et intervalla temporum. Sicque universaliter dicemus immobilem magnitudi­ nem geometriae esse subiectam, mobilem astronomiae, quia, li­ cet ambae de eadem re agant, una tamen contemplatur id quod permanet, altera id quod transit speculatur. Caput XV: Definitio quadrivii Arithmetica est igitur numerorum scientia. Musica est divi­ sio sonorum et vocum varietas. Aliter, musica sive harmonia est plurium dissimilium in unum redactorum concordia. Geometria est disciplina magnitudinis immobilis formarumque descriptio contemplativa, per quam uniuscuiusque termini declarari so­ lent. Aliter, geometria est "fons sensuum et origo dictionum”^^ Astronomia est disciplina investigans spatia, motus et reditus cae­ lestium corporum certis temporibus. 43. Cassiodorus, ¡nsiUutiones 2,3,14; [sidorus, Etymologiae 2,29,16. 102 profundo e a árvore alta, isto é, elevada. Cosmos significa mun­ do, e disto vem a cosmimetria, que é a "medição do mundo”. Esta mede os corpos esféricos, ou seja, globulares e redondos, como a bola e o ovo, e foi chamada cosmimetria em virtude da excelencia da esfera do mundo, não porque ela se interessa ape­ nas da medição do mundo, mas porque a esfera do mundo é a mais digna entre os corpos esféricos. CAPÍTULO 14: A astronomía Isto não contraria o fato de acima termos atribuido a gran­ deza imóve! à geometria e a móvel à astronomia. Isto foi dito numa primeira fase da descoberta da geometria, na qual a geo­ metria se chama também "medição da terra”. Podemos também dizer que aquilo que a geometria analisa na esfera do mundo, ou seja, a dimensão das regiões e das órbitas celestes, é imóvel, e neste sentido pertence à atenção da geometria. A geometria, com efeito, não considera o movimento, mas o espaço. Aquilo que a astronomia indaga, ao contrário, é móvel, como é o caso das órbitas dos astros e os intervalos dos tempos. E assim dize­ mos sem exceção que a grandeza imóvel pertence à geometria e a móvel à astronomia, pois, ainda que as duas tratem da mesma entidade, uma contempla aquilo que está firme, a outra indaga aquilo que se movimenta. CAPÍTULO 15: Definição do quadrivio A aritmética é a ciência dos números. A música é a divisão dos sons e a variedade das vozes. Em palavras diversas, a música ou harmonia é a concórdia de muitos dissimiles reduzidos a um. A geometria é a ciência da grandeza imóvel c a descrição con­ templativa das formas, pela qual costumara ser definidos os limi­ tes de cada coisa. Em outras palavras, a geometria é “a fonte dos sentidos e a origem das palavras”. A astronomia é a ciência que investiga os espaços, os movimentos e as revoluções dos corpos celestes em tempos determinados. 103 quibus ab invicem differunt Logica consideratio est in rebus. sed singulae suas propri­ as quasdam considerationes habent. physicam.Caput XVI: De physica Phisica causas rerum in effectibus suis et effectus a causis suis investigando considerat. sive per rationem.479. Ratio tamen attendit sine su­ perficie et crassitudine lineam pure per se. ethicam. Verbi gratia. quod ad eandem causam spectat Physica aliquando large accipitur aequipollens theoricae. Georg. attendens intellectus rerum. logicam. id est. logicam. Omne genus fruticum. secundum quam acceptionem philoso­ phiam quidam in tres partes dividunt. id est sermo de naturis disserens. lapidum quoque reptiliumque”^\ Physis natura interpretatur. quod est mathemati­ cum. in actu rerum. sed restrin­ gitur philosophia circa physicam. ‘Vnde tremor terris. Nullum enim corpus sic solummodo longum est. non quia in re ita vel sit vel esse possit. Considerat ergo logica species et genera rerum. in qua divisione mechanica non continetur. animos irasque ferarum. qua vi maria'a{ta tumescant Vires herbarum. 2. sed 44. sive per intelligentiam. ethicam. unde etiam in superiori divisio­ ne theoricae physicam naturalem Boethius nominavit. ut neque sint haec neque horum similitu­ dines. Vergilius. ut latitudine vel altitudine careat. Haec eti­ am physiologia dicitur. 104 . non una tamen via omnes currunt. ut non sint haec sed horum tamen simili­ tudines. non inve­ nitur linea sine superficie et soliditate. Caput XVII: Quid sit proprium uniuscuiusque artis Cum vero omnes artes ad unum philosophiae tendant termi­ num. sed in omni corpore haec tria simul sunt. ' Mathematicae autem proprium est actus confusos inconfu­ se per rationem attendere. ou pela inteligência. os mares profundos As forças das ervas. pois em cada corpo estas três qualidades são simultâneas. Boécio chama a física de "naturaJ”. e segundo esta acepção alguns dividem a filosofia em três partes. ou pela razão. mas 105 . cuidando dos conceitos das coisas. CAPÍTULO 17: A especificidade de cada arte É verdade que todas as artes tendem para o único objetivo da filosofia. quando não estão presentes as coisas mas o estão as imagens delas. Por exemplo. A razão analisa a linha de maneira pura. A física. e por isso. De onde vêm terremotos. isto é. pelas espécies e pelos gêneros das coisas. é entendida em sentido amplo correspondente à inteira teórica. discurso que trata das naturezas. aliás. isto é. E isto é algo ma­ temático. Eía é dita também fisiologia. as índoles e as iras das feras Todo género de arbustos. quando não estão presentes nem as coisas nem as imagens delas. divisão na qual não é contida a mecânica e a filosofia é restrita à física. assim. Próprio da matemática é tornar distintos pela razão os da­ dos confusos. na coisa real não se encontra a linha sem a superfície e a solidez. somente longo. em si. Nenhum corpo é. sem a superfície e o peso. por qual força intumescem. A lógica se in­ teressa. mas nem todas percorrem o mesmo caminho. cada uma possui determinadas ponderações próprias. como também de pedras e répteis. na divisão anterior da teórica. algo que con­ cerne ao mesmo objetivo. fí­ sica.CAPÍTULO 16: A física A física pesquisa e investiga as causas em seus efeitos e os efeitos a partir das causas. assim. Ftsis significa natureza. O objeto da lógica são as coisas. não porque na coisa é assim ou pode ser assim. algumas vezes. pelas quais se diferencia das outras. ética e lógica. como se não tivesse largura e alteza. ética e lógica. non ut sunt. sed sicut esse possunt. ubi fallax experimentum est. ubi inconcussa veritas manet. utque ipsi rationi nihil carens intervallo intervallum generet Physicae autem est proprium actus rerum permixtos imper­ mixte attendere. 106 .quia ratio saepe actus rerum considerat. cum per se non in­ veniantur. ceterae omnes de intellectibus rerum. de concretione et efficientia totius iudicat Hoc etiam praetereundum non est. suam conside­ rationem ponerent. quibus unumquemque primum infor­ mari oportet antequam physicae speculationi operam det. sive aeris. id est. pure tamen et per se considerat Purum scilicet ac­ tum ignis. sive terrae. mathe­ matica autem nunquam sine imaginatione est. Logica tractat de ipsis intellectibus secundum praedicamentalem cons­ titutionem. sed quantum ad ipsam rationem. breviter nunc utrasque repetimus. Talis est enim vivacitas rationis. ut ratio pateretur esse. sed in sola ratione. mathematica vero. Actus enim corporum mundi non sunt puri. Secundum quam considerationem dic­ tum est continuam quantitatem in infinita decrescere. superiori conveniat. non in se. quam ponit Boethius. et ad ea quodammodo ins­ trumenti vice funguntur. quod sola physica pro­ prie de rebus agit. deinde ipsa ratione praevia ad experientiam rerum descenderent Postquam igitur demonstravimus quomodo divisio theoricae. necesse fuit ut non in actibus rerum. et cetera. latum in lata. et ideo logica quandoque utitur pura intelligentia. secundum integralem compositi­ onem. ut omne longum in longa dividat. et discre­ tam crescere in infinitum. sed compositi ab actibus purorum. ut singula utriusque verba divisionis invi­ cem conferamus. sive aquae. ideoque nihil vere simplex habet Quia enim logica et mathematica priores sunt ordine discendi quam physica. quos physica. et ex natura unius­ cuiusque per se considerata. e assim em diante. isto é. que ela divide qualquer coisa longa em outras coisas longas. e. os movimentos dos corpos do mundo não são pu­ ros. para depois. mas compostos de atos puros que a física. Depois de ter demonstrado por que a divisão da teórica. mas de acordo com a razão. enquanto todas as outras ciências se ocupam dos conceitos das coisas. con­ clui. E também não deve ser esquecido que unicamente a física trada das coisas. foi necessário que a lógica e a matemática se dedicassem não à dinâmica das coisas. onde a experiência é en­ ganadora. concorda com a anterior. algo largo em coisas largas. 107 . E tal a vitalidade da razão. não tem nenhum objeto verdadeiramente simples. É próprio da física tratar singularmente os movimentos mis­ tos. enquanto a matemática em termos de constituição integral. tendo observado o movimento puro do fogo. ou da terra. a partir da natureza de cada um observada separadamente. Neste sentido foi dito que a quantidade contínua é dividida em infinitas partes e que uma quantidade divisa cresce ao infinito. De fato. mas em termos de organização catégorial. considera puros e em si. pro­ posta por Boécio. onde fica a verdade indiscussa. ou do ar ou do céu. deixe de engendrar uma divisão para a própria razão. sobre os quais qualquer pessoa deve ser informada antes de aceder à pesquisa física. agora repropomos brevemente as duas. indiviso. para que possamos comparar cada palavra de uma e outra divisão. descerem para a experimentação das coisas. mas unicamente sobre a razão. como a razão consente que sejam. e que nenhum objeto. a lógica às vezes se utiliza da inteligência pura. mas como podem ser. sobre a agregação e a eficiência do todo. A física. sob a condução da razão. por esta razão. não em si. Sendo que a lógica e a matemática são anteriores à física na ordem da aprendizagem e funcionam para ela num certo qual modo como instrumentos. enquanto a matemática nunca age sem imaginação. A lógica trata destes conceitos.porque é próprio da razão considerar freqüentemente o ser das coisas não como estas são. por isso. mesmo que em si não existam. Solam autem theoricam. Polis Graece. ethicam. et corporum. privata. congrue ad sapientiam referre possimus. licet tres reliquas. Oeconomus interpretatur dispensa­ tor. intellecti­ bilis et divinalis. id est. Di­ citur enim Tritona. videli­ cet Dei. mechanicam et ethicam. id est. quasi tritoona. Quando ethi­ cam partem constituimus practicae. in ethicam. Vel aliter. et animarum. mathematicam. vel aliter. stricte accipienda est ethica in moribus uniuscuiusque personae. logicam. eadem est mathematica. propter vocis eloquentiam. una rursum. propter speculatio­ nem veritatis rerum. quam naturalem appellavi­ mus. tertia cognitio. oeconomica et dispensativa. theorica dividitur in intellectibilem. privatam et publicam. civilis. expressius tamen logi­ cam. quam intelligibilem diximus. inde politica dicta est. intelligibilem. quae dea sapientiae fingitur esse. in doctrinale et philologiam. id est. Eadem est igitur theologia.Caput XVIII: Collatio sup radi cto rum Theorica dividitur in theologiam. et physi­ cam. quia. et est eadem quae solitaria. prudentiam sive scien­ tiam appellamus. Solitaria igitur ''est quae sui curam gerens cunctis sese eri­ git. Latine civitas dicitur. Caput XIX: Item Practica dividitur in solitariam. Una est solitaria. et naturalem. intelligibilis et doctri­ nalis. eademque physica. mechanicam. philologia. Inde oeconomica dicta est dispensativa. et naturalis. quam intellectibilem nominavimus. ethica et mora­ lis. prop­ ter circumspectionem morum et operum. Sunt qui has tres theoricae partes mystice quodam Palladis nomine. Vel aliter. oeconomicam et politicam. 108 . in mora­ lem et dispensativam et civilem. Eademque publica. significari putant. vel aliter. Et merito ab his tribus tantum sapientia vocabulum sumit. sapientiam nominamus. exornat augetque virtutibus. politica atque civilis. theorica dividitur in divinalem. isto é. de outra maneira {segundo Boecio). Ou. a ética deve ser entendida em sentido estrito de costumes morais de cada pes­ soa. a física é o mesmo que fisiologia e natural. Por isso. de ou­ tra maneira. Uma é solitária. ou Tritoona. em ética. Ou. que chamamos conheci­ mento intelectível. 109 .CAPÍTULO 18: Comparação das coisas ditas acima A teórica se divide em teologia. tomando conta de si. a lógica.matemática é igual a inteligível e doutrinai. a ciência econômica é chamada administrativa. conhecimento tríplice: de Deus. dos corpos. O termo gre­ go polis em latim é ciuitas. em razão da conveniência dos costumes e dos trabalhos. e por isso a política é dita civil. econômica e administrativa. privada e pública. que são a ética. em razão da investigação da verdade das coisas. ética e moral. portanto. “é aquela que. a outra é privada. administrativa e civil. Quan­ do consideramos a ética uma parte da prática. não obstante possamos relacionar congruamente à Sapiência as três restantes. econômica e política. doutrinai e fisiologia. e é 0 mesmo que solitária. Oeconomus significa administrador. Há quem ache que estas três partes da teórica recebam o significado de um certo nome de Palas Atena. Ela é chamada Tritona. é igual a intelectível e divinal. portanto. se eleva acima de tudo. inteligível e natural. mais apropriadamente apelidamos estas últimas de prudên­ cia e ciência. Chamamos Sapiência somente a teórica. a me­ cânica e a ética. em moral. A filosofia prática solitária. CAPÍTULO 19: Continuação A prática se divide em solitária. que chamamos conhecimento natural. E com justa razão a Sapiência toma o nome a partir destas três partes. de outro modo. pois. política e civil. ou. A teologia. das almas. a teórica se divide em íntelectível. de outra maneira ainda. se adorna e acresce de virtudes. a mecânica e a lógi­ ca. matemática e física. a teórica se divide em divinal. ou. em razão da eloqüênda da palavra. que chamamos conhecimento in­ teligível. a. que foi considera­ da a deusa da Sapiência. a outra enfim é pú­ blica. 3. Moralis dicitur per quam mos vivendi honestus appetitur. 46. dignitas. nihil faciens paenitendum”. ad similitudinem quidem trivii et quadrivii. quo se alendo et fovendo nutrit. cunctorum saluti suae providentiae sollertia. et fortitudi­ nis stabilitate. Institutiones 2.3. 1. Ex quibus tres ad extrinsecus vestimentum naturae per­ tinent. Cicero. Hinc ad eos qui ipsam adepti sunt. et temperantiae patientia medetur””. Dispensativa dicitur cum domesti­ carum rerum sapienter ordo disponitur. confluit. et iustitiae libra. De invent. quattuor ad intrinsecus. Cassiodorus. venationem. Isidorus. 1.7. Hinc amicis quoque eorum certissimum et tutissimum praesidium est"''^ 45. 110 . hoc eodem vita iucunda fiat Nam hinc ad rem publicam plurima commoda veniunt si moderatrix omnium praesto est sa­ pientia. laus.24.5. sicut Tullius in libro rhetorico­ rum de studio eloquentiae dicit: “Hoc tuta. et instituta ad virtu­ tem tendentia praeparantur. Boethius. quia trivium de vocibus quae extrinse­ cus sunt et quadrivium de intellectibus qui intrinsecus concepti sunt pertractat Hae sunt septem ancillae quas Mercurius a Philologia in do­ tem accepit. Civilis dicitur per quam totius civitatis utilitas administratur””. hoc il­ lustris. Privata est “quae familiaris officium mediocri componens dispositione distribuit”. hoc honesta. pr.nihil in vita admittens quo non gaudeat. cui iuncta fuerit sapien­ tia. omnis humana actio servit. politica rectoribus urbium. Etymologiae 2. privata patribus fami­ lias.16. navigationem. Caput XX: Divisio mechanicae in septem Mechanica septem scientias continet: lanificium. eo quod res propositas operationibus suis explicet. medicinam. thea­ tricam. quia nimirum eloquentiae. armatu­ ram. In ¡sag. 47. agriculturam. honos. quo se ipsa natura ab incommodis protegit. Publica est “quae rei publicae curam suscipiens. Practica “actualis dicitur. Solitaria igitur convenit singularibus. agricultura. navegação. Também para os amigos deles. três dedicam-se à proteção externa da natureza humana. A filosofia prática privada é "aquela que distribui a tarefa do servo. porque o trivio trata das palavras exteriores. e o quadrivio dos conceitos que são concebidos no íntimo. teatro. Disto afluem. ciência das armas. A filosofia prática pública é “aquela que. porque por ela é provida a utilidade de toda a cidade". é própria dos indivíduos. Se diz administrativa. Destas. por ela ilustre. medicina. de modo que esta natureza se protege dos incômodos. dando ordens com comando moderado”. A prática "se diz ativa. portanto. honra e dignidade. com a firmeza da cora­ gem e com a paciência da temperança". disto ad­ vêm uma defesa certíssima e seguríssima”. porque toda ação humana serve à eloqüência. a política dos reitores das cidades. se a Sabedoria é guia cons­ tante de tudo. lou­ vor. Se diz moral. pela qual a natureza se nutre. Estas são as sete servas que Mercúrio recebeu em dote da Filologia. Disto decorrem muitas vantagens para a república. quando a esta se acrescenta a Sabedoria. CAPÍTULO 20: Divisão da mecânica em sete ciências A mecânica contém sete ciências: ciência da lã. porque por ela se deseja um costume honesto de viver e são organizados ordenamentos que tendem para a vir­ tude. nada fazendo de que deva arrepender-se”. porque realiza com suas operações as coisas propos­ tas. por ela honesta. para aqueles que a adquiriram. com o equilíbrio da justiça. quando a ordem das coisas domésti­ ca é disposta sabiamente. e quatro à prote­ ção interna. como diz Túlio no livro dos retores sobre a arte da eloqüência: "Por ela a vida se torna segura. caça. e por ela alegre. crescendo e curan­ do-se. Trata-se de uma semelhança com o trivio e o quadrivio. provê ao bem-estar de todos com a perspicácia de sua sabedoria. Se diz civil. 111 . curando da coisa pública. a privada dos chefes da casa. A solitária.nada admitindo em sua vida de que nao possa alegrar-se. calamistro. Stramina quoque ex quibus galeros et sportulas texere solent homines. vel quibus percutimus. bipennis. adulterinae. Haec omnia studia ad lanificium pertinent. operimentorum. retorquendi genera. plebei vero et ignobilium filii in mechanicis propter peritiam operandi. substratoriorum. chordarum. nobi­ les. Tela 112 . ut scutum. cortinarum. arma navis. vel quia liberos. Prima: lanificium Lanificium continet omnia texendi. ins­ trumenta belli et navis. vel suberis. linteorum. cannabis quoque. Caput XXI. quia subtiliter de rerum causis disputant. fuso. consuendi. iuncorum. alibro. id est. pilorum. chilindro. expe­ ditos et exercitatos animos requirunt. quod a natura formam mutuatur. sicut dicimus arma belli. acu. quae fiunt manu. Arma aliquando quaelibet instru­ menta dicuntur. Sicut ali­ ae septem liberales appellatae sunt. aut alia qualibet re huiuscemodi. funium. sagmatum. thorax. sagorum. ut gladius. id est. pectine. girgillo. id est. matularum. ex quacumque lini vel lanae materia et omni genere pellium erasa­ rum vel pilos habentium. Mechanica est scientia ad quam fabricam omnium rerum concurrere dicunt. floccorum. quae in usum vestimentorum. subula. cassium.Tíi: Hae mechanicae appellantur. Ceterum proprie arma sunt quibus tegi­ mur. in eis studere consueverant. sive aliis quibuslibet instrumentis. sarisa. In quo magna priscorum apparet diligentia. galea. sed omnia sub certis regulis et praeceptis stringere. redigi potest. Caput XXII: Secunda: armatura Secunda est armatura. quia de opere artificis agunt. filtrorum. id est. vel quia liberi tantum antiquitus. qui nihil intentatum linquere voluerunt. pois disputam sutilmente das causas das coisas. fiar que são executadas à mão. CAPÍTULO 21: Primeira. ou porque exigem espíritos livres. juncos. lençóis. a ciência da lã A ciência da lã abrange todas as formas de tecer. flocos e todos os outros materiais deste tipo que podem ser transformámos para o uso de vestes. Todos estes trabalhos per­ tencem à ciência da lã. fuso. As armas 113 . que da natureza toma empres­ tada a forma. A mecânica é a ciência para a qual. as outras sete ciências foram chama­ das liberais. CAPÍTULO 22: Segunda: a ciência das armas If. ou por­ que antigamente somente os livres. cor­ das. Paralelamente. a lança. Nisso tudo aparece a grande atenção dos antigos em não deixar nada não tratado. pente. cobertores. Toda­ via. isto é. mantas. mas abarcar tudo com determinadas regras e ensinamentos. costurar. redes de caça. o elmo. o machado de lâmina dupla. isto é. como todo tipo de cânha­ mo. calamistro. a couraça. imitativas. cortiças. tear. como 0 escudo. prontos e treinados. A segunda é a ciência das armas. instrumentos de guerra e da nave. por­ que tratam do trabalho do artífice. cordas de instrumentos musicais. feltros. cortinas. tapetes. Considerem-se também as palhas. das quais os homens cos­ tumam entrelaçar chapéus e cestos. isto é. e sobre todo tipo de peles tosquiadas ou cheia de pêlos. enquanto os plebeus e os filhos dos ignorantes costumavam dedicar-se às ciências mecânicas por sua capacidade de operar. isto é. os nobres. rolo ou com qualquer outro instru­ mento sobre qualquer material de ünho ou lã. como dizem. gualdrapas. com agulha. lança­ deira. ou com as quais golpeamos. esto­ fos. como quando dizemos armas de guerra. como a espada.Estas ctêndas se chamam mecânicas. são armas propriamente aquelas com as quais nos cobrimos. Às vezes são ditas armas todos os instrumentos. armas da nave. converge a fabricação de todas as coisas. costumavam dedicar-se a elas. sovela. pêlos. et si qua sunt simi­ lia operantium. Armatura igitur quasi instrumentalis scientia dicitur. scalpentes. in dola­ bris et securibus. sagitta. quae feriendo massam in formam extendit.39. compingentes. prolongare dicitur. Augustinus. quia bracchium muniunt quod ictibus opponere solemus. runcinis. examussi. quae ad carpentarios et tig­ narios pertinet. linientes in qualibet materia. ins­ trumentum efficiat Ad hanc omnis materia lapidum. mutan­ dis. osse. limantes. Dicta autem arma ab armo. bracchio. unde et protelare. In Psalmos 67. vendendis. quae fundendo massam in formam redigit Unde “exclusores dicti Sunt. harenarum argillarum pertinet Haec duas habet species. id est. eo quod. longum.autem sunt quibus iaculari possumus. Architectonica dividitur in caemeniariam. Caput XXIll: Tertia: navigatio Navigatio continet omnem in emendis. Haec rectissime quasi quaedam sui generis rhetorica est. 114 . id est. sabulo. Tela autem dicuntur a Graeco telón. ligno. artavis. gypso. la­ tere. luto. polientes. architectonicam et fabrilem. lapide. domesticis sive peregrinis mercibus negotiationem. ut ita dicam. id est. sculpentes. aliosque huiusmodi utriusque artifices. 48. et in exclusoriam. metallorum. quantum quod de praeiacenti alicuius massae materia aliquod. eo quod huic professioni eloquentia maxime sit necessaria. Fabrilis dividitur in malleatoriam. dolantes. non tantum ideo quod instrumentis operando utatur. longa sint huiusmodi. calce. lima et assiculo. trulla. qui de confusione massae noverunt formam vasis exprimere"*®. lignorum. quae ad latomos et caementarios. serra et terebro. et iji carpentariam. ut hasta. venda e troca de mercadorias domésticas ou estrangeiras. Com justa ra­ zão a navegação é considerada uma retórica suigeneris. 115 . madefra. eles que. que significa prolongar. e a outra é a fundição. a reduz a uma forma. fundindo uma massa. que cabe aos carpinteiros e aos marceneiros.longas são aquelas com as quais podemos golpear à distância. À ciência das armas pertence qualquer mate­ rial de pedras. polindo. A ciência fabril se divide em duas: uma é executada com o martelo. osso. que significa braço. que cabe aos cortadores de pedras e aos pedreiros. como também a outros trabalhadores das duas atividades. rebocando sobre qualquer material com argila. cal. Teia vem do grego telos. que costumamos opor aos golpes. batendo sobre uma massa. uma vez que a eloquência é absolutamente necessária a esta profissão. A arquitetônica compreende seja o corte de pedras. e. Esta ciência compreende ainda dois gêneros: a arquitetôni­ ca e a fabril. souberam expressar uma forma”. conectando. madeiras. da massa confusa. não so­ mente porque em suas operações utiliza instrumentos.sculpindo. tijolo. de onde vem a palavra protelar. fa­ cas. limando. porque elas munem o braço. "foram chamados fundidores. mas tam­ bém porque com o material disponível de alguma massa faz al­ gum instrumento. pedra. incidindo. porque as armas deste tipo são longas. que. lima e caibros. gesso e outros materiais parecidos dos operários. serras e brocas. colher de pedreiro e esquadro. metais. plainas. como a carpintaria. Por esta razão. areia. afinando. Nela se trabalha com machados e martelos. como 0 dardo e a flecha. areias e argilas. que significa longo. mediante moldes. CAPÍTULO 23: Terceira: a navegação A navegação abrange todo o comércio de compra. As armas são chamadas assim do termo latim armus. A ciência das armas se chama ciência instrumental. que. dilata a numa fôrma. IIG . laqueis. praecipitiis. qui arboribus vacat. et potuum apparatus.Unde et hic qui facundiae praeesse dicitur. vel quasi ponis. Aucupium fit laqueis. Cibus in duo dividitur. ut prata. Piscatura fit sagenis. tesqua. arcu. Haec secreta mundi penetrat. ut vineta. retibus. Caput XXV: Quinta: venatio Venatio dividitur in ferinam. et consitum. Feri­ na multis modis exercetur. hamo. carnem pro cibo et mulsum vel aquam pro potu habent. id est. et cum barbaris nationibus et linguis incognitis commercia humanitatis exercet. Huius studium gentes conciliat. iaculis. pedicis. retibus. floridum. vel a Graeco pan. ut hor­ ti et rosaria. tempe. retibus. Panis multa sunt genera. pennarum odore. bella sedat. acci­ pitribus. pascuum. cuspide. Ad hanc disciplinam pertinet omnium ciborum. indagine. quia antiquitus plus venatione vesci solebant. saporum. aucupium et piscaturam. ubi rarissimus usus panis est. canibus. poma­ ria. pedicis. arcu. gurgustiis. Panis dictus est. sicut adhuc in quibus­ dam regionibus. Dominus appellatur. quasi mer­ catorum kirrius. visco. iaculis. Nomen tamen accepit ab una parte sua. quia omnibus mensis appo­ nitur. et privata bona ad communem usum omnium immutat Caput XXIV: Quarta: agricultura Agricultura quattuor species habet. pacem firmat. in panem et obsonium. quod est omne. quia nullum convivium bonum sine pane ducitur. nemora. arvum agrum. Mercurius. qui satio­ ni deputatur. litora invisa adit. hamis. deserta hor­ rida lustrat. anzóis e arpões. e estabelece relações humanas com povos bárbaros e com línguas desconhecidas. A comida se divide em duas partes. A caça aos pássaros se faz com laços. A caça selvagem se faz de muitas maneiras. que significa tudo. Senhor dos mercadores. fossas. como ponis. como prados. arco. CAPÍTULO 24. consoli­ da a paz. tocaias. Quarta: a agricultura A agricultura se divide segundo quatro tipos de terreno: campo arável.Por isto. pão e acompanhamento. pomar e bosques. arco. destina­ do às plantas. falcões. e transfere os bens privados para o uso comum de todos. onde o uso do pão é raríssimo. é posto em todas as mesas. ou seja. Há muitos tipos de pão: 117 . redes. vales e descampados. campo arbóreo. molhos e bebidas. como ainda hoje em algumas regiões. pois antigamente os ho­ mens se alimentavam preferencialmente de caça. A pesca se faz com nassas. redes. lanças*. campo florido. considerado que nenhuma boa refeição se faz sem o pão. laços. tendo a carne como alimento e o mosto e a água como bebida. adentra litorais nunca vistos. flechas. como vinhedo. como hortos e roseirais. A esta disciplina pertence a preparação de todos os alimen­ tos. visgo e gancho. Quinta: a caça A caça se divide em caça selvagem. paliçadas. aquele que preside à arte de faíar. com redes. é conside­ rado kirrius. CAPÍTULO 25. armadi­ lhas. aplaca as guerras. passarinhagem e pesca. percorre desertos horríficos. Mercúrio. Este tipo de dedicação reconcilia as nações. cheiros de plu­ mas. A navegação penetra em regiões remotas. ou do grego pan. destinado à semeadura. O pañis (pão) se chama assim ou porque. campo pastoril. Esta significação mais ampla do termo “caça” tem origem de uma parte dela. cachorros. ar­ madilhas. qui cibus sunt. aliae salsae. Cf. fermentatus. quia aliquando 49. ut aqua. alii frigidi. Potus alii tantum sunt potus. Lucaniae farcimen. non nutriunt. Obsonium dicitur quasi adiunctum pani. alii sicci. et cetera multa. notae 75-78. spongia. placenta. cibus et potus. Venatio igitur continet omnia pistorum. Huius multa sunt genera. mi­ nutal. qui humectant tantum. ut vinum et sicera quaelibet. alii potus et cibus.azymus. The Didascalicon. Columbia Univ. ut cervisia. quia faciunt et conservant sanita­ tem. alii naturaliter sunt cibus. Caput XXVI: Sexta: medicina “Medicina dividitur in duas partesoccasiones et operationes. rubigus. Mulsa habent lac. fructus. alii accidentaliter. pulmenta. Aliae dicuntur succidia. babdutam. et accidentia animae. alii humidi. 1487) fol. somnus et vigiliae. amolum. simila. aliae elixae. mortisia Galatiae. Accidentia animae ideo dicuntur occasio sanitatis vel infirmita­ tis. inanitio et repletio. Holerum et fructuum no­ mina enumeret qui potest? vSapores alii calidi sunt. aliae crudae. quod nos cibarium dicere possumus. dulcia. medones. J. butyram. Quae ideo occasiones esse dicuntur. 206.. carnes. infirmitatem. si temperata fuerint. perna vel petasunculus. New York. clibanicus. alii dulces. aliae frixae. p. Rursum. adeps. holera. id est. arvina. siligeneus. cauponum officia. mulsa. motus et quies. Carnes aliae sunt assae. caseum. alii amari. colostrum. 118 . id est. lardum quoque sive taxea. 1961. axungia. si intemperata fuerint. 2r-a). qui humectant et nutriunt. Pulmenti item multa sunt genera. carnificum. serum. Incipit Isagoge Jaannitii ad Tegni Galieni (in Articella [Venetia: Baptista de Tortes. ut vinum. Taylor. Occasiones sex sunt: aer. afrotum. subcinericius. Press. coquo­ rum. et cetera quaecumque prin­ ceps coquorum excogitare potuit. as galácticas e tantas outras quantas um chefe de cozinha con­ seguiu excogitar. se forem imoderadas. líquidos me­ lados. A caça. umedecem e alimentam.ázimo. fogaça. sono e vigília. contém todas as tarefas de padeiros. lacticinios. outras doces. entre os alimentos. misturas. outros são acidentais. cozinheiros e bodegueiros. alguns são alimentos naturais. portanto. pão de farinha. As carnes são algumas assadas. outras frias. Também de misturas há muitas. perna ou presunto. fermentado. Entre as bebidas. isto é. queijo e soro. outras fritas. verduras e frutas. As ocorrências que influem na alma são ocasião de saúde ou enfermidade no sentido de que 119 . semelhantes e muitos outros. petisco. como rerveja e hidromel. se forem temperadas. não alimentam. As ocasiões são seis. cozido em telha. CAPÍTULO 26: Sexta: a medicina "A medicina se divide em duas partes". Elas se chamam ocasiões. E quem pode enumerar o número de verdu­ ras e frutas? As salsas são algumas quentes. posta de peixe. esvaziamen­ to e enchimento. outras salgadas. vermelho. açou­ gueiros. Outras se chamam carnes de porco. causam a enfermidade. outras cruas. sebo. alimento e bebida. também toucinho ou toucinho defu­ mado. pão esponjo­ so. O acompanhamento é chamado assim porque é como se fos­ se acrescentado ao pão. gordura. somen­ te umedecem. outras úmidas. porque oca­ sionam e conservam a saúde. e as ocorrên­ cias que influem na alma. Existem vários tipos de acompanhamento: carnes. como a água. E ainda. ar. movimento e repouso. man­ teiga. outras cozidas. pão doce. algumas somente tiram a sede. pão de ce­ vada. outras são bebida e ali­ mento. Os mostos têm leite. outras amargas. e podemos chamá-lo alimento. como o vinho e qual­ quer sycera. outras secas. isto é. como o vinho. as ocasiões {causas condicionantes) e as operações. cozido sob a cinza. banha. colostro. lingüiça da Lucânia. in gustu. In arenis pugiles exercebantur.. vel at­ trahendo sumuntur. ut ira. ut solidare et iuncturae reddere. foris. suere. ceiararii. alii in arenis. in carne. ut delecta­ tiones. ut ea quae ore. alii in conviviis. in osse. In amphicircis cursu certabant vel pedum. macellum. quia se­ cundum diversos respectus hoc factum csL Vinum namque in botro agriculturae est. aut leniter. vel leniter. Omnis operatio medicinae aut intus fit aut extra: intus. virtus saporis. sed quia celebrior locus fuerat ceteris. medici. In con­ viviis. In fanis tempore solemni deorum laudes canebant. chirurgia. non quia in theatro tantum ludus fieret. ut epitimata. ut potiones. naribus. ad medicinam. coquinam perti­ net. alii in gymnasiis. emplas­ tra. vel oscillis in gabulis choreas ducebant et saltabant. pulveres etc. 120 . ve) masticando. auribus sive ano intromittuntur. ut terror et timor.vel commovent calorem impetuose. vel personis. alii in gabulis. alii in fanis. Simili­ ter ciborum apparatus ad pistrinum. In gymnasiis luctabantur. ure­ re. ut angustia. vel equorum. in peno. Fiebant autem ludi alii in theatris. In theatro gesta recitabantur vei carminibus. Caput XXVII: Septima: theatrica Theatrica dicitur scientia ludorum a theatro ubi populus ad ludendum convenire solebat. cataplasmata. quae duplex est. alii in amphicircis. quae superius venationi attribui. vomitationes. Et sunt quae commovent naturalem vir­ tutem intus et extra. quae bibendo. vel curruum. ut est tristitia. vel larvis. ut incidere. Nec moveat quemquam quod cibum et potum inter atributa medicinae annumero. rhythmis et musicis instrumentis et odis psallebant et alea ludebant. vel attrahunt et celant aut impetuose. CAPÍTULO 27: Sétima: a ciência do teatro A ciência dos Jogos se diz ciência do teatro por causa do ter­ mo latim theatro. O vinho. instru­ mentos musicais e canções. é coisa de agricultor no cacho da uva. outros nas arenas. uma operação é externa no caso de faixas. poções. onde o povo costumava reunir-se para brincar. pelas orelhas ou pelo ânus. Nas cáveas os homens executavam coros e dançavam. ou suavemente. na carne. etc. igualmente. como a ira. Os jogos aconteciam alguns nos teatros. o poder do sabor é com o médico. No teatro as ges­ tas eram recitadas em versos. como 0 terror e o medo. que se tomam bebendo. Nas arenas se exibiam os pugilistas. ou com bonecos. outros nos ginásios. vários tipos de pó. ou sua­ vemente. e de médico no paladar. ou atraem e escondem este calor impe­ tuosamente. 121 . mas por­ que este foi um lugar mais frequentado que os outros. E há influências que turbam a energia natural dentro e fora. como a an­ gústia. e isto não porque o lazer acontecia somente no teatro.ou às vezes provocam calor impetuosamente. Qualquer operação da medicina pode ser externa ou inter­ na: a operação é interna. costurar. outros nos anfiteatros. como o deleite. ou através de atores. a preparação dos alimentos tem a ver com o moinho. queimar. mastigando ou absorvendo. porque isto foi feito segundo ângulos diversos. outros nos santuários. Alguém não se admire se incluo entre os atributos da medi­ cina 0 alimento e a bebida. compressas. Nos anfiteatros competiam em corridas a pé. coisas que acima tenho atribuído à caça. por exemplo. ou no osso. Nos ginásios lutavam. de cantineiro na cantina. outros nas cáveas. como saldar e juntar. e jogavam dados. pelo nariz. de cavalos ou de bigas.. vomitivos. emplas­ tros e em caso de cirurgia. quando se introduzem pela boca. que é dupla. outros nos banquetes. ou com más­ caras. como a tristeza. o açougue e a cozinha. como cortar. Nos banquetes faziam música com ritmos. Nos santuários em ocasiões solenes cantavam os louvores dos deuses. vocem 122 . Vel aliter grammatica dividitur in litteras. adverbium. lingua. quia temperato motu naturalis calor nutritur in corpore. ut et vocem et scripturam intelligamus. participium. praepositionem. et voces. dictionem et orationem. Caput XXVIII: De logica quae est quarta pars philosophiae Logica dividitur in grammaticam et in rationem disserendi. compositionem.Ludos vero idcirco inter legitimas actiones connumerabant. sed quasi quoddam appendicium et instrumentum ad philo­ sophiam. littera interpretatur Latine. inflectionem. interiectionem. manus. secundum se inventionem et formationem. Gramma Graece. verbum. utrumque enim ad grammaticam pertinet. id est. et cetera ad pronuntiationem tantum pertinentia per­ tractans. elementum. pro­ lationem. id quod pronuntiatur. Grammatica simpliciter agit de vocibus. vel. quia necesse fuit populum aliquando ad ludendum convenire. grammatica dividitur in nomen. quod magis videtur. syllabam. Caput XXIX: De grammatica Grammatica dividitur in litteram.. id est. coniunctionem. Ceterum hic large accipienda est littera. prono­ men. partes sunt corporis et instrumenta. sicut pes. Vel aliter. De ratione autem disserendi Boethius dicit quod et pars esse possit et instrumentum ad philosophiam. voluerunt determi­ nata esse loca ludendi. id est litteralis scientia. inde dicta est grammatica. ne in diversoriis conventicula facientes probrosa aliqua aut facinorosa perpetrarent. etc. id est. oculi. Littera proprie est figura quae scribitur. et laeti­ tia animus reparatur. Quidam dicunt grammaticam non esse partem philosophi­ ae. id quod scribitur. Ratio disserendi agit de vocibus secundum intellectus. sonus qui pronuntiatur. porque através dos movimentos moderados o calor é nutri­ do no corpo. se quis que existissem lugares de lazer bem de­ finidos. Sobre a teoria da argumentação.. modulação. Mais verossimilmente. aqui­ lo que se escreve. cometessem ações vergonhosas ou delituosas. reu­ nir-se para jogar. os olhos. Ou. sílaba. etc. isto é. isto é. CAPÍTULO 29: A gramática A gramática se divide em letra. do mesmo modo que o pé. de outra maneira. Ou. 0 grego gramma significa em latim letra. segundo alguns afirmam. fazendo grupelhos. dito diferentemente. advérbio. a gramática trata das palavras. CAPÍTULO 28. A letra é propriamente uma figura que se escreve. a gramática se divide em letras. -Vi il- . para não acontecer que as pessoas. isto é. formação. nos botecos. espe­ cíficamente de sua invenção. composição. enunciação e todo o resto relacionado somente com a pronúncia. são partes e instrumentos do corpo. Todavia. e palavras. ciência das letras. palavra e frase. verbo. mas antes um tipo de apêndice e um instrumento para a filo­ sofia. pois as duas pertencem à gramática. a mão. participio. entendendo-a como palavra e escrita. e o elemento é o som que se pronuncia. Dito simplesmente. Boecio diz que esta poderia ser seja uma parte como um instrumento da filoso­ fia. todavia. A lógica como quarta parte da filosofia A lógica se divide em gramática e teoria da argumentação.Os jogos foram considerados ações legítimamente huma­ nas. de vez em quando. palavras 123 ïi'. não é parte da filoso­ fia. interjeição. e por isso esta ciência foi chamada gramática. A teoria da argumentação trata das palavras em nível de conceitos. aquilo que se pronuncia. conjunção. preposição. o termo letra aqui deve ser interpre­ tado em sentido amplo. e através da alegria o espírito se recupera. pronome. A gramática. a gramática se divide em nome. sendo que o povo deve. a língua. isto é. accentus. fabulas. analogiam. quarum utraque integrales partes habet inventionem et iudicium. Inventio est quae docet invenire argumenta et consti­ tuere argumentationes. no­ tas. posituras.Probabilis pertinet ad dialecticos et ad rhetores. quia et prolixior es­ set quam huius schedulae brevitas expetat. barbarismum. Servi­ um. orthographiam. schemata. dissertivam. glossas. Quia enim ipsum genus. si inventio et iudicium sub philosophia conti­ neantur. vitia.articulatam. Videntur enim neque sub 124 . sophistica. legat Donatum. metra. pedes. ad sophistas et cavillatores. Demonstratio est in necessariis argumentis et pertinet ad philosophos. integraliter constituunt. soloecismum. Caput XXX: De ratione disserendi Ratio disserendi integrates partes habet inventionem et iudicium. Quorum idcirco expositionem transeo. id est. differentias. litteram. et Barbarismum. et quia etiam in hoc opusculo. Quaeri potest. Probabilis dividitur in dialecticam et rhetoricam. sophisticam. metaplasma. et Isidorum etymologiarum. syllabam. Priscianum De accentibus et Priscianum De duodecim ver­ sibus Vergilii. ut tantummodo quoddam principium doctrinae lectori con­ deretur. Qui autem haec scire desiderat. quae de utroque iudicare docet. tropos. etymologiam. necesse est ut in compositione omnium specierum eius simul in­ veniantur. probabilem. divisivas vero demonstrationem. divisiones tantum rerum’ et nomina investigare propo­ sui. Scientia indicandi. prosas. historias. A invenção é aquela que ensina a encontrar os argumentos e a compor as argumen­ tações. por exemplo. o gênero "animal" se divide nas es­ pécies “raciona!" e "irracional”. e nas Etimologias de Isidoro.11' 33. A demonstração se dá nos argumentos probantes e perten­ ce ao filósofo. CAPÍTULO 30: A teoria da argumentação A teoria da argumentação possui como partes integrais a in­ venção e 0 juízo. tropos. porque seria mais pro­ lixo de quanto pretende a brevidade destas páginas e também porque neste opúsculo me prefixei de investigar somente as divi­ sões e os nomes das coisas. 125 . glosas. metaplasmos. A argumentação provável pertence aos dialéticos e aos retóricos. esquemas. letra. etimologia. a sofistica”. prosas. Prisciano em De accentibus e Prisciano em De duodecim versi­ bus Vergilii e Barbarismus. cm oposição às "partes divisíveis" nas quais um gênero se subdivide. Quem. pontuação. Podemos perguntar-nos se a invenção e o juízo estão conti­ dos sob a filosofia. Pareceria que não são contidos nem sob a . como. A sofistica é coisa de sofistas e zombadores. A invenção é a procura de argumentos para uma argu­ mentação e 0 juízo é 0 julgamento da verdade ou falsidade da argumentação. acentos. no­ tas.articuladas. Servio. Invenção e juízo estão presetites em todas as subdivisões da teoria da argumentação. sílaba. pés da métrica. solecismos. anomalias. ortografia. de modo que ao estudante leitor seja oferecido somente algum princípio de cultura. é necessário que se encontrem juntas na composição de todas as subdivisões. diferenças. o ra­ ciocínio provável. todavia. Sen­ do que a invenção e o juízo são partes integrais do próprio gêne­ ro. que é a argumentação. barbaris­ mos. As "partes integrais" não são separáveis do todo. fábulas. a demonstração. e as duas possuem como partes integrais a invenção e o juízo. deseja conhecer estas coisas. Vou omitir a exposição destas coisas. A ciência do juízo ensina a julgar sobre argumentos e argumentações. A argumentação provável se divide em dialética e retórica. analogia. metros. e como partes divisíveis. histórias. dê uma lida era Donato. Per dissertivam non continentur. sicut cum dico dialecticam esse scientiam. id est. si scio dialecticam. De omni scientia quae est ars vel disciplina. non autem universaliter dici potest. ''dialectica est scientia. et si scio natare. scientiam habeo. Dici ergo potest has duas voces aequivocas esse ad partes dialecticae et rhetoricae. id est dissertivae. sicut cum dico scientiam habere eum qui scit aliquid. Et universaliter omnis qui aliquid scit. pars sit philo­ sophiae divisiva. ars vel disciplina”. de qua magis videretur contineri. id est. Verbi gratia. sed partes disciplinae. et ideo disciplina dici non possunt. ut duo opposita genera eisdem prorsus constituantur partibus. quod fortassis melius est. quod scientiae inve­ niendi vel iudicandi non convenit. pro aliqua disciplinarum. Est tamen prorsus omnis scientia sive discipli­ na sive quaelibet cognitio pars philosophiae. in quo propositum artis perfecte explicatur. Sub logica non conti­ nentur. cum dico. sci­ entiam habeo. et si scio Socratem esse Sophronisci filium. verum est dice­ re quod sit pars philosophiae divisiva. id est. quia neque per grammaticam neque per dissertivam. dicamus inventio­ nem et iudicium proprie partes esse 126 . neque sub logica. Disciplina autem est scientia quae absolutum finem habet. cogni­ tio”. vel divisiva vel inte­ gralis. Sicque philosophia non omnem scientiam contine­ re videtur. Rursum quaeritur si inventio et indicium eaedem sint par­ tes dialecticae et rhetoricae.theorica. artem vel disciplinam. vel. id est. Sed sciendum quod scientia duobus modis accipi solet. atque aliud cum dico. quod inconveniens videtur. neque sub practica. scien­ tiam habeo. quod omnis scientia quae est cognitio. cum integraliter eam constituant Nulla autem res esse possit simul integralis et divisiva pars eius­ dem generis. et pro qualibet cognitio­ ne. Sed tamen aliud est. neque sub mechanica. “scire quod Socrates est Sophronisci filius est scientia. potest dici scientiam habere. quia neutra per se absoluta est. isto é. por exemplo. por isso. De qualquer ciência que é arte ou disciplina se pode dizer que perfaz uma parte da filosofia. porque ne­ nhuma das duas é independente. isto é. Alguém se pergunta. toda ciência. uma arte ou disci­ plina. Por exemplo. mas antes partes de uma disciplina. digo que alguém que conhece alguma coisa. ou como qualquer conhecimento. de toda pessoa que sabe de alguma coisa pode ser dito que ela tem ciência daquela coisa. teriam um significado diverso e equívoco entre sí como subdivisões da dialética e da retórica. quando digo. uma arte ou disciplina”. que nos parecería a mais apta a incluí-los. portanto. por exemplo. tem ciência daquilo. Isto não é próprio da ciência da invenção e do juízo. tenho ciência.teórica. Não estariam incluídas pela teoria da argumentação por­ que a constituem integralmente. parece que a filosofia não contém todo o saber. mas em geral não se pode dizer que todo saber que é um conheci­ mento perfaz uma parte da filosofia. nem pela gramática nem pela teoria da argumen­ tação. E em geral. Todavia. uma coisa é se digo: “a dialética é uma ciência. Ou. da teoria da argumentação. nem sob a mecánica. se conheço a dialética. o que talvez é me­ lhor. Assim sendo. faz parte da filoso­ fia. um conhecimento”. Não estariam incluí­ dos sob a lógica. e se sei que Sócrates é filho de Sofronisco tenho ciência. nem sob a lógi­ ca. que estas duas palavras. ou como parte divisível ou como parte integral. e se sei nadar tenho ciência. quando. se a invenção e o juízo são tam­ bém subdivisões da dialética e da retórica. isto é. Mas não parece possí­ vel que dois gêneros opostos sejam constituídos de idênticas subdivisões. isto é. Mas se deve saber que a ciência pode ser interpretada de duas maneiras: ou como uma das disciplinas. ainda. digamos que a invenção e o juízo são propriamente partes 127 . Pode-se dizer. in­ venção e juízo. que a dialética é uma ciência. e outra coisa é se digo: "saber que Sócrates é filho de Sofronisco é uma ciência. A disciplina é uma ciência que possui uma meta final inde­ pendente. seja ela disciplina seja um conhecimento qualquer. na qual ela realiza perfeitamente o propósito da arte. Todavia. nem sob a prática. Pois nenhuma coisa poderia ser simultaneamente parte integral e subdivisão de mesmo gênero. não podem ser ditas disciplinas. Quae tamen differentiae per has voces non discernuntur. Rhetorica est disciplina ad persuadendum quaeque idonea. dialectica. sed secun­ dum hoc quod partes sunt generis significantur. Grammatica est scientia loquendi sine vitio.dissertivae et sub his vocibus univocari. 128 . quia per eas non secundum hoc quod species componunt. in inferioribus tamen huius generis quibusdam proprietatibus. dis­ putatio acuta verum a falso distinguens. a se invicem differre. da teoria da argumentação. 129 . Não dá para imaginar estas diferenças nos dois termos. e nesta tem um significado preciso e unívoco. ou seja. se colocados também nas subdivisões inferiores deste gênero. A gramática é a ciência de falar sem erro. invenção e juízo. teriam dois signifi­ cados. equívocos entre si. A retórica é a disciplina para persuadir sobre tudo o que for conveniente. na dialética e retórica. não do fato de constituírem espécies. A dialética é a dis­ puta aguda que distingue o verdadeiro do falso. exatamente porque seu signi­ ficado advém do fato de serem partes integrais de um gênero. mas. Sunt aliae adhuc subdivisiones istarum partium. privatam. logicam. apud Latinos. Theorica dividitur in theologiam. physicam. si gradus computare volueris. sed istae nunc sufficere possunt. Varro. dissertivam. Ex his paucorum no­ mina subter annumerabo. geome­ triam. sophisticam. xxviii reperies. theatricam. Probabilis dividi­ tur in dialecticam. mathema­ ticam. medicinam. Alii incipien­ do. sicque eius­ dem artis plures saepe referuntur auctores. apud Latinos. naviga­ tionem. loannes Scotus de decem categoriis in Deum. Lo­ gica dividitur in grammaticam. Dissertivai dividitur in demonstrationem. rhetoricam. Caput II: De auctoribus artium Theologus apud Graecos Linus fuit. mechanicam. Auctores harum scientiarum diversi leguntur. In his igitur si solum numerum res­ picis. agriculturam. alii perficiendo artes invenerunt. et nostri tempori. Mechanica dividitur in lanificium. alii augendo. 130 . probabilem. venationem. Mathematica dividitur in arithmeticam. Plinius descripsit. armaturam. Physicam naturalem. Thales Milesius unus de septem sapientibus repperit. practicam. invenies xxi. Practica dividitur in solitariam. apud Graecos. In hac divisione solummodo divisivae partes philosophiae continentur. astronomiam.LIBER TERTIUS Caput I: De ordine et modo legendi et disciplina Philosophia dividitur in theoricam. publicam. musicam. segundo a tradição. privada. por enquanto. Destes. podem ser suficientes. No esquema da divi­ são. encontrará o vinte e um. entre os gregos. Os autores destas ciências são vários. mecânica e lógica. A lógica se divide em gramática e arte da argumenta­ ção. outros aperfeiçoando-as. pública. A provável se divide em dialética e retórica. foi Lino. A prática se divide em solitária.LIVRO III CAPÍTULO 1: Ordem e método na leitura e no estudo A filosofia se divide em teórica. mas es­ tas. Os autores das artes Teólogo. matemática. A mecânica se divide em ciên­ cia da lã. prová­ vel e sofistica. astronomia. A arte da argumentação se divide em demonstrativa. Eles desenvolveram as artes. ciência das armas. física. E 0 teólogo do nosso tempo é João Escoto. e entre os latinos foi Plínio a expô-la amplamente. prática. caça. um dos sete sábios. en­ contrará 0 número vinte e oito. uns iniciando-as. teatro. Entre os latinos foi Varro. navegação. CAPÍTULO 2. outros melhoran­ do-as. em suas Dez Catego­ rias sobre Deus. se você olhar apenas o número das disciplinas. se quiser numerar todos os degraus do esquema. medici­ na. de modo que freqüen tem ente são citados vários autores da mesma arte. geometria. enumerarei a seguir os nomes de alguns poucos. A teórica se divide em teologia. Ainda há outras subdivisões destas partes. música. A matemática se divide em aritmética. A física natural foi iniciada entre os gregos por Tales de Mlieto. agricultura. 131 . Nesta divisão estão contidas somente as partes principais da filosofia. sub cuius nomine etiam astrono­ mia invenitur. Apud Latinos primum Apuleius. militaris sua­ vitatis. Nicomachus scrip­ sit. losephus autem asseverat Abraham primum instituisse Aegyptios astrologiam. qui primus tetrachordum instituit.Arithmeticam Samius Pythagoras invenit. cuius auctor apud Graecos optimus Euclides fuit Huius artem transtulit Boethius. Magnus quoque Carthaginiensis in viginti octo vo­ luminibus studium agriculturae conscripsit. Aiunt quidam Nemroth gigantem summum fuisse astrologum. Hesiodus Ascraeus pri­ mus apud Graecos in describendis rebus rusticis studuit. conscripsit. Geometriam apud Aegyptum primum dicunt esse repertam. apud Romanos pri­ mus Cato De agricultura instituit. Astronomiam Ptole­ maeus rex Aegypti reparavit. Ethicae inventor Socrates fuit. et Y ad similitudinem vitae humanae invenit Musicae repertorem Moyses dicit fuisse Tubal. 132 . naturalem scilicet et positivam. Graeci Pythagoram. Mechanica diversos habuit auctores. propter quod etiam caelum sustinuisse fertur. Fronto quoque philosophus scripsit librum Strategematon. id est. vel Zetum. deinde Democritus. id est. deinde Boethius transtulit Hic etiam Pythagoras M aten tetrados fecit. de qua viginti quattuor li­ bros secundum positivam iustitiam scripsit. Deinde Plato disci­ pulus eius libros multos De republica secundum utramque iusti­ tiam. quod deinde Marcus Terenti­ us expolivit. qui ambitum orbis repperit Dicunt quidam quod Cham filius Noe astronomiam primus invenerit Chaldaei primum astrologiam docuerunt. Hic etiam canones instituit quibus cursus astrorum invenitur. Graeci dicunt hanc artem ab Atlante prius excogi­ tatam. alii Mercurium. librum de doc­ trina quadrivii. qui fuit de stirpe Cain. Deinde Tullius in Latino sermone libros De republica ordinavit. secundum nativitatis observantiam. Eratosthenes quoque sagacissimus in geo­ metria. vel Amphionem. alii Linum. Mais tarde Cí­ cero organizou os livros Sobre a república em língua latina. isto é. "e depois dele Democrito. A astronomia. Alguns dizem que o gigante Nemrot foi um astrólogo exímio. Inventor da música foí. a natural e a positiva. e atribuiu à letra Y urna semelhança com a vida humana. Marco Terêncio aperfeiçoou. o cartaginês. em seguida. foi iniciada primeiramente por Cam. Em seguida Platão. e seu melhor expositor entre os gregos foi Euclides. O mesmo Pitágoras escreveu também Matentetradem. filho de Noé. um livro sobre a doutrina do qua­ drivio. que sobre ela escreveu vin­ te e quatro livros acerca da justiça positiva. argumento que. dizem. relacionando-a com 0 instante do nascimento. cuja obra foi tra­ duzida por Doécio. José afirma que foi Abraão o primeiro a formar os egípcios na astrologia. escreveu em vinte e oito livros a arte da agricultura. que mediu a circunferência da terra. sobre a conduta militar. A mecânica teve diversos iniciadores. entre os gregos. isto é. 133 . e ele estabeleceu regras para descobrir os movimentos dos astros”. Os primei­ ros a ensinar a astrologia foram os caldeus. segundo ou­ tros. "Ptolomeu. e por isso conta-se que ele sustentasse o céu”. um certo Tubal. Agudíssimo em geometria foi também Era tóstenes. reor­ ganizou a astronomia. dizem alguns. "Os gregos dizem que esta gência foi ideada primei­ ro por Atlas. rei do Egito. compilou vários livros Sobre a república a respei­ to das duas justiças. A geometria. Mercurio. a saber. como disse Moisés. "Entre os latinos foi traduzida primeiro por Apuleio e depois por Boécio”.A aritmética foi iniciada por Pitágoras de Samo e foi exposta em livros por Nicómaco. para os gregos foi Pitágoras ou. que primeiro iniciou a astronomia. foi o primeiro que se dedicou a descrever os afa­ zeres do campo. Hesiodo de Ascre. Zeto ou Anfiâo. da estirpe de Caim. Também o filósofo Fronto escreveu o livro Strategematon. Mago. ou­ tros citam Lino. foi primeiro descoberta no Egito. e a ele é atribuída também a descoberta da astronomia. discípulo dele. entre os romanos o primeiro a escrever Sobre a agricultura foi Ca­ tão. O inventor da ética foi Sócrates. que foi o primeiro a construir o tetracórdio. lanas colorasse. Daedalus primus mensam et sellam fecit.Vergilius quoque Georgica fecit. Hanc etiam primam telam ordinasse. indeque ludi a Lydis vocati sunt. qui tandem in ea. Tagus in Hispania ritum serendi. Asclepio patre genitus in insula Coo. Ludi a lydis initium sumpsisse adeduntur. Palladius De agricultura. qui postquam fulmine pe­ riit. quem morem Romani imitati sunt. oli­ vae quoque et fabricae inventricem fuisse credunt. et qualiter inde vestimenta fierent. Lanificii usum apud Graecos primam Minervam monstrasse ferunt. Tubal. et ipse post eam fabricam fecisse creditur. Apud Aegyptum autem Isis filia Inachi usum serendi lini repperit. Tunc eam revoca­ vit in lucem Hippocrates. Apicius quidam primus composuit appa­ ratum coquinae. 134 . hanc filius eius Aesculapius laude et opere ampliavit. usque ad tempus Artaxerxis regis. Osiris apud Aegyptum cultum vinearum repperit. Vulcanum pri­ mum fabrum fuisse credunt. Ceres primum in Graecia apud Eleusim usum frumenti invenit. Ab ipsa Dae­ dalus didicit. consumptis bonis. deinde Cornelius et lulius Atti­ cus. ibique inter ce­ teros superstitionum suarum ritus spectacula instituerunt. Navigii usum Pelasgi primi invenerunt. Liber apud Indos. Diu medendi cura intermissa est latuitque per annos paene quingentos. divina autem historia. Similiter lanae usum ibidem ipsa repperit. In Lybia primum usus lanae exortus est a templo Ammonis. Aemilianus sive Columella insignis orator. Medicinae auctor apud Graecos Apollo fuit. morte vo­ luntaria periit. qui ex Asia veni­ entes in Etruria consederunt sub Tyrreno duce. monstravit. Pri­ mus Prometheus ferreo circulo lapidem imprimens usum anuli invenit. accersitis inde artificibus. Isis in Aegypto. qui totum corpus disciplinae huius complexus est. Ninus rex Assyriorum primus bella movit. Pi­ lumnus in Italia usum frumenti et farris et ritum molendi et pin­ sendi. Vitruvius quoque De architec­ tura. e se crê que ele. que depois morreu na queda de um raio. Por longo tempo a ciência da medi­ cina foi abandonada e ficou na sombra durante quase quinhentos anos. na Espanha. depois dela. Crê-se que Vulcano foi o primeiro fabro. a inventar a oliveira e a construção. trouxe-a de novo em evidência. insigne orador que tratou todos os campos desta disciplina”. na Itália. rei dos assírios. introduziu o uso do trigo. engendrado pelo pai Asclépio na ilha de Coo. Emiliano e também Columela. Acredita-se que os espetáculos públicos iniciaram com os lídios. foi ensinada aos gregos por Minerva. Prometeu foi o primeiro que inventou o uso do anel. 135 .Também Virgílio escreveu as Geórgicas. filha de Ináquio. Entre os egípcios foi Osíris que descobriu o cultivo da uva. Ceres foi a primeira na Grécia a descobrir o uso do trigo. o primeiro uso da lã adveio do templo de Amonio. cujo filho Esculapio. montou uma ofici­ na. 05 quais vieram da Ásia e se estabeleceram na Etrúria sob 0 comando de Tirreno. enquanto Tago. instituíram os espetáculos teatrais. Igualmente. E aí Hipócrates. e entre os indianos foi Libero. da aveia e 0 método de moer e de pilar. e no Egito foi ísis. foi ela que descobriu lá o uso da lã. A arte da fabricação de lã. O primeiro a mover guerras foi Nino. Por isso os ludos foram chamados assim do nome dos lídios. O uso dos. até o tempo do rei Artaxerxes. que também foi a primeira a montar o tear. Déda­ lo foi o primeiro a fazer a mesa e a cadeira. Na Líbia. após ter co­ mido todas as iguarias. morreu de morte voluntária. in­ troduziu 0 método de semear. Discípulo dela foi Dédalo. e depois dele vieram Cornélio e Júlio Ático. enobreceu esta ciência com mérito e dedicação. Vitrüvio escreveu Sobre a arquitetura e Paládio Sobre a agricultura. Piluno. e lá. Um certo Apício foi o primeiro a compor o receituário da cozinha e nela. que descobriu a arte de te­ cer 0 linho e mostrou como fazer roupas com ele. conforme se conta. entre outras cerimônias das suas su­ perstições. costume que os romanos imitaram chamando os artistas de lá.navios foi introduzido inicialmente pelos pelágios. O iniciador da medicina entre os gregos foi Apoio. No Egito foi ísis. mas a Escritura Sagrada diz que foi Tuba!. inserindo uma pedra sobre um círculo de ferro. a colorir a lã. sicque dialecticam excogitavit. post quem Pherecydes hisdem temporibus claruit quibus Esdras legem scripsit”®". quam postea Aristoteles. 13G . Aegyptus mater est artium. Post Daretem. mariti Isidis. Aegyptio­ rum litteras Isis invenit. ibique perceptis liberalibus studiis. quae proprio nomine Nicostrata vocabatur.42.Is. In ea quoque dialectica primum inventa e. Postea Cicero Topica invenit. Haec ab Aristo­ tele et Gorgia et Hermagora in Graeco scripta est. mater Evandri. Fa­ bulas primum invenisse creditur Alemon Crotoniensis. Isidorus. in Graecia Herodotus historicus primus habitus est.st a Parmenide. septem specialiter discreverant antiqui in studiis suis ad opus erudien­ dorum. Graecorum. coadunatis discipulis. deinde in Itali­ am venerunt. De­ mosthenes. Tisias apud Latinos. villam suam. apud Graecos rhetoricae repertor credi­ tur. translata in Latinum a Tullio. inde in Graeciam. et apud Aca­ demiam. unde et rupes Parmenidis appellata est. Latinas litteras repperit '"Divinam historiam primus Moyses scripsit. perfecit et in artem redegit. quas Cadmus a Phoenice in Graeciam attulit. Remigius cie Auxerre. discipulus eius. quam in foliis palmarum ab eo scriptam esse ferunt. Athenas rediit. philosophiae studiis operam dedit”®^ Hic primum logicam rationalem Graecis institu­ it. Phoenices. Marcus Terentius Varro primus dialecticam de Graeco in Latinum transtulit. Caput 111: Quae artes praecipue legendae sint Ex his autem omnibus scientiis supra enumeratis. fabri filius. Commentum in Martianum Capellam 4. qui civitates et coetus hominum fugiens in rupe con­ sedit non modico tempore. Etymologiae 1. 50. "Plato autem post mortem Socratis magistri sui amore sapientiae Aegyptum demigravit. Apud gentiles primus Dares Phrygius Troianam historiam edidit. Corax apud Syracusas. Carmentis. 51.Litterae Hebraeorum a Moyse per legem initium sumpsisse creduntur. Quintiliano et Titiano. In ea primum grammatica reperta est tempore Osi­ ris.2. Chaldaeorum et Syrorum per Abraham. ampliavit. foi escrita por ele em folhas de palmas. conforme a tradição. nos tempos de Osíris. O dos caldeus e dos sírios com Abraão. Crê-se que Alcmone de Crotão foi o primeiro a inventar as fábulas. Quintiliano e Ticiano. aperfeiçoou e organizou como ciência. que era a casa dele. entre os síracusanos Corace. 137 . iniciou com Moi­ sés na Lei. na Grécia foi Heródoto a ser considerado o primeiro his­ toriador. foi inventada pela primeira vez a gramática. Depois de Darete. discí­ pulo dele. fsis inventou o alfabeto dos egípcios. Moisés foi o primeiro a escrever uma história divina. dedicou-se aos estudos da filosofia”. onde. CAPÍTULO 3: Quais artes devem ser lidas principalmente De todas estas ciências acima enumeradas. na mesma época em que Esdras escreveu a Lei. após ter aprendido as artes liberais. mãe de Evandro. ampliou. No Egito. tendo reunido os discípulos na Academia. por sua vez. que. os antigos destaca­ ram de modo especial sete delas em seus programas de ensino. trouxe para a Grécia. O pri­ meiro a traduzir a dialética do grego para o latim foi Marco Terêncio Varro. que de lá vieram para a Grécia e depois para a Itália. após a morte do seu mestre Sócra­ tes. os fenicios inventaram o alfabeto grego. Diz-se que 0 inventor da retórica entre os gregos foi Demóstenes. e depois dele brilhou Ferécide. Carmenta. vindo da Fenicia. foi morar por longo tempo sobre um rochedo. que. A retórica. como contam. entre os latinos Tisia. filho de um fabro. Entre os pagãos. inventou 0 alfabeto latino. Em seguida. que Cadmo. de modo que aquele rochedo foi chamado rochedo de Parmê­ nides. Górgias e Hermágoras.0 alfabeto hebraico. voltou a Atenas. Também lá foi inventada pela primeira vez a dialética por obra de Parmênides. marido de ísis. escrita em grego por Aristóteles. O Egito é a mãe das artes. Como primeira coisa ele en­ sinou aos gregos a lógica racional. fugindo das cidades e do convívio dos homens. movido pelo amor da sabedoria. “Platão. emigrou para o Egito. foi traduzida para o latim por Túlio. cujo verdadeiro nome era Nicóstrata. foi o frigio Darete a escrever a história de Tróia. que depois Aristóteles. Cícero elaborou os Tópicos. e assim excogitou a dialéti­ ca. e de lá. ad ali­ arum notitiam postea inquirendo magis et exercendo quam au­ diendo perveniret. lectori breviter demonstrabo. et id­ circo multos studentes. Sunt enim quasi optima quaedam instrumen­ ta et rudimenta quibus via paratur animo ad plenam philosophi­ cae veritatis notitiam. secundum numerum videlicet septem liberali-^ um artium. Malum est bonum negligenter agere. ut us­ que ad septenium. Has septem tanto studio quidam didicisse leguntur. Hinc profecto accidit tot eo tempore fuisse sapientes ut plura ipsi scri­ berent quam nos legere possimus. paucos sapientes invenimus. ac deinde de modo quoque discendi pauca adnectam. sicque iam per semetipsum ratio­ nem eorum posset invenire. Scholares vero nostri aut no­ lunt aut nesciunt modum congruum in discendo servare. ut intelligant quid sibi expediat. eo quod his. ut. ex his regulas et rationes ad definiendum id de quo ambigeretur folia librorum revolvendo non quaererent. 138 . sed fidem dare verbis magistri quousque omnia audivisset. ut plane omnes ita in memoria tenerent. Nemo tunc temporis nomine magistri dignus videbatur. nullus discipulorum suorum de his quae ab ipso di­ cebantur rationem poscere auderet. quae scripturae mihi utiliores videan­ tur. Mihi videtur non minori cura providendum esse lectori. idcirco. qui non harum septem scientiam profiteri posset. quascunque scripturas dein­ de ad manum sumpsissent. quascumque quaestiones solvendas aut comprobandas proposuissent. Pythagoras quo­ que hanc in studiis suis consuetudinem servasse legitur. sed statim singula corde parata haberent. quasi quibusdamm viis. ut. vivax animus ad secreta sophiae introeat. peius est in vanum labores multos expendere. quisquis harum disciplinam firmiter percepisset.in quibus tantam utilitatem esse prae ceteris omnibus perspexe­ runt. ne in studiis inutilibus operam suam expendat quam ne in bono et utili proposito tepidus remaneat. Hinc trivium et quadrivium nomen acce­ pit. Sed quia non omnes hanc discretionem habere possunt. 139 . nenhum dos seus discípulos ousasse fazer perguntas so­ bre as coisas que eram proferidas por ele. tal que. mas poucos sábios. como se fosse por algumas vias. se não conseguisse mostrar o co­ nhecimento destas sete ciências. por esta razão indicarei breve­ mente ao estudante os escritos que nie parecem mais úteis. a partir destas^ete ciências. Conta-se que Pitágoras manti­ vesse em seus cursos um certo costume. dado que nem todos possuem este discernimento para en­ tender 0 que lhes é proveitoso. Mas os nos­ sos alunos ou não querem ou não sabem manter um método adequado de aprendizagem. até terminar os sete anos. que eles es­ creviam mais livros de quantos nós poderiamos ler. De alguns se diz que aprenderam estas sete ciências com tanta aplicação que as tinham todas claramente na memória. nem precisavam folhear as páginas dos livros. correspondentes exatamente ao número das sete artes liberais. Elas são como instrumentos ótimos e ti­ rocinios pelos quais ao espírito é preparada a via para o pleno co­ nhecimento da verdade filosófica. pois por elas. mas o discípulo dava crédito às palavras do mestre até ouvir tudo. Mas. qualquer texto que tomassem. Por esta razão se chamaram "trivio” e "quadrivio”. depois. qualquer um que adquirisse firmemente o conhecimento de­ las. as regras e os fundamentos para definir aquilo que era controvertido. de modo que. e assim. qualquer questão que propusessem para ser resolvida ou provada. tinham imediatamen­ te prontas na memória. 0 espírito vivo penetra nos segredos da Sabedoria. Parece-me que o estudante não deve tomar menos cuidado em não gastar tempo em estudos inúteis quanto em ficar desin­ teressado diante de um objetivo bom e útil. que. e de­ pois acrescentarei algo também sobre o modo de aprender. pu­ desse descobrir sozinho o fundamento daquelas palavras.Nelas viram tanta utilidade em comparação com todas as outras. era considerado digno de ser chamado pelo nome de mestre. Por esta razão aconte­ ce que naqueles tempos o número de sábios era tal. em tempos antigos. É mal fazer o bem com negligência. chegaria ao conhecimento das outras mais pesquisando e pra­ ticando do que ouvindo. Ninguém. e por isso encontramos muitos es­ tudantes. mas é pior gastar muitas energias inutilmente. Secundum est earum quae sunt appendicia artium. qui et brevem materiam longis verborum ambagibus extendere con­ sueverunt et facilem sensum perplexis sermonibus obscurare. ut ille ait: '‘Lenta salix quantum pallenti cedit olivae. et didascalica quaedam. Eclogae 5. illa sine artibus nihil perfectionis conferre valent maxi­ me cum 52. Duo sunt artes et appendicia arti­ um. ut non dicam infinitam. id est quae ali­ quam certam et determinatam partem philosophiae materiam habent ut est grammatica. fabulae quoque et historiae. satirae.Caput IV: De duobus generibus scripturarum Duo sunt genera scripturarum. Vergilius. comoediae. illo­ rum etiam scripta quos nunc philosophos appellare solemus.16. Aliquando tamen quaedam ab artibus discerpta sparsim et con­ fuse attingunt vel si simplex narratio est viam ad philosophiam praeparant Huiusmodi sunt omnia poetarum carmina. Primum genus est earum quae propriae artes appellantur. Vel etiam diversa simul compilantes. et ceterae huiusmodi. Denique artes sine appendiciis suis perfectum facere lectorem possunt. Appendentia artium sunt quae tantum ad philosophiam spec­ tant id est quae in aliqua extra philosophiam materia versantur. Sed inter haec tanta mihi distanctia esse videtur. heroica quoque et lyrica. et iam­ bica. ut sunt tragoediae. unam picturam facere. Puniceis humilis quantum saliunca rosei is Ita ut quicumque ad scientiam pertingere cupit si relicta ve­ ritate artium reliquis se implicare voluerit materiam laboris. Artes sunt quae philosophiae supponuntur. quasi de multis coloribus et formis. Nota quae tibi distinxi. 140 . dialectica. plurimam inveniat et fructum exiguum. todavia. são como quem. mas os complemen­ tos. e também os escritos daquelas pessoas que nestes nossos tempos costumamos chamar filósofos. sátiras. comédias. ainda. não conseguem conferir nenhum grau de per­ feição. isto é. escritos heróicos e líricos. porém. A primeira abrange os escri­ tos que se chamam propriamente artes. tais como tragédias. as artes. se a exposição é dara. pondo junto cqjsas diversas. Estes tais. mas. sobretudo considerando-se que estes complementos UI . De modo que. que assim foi resumida {por Virgílio): "Tanto quanto o salgueiro dobrável ê inferior à verde oliveira Tanto quanto o humilde nardo é inferior aos roseirais pú­ nicos’’. preparam a via para a fi­ losofia. Tome nota da distinção que fiz para você: há duas coisas. versos iâmbicos e algumas obras didáticas. A esta categoria pertencem todas as composições dos poetas. as ar­ tes e os complementos das artes. assim como fábulas e histórias. As artes são aquelas que estão subordinadas à filosofia. de muitas cores e formas. sem seus com­ plementos. mas considerável. podem levar o leitor à perfeição. costumam alongar uma matéria breve cm longas contro­ vérsias de palavras e obscurecer com palavras obscuras um sen­ tido fácil. A segunda categoria é a dos escritos que são complementos das artes. Mas a distância entre estes dois gêneros parece-me tanta. Às vezes. Complementos das artes são aqueles escritos que apenas se relacionam com a filosofia. sem as artes. encontraria uma mole de fadiga. quisesse envolver-se em outros estudos. aquelas que têm como conteúdo alguma divisão certa e deter­ minada da filosofia. deixa­ da de lado a verdade das artes. que tratam de algum conteúdo fora da filosofia. Enfim. como é o caso da gramática. da dialética e coisas parecidas. faz uma pintura. os quais. com fruto exíguo. isto é. quem desejasse alcançar a ciência.CAPÍTULO 4: Os dois tipos de escritos Há duas categorias de escritos. não digo infinita. estes escri­ tos tocam esparsamente e confusamente algumas questões tira­ das das artes ou. et raritas pretiosum facit bonum. et. Sic in medio fabulae cursu inventam sententiam avidius aliquando retinemus. quem summo­ pere vitare oportet Sunt enim quidam. maxime his septem quas prae­ dixi. in his se posse fieri per­ fectos putant Caput V: Unicuique arti quod suum est tribuendum esse Est rursum alius error non multo minor isto. legantur. neque quisquam in eis quaerat nisi quod artium est Quapropter mihi videtur primum operam dandam esse artibus ubi fundamenta sunt omnium. qui licet ex his quae legenda sunt nihil praetermittant. quia aliquando plus delectare solent seriis admixta ludicra. in dialectica inflexiones casuales inquirunt. si vacat. quae prae ceteris omnitus ad manum ha­ bendae sunt utpote sine quibus nihil solet aut potest disciplina philosophica explicare et definire. tales omnibus apparerent! 142 . Sed utinam quales mihi. quae totius philosophiae instrumenta sunt Deinde cetera quoque. et “incipit" tertia vix lectione expediunt Non alios docent huiusmodi. nulli tamen arti quod suum est tribuere norunt sed in singulis legunt omnes. in titulo totum paene legunt li­ brum. In grammatica de syllogismorum ratione disputant. Hae quidem ita sibi cohaerent et alternis vicissim rationibus indigent. ut si vel una defuerit.nihil in se expetendum habeant unde lectorem invitent nisi tra­ ductum ab artibus et accommodatum. et pura simplexque veritas aperitur. Verumtamen in septem liberalibus'artibus fundamentum est omnis doctrinae. et quod magis irrisione dignum est. ceteris intactis. ce­ terae philosophum facere non possunt Unde mihi errare viden­ tur qui non attendentes talem in artibus cohaerentiam quasdam sibi ex ipsis eligunt. sed ostentant suam scientiam. parece-me que erram quantos. CAPÍTULO 5: A cada arte deve ser atribuída a sua função Existe ainda um outro erro não menor que este. que. mas em cada uma delas misturam todas. leiam-se também os ou­ tros escritos. parece-me que. como aquelas sem as quais a disciplina filosófica nada costu­ ma ou pode explicar e definir. onde estão os fundamentos de todos os campos do saber e onde se manifesta a verdade pura e simples. Depois disso. Às vezes gravamos com maior interesse uma frase. acham que nestas podem tornar-se perfeitos. Por isso. Oxalá a todos aparecessem como aparecem a miml 143 . e. para explicar o título de um tratado lêem quase todo o livro e na terceira lição mal chegaram a explicar o indpíí ou palavras iniciais. se apenas uma faltar. sobrando um tempo. deixando as outras intocadas. devem estar à mão. embora nada deixem de quanto deve ser lido. quando é encontrada dentro do conto de uma fábula. o que é mais risível. não ensinam os outros. é necessário dedicar-se às artes. e que preci­ sa evitar a todo custo. mais que as outras. e a raridade torna precioso o bom. sobretudo às sete acima mencionadas que são os instrumentos de toda a filosofia. quando misturadas com as jocosas. pois às vezes as coisas sérias. Há pessoas que. mas ostentam sua pró­ pria ciência. Na verdade. porém. as quais.nada possuem de desejável e convidativo para o leitor senão algo tirado e adaptado das artes. na dialética pesquisam as inflexões dos casos. o fundamento de todo o saber está nas sete artes liberais. escolhem para si algumas delas e. não levando em conta esta co­ nexão nas artes. Elas estão tão conexas entre si e ne­ cessitam tanto dos fundamentos recíprocos uma da outra. Por isso. antes de tudo. e neles a pessoa não procura outra coisa senão algo que tenha a ver com as artes. Na gramática discutem da teoria dos si­ logismos. agradam mais. as outras não podem criar um filósofo. não sabem atribuir a cada arte o que lhe é próprio. Desta forma. et quid unius­ cuiusque sit proprium agnoveris disputando et conferendo. qualiter oporteat de ipsa arte agere. 144 . Distingue haec duo. Duo sunt. et agere grammatice. age­ re per artem.Attende quam perversa sit haec consuetudo. agere de arte. tanto minus ea quae utilia sunt capere possis ve! retinere. primum. Servio convenit. De grammatica agit. ut est agere grammatice. Donato. agere de arte. Non omnia dicenda sunt quae dicere possumus. qui regulas de vocibus datas et praecepta ad hanc artem pertinentia tractat Grammatice agit omnis qui regulariter loquitur vel scri­ bit. Deinde cum legeris artes. ut Prisciano. omnibus. age­ re de grammatica. sufficere debet id de quo agitur quantum bre­ vius et apertius potest explanare. ne minus utili­ ter dicantur ea quae dicere debemos. et ex alter­ na consideratione vicissim quae minus prius Intellexeras investi­ gare. magis turbemus quam aedificemus lectorem. Cum igitur de qualibet arte agimus. Id tandem in unaquaque arte quaeras quod ad eam speciali­ ter pertinere constiterit. tunc demum rationes singularum invicem conferre licebit. ne si alienas nimium rationes multiplicaverimus. et agere per ar­ tem. ubi omnia ad compendium restringenda sunt et ad facilem intelligentiam evocanda. Securus discurres cum errare non timueris. In qualibet igitur arte duo nobis maxime discernenda sunt et distinguenda. agere vero gramma­ tice. maxime in docendo. qualiter oporteat ipsius artis rationes quibuslibet ali­ is rebus accommodare. Agere igitur de grammatica quibusdam tantummodo scrip­ turis. Verbi gratia. Noli multiplicare diverticula quoadusque semitas didiceris. secundum. ut est agere de grammatica. cum profecto quan­ to magis superflua aggregaveris. ao mul­ tiplicarmos as explicações não pertinentes. tanto menos po­ derá compreender e reter as coisas úteis. primeiro. quando a ensinamos. mediante discussão e comparação. desta consideração comparativa e recíproca. para evitar que. quanto mais você acumula as coisas supérfluas. Você estará seguro nas discussões quando não tiver medo de errar. tratar da gramática e agir gramaticalmente. aquilo que é próprio de uma. mas agir segundo a gramática é tarefa de todos. portanto. Não queira multiplicar os atalhos antes de ter conhecido as estradas. investigar aquelas coisas que anteriormente você tinha entendido menos. lidamos com qualquer ciência. como deve ser tratada uma ciência determinada. e atuar através de uma arte é como falar gramaticalmen­ te correto. Quando. turbemos o estudan­ te ao invés de edificá-lo. tudo deve ser resumido sintética­ mente e exposto de maneira a ser facilmente compreendido. Donato e Servio. aí finalmente será lícito comparar reciprocamente os fundamentos das ciências singulares e. para que não seja dito de modo menos aproveitável aquilo que devemos dizer. Em suma. e. Procure em cada ciência somente aquilo que consta perten­ cer especificamente a ela. como os fundamentos desta ciência podem ser adaptados a qualquer outro campo. Distinga estas duas coisas. de­ vendo bastar uma exposição quanto iqaís breve e rigorosa possí­ vel sobre aquilo que está sendo tratado. Em qualquer ciência. Tratar da gramática é tarefa somen­ te de alguns escritos. tratar de uma ciência é como tratar da gra­ mática. mas. Trata da gramática aquele que se ocupa das regras estabelecidas acerca das palavras e dos preceitos perti­ nentes a esta ciência. so­ bretudo. Por exemplo. Não deve ser dito tudo aquilo que pode­ mos dizer. duas coisas. devemos discernir e distin­ guir. como Prisciano. portanto. quando você estiver lendo as ciências e tiver conhecido.Repare quão perverso é este costume. Atua gramaticalmente qualquer um que escreve e fala corretamente. 145 . sobretudo. segundo. Te­ mos duas coisas: tratar de uma ciência e atuar através de uma ciência. considerando-se que. Unde satis ele­ ganter a quodam dictum est: “Volo tandem tibi parcas. et temperato acuitur exercitio. labor est in chartis. curre per aera". Duo sunt quae ingenium exercent: lectio et meditatio Lec­ tio est. Ingenium est vis quaedam naturaliter animo insita per se va­ lens. ut si desit alterum. discentis. In natura consideratur ut facile audita percipiat et percep­ ta firmiter retineat. in exercitio. Ingenium a natura proficiscitur. et "lego librum”. In lectione maxime consideran­ da sunt ordo et modus. Caput VII: Hoc ad naturam de ingenio Qui doctrinae operam dant. disci­ plina. sicut nulla prodesse possunt lucra ubi deest custodia. ingenio simul et memoria polle­ re debent. ut laudabiliter vivens mores cum scientia componat De his tribus per singula modo introductionis pauca pers­ tringemus. 146 . Trimodum est lectionis genus: docentis. et incassum receptacula munit qui quod recondat non habuerit Ingenium invenit et memoria custodit sapientiam. cum ex his quae scripta sunt.Caput VI. neminem alterum ad perfectum ducere possit. ut labore et sedulitate natura­ lem sensum excolat. immoderato labore retunditur. regulis et praeceptis infor­ mamur. in disciplina. vel per se inspicientis. quae duo in omni studio et disciplina ita sibi cohae­ rent. Quid sit necessarium studio Tria sunt studentibus necessaria: natura. exercitium. Dicimus enim “lego librum illi’’. usu iuvatur. et "lego li­ brum ab illo". da mesma forma que os lucros servem para nada se faltar o armazenamen­ to e inutilmente constrói armazéns aquele que tem nada para guardar. 2) do discente e 3) do autodidata. Na leitura devem ser tidos em máxima consideração a ordem e o método. sobre cada uma destas três coisas. harmonize a con­ duta com o saber. O exercício. vivendo em modo louvável.CAPÍTULO 6:0 que c necessário ao estudo Três coisas são necessárias aos estudantes: 1) as qualidades naturais. para que entenda facilmente aquilo que ouve e memorize firme­ mente aquilo que entendeu. ■Œ' O exercício do engenho se dá mediante duas atividades: a lei­ tura e a meditação. “Quero que você se poupe. corra pelo ar livre". nas páginas do livro há traba­ lho. O engenho nasce da natureza. Na leitura. à maneira de introdu­ ção. O engenho descobre e a memória custodia a Sabedoria. fica­ mos formados nas regras e nos preceitos. para que eduque as qualidades naturais mediante o trabalho e a persistência. De fato. a partir de quanto foi escrito. se aguça com o exercício moderado. coisas que em qual­ quer estudo ou disciplina estão tão conexas que. A dis­ ciplina. CAPÍTULO 7: O engenho natural Aqueles que se dedicam ao saber teórico devem dispor de inteligência e de memória ao mesmo tempo. 2) o exercício e 3) a disciplina. nós dizemos “leio um livro para ele” e “leio um livro apresentado por ele" e “leio um livro”. para que. Diremos brevemente poucas palavras. E há três tipos de leitu­ ra: 1) do docente. 147 . As qualidades naturais. O engenho é uma certa força ínsita"naturalmente na alma e com capacidade própria. se uma faltar. elegantemente foi dito por al­ guém. Por isso. se idiotiza com o trabalho desmedido. a outra não pode conduzir ninguém para a perfeição. melhora com 0 uso. quae duplex est. In his ordo est. et ad infinita usque progredi­ tur. sententiam. Doctrina autem ab his quae magis nota sunt incipit. quam littera prima fronte praefert. id est. quae est in continua serie. alius in expositione. Litte­ ra est congrua ordinatio dictionum. Ordo in disciplinis attenditur secundum naturam. quando ab universalibus ad particularia descendimus divi­ dendo et singulorum naturas investigando. deinde sen­ tentia inquiratur. ut primum littera. litteram. vide­ licet. in narra­ tione secundum dispositionem. 148 . ut si dixero Catilinarium Jugurthino priorem. quando id quod postea gestum est prius narratur. et quod prius. Caput IX: De modo legendi Modus legendi in dividendo constat Omnis divisio incidit a finitis. ali­ us in narratione. postmodum dicitur. Sensus est facilis quaedam et aperta significatio. Quo facto. perfecta est expositio. sensum. et per eorum notitiam ad scientiam eorum quae latent pertingit Praeterea ratione investigamus. Omne autem finitummagis notum est et scientia compre­ hensibile.Caput VIII: De ordine legendi Ordo consideratur alius in disciplinis. deinde sensus. alius in libris. in expositione consideratur ordo se­ cundum inquisitionem. quando res eo refertur ordine quo gesta est. quod etiam constructionem vocamus. Sententia est profundior intelligentia. Expositio tria continet. ut si dixerim gramma­ ticam dialectica antiquiorem vel arithmeticam priorem musica. naturalis. Omne namque uni­ versale magis est determinatum suis particularibus. ad quam proprie pertinet divi­ dere. quae nisi expositione vel interpretatione non inveni­ tur. in libris secundum personam auctoris vel sublectam materiam. et artificialis. o pensamento. O pensamento é um entendimento mais profundo que não se descobre senão pela exposição ou pela interpretação. Na narração. Isto feito. Na exposição de um texto. quando descemos dos univer­ sais para os particulares dividindo e investigando a natureza de cada coisa. à qual é próprio dividir. Tudo aquilo que é finito é mais conhecido e mais compre­ ensível pela ciência. e artificial. que consiste numa concatenação contínua. depois o pensamento. a ordem obedece a níveis de inquisição. quando a coisa é referida segundo a ordem em que aconteceu. este contém três níveis: a frase. Além disso. Com efeito. quando aquilo que aconteceu depois é narrado antes e aquilo que é anterior é falado depois. 149 . Aqui a ordem consiste em inquirir primeiro a frase. chega ao conheci­ mento das coisas ocultas. A frase é a organi­ zação apropriada das palavras que chamamos também constru­ ção da frase. ou na exposição de textos. nas disciplinas. isto é. ou na narração. Quanto à exposição de um texto. é observada dependendo da nature­ za da disciplina. nós investigamos com a razão. Toda divisão começa das coisas finitas e progride até as infi­ nitas.CAPÍTULO 8: A ordem na leitura A ordem é observada ou nas disciplinas. segundo a pessoa do autor ou da ma­ téria tratada. isto é. a exposi­ ção é perfeita. depois o sentido. CAPÍTULO 9: Do modo de 1er O modo de 1er consiste em dividir. de acordo com a disposição. que é du­ pla: natural. ou nos livros. A ordem. como se dissesse que a gramática é mais antiga que a dialética e a aritmética vem antes da música. todo universal é mais determinado que seus particulares. O sentido é o significado fácil e acessível que a fra­ se apresenta à primeira vista. Nos livros. com efeito. A aprendizagem começa das coisas que são mais notas e. pelo conhecimento delas. como quando digo que a Conjura de Ca­ tilina precede a Guerra lugurtina. o sentido. Principium ergo doctrinae est in lectione. aliud praecipiens. quanta sint admiratione digna. ubi liberam contemplandae veritati aci­ em affigat.Cumque iam per ea quae facta sunt eum qui fecit omnia quaerere didicerit et intelligere. modum et utilitatem uniuscuiusque rei prudenter investigat. aliud in scrutatione mandatorum. Meditatio principium sumit a lectione. et nunc has. sicque paulatim des­ cendendo. Delectatur enim quodam aperto decurrere spatio. aliud promittens. Unum constat in circumspec­ tione morum. tertium in in­ vestigatione divinorum operum. iucundam valde reddit vitam. Quae omnia. nullis tamen stringi­ tur regulis aut praeceptis lectionis. tanto magis quisque novit. Opus Dei est. quae animam a terrenorum actuum strepitu segregat. ab his incipere debemus quae magis sunt nota et determinata et complectentia. nihil obs­ curum relinquere.Quando ergo discimus. Ea enim maxime est. unde fit ut maximum in meditatione sit oblectamentum. consummatio in meditatione. ISO . tunc animum pariter et scientia erudit et laetitia perfundit. Mandatum divinum. et quod cooperatur gratia. nihil anceps. et in hac vita etiam aeternae quietis dulcedinem quodammodo praegusta­ re facit. nunc autem profunda quaeque penetrare. Tria sunt genera meditationis. quanto attentius Dei mirabilia meditari consuevit. et quod creat potentia. et maximam in tribulatione praestat consolationem. Mores sunt in vitiis et virtuti bus. ali­ ud terrens. quae causam et originem. nunc illas rerum causas perstringere. et per divisionem singula distinguendo. Caput X: De meditatione Meditatio est cogitatio frequens cum consilio. quam si quis familiarius amare didicerit eique sae­ pius vacare voluerit. et quod mode­ ratur sapientia. eorum quae continentur naturam investigare. so­ bretudo. O início da aprendizagem está na leitura. É obra de Deus seja aquilo que a sua potência cria. O mandamento divino é ora preceptivo. ora promitente. . Ela é. tanto mais sabe-o o homem. faz antegozar já nesta vida a doçu­ ra da paz eterna. nada obscuro. o fim na medita­ ção. ela lhe torna a vida muito jucunda. 0 terceiro na investigação das obras divinas. l:^ k ÍÍ-. r. onde fixa o livre olhar para a verdade a ser contemplada. 151 iíí-. de quanta admiração elas sejam dignas. após ter aprendíclo a querer e entender. aquela que afasta a alma do estrépito dos afazeres ter­ renos. e deleita-se em examinar ora estas ora aquelas causas. ela inunda o es­ pírito igualmente de ciência e de alegria. investigar a natureza das coisas aí contidas. e na tribulação oferece uma grandíssima consolação. mas não se amarra a ne­ nhuma regra ou prescrição da leitura. o segundo no conhecimento minucioso dos manda­ mentos. Ela se deleita em correr pela campina aberta. seja aquilo que a sua Sapiência guia. ora aterrador. CAPÍTULO 10: A meditação A meditação é um pensar freqüente com discernimento. devemos começar pelas coi­ sas que são mais conhecidas. e. aprendemos. seja aquilo que a sua graça reforça.Quando. A meditação começa com a leitura. quanto mais atentamente acostu­ mou-se a meditar as obras admirandas de Deus. de maneira que na me­ ditação aconteça o máximo de deleite. e ela investiga prudentemente a causa e a origem. pe­ las coisas que foram feitas. em penetrar as coisas profundas. E. descendo aos poucos e distinguindo pela divisão as coisas singu­ lares. em deixar nada ambí­ guo. portanto. determinadas e abrangentes. A conduta consiste nos vícios e nas virtudes. O primeiro consiste no exame da conduta. em certo qual modo. o gênero e a uti­ lidade de cada coisa. Todas estas coisas. 1h •? r 1 Há três tipos de meditação. Aquele que fez tudo. e se alguém aprender a amá-la com mais intimidade e dedi­ car-se a ela com mais afinco. e aí. Habet namque omnis tractatio aliquod principium. Hoc quaerere et considerare colligere est. quae discendo divisimus. Alioquin nec legere multum prodest. cui tota rei veritas et vis sententiae innititur. Unde rogo té. Oportet ergo ut. Qua­ re superius me dixisse recolo eos qui doctrinae operam dant in­ genio et memoria indigere. reliqua deriventur. Hoc etiam saepe replicare et de ventre memoriae ad palatum revoca­ re necesse est. et ad ipsum cuncta alia referuntur. Caput XII: De disciplina Sapiens quidam cum de modo et forma discendi interroga­ retur: 152 . quod sicut ingenium dividendo investigat et invenit. quod in arcula memoriae reconda­ tur. ita memoria colligendo custodit. commendanda memoriae colligamus. Hoc idcirco dico. quoniam memoria hominis hebes est et brevitate gaudet.Caput XI: De memoria De memoria hoc maxime in praesenti praetermittendum non esse existimo. Unus fons est et multi rivuli. Debemus ergo in omni doctrina bre­ ve aliquid et certum colligere. sed si multa intellexeris nec tantum intellexeris sed retinere po­ tueris. Colligere est ea de quibus prolixius vel scriptum vel disputatum est ad brevem quandam et compendio­ sam summam redigere. ne longa intermissione obsoleat. brevis recapitulatio supradictorum appellata est. si in multa di­ viditur. quae a maioribus epilogus. quid anfractus fluminum se­ queris? Tene fontem et totum habes. et. ne nimium laeteris si multa legeris. unde postmodum. nec intelligere. id est. fit minor in singulis. cum res exigit. o lector. Afirmo que a me­ mória do homem é fraca e gosta de brevidade. e não somente entender mas poder memorizar. em seguida. uma breve recapitulação das coisas ditas antes. a ser deposi­ tado no arquivo da memória.CAPÍTULO 11: A memória Sobre a memória. e a ele todas as outras coisas se referem. CAPÍTULO 12: A disciplina moral Um certo sàbio foi interrogado sobre o modo e a forma de aprender: 153 . sobre o qual toda a verdade da coisa e a força da argumentação se baseiam. mas por entender muitas coi­ sas. isto é. Do contrá­ rio. Por isso. redigir em cada doutrina algo breve e certo. considero agora que não pode ser esque­ cido isto: como o engenho investiga e descobre. não adianta 1er muito nem entender muito. dividindo. do ventre da memória. ser cha­ mado de volta para o paladar. por­ tanto. estudante. Este resumo deve também ser revisitado freqüentemente e. aquilo que dividimos aprendendo. aconselho a você. Resumir sig­ nifica reduzir aquilo do qual foi falado ou escrito prolixamente para uma compilação breve e compendiosa que os antigos cha­ mavam epílogo. portanto. as outras coisas derivem. a não alegrar-se ex­ cessivamente por 1er muitas coisas. Devemos. quando for necessário. Forçosamente. assim a memória guarda. Procurar e centrar isto é resumir. Razão pela qual repito quanto disse acima. e tem tudo. resumindo. e se ela se dissipa em muitas coisas. De fato. fica menor em cada uma delas. que as pessoas que se dedicam ao estudo necessitam de engenho e de memória. devemos sintetizá-lo para ser confiado à memória. Há uma fonte e muitos riachos: por que você segue as tortuo­ sidades do rio? Fique com a fonte. qualquer tratado possui algum conceito basilar. isto é. do qual. para que não desapareça em virtu­ de de um longo abandono. Instituiionis oratoriae. Caput XIII: De humilitate Principium autem disciplinae humilitas est. paupertas. ceteros non contemnat.inquiunt . non intellexisse gloriamini. secundum. studium quaerendi. oita quieta. ut nullam scientiam.inquit . eoque longius a sapientia recedunt quo non esse sapientes. et ex hoc solum­ modo se magnos fieri putant. cognoverunt nos. ut et modum vitae suae et studii sui rationem lector ag­ noscat Illaudabilis est scientia quam vita maculat impudica. Quintilianus. terra aliena. haec tria praecipue ad lectorem pertinent: primum. 53. Multos hoc decipit. sapientes videri vo­ lunt. ut non negligat disciplinam. Puto indignum vobis est deinceps ut me audiatis. cuius cum mul­ ta sint documenta. Audierat. ut iam et simulare incipient quod non sunt et quod sunt erubes­ cere. Eiusmodi multos novi. 12.1-8. scrutinium tacitum. tertium.humilis. sed putari putant. quod dictum est: "Mores ornant scientiam”^^ et ideo praeceptis legendi. praecepta quoque vivendi. non nisi summis interesse dignantur. ut cum scien­ tiam adeptus fuerit. si magnorum et sapientium vel scripta legerint vel audierint verba.1. adiungit. 154 . nullam scripturam vilem teneat. ut a nemine discere erubescat.'‘Mens . Et id­ circo summopere cavendum ei qui quaerit scientiam.vidimus il­ los. proemium 18. Hinc namque in quemdam elationis tumorem prorumpunt. haec reserare solent multis obscura legendi”. Saepe nobis loqui illi solebant Illi sum­ mi. cum primis adhuc elementis in­ digeant.” Sed utinam me nemo agnoscat et ego cuncta noverim! Pla­ tonem vidisse. "Nos . puto. quod ante tempus. illi famosi. Nos ab illis legimus. qui. 1. Quanto a mim. não ter vergonha de aprender de qualquer um.dizem . E. da qual exis­ tem muitos ensinamentos. aqueles famosos. por isso. Por esta razão. 2) segundo. mas em serem considerados tais. nâo de tê-lo entendido. vida quieta. três dos quais interessam mais ao es­ tudante: 1) primeiro. nos conheceram”. Não é louvável o saber maculado por uma vida impúdica. e acham que se tornaram grandes apenas por ter lido os escritos ou ouvido as palavras dos gran­ des e dos sábios. as quais. se dignam interessar-se so­ mente das coisas sublimes. explodem numa íntumescência de arrogância. Nós ouvimos as lições deles. quanto foi dito: "Os bons costumes ador­ nam a ciência”. não reputar de pouco valor nenhuma ciên­ cia e nenhum escrito. Eles costumavam falar freqüentemente para nós. consideração silenciosa. terra estrangeira. "Nós . quem procura o saber deve prestar a máxima atenção a não negligenciar a disciplina moral. Ele ouvira.“Mente humilde . considero indigno para vocês que me escutem. 3) terceiro. oxalá ninguém rae conheça e eu conheça tudo! Mas vocês se gloriam de ter visto Platão. começam a fingir aquíto que não são e a envergo­ nhar-se daquilo que são. Conseqüentemente. 155 . mesmo necessitan­ do ainda dos conhecimentos básicos. Isto costuma descortinara muitos coisas obscuras da leitura”.os vimos. porém. CAPÍTULO 13: A humildade O começo da disciplina moral é a humildade. Muitos ficam decepcionados porque querem aparecer sábios antes do tempo. e por isso aos preceitos do aprender acrescentou também os preceitos do viver. acho. Conheci muitas pessoas assim. para que o estudante conheça seja 0 modo de viver seja as teorias do seu estudo. e tanto mais se afastam da Sabedoria quanto mais se preocupam não em serem sábios. pobreza. Aquelas sumidades. não desprezar os outros depois de ter alcançado o saber.ânsia de querer.respondeu . scripturam vel saltem legere contem­ nas. non scripturam. si vacat. Quidam dum magnum saltum face­ re volunt. fortassis novit Ofelíus”'’^ Nemo est cui om­ nia scire datum sit. praecipitium incidunt Noli ergo nimis festinare. considerat Hinc illud Platonicum aiunt: “Malo aliena verecunde discere. 55. maxime cum nulla scrip­ tura sit. secundum meam aestimationem. Sufficit vobis: ipsum philosophiae fontem potastis. quia humilitas commune tibi facere potest quod natura cuique proprium fecit Sapientior omnibus eris. Saturae 2. qui incedit ordinate. Aut quid summa affectas cum tu iaceas in imo? Considera potius quid vires tuae ferre valeant Aptissime incedit. 156 . audiatis et Chrysippum. Si omnia legere non potes. et nescire non verecundaris? Pudor iste maior est illo. Hieronymus. quanto rarius. si convenienti loco et ordine tractetur. nec quantum sciat. nec Platonem videre merui. Cur enim discere erubescis. 54. si ab om­ nibus discere volueris. Horatius. omnibus ditio­ res sunt Nullam denique scientiam vilem teneas. non personam.2. 53. Etiam si omnia legere po­ tueris. quae non aliquid etiam speciale habeat.2. quam mea impudenter ingerere”®®. sed utinam adhuc sitiretis! rex post aurea pocula de vase bibit testeo. ea quae sunt utiliora lege. quia omnis scientia bona est Nullam. Hoc modo citius ad sapientiam pertinges. omnia legit. quod diligens verbi scrutator alibi non inventum. Quid erubescitis? Pla­ tonem audistis.Non ego sum Plato. Si nihil lucraris. Ab omnibus libenter disce quod tu nescis. non doctrinam spernit Indifferenter ab omnibus quod sibi deesse videt quaerit. Qui ab omnibus accipiunt. Prudens igitur lector omnes libenter audit. sed quantum ignoret. neque quisquam rursum cui aliquid speciale a natura accepisse non contigerit. Nihil tamen bonum est quod melius tollit. In proverbio dicitur: “Quod tu non nosti.1.2. Epist. quae aliquid expeten­ dum non proponat. tanto gratius carpat. nec perdis aliquid. Alguns. e não se envergonha de ser ignorante? Esta vergonha é maior que aque­ la. também não perde nada. antes. pessoa alguma. sobretudo porque não há nenhum escrito. Da­ qui se origina o dito platônico: “Prefiro aprender modestamente as coisas dos outros a ostentar descaradamente as minhas”. Por que se envergonhar? Ouviram Platão. Jê as mais úteis. creio eu. por outro lado. E ainda. querendo dar um grande salto. Ainda que você possa ler todas. Avança bem. caem no precipício. lê tudo. Não queira. não despreza escrito algum. se é tratado no lugar e no modo devido. Será mais sábio de todos. 157 . e não há nenhum escrito que não contenha algo especial não encontrado alhures. quem avança ordenadamente. O estudante prudente. não recuse de ao menos ler algum escrito. ve­ nham ouvir também Crisipo. aquilo que as tuas forças podem sustentar. quando ainda jaz no lugar mais baixo? Avalie. bebe na caneca de barro. você se envergonha de aprender. apressar-se demais. nem ninguém. Não há ninguém ao qual foi dado de conhecer tudo. porque a humildade pode tornar co­ mum para você aquilo que a natureza fez próprio para cada um. mas oxalá ainda tiverdes sede! O rei. que não proponha algo desejável. ao qual não aconteceu de ter recebido da natureza algo especial. portanto. Aque­ les que recebem de todos. então. por que você aspira a coisas altíssimas. Por que. portanto. mas quanto ignora. se irá querer aprender de todos. Se tiver tempo livre. ouve todos com prazer. Se você não lucra. nem merecí ver Platão. doutrina algu­ ma. algo que o diligente escrutador da pala­ vra não possa agarrar com tanta maior graça quanto mais é raro. talvez Ofelo o conheça”. portanto. são mais ricos de todos.Eu não sou Platão. Se você não pode ler todas as obras. Pede indiferentemente de todos aquilo que vê estar-lhe fal­ tando. No provérbio se diz: "Aquilo que tu não conheces. A vocês é suficiente ter bebido da própria fonte da filosofía. Deste modo você chegará mais cedo para a Sabedoria. depois de ter bebido em cálices dourados. nem leva em conta quanto sabe. Não considere vii conhecimento algum. Mas não existe um bom que tire o melhor. Aprencla de todos com prazer aqui­ lo que você não conhece. porque todo conhecimento é bom. et non intelligunt quod Deo iniuriam faciunt. Bonus enim lector humilis debet esse et mansuetus. Si­ militer tibi quoque expedit. Corrugant nasum et valgium torquent in lectores divinitatis. 158 . secum morituram credunt sapientiam. ut nullam scientiam vilipendas et ab omnibus libenter discas. priores patres sim­ plicitatis arguunt. quaedam vero ne sint inaudi­ ta. non statim in vituperium prorumpat. et ea semper co­ ram oculis quasi speculum vultus sui tenere studeat. numquam de scientia sua praesumat. sed sensu pravo insipida praedicant. Et si qua forte obscuriora intellectum eius non admiserint. quod suam scientiam nimis diligenter inspiciunt. sed esse quaerat. a curis inanibus et voluptatum illecebris prorsus alienus. quia aliquando pluris esse credimus quod non audivimus. Haec est humilitas disciplinae legentium. quos non noverunt. ut. alios. ceteros non contemnas. non videri doctus. ut ab omnibus libenter discat. perversi dogmatis auctores quasi venena fugiat. ut nihil bonum esse credat. Videre nunc potes quam necessaria tibi sit haec humilitas. et cum sibi aliquid esse visi fuerint. Non est mei consilii huiusmodi imitari. gloriantes. Hoc autem tumoris vitium hinc quibus­ dam accidit. diu rem pertractare antequam iudicet discat. cum tu aliquid sapere coeperis. In divinis eloquiis ita simplicem loquendi modum esse aiunt. nescio unde. cuius verba pulchro quidem vo­ cabulo simplicia. diligens et se­ dulus. nisi quod ipse intelligere potuit. Sed quaedam ita legenda sunt ne sint incognita. Hinc etiam ebullit. et secum natam.non tamen idem omnibus labor impendendus est. dicta sapientium intellecta diligat. et facilius aestimatur res cuius fructus agnoscitur. tales nec esse nec potuisse fieri putant. posse satis quemque proprio ingenio veritatis arcana penetrare. ut in eis magistros audire non oporteat. quod nugi­ geruli nunc quidam. Franzem o nariz e torcem a boca contra os professores das Escrituras. quando começar a conhecer alguma coisa. mas sê-lo. Este vício da vai­ dade ocorre a alguns. fuja dos autores de doutrinas perversas como dü veneno. Nât) é meu conselho imi­ tar este tipo de pessoas. Esta é a humildade da disciplina dos estudantes. ame os ensinamentos aprendidos dos sábios e procure tê-los sempre diante dos olhos como espelho do seu próprio rosto. porque olham com demasiada diligência o seu próprio conhecimento e. certas coisas mais obscuras não são admitidas por sua in­ teligência. afastado total­ mente das preocupações vãs c dos ilícitos das volúpias. Agora você pode ver quão necessária lhe seja esta humilda­ de. mas insinuam com maldade que as explicações dos mestres são insípidas. E se. Algumas de­ vem ser lidas para não serem desconhecidas. aprenda a refletir longamente sobre alguma coisa antes de julgá-la. Igualmente. da qual se conhece o fruto. pensam que os outros não são como eles nem poderiam nunca sê-lo. cujas palavras eles em termos bo­ nitos pregam serem simples.não deve ser dispensado o mesmo afinco a todas. gloriando-se não sei de que. achando que a Sabedoria nasceu com eles e morrerá com eles. pois não raro aquilo que não ouvimos é conside­ rado maior do que realmente é. diligente e constante. Por isso agora ferve o fato que alguns charlatães. acusam pro­ fessores mais velhos de ingenuidade. O bom estudioso deve ser humilde e manso. por acaso. nunca pre­ suma de sua ciência. e é mais fácil ser estimada uma coisa. como se cresse que nada é bom a não ser aquilo que ele pode en­ tender. 159 . pois cada um poderia com seu próprio engenho penetrar os segredos da verdade. e não enten­ dem que fazem ofensa a Deus. outras para serem apenas ouvidas. 0 bom estudioso não prorrompa em impropérios. não queira aparecer douto. não despreze os outros. sem conhecê-los. parecendo-lhes de ter-se tornado alguma coisa. lhe convém que. para que aprenda com prazer de todos. para que despreze nenhum conhecimento e aprenda de to­ dos com prazer. Dizem que nas Escrituras Sagradas o modo de falar é tão simples que sobre elas não preci­ saria ouvir os mestres. Qui enim diligenter ins­ picere voluerit quid antiqui propter amorem sapientiae pertule­ rint. ideo. in quo exhortati­ one magis quam doctrina lector indiget. Hanc igitur diligentiam in nostris lectoribus esse vellem." Cogita si potes. quantum mente et intelligentia a ceteris differrent. Et Prometheus ob immodi­ cam meditandi curam in monte Caucaso vulturi expositus me­ moratur. in­ ter cetera nec sutoriae peritia eum carere gloriati sunt. quam memoranda posteris virtutis suae monimenta reli­ querint. ut numquam in eis senesceret sapientia. et eos iam non homines esse. alii acceptis iniuriis gaudebant. ut eo contemplationi vacarent libe­ rius.Caput XIV: De studio quaerendi Studium quaerendi ad exercitium pertinet. Alii calcabant honores. ne una tene­ ret habitatio quos non eadem sociabat intentio. Parmenides philosophus quindecim annis in rupe Aegyptia consedisse legitur. alii contubernia hominum deserentes. Quia enim sciebant verum bonum non in aestimatione hominum sed in pura conscientia esse absconditum. soli se philosophiae dedicabant. a quibus nec vituperari timuit De alio rursum legitur. Quidam philo­ sopho referebat dicens: "Numquid non vides quia te derident ho­ mines?" Et ille: "Ipsi me. quamlibet suam diligentiam inferiorem esse videbit. ultimos recessus et secreta eremi penetrantes. alii poenas spreverunt. quanti aestimaverit laudari ab his. ipsa locorum distantia demonstrabant. et eos asini. Sola Abisag Sunamitis se­ nem David calefecit quia amor sapientiae etiam marcescente corpore dilectorem suum non deserit 160 . alii proiecerunt divitias. inquit. quod post omnia disciplinarum studia et artium acumina ad opus figuli descenderit Et alterius cuiusdam discipuli cum laudibus magistrum suum efferrent. derident. quo nullis quae virtutis iter impedire solent cupiditatibus animum subiecissent. qui rebus perituris inhaerentes bonum suum non agnoscerent. esquentou o velho Davi. porque o amor da Sabedoria. Estes eremitas. Alguém se volta­ va para um filósofo dizendo: “Não vê como os homens zombam de você?” E ele: "Eles zombam de mim. mas está escondido na consciência pura e que não são homens quantos. e nisto 0 estudante precisa mais de exortação que de ensinamen­ to. Somente Abisag. a sunamita. verá quanto a sua diligência é inferior à deles. não querendo que uma mesm^habitação albergasse aque­ les que não eram associados na mesma intenção. E os discípulos de um certo estudioso. demonstravam com a dis­ tância geográfica quanto diferiam dos outros na mente e na inteli­ gência. nem a perícia de sapateiro. se você consegue. outros jo­ garam no ar as riquezas. depois de todos os estudos das disciplinas e depois de ter alcançado as sumidades das artes. Pensa. 161 . aderindo às coisas que pere­ cem. sabendo que o verdadeiro bem não reside na estima dos homens. Gostaria que os nossos estudantes tivessem uma tal diligên­ cia que neles a Sabedoria nunca envelhecesse. Uns calcavam as honras. outros. gloriavam-se de que a ele não fal­ tava. se dedicavam somente à filosofia. deixando o con­ vívio dos homens e adentrando-se nos últimos recantos nas solidões do ermo. E Prometeu é recordado exposto ao abutre no monte Cáucaso por causa da sua vontade desmedi­ da de meditar. uns se alegravam das injúrias recebi­ das. mes­ mo num corpo em definhamento. e deles zombam os as­ nos”. outros desprezaram os sofrimentos. entre outras coisas. De um ou­ tro se diz que. desconhecem o seu próprio bem.CAPÍTULO 14: A dedicação à pesquisa A dedicação à pesquisa pertence ao campo do exercício. quanto valia para ele ser louvado por aqueles. desceu para o trabalho de oleiro. dos quais nem de ser insultado teve medo. querendo promo­ ver com louvores o seu mestre. Aquele que quisesse olhar diligentemente o que os antigos suportaram pelo amor da Sabedoria e quantas memórias memo­ ráveis de sua virtude deixaram aos pósteros. Conta-se que o filósofo Parmênides passou quinze anos num rochedo do Egito. para entre­ gar-se à meditação tanto mais livremente quanto menos subme­ tessem 0 espírito às volúpias que costumam impedir o caminho da virtude. não abandonou o seu amante. 57. "Interpretatur enim Abisag. Tersicorum. iam vetuli et paene de­ crepiti dulcior meile oratio fluxerit”^^ Animadverte igitur quantum amaverint sapientiam quos nec decrepita aetas ab eius inquisitione potuit revocare. dixisse fertur se dolere quod egrederetur de vita quando sapere coepisset Plato LXXXI anno scribens mortuus est. Socrates XCIX annos in docendi scribendique dolore labore­ que complevit Taceo ceteros philosophos. Certe Homerus refert quod de lingua Nestoris. Episi. Simonidem.3. cum expletis centum septem annis se mori cerneret. et veterum studiorum dulcissimos fructus metit. 52. congrue etiam ex ipsius supradicti nominis interpretati­ one colligitur. qui grandes natu cycneum nescio quid et solito dulcius vi­ cina morte cecinerunt Sophocles cum post nimiam senectutem et rei familiaris neglegentiam. Oedippi fabulam. Pythagoram. quod satis convenienter fervorem sapientiae significare potest. 52. Hieronymus. Zenonem et Eleantem qui iam aetate longa­ eva in sapientiae studiis floruerunt Ad poetas venio. et crescen­ te sola sapientia. Hieronymus. Porro Sunamitis in lin­ gua nostra coccinea dicitur”^'*. Hieronymus. Iste igi­ tur tantus amor sapientiae. non redundantiam. Homerum. et tantum sapientiae in aetate iam fracta specimen dedit. “patris mei rugitus. Unde et sapiens ille vir Graeciae. et ultra humanam vocem in senibus divini sermonis toni­ truum commorari. Epist. Xenocratem. 162 .3.senex graecas litteras discere nec erubuerit nec desperaverit.7. Themistocles. 56. processu temporis sapientior.Verbum namque superfluum in hoc loco ple­ nitudinem. decrescunt cetera"®l "Senectus enim illorum qui adoiescentiam suam honestis actibus instruxerunt. pater meus superflu­ us”. Hesiodum. Episi. quam nuper scripserat.3-6. significat. vel. aetate fit doctior. Demo­ critum. tanta in senibus prudentiae abun­ dantia. 52. usu tritior. ut severitatem tribunalium in favorem theatri converteret Nec mirum cum eti­ am Cato censorius et Romani generis disertissimus."Omnes paene virtutes corporis mutantur in senibus. 58. a filiis accusaretur amentiae. recitavit iudici.3. ex quo ostenditur abundantissi^ mum. iam .2. Não falo de outros filósofos. pois também Catão o Censor e o wais eloquente dos romanos. Zenão e Eleante. se conta que aquele ho­ mem sábio da Grécia. de onde fica manifesto que nos velhos reside um potentíssimo trovão da voz divina. escarlate”. todas as outras decrescem”. escrevendo. Sófocles. c deu um tal exemplo de Sabedoria em idade já avançada.“Quase todas as forças do corpo mudam nos velhos. Platão morreu aos oitenta e um anos. percebendo que estava mor­ rendo após ter terminado cento e sete anos. Democrito. significa plenitude. Homero. já ve­ lho e quase decrépito. Simonides. já velhos. Pitágoras. Sunamita em nossa língua significa “vermelho.scurso mais suave que o raeí". Pense. com o andar do tempo mais sábia. Por isso. que pode significar muito apro­ priadamente o fervor da Sabedoria. Enfim. enquanto cresce apenas a Sabedoria. acima de qualquer voz humana. se deduz também da interpretação de um nome acima reportado. ficava triste em ter que sair da vida quando começava a conhecer as coisas. e recolhe os frutos dulcis­ simos dos estudos anteriores. Apropriadamente Homero conta que da língua de Nestor. Sócrates completou noventa e nove anos na dor e no trabalho do ensino e da escrita. Temístocles. “Abisag. sendo acusado de demência pelos filhos em razão da velhice avançada e da negligência nos negócios de família. que transformou a severidade do tribunal em entusiasmo pelo teatro. recitou ao juiz a tragé­ dia de Édipo. Xenocrates. A palavra supérfluo. Hesiodo. não teve vergonha nem desesperou de aprender o grego. com a prática mais calejada. E agora venho aos poetas. “A velhi­ ce daqueles que construíram a sua adolescência em atos hones­ tos com a idade se torna mais douta. os quais se destacaram nos estudos da Sabedo­ ria quando estavam em idade avançada. quanto devem ter amado a Sabedoria aqueles que nem a idade decrépita conseguiu afastar da procura dela. ja ve­ lho. aqui. E não é estranho. perto da morte cantaram não sei qual canto de cisne mais doce que de costume. de fato. 163 . significa o meu pai su­ pérfluo'' ou “o rugido do meu pai. e. os quais. Tersícoro. portanto. fluía um dí. não redundância. que acabara de escrever. Este tanto amor da Sabedoria e tanta abundância de pru­ dência nos velhos. consilium pariunt cura et vigi­ lia. ad exercitium spectat Videtur autem scrutinium sub studio quaerendi contineri. ut agas. In labore est. ut attendas. id est meditatio. quia mentem exercent cui sapien­ tia praesidet Cathedra quippe philologiae sedes est sapientiae. Isti sunt quattuor pedisequi qui portant lecticam philologiae. quia foris opus peragunt. ut perficias.Caput XV: De quattuor reliquis praeceptis Quattuor quae sequuntur sic alternatim disposita sunt. utraque ad disciplinam pertinet Caput XVII: De scrutinio Scrutinium autem. quod studium quaerendi instantiam significat ope­ ris. a posteriori puellae. ut alterum semper ad disciplinam. in vigilia. philemia et agrimnia. philos et kophos. Opus peragunt labor et amor. In cura est ut provideas. videlicet.'s . alterum ad exercitium spectet Caput XVI: De quiete Vitae quies. quod interpretatur cura et vigilia. cui anima rationalis praesidet. si verum est superfluo repetitur. ut otium et opportunitas honestis et uti­ libus studiis suppetat. Unde pulchre iuvenes propter robur a fronte lecti­ cam tenere dicuntur. id est. sive interior. quoniam in his se exercendo promovetur. Quod. quae his suppositis gestari dicitur. Sunt quidam qui putant per cathedram philologiae huma­ num corpus significari. ut mens per illicita desideria non discurrat. scrutinium vero diligentiam meditationis. cum in superiori parte annumeratum sit Sed sciendum est hanc inter haec duo esse differentiam. quia in­ tus in secreto consilium pariunt. 164 . sive exterior. in amore. amor et labor. videlicet. e eles são philos e kóphos. Por isso com imagem bonita se diz que os jovens. carregam a liteira na frente. CAPÍTULO 17: A análise minuciosa A análise minuciosa. seja exterior. porque ela se desenvolve no exercício deles. e se diz que ela é levada por es­ tes quatro sustentáculos. por­ que exercitam a mente à qual preside a Sabedoria. na parte traseira da liteira estão as duas moças. porque dão conselho na parte interna em segredo. pertence ao exercício. Mas deve-se saber que entre os dois campos existe a seguinte diferença: a de­ dicação à pesquisa indica mais a aplicação ao trabalho. isto é. amor e trabalho. Na cura vocè provê. enquan­ to a análise minuciosa indica a aplicação à meditação. isto é. phítémia e agrímnia. porque atuam do lado de fora. na vigília você preserva. e se assim fosse seria supérfluo voltar a ela. No trabalho você faz. CAPÍTULO 16: A quietação A quietação da vida. Alguns dizem que através da cadeira da filologia é signifícado o corpo humano. O trabalho e o amor perfazem a obra. para que o ócio e a como­ didade permitam estudos honestos e úteis. que significam cura e vigília. uma vez que já foi listada num capítulo anterior. Estes são os quatro servidores que portam a liteira da filologia. À primeira vista parece que a análise minuciosa já é contida na dedicação à pesquisa. no amor você aperfeiçoa. A cadeira da filologia é a sede da Sabedoria. o outro ao exercício. isto é. devido à sua força. seja interior. ambas pertencem à disciplina moral.CAPÍTULO 15: Os quatro preceitos restantes Os quatro conselhos que seguem foram dispostos alternati­ vamente de modo que um se refere sempre à disciplina. para que a mente não se perca em desejos ilícitos. a cura e a vigília en­ gendram 0 bom conselho. ao qual preside a alma racional. a meditação. 165 . id est. quid satis digne dicam. et immemores non sinit esse Magnum virtutis principium est ut discat paulatim exercita­ tus animus visibilia haec et transitoria primum commutare. id est íÉnis et aer. quod maxime ad disciplinam spectat. 59. ut dicitur.3. actu et nomine masculina sunt duo vero inferiora. tenuem non gignit sensum”^^ Sed quid ad haec scholares nostri temporis respondere poterunt qui non solum in studiis suis frugalitatem sequi contemnunt sed etiam supra id quod sunt divites videri laborant? Nec iam quid didicerit quisque iactitat sed quid expenderit. 52. Hieronymus.35. Oüidi Nasonis ex Ponto libri qualuor 1. feminina. non invenio. Caput XIX: De exsilio Postremo terra aliena posita est Quae et ipsa quoque homi­ nem exercet Omnis mundus philosophantibus exsilium est quia tamen. id est terra et aqua. cui omne solum patria est. 166 . “Pin­ guis enim venter. De parcitate Paupertatem quoque lectoribus suadere voluit id est su­ perflua non sectari. ut ait quidam: “Nescio qua natak solum dulcedine cunctos ducit. e quibus duo superiora. fortis autem iam. Ovidius. Caput XVIII. P. Sed fortassis quia magistros suos imitari nolunt de quibus. ut postmodum possit etiam derelinquere. cui mundus totus exsilium est. perfectus vero.5.11. Ego a puero exsulavi. et scio quo maerore animus artum ali­ quando pauperis tugurii fundum deserat qua libertate postea marmoreos lares et tecta laqueata despiciat. Bpist.quod ministri quattuor portant. 60. Delicatus ille est adhuc cui patria dulcis est. Ille mundo amorem fixit iste sparsit hic exstinxit. quattuor elementa compo­ nunt. composta de quatro ele mentos. não daquilo que aprendeu. Mas ( que podem responder sobre isto os estudantes do nosso tempo os quais não somente recusam a frugalidade durante os seus es tudos. e não os deixa que se esqueçam dele”. CAPÍTULO 19: O exílio Em último lugar pusemos a terra estrangeira. o terceiro o extinguiu. É ainda de licado aquele ao qual a pátria é doce. mas até se preocupam em aparecer mais ricos do que sãoi Cada qual já se jacta. Eu mesmo desde menino tomei o caminho do exílio. mas na verdade é perfeito aquelí para o qual o mundo inteiro é um exílio. O primeiro fixou o sei amor ao mundo. fogo e ar que n< atividade e no nome são masculinos. O myndo inteiro é um exílio pari quem faz filosofia. mas sei também com qual liberdade. mas daquik que despendeu. e isto tem í ver de maneira decisiva com a disciplina moral. so bre os quais não encontro o que dizer de bastante digno. isto é. É um grande início da virtude para o ânimo exercitado aprender devagar a trocar primeiramente estas coisas visíveis € transitórias. e pela razão que levou alguém a dizer: “Não sei por qual tern ura o solo natal conduz A iodos. Talvez eles queiram imitar os seus mestres.não produz uma sensibilidade suave”. 167 . “Um ventre gor do . ter ra e água que são femininos. e se cora quanta tristeza o espírito abandona o estreito fundo de un pobre tugurio. porque eli também exercita o homem. isto é. mais tarde desdenha habitações de mármore e casas munidas de teto. dos quais dois são superiores. isto é. para que depois consiga também deixá-las.como se diz .carregada por quatro ministros. todavia é já forte aquele pare 0 qual qualquer terra é a pátria. CAPÍTULO 18: A sobriedade Sempre se cuidou de persuadir os estudantes a ter a pobre za. isto é. a não ir ao encalço de coisas supérfluas. e dois inferiores. o segundo o espalhou. si quando veritatis praeten­ dunt speciem. Rursus Veteris et Novi Testamenti seriem percurrentes. quae et propter simplicitatem sermonis arida ap­ parent. raro aliqua de dulcedine ae­ ternorum bonorum et caelestis vitae gaudiis manifesto depromi. falsa admiscendo. lutum erroris operiunt. nec omnes nec solae divinae appellandae sunt. divina eloquia aptissime favo comparantur. a catholicae fidei cultoribus editas auctoritas universalis ecclesiae ad eiusdem fidei corrobora­ tionem in numero divinorum librorum computandas recepit et le­ gendas retinuit Sunt praeterea alia quam plurima opuscula. quae .LIBER QUARTUS Caput I: De studio divinarum scripturarum Scripturae quae ve) de Deo sive de bonis invisibilibus lo­ quuntur. totam paene de praesentis vitae statu et rebus in tempore gestis contextam cernimus. Scripturae divinae sunt quas.immortalitate. quasi quodam colore superduc­ to. Tamen has scripturas divinas appellare fides catholica solet. quasi luteus paries dealbatus. a re­ ligiosis viris et sapientibus diversis temporibus conscripta. et intus dulcedine plena sunt Unde constat quia merito tale vocabulum sortita sunt. Philosophorum scripturae. quae sola sic a falsitatis contagione aliena inveniuntur. In libris gentilium multa de aeternitate Dei et animarum. quae. ut nihil veritati contrarium continere pro­ bentur. Contra. de virtutum praemiis sempiternis poenisque malorum satis pro­ babili ratione scripta invenimus.168 . nitore eloquii foris pollent. quos tali vocabulo indignos esse nemo dubitat. 169 . cobrem o barro do erro como se passas­ sem por cima uma espécie de cor. Há. porque eles parecem áridos na simplicidade do discurso. produzidas pelos cultores da fé católica. mas eles. Os escritos dos filósofos. mis­ turando coisas falsas. ao contrá­ rio. outros numerosos opúsculos escritos em tempos diversos por pessoas religiosas e sábias. Nos livros dos pagãos encontramos muitos escritos redigidos com fundamenta­ ção bastante provável sobre a eternidade de Deus e a imortalida­ de das almas. sobre os prêmios sempiternos das virtudes e os cas­ tigos dos males. mesmo que de vez em quando ofereçam uma aparência de verdade. como parede de barro caiado. e nela ra­ ramente são desveladas manifestamente algumas coisas sobre o encanto dos bens eternos e sobre as alegrias da vida celeste. Ao contrário disso. além disso. nem todos nem só eles devem ser chamados divinos. mas por den­ tro são plenos de doçura. As Escrituras Sagradas são aquelas que. sim. os quais. vemos que é quase toda ligada ao es­ tado da vida presente e aos fatos acontecidos no tempo. são comparados oportunissimamente ao favo. a fé católica costuma chamar divinos estes escritos. a autoridade da Igreja universal as rece­ beu para serem computadas no número dos livros sagrados e as conservou para serem lidas em fortalecimento de sua pró­ pria fé. mas ninguém duvida que eles são indignos de um tal vocábulo. uma vez que só eles se encon­ tram tão estranhos ao contágio da falsidade. Daí fica claro por que eles com razão receberam tal adjetivo divinos. exte­ riormente são ricos do esplendor do elóquio. percorrendo a série dos livros do Antigo e Novo Testamento. que dão prova de nada conter contrário à verdade.LIVRO IV CAPÍTULO 1:0 estudo das Escrituras Sagradas Os escritos que falam de Deus ou dos bens invisíveis. Os divinos elóquios. Mes­ mo assim. licet auctoritate universalis ecclesiae probata non sint, tamen quia a fide catholica non discrepant et nonnulla etiam utilia do­ cent, inter divina computantur eloquia,.quae fortasse enumeran­ do melius quam definiendo ostendimus. Caput II: De ordine ct numero librorum Omnis divina scriptura in duobus testamentis continetur, in veteri videlicet et novo. Utrumque testamentum tribus ordini­ bus distinguitur. Vetus Testamentum continet legem, prophetas, hagiographos, Novum autem evangelium, apostolos, patres. Primus ordo Veteris Testamenti, id est, lex quam Hebraei thorath nominant. Pentateuchum habet, id est, quinque libros Moysi. In hoc ordine primus est bresith, qui est Genesis, secun­ dus hellesmoth, qui est Exodus, tertius vaiecra, qui est Leviti­ cus, quartus vaiedaber, qui est Numeri, quintus adabarim, qui est Oeuteronomius. Secundus ordo est prophetarum. Hic continet octo volumi­ na. Primum losue ben Nun, id est, filium Nun, qui et losue et lesus et lesu Nave nuncupatur, secundum sophtim, qui est liber ludicum, tertium SamueI, qui est primus et secundus Regum, quartum malachim, qui est tertius et quartus Regum, quintum Isaiam, sextum leremiam, septimum Ezechielem, octavum thareasra, qui est duodecim prophetarum. Deinde tertius ordo novem habet libros. Primus est lob, se­ cundus est David, tertius est masloth, quod Graece Parabolae, Latine Proverbia sonat, videlicet Salomonis, quartus coeleth, qui est Ecclesiastes, quintus, sira syrin, id est, Cantica cantico­ rum, sextus Daniel, septimus dabrehiamin, qui est Paralipomenon, octavus Esdras, nonus Esther. Omnes ergo fiunt numero xxii. Sunt praeterea alii quidam libri, ut Sapientia Salomonis, li­ ber lesu filii Sirach, et liber ludith, et Tobias, et libri Machabaeorum, qui leguntur quidem, sed non scribuntur in canone. 170 embora não sejam reconhecidos pela autoridade da Igreja universal, todavia, considerado que não discrepam da fé católica e trazem até algumas coisas úteis, são computados entre os elóquíos divi­ nos. Talvez consigamos apresentá-los melhor enumerando-os que definíndo-os. CAPÍTULO 2: Ordem c número dos livros Toda a Escritura Sagrada está contida em dois Testamentos, o Velho e o Novo. Cada um dos dois Testamentos se divide em três partes. O Velho Testamento contém a lei, os profetas e os hagiógrafos. 0 Novo contém o evangelho, os apóstolos e os padres. O primeiro grupo do Antigo Testamento, isto é, a lei, que os judeus chamam Torá, contém o Pentateuco, ou seja, os cin­ co livros de Moisés. Primeiro na ordem é o Bresith ou Gênese, o segundo é o Hellesmoth ou Êxodo, o terceiro é o Vaiecra ou Levítico, o quarto o Vaiedaber ou Números, o quinto o Adaba­ rim ou Deuteronômio. 0 segundo grupo é o dos profetas. Este contém oito volu­ mes. O primeiro é o de Josué bem Nun, isto é, filho de Nun, que se chama também Josué ou Jesus ou Jesus Nave; o segundo, Sophtim, é 0 livro dos Juizes, o terceiro o de Samuel, que se des­ dobra em Primeiro e Segundo dos Reis; o quarto é Malachim, que se divide em Terceiro e Quarto dos Reis, o quinto é Isaías, o sexto Jeremias, o sétimo Ezequiel, o oitavo Tareasra, isto é, o li­ vro dos doze profetas. O terceiro grupo dos hagiógrafos, por sua vez, tem nove li­ vros. O primeiro é Jó, o segundo Davi, o terceiro Masloth, que em grego é Parábolas e em latim é Provérbios, por sinal de Salo­ mão, o quarto livro é Qohelet, que é o Eclesiastes, o quinto Sira Syrin, isto é, Cântico dos cânticos, o sexto Daniel, o sétimo Dabrehaimin, que é o livro das Crônicas, o oitavo de Esdras, o nono Ester. Todos eles perfazem o número 22. Há alguns outros livros, como a Sabedoria de Salomão, o li­ vro de Jesus filho de Sirac, o livro de Judite e de Tobías, e os li­ vros dos Macabeus, os quais sâo lidos mas não são computados no cánon. 171 Primus ordo Novi Testamenti quattuor habet volumina: Mat­ thaei, Marci, Lucae, loannis; secundus, similiter quattuor: Epistu­ las Pauli numero quattuordecim sub uno volumine contextas, et canonicas Epistulas, Apocalypsim et Actus apostolorum. In tertio ordine primum locum habent Decretalia, quos ca­ nones, id est, regulares appellamus, deinde sanctorum patrum et doctorum ecclesiae scripta: Hieronymi, Augustini, Gregorii, Ambrosii, Isidori, Origenis, Bedae, et aliorum multorum ortho­ doxorum, quae tam infinita sunt, ut numerari non possint. Ex quo profecto apparet quantum in fide Christiana fervorem habu­ erint, pro cuius assertione tot et tanta opera memoranda poste­ ris reliquerunt. Unde nostra quoque pigritia arguitur, qui legere non sufficimus quae dictare illi potuerunt. In his autem ordinibus maxime utriusque testamenti appa­ ret convenientia, quod sicut post legem, prophetae, et post pro­ phetas, hagiographi, ita post Evangelium, apostoli, et post apos­ tolos, doctores ordine successerunt. Et mira quadam divinae dis­ pensationis ratione actum est, ut cum in singulis plena et perfec­ ta veritas consistat, nulla tamen superflua sit. Haec breviter de ordine et numero divinorum librorum perstrinximus, ut quae sibi sit praescripta materia lector agnoscat. Caput 111: De auctoribus divinorum librorum Quinque libros legis Moyses scripsit Libri losue, idem losue, cuius nomine inscribitur, auctor fuisse creditur. Librum Ju­ dicum a Samuele editum dicunt “Primam partem libri Samuel ipse Samuel scripsit, sequentia vero usque ad calcem, David. Malachim leremias primum in unum volumen collegit, nam antea sparsus erat per singulorum regum historias”®\ Isaías, leremias, Ezechiel, singuli suos libros fecerunt qui inscripti sunt nomini­ bus eorum. “Liber etiam duodecim prophetarum auctorum suo­ rum nominibus praenotatur, 61. Isidorus, Etymologiae 5,1,10, 172 0 primeiro grupo do Novo Testamento consiste de quatro vo­ lumes; Mateus, Marcos, Lucas, João; o segundo, igualmente de outros quatro: as quatorze Cartas de Paulo recolhidas num só vo­ lume, as Cartas canónicas, o Apocalipse e os Atos dos Apóstolos. No terceiro grupo ocupara o primeiro lugar as Decretáis, que chamamos cánones, isto é, regulares; depois vém os escritos dos Santos Padres e Doutores da Igreja; Jerónimo, Agostinho, Gregorio, Ambrosio, Isidoro, Orígenes, Beda, e muitos outros or­ todoxos, escritos tão copiosos que não podem ser enumerados. Disto certamente aparece quanto fervor eies tiveram na fé crista, para cuja afirmação deixaram aos pósteros tantas e tão grandes obras memoráveis. Donde se deduz também a nossa preguiça, nós que não conseguimos ler aquilo que eles conseguiram ditar. Nestes agrupamentos aparece clarissimamente a concor­ dância dos dois Testamentos, de modo que, como após a Lei vie­ ram os profetas, e depois destes os hagiógrafos, assim depois do Evangelho sucederam na ordem os apóstolos e, depois dos após­ tolos, os doutores. E, por uma certa qual lógica da providência divina, foi disposto que, não obstante em cada livro a verdade se encontre plena e perfeita, em nada ela é repetitiva. Temos resu­ mido brevemente tudo isso a respeito da ordem e do número dos livros sagrados, para que o estudante conheça a matéria que lhe é preceítuada. CAPÍTULO 3: Os autores dos livros divinos Os livros da Lei foram escritos por Moisés. Acredita-se que o livro de Josué foi escrito pelo mesmo Josué, cujo nome intitula o livro. Dizem que o Livro dos Juizes foi editado por Samuel. “O próprio Samuel escreveu a primeira parte do livro de Samuel, mas 0 resto, até o fim, foi escrito por Davi. O Livro de Malaquias foi recolhido num só volume primeiramente por Jeremias, pois anteriormente estava espalhado pelas histórias de cada um dos reis". Isaías, Jeremias e Ezequiel compuseram cada um os seus li­ vros, que foram intitulados com os nomes deles. “Também o livro dos doze profetas são designados pelo nome dos seus autores, 173 quorum nomina sunt Osee, loel, Amos, Abdias, lonas, Michaeas, Nahum, Habacuc, Sophonias, Aggaeus, Zacharias et Malachias. Qui propterea minores dicuntur, quia sermones eorum breves sunt, unde et uno volumine comprehenduntur”“. Isaias autem et leremias et Ezechiel et Daniel, hi quattuor maiores sunt sin­ guli suis voluminibus distincti. “Librum lob, alii Moysen, alii unum ex prophetis, nonnulli ipsum lob scripsisse credunt”“. Librum Psalmorum David edi­ dit, Esdras autem postea Psalmos ita ut nunc sunt ordinavit et ti­ tulos addidit. Parabolas autem et Ecclesiastem et Cantica canti­ corum Salomon composuit. Daniel sui libri auctor fuit. “Liber Esdrae auctoris sui titulo praenotatur, in cuius textu eiusdem Esdrae Nehemiaeque sermones pariter continentur. Librum Esther Esdras creditur conscripsisse. Liber Sapientiae apud He­ braeos nusquam est, unde et ipse titulus Graecam magis elo­ quentiam redolet. Hunc quidam ludaei Philonis esse affirmant. Librum Ecclesiasticum certissime lesus filius Sirac lerusolymita, nepos lesu sacerdotis magni, cuius meminit Zacharias, com­ posuit Hic apud Hebraeos reperitur, sed inter apocryphos habe­ tur. ludith vero etTobi et libri Machabacorum”“, quorum, ut tes­ tatur Hieronymus, secundus magis Graecus esse probatur, "qui­ bus auctoribus scripti sint minime constat”. Caput IV: Quid sit bibliotheca "Bibliotheca a Graeco nomen accepit, eo quod ibi libri re­ condantur. Nam biblio librorum, teca repositio interpretatur. Bi­ bliothecam Veteris Testamenti Esdras scriba post incensam le­ gem a Chaldaeis, dum ludaei regressi sunt in lerusalem, divino afflatus spiritu reparavit, cunctaque legis ac prophetarum volu­ mina quae fuerant a gentibus corrupta correxit, totumque Vetus Testamentum in xxii libros constituit, ut tot libri essent in lege quot habebantur et litterae"“. 62. Isidoras, Etymologiae 6,2,26. 63. [.sidorus, Etymologiae 6,2,13. 64. Isidoras, Etymologiae 6,2,28-33. 65.1.sidorus, Etymologiae 6,3,1. 174 Alguns afirmam que é do judeu Filon. de modo que o próprio título trai mais a linguagem dos gregos. inspirado pelo espírito divino. o termo biblio significa livros e teca quer dizer depósito. de modo a se­ rem tantos os livros da Lei quantas são as letras do alfabeto”. sobrinho do grande sacerdote Jesus. junto com Jeremias. corrigindo todos os volumes da Lei e dos Profetas alterados pelos pagãos e organizando todo o Velho Testamento em 22 livros. CAPÍTULO 4: O que é a biblioteca “A palavra biblioteca deriva do grego. O Livro do Eclesiastes com certeza foi escrito por Jesus filho de Sirac o Jerosolimitano. de modo a serem incluídos num só volume”. Isaías. mas é enumerado entre os apócrifos. Foi Salomão quem compôs as Parábolas. “Quanto ao livro de Jó. Naum. Miquéias. O livro da Sa­ bedoria não se encontra em lugar algum entre os judeus. estes quatro são “maiores". Não consta minimamente por quais autores foram escritos os livros de Judite. Zacarias e Malaquias. Com efeito. refez a biblioteca do Velho Testamento. ao contrário. O livro dos Salmos foi editado por Daniel. o escriba Esdras. Diz-se que foi Esdras a escrever o livro de Ester. "O livro de Esdras foi intitulado com o nome do seu autor e nele estão contidos os sermões do próprio Esdras assim como os de Neemias. Habacuc. para alguns o próprio Jó”. Amos. posteriormente Esdras orga­ nizou os Salmos como são agora e lhes acrescentou os títulos. 0 segundo dos quais. como atesta Jerónimo. Ageu. 175 . Depois que os Caldeus queimaram a Lei. Estes são chamados 'menores' porque seus discursos são breves. Este livro se encontra entre os judeus. Joñas. Sofonias. para outros um dos profetas. o Eclesiastes e o Cânti­ co dos Cânticos. Ezequiei e Daniel. para uns foi Moisés que o escreveu.cujos nomes são Oséias. de Tobias e os Livros dos Macabeus. dis­ tintos singularmente por seus volumes. Abdias. do qual se lembra Zacarias. Joel. ao re­ gresso dos Judeus em Jerusalém. é considerado mais um livro grego". pois aí são guardados os livros. Daniel foi o autor de seu próprio livro. “Porro quinque litterae duplices apud Hebraeos sunt: caph. Etymologiae 6. Hieronymus. 66. in Graecam vocem ex Hebraea lin­ gua interpretari fecit. ita ut septuaginta milia librorum in tempore eius Alexandriae invenirentur. phe. qui sapientiae ope­ ram dederant. Unde et quinque libri a plerisque duplices aestimantur: Samuel. 68. “in studio bibliothecarum aemularetur. Quinta est vulgaris. Octava est Hieronymi. cuius auc­ tor ignoratur. Caput V. ut nihil in alicuius eorum codice inventum esset. Secundam et tertiam et quartam faciunt Aquila. quorum primus.5.4.3-5. leremias cum cynoth. ut post Ixx interpretes ecclesiae Graecorum eorum re­ ciperent exemplaria et legerent. et Seleucum Ni­ canorem et Alexandrum. Symma­ chus. Praei. qui primus apud Graecos bibliothecam instituit. rex Aegypti. et ceteros priores. id est.3.597).1 sido rus. cuius codices Eusebius et Pamphilus vulgaverunt. Aquila. Esdras. quod in ceteris vel in verborum ordine discreparet”®^ Propter quod una est eorum interpretatio. Sed singuli in singulis cellis separati. cum Pisistratum Atheniensium tyrannum. et perspicuitate sententiae claritor”®®. Aliter enim per has scribunt principia me­ dietatesque verborum. non so­ lum gentium scripturas. Obtinuit ta­ men usus. aliter fines. 67. Theodotion. ab Eleazaro pontifice petens scripturas Veteris Testamenti. cognomento Philadelphus. Unde specialiter sibi vindicavit ut quinta appelle­ tur. Symmachus vero et Theodotion Ebionitae haeretici. sed etiam divinas litteras in suam biblio­ thecam conferens. sade. quae “merito ce­ teris antefertur. id est lamentationibus suis”®®. nam et verborum tenacior est. omnis litte­ raturae sagacissimus. Isidorus. nun. Etymologiae 6. ad libros Samuel ei Malachim (PL 28. dabrehiamin. ludaeus fuit. De interpretibus Interpretes Veteris Testamenti primum Ixx interpretes quos Ptolemaeus. mem. ita omnia per Spiritum Sanctum interpretati sunt. malachim. 176 . Sexta et septima est Origenis. Sed Hieronymus dicit huic rei non esse adhibendam fidem. ou seja. Símaco e Teodocião. tirano de Atenas. Por isso. terceira e quarta traduções foram feitas por Áquila. CAPÍTULO 5: Os tradutores Os primeiros tradutores do Antigo Testamento foram os 70 Tradutores. de modo que no seu tempo se contavam em Alexandria setenta mil livros. diz que não se deve dar fé a esta história. rei do Egito e cultis­ simo em toda a literatura. e também com Seleuco Nicanor e Alexandre. quis competir no zelo pelas bibliote­ cas com Pisistrato. Eles escrevem estas letras de um modo no co­ meço e no meio da palavra. ela reivin­ dicou excepcionalmente para si de ser chamada “quinta”. cujos códigos foram di­ vulgados por Eusébio e Panfilo. entre os judeus. Esdras. Separados cada um erri cela individual. “trazendo para a sua biblioteca não somente os es­ critos dos pagãos. Malaquias. 177 . enquanto Símaco e Teodocião eram hereges hebionitas. Áquila. Dabrehairain. mas também os escritos sagrados. a tradução deles é unânime. A sex­ ta e a sétima traduções são de Orígenes. há cinco letras duplas: caph. muitos acham que cinco livros são duplos: Samuel. os 70 Tradutores interpretaram tudo pelo Espírito Santo de tal maneira que nada foi encontrado no manuscrito de algum deles que discordasse dos outros até na or­ dem das palavras”. cujo autor é ignorado. Mas o uso fez de modo que as comunidades gregas aceitassem e lessem as versões deles depois da dos 70 Tradutores. Ptolomeu. tsadé. e com todos os que o precederam e se dedicaram à Sabedoria.“Todavia. Por isso. o primeiro a organizar uma biblioteca entre os gregos. O primeiro deles. apelidado Filadelfo. por ser mais aderente no sig­ nificado das palavras e mais clara na interpretação da frase". isto é. e os fez traduzir do hebraico para o grego. Por isso. Jeremias junto com Cynot. porém. de outro modo no fim da palavra. era judeu. A segunda. Ele pediu ao sumo sacerdote Eleazar os escritos do Antigo Tes­ tamento. phe. São Je­ rónimo. mem. A quinta tradução é a vulgata. nun. A oitava é de Jerónimo. com suas Lamentações”. a qual “justamente é anteposta às outras. quippe ut medicus in Graecia. qui per Spiritum Sanctum loquentes ad eruditionem nostram praecepta vivendi regulamque conscripserunt Praeter haec alia volumina apocrypha nuncupantur. Ultimam autem ad Hebraeos plcrique di­ cunt non esse Pauli. "eandemque alii Barnabam scripsisse. Etymologiae 6. Matthaei. Lucae. alii Clementem suspicantur”^“. et quattuor ani­ malium in Ezechiele. quattuor ad personas. "Tertius Lucas inter omnes evangelistas Graeci sermonis eruditissimus. id est. Apocrypha autem dicta. Quartus et ultimus loannes evangelium scripsit. id est. Unde sancti patres. Paulus quattuordecim scribit epistulas. Apocalypsim scripsit loannes apostolus in Patmos insula. per Spiritum Sanctum docti. secreta.2. tamen propter multa falsa. loannis ad similitudinem quattuor fluminum paradisi. duae Petri. et quattuor vectium arcae. nulla est in eis canonica auctoritas. sed quidam sine Spiritu Sanc­ to magis conati sunt ordinare narrationem quam historiae texe­ re veritatem. 70. quae recte iudicantur non esse eorum cre­ denda quibus ascribuntur. evangelium scripsit Theophilo episcopo"®^. quattuor tantum in auctoritatem receperunt. ad quem etiam Actus apostolorum idem scripsit.37. Primum Matthaeus evangelium suum scripsit Hebraice.Caput VI: De auctoribus Novi Testamenti Plures evangelia scripserunt. tres loannis. Caput VII: Cetera esse apocrypha et quid sit apocryphum "Hi sunt scriptores sacrorum librorum. Isidorus. ceteris reprobatis. Canonicae epistulae septem sunt: una lacobi. quia in du­ bium veniunt. in exsilio relegatus. 69. decem ad ecclesias. a quibus usque ad nos auctoritas veracium scripturarum certis­ sima et notissima successione pervenit In his apocryphis etsi in­ venitur aliqua veritas. Marci. Etymologiae 6. Isidorus.45. nec patet patribus.7. Se­ cundus Marcus Graece scripsit. una ludae. 178 . Est enim eorum occulta origo. O que significa “apócrifo”? "Estes são os escritores dos livros sagrados. descartaram os restantes e reconhece­ ram somente quatro como autoridades. por ser médico na Grécia. são nomeados outros volumes apócrifos. os quais. Lucas. a autoridade das Escri­ turas verdadeiras. Ainda que nestes apócrifos se encontre alguma verdade. Mateus. isto é. endereça­ da aos hebreus. outros Clemente”. CAPÍTULO 7: O resto é apócrifo. mas alguns. a origem deles é desconhe­ cida. Muitos dizem que a última. dos quatro sustentáculos da arca e dos quatro animais em Ezequiel. Marcos. dos quais chegou até nós. os Santos Padres. porque aparecem duvidosos. Paulo escreveu catorze cartas. eruditissimo entre todos os evangelistas nas le­ tras gregas. re­ legado no exílio. à semelhança dos quatro rios do paraíso. ao qual dedicou também os Atos dos Apóstolos. De fato. não é de Paulo. em quarto lugar. se esforçaram mais em ordenar um conto que em urdir a verdade da história. 179 . falan­ do através do Espírito Santo. uma de Judas. escreveu o evangelho para o bispo Teófilo”. São ditos apócrifos. "Em tercei­ ro lugar. duas de Pedro. três de João. Por isso. O segundo foi Marcos. Quem escreveu o Apocalipse foi o apóstolo João na ilha de Patmos. redigiram para nossa instrução os preceitos e a regra do viver. todavia. João. isto é. neles não há ne­ nhuma autoridade canônica e justamente julga-se que eles não devem ser considerados obra daqueles aos quais são atribuídos. doutrina­ dos pelo Espírito Santo. segredos. em razão das muitas coisas falsas.CAPÍTULO 6: Os autores do Novo Testamento Muitos escreveram evangelhos. desprovidos de Espírito Santo. As cartas canônicas são sete: uma de Tiago. com sucessão totalmente certa e conhecida. dez para comunidades eclesiais e quatro para pessoas. Por último. foi João a escrever o evangelho. nem é clara aos Padres da Igreja. que escreveu o seu evangelho em he­ braico. O primeiro foi Mateus. Fora destes escritos. "alguns suspeitando que a escre­ veu Barnabe. que escreveu em grego. Lucas. evangelista potius quam propheta. In libro losue.Nam multa et sub nominibus prophetarum et recentiora sub no­ minibus apostolorum ab haereticis proferuntur. quia un­ xit utrumque. eo quod in eo egressae de Aegypto tribus enumerantur et XLII per eremum mansiones”^l Deutrus Graecum verbum est dissyllabum. quia in eo re­ plicantur ea quae in praecedentibus tribus diffusius dicta sunt. “Isaias.2. Isidonts. 72.2-6. nomia interpretatur lex. quasi secunda lex. ab exitu filio­ rum Israel de Aegypto.2. Exodus. cuius omne textum eloquentiae prosa incedit. Isidonts. 71. teucus volumen vocatur. Inde dictus est Deuteronomius. Liber ludicum dictus esta princi­ pibus qui iudicabant populum Israel. Penta enim Graece quinque. edidit librum suum. Inde dictus est malachim. utrique tamen ad Samuel referuntur. Numerorum liber voca­ tur. qui licet etiam historiam Saul et David contineat. quem Hebraei losue ben Nun dicunt. in.9-11. Leviticus. quae omnia sub nomine apocryphorum. 180 . 73. et interpretatur secundus. antequam reges essent in eodem populo. Latine regum interpretatur. eo quod in tristioribus rebus funeribusque adhibeantur. Malach Hebraice. Etymologiae 6. Isidorus. Canticum vero hexametro et pentametro versu discurrit.50-53. Genesis eo dicitur quod generatio saeculi in eo contineatur. eo quod levitarum ministeria et diversitatem victimarum exsequitur. Huic quidam compingunt historiam Ruth sub uno volumine. auctoritate canonica diligenti examina­ tione remota sunt”^\ Caput VIII: Ratio vocabulorum divinorum librorum “Pentateuchus a quinque voluminibus dicitur. Etymologiae 6. terra promissionis populo dividitur. quibus quadruplicem diverso metro composuit alphabetum. “Liber Samuel dictus est quia nativitatem eius et sacerdotium et gesta describit.2. Etymologiae 6. pro eo quod reges ludae et Israeiiticae gentis gestaque eorum per ordinem digerat”^^. leremias similiter edidit librum suum cum Threnis eius quos nos lamenta voca­ mus. O seu Cântico flui em verso hexámetro e pentámetro. foram privadas da autorida­ de canônica sob o nome de apócrifos. Deutrus é uma palavra grega dissílaba. antes que no mesmo povo aparecessem os reis. como se fosse uma segunda lei. publicou o seu livro.Com efeito. "Isaías. alguns anexam a história de Rute.serem usadas nas ocasiões mais tristes e nos fune­ rais. mas todas elas. 0 Levítico se chama assim porque expõe as funções dos levitas e a diversidade das vítimas. Dis­ to deriva o Deuteronômio. “O livro de Samuel foi assim chamado porque descreve seu nascimento. pelo fato que apresenta por ordem os reis de Judá e Israel. num único volume. CAPÍTULO 8: Significado dos nomes dos Hvros sagrados “O Pentateuco é chamado assim devido aos seus cinco volu­ mes. assim como suas gestas”. ambos são vinculados a Samuel. e teucus volume. que ungiu os dois. No livro de Josué. A este livro. Também Jeremias publicou um seu livro com seus Trenos. 0 Êxodo toma o nome da saída dos filhos de Isra­ el do Egito. Nas quatro séries de Lamentações Jeremias repete qua­ tro vezes as letras do alfabeto cada vez com metro diverso: 181 . e significa segundo. que os judeus chamam Josué ben Nun. pelo fato de . enquanto nomia significa lei. cujo texto procede todo em prosa poética. é dividida entre o povo a terra da promessa. evangelista mais que profeta. O hebraico Malach em latim significa dos reis. se bem que este livro contenha também a his­ tória de Saul e Davi. E assim o livro foi chamado malachim. Com efeito. O Gênese se chama assim porque nele é contida a gera­ ção do mundo. após exame acurado. penta em grego significa cinco. muitas coisas são publicadas pelos hereges sob os nomes dos profetas e recentemente sob os nomes dos apóstolos. O livro dos Números é as­ sim chamado porque nele são enumeradas as tribos egressas do Egito e as 42 etapas pelo deserto”. sa­ cerdócio e gesta e. pois nele são retomadas aquelas coisas que nos três livros anteriores tinham sido apresentadas mais difusamente. 0 livro dos Juizes é as­ sim chamado por causa dos príncipes que julgavam o povo de Israel. que nós chamamos Lamentações. 599A). qui lo­ quitur non ad unum specialiter. 74. alphabeto texuntur.2. ecclesiam con­ gregat.quorum duo prima quasi sapphico metro scripta sunt. Idida. et Coeleth. ad libros Samuel et Malachim (PL 28. Nam in morem Romani Flacci et Graeci Pindari. “Hunc librum quinque incisionibus et uno psalmorum volumine comprehendunt"”. Is itaque iuxta numerum vocabulorum tria edidit volumina: pri­ mum. quae videlicet Parabolae in fine ab eo loco in quo ait: “Mulierem fortem quis in­ veniet”. 76. sed ad totam contionem populi. Graece Parabolae. 75. id est. Isidorus. Porro pacificus vocatus est. Isidorus.22-24. omnia heroico metro discurrunt Psalmorum liber Graece Psalterium. heroi­ cum comma concludit Tertium alphabetum trimetro scriptum est. quia tres ver­ siculos qui sibi nexi sunt et ab una tantum littera incipiunt. media autem ipsius ab eo loco quo ait: ‘Pereat dies in qua natus sum’. 77. Ecclesiastes autem Graeco sermone appellatur. Praef.2. et a ternis litteris idem terni versus incipiunt Quartum alphabetum simile primo et secundo habetur'’^\ Ezechiel principium et finem obscuriora habet Unum est volumen duodecim prophetarum. dilectum Domini.14. ut testatur Hieronymus. eo quod in ipso sub comparativa similitudine fi­ guras verborum et imagines veritatis ostenderit. id est. eo quod in regno eius pax fuerit. trimetro vel tetrametro incedentes”^^ "Tribus nominibus vocatum esse Salomonem scriptura ma­ nifestissime docet. Isidorus. usque ad eum locum. Ecclesiasten. Latine Prover­ bia inscribitur.17. losephus et Eusebius Caesariensis. qui coetum. 182 ■■-i 15 . quod Hebraice masloth.21. Etymologiae 6. Etymologiae 6. ‘idcirco ego me reprehen­ do et ago paenitentiam'. Latine organum dicitur. id est. quia eum dilexit Dominus. nunc alii iambo currunt. nunc sapphico nitent. Ideo autem vocatur Psalterium quod uno prop­ heta canente ad psalterium. quem nos nuncupare possumus contionatorem.2. "Principia et fines libri lob apud Hebraeos prosa oratione contexta sunt. Etymologiae 5. sed Esdras pos­ tea ordinavit "Omnes autem Psalmi et Lamentationes leremiae et omnia ferme scripturarum cantica apud Hebraeos metrice composita sunt. Psalmos David composuit. Hieronymus. chorus consonando responderit””. Orígenes. Hebraice nabla. em correspondência ao número de seus nomes. sempre ritmando em trímetro ou tetrámetro". "O início e o fim do livro em hebraico de Jó são urdidos em prosa. Fdida. “A Escritura nos ensina manifestamente que Salomão foi in­ dicado com três nomes. se concluem com um verso heróico. Orígenes. 183 . O livro de Ezequiel apresenta um início e um fim bastante obscu­ ros. pois de fato 0 Senhor o amou. em latim Provérbios. os três versos começam com a mesma letra. o coro responde ao uníssono”. em grego Parábolas. porque congrega a as­ sembléia.nas primeiras duas séries alfabéticas as lamentações são escritas em verso sáfico. O livro dos Salmos em grego se diz Salterio. que Esdras sucessivamente organizou. “Este livro é dividido em cinco partes que formam um só Livro dos Salmos”. É chamado Saltério porque. De fato. a Igreja. escreveu três volumes: o primeiro. pois nele Salomão mostra sob semelhanças comparativas as figuras das palavras e as imagens da verdade. É chama­ do Eclesiastes. Foi Davi quem compôs os salmos. enquan­ to um profeta canta sozinho com a harpa. em latim organum. porque os primeiros três versos. pois fala não a uma pessoa em particular. e Qohelet. Salomão foi chamado pacífico. Os doze profetas menores são recolhidos num só volume. José e Eusébio de Cesaréia. em hebraico nabia. isto é. Mas o meio escorre em verso heróico a partir da passa­ gem que diz. “Pereça o dia em que nasci” até à passagem onde se diz: “Por isso me arrependo e faço penitência”. Ele. em terminologia grega. conexos entre si e iniciantes sob uma única letra. isto é. que em hebraico se chama Masloth. Eclesiastes. isto é. amado do Senhor. seguin­ do o costume do romano Flaco e do grego Píndaro. mas a toda uma reu­ nião de povo. A quarta série alfabética é considerada semelhante à primeira e à segunda”. ora resplandecem em verso sáfico. nós poderiamos chamá-lo pregador. Na terceira série cada letra do alfabeto introduz um ter­ ceto. A partir da passagem onde se diz: "Quem encontrará a mulher forte” estas Parábolas são urdidas através de letras do alfabeto. como atestam Jerónimo. Por fim. ora alguns destes textos fluem em verso jâmblico. porque no seu reinado senhoreou a paz. "Todos os Salmos e as La­ mentações de Jeremias e certamente todos os cânticos das Escrituras dos judeus foram compostos em verso. La­ tine Contionator dicitur. 80. quia ea quae in lege vel regum libris. vel omissa vel non plene relata sunt. sicut in Proverbiis. Secundus. tertium. Cantica canticorum. id est. ad libros Samuel el Malachim (PL 28. 184 . Hieronymus. In Proverbiis parvulum docet et.599B). et philosophi suos sectatores erudiunt. Graece Ecclesiastes. id est. quod interpretatur verba dierum. “Paralipomenon Graece dicitur. sed caduca et brevia universa quae cernimus. quod nos praetermissorum vel reliquorum dicere possumus. Hieronymus.2. Haud procul ab hoc ordine doctrina­ rum. quod significantius chronicon totius divinae historiae possumus appellare”“”. Etymologiae 6. Hunc secundum LXX interpretes catholica ec­ clesia non legit. quod Hebraice coeleth. Isidorus. Daniel ma­ xime et Esdras propheta et una pars leremiae. quasi ad totam contionem et ecclesiam dirigatur. per sententias erudit. in isto summatim ac breviter explicantur”’®. Praef. ad libros Samuel et Malachim {PL 28. ut primum ethicam doceant. quod est quasi epithalamium. Praef. sira syrin. lob quoque cum Arabica lingua plurimam habet societatem.599B). Hebraicis quidem litteris. quem in his profe­ cisse perspexerint. "Hic Hebraice dicitur. sed Chaldaico sermone conscripti sunt.sicut Lamentationes leremiae et cetera quaedam scripturae can­ tica. carmen nuptiale Christi et ecclesiae. nec hymnum trium puero­ rum. Ad extremum iam consummatum virum et calcato saeculo praeparatum. ne quicquam in mundi rebus putet esse perpetuum. secundum. 78. Daniel apud Hebrae­ os nec Susannae habet historiam. et.18-20. eo quod sermo eius non specialiter ad unum. Liber Esdrae unus est. unde et ad filium ei crebro ser­ mo repetitur. sed ad universos generaliter. In Ecclesiaste vero maturae virum aetatis instituit. deinde physicam interpretentur. ad theologiam usque perducant”^^ Daniel apud Hebraeos non inter prophetas sed inter hagiographos habetur. eo quod multum a veritate discordet. 79. qua­ si de officiis. in Cantico canticorum Sponsi iungit amplexibus. nec Belis draconisque fabulas. tertius et quartus apocrypha sunt. in quo eiusdem Esdrae Nehemiaeque sermones sub uno volumine continentur. dabrehiamin. que de uma maneira mais significati­ va podemos traduzir por crônica de toda a história sagrada". porque o seu dis­ curso não se dirige específicamente a uma pessoa. “Este livro em hebraico é chamado dabrehaimin. Não lon­ ge desta ordem de ensinamento procedera os filósofos pagãos na instrução de seus seguidores. 0 segundo livro se chama em hebraico Qohelet. porque neste livro são explicadas brevemente e sumariamente aquelas coisas que foram omitidas ou não plenamente relatadas nos livros da Lei e dos Reis”. porém. nem as fábulas de Bel e do dragão. como nos Provérbios. Daniel é considerado pelos judeus não um profeta mas um hagiógrafo. conduzem-no até a teologia. em grego Eclesiastes. mas com letras hebraicas. No texto hebraico o li­ vro de Daniel não contém a história de Susana. Cântico dos Cânticos. um canto nupcial entre Cristo e a Igreja. Salomão entrega aos amplexos do Esposo o ho­ mem que. como a toda a assembléia ou igreja. depois indagam a física e finalmente. de modo que primeiro ensinam a ética. nem o cântico dos três meninos. que significa palavras dos dias. breves e caducas. em um único volume. são contidos os discursos do mesmo Esdras e de Neemias. já é perfeito e pronto. Também Jó tem muito em comum com a língua árabe. isto é. O livro de Esdras é um só. 185 . No Eclesias­ tes. porque esta discorda muito da verdade. ele instrui o homem de idade madura para que nada considere perpétuo nas coisas do mundo. Nos Provérbios Salomão ensina a um menino e o instrui em seus deveres mediante sentenças. Grande parte de Daniel e do profeta Esdras e parte de Jeremias foram es­ critos em língua caldaica. depois de ter visto que 0 aluno fez progressos nelas. Sira syrin. 0 terceiro e o quarto livro são apócrifos. A Igreja católica não lê este livro segundo a tradu­ ção dos Setenta. no Cântico dos Cânticos. O se­ gundo. em latim pregador. é como um epitalamio. Por último. no qual. “Paralipômenon em grego é aquilo que nós podemos cha­ mar livro das coisas preteridas ou restantes. mas a todos em geral. no desprezo do mundo.à semelhança das Lamentações de Jeremias e alguns outros cân­ ticos da Escritura. isto é. e por isso o discurso lhe é repetido continuamente como se fosse a um filho. mas considere todas as coisas que vemos. O terceiro livro. Isidorus. 83. non Ecclesiasti­ cum ut apud Latinos.597A-B). Hieronymus. 186 .2. specialiter tamen libri Moysi quinque lex dicuntur. Fraef.1307B-1308A). ita viginti duo volumina supputantur. non auctoritatem ecclesias­ ticorum dogmatum confirmandam”“.2. Quidam historiam Ruth et Lamentationes leremiae seorsum per se inter hagiographa computantes. ad libws Samuel et Malachim (PL 28. 84. Hieronymus.Liber qui Sapientia Salomonis inscribitur ideo Sapientia vo­ catur. Isidorus. Etymologiae 6. sic et haec duo volu­ mina legat ad aedificationem plebis.. XXIV veleris legis libros numerant sub figura et numero XXIV seniorum. Etymologiae 6. ad tibros Samuel et Malachim (PL 28. 81. ut similitudinem Sa­ lomonis. quorum priorem Hebraicum repperi. tenera adhuc et lactens viri iusti eruditur infantia”“. sed Parabolas praenotatum. ita ge­ neraliter totum Novum Testamentum evangelium dici potest. Liber lesu filii Sirach ideo Ecclesiasticus dicitur. Secundus apud Hebraeos nusquam est. quia et ipse stylus Graecam eloquentiam redolet Et nonnulli scripto­ rum veterum hunc esse ludaei Philonis affirmant Sicut ergo ludith et Tobi et Machabaeorum libros legit quidem eos ecclesia. non solum librorum numero.32. sed etiam materiarum ge­ nere coaequaret. et hos duos praecedenti­ bus XXII addentes. “quia in eo Christi adventus qui est Sapientia Patris et passio eius evidenter exprimitur”®'. sed inter canonicas scripturas non recipit. “Quomodo igitur viginti duo elementa sunt per quae Hebrai­ ce scribimus omne quod loquimur. qui in Apocalypsi Agnum adorant Caput IX: De Novo Testamento Sicut omnis scriptura Veteris Testamenti large lex appellari potest. quibus quasi litteris et exordiis in Dei doctrina. Praef. et eorum initiis vox humana comprehenditur.30. 82. et alius pseudographus qui Sapientia Salomonis ins­ cribitur. Cui iuncti erant Ecclesiastes et Canticum canticorum. “quod de totius ecclesiae disciplina religi­ osae conversationis magna cura et ratione sit editus"“ De his duobus Hieronymus sic dicit: “Fertur Panaeretus lesu filii Si­ rach liber. pois o próprio estilo evoca o modo grego de falar. como através de letras e exordios na doutrina de Deus. e um outro livro apócrifo intitulado Sabedoria de Salomão. do mesmo modo que a Igreja lê os livros de Judite. toda a Escritura do Velho Testamento pode ser chamada Lei. computando a história de Rute e as Lamentações de Jeremias como livros à parte a serem inseridos no número dos hagiógrafos. “porque foi escrito com grande cura e inteligencia sobre a disciplina do comporta­ mento religioso de toda a Igreja”. "porque nele era maneira clara é ex­ presso o advento de Cristo. 187 . E al­ guns dos antigos escritores dizem que este livro é do judeu Fi­ lon. a infância ainda tenra e lactante do homem justo é instruída" Alguns.o livro que tem o nome de Sabedoria de Salomão se chama simplesmente Sabedoria. pelos quais. intitulada Parábolas. de Tobias e dos Macabeus. segundo a figura e o nú­ mero dos 24 anciãos que no Apocalipse adoram o Cordeiro. leia também estes dois volumes para a edificação da plebe e não para confirmar a autoridade dos dogmas eclesiásticos”. mas também no tipo de ar­ gumento. em sentido amplo. mas de maneira especial são chamados Lei os cinco livros de Moisés. O livro de Jesus filho de Sirac é chamado Eclesiástico. “Assim como há vinte e duas letras com as quais escrevemos em hebraico tudo aquilo que falamos e que constituem as bases pelas quais a voz humana é entendida. que é a Sapiencia do Pai". CAPÍTULO 9: O Novo Testamento Como. Do primeiro eu tenho uma versão em hebraico. para ter semelhança com Salomão não somente no número dos livros. A este eram anexados um Eclesiastes e um Cântico dos Cânticos. assim todo o Nova Testamento pode ser considerado em geral Evangelho. O segundo não se encontra entre os judeus em lugar algum. não Ecle­ siástico como nos latinos. contam 24 livros do Velho Testamento. do mesmo modo se con­ tam vinte e dois livros. Todavia. Sobre estes dois diz Jerónimo: "Circula um livro Fanaretus de Jesus filho de Sirac. e acrescentando-os aos precedentes 22 livros. sern considerá-los escritos canônicos. cui subiecta est area. ut Vetus Testamentum secundum lit­ teram intellectum. Marcus. quintus. in tertio. qui reliquorum evangelistarum similia dixerint. in quibus singuli eorum propria quaedam dixerunt. in quibus tres. Matthaei scilicet et Marci et Lucae atque loannis. in quibus tres. Marcus. 188 . Lucas. si est area prima. loannes. quem postea Eusebius Caesariensis secutus plenius composuit. Lucas. Caput X: De canonibus evangeliorum "Canones evangeliorum Ammonius Alexandriae primus ex­ cogitavit. assumes adiacentem numerum capituli. Marcus. Quorum expositio haec est. quartus. et sic per ordinem usque ad decimum pervenies.sed tamen specialiter quattuor illa volumina. quorum primus continet numeros in quibus quattuor eadem dixerunt. quae indicat in quoto canone po­ situs sit numerus. evangelium nuncupari meruerunt. quibus numeris subdita est area quaedam minio notata. Lucas. Marcus. Marcus. Evangeli­ um interpretatur bonum nuntium. quia aeterna bona promittit. si tertia. Matthaeus. in quibus facta et dicta Salvatoris plane explicantur. in primo canone. secundus. in quibus duo. si secunda. Lucas. nonus in quibus duo. loannes. Lucas. in quibus duo. in quibus tres. sextus. deci­ mus. Matthaeus. Qui ideo facti sunt. tertius. Per singulos enim evangelistas numerus quidam capitulis affixus adiacet. in quibus duo. Si igitur aperto quolibet evangelio placuerit scire. in quibus duo. loannes. in secundo. octavus. ut per eos invenire et scire possi­ mus qui reliquorum evangelistarum similia aut propria dixerunt Sunt autem numero decem. loannes. Marcus. Verbi gratia. septimus. non terrenam felicitatem. Matthaeus. loannes. Matthaeus. Lucas. Matthaeus. Matthaeus. dos quais o primeiro contém as passagens nas quais os quatro evangelistas Mateus. Lu­ cas e João disseram a mesma coisa. seguindo o. o quarto.mas de modo especial mereceram ser chamados “evangelho” aqueles quatro livros de Mateus. onde dois. o quarto. Marcos e João. ou seja. abrindo qualquer evangelho. Marcos e Lucas. isto é. que através deles podemos saber quais dos outros evangelistas disseram coisas semelhantes ou originais. nos quais são apresentados claramente os fatos e os ditos do Salvador. Ma­ teus e João. o sétimo. que posteriormente Eusébio de Cesaréia. onde dois. Marcos. como faz o Vclho Testamento en­ tendido na letra. Lucas e João. isto é. no segundo. se é terceiro no terceiro. o segundo contém as passa­ gens nas quais disseram a mesma coisa três evangelistas. João. não a felicidade terrena. pnde dois. você quiser saber qual dos outros evangelhos disse coi­ sas semelhantes. o nono. CAPÍTULO 10: Os cánones dos evangelhos Amonio de Alexandria foi o primeiro que pensou os cânones {elencos. Se. portanto. Marcos. se este campo é o primeiro. onde dois: Lucas e Marcos. e assim na ordem chegará até o décimo. onde dois. Mateus. 0 oitavo. o décimo é o cânon com as passagens nas quais cada evangelista falou algumas coisas próprias. Lucas. o quinto. Mateus. onde dois: Mateus e Marcos. quer dizer. se é 0 segundo. A apresentação destes cânones é a seguinte. Estes cânones foram elaborados de maneira tal. 189 . Por exemplo. Lucas e João. e debaixo destes números se encontra um cam­ po marcado em vermelho. Mateus. onde disseram a mesma coi­ sa três. o qual indica em qual cânon é colocado 0 número debaixo do qual está o campo. Para cada evan­ gelista. o terceiro. Marcos e Lucas. onde foram tam­ bém três. Estes cânones são dez. porque promete os bens eter­ nos. pegue o número ao lado de cada seção do texto. tabelas) dos evangelhos. Evangelho significa bom anúncio. Marcos e Lucas. aquele número se encontra no primeiro câ­ non. organizou melhor. 0 sexto. um determinado número é afixado ao lado de uma peque­ na seção do texto. quod recte ducit. vel quod regat. secundum.14. Ipse enim dedit facultatem Christianis libere congregari. quia non erat licentia episcopis in unum convenire. vel quod normam recte vi­ vendi praebeat. Latine regula nuncupatur. Et ita demum in corpore. Consubstantialem Deo Patri Deum Filium eadem sancta synodus per symbolum definivit.16. Isidorus. 190 . iuxta fidem evangelicam et apostolicam. Secunda synodus. quae ex ipsis numeris indicantur.et requires ipsum numerum in suo canone quem indicat. Etymologiae 6. docendarum plebium minime dabatur facultas.15. vel quod distortum pravumque quid corrigat Canones autem generalium conciliorum a temporibus Cons­ tantini coeperunt In praecedentibus namque annis. CL patrum sub Theodosio seniore Constantinopolim congregata est. 86. inquisita loca. Sub hoc etiam sancti patres in concilio Nicaeno de omni orbe terrarum convenientes. in qua Arianae perfidiae condemnata blasphemia. Inde christianitas in diversa haeresi scissa est. nec aliquando aliorsum trahit Alii di­ xerunt regulam dictam.1. Harum prior Nicaena synodus trecentorum decem et octo episcoporum Constantino Augusto imperante peracta est. vel totidem paradisi flumina. symbolum tradiderunt”“®. per singula evangelia de eisdem dixisse inven¡es”®^ Caput XI: Dc canonibus conciliorum "Canon autem Graece. quae Macedonium Spiritum Sanc­ tum negantem Deum esse condemnans. persecutio­ ne fervente. quam de inaequalitate sanctae Trinitatis idem Arius asserebat. Regula au­ tem dicta. 85. post apostolos. ibique invenies qui et quid dixerint. quasi evange­ lia. nisi tempore supradicti imperato­ ris. Etymologiae 6. Caput XII: Quattuor esse principales synodos "Inter cetera autem concilia quattuor esse venerabiles syno­ dos quae totam principaliter fidem complectantur. Isidorus. se reuniu em Constantinopla sob Teodoro o Grande. CAPÍTULO 12: São quatro os sínodos principais "Entre os vários concilios. Por esta razão. sem nunca induzir para outra direção. com efeito. Também sob ele. Outros disseram que a regra foi chamada assim ou por­ que rege ou porque proporciona a norma do viver em retidão ou porque corrige algo que está distorcido e errado. CAPÍTULO 11: Os cãnones dos concilios O termo grego cãnon é chamado em latim reçra. deram o segundo símbolo depois dos apóstolos.e procure este número no canon que ele indica. demonstrou que o Espírito Santo é 191 ■pí'. E assim. Destes. a cristandade se dividiu em diversas heresias. através de um símbolo. e lá encontrará quem e o que disseram. dado que os bispos não tinham a permissão de reunir-se. O segundo sínodo. definiu Deus Filho con­ substanciai a Deus Pai. porque conduz reto.'i . de 150 Padres. Os cânones dos concilios gerais começaram nos tempos de Constantino. e. ■’. condenando Macedonio que negava o Espírito Santo ser Deus. você encontrará em cada evangelho quem tratou das mesmas coisas. após ter inquirido as seções que são indicadas por estes números. a não ser nos tempos do citado imperador. convergindo para o Concilio de Nicéia de todos os can­ tos da terra. Este deu aos cristãos a pos­ sibilidade de reunir-se livremente. os Santos Padres. não se dava alguma possibilidade de doutrinar as plebes. o pri­ meiro sínodo realizado foi o sínodo de Nicéia com trezentos e dezoito bispos sob o reinado do imperador Constantino. ardendo a perse­ guição. e nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana. A regra se chama assim. são quatro os veneráveis sínodos que de maneira especial abrangem toda a fé. que o próprio Ario afirmava sobre a não igualdade da santa Trindade. como se fossem quatro evangelhos e outros tantos rios do paraíso. Nos anos anteriores. se­ gundo a fé evangélica e apostólica. O mesmo santo sínodo. Hae sunt quattuor synodi principales.5-12. Tertia synodus. nam cilia oculorum sunt. coetus vel concilium. dans symboli formam. Unde et conventus est nuncupatus. quam tota Graecorum et Latinorum confessio in ecclesiis praedicat.consubstantialem Patri et Filio Spiritum Sanctum demonstra­ vit. 192 . Sed et si qua sunt concilia quae sancti pa­ tres Spiritu Dei pleni sanxerunt. ut in eo substantiam et di­ vinae et humanae confiteamur naturae. com­ munique intentione tractabant. Coetus vero conventus est vel congregatio a coeundo. Quarta synodus Chalcedonensis DCXXX sacerdotum sub Marciano principe habita est. conveniebant omnes in unum. d in 1 littera transeunte. id est. CC episcoporum sub luniore Theodosio Augusto edita est.16. quorum gesta in hoc opere continentur condita. [sidorus. Tempore enim quo causae agebantur. iusto anathemate condemnavit. Unde et concilium a communi intentione dictum quasi consilium. Unde et considium consilium. una patrum sententia praedamnavit. Synodum autem ex Graeco interpretari comitatum vel coe­ tum. a societate multorum in unum''*^ 87. Elymologiae 6. Concilii vero nomen tractum ex more Romano. et eius defensorem Dioscorum qucndam Alexandrinum episcopum. Verbi Dei et carnis unam naturam pronuntian­ tem. post istarum quattuor auctori­ tatem omni manent stabilita vigore. fidei doctrinam ple­ nissime praedicantes. praedicans eadem synodus Christum Deum sic natum de Virgine. convenien­ do in unum. in qua Eutychem Constantinopolitanum abbatem. quae Nestorium duas personas in Christo asserentem. osten­ dens in duas naturas unam Domini lesu Christi personam. sicut conventus. et ipsum rursum Nestorium cum reliquis haereticis. Ephesina prima. um certo Dióscoro. reunião ou concilio receberam este nome da união de muitos para um objetivo comum”. Estes são os sínodos principais que anunciam plenamente a doutrina da fé. convergindo para uma coisa. O termo grego sínodo significa em latim comitatus (compa­ nhia) ou coetus (reunião). Concilio pode ser variante de considium (congresso). estes outros concilios permanecem sólidos com toda a força em virtu­ de da autoridade daqueles quatro. o qual afirmava que o Ver­ bo de Deus e a sua carne formavam uma só natureza. bispo de Alexan­ dria. Coetus significa convenção ou congregação do verbo coeundo (indo juntos). e estabeleceu haver uma só pessoa do se­ nhor Jesus Cristo em duas naturezas.consubstancial ao Pai e ao Filho. ratificaram. O mesmo sínodo estabeleceu que Cristo Deus tinha nascido da Vir­ gem para que reconhecéssemos nele a substância seja da nature­ za divina seja da natureza humana. o qual afirmava haver em Cristo duas pessoas. ocorreu com 630 sacerdo­ tes sob o imperador Marciano. dando forma ao símbolo. como também de novo Nestório e os outros hereges. 193 . e condenou por unanimidade o abade constantinopolitano Êutiques. isto é. e os seus feitos se encontram fundados na obra daqueles. mudando o d em I. que toda a confissão dos gregos e dos latinos anuncia nas igrejas. O termo conciliam (concilio) é tirado do costume romano. todos se reuniam juntos e tratavam de comum acordo. assenso ex­ presso pelas sobrancelhas) dos olhos. o de Calcedonia. repletos de Espírito de Deus. con­ denou com justo anátema Nestório. o concilio foi chamado também consilium (conselho). se realizou com a presença de 200 bispos sob Teodósío Augusto Júnior. como fossem as cilia (sobrancelhas. que é o primeiro de Éfeso. Esta é a razão por que os termos congresso. E mesmo que houver outros concilios que os Santos Padres. No tempo em que eram travados processos. 0 quarto sínodo. e com ele condenou o seu defensor. A partir deste consenso comum. O terceiro sínodo. Beda. 90.48. Apocalypsis ex Graeco in Latinum revela­ tio interpretatur. cuius vitam Eusebius Caesari­ ensis conscripsit. Isidorus. Epistulae cano­ nicae. Etymologiae 6. Basiiius Cappadocenus episcopus. Orígenes in scripturarum labore tam Graecos quam Latinos operum suorum numero superavit Denique Hieronymus sex milia librorum eius legisse fatetur. ecclesi­ asticos scriptores toto orbe quaerentes.2. sed univer­ sis gentibus generaliter scriptae sunt”®®. Hilarius Pictaviensis episcopus. regulares. eo* rumque studia in uno voluminis indiculo comprehenderunt”®“.2. missa interpretatur Latine. Isidorus. Hic enim in bibliotheca sua prope triginta milia voluminum habuit. Etymologiae 6. Leo papa. et Gre­ gorius Nazianzenus episcopus. Procu­ lus.7. Isidorus Hispalensis. Sedulius. Hieronymus presbyter. Caput XIV: Quae scripturae sint authenticae "De nostris apud Graecos. Isidorus.2. Etymologiae 6. Gregorius Theologus.46. universales. Etymologiae 6. "quia non uni tantum populo vel civitati. Cyprianus martyr et Carthagini­ ensis episcopus. quae etiam dicuntur catholicae.6. Theophilus Alexandrinus episcopus. 91. et apostolorum gesta narrant unde etiam Actus apostolorum vocantur. 88. et nascentis ecclesiae his­ toriam digerunt. id est. Cyrillus Alexandrinus. Orígenes. "Actus apostolorum pri­ mordia fidei Christianae in gentibus. 194 . cui­ us scripta nec omnino refutat nec per omnia recipit ecclesia.Epistula Graece. iuxta quod ipse loannes dicit: "Apocalypsis lesu Christi.1. Hieronymus quoque atque Gennadius. quam dedit Deus palam facere servo suo Ioanni”®^ Caput XIII: Qui bibliothecas fecerint "Apud nos Pamphilus martyr. loannes Constantinopolitanus episcopus. Ho­ rum tamen omnium studia Augustinus ingenio vel scientia sui vicit Nam tanta scripsit. ut diebus ac noctibus non solum scribe­ re libros eius quisquam. 89. Prosper. id est. Ambrosius Mediolanensis epis­ copus. sed nec legere quidem occurrat”®\ Scripserunt et alii catholici viri multa et insignia opera: Athana­ sius Alexandrinus episcopus. Isidorus. ordine persecuti sunt. Pisistratum in sacrae bibliothecae studio adae­ quare contendit. Orosius. e também narram os fei­ tos dos apóstolos. missiva). o presbítero Jerónimo. mas em geral para todos os povos”. Próspero. Agostinho venceu por engenho e conhecimento o zelo de todos eles. Orígenes superou os gregos e os latinos no trabalho literário pelo número de suas obras. cujos escritos não são nem aprovados nem rejeitados pela Igreja. universais. Isidoro de Espanha. 195 .A palavra grega Epístola em latim significa missa {carta. de quem Eusébio de Ce. "porque foram escritas não para um povo ou uma cidade. mas apenas lê-los”. Orósio. Gregorio o teólogo. o papa Leão. As Epístolas canônicas. O termo grego apocalipse em latim significa revelação. segundo o que diz 0 próprio João: “Apocalipse (Revelação) de Jesus Cristo que Deus concedeu manifestar ao seu servo João”. Cirilo de Alexandria. Ele escreveu tantas obras que a ninguém é possível durante dias e noites não somente copiar os livros dele. João bis­ po de Constantinopla. de onde são chamados Atos dos Apóstolos. Ambrosio bispo de Milão. Jerónimo con­ fessa de ter lido seis mil livros dele. CAPÍTULO 13: Os fundadores das bibliotecas "O mártir Panfilo. "Os Atos dos Apóstolos explicam os primordios da fé cristã entre os pagãos e a história da Igreja nascente. Beda. Hilário bispo de Poitiers.saréia compôs a biografia. Também Jerónimo e Genádio. CAPÍTULO 14: Quais Escrituras são autênticas “Entre os nossos. fizeram uma pesquisa metódica e resumiram os trabalhos deles num índice de um volume”. Basilio bispo de Capadócia. procurando escritores eclesiásticos no mundo todo. regulares. Próculo. Gregorio bispo de Nazianzo. Orígenes. isto é. se chamam também católicas. isto é. Todavia. fez de tudo entre nós para igualar Pisistrato no interes­ se pela biblioteca sagrada. Ele teve em sua biblioteca quase trinta mil volumes. Sédulo. Cipriano mártir e bispo de Cartago. Também ou­ tros homens católicos escreveram muitas obras insignes: Atanásio bispo de Alexandria. Teófilo bispo de Alexandria. ct interpretatus est quasdam scripturas. • Liber De nativitate Salvatoris et de sancta Maria. luvencus. Uber Ponlifícalis.5. Et Rufinus multos libros edidit. . et tractatus in mo­ dum Ambrosii. etiam sa­ cramentorum praefationes et orationes et epistulas fidei’’’^ Di­ onysius Areopagita. libri VIII apocryphum. illa senti­ re debemus quae Hieronymus"’^ "Gelasius etiam fecit libros quinque adversus Nestorium et Eutychem. • Evangelia nomine Barnabae apostoli apocrypha. ve! De obstetrice Salvatoris apocryphus. non usquequaque ecclesia catholica refutat"’\ Cassiodorus quoque. "sed quoniam beatus Hie­ ronymus in aliquibus eum de arbitrii libertate notavit.Prudentius. • Evangelia Thaddei nomine apocrypha. Decretum Gelasianum 4.232-236. pars prior 51. quamvis in pri­ mo narrationis suae libro tepuerit. “Itera Chronica Eusebii Caesarien­ sis atque eiusdem historiae ecclesiasticae libros. qui in explanatione Psalmorum satis utile opus scripsit.196 . Caput XV: Quae sint apocryphae • “Itinerarium nomine Petri apostoli. quod appellatur sanc­ ti Clementis. quae ad instructionem pertinet. 92. • Evangelia nomine Andreae apostoli apocrypha. Sunt adhuc alii quorum nomina hic taceo. episcopus ordinatus Corinthiorum. 94. 92. • Actus nomine Andreae apostoli apocryphi. multa ingenii sui volumina reliquit. • Evangelia quae falsavit Lucianos apocrypha. Item libros duos adversus Arium fecit. • Actus nomine Thomae apocryphi.5. Arator. prop­ ter rerum tamen singularem notitiam. Decretum Gelasianum 4. et post in laudibus atque ex­ cusatione Origenis schismatici unum conscripserit librum. • Evangelia nomine Thomae apostoli apocrypha. • Evangelia quae falsavit Ytius apocrypha.242-246. • Liber De infantia Salvatoris apocryphus. “Com relação à Crôni­ ca de Eusébio de Cesaréia e aos seus livros de História eclesiás­ tica. E temos ainda Cassiodoro. todavia. Também Rufino publicou muitos li­ vros e traduziu alguns escritos. • Evangelhos sob o nome do apóstolo André: apócrifos. • Evangelhos sob o nome do apóstolo Barnabé: apócrifos. e alguns livros no estilo de Ambrosio. orações e cartas sobre a fé”. • Livro sobre a natividade do Salvador e de Santa Maria. em oito livros: apócrifo. CAPÍTULO 15: Quais escritos são apócrifos • Itinerário sob o nome do Apóstolo Pedro. ■ Atos sob 0 nome de Tomé: apócrifos. a Igreja católica de qualquer lugar não os rejeita”. Arator. deixou muitos livros como obra do seu engenho. "mas.^ ■ Atos sob o nome do apóstolo André: apócrifos. nós devemos concordar com Jerónimo". que escreveu uma obra muito útil na explicação dos Sal­ mos. Dionisio 0 Aeropagita. ií ' Evangelho falsificado por ício: apócrifos. as­ sim como prefácios dos sacramentos. • Evangelhos sob o nome de Tadeu: apócrifos. dito de São Cle­ mente. • Evangelhos falsificados por Luciano: apócrifos. dado que o venerável Jeró­ nimo 0 criticou em alguns pontos sobre a liberdade de arbítrio.Prudencio. cujos nomes aqui silencio. "Também Gelásio escre­ veu cinco livros contra Nestório e Êutiques. Jovenco. em razão do acurado conhe­ cimento das coisas que servem para a nossa instrução. Há ainda outros. ou sobre a Parteira do Salvador: apócrifo. ordenado bispo dos corintios. • Livro sobre a infância do Salvador: apócrifo. . Compôs também dois livros contra Ario. 197 í'-' . • Evangelhos sob o nome do apóstolo Tomé: apócrifos. ainda que em seu primeiro livro de história estivesse um pouco fraco e depois tivesse composto um livro em louvor e de­ fesa do cismático Orígenes. Liber qui appellatur Actus Theclae et Pauli apocryphus. et sancti Sixti nomine signatus. Liber canonum apostolorum apocryphus. 198 . Liber qui appellatur Sors apostolorum apocryphus. Liber qui appellatur Transitus sanctae Mariae apocryphus. Liber qui appellatur Poenitentia Cypriani apocryphus. Historia Eusebii Panphili apocrypha. Liber qui appellatur Fundamentum apocryphus. Opuscula Posthumiani et Calli apocrypha. Centimetrum de Christo Vergilianis compaginatum versiibus apocryphum. Revelatio quae appellatur Pauli apocrypha.Liber qui appellatur Pastoris apocryphus. Liber Physiologus ab haereticis conscriptus. Liber qui appellatur Nepotis apocryphus. apocryphus. Liber qui est De filiabus Adae vel Genesis apocryphus. Revelatio quae appellatur Stephani apocrypha. Opuscula Tertulliani sive Africani apocrypha. Liber Proverbiorum ab haereticis conscriptus. Liber qui appellatur lamne et Mambre apocryphus. Liber qui appellatur Testamentum lob apocryphus. Liber Lusan apocryphus. qui post diluvium cum dra­ cone ab haereticis pugnasse perhibetur apocryphus. Revelatio quae appellatur Thomae apostoli apocrypha. Liber qui appellatur Thesaurus apocryphus. Liber qui appellatur Poenitentia Origenis apocryphus. Liber Diogiae nomine gigantis. et beati Ambro­ sii nomine praesignatus. Liber qui appellatur Poenitentia Adam apocryphus. Libri omnes quos fecit Leucius discipulus diaboli apocryphi. apocryphus. Livro Lusan. Revelação chamada De Estêvão: apócrifa. Livro dos Cânones dos apóstolos: apócrifo. Os Cem versos sobre Cristo. Livro chamado Atos de Tecla e de Paulo: apócrifo. Livro chamado Das filhas de Adão ou Gênese: apócrifo. apócrifo. Livro chamado Sorte dos Apóstolos. apócrifo. chamado o Gigante. Livro chamado Testamento de Jó* apócrifo. História de Eusébio Panfilo: apócrifa. Todos os livros escritos por Lúcio. Livro dos Provérbios composto por heréticos e intitulado com 0 nome de São Sisto: apócrifo. Livro chamado Penitência de Cipriano: apócrito. Livro chamado Do sobrinho: apócrifo. Livro chamado O tesouro: apócrifo. Revelação chamada Do apóstolo Tomé: apócrifa. filho do diabo: apócrifos. Livro chamado Trânsito de Santa Maria: apócrifo. Livro chamado O fundamento: apócrifo. Livro de Dionisio. 199 . Livro chamado Penitência de Adão: apócrifo.Livro chamado Do Pastor: apócrifo. organizados em versos virgilianos: apócrifo. que os hereges re­ presentam lutando com o dragão após o dilúvio: apócrifo. Opúsculos de Tertuliano ou o Africano: apócrifos. Opúsculos de Postumiano e Galo: apócrifos. Livro chamado lame e Mambre: apócrifo. 0 livro Fisiólogo escrito por hereges e intitulado com o nome do venerável Ambrosio: apócrifo. Livro chamado Penitência de Orígenes: apócrifo. Novatus. Sabellius. Passio Georgii apocrypha. Calixtus. Faustus. Lampedius. Opuscula Frumenti apocrypha. Decretum Gelasianum 5. Photinus et Bonosus. Philacteria omnia quae non ab angelo. Opuscula Fausti Reginensis Galliarum apocrypha. Priscillianus ab Hispania. Maximia­ nus. Passio Cyrici et luHttae apocrypha. Valenti­ nus sive Manichaeus. e quibus unus Alexandriam. verum etiam ab omni catholica et romana ecclesia eliminata. Cherinthus. Donatus et Eustachius.263-5.Opuscula Montani et Priscillae et Maximillae apocrypha. Apollinaris. Dioscorus. 200 . Euticius. Haec et his similia quae Simon Magus. Basilides. Et dictus codex per translationem a codicibus 95. lulianus et Laciensis. quorum nomina minime retinemus. indissolubili vin­ culo in aeternum confitemur esse damnata”^^ Caput XVI: Etymologiae (juaedam ad lectionem pertinentium “Codex multorum librorum est. Arius. Epistula lesu ad Abgarum apocrypha.^53. Sabatius. ut illi confingunt. atque cum suis auctori­ bus auctorumque sequacibus sub anathematis. Eunomius. Nibianus. Macedonius. Scripta quae appellantur Salomonis contradictio apocrypha. sed magis a daemone conscripta sunt apocrypha. Montanus quoque cum suis obscenissimis sequacibus. necnon et omnes haereses quas ipsi eorumque discipu­ li sive schismatici docuerunt vel scripserunt. Pelagius. Petrus et alius Petrus. alius Antiocham maculavit. Achatius Constantinopolitanus cum consorti­ bus suis. Ebion. Omnia opuscula Fausti Manichaei apocrypha. Paulus etiam Samosatenus. non solum repudiata.11. Opuscula Victorini Pictaviensis apocrypha.2. liber unius voluminis. Opuscula alterius Clementis Alexandrini apocrypha. Coelestinus. Marcion. Nicolaus. Opuscula Cassiani presbyteri Galliarum apocrypha. qui simili errore defecerunt. PrisciTiano de Espanha. • Opúsculos de Vitorino de Poitiers: apócrifos. • Todos os Filactérios. como também todos os hereges e os es­ critos que eles e seus discípulos ou cismáticos ensinaram ou es­ creveram. E o códice é assim chamado por translado a partir do tronco (codid) 201 . Eunômio. Dióscoro. Cerinto. Apolinário. • Opúsculos de Fausto de Riez. os quais caíram no mesmo erro. dos quais um ma­ culou Alexandria e o outro Antioquia. • Escritos chamados Contradição de Salomão: apócrifos. ñas Gálias. • Opúsculos de Cassiano presbítero das Gálias: apócrifos. Maximiano. • Paixão de Quirico e Julita: apócrifa. todos estes escritos os consideramos não apenas repudiados. Marcião. Lamédio. • Paixão de Jorge: apócrifa. Fotino e Bonoso.• Opúsculos de Montano. mas também elimina­ dos de qualquer Igreja católica e romana. Actásio de Constantinopla com suas mulheres. Nibiano. Ebião. Calisto. Celestino. mas por um demonio: apócrifos. o //yro de um só volume. apócrifos. que não foram escritos por um anjo. como eles inventam. cujos nomes apenas lembramos. Sabélio. Juliano e Laciendo. Estes escritos e os semelhantes compostos por Simáo Mago. Valentino ou Mani­ queu. Peiágio. Fausto. Novato. Pedro e o outro Pedro. Donato e Eustáquio. Basilides. • Epístola de Jesus para Abgar: apócrifa. Eutício. e condenados com anátemas para toda a eternidade em grilhão inquebrantável jun­ to com seus autores e com os seguidores dos autores. • Todos os opúsculos de Fausto Maniqueu: apócrifos. • Opúsculos Do trigo: apócrifos. • Opúsculos do outro Clemente de Alexandria: apócrifos. Sabácio. Paulo de Samósata. CAPÍTULO 16: Algumas etimologías úteis ao leitor “Um códice é formado de muitos livros. Priscila e Maximila: apócrifos. Ario. Nicolau. Macedonio. Montano com seus obscenissimos seguidores. Sermo autem dictus. Etymologiae 6. inde dictus est liber volumen”^l Scheda.2-5. quia quodammodo loquitur significationem subiectae dictionis. quod carptim papyri tegmen decerptum glutinatur. expositiones autem divinorum. postea Romae can­ dida membrana reperta sunt"®®. ut con­ ticescere est tacere”’“ 96. Unde et scriptores li­ brarios vocabant. quod ex se multitudinem li­ brorum quasi ramorum contineat.ls. 97. Isidorus. cuius diminutivum est schedula. Volumen dicitur a volvendo. Com­ mentaria dicta quasi cum mente. 100. ut commentaria juris vel evangel ii”®®. et necdum in libris redactum est”®^ "Chartarum usus primum apud Mem­ phim. “Hanc philosophi adverbium dicunt. Glossa Graecum est et interpretatur lingua. "Graecum nomen est Et dicitur scheda proprie quod adhuc emendatur.8. 98. quasi caudex.1. in quo antiqui ante usum char­ tae vel membranarum scribere solebant. Sunt enim interpretationes. cuius genera plura sunt Pergamenum dicitur a Pergamis. vel a comminiscor.8. et sic charta confi­ citur. Etymologiae 1. Isidorus. Uber est interior cortex arboris. civitatem Aegypti. sicut ubi verbum fit ad populum. Etymologiae 6. 99. Dialo­ gus est collatio duorum vel plurimorum quem Latini sermonem dicunt. verbi gratia. Isidorus.13. Etymologiae 6.14. quia vocem illam de cuius rc quaeritur uno et singulari verbo designat.arborum seu vitium.1.10. Etymologiae 6. Tractatus est unius rei multiplex expositio. Dicitur etiam membrana. Isidorus. Isidorus. quia ex membris pecudum detrahuntur. “Homilía dicitur quasi sermo popularis. ubi inventum est.30. 202 . Fie­ bant autem primum membrana lutei coloris. Dicunt quidam commenta appellanda gentilium librorum. quia seritur inter utrumque. inventus est Dicta autem charta. s antigos costumavam escrever antes do uso do papi­ ro ou dos pergaminhos. O termo glossa (glosa) em gre­ go significa língua. O termo pergaminho vem da cidade de Pérgamo. e o termo exposições com relação aos livros sagrados. do qual existem vários tipos. por exem­ plo. como se fossem ramos. porque é extraído dos membros das ovelhas. onde foi inventado. É chamada charfa (pa­ pel) porque a pele do papiro extraída em tiras é colada. e nele o. quando a pala­ vra é dirigida ao povo. como. porque é costurado {seritur) entre um e outro. chamado sermão {sefmo) em latim. Chama-se também membrana. “A palavra homilía significa sermão popular. como caule {caudex) que contém uma multidão de livros. O diálogo é uma discussão entre duas pessoas ou rnais. porque num certo sentido expressa o signifi­ cado da frase em discussão. O volume se diz de volver. Um tratado é a exposição sob múltiplos aspectos de uma só coisa. O liber (livro) é a parte interna e mole do córtex da árvo­ re. 203 . Daí os escritores chamarem-se também livreiros e o volume ser dito livro”. "O uso das folhas de papiro (charfarum) foi inventado pela primeira vez na cidade egípcia de Mênfis. mais tarde foram inventadas em Roma as membra­ nas brancas.das árvores ou da videira. E se d\z scheda propriamente aquilo que ainda é emendado e ainda não foi redigido em forma de li­ vro”. são interpretações. Os comentónos vêm das palavras com a mente ou do verbo comminiscor (inventar). “é uma palavra grega. com efeito. Scheda (folha de papiro ou papel). quando se explica fazer silêncio com calar-se". Inicialmente eram feitas membranas de cor amarela. "Os filósofos a chamam advérbio {ad-verbium) porque ela explica com uma palavra única [ver bum) o termo do qual se procura o significado. e assim se confecciona o papel. como nos comentários do direito ou do evangelho”. Alguns dizem que o termo comentários deveria ser usado em relação aos livros pagãos. cujo diminutivo é schedula. LIBER QUINTUS Caput I: De quibusdam sacrae scripturae proprietatibus et modo legendi Non debet onerosum esse studioso lectori. Caput II. magnarum rerum et utilium notitiam obscurent Quapropter se­ mel se expediat lector. cetera tamen in toto citharae corpore ideo fac­ ta sunt. De triplici intelligcntia Primo omnium sciendum est. “Sicut enim in citharis et huiusmodi organis musicis non quidem omnia quae tanguntur canorum aliquid resonant. quod tam varie multipliciterque numerum et ordinem et vocabula divinorum li­ brorum tractamus. ubique tamen observare aut dif­ ficile est aut impossibile. Sane non omnia quae in divino reperiuntur eloquio ad hanc intorquenda sunt interpretationem. allego­ riam et tropologiam simul continere credantur. allegoriam. quod divina scriptura tripli­ cem habet modum intelligcndi. ut haec minima. ne in singulis libris nova rudimenta quaerere oporteat His ergo expeditis. tractabimus. ignorata. quia saepe accidit. libero gressu possit deinde propositum iter cur­ rere. deinceps cetera. id est. Quod etsi in multis congrue assignari possit. historian. tro­ pologiam. his quasi quibusdam clausuris prima fronte reseratis. ut. ut singula historiam. 204 . quae ad propositum opus valere videbuntur. sed tantum chordae. É bom que o estudante fique livre dis­ so de urna vez. “De fato. onde nem tudo aquilo que é tocado soa. nem todas as passagens que se encontram no discurso divino devem ser forçadas a ter esta interpretação. 3) o modo tropológlco {moral). a cada novo li­ vro da Escritura. é difícil ou impossí­ vel observar o mesmo no texto inteiro. 2) o modo alegórico. a saber. Bem que muitos textos se prestem a isso. é como ñas cítaras e nos instrumentos musicais pa­ recidos. escurecem o conhecimento de coisas grandes e üteis. com passo livre ele pos-. como se todo e qualquer texto possa ser imaginado contendo si­ multaneamente a interpretação histórica. procurar novamente os principios elementares. O tríplice entendimento Antes de tudo deve-se saber que a Sagrada Escritura apre­ senta três modos de entendê-la. As outras coisas do conjunto da cítara foram feitas de 205 .LIVRO V CAPÍTULO 1: Algumas particularidades da Escritura e o modo de lê-la Não deve ser incómoda ao estudante diligente a nossa expo­ sição tão variada e minuciosa sobre o número. portanto. sa percorrer o caminho que se propõe e não deva. quando ignoradas. mas somente as cordas. a ordem e os nomes das Sagradas Escrituras. 1) o modo histórico. alegórica e tropologi­ ca. porque pode acontecer que estas coisas pequenas. a seguir trataremos das coisas que restam e que nos parecerão válidas para o trabalho que nos propomos. Certamente. CAPÍTULO 2. Livres. urna vez escancaradas estas coisas logo no começo como se fossem portas. de modo que. destas questões. Oportet ergo sic tractare divinam scripturam. et quo tenderentur illa quae ad can­ tilenae suavitatem modulaturus est a r t i f e x ” i t a in divinis elo­ quiis quaedam posita sunt. quem non solum chorda edidit. Saepe tamen in una eademque littera omnia simul reperiri possunt. Isidorus. quod in divino eloquio non tantum ver­ ba. nonnulla au­ tem quae et historice. aut per historiae seri­ em et litterae soliditatem mysteriorum dicta sparsim posita con­ tinens. sicut histori­ ae veritas et mysticum aliquid per allegoriam insinuet. earumque sonum recipiens in se. ut nec ubique historiam. 83. quaedam vero morum gravitati deserviunt. quae tantum spiritualiter intelligi vo­ lunt. qui modus non adeo in aliis scripturis inveniri solet Philosophus solam vocum novit significationem.ut esset ubi connecterentur. prout ratio postulat. competenter assignare.208B-C). 206 . sed et lignum modulo corporis sui formavit Sic et mei in favo gratius. nec ubique quaeramus tropologiam. sed etiam res significare habent. 4 (Pl. dulciorem auribus referat. et quasi in unum connectens. sed singula in suis lo­ cis. 101. et quid agendum sit pariter per tropologiam demonstret Caput III: Quod res etiam significent in divina scriptura Sciendum est etiam. Unde modo mirabili omnis divina scriptura ita per Dei sapientiam convenienter suis partibus aptata est atque disposita. maiori etiam desiderio invenitur. et tropologice convenienter exponi possunt. praei. et quidquid maiori exercitio quae­ ritur. ut quidquid in ea continetur aut vice chordarum spiri­ tualis intelligentiae suavitatem personet. ad modum ligni concavi su­ per extensas chordas simul copulet. quaedam etiam secundum simplicem sensum historiae dicta sunt. sed excel­ lentior valde est rerum significatio quam vocum. et allcgorice. Mislicorum expositiones. nec ubique allego­ riam. porque não foi somente a corda que produziu tal sora. Por isso. a suavidade do entendimento espiritual. O filósofo pagão conhece apenas o significado das palavras. e igualmente demonstra pela tropologia o que deve ser feito. como faz o lenho côncavo com as cordas extensas sobre si. tendo os ensinamentos dos mistérios colocados de maneira esparsa sob os eventos históricos e sob a espessura das letras. fato que nâo costuma ocorrer em outros escritos. conecta. Freqüentemente. toda a Sagrada Escritura foi adequada e disposta em todas as suas partes pela Sapiência de Deus. mas o significado das coisas é muito mais excelente do das palavras. no mesmo texto podem ser encontradas as três juntas. algumas foram ditas em sen­ tido simplesmente histórico. à maneira das cordas. faz ecoar este som mais doce aos ouvidos. 0 mesmo acontece nas palavras divinas. recebendo o som das cordas dentro de si. ou­ tras servem para a seriedade morai. alegórico e tropologico. de modo admirável. como a razão pede. assim como com maior satisfação é encontrado aquilo que com maior empe­ nho foi buscado. lenho que. que o artista modulará para obter a suavidade do can­ to”. mas a situar com competência cada urna delas em seus lugares. Também o mel dentro do favo é mais agradável. mas também as coisas têm significado.maneira a haver onde possam ser conectadas e estendidas as cordas. como quando a verdade histórica insinua algo místico através da alegoria. CAPÍTULO 3: Também as coisas têm significado na Sagrada Escritura Deve-se saber que no elóquio divino não apenas as palavras. nem em todo lugar a alegoria. 207 . E as­ sim. todavia. outras podem ser expostas conve­ nientemente em sentido histórico. onde algumas fo­ ram colocadas para serem interpretadas só espirituaimente. nem em todo lugar a tropologia. mas também a madeira o formou segundo a forma do seu corpo. para que tudo quanto é contido nela faça ecoar. é necessário tratar as Escrituras Sa­ gradas de modo a nâo procurarmos em todo lugar a história. A Escritura. tais ensinamentos n u m a coisa só e os mantêm uni­ dos. por assim dizer. ubi exerceri possint ingenia. Haec prolata perit. Et cetera omnia ad hunc modum accipienda sunt. Haec hominum vox est. res divinae rationis est si­ mulacrum. Restat ergo. sed rem intelligere debemus. 102. quam pro­ funda in sacris litteris requirenda sit intelligentia. nisi solam litterae superficiem. Quod autem rerum significatione sacra utantur eloquia. Quod ergo sonus oris. virtutem veritatis ignorantes. Et divina sapientia. “quod septem esse inter ceteras regulas locutionum sanctarum scripturarum quidam sapientes dixerunt. verbo extrínseco manifestatur. ubi per vocem ad intellectum. qui simul subsistere incipit et desinit. Ratio mentis intrinsecum verbum est. IPd 5. ut haec vox leo animal ipsum significet. ut cum dicimus vermem. serpentem et alia huiusmodi Christum significare. quia profecto nil aliud ibi concipiunt. unam et eandem rem significant.8. et ob hoc ad philosophorum scripturas se transferunt. incompetens est similitudo eiusdem rei ad scipsam. id est. quam de corde suo Pater eructavit. per creaturaas et in creaturis agnoscitur. animal vero diabolum de­ signet. quod sono vocis. Si enim duae hae vo­ ces. ad rationem mentis est. lapidem.quia hanc usus instituit. illam natura dictavit. per rem ad rationem. per rationem pervenitur ad veritatem. quia adversarius vester diabolus tamquam leo ru­ giens circuit"^“^ Hic. illa vox Dei ad homines. illa creata subsistit Vox tenuis est nota sensuum. “Vigilate. 208 . diabolus et leo. Quod dum quidam minus docti non considerant. hoc omne spatium temporis ad aeternitatem. vitulum. si dixerimus leonem significare diabolum. in se invisibilis. id est. Dicit scrip­ tura. Ex quo nimirum colligitur. nullam in eis esse subtilitatem aestimant. breviter quodam et aperto exemplo demonstrabimus. non vocem. per intellectum ad rem. Caput IV: De septem regulis Illud quoque diligenter attendendum est. a serpente e coisas parecidas signifi­ cam 0 Cristo. som que começa a existir e simultaneamente termina. pela palavra externa. que se manifesta pelo som da voz. por não levar em conta este dado. devemos entender não a palavra. pois. as regras utilizadas pelas lo­ cuções das Escrituras Sagradas. mas a coisa. que a palavra leão significa o próprio animal. E todos os outros ca­ sos devem ser entendidos da mesma forma. ignorando a força da verdade. e por esta razão se voltam para os escritos dos filósofos pagãos. significassem uma mesma e única coi­ sa. isto é. Os menos erudi­ tos. portanto. esta. Conclui-se. diaòo e leão. A voz é urna tênue expressão dos sentidos. A pala­ vra é a voz dos homens. Aquela. isto todo o espaço do tempo é com relação à eternida­ de. nas Escrituras não enxergam outra coisa senão a superfície da palavra. 209 . a coisa é a voz de Deus aos homens. “Estejam vigilantes. se dizemos que o leão significa o diabo. uma vez proferida. é conhecida pe­ las criaturas e ñas criaturas. Disto se deduz admiravelmente quão profundo entendimento deve ser exigido ñas Escrituras Sagradas. CAPÍTULO 4: As sete regras Deve-se ter cuidadosamente em mente “que alguns sábios disseram serem sete. Mas a Sapiencia divina. A Escritura diz. pelo conceito à coisa. pela coisa à razão. Demonstraremos com um breve e claro exemplo que os san­ tos elóquios utilizam a significação das coisas. a pedra.porque o significado das palavras se impôs pelo costume. Aqui. en­ quanto o significado das coisas foi ditado pela natureza. urna vez criada. Se estas duas pala­ vras. pois o vosso adversário. acham que nas Escrituras não existe alguma sutilidade na qual os engenhos possam exer­ citar-se. o diabo. circula como um leão rugindo”. que o Pai emitiu do seu coração. caduca. A razão da mente é a palavra interna. como quando dize­ mos que 0 verme. entre outras. teríamos uma semelhança imprópria de uma coisa a si mes­ ma. Aquilo que é o som da boca com relação à razão da mente. de fato. peía razão à verdade. a coisa é simu­ lacro da razão divina. c que este animal designa o diabo. invisível em si. perma­ nece. isto é. onde pela palavra se chega ao conceito. quando et caput et corpus. Nam al­ tera pars est cui peccata delevit et cui dicit: “Meus es tu”. et redimam te”. veluti si uni populo vel civitati loquatur Deus. tamen dum contra eam loqui­ tur. Per hanc enim regulam sic ad om­ nes loquitur scriptura. atque in una persona modo caput. qui pru­ denter legerit discet. prudens lector intelligat Secunda regula est de Domini corpore vero et permixto. sicque quid capiti. modo corpus ostendit. ecce delevi ut nubem iniquitates tuas. et mali laudentur pro bonis. qui si convertan­ tur. de lege et gratia: lege per quam praecepta facienda admonentur. Converte­ re ad me. et totum pro parte accipitur. quod tamen non est unius.Prima regula est de Domino et eius corpore. sed quid ad quem pertineat. 103. sed eti­ am spiritualiter sentienda sit. sponsam ma­ nifestavit Proinde notandum est in scripturis. ut et boni redarguantur cum malis. peccata eorum delentur. ut est illud: “Puer meus es tu Israel. id est. per quam pars pro toto. et redimam Hoc ad unum non congruit. Tertia regula est de littera et spiritu. Quarta regula est de specie et genere. In una enim persona duplici vocabulo nomi­ nata. Nam videntur quaedam convenire uni personae.10. id est. et sicut nebulam peccata tua. sponsum.21-22. et caput. vel quod lex non tantum historice. et quasi sponsam ornatam monilibus suis”^“^. sicut Isaias ait: “Induit me Dominus vestimento saluta­ ri quasi sponsum decoratum corona. [s 61. et spiritualiter legem intelligere. quando speciali­ ter caput scribitur. fs 44. id est. aut ab altero ad alterum. Nam licet adversus unam civitatem Babyloniam per Isaiam prophetam Dominus comminetur. Namque et historice oportet fidem tenere. gratia per quam ut operemur iuvamur. aut quando ex utroque transeat ád utrumque. et tamen intelligatur omnem contingere mun­ dum. 104. et ecclesiam. et alte­ ra cui dicit. quid corpori comveniat. “Convertere ad me. transit ad genus de specie. quae de uno ad unum loquitur. 210 . e os pecados destes serão cancela­ dos. nas Escrituras deve-se notar quando se faz referência especialmente à cabeça. ora 0 corpo. quem lê prudentemente. como quando Isaías diz. Ela fala de um em relação ao outro e. mesmo que o Senhor através do profeta Isaías faça ameaças contra a única cidade de Babilônia. passa da espécie para o gênero. c todavia sabe-se que está abrangendo o mundo inteiro. como quando se diz: “Tu és meu servo. De fato. aprenderá o que cabe a quem. Quer dizer. Numa só pessoa. Através desta regra. isto é. como quando Deus fala a um povo ou a uma cidade. numa só pessoa.a uma só pessoa. a esposa. e te salvarei”. indica ora a cabe­ ça. ou de um para o outro. algumas coisas parecem referir-se. Com efeito. a expressão manifestou seja a cabeça. A quarta regra concerne a espécie e o gênero. mas de fato não se trata de uma só pessoa. isto é. pela graça somos ajudados a agir. Converte-te a mim. como ura esposo ornado com coroa ou uma esposa ornada com suas jóias”. 211 . e eis que apaguei como nuvem as tuas iniqüidades e como névoa os teus pecados. Pela lei são propostos os preceitos a serem praticados. e a outra parte àquele ao qual diz: “converte-te a mim. quando à cabeça e ao corpo. se eles se converterem. E ainda. o que ao corpo. e te salvarei". A segunda regra concerne o corpo verdadeiro e o corpo mis­ to do Senhor. é necessário seja ser fiel à dimensão histórica da lei. enquanto fala contra ela. “O Senhor me vestiu com a veste da salvação. e igualmente o leitor prudente deve entender o que cabe à cabeça. Isto não se refere a uma só pessoa. pela qual a parte é tomada pelo todo e o todo pela parte. A terceira regra concerne a letra e o espírito. seja entender a lei em sentido espiritual. isto é. mas. a Escritura fala a todos em geral de tal modo que os bons são redargüidos junto com os maus. seja a Igreja. A primeira parte se refere àquele a quem cancelou os pecados e ao qual diz: “és meu”. a lei deve ser vista não apenas em sua dimensão histórica mas também espiritual. e os maus são louvados em lugar dos bons. a Jei e a graça. 0 esposo. Israel. indicada com dois vocábulos. todavia. De fato.A primeira regra concerne o Senhor e o seu corpo. quando se passa dos dois para os dois. SI 21. Is 13. Sed cur quae adhuc facienda erant. et haec manus extenta super omnes g e n t e s ” I t e m postquam sub persona Babyloniae arguit universum mundum. Vel si­ cut illud quod quadringentis annis praedixerat Deus filios Israel in Aegypto servituros et sic inde egressuros. Is 19. a Medis obtenta est Babylonia. 107. 212 . “Ecce ego suscitabo super eos M e d o s ” N a m regnante Balthasar. Sic ex persona unius Aegypti totum vult intelligere mundum dicendo: "Et concurrere faciam Aegyptios adversus Aegyptios.et convertit contra totum mundum sermonem. ut est illud: “Foderunt manus meas et pedes meos. dum nec tribus plenis diebus ac noctibus iacuerit in sepulcro. ita dicuntur. regnum adversus regnum”^"“. sed quadringentis triginta peractis. dicens quae eidem civitati specialiter contigerunt. sed tamen a parte totum triduum accipitur. “Et disperdam omnem terram et visitabo super orbis mala” . Est et alia de temporibus figura. tamquam si iam facta sint.26. in quibus futu­ ra.12. 109. sed unum describitur habuisse regnum. nec statim post quadringentos annos egressi sunt. Quapropter quando aliquid faciendum esse pronuntiatur. Sic est de triduo Domini­ cae sepulturae. rursus ad eandem quasi de genere ad speciem revertitur. per quam aut pars maxima temporis per partem minorem inducitur. cum Aegyptus non mul­ ta regna. qui tamen dominan­ te loseph Aegypto dominati sunt. non adderet infra generaliter. ab Aegypto recesserunt. aut pars minima tem­ poris per partem maiorem intelligitur. Quando vero 105. secundum nos dicitur. 106. ut fuerat repromissum.5. dinumeraverunt omnia ossa mea et diviserunt sibi vestimenta et his similia. Is 13. quasi iam gesta narrantur. Unde et adiecit: “Hoc est consilium quod cogitavi super omnem terram. per quam quaedam quae futura sunt. [s 14. Certe si non di­ ceret adversus universum orbem. iam facta narrantur? Quia ea quae nobis futura sunt. apud Dei aeternitatem iam facta sunt. 100.17. et cetera quae sequuntur ad internecionem mundi pertinentia. Quinta regula est de temporibus.17. o Egito é descrito como tendo não muitos reinos mas um só reino. Quando. sob o vice-reinado de José. passando do gênero para a espé­ cie. nem saíram logo depois dos quatrocentos anos. Por isso acrescentou: "Esta é a decisão que pensei sobre toda a terra. e contaram todos os meus ossos e dividiram entre si as minhas roupas”. sob o reino de Balta­ zar. rei­ no contra reino”. e outras ameaças que seguem.e endereça o seu discurso contra o mundo inteiro. De fato. para a eternidade de Deus já aconteceram. falando as coisas que aconteceram a esta cidade. Portanto. mas eles. nas quais acontecimen­ tos futuros são falados como já acontecidos. do­ minaram o Egito. não teria acrescentado em seguida: “E dispersarei toda a terra e castigarei os males do mundo”. 213 . ao contrário. atinentes à destruição do mundo. Igualmen­ te. pela qual ou uma parte grandíssima de tempo é indicada por uma parte menor. e passagens similares a esta. "Eis que eu levantarei contra eles os medas”. por que coi­ sas a serem ainda feitas eram narradas como já feitas? Porque as coisas que para nós são futuras. como tinha sido prometido. Mas. com efeito. pela qual são narradas coisas futuras como se já tivessem acontecido. A quinta regra concerne os tempos. Dá-se 0 mesmo quando Deus predisse que os filhos de Israel teriam ficado escravos no Egito durante quatrocentos anos e depois disto teriam saído de lá. e esta é a mão estendida sobre todos os povos”. Este é 0 caso do triduo do sepultamento do Senhor. Existe uma outra figura concernente aos tempos. quando se fala que algo deverá acon­ tecer. porque. mesmo não tendo ele jazido no sepulcro durante três dias e noi­ tes plenos. Babilônia foi conquistada pelos Medas. ou atra­ vés de uma parte mínima de tempo se entende uma parte maior. após ter redargüido o mundo inteiro sob a figura de Babilô­ nia. Do mesmo modo. Deus quer entender o mundo. a partir da figura do Egito em particular. isso é dito do nosso ponto de vista. novamente retorna a esta. como na passagem: “Traspassaram minhas mãos e meus pés. "E farei guerrear egípcios contra egípcios. a partir de uma parte fala-se de um triduo completo. mas retornaram do Egito de­ pois de quatrocentos e trinta anos. Se não falas­ se contra o mundo inteiro. ao dizer. 28. Quid studium impediat Postquam certam materiam praescripsimus lectori. ad eum potius refera­ tur. hominem ipsum diabolum vocans. Quomodo ergo secun­ dum suas gentes et secundum suas linguas erant. dixit illos fu­ isse in linguis et gentibus suis. quia diaboli corpus fuit Apostata quippe angelus omnium caput est iniquorum. omnis terra la­ bium unum. ut saepe quod corpori eius dicitur. si una lingua erat omnibus. sicut in Isaia. 112. sicut cum filios filiorum Noe scriptura commemorasset. contra diaboli corpus multa dixisset sermo propheticus. Isidorus. rursus ad caput. ad dia­ bolum oraculi sententiam derivat. Caput V. rursum quod illi. quae suo magis conveniunt corpori. ad membra ipsius iterum derivetur. et vox una omnibus erat''"*’. ut est illud in evangelio de zizaniis tritico admixtis. dicente Domino: "Inimicus homo hoc fecit”“*. ubi dum contra Babyloniam. Sexta regula est de recapitulatione. Gn 11. secundum Dei aeternitatem accipienda sunt. 114.Jo 6. Senlenfiae 1. et non nisi capiti congru­ unt. Item ex nomine capitis significatur corpus sicut in evangelio dicitur: "Duodecim vos elegi.12. et unus ex vobis diabolus e s f ' l u d a m utique indicans. id est. et hu­ ius capitis corpus sunt omnes iniqui. inquit. hoc est.71. Is 14.1. Lucifer. nisi quia ad illud quod iam transierat recapitulando est reversa narratio? Septima regula est de diabolo et eius corpore. 113. 214 . Saepe vero videntur eius dicta membrorum. dicens: "Quomodo cecidisti de caelo. Mt 13. et ex nomi­ ne corporis caput designans.quae futura sunt iam facta dicuntur. sicque cum membris suis unus est. qua saepe di­ cuntur ipsius capitis. Recapitulatio enim est dum scriptura redit ad illud cuius narratio iam transierat. et eas scripturas quae ad divinam praecipue pertinent 110. Ex nomine quippe corporis intelligitur caput. et tamen postea quasi hoc etiam in hoc ordine temporum requiritur: "Erat. 111. apud quem iam omnia facta sunt quae futura sunt. qui mane oriebaris””^ et cetera’““.19. a não ser que a narração. as frases parecem falar dos seus membros. é estendido aos membros. A sexta regra concerne a recapitulação. tu que raiavas de manhã". Lucifer. diz: “Toda a terra era um só lábio e todos tinham uma só língua”. e um de vocês é o diabo”.as coisas futuras são anunciadas como já passadas. indicando especificamente Judas. chamando o diabo de homem. deve ser entendida a cabeça. que. devem ser entendidas do ponto de vista da eternidade de Deus. sob 0 nome da cabeça se entende o corpo. e indicando. recordando os filhos dos filhos de Noé. então. quando 0 Senhor diz: “Um homem inimigo fez isto”. aquilo que se diz dele. pela qual fre­ quentemente se dizem da cabeça coisas que convêm mais ao seu corpo. e ele é tão unido aos seus membros. aquilo que se diz do seu corpo. depois que o discurso profético disse muitas coisas contra Babilônia. sob o nome do corpo. cuja narração já pas­ sou. como na pas­ sagem evangélica sobre as cizânias misturadas ao trigo. vice-versa. O anjo caído é cabeça de todos os iníquos. 2^ . isto é. de novo a palavra da profecia é voltada contra a cabeça. como em Isaías. Sob o nome do corpo. sem dúvida. e todos os iníquos são o cor­ po desta cabeça. fre­ quentemente. se to­ dos tinham uma só língua. contra o corpo do diabo. voltou a algo que já tinha passado? A sétima regra concerne o diabo e o seu corpo. junto do qual todas as coisas futuras já aconteceram. a cabeça. quando. e outras coisas. Igual­ mente. queToi corpo do diabo. CAPÍTULO 5:0 que impede o estudo í Após ter prescrito ao estudante uma determinada matéria. De freqüente. "Como caíste do céu. dizendo. refere-se a ele. Como. e depois que determinei aquelas Escrituras que pertencem. A recapitulação se dá quando a Escritura retorna para aquilo. recapitulan­ do. viviam em tribos e línguas próprias. e depois. como se estivesse observando a devida ordem cronoló­ gica. quando na realidade referem-se somente ao corpo. contra o próprio diabo. diz que eles existiram segundo línguas e tribos próprias. como quando a Escritura. isto é. quando no evangelho se diz: "Escolhi vocês doze. trac­ tando ruminamus? Qui ergo in tanta multitudine librorum le­ gendi modum et ordinem non custodit. numquam ad scientiam pervenientes”’*^. 216 . Dicendumque est quid sit quod ex tanta turba discentium. quia et pon­ dera aliquando. hoc maxime movet et dignum quaestione videtur. qua­ tenus ex his quae dicta sunt agnoscat. vi­ res in ventum fundit. arte leva­ mus. quorum multi et ingemo pollent et vigent exercitio. 115. 2Tm 3. ut dicitur. et ratio operis. Alter diu laborat et parum proficit. ac deinde informandus qualiter ea quae sunt agenda perficiat. cui rei studium impende­ re debeat. ut alterum sine altero aut inutile sit aut minus efficax. Quid autem scripturam dixerim nisi silvam. sed non aeque per­ veniunt. quod duo pari ingenio et aequali studio uni lectioni intendunt. Sic nimirum est in omni studio. tam pauci et numerabiles inveniantur. “semper discentes. Sed sciendum est quod in quolibet negotio duo sunt neces­ saria. Qui sine discretione opera­ tur. quibus ad scientiam pervenire contin­ gat Et. pari motu cursum tendunt.7. nec tamen simili effectu eius intelligentiam consequuntur. et quasi aerem verberans. Quia vero facilius quid agendum sit intelligiinus. Verumtamen "melior". Alter cito penetrat. laborat quidem.lectionem suis nominibus assignando determinavi. illum vero recti itineris com­ pendia legentem. Aspice duos pariter silvam transeuntes. cuius senten­ tias quasi fructus quosdam dulcissimos legendo carpimus. ut de illis taceam qui naturaliter sunt hebetes et tardi ad intelligendum. sed non proficit. "prudentia est fortitudine”. cito quod quaerit apprehen­ dit. consequens videtur ut etiam de modo et ordine legendi aliquid dicamus. quae ita sibi connexa sunt. quae viribus movere non possumus. ut dicitur. tramitem recti itineris perdit. unde hoc accidat. instru­ endus est primum quid cavere debeat. quasi in condensitate saltus oberrans. et hunc quidem per devia laborantem. ex his vero quae sunt dicenda eiusdem studii sui mo­ dum et rationem accipiat. si prius quid non sit faciendum agnoverimus. et. opus videlicet. E. espalha as forças ao vento. Aquele que trabalha sem método. perde o caminho do percurso certo “sempre estudando . logo aprende aquilo que procura. sim.nunca chegando ao saber”. uma suando através de desvios. traba­ lha muito. a partir de quanto diremos. Dado que é mais fácil enten­ der aquilo que deve ser feito conhecendo antes aquilo que não deve ser feito. à leitura divina. conseguem chegar ao saber. o modo e o método deste seu estudo.como se diz . pare­ ce-nos procedente dizer algo sobre o modo e a ordem da leitura. se diz que “a prudência é melhor que a força”. a aplicação e o método da aplicação. Com efeito. aplicadas com igual engenho e afinco ao mesmo problema. E o que denominaria eu a Escritura senão uma floresta. que uma sem a outra é ou inútil ou pouco eficiente. porque às vezes levantamos com a habilidade os pesos que não podemos mover com as forças físicas. a que deva dedicar o estudo e aprenda. cujas frases colhemos na leitura como se fossem frutos dulcissimos e as ruminamos na reflexão? Aquele. Um deles logo compreende. mas não avança e. que em tão grande multidão de livros não man­ tém um método e uma ordem de leitura. O outro trabalha longamente e avança pouco. o estudante deve ser primeiro instruído sobre aqui­ lo que deve evitar. que podem ser conta­ dos nos dedos. tão poucos. é so­ bremaneira provocante e merecedor de reflexão saber como acon­ tece que duas pessoas. não conseguem entendê-lo com o mesmo efei­ to. a outra escolhendo os ata­ lhos de um traçado reto: fazem o percurso com o mesmo ritmo. a partir de quanto dissemos. como se vagueasse na densidade da floresta. e depois deve ser informado sobre como levar a termo aquilo que deve ser feito. Repare em duas pessoas atravessando o bos­ que. 217 . muitos dos quais se destacam pelo engenho e se de­ dicam com afinco ao trabalho.sobretudo. Direi logo qual é a razão pela qual numa grande massa de estudantes. para que o estudante saiba. Deve-se saber que em qualquer trabalho são necessárias duas coisas. O mesmo se dá em qualquer estudo. portanto. mas não chegam no mesmo tempo. indicando-as por seus nomes. como a chicotear o ar. e estas duas coi­ sas são tão conexas entre si. este. sem falar daque­ les que são por natureza obtusos e lentos na aprendizagem. id est. quoniam neutrum improbandum. lec­ tor admonendus est. nec desideria trahit quod utilitatem non promittit Geminus est divinae lectionis fructus. sive naturaliter contingente. instructio morum. id est. fortuna. 218 . et labor inutilis. de tertio autem. Imprudentia est quando congruum ordinem et mo­ dum in his quae discimus non servamus. imprudentia. quamvis expediat magis iustum esse quam sapientem. In his autem tribus de primo quidem. sed utrumque necessarium et laudabile esse censeo. quia mentem vel scientia erudit vel moribus ornat Do­ cet quod scire delectet et quod imitari expediat Quorum alte­ rum. ins­ truendus. casu. Caput VI: Quis sit fructus divitiae lectionis Quisquis ad divinam lectionem erudiendus accesserit. adiuvandus. a proposito nostro retrahimur. imprudentia. quia aut non inveniuntur qui doceant. pri­ mum qualis sit fructus eius agnoscat Nihil enim sine causa appeti debet. Ego autem. sive etiam doctorum rarita­ te. negligentia. Sane. id est. Negligentia est quando ea quae discenda sunt ve! prorsus praetermittimus vel minus studio­ se discimus. quando vel paupertate ve! in­ firmitate vel non naturali tarditate. fortuna. de secundo vero. id est.Tantum enim valet discretio. Fortuna est in eventu. ad tropologiam magis respicit Omnis divina Scriptura refertur ad hunc finem. id est. ut sine ipsa et omne otium turpe sit. scio tamen plures in studio sacri eloquii scientiam quaerere quam virtutem. alterum. magis ad historiam et allegoriam. aut qui bene doceant. Ut autem universaliter complectamur! Tria sunt quae praecipue studiis legentium obesse solenti negligentia. scientia. não obstante convenha mais ser justo que cul­ to. isto é. em caso de má sorte. A má sorte se dá por algum evento que ocorre por acaso ou naturalmente. ou de um retardo não natural. Dos dois. 2) a imprudência. isto é. quando. está relacionado mais à história e à alegoria. antes de tudo. No terceiro. isto é. na negligência. na imprudência. pois ou 1) instrui a mente com o conhecimento ou 2) a adorna com os bons costumes. No segundo. deve. No primeiro caso. A imprudência se dá quando não mantemos a ordem e o método apropriado nas coisas que apren­ demos. ele deve ser ajudado. A negligência se dá quando ou deixamos total­ mente de lado as coisas que devem ser aprendidas ou as estuda­ mos com menos empenho. Sei. nem provoca desejos aqui­ lo que não promete utilidade.wü. que sem ele qualquer ócio [dedicação ao estudo) é torpe e todo trabalho inútil. considerando que nenhum dos dois aspectos deve ser desvalorizado e que cada um dos dois é necessário e louvável. Eu. Toda a Sagrada Escritu­ ra é direcionada para esta finalidade. CAPÍTULO 6: O fruto da leitura divina Quem se aproxima da leitura divina para ser formado. o outro. isto é. ao contrário. 219 . no estudo sacro. Nada se deve querer sem motivo. conhecer o seu fruto. muitos procuram. ele deve ser instruído. mais o saber que a virtude. mais à tropologia. O fruto da leitura sagrada é duplo. todavia. o conheci­ mento. o ensino dos costumes.: o método é tão importante. e aí nos retiramos do nosso objetivo por causa ou da pobreza ou da doença. ou da escassez de doutores. o estudante deve ser repreendido. Oxalá todos nós abracemos esta convicção! Três são as coisas que costumam opor-se principalmente aos estudos dos estudantes: 1) a negligência. ou não se encontram aqueles que ensinam ou não se encontram aqueles que ensinam bem. 3) a má sorte. Ela ensina aquilo que agrada saber e aquilo que vale a pena imitar. um. que. et animum ad amorem conditoris sui accendunt. Ml 6. exemplo. otiosus esse non potest Pervenire desideratis? Discite quomodo perve­ niatur quo tenditis”. Inter quae beatissimi Gregorii singulariter scripta amplexanda aestimo. et bona desi­ deria pascere. Relatum mihi aliquando memini 116. quae. ne sic eum sola lectio teneat. silentio nolui praeterire. et ae­ ternae vitae amore plena visa sunt. quaerite regnum Dei et iustitiam eius”^^®. Et primum quidem de eo. discat non solum colore dictaminis. in quibus magis occupetur quam aedificetur animus. Haec vero scientia duobus modis comparatur. utrumque necessarium amate et quaerite. obscuras et profundae intelligentiae scripturas exquirat. "Primum enim. sed virtutum ae­ mulatione provocari. ostendunt. 220 . quia mihi prae caeteris dulcia. Quomodo sit legenda scriptura ad correctionem morum Qui virtutum notitiam et formam vivendi in sacro quaerit eloquio. Utrumque bonum. quando eorum dicta ad disciplinam nostram pertinen­ tia discimus. non occupatio. Oportet autem ut qui hanc ingressus fuerit viam in libris quos legerit. Christiano philo­ sopho lectio exhortatio debet esse. ut a bono opere vacare compellat.quid cuiusque intentioni competat paucis absolvam. et quibus iustitiae meri­ tis ad ea perveniatur sollerter inquirite. Sciat etiam ad propositum suum non conducere.33. inani raptus desiderio scien­ tiae. rectumque vivendi tramitem docent. hos libros magis legere debet qui huius mundi contemp­ tum suadent. Si amor est. ut eum non tam verborum pompositas aut concinnatio quam veritatis pulchritudo delectet. doctrina. qualiterque virtutes acqui­ ri et vitia declinari possint. non necare. Ac si aperte diceret: "Et caelestis patriae gaudia desiderate. qui “moralitatis gratiam” amplectitur expediam. videlicet exemplo et doctrina. quando sanctorum facta legimus. inquit. Caput VH. ut. tal que a leitura. não o conduz ao seu objetivo a procura de passagens obscuras e de di­ fícil compreensão. não uma ocupação. Lembro que uma vez foi-me relatado 221 . Amai e procurai tudo quanto é bom. sozinha. O amor. se estiver tomado pelo desejo vão da ciência. não pode ser ocioso. "Procurem primeiro o reino de Deus .diz . deve ser provocado. acendem as almas no amor ao seu criador. Como se disses­ se mais exatamente: "Desejai as alegrias da pátria celeste e pes­ quisai com afinco com quais méritos de justiça se chega a elas. ensinam o caminho reto da vida e mostram como as virtudes possam ser adquiridas e os vícios afastados. Para o filósofo cristão a leitura deve ser uma exortação.e a sua justiça”. quando aprendemos os seus ensinamentos concernentes a nossa vida disciplinadaT Entre estes escritos consi­ dero que devam ser abraçados particularmente os de São Gregorio. nas quais o ânimo é mais ocupado que edifi­ cado.apresentarei brevemente aquilo que compete a cada um dos dois. o ocupe a tal ponto que o obri­ gue a ficar longe das boas obras. nos livros que lê. Pelo exemplo. tudo quanto é necessário. mas sobretudo pela emulação das virtudes. Este conhecimento é oferecido de duas maneiras. para que o agrade não tanto a pompa e a sonoridade das palavras quanto a beleza da verdade. Saiba tam­ bém que. Pela doutrina. deve 1er sobretudo os livros que acon­ selham 0 desprezo deste mundo. Desejais chegar? Aprendei como se chega lá onde aspirais”. não somente pela cor do estilo. não matá-los. pelo exemplo e pela doutrina. quando lemos as ações dos santos. ou seja. CAPÍTULO 7: Como a Escritura deve ser lida para corrigir os costumes Aquele que procura no sacro elóquio o conhecimento das virtudes e a regra de viver. E primeiro tratarei daquilo que abraça a "graça da morali­ dade”. se existe. e deve nutrir os bons desejos. Aquele que entrou neste caminho. pois eles me pareceram mais do­ ces e mais cheios de amor da vida eterna que os outros. e não quero passá-los sob silêncio. Sed miseratione divina tandem per revelatio­ nem admonitus est.28. litteraturam". 222 . qui tanto sanctarum scrip­ turarum amore flagrabat. Nam et Propheta: "Non novi. spretis simplici­ oribus scripturis. qui in disci­ plina non litteraturae. profunda quaeque et obscura rimari. IIB. "introibo in potentiam Domini. non phi­ losophatur. tantam internae quietis gratiam accipere meruit. requiem animabus vestris””^ Hoc exemplum ideo apposui. ut vere in illo illam Domini vo­ cem impletam diceres. aliasque tales simplici stylo dictatas. ut ita dicam. ut ostenderem eis. ut non solum iam ab utilibus. Domine. qui ante implere legem voluit quam disce­ re? Quae 117. inquit. atque ae­ nigmatibus prophetarum enodandis et mysticis sacramentorum intellectibus vehementer insistere. et ego reficiam vos". ut eis continuum impenderet studium. dicens: “Venite ad me om­ nes qui laboratis et onerati estis. sed virtutum positi sunt. sed sanctorum patrum vitam et martyrum triumphos. ne amplius harum scripturarum studio in­ cumberet. docuisti me a iuventute’'^^^ Qui enim ad occupationem scripturas et. Sl 70. Cumque in dies crescente scientia cresceret et desiderium eius.de quodam satis probabilis vitae viro. quia dis­ cretionis moderamine uti non novit.15. memorabor iustitiae tuae solius. non oportere lectionem esse fastidio. coepit tandem sapientiam zelatus imprudenter. sed oblectamento. sed etiam a neces­ sariis actibus cessaret. easdem nunc occasionem erroris habebat. ad afflictionem spiritus legit. frequentare consuesceret. sed negotiatur. sive negotiationem. qua ipse nostrum laborem et dolorem considerans. coepit mox et rei magnitudine et intentio­ nis iugitate deficere. tantum non sustinens pondus. qui legere scripturas ad aedificationem vitae suae coeperat. Deus. Mt 11. Sed mens humana. pie nos consolari voluit. sicque in brevi ad statum pristinum reductus. vixque tam vehemens et indiscreta intentio vitio superbiae carere valet. et dein­ ceps: "invenietis. tantaque huius importunae occupationis cura confundi. Quid autem de lectione simplicis Pauli dicam. Verso siquidem eventu in contrarium. inquit. mas faz negócios. que deixou de funcionar não somente nas funções úteis. lê as Escrituras como ocupação e. Crescendo com os dias o seu conhecimento e o seu de­ sejo. começou imprudentemente a explorar as coi­ sas profundas e obscuras e a insistir com afinco a decifrar os enigmas dos profetas e os significados místicos dos sacramen­ tos. Mas foi finalmente advertido pela misericórdia divina mediante uma re­ velação. o qual ardia de tanto amor pelas Escrituras santas. Senhor. Assim. Acrescentei este exemplo para mostrar àqueles que foram colocados no estudo não da literatura. por não ter sabido usar da moderação do discernimento. Quem. mas se acostumasse a dedicar-se à vida dos Santos Padres e aos triunfos dos mártires e a outras histórias semelhantes ditadas em estilo simples. considerando o nosso trabalho e a nos­ sa dor. por assim dizer. me ensinaste desde a ju­ ventude”. O que direi da leitura de Paulo o Sim­ ples.de um homem que provavelmente existiu. que quis antes praticar a lei e depois aprendê-la? Fato que 223 . tendo voltado em pouco tempo ao estado antigo. começava a tê-las agora como ocasião de erro. ele mereceu receber tamanha graça de paz in­ terior. dizendo: "Vinde a mim todos os que sofreís e estais cansados. e em seguida: "Encontrareis . voltando-se a sorte em sentido contrário.disse . para não se dedicar mais ao estudo destas Escrituras. que a elas dedicava um estudo contínuo. tomado pelo amor da Sabedoria e desprezando as Escritu­ ras mais simples. quis consolar-nos amavelmente. o Profeta disse: "Não conheço a literatura” nem os negócios. Deus. com a qual este. que você diria ter sido realizada nele aquela palavra do Senhor. Foi assim que. e esta intenção tão veemente e indiscreta mal esca­ pa do vício da soberba. de fato. este não faz filosofia. não suportando tanto peso. aquele que iniciara a 1er as Escrituras para a edifica­ ção de sua vida. mas também nas necessárias. Mas a mente humana. mas das virtudes.a paz para vossas almas”. devido ao tamanho da empresa e à continua tensão. começou logo a falhar e a ficar tão confusa pela preocupação com esta tarefa desmedi­ da. e eu vos confortarei”. que a leitura não deve ser motivo de aborrecimento e sim de contenta­ mento. Com efeito. mas "entrarei no poder do Senhor. lembrarei somente a tua justiça. como aflição do espírito. et mandata eius ob­ serva: hoc est omnis homo”^^”. Tu noli contendere. In quo utroque magno uti moderamine oportet. “Fili mi .amplius his ne requiras. et in Sion habitatio eius"”^. Deum time. Noli avarus esse. Caput VIII: Lectionem esse incipientium. Sufficiat tibi. et occupari noli. pax nulla est Ubi pax non est Deus habitare non potest ‘Tn pace . ne forte semper egeas. istis vero interim exercitium lectionis propositum est. cum ego potius diligentes lectores ad propositum hortari intendam. 224 . 120. sed pacem non amittere. faciendi plures libros. nullus est finis. et disce prudentiam. Considerandum praeterea est. Nihil tua interest. 119. Infinitus est librorum nu­ merus. et quantitate. tu noli sequi infinita. et eos qui libenter dis­ cunt laude dignos ostendere. quae superius commemoravi.inquit . Ubi ergo est finis? “Finem lo­ quendi omnes pariter audiamus.3. Sed ibi locutus sum eruditis. frequensque meditatio carnis afflictio est”. Illis studium virtutum. si prolixior exstiterit. et doc­ trinam quae principium est disciplinae incohantibus.12. Sl 75. ne quod ad refectionem quaesitum est sumatur ad suffocationem. aestimet lectorum diligentiam reprehendere. si obscurior fuerit. neque lectores legis. audi Sapientem.factus est lo­ cus eius. quod lectio duobus modis animo fastidium ingerere solet et affligere spiritum.inquit Propheta . 'Tn Sion. Sunt qui omnia legere volunt. nunc autem erudiendis. requies esse non potest Ubi requies non est. esse Sion oportet. sed in pace". et qualitate videlicet. Audi Salomonem. Ubi finis non est. opus perfectorum Nemo me pro his. sed factores potius iustos esse ante Deum. Ecl 12. annon omnes legeris libros. non auditores.nobis profecto satis exemplo esse potest. Contemplare. Não há fim em fazer muitos livros. e não faça disso uma ocupa­ ção. Onde não há paz. escute o Sábio. Mas lá eu falava aos eruditos. se for demasiado obscura. e 2) pela quantidade. em razão das coisas que acima relem­ brei. eu esteja repreendendo a diligência dos que léem. Não queira ser avaro.diz o Profeta . Onde não há repouso. e você não queira ir atrás dos infini­ tos. CAPÍTULO 8: A leitura é dos principiantes. Escute Salomão. Você não queira competir.certamente pode constituir para nós um exemplo eloqüente de que nâo os ouvintes nem os leitores da lei. a obra dos perfeitos Ninguém pense que. Contemple. que a leitura costuma criar abor­ recimento e afligir o espírito de duas maneiras: ou seja. “Em Sião. para nâo estar porventura sempre ne­ cessitando. se for demasiado prolixa. para que o ali­ mento desejado para a refeição não seja tomado para a indiges­ tão. a estes ainda o exercício da leitura. não há nenhuma paz.é a sua morada e em Sião está a sua casa". Não se preocupe. Onde nâo há um fim. e a meditação frequente é uma aflição da carne".não procure mais do que isso. não pode haver repouso. Tema a Deus. mas na paz". Ilá pessoas que querem ler tudo. além disso. mas sobretudo os seus praticantes são justos perante Deus. A eles lá é propos­ to o estudo das virtudes. Nas duas coisas é necessário usar moderação. Deus não pode habitar. 225 . aqui aos estudantes e a quantos iniciam a instrução que é o início da disciplina. è observe os seus mandamen­ tos: isto é todo 0 homem". Onde está o fim? "Escutemos todos igualmen­ te 0 fim do discurso. mas não perder a paz. O nú­ mero dos livros é infinito. Se contente. 1) pela qualidade. se não ler todos os livros. “Na paz . e aprenda a pru­ dência: “Meu filho “ disse . Deve-se saber. porque o meu objetivo é antes exortar para o seu propósito os leitores di­ ligentes e mostrar que são dignos de louvor aqueles que apren­ dem com prazer. É necessário existir Sião. Sed adhuc for­ te prosequeris.inquis . audi quid facias. discere mihi licet?" Supra dixi tibi: "Lege. sed non propositum. videlicet lectio sive doctrina. et tu philosophari quaeris? Simplicitas monachi philosophia eius est "Sed docere . Tu vero te perfectum fore promiseras. cur. Liber a culpa non est qui alienum usurpat officium.^eclamantibus assidue intercsse delectat? Tu semper ieiuniis et fletibus insistere debes. quasi per quosdam gradus ad futuram perfectionem sublevatur. si volo. oratio. Caput IX: De quattuor gradibus Quattuor sunt in quibus nunc exercetur vita iustorum et. sed plangere. et occupari noli”.sic tamen ut nec hi virtute careant. 226 . Exercitium tibi esse potest lectio. Non est tuum docere. et operatio. si ubi illi sunt quan­ doque pervenire desiderant Utrosque ergo exerceri et utrosque promoveri convenit Nemo retro abeat Ascendere licet sed non descendere. quid facis in turba? Si amas silentium. nec illi prorsus lectionem omittant. et ideo tibi non sufficit.alios volo”. Si tamen doctor esse desideras. sed incipientium est. sta in loco tuo. meditatio. Oportet autem summopere et illos cavere. Melius fugiendo mundum doces quam sequendo. Doctrina bona est. Plus aliquid te facere oportet. et doctrina minus utilis quam non sequitur bona ope­ ratio. et istos consolari. Considera ergo ubi sis. Si mo­ nachus es. si incipientibus coaequaris. ne forte ad ea quae retro sunt aspiciant. Si vero necdum ascendere potes. et quid inquiens: “Nonne saltem. Vilitas habitus tui et simplicitas vultus. innocentia vitae et sanctitas conversationis tuae docere debent homines. et quid agere debeas faci­ le agnosces. Nam saepe minus providum est opus quod non praece­ dit lectio. 3) a oração. fique no seu lugar. Mas você talvez ainda continua. mas não um propósito. o que faz na multidão? Se você ama o si­ lêncio. mas chorar. se quero.) a leitura ou instrução. Ninguém volte para trás. Se. você ainda não consegue ascender. Você. porém. a ino­ cência da vida e a santidade do seu falar devem ensinar os ho­ mens. mas não descender. Uns e outros devem exerci­ tar-se e uns e outros devem progredir. É lícito ascender. todavia. Se você é monge. onde está. e saberá facilmente aquilo que deve fazer. nem eles omitam totalmente a leitura. a saber: 1. Não é sua função ensinar. 4) a prática. Se.mas de modo que nem a estes falte a virtude. e por isso não lhe bastará igualar-se aos prin­ cipiantes. Você ensina mais fugindo do mundo do que seguindo o mundo. A instrução é boa. É sumamente necessário seja alertar os eruditos a não olhar porventura às coi­ sas que estão atrás. quando dese­ jam chegar lá onde os eruditos estão. portanto. como é menos útil a ins­ trução que não é seguida por uma boa atuação. escute o que fa­ zer: a humildade do seu hábito e a simplicidade do rosto. 227 . não me é lícito aprender?" Lhe disse antes. Considere. "Mas você diz . A leitura pode ser para você um exercício. De fato. e você quer filosofar? A filosofia do monge é a sua simplicidade. havia prometido de tornar-se perfeito. como que por alguns degraus. e não queira fazer disso uma ocupação”. ao contrário.quero ensinar aos outros". É necessário que você faça mais. eleva-se para a perfei­ ção futura. Não está livre de culpa aquele que usurpa a função do ou­ tro. você deseja ser doutor. CAPÍTULO 9: Os quatro degraus Quatro são as coisas nas quais agora a vida dos justos ci­ menta-se e. porque lhe agrada ficar assiduamente no meio dos decla­ madores? Você deve dedicar-se aos jejuns e às lágrimas. "Lê. 2) a meditação. seja consolar os estudantes. mas é dos principiantes. frequentemente é menos provido o agir que não é precedido pela leitura. dizendo: "Mas ao me­ nos. quarta. Multi enim scientiam ha­ bent. SI 19. ad orationem erigere. nil perficis. 121. Non cogeris. secunda. Operetur ergo Deus ut possis. si solus Deus operatur. contemplatio. quinta. subsequendo etiam pe­ des tuos dirigat in viam pacis. sed adhuc tibi non sufficit. sine quo nullum potes facere bonum. et quod in sola adhuc voluntate est ad effectum perducat bonae operationis.9. 123.13. contemplatio. operatio quaerit. intelligentiam dat. nil mereris. 228 . et meditare qualiter implere valeas quod faciendum esse didicisti. nondum perfectus es. quoniam consilium hominis sine divino auxilio in­ firmum est et inefficax. "Confortare et viriliter age"^^l Habet haec via praemium suum. incipi­ entium est. De his quinque gradibus primus gradus. Verbi gratia: prima. perfectorum. vitam quaerit. et eius adiutorium pete. lectio. Deinde restat tibi. ut videlicet ipsius gratia. lectio. Scande itaque in arcem consilii. ut aliquid merearis.12. Si ergo legis et intelligentiam habes et nosti iam quid facien­ dum sit. cum de iudiciis Dei loqueretur. Unde Psalmista. SI 33. commendans ea statim subiunxit: "In custodiendis illis retributio est multa”’^’. Et de mediis quidem quanto plures quis ascenderit. id est. ICor 16. Quoties eius laboribus fatigati. Tecum operari vult Deus. tanto perfectior erit. initium boni est. sed pauci sunt qui noverunt qualiter scire oporteat Rursus. Si solus tu. oratio petit. 122. supremus.Quinta deinde sequitur. in qua. contemplatio invenit. ut ad bonum opus accingaris. sed iuvaris. quae praeveniendo te illuminavit. opereris et tu. Qui viam hanc currit. me­ ditatio. “gustantes et vi­ dentes quoniam suavis est Dominus”’”. id est. consilium praestat. quasi quodam praecedentium fructu. Via est operatio bona qua itur ad vitam. in hac vita etiam quae sit boni operis merces futura praegustatur. superni respectus gratia illustramur. ut quod orando petis operando accipere merearis. tertia. portanto. rezando. pede. somos iluminados. opere Deus para que você possa. ao falar dos mandamentos de Deus e recomendando-os. ou seja. a contemplação. Entre estes cinco degraus. isto é o começo do bem. Por­ tanto. para que. Muitos. Se você opera sozinho. a contemplação. mereça receber aquilo que. Por exemplo. você nada merece. “Tenha coragem e aja virilmente”. procura. mas poucos sabem de que ma­ neira é oportuno praticar o conhecimento. Você não é obrigado. como se fosse um certo fruto das precedentes. com efeito. o iluminou. quanto mais a pes­ soa ascende. na qual. se antegoza também nesta. pede. se Deus opera sozinho. o primeiro de­ grau. dirija os seus pés no caminho da paz e leve ao efeito da boa obra aquilo que ainda está somente na vontade. e medite como conseguir cumprir as obrigações que aprendeu. é dos perfeitos. vida qual é o prêmio futuro das boas obras. Por isso. nada consegue. Deus quer operar com você. o quarto. portanto. a qual. A boa obra é a via pela qual vai-se à vida. Esta vida tem o seu prêmio. mas ajudado. busca a vida. mas ainda não lhe basta.Segue ainda uma quinta. logo acrescenta: “Na observância deles é grande a retribuição”. para que mereça algo. a. sem a qual você não pode fazer bem algum. levante-se para a oração. a leitura. você lê e tem o entendimento e Já sabe o que deve ser feito. o segundo. operando. 229 . é dos principiantes. o primeiro degrau. a leitura. e opere você também. para a fortaleza do discernimento. Suba. Com relação aos degraus do meio. têm o conhecimento. o quinto. Se. dado que o discernimento do homem é fraco e inefi­ caz sem 0 auxílio divino. “gostando e vendo que o Senhor é suave”. tanto mais é perfeita. em virtude do olhar superno. indo à sua frente. Quem percorre esta via. a meditação. Todas as vezes que estamos cansados nos trabalhos. o terceiro. dá o entendimento. en­ gendra o discernimento. prática. Ainda lhe resta cimentar-se na boa obra. ainda não é perfeito. a oração. o Salmista. Ainda. a contemplação. e peça a ajuda de Deus. encontra. seguin­ do-o. de modo que a graça dele. e o supremo. qui adhuc in ea solam quaerunt scientiam. et. vel honores obtineant. Et sic evenit. quoni­ am tanta est mutabilitas vitae nostrae. ita tamen ut in vo­ luntate non necessitate propositura nostrum consistat.Sicque fit quod supradictum est. sed. et aliquid amplius de se promittentibus. Non hoc ergo. quorum intentio quantum perversa. meditatur quid orandum sit. sed 230 . descen­ dere tamen aliquando nos cogat necessitas. orat ne deficiat. sed illud principale esse debet. Quod as­ cendimus propositum est. Sunt nonnulli qui divinae scripturae scientiam appetunt ut vel divitias congregent. ita etiam ab istis aliquid requiri quo illi nondum obligati sunt. quod descendimus propter proposi­ tum. ut in eodem stare non pos­ simus. ut. Verbi gratia. lectionem consulit. non quia salutifera. qui precibus in­ sistit. contem­ platio invenit. aperte demonstratum est provectis. et qui ali­ quando in proprio consilio minus confidit. quod oratio quaerit. cogimur saepe ad transacta respicere. quos audire verba Dei et opera eius discere delectat. ut qui infra remanserit perfectus esse non possit. ne orando offendat. cum ascendere semper nobis sit voluntas. Caput X: De tribus generibus lectorum Satis. ne amittamus il­ lud in quo sumus. ut videlicet ostendam qualiter eis divina scriptura legen­ da sit. Sed sicut illis aliquid licite conceditur quod isti sine culpa minime agere possunt. ut puto. non idem esse propositum cum in­ cipientibus. Sunt rursus alii. tantum est miseranda. repetimus quandoque quod transivimus. Vides igitur quomodo per hos gradus ascendentibus perfec­ tio occurrit. Propositum ergo nobis debet esse semper ascendere. vel famam acqui­ rant. Nunc igitur ad promissa solvenda redeo. qui in opere strenuus est. de modo que quem ficou embaixo não pode ser perfeito. que a prática procura. mas subirmos. de maneira a não conseguirmos ficar sempre no mes­ mo degrau. cuja intenção é tão perversa quão miserável. como a perfeição vai de encontro aos que ascendem por estes degraus. medita so­ bre 0 que deve rezar. volto a quanto tinha prometido. mas 231 . ou para ad­ quirir fama. mostrar como a Escritura deve ser lida por aqueles que ainda estão bus­ cando nela somente o conhecimento. Há outros. portanto. para não perdermos o degrau no qual esta­ mos. aquele que persiste nas orações e não quer equivocar-se no rezar. portanto. mesmo tendo sempre a vontade de subir. somos forçados freqüentemente a voltar para os de­ graus já passados. e aquele que vez e outra não confia no seu próprio discernimento. ou seja. assim destes é também exigido algo ao qual eles não são ainda obrigados. e. reza. Mas. sendo que é tanta a imprevisibilidade da nossa vida. às vezes a ne­ cessidade nos obriga a descer. não têm 0 mesmo propósito dos incipientes. ou seja. da mesma forma que aos avançados é concedido licitamente algo que os incipien­ tes de maneira alguma podem fazer sem culpa. os quais apraz ouvir as palavras de Deus e aprender as obras dele. Todavia. 2. Em todo caso. não porque são salvificas. deve ser o de sempre subir. portanto. e por causa deste objetivo às ve­ zes devemos descer. ou para obter honras. volta a consultar a leitura. 1. ainda. de maneira tal. E assim acon­ tece que. o mais importante não é des­ cermos. a contemplação encontra. Há alguns que desejam o conhecimento da Escritura divi­ na ou para acumular riquezas. porém. repetimos aquilo que já passamos. e aqueles que se propõem algo mais de si mesmos. que o nos­ so objetivo seja determinado pela vontade e não por esta neces­ sidade. O nosso objetivo. O nosso objetivo é subir. Ago­ ra.E assim realiza se quanto dissemos antes. CAPÍTULO 10: Três tipos de leitores Acho que foi demonstrado bastante claramente que os avan­ çados. Por exemplo: aquele que na prática é avançado. para que não canse. Você vê. sic scenicis carminibus. In vanum mirantur potentiam qui non amant misericordiam. parati sint “omni poscenti reddere ratio­ nem de ea fide in qua positi sunt”^”. quod bonum est in omnibus augeri cupimus. Hos ergo quid aliud agere dicam. et altius Dei secreta intelligentes arti­ us ament. Scrutari arcana et inaudita cognoscere vo­ lunt. ter­ tii laudandi. quia omnibus consulere intendimus. quorum nimirum devotio laudanda est et imitations digna. intendere solemus. secundum apostoli praeceptum. et quod perversum. Alii vero idcirco sacram scripturam legunt ut. minus eruditos doceant. IPd 3. omnes facere quod hortamur. Omnes intelligere volumus quod dicimus. sed improvida.quia mirabilia sunt. huiusmodi tamen non tam confun­ di quam adiuvari oportere censeo. Tria igitur sunt genera hominum sacram scripturam legenti­ um. multa scire et nil facere. quorum voluntas non utique maligna est. quorum primi quidem miserandi sunt. ipsi perfectius viam veritatis agnoscant. Nos vero. ut videlicet inimicos verita­ tis fortiter destruant. 124.15. 232 . commutari. secundi iuvandi. non animum. ut scilicet audi­ tura pascamus. quam praeconia divina in fabulas commutare? Sic theatralibus ludis. senão transformar os anún­ cios divinos em fábulas? É assim que costumamos assistir aos jogos teatrais. Queremos que todos entendam aquilo que dize­ mos. e sim desconsiderada. ensinar aos menos instruídos.porque são maravilhosas. todavia. os segundos ajudados. assim às declamações cênicas. eles mesmos conhecerem mais perfeitamente a via da verdade. é louvável e digna de imitação. os terceiros louvados. não a alma. 233 . 3. Em vão admiram a potência. Querem perscrutar as coisas arcanas e conhecer coisas nunca ouvidas. Outros. todos façam aquilo ao qual exortamos. os tipos de homens que lêem a Sagrada Escritura. para destruir com força os inimigos da verdade. diria eu. Acho. Três são. estar prontos "a dar conta. onde alimentamos o ouvi­ do. a quem o pedir. aqueles que não amam a misericórdia. lêem a Sagrada Escritura com o propósito de. que é necessário não tanto repreen­ der este tipo de pessoas. daquela fé na qual foram postos”. porém. porém. conhecer muito e fazer nada. Nós. Que outra coisa estes fazem. dos quais os primeiros merecem ser compadecidos. e amar tanto mais energicamente quanto mais alta­ mente conhecerem os mistérios de Deus. de­ sejamos aumentar em todos aquilo que é bom e corrigir aquilo que é perverso. quanto ajudá-las. do momento que queremos prover a todos. portanto. sem dúvida. A devoção deles. quer dizer. porque a vontade de­ las não é propriamente maligna. segundo o preceito do apóstolo. quae horum alia ordine legendi praecedant. ordinem scilicet et modum propono. allegoriam. Caput III: De historia Sic nimirum in doctrina fieri oportet. Ordinem legendi supra quadrifarium esse commemoravi. sed sic quaedam breviter praelibando transcurram. dehinc fabrica superaedificatur. ad ultimum consumma­ to opere domus colore superducto ve. ubi primum quidem fundamentum ponitur. ut videlicet prius his­ toriam discas et rerum gestarum veritatem. tropologiam. alium in libris. lector. quae si diligenter inspexeris. a principio repetens usque ad finem 234 .LIBER SEXTUS Caput I: Quomodo legenda sit scriptura sacra quaerentibus scientiam in ea Duo tibi. quod in aedificiis fieri conspicitur. alium in narratione atque ali­ um in expositione. Quae qualiter in divina scriptura assignanda sint. In horum vero consideratione nec omnia tuo ingenio relin­ quam. nondum ostendi. alium in disciplinis. Caput II: De ordine qui est in disciplinis Primum ergo hunc ordinem qui quaeritur in disciplinis inter historiam. neque per meam diligentiam satis tibi fieri promitto.stitur. facile tibi iter legendi patebit. divinum lectorem considera­ re oportet. In quo illud ad memoriam revocare non inutile est. ut et posita aliqua qui­ bus erudiaris et aliqua praetermissa quibus exercearis invenias. mas passarei brevemente por al­ guns pontos. com as quais se instrua. ou seja. Mas ainda não mostrei a maneira como tais disposições devem ser aplicadas na Escritura divina. CAPÍTULO 3: A história Sem dúvida é mister. 3) outra na nar­ ração. no estudo. você ficará satisfeito. e saiba qual delas preceda as outras na or­ dem de leitura. de maneira que você encontre seja algumas coisas tratadas.stória e a verdade dos fatos. sobre as quais se exercite. é necessário que o leitor divino tenha presente aquela ordem exigida nas disciplinas entre história. 4) outra na exposição.LIVRO VI CAPÍTULO 1: Conio a Escritura Sagrada deve ser lida por aqueles que nela procuram o saber Duas coisas recomendo a você. não deixarei tudo à sua capacidade nem lhe prometo que. por último. CAPÍTULO 2: A ordem que está nas disciplinas Como primeira coisa. l^elembrei acima que a ordem da leitura se dá em quatro âm­ bitos: 1) uma nas disciplinas. depois se levanta a construção. a hi. lambiscando-os. 2) outra nos livros. seja outras preteridas. 1) a or­ dem e 2) o método. antes de tudo. se você as encarar diligentemen­ te. por melo da minha dili­ gência. terminada a obra. a casa é revestida com uma mão de cor. todavia. não é inútil trazer de volta à memória aquilo que se observa acontecer nos edifícios. estudante. retomando do começo ao fim 235 . Na apresentação destas coisas. 0 caminho da leitura se abrirá facilmente diante de você. que você aprenda. onde primeiro se põe a funda­ ção. ale­ goria e tropologia. coisas que. Nisto. Saepe ad numerum protensum in ligno magadam ducere solebam. a rnemetipso cotidianum exegi debitum. Marbodius de Rennes. quando gestum sit. ut et vocum differentiam aure perciperem. Calculos in numerum posui. ubi gestum sit. diligenter memoriae commendes.quid gestum sit. Utrumne quadratum aequilaterum duobus in se lateribus multiplicatis embadum impleret. sed multa saepe didicisse quae aliis ioco aut deliramento similia viderentur. 236 . Paulatim defluit qui minima contemnit. Noli contemnere minima haec. Memini me. negotium. Haec enim quattu­ or praecipue in historia requirenda sunt. ipso exemplo oculis subiecto. Quoties sophismatum meorum. quod rhetoris. tempus et locus. (PL 171. quae gratia brevitatis una vel duabus in pagina dictionibus signave­ ram. ut etiam sententia­ rum. De ornamentis verborum. elaborasse ut omnium rerum oculis subiectarum aut in usum venientium vocabula scirem. nisi prius fundatus fueris in historia. et a quibus gestum sit. et nigris pavimentum carbonibus depinxi. Saepe nocturnus horoscopus ad hiberna pervigilia excubavi. persona. diligenter distinxi. perpendens libere rerum naturam illum non posse prosequi qui earundem nomina adhuc ignoraret. et. Scio quosdam esse qui statim philosophari vo­ lunt. Quorum sci­ entia formae asini similis est. dum adhuc scholaris essem. quae ampligonii. et. “Parvis imbutus tenlabis grandia lutus”'^^. Fabulas pseudoapostolis relinquendas aiunt. quae orthogonii. quaestionum et oppositionum omnium fere quas didiceram et solutiones memoriter tenerem et numerum! Causas saepe in­ formavi. quod sophistae officium esset. nunc inter grammaticos tantum no­ men non haberes.1687). quae oxygonii differentia esset. Neque ego te perfecte subtilem posse fieri puto in allegoria. dispositis ad invicem controversiis. Ego tibi affirmare ¿ludeo nihil me umquam quod ad eruditi­ onem pertineret contempsisse. Noli huiusmodi imitari. Si primo alphabe­ tum discere contempsisses. prol. utrobique procurrente podis­ mo didici. patenter demonstra­ vi. 125. quod oratoris. Freqüen­ temente costumava tocar as cordas esticadas aritméticamente sobre um lenho. para também memorizar seja as soluções seja o número de quase todas as sentenças. Aquele que despreza as coi­ sas mínimas aos poucos definha. Não queira desprezar estes detalhes. 2) quando foi feito. Não imite esse tipo de gente: “Imbuído de pequenas coisas tentarás. se antes não estiver consolidado na história. O saber deles é pa­ recido com a figura de um burro. como um astrólogo noturno. Freqüentemente. Se você tivesse desdenhado de aprender como primeira coisa o alfabeto. 3) onde foi feito. Eu me permito afirmar-lhe que nunca desprezei nada daqui­ lo que se relacionasse com a instrução.strava claramente qual era a diferença entre o ângulo obtuso. seja para perceber pelo ouvido a diferença dos sons. agora não teria o nome nem entre os estudiosos da gramática. aprendi se. pernoitei em longas vigílias invernáis. Lembro-me que. Sei que há alguns que querem logo fazer teorias filosóficas.ses que. 4) por quais pessoas foi feito. multiplicando dois lados entre si. Na história devem ser procurados. havia anotado numa página em uma ou duas frases. distinguía diligentemente qual era a função do retor. o ângulo reto e o ángulo agudo. Andando com os pés sobre um lado e o outro. decidi de aprender os vocábulos de todas as coisas que caíssem sob os olhos ou viessem a ser usadas. o tempo e o lugar.1) o que foi feito. quando era ainda pequeno e. Dizem que as fábulas devem ser deixadas com os pseudo-apóstolos. a área preenchia o quadrado equilátero.studante. por razões de concisão. posto sob os olhos este mo­ delo. grandes feitos”. e. o fato. sobre­ tudo. Dispunha pedrinhas em lugar de números e pintava o chão com carvões pretos. 237 . ponderando que não pode perquirir livremente a natureza das coisas aquele que ignora até o nome delas. mas aprendi muitas cois¿\s que aos outros pareciam semelhantes ao divertimento ou ao devaneio. qual do orador e qual do sofista. estes quatro dados: a pessoa. Eu não posso considerar que você tornou-se perfeitamente sutil na alegoria. Quantas vezes exigi de mim mesmo o estudo cotidia­ no das minhas te. dispostas as argumentações contrárias entre si. demon. ques­ tões e objeções que eu tinha aprendido! Frequentemente eu montava debates e. firme. De libris autem qui ad hanc lectionem utiles sint. neque ut quidam. Secundum quam acceptionem omnes utriusque testamenti libros eo ordine quo supra enumerati sunt ad hanc lectionem secundum litteralem sensum pertinere puto. dum magnum saltum facere volunt. et Regum. 238 . necessaria pariter et com­ petentia esse videbis. quattuor evangelia. losue. quae nullius videntur esse utili­ tatis. quia ta­ men sine ipsis illa enucleate sciri non possunt. quae tamen si aliis quibus cohaerent compara­ veris. Hos magis frequentandos existimo: Gene­ sim. “Multa invenio in historiis. quamvis propter se non videantur nostro labore digna. Si tamen huius vocabuli significatione largius utimur. quia novi divinam scripturam magis ceteris omnibus in textu suo esse concisam. Novi Testamenti. Sicut in virtutibus. primum. quare in huiusmodi occupabor?” Bene dicis. Haec autem non tibi replico. dehinc Actus apostolorum. sed tamen non inutilia. sed ut ostendam tibi illum incedere aptissime qui incedit ordinate. in hoc loco aliqua de modo construendi praecepta interponerem. nisi puerile videretur. praecipitium incidunt. ut meam scien­ tiam. exceptis his quos historiographos proprie appellamus. nul­ lum est inconveniens. ita in scientiis quidam gradus sunt. Et fortasse. Alia propter se scienda sunt. nullatenus de­ bent negligenter praeteriri. quae in se considerata nihil expetendum habere videntur. Multa siqui­ dem sunt in scripturis. Hi XI magis ad historiam mihi pertinere vi­ dentur.et animum pariter meli dulcedine oblectarem. Coartata scientia iucunda non est. Exodum. Haec puerilia qui­ dem fuerant. Sed dicis. sed illam primam signifi­ cationem cuiuslibet narrationis. si quid mihi videatur. ut scilicet historiam esse dicamus. iactitem. et Paralipornenon. quae vel nulla vel parva est. Omnia disce. non tantum rerum gestarum narrationem. quae secundum proprietatem verborum exprimitur. videbis postea nihil esse superfluum. librum ludicum. neque ea nunc scire stoma­ chum meum onerat. quaeris. alia autem. et in toto suo trutinare coeperis. talvez. nenhum livro é impróprio. e verá depois que nada é supérfluo. todavia de maneira alguma devem ser preteridas negligentemente. verá que são igualmente necessárias e procedentes. porque sem elas não podem ser conhecidas exaustivamente aquelas outras. Como nas virtudes. se você as comparar com outras às quais es­ tão ligadas. querendo dar um grande salto. Aqui. introduziria algumas ob­ servações . outras. Aprenda tudo. Parece-me que estes onze livros têm a ver mais com a história. se chamarmos história não apenas a narração dos fatos. Você me pergunta se eu tenho alguma sugestão sobre os li­ vros que são úteis para este tipo de leitura. depois os Atos dos Apóstolos.sobre o modo de construir as regras. não como alguns que. O saber limitado não é alegre. porque sei que a Escri­ tura divina em seu texto é mais concisa do que todos os outros. creio que pertencem a esta leitura em sentido literal todos os livros dos dois testamentos na ordem em que foram enumerados acima. por que deveria ocupar-me de coisas desse tipo?” Você diz bem. todavia não inúteis. caem no precipício. Não con­ to para você estas coisas para alardear minha ciência. mas para lhe mostrar que avança eficazmente aque­ le que procede ordenadamente.seja para deleitar a alma com uma doçura parecida com a do mel. Conforme esta acepção. Mas. Foram coisas pueris. Você dirá: “Encontro nas histórias muitas coisas que pa­ recem não 1er utilidade alguma. mas. Acho que devem ser estudados mais estes: Gênesis. tomadas separadamente. 239 . dos Reis e o livro das Crônicas. ainda que não pareçam merecer a nossa aplicação. Algumas coisas devem ser conhecidas em si mesmas. também nas ciências existem alguns de­ graus. parecem não ter nada a ser buscado. mas aquele primeiro significado de qualquer narração que se ex­ pressa pela propriedade das palavras. se não parecesse pueril. o livro dos Juizes. i. se deixarmos de lado aqueles que chamamos propriamente historiográficos. é verdade.sto é. Quanto ao Novo Testamento. há muitas coisas nas Escrituras que. que é nula ou pequena. e co­ nhecer agora aquelas coisas não me pesa no estômago. Todavia. primeiro os quatro Evangelhos. e começar a examiná-las em conjunto. se usarmos um significado mais amplo desta palavra. Josué. ne nimia propositum in­ terpositione extendam.1. legem dedit. per importunam diligentiam. qualiter saepe pec­ cantes in manus inimicorum suorum tradidit. Hoc est ergo. de qua quasi mei de favo. qualiter Noe iustum cum filiis suis in mediis aquis divina clementia servavit. et rursum paenitentes liberavit. 128. per moralitatis gratiam quasi pulcherrimo superducto co­ lore aedificium pinge”'^*^. post vero Israel in Aegy­ ptum descendit. 127. Nec hoc nunc dico ut prius Veteris Testamenti figuras labores evolvere. Aedificaturus ergo “primum fundamentum historiae pone. quam ad evangelii fluenta potanda accedas. in allegoria quo eius sacramenta credas. deinde per reges populum rexit. Ezech 20. quomodo primum per iudices. “in principio fecit Deus caelum et terram’’'^L Lege quia in principio plantavit “paradisum volupta­ tis. Fundamentum au­ tem et principium doctrinae sacrae historia est. Ordine cuncta gesta sunt: ordine incede. Peccantem ex­ pulit et in aerumnas huius saeculi deiecit. Gn 2. 240 . quod tibi proponimus. in deserto pa­ vit. deinde per significatio­ nem typicam in arcem fidei fabricam mentis erige.8.5s. Lege qualiter ab uno homine universa humani generis propago descenderit. ne vel per negligentiam aliqua praetere­ amus. Sed sicut vides quod omnis aedificatio fundamento carens stabi­ lis esse non potest. quae magna discreti­ one discernere oportet. Lege ergo et disce quia. aut.quibus tamen idcirco supersedere volo. veritas allegoriae exprimitur. qualiter deinde Abraham fidei signaculum suscepit. ad id ad quod scripta non sunt violenter intorqueamus. 126. Per umbram venitur ad corpus: figuram disce et invenies veritatem. Ad extremum vero. in terra promissionis locavit. o lector. Gn 1. Sunt quaedam loca in divina pagina quae secundum litteram legi non possunt. Habes in historia quo Dei facta mireris. I lic campus tui laboris vomere bene sulcatus multiplicem tibi fructum referet. in quo posuit hominem quem formaverat”'^®. sic est etiam in doctrina. et mystica eius dicta scruteris. qualiter deinde peccantes unda obruit. in moralitate quo perfectionem ipsius imite­ ris. quomodo deinde Deus filios Israel de Aegypto in manu Moysi et Aaron per mare Rubrum eduxit. como a divina clemên­ cia conservou no meio das águas o justo Noé com seus filhos. as quais não podem ser lidas em sentido literal e é necessário exami­ ná-las com grande discernimento. quando pecavam de freqüente. como a onda cobriu os homens pecadores. Leia que no começo plantou "um paraíso de delícia. erga o edifício da mente como fortaleza da fé. bem sulcado com o arado. Dispondo-se a edifi­ car. da qual deri­ va a verdade da alegoria. como. Abraão recebeu o sinal da fé. O expulsou quando pecou e o fez cair nas amarguras deste mundo. “primeiro ponha o fundamento da história. pinte o edifício com uma belíssima mão de cor”. corno você observa que toda edificação sem fun­ damento não pode ser estável. na alegoria do que crer os seus mistérios. e aprenda que “no começo Deus fez o céu e a terra”. ainda. Deus trouxe do Egito os filhos de Israel pelas mãos de Moisés e Aarão através do Mar Vermelho. portanto. em seguida. como regeu o povo primeiro pelos juizes e depois pelos reis. das quais beber. antes de aceder às fontes do Evangelho. e encontrará a verdade. no qual pôs o homem que havia formado”. lhe trará muitos frutos. depois. Mas. Este campo do seu trabalho. preterir algo. estudante. nutriu-os no deserto. o mesmo se dá no estudo. como. Israel desceu para o Egito. colocou-os na terra da promessa. para o qual não foram escritas. Na história você tem do que admirar os fatos de Deus. na moralidade do que imi­ tar a sua perfeição. tendo eles feito penitência. aquilo que lhe propomos. E o fun­ damento e 0 princípio da ciência sagrada é a história. como o mel do favo. ou. se não queremos. Leia como toda a linhagem do gênero humano descendeu de um só homem. por um zelo inoportuno. 241 . deu-lhes a lei. torcê-las violenta­ mente para um sentido. Não quero dizer agora que você primeiro deve empe­ nhar-se a decifrar as imagens do Antigo Testamento e a escrutar seus ditos místicos. Há algumas passagens na página divina. Pela sombra se chega ao corpo: aprenda as imagens. portanto. por meio da beleza da moralidade.mas vou deixar isso. Todas as coisas foram realizadas com ordem: proceda com ordem. entregou-os nas mãos dos inimigos e novamente. Leia como. como. depois. Leia. F isto. por negligên­ cia. os libertav¿i. por meio da significação simbólica. Por fim. para não estender o meu projeto com dema­ siadas interpolações. et paravit illum. ut in discernendo prudentiam non amit­ tant. Nosse tamen te volo. nam et ipsa structuram habet. structura in altum levatur. quae sic in investigan­ do subtilitatem teneant. plane aedificio similem. Venturum se in fine . et. 130. peccatoribus vide­ licet ignem aeternum. Collocato fundamento. Ezechiel flenti XV annos addidit. Dehinc prae­ varicantem populum captivum in Babylonem per manum Nabuchadonosor misit. hoc studium non tardos et he­ betes sensus. Tali ergo te moderamine uti oportet. missis in mundum universum aposto­ lis. Meministi. perpendiculum demittit. Ad extre­ mum vero. Lc 1. ac deinde lapides diligenter politos in ordinem ponit. promisit. Filium in carnem misit. o lector. SI 7. Salomonem sapi­ entia illustravit. 242 .saeculorum ad indicium prae­ dixit reddere unicuique secundum opera sua. dum in quaerendo subtilis fueris. ubi mea exhortatione opus e. sed matura expetere ingenia. ut aestimo. supra me divinam scripturam aedifi­ cio similem dixisse. cum ipsa res satis per se digna appareat. Post LXX annos per Cyrum reduxit. superest allegoriarum mysteria in­ vestigare. fundamento posito. ex quo mundus coepit usque in finem saeculorum. nutante iam saeculo. iustis autem vitam aeternam et “regnum cuius non erit finis"'^^ Vide quia. Respice opus caementarii. transglutiri non po­ test. lineam extendit in directum.33. in praesumendo temerarius non inveniaris.sse non puto. non deficiunt miserationes Domini. et in eo paravit vasa rnortis”^^”. reco­ lens quod ait Psalmista. ut. Caput IV: De allegoria Post lectionem historiae. vitam aeternam paenitentibus. “Arcum suum tetendit. Solidus est cibus iste.David servum suum de post fetantes accepit. ubi primum. nisi masticetur.13. Non ergo pigeat si hanc similitudinem paulo diligentius prosequamur. 129. não faltam as misericórdias do Senhor. Quero. resta investigar os mistérios das alegorias. estudante.scer perpendicularmente. sendo sutil na pesquisa. isto é. e. mas mentes maduras. portanto. porque ela também possui uma estrutura. ele estica a li­ nha horizontalmente.3 . por meio de Ciro.Recebeu o seu servo Davi de trás das ovelhas fecundas. prometeu a vida eterna àqueles que fizessem penitência. que você saiba. ela é realmente parecida com um edifí­ cio. aos pecadores o fogo eterno. não pode ser engolida. ao justos a vida eterna e “o reino que não terá fim”. e nele preparou os instrumentos de morte”. que devem possuir sutileza na investigação sem perder a prudência no discernimento. Não se incomode se aprofundamos esta imagem um pouco mais atentamente. Predisse que voltaria no fim dos tem­ pos para o juízo. utilizar-se de um equilíbrio tal. relembrando quanto diz o Salmista: "Estendeu o seu arco e o preparou. posta a fundação. e em seguida põe as pedras em ordem. Você vê que. tendo enviado ao mundo os Apóstolos. Em seguida. Esta é uma comida forte que. que você. CAPÍTULO 4: A alegoria Depois da leitura da história. desde que o inundo iniciou até o fim dos séculos. É necessário. Como últi­ ma coisa. a faz de. onde primeiramente. para dar em recompensa a cada um segundo as suas obras. Ilumi­ nou Salomão com a Sabedoria. posta a fundação. que este estudo exige não sentidos lerdos e idiotas. De­ pois de 70 anos. que acima comparei a Escritura divina a um edifício. polidas diligentemente. e nisto não vejo necessária uma minha exortação. todavia. espero. Deu mais quinze anos a Ezequiel que chorava. 24. 0 mundo vacilando. Olhe 0 trabalho do pedreiro. uma vez que a própria coisa aparece por si mesma b¿rstante digna. enviou o Filho na carne. a estrutu­ ra é erguida para o alto. não seja considerado temerário nas conjeturas. trouxe-o de volta. se não for mas­ tigada. Você lembra. despachou o povo que prevaricava para Babilônia como escravo por mão de Nabucodonosor. Spiritualis autem intelligentia nullam admittit repugnantiam. et si forte aliquos primae dispo­ sitioni non respondentes invenerit. fabricam quae superaedi­ ficatur allegoriam insinuare. in qua diversa multa. limam frangat.sti? Pri­ mus ordo est sacramentum Trinitatis. aspera planat. Nam hoc quasi aliud quoddam fundamentum est. Fundamentum in terra est. accipit limam. Intende! rem tibi proposui intuentibus contemptibilem. Quod sub terra est fun­ damentum figurare diximus historiam. quia et hoc scriptura con­ tinet. dum silicem frangere laborat. Huic et insidunt et coaptantur reliqua. Sic divina pagina multa secundumi litteralem sensum continet. sed non omni modo coaptantur. Hoc fundamentum et portat superposita et a priori fundamento portatur. Pri­ mum fabricam portat et est sub fabrica. 244 .Alios deinde ¿ilque alios quaerit. praeeminen­ tia praecidit. nec semper politos habet lapides. Vis scire qui sint ordines i. quod ante omnem creaturam trinus et unus fuerit Deus. ne forte. Et multa sacramenta in divina pagina continentur. sed intelligentibus imitatione dignam. quibus scilicet totum opus reli­ quum innititur et coaptatur. Unde et ipsa basis fabricae huius ad allegoriam pertinere debet. et ae­ qualem quaerit structuram. sicque demum reliquis in ordinem dispositis adiungit. lloc portat fabricam et non est solum sub fabrica sed in fabrica. Si vero ali­ quos tales invenerit. Multis ordinibus consurgit fabrica. eos non assumit. et totius fabricae basis. quae singula sua habent principia. et informia ad formam reducit. qui nec comminui valeant nec congrue co­ aptari. Quod etiam pri­ mam seriem lapidum super fundamentum collocandorum ad protensam lineam disponi vides. significatione non caret. et quisque suam basim habet. quae et sibi repugnare videntur et nonnumquam absurditatis aut impossibilitatis aliquid afferre. adversa nulla esse possunt. Primo fundamento insident omnia. Fabrica desuper terram. E depois procura outras e outras pedras, e, encontrando algu­ mas pedras não conformes às da primeira fila, pega o cinzel, cor­ ta as partes excedentes, aplana as partes ásperas e reduz as coi­ sas informes a uma forma, e assim finalmente as acrescenta às outras já dispostas em ordem. E se, por acaso, encontra algumas pedras tais que não possam ser diminuídas nem adaptadas con­ gruentemente, não as usa, para que não lhe aconteça que, ten­ tando quebrar a pedra, quebre o cinzel. Procure entender! Propus-lhe uma coisa desprezível para os que olham superficialmente, mas digna de ser imitada para os que olham em profundidade. A fundação está dentro da terra e nem sempre tem pedras polidas. Mas o edifício está sobre a terra e exige uma estrutura uniforme. Do mesmo modo, a página divi­ na contém muitas coisas em sentido literal que parecem contra­ dizer-se entre si e algumas vezes trazer algo de absurdo ou im­ possível. Mas 0 entendimento espiritual não admite contradição. Se você vê que a primeira fila de pedras a serem assentadas so­ bre a fundação é disposta ao longo de uma linha esticada e sobre elas todo o trabalho restante se apoia e se adapta, tal fato não carece de significado. Com efeito, esta primeira fila é como uma nova fundação e a base de todo o edifício. Este fundamento sus­ tenta as pedras superpostas e, por sua vez, é sustentado pela pri­ meira fundação. Todas as coisas se a.ssentam sobre a primeira fundação, mas não são adaptadas uma à outra a qualquer custo. Sobre a segunda fundação, porém, as outras coisas se assentam e são adaptadas. A primeira fundação sustenta o edifício e fica debaixo dele, a segunda sustenta o edifício e fica não somente debaixo do edifício, mas também no próprio edifício. A fundação sob a terra, como dissemos, afigura a história, o edifício que é construído em cima sugere a alegoria. For esta razão, a própria base deste edifício deve relacionar-se com a alegoria. 0 edifício se levanta em vários planos, e cada um tem sua base. Tíimbém na página divina são contidos muitos mistérios que possu­ em seus princípios. Quer saber quais são estes planos? O primeiro plano é 0 mistério da Trindade, pois a Escritura contém também isto, ou seja, que antes de qualquer criatura existia um Deus uno e trino. 245 Hic de nihilo omnem fecit creaturam, visibilem scilicet et invisi­ bilem; ecce secundus ordo. Rationali creaturae liberum dedit ar­ bitrium, et gratiam praeparavit, ut mereri posset aeternam beatitudinem, deinde sponte labentes punivit, et persistentes, ut am­ plius labi non possint, confirmavit Quae origo peccati, quid pec­ catum, et quid sit poena peccati: ecce tertius ordo. Quae sacra­ menta primum sub naturali lege ad reparationem hominis insti­ tuerit: ecce quartus ordo. Quae scripta sub lege; ecce quintus ordo. Sacramentum incarnationis Verbi; ecce sextus ordo. Sacra­ menta Novi Testamenti: ecce septimus ordo; ipsius denique re­ surrectionis; ecce octavus ordo. Hic est tota divinitas, haec est illa spiritualis fabrica, quae, quot continet sacramenta, tot quasi ordinibus constructa in al­ tum extollitur. Vis etiam ipsas bases agnoscere. Bases ordinum principia sunt sacramentorum. Ecce ad lectionem venisti, spiri­ tuale fabricaturus aedificium. lani historiae fundamenta in te lo­ cata sunt: restat nunc tibi ipsius fabricae bases fundare. Linum tendis, ponis examussim, quadros in ordinem collocas, et circumgyrans quaedam futurorum murorum vestigia figis. Linea protensa rectae fidei trames est, ipsae spiritualis operis bases quaedam fidei principia sunt, quibus initiaris. Debet siquidem prudens lector curare, ut, antequam spatiosa librorum volumina prosequatur, sic de singulis quae magis ad propositum suum et professionem verae fidei pertinent instructus sit, ut, quaecum­ que postmodum invenerit, tuto superaedificare possit. Vix enim in tanto librorum pelago et multiplicibus sententiarum anfracti­ bus, quae et numero et obscuritate animum legentis saepe con­ fundunt, aliquid unum colligere poterit, qui prius summatim in unoquoque, ut ita dicam, genere aliquod certum principium fir­ ma fide subnixum, ad quod cuncta referantur, non agnovit. Vis ut doceam te qualiter fieri debeant bases istae? Respice ad ea quae paulo ante tibi enumeravi. Est sacramentum Trinita­ tis. Multi iam de illo libri facti sunt, multae datae sententiae dif­ ficiles ad intelligendum, et perplexae ad solvendum. 246 Este fez do nada todas as criaturas, quer dizer, as visíveis e as in­ visíveis; eis o segundo plano. Ele deu à criatura racional o livre-arbítrio e Ihe ofereceu a graça, para que pudesse merecer a béatitu­ de eterna, e por isso puniu os que erravam livremente e fortificou os que perseveravam no bem, para que não pudessem mais cair. Qual a origem do pecado, o que é o pecado, o que é a punição do pecado: este é o terceiro plano. Quais sacramentos instituiu ele na origem sob a lei natural para a reparação do homem: este é o quarto piano. Quais os escritos sob esta lei; este é o quinto plano. 0 sacramento da Encarnação do Verbo: eis o sexto plano. Os sa­ cramentos do Novo Testamento; este é o sétimo plano. Final­ mente o mistério de sua ressurreição; este é o oitavo plano. Esta é toda a divindade, este é aquele edifício espiritual que se eleva para o alto, construido em tantos planos quantos são os mistérios que contém, Você quer conhecer as próprias bases. A base dos vários planos são os princípios dos mistérios. Você veio à leitura, para edificar o edifício espiritual. As fundações da his­ tória já estão postas em você: agora lhe resta fundar as bases do próprio edifício. Você estica a linha, pondo-a direitinho, assenta as pedras quadradas em fila, e fazendo um giro constrói alguns traçados das futuras paredes, A linha estendida é o caminho da fé certa, e as bases próprias do traj^alho espiritual são alguns princípios da fé, aos quais você será iniciado. O estudante pru­ dente deve, todavia, cuidar de que, antes de continuar em gran­ des volumes de livros, seja tão instruído sobre cada ponto relati­ vo ao seu plano e à profissão da verdadeira fé, que, qualquer coi­ sa encontrará no futuro, possa construir com segurança. Neste imenso mar de livros e nestas várias sinuosidades de doutrinas, que amiúde confundem a mente do estudante por número e obs­ curidade, dificilmente poderá realizar uma construção unitária aquele que não conheceu antes e sumariamente em cada gêne­ ro, por assim dizer, algum princípio certo e fundado numa fé fir­ me, ao qual todas as coisas sejam reportadas. Quer que lhe ensine como devem ser realizadas estas bases? Olhe para aquilo que pouco antes enumerei. Aí está o mistério da Trindade. Sobre ele já foram escritos muitos livros, foram dadas muitas opiniões difíceis de entender e complicadas a resolver-se. 247 Longum tibi et onerosum est adhuc omnes prosequi, cum multa fortassis invenias, in quibus magis turberis quam aedificeris. Noli instare, sic numquam ad finem venies. Disce prius breviter et dilucide, quid tenendum sit de fide Trinitatis, quid sane profi­ teri et veraciter credere debeas. Cum autem postea legere coepe­ ris libros, et multa obscure, et multa aperte, multa ambigue scripta inveneris, quae aperta invenis, adiunge basi suae, si forte convenient. Quae ambigua sunt, ita interpretare ut non discor­ dent. Quae vero sunt obscura, resera si potes. Quod si ad intel­ lectum eorum penetrare non vales, transi, ne, dum praesumere conaris quod non sufficis, periculum erroris incurras. Noli ea contemnere, sed potius venerare, quia audisti quod scriptum est: "Posuit tenebras latibulum suurn”'^'. Quod si etiam aliquid inveneris contrarium illi quod tu iam firmissima fide tenendum esse didicisti, non tamen expedit tibi cotidie mutare sententiam, nisi prius doctiores te consulueris, et maxime quid fides univer.salis, quae numquam falsa esse potest, inde iubeat sentiri agnove­ ris. Sic de sacramento altaris, sic de sacramento baptismatis, con­ firmationis, coniugii, et omnibus quae tibi enumerata sunt supra, facere debes. Vides multos scripturas legentes, quia fundamen­ tum veritatis non habent, in errores varios, labi, et toties fere mu­ tare sententias, quot legerint lectiones. Rursum alios vides, qui secundum illam veritatis agnitionem, qua intus firmati sunt, quas­ libet scripturas ad congruas interpretationes flectere noverunt et quid a fide sana discordet aut quid conveniat iudicare. In Ezechiele legis quod rotae animalia sequuntur, non ani­ malia rotas: “Cum ambularent - inquit - animalia, ambulabant pariter et rotae iuxta ea. Et cum elevarentur animalia de terra elevabantur simul et rotae”“^ Sanctorum quippe mentes quan­ tum virtutibus vel scientia proficiunt, tantum sanctarum scrip­ turarum arcana profunda esse conspiciunt, 131. SI 18,12. 132. Ez 1,19. 248 Para você seria longo e ainda gravoso percorrer tudo, encon­ trando provavelmente muitas coisas nas quais se turbará, ao in­ vés de edificar-se. Não insista, porque deste modo nunca chega­ rá ao fim. Aprenda primeiro, brevemente e distintamente, aquilo que deve reter-se sobre a fé na Trindade, aquilo que você deve professar com segurança e crer verdadeiramente. Quando, mais tarde, você começar a 1er livros, encontrando muitas coisas es­ critas obscuramente, muitas claramente, muitas ambiguamente, acrescente à sua base aquelas que encontrará claras, se por aca­ so se ajustam. Aquelas que são ambíguas, interprete-as de modo que não se contradigam; mas aquelas que são obscuras, eluci­ de-as, se consegue. E, se não consegue penetrar no entendimen­ to delas, passe para frente, para que, presumindo esforçar-se na­ quilo para o qual não está preparado, não incorra no perigo do erro. Não queira desprezá-las, mas antes venerá-las, porque você ouviu aquilo que foi escrito: "Fez das trevas o seu esconderijo". E, se você encontrar algo contrário àquilo que aprendeu a ser professado com fé firmissima, não lhe convém mudar de opinião a cada dia, sem antes consultar os que são mais cultos que você e, sobretudo, conhecer o que a fé universal, que nunca pode ser falsa, ordena de crer sobre isso. O mesmo você deve fazer com relação ao sacramento do Altar, ao sacramento do Batismo, da Confirmação, do Matrimônio e a todos os mistérios que foram enumerados acima. Repare como muitos leitores das Escrituras caem em muitos erros, por nâo possuir o fundamento da verda­ de, e mudam de opinião tantas vezes quantas lições lerem. Por outro lado, você vê outros que, conforme aquele conhecimento da verdade, pela qual foram fortalecidos interiormente, sabem levar todos os escritos para interpretações apropriadas e sabem julgar 0 que discorda da fé certa e o que se acorda com ela. Em Ezequiel você lê que as rodas seguiam os animais, não que os animais seguiam as rodas: “Quando os animais andavam - ele diz - andavam também as rodas junto deles. E quando os animais se levantavam do chão, simultaneamente se levanta­ vam também as rodas". As mentes dos santos, de fato, quanto mais se aperfeiçoam nas virtudes e no saber, tanto mais per­ cebem que os mistérios das Sagradas Escrituras são profundos, 249 eam tibi. ne forte. faciat quod placuerit. testimoniis scripturarum legendo singula quae docuerint confirmare. Sic mihi videtur. 2Cor 3. rursus non ignoro. 133. “sed spiritualis omnia diiudicat” Ut ergo secure possis iudicare litteram. ICor 2. sed erudiri prius et informari oportet. erectis sublimes appareant. Scio enim plures hunc morem in discendo non servare.6. non de tuo sensu praesumere. et eum litterarum apices. Cui me in hoc imitari placuerit. Rursum alibi dicitur: “Littera occidit. Ez 1.. Nam sequitur: “Quocumque ibat spiritus. ne nostrum sensura di­ vinis auctoribus praeferamus. Spiritus enim vitae erat in r o t i s ” V i d e s quia rotae hae animalia sequuntur. Oportet ergo ut et sic sequamur litteram. qui legem vi­ tae acceperat. qui et auctoritatibus sanctorum patrum et testimoniis scripturarum. et sic non sequamur ut in ea non totum veritatis iudicium pendere credamus. nisi quia sic solam litteram occi­ dentem secutus est. 250 . et facere et aperire possint.Spiritus autem vivifi­ c a t ” q u i a nimirum oportet divinum lectorem spiritualis intelligentiae veritate esse solidatum. 135. et sequuntur spiritum. Sed quomodo quidam proficient. quae et perversae nonnumquam intelligi possunt. ad quaelibet diver­ ticula non inclinent. 134. reprobatus est.ut quae simplicibus et adhuc stantibus in terra iacere videban­ tur.20.15. et quasi quandam inconcussae veritatis basem cui tota fabrica innitatur. Non litteratus. non contendam. A doctoribus et sapientibus haec intro­ ductio quaerenda est. prout opus est. Quare antiquus ille populus. magis seducas. libens acci­ pio. funda­ re. dum te introduce­ re putas. et rotae pariter levabantur sequen­ tes eum. cui visum fuerit non ita oportere fieri. cumque iam introductus fueris. illuc eunte spiritu. sed ut ostendam eum qui solam sequitur litteram diu sine errore non posse incedere. Neque a te ipso erudiri praesumas. ut Spiritum vivificantem non haberet? Haec vero non ideo dico ut quibuslibet ad voluntatem suam interpre­ tandi scripturas occasionem praebeam. mas antes instruir-se e informar-se e fundar como que uma base de verdade inabalá­ vel. Assim me parece. Você vê que estas rodas seguem os animais e seguem o espírito. não o inclinem para qualquer tortuosidade. não discutirei. continua: “Para onde ia o espírito. o Espírito dá a vida”. portanto. E por que antigamente aquele povo que tinha recebido a lei da vida. “mas o espiritual julga tudo”. Mas também sei bem como alguns progridem. 251 . enquanto crê que está se ini­ ciando. a letra. "A letra mata. sim. para evitar que. Quem achar que não se deve fazer assim. antes está se seduzindo. pois. que às vezes podem ser en­ tendidas como perversas. Para que você possa julgar a letra com segurança. Não presuma instruir-se sozinho. pelas autoridades dos Santos Pa­ dres e pelos testemunhos das Escrituras e possam. Novamente. em outro lugar se diz. é necessário que o estudante das coi­ sas divinas esteja consolidado pela verdade da inteligência espi­ ritual. mas para mostrar que não pode proce­ der por longo tempo sem erro aquele que segue unicamente a le­ tra. faça como qui­ ser. mas de ma­ neira a não preferir o nosso sentido ao dos escritores divinos. igual­ mente as rodas se levantavam e o seguiam. aceito-o com prazer. e não devemos segui-la sem crer que nela está depositado todo o juízo da verdade. por não ter o Espírito vivificante? Não digo estas coisas para dar a alguns o pretexto de interpretar as Escrituras segundo a vontade deles. Sei que muitos não seguem este costume na aprendizagem. É necessário. que sigamos.de modo que aquelas coisas que aos simples e ligados à terra pa­ recem estar no chão. na verdade. aos eretos aparecem sublimes. para lá indo o espírito. Não o letrado. quando você tiver sido introduzido. lendo todas as coisas que ensinaram. é neces­ sário não ter presunção com o seu sentido. Pois o espírito da vida estava nas rodas”. Esta introdução deve ser pedi­ da aos doutores e aos sábios. os quais possam fazê-la e abri-la para você conforme convém. foi reprovado. sobre a qual todo o edifício está baseado. confirmar tal introdução pelos testemu­ nhos das Escrituras. para que as formas das letras. Com efeito. a não ser porque seguiu somente a le­ tra que mata. Quem tiver prazer em me imitar nisto. Eadem utrobique veritas. exordium sumere debet. et ab his quae ma­ gis nota sunt. et nihil in universitate infecundum est. doctrina semper non ab obscuris. moralitate De tropologia nihil aliud in praesenti dicam quam quod su­ pra dictum est. omnis natura rationem parit. sed ibi occulta. sicut supra dictum est. in hac lectione Veteri praeponatur. Psalterium. ca­ nonicas Epistulas. ibi promissa. duo prae­ cipue evangelia. Cantica canticorum. et Apocalypsim. Caput VI: De ordine librorum Non idem ordo librorum in historica et allegorica lectione servandus est. hic manifesta. Ad allegori­ am magis pertinet ordo cognitionis. Audisti. omnis natura homi­ nem docet. principium et fi­ nem Ezechielis. Isaiam. quia. Historia ordinem temporis sequitur. quid nobis faciendum sit agnoscimus. Epistulas Pauli. positiva iustitia nascitur. id est. cum legeretur in Apocalypsi. praecipue tamen Epistulas Pauli. lob. Caput V: De tropologia. 252 . excepto quod ad eam magis rerum quam vocum significatio pertinere videtur. in quo mani­ festa praedicatur veritas. tres ultimos li­ bros Moysi de legalibus sacramentis. hic exhibita. Unde consequens est ut Novum Testamentum. ego puto principium Genesis de operibus sex dierum. scilicet Matthaei et loannis. quae etiam ipso numero designant utriusque testamenti perfectionem se continere. In illa enim naturalis iustitia est.Si quaeris qui libri magis ad hanc lectionem valeant. quia signatus erat liber et nemo inveniri poterat. ubi eadem veritas figuris adumbrata occulte praenuntiatur. sed apertis. Contemplando quid fecerit Deus. ex qua disciplina morum nostrorum. id est. Omnis natura Deum loquitur. toda a natureza ensina ao homem. exceto que a ela parece relacionar-se mais o sig­ nificado das coisas que o significado das palavras. da qual origina-se a nossa disciplina morai. À alegoria é mais pertinente a ordem do conhecimento. no significado das coisas encontra-se aquela jus­ tiça natural. deve ser preposto ao Antigo. lá prometida. os três últimos livros de Moisés sobre os mistérios da lei.. ou seja. Com efeito. agora. de quanto foi dito anteriormente. ao ser lido o Apocalip. A história segue a ordem do tempo. mas das claras e daquelas que são mais conhecidas. A mesma verdade está nos dois. pois. conhecemos aquilo que devemos fazer. CAPÍTULO 6: A ordem dos livros Não deve ser observada a mesma ordem dos livros na leitura histórica e na alegórica. no qual é anunciada a verdade manifesta. Contemplando aquilo que Deus fez. as Cartas canônicas e o Apocalipse. as Cartas de Paulo. onde a mesma verdade é preanunciada envolta em imagens e oculta­ mente. a moralidade Sobre a tropologia nada mais direi. o princípio e o final de Ezequiel. a justiça positiva. penso que são o princípio do Gênese sobre as obras dos seis dias. toda a natureza produz a razão. aqui realizada. Você ouviu. mas lá oculta. ou seja. as quais. Disto deriva que a leitura do Novo Testamento. o de Mateus e Joâo. os Salmos. indi­ cam que contêm a perfeição dos dois Testamentos.Se você quer saber quais livros são mais úteis para este estu­ do. aqui mani­ festa. como foi dito acima. o estudo deve iniciar sempre não das coisas obscuras. sobretudo dois Evangelhos. Isaías.se. e nada no universo é infecundo. Jó. mas. sobre­ tudo. CAPÍTULO 5: A tropologia. o Cântico dos Cânticos. as Cartas de Paulo. também em seu número. A natureza inteira fala de Deus. que o livro estava selado e ninguém podia ser encontrado 253 . quae non auferetur"? Quis putas haec.3. SI 110. Nonne tibi ille liber signatus fuisse videtur. Lego rursum. 141. crucifixus.1. 143. sepultus. qui dixit.5. 140. “Aspiciebam in visione noctis. et implendo quae promissa erant. signatae erant prophetiae. parvulus es in milibus luda: ex te mihi egredietur qui sit dominator in Israel”. tribus et linguae ipsi servient. Jo 1. potestas eius potestas aeterna. et regnum. et Deus erat Verbum”^^^. venit tempus eius pariendi. SI 67. Is 7. et Verbum erat apud Deum. et nemo poterat solvere signacula. et ipse fundavit eam Altissiimus”?’^^ Et rursum: “Domini. pa­ rituram praenuntiat: recordor prophetiae quae dicit: “Ecce virgo concipiet”.1.inquit . nisi "leo de tribu Iuda”’^l Signata erat lex. 145. Lego. et omnes populi.exitus mortis”?*^'’ Et iterum: “Dixit Dominus Domino meo. SI 87. Venit ergo Filius Dei. 137. ascendit ad caelos.2. Mi 5. SI 110. “Tu .14. et vocabis nomen eius Emmanuel”?^^’ Et alius. Ap 5. “Ecce virgo concipiet. parvulus es in milibus luda: ex te mihi egredietur qui sit dominator in Israel. quem angelus praedixerat regnaturum in throno David. et usque ad antiquum dierum pervenit. et dedit ei potestatem et honorem.Bethlehem Ephrata. Dn 7. nisi "leo de tri­ bu luda". ‘Tn principio erat Verbum. et peperit fili­ um suum primogenitum. egressus eius ab initio a diebus aeternitatis"? Et Psalmista: “Numquid Sion dicet: Homo. et induit naturam nostram. "Bethlehem Ephrata. sede a dextris meis"?'^’ Et post pauca de eodem: “Tecum principi­ um in die virtutis tuae. et pariet filium. et homo natus est in ea. Domini inquit . Lego quia. intelligere poterat? Signata erant.13. quia occulte tempora venturae re­ demptionis praenuntiaiiantur. “Verbum caro factum est. patris sui: recordor prophetiae. aperuit quae latebant Lego in evangelio.qui solveret signacula eius. natus est de Virgine. Jo 1. et habitavit in nobis'’“^ 136.14. 144. 254 . et ecce cum nubibus caeli quasi Filius hominis veniebat. recordabor prophetiae quae dicit: “Egressus eius ab initio a diebus aeterni­ tatis". 138. resurrexit. in splendoribus sanctorum ex utero ante lu­ ciferum genui Et Daniel. antequam implerentur. cum esset loseph in Bethlehem cum Maria uxore sua praegnante. 142. 139.21. quod angelus Gabriel ad Mariam Virginem mittitur.5. e vestiu a nossa natureza. Leio de novo: "No princípio era o Verbo e o Verbo era junto de Deus e Deus era o Verbo". subiu aos céus. dos dias da eter­ nidade”? E 0 salmista: "Não dirá Sião: um Homem e um homem nasceu nela. Porventura. Leio no Evangelho que o anjo Gabriel é enviado a Maria Virgem. você acha. e. porque os tem­ pos da redenção futura estavam preanunciados ocultamente. e habitou entre nós”. e lembro a profecia que diz: “Eis que uma Virgem conceberá". do Senhor . ressuscitou. preanunciando aquela que irá parir. abriu quanto estava escondido. e ninguém podia romper os si­ gilos. e eis que junto com as nuvens do céu vinha como que um Filho de homem. no esplendor dos santos. A leí estava selada. Veio. e deu à luz o seu filho primogênito que o anjo predissera iria reinar no trono de Davi. estando José em Be­ lém com Maria sua mulher grávida. és pequena entre as milhares de Judá: de ti sairá para mim quem será o dominador em Israel”. a sua origem é do início. a não ser "o leão da tribo de Judá”. não lhe parece selado aquele livro que disse: "Eis uma virgem conceberá e dará à luz um filho. a não ser "o leão da tribo de Judá". no mesmo salmo: "Contigo é o senhorio no dia da tua força. e chamarás o nome dele Emanuel”? E o outro. e chegou até o Ancião dos dias. dos dias da eternidade”. "Do Senhor. e lembrarei a profecia que diz: “A sua origem é do início. "Tu .Belém de Éfrata. és pe­ quena entre as milhares de Judá: de ti sairá para mim quem será 0 dominador em Israel.são as saídas da morte”? E ainda: "Disse o Senhor ao meu Senhor. poderia entender estas coisas.disse . todas as nações e línguas servirão a ele: o seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado”? Quem. todos os povos.disse . veio o tempo dela dar à luz. sepultado. antes que se cumprissem? Estavam seladas. as profecias estavam seladas. 255 . foi crucifica­ do. e ele lhe deu potência. do seio antes da estre­ ia da manhã te gerei”? E Daniel: “Eu estava contemplando na vi­ são da noite. Leio: "O Verbo se fez carne. assim. honra e reino. Leio que. nasceu da Virgem.que rompesse os seus sigilos. cumprindo as coi­ sas que foram prometidas. e me lembro da profecia: "Belém de Éfrata. senta-te à minha direita”? E um pouco mais para lá. e o próprio Altíssimo a fundou"? E novamente. o Filho de Deus. seu pai. praedicationem. nisi prius nativitatem Christi. ut videatur nullum disiunxisse spatium temporis illa quae non discernit ullum intervallum sermonis. Illa vero litteram et sententiam tantum habet. agnoveris. nam ipse voces etiam litterae sunt. resurrec­ tionem atque ascensionem. Caput VIII: De ordine expositionis Expositio tria continet. et cetera quae in carne et per car­ nem gessit. subito ad superiora.recordor prophetiae quae dicit. sicut. sententiam. Et ne forte singula prosequendo fastidium tibi faciam. passionem. 256 . quaedam omnia haec tria simul con­ tinet. connectit. quasi mox sibi succeden­ tia. Caput VII: De ordine narrationis De ordine narrationis illud maxime hoc loco consideran­ dum est. litteram. “vocabis nomen eius Emmanu­ el”. ubi ex sola pronuntiatione nihil concipere potest auditor nisi addatur expo­ sitio. nobiscum Deus. sensum. quia et saepe posteriora prioribus anteponit. sermo recurrat. Omnis autem narratio ad minus duo habere debet. quaedam litte­ ram et sententiam tantum. sed sensus et sententia non in omni narratione simul inveniun­ tur. saepe etiam ea quae longo distant intervallo. quasi subsequentia narrans. Quaedam habet litteram et sensum tantum. ubi per ipsam prolationem sic aperte aliquid significatur. Illa narratio litteram et sensum tantum habet. cum aliqua enumeraverit. ut nihil aliud relin­ quatur subintelligendum. quod divinae paginae textus nec naturalem semper nec continuum loquendi ordinem servat. id est. In omni narratione littera est. veterum figurarum mysteria penetrare non valebis. mas o significado e o pensamento não se encontram juntos em to­ das as narrações. a paixão. isto é. e as outras coisas que fez na carne e pela carne. E se. CAPÍTULO 8: A ordem da exposição do texto A exposição de um texto contém três elementos. eventualmente não lhe crio um mal-estar. prosseguindo por cada passagem. pelo próprio enunciado algo é significado tão claramente. outras somente a letra e o pensamento. Freqüentemente o texto conecta entre si também coi­ sas distantes num longo intervalo de tempo. se não é acrescentada uma exposição. a predicação. 257 . volta de improviso a fatos anteriores. a ressurreição e a ascensão. 3) o pensamento. Deus conosco. como quando o discurso. que nada mais resta a subentender. que 0 texto da página divina nem sempre observa uma ordem de falar natural e contínua. CAPÍTULO 7: A ordem da narraçao Quanto à ordem da narração.e me lembro da profecia que diz. sem antes conhecer o nascimento de Cristo. 1) a letra. algumas os três ele­ mentos juntos. 2) 0 significado. após ter contado alguns fatos. Possui somente letra e significado a narração na qual. Toda narração deve ter ao menos dois elementos. você não conseguirá penetrar os mistérios das figuras antigas. como se narrasse os seguintes. pois amiúde prepõe coisas posteriores às anteriores. pois as próprias vozes são letras. “Chamarás o nome dele de Emanuel”. Algumas contêm somente a letra e o significa­ do. de modo a parecer que nenhu­ ma distância de tempo tenha separado coisas que nenhum inter­ valo do discurso separa. aqui se deve notar. como se sucedes­ sem imediatamente uma à outra. Em toda narração há a letra. sobretudo. Possui somente letra e pensamento aquela narração na qual 0 ouvinte não pode conceber nada a partir da sua enunciação. et “Homo sicut faenum dies eius”‘^^ id est. Rm 16.27. et postea multis interpositis infert: "cui est honor et gloria”'*^ Aliud hic superfluum esse vi­ detur. SI 103.5 151. id est. alius falsus. 148. ut.1. pro uno genitivo nominis positi. ut Faulus in fine Epis­ tulae ad Romanos dicit: “Ei autem”. 149. quando ad significandum id quod dicitur nihil praeter ea quae posita sunt vel addere vel mi­ nuere oportet. SI 10. nihil significare vel incongrua esse videatur. Ad litteram constructio et continuatio pertinet Caput X: De sensu Sensus alius congruus. id est. 258 . alius impossibilis. alius absurdus.7. ubi et aperte aliquid signi­ ficatur. “sedes Domini in caelo”. alius incortgruus. ut. "omnis sapientia a Domino Deo est”^**^. ali­ quando imminuta.15. ut est illud: "Dominus in caelo sedes eius”^^®. ut illud: “Comede­ runt Iacob”'^l Et illud: “Sub quo 146. "filiorum homi­ num dentes”. 150. Caput IX: De littera Littera aliquando perfecta est. non necessarium ad enuntiatio­ nem faciendam. alius incredibilis. et multa alia similiter. “dies hominis”. quando vel propter inculcationem vel longam interpositionem idem repeti­ tur vel aliud non necessarium adiungitur. dentes eorum arma et sagittae”'^^ id est. SI 79. Edo U. et aliquid aliud subintelligendum relinquitur quod expo­ sitione aperitur. 147. et "filii homi­ num. ut.Illa sensum et sententiam habet. Aliquando talis est littera. Nominativus scilicet nominis et genitivus pronominis. "senior electae dominae”*^^: aliquando superflua. Superfluum dico. Incongruus. 2Jo 1. Si 57. Multa huiusmodi invenis in scripturis.5. 152. nisi in aliam resolvatur. quando subaudiendum aliquid relinquitur. quando ou por in­ sistência ou por causa de uma longa interpolação se repete a mesma coisa ou se acrescenta algo não necessário. não necessário para fazer a enunciação. "Devoraram Jacó”. b) impossível. se não é resolvida numa outra. "ao qual é honra e glória”.Possui um significado e um pensamento aquela exposição na qual algo é significado expressaniente ou alguma outra coisa que é revelada por uma exposição é deixada subentendida. como diz Paulo no final da Carta aos Romanos. quando. pois”. Neste texto se apresenta um ulterior elemento supérfluo. CAPÍTULO 9: A letra A letra às vezes é perfeita. isto é. os dentes dos filhos dos homens. após mui­ tas interpelações. quer dizer. e: “Os filhos dos homens. À letra pertencem a construção e a concatenaçâo. isto é. parece não significar nada ou ser imprópria. Às vezes é supérflua. na frase: “Toda Sa­ bedoria vem do Senhor Deus”. o dia do homem. De vez em quando a letra é tal que. introduz. e ainda: "sob o qual se 259 . isto é. O signi­ ficado incoerente pode ser a) incrível. quando se deixa algo subentendido. CAPÍTULO 10: O significado 0 significado pode ser 1) coerente ou 2) incoerente. c) absurdo ou d) falso. o trono do Senhor está no céu. e há muitos exemplos semelhantes. não é necessário acrescentar ou diminuir nada fora daquilo que é expresso. como na expressão: "O an­ cião à Senhora eleita”. como a expressão. seus dentes armas e fle­ chas”. como. para significar aquilo que se diz. "A ele. Você encontrará nas Escrituras muitos exemplos deste tipo. e. como na ex­ pressão: "O Senhor o seu trono no céu”. “O homem como feno o seu dia". por exemplo. e. Às vezes a letra é diminuída. Digo supér­ fluo. Nestas expressões o nominativo do nome e o genitivo do pronome são postos em lu­ gar do genitivo só do nome. id est. tunc converso 153. ubi. nullo alio vi­ vente ut Spiritus Sancti dona poscebant Ecce spiritualiter inter­ pretatus es. ut est. quia ipse solus sine mensura Spiritum accepit. JÚ 7. et vestimentis nostris operiemur. Quia enim supra de internecione populi praeva­ ricatoris locutus fuerat. et quid sit dicere ad litteram non intelligis. licet sit aperta verborum significatio. et usque adeo virorum genus delendum. verbi gratia. quae unum virum apprehendent. “Tantummodo invo­ cetur nomen tuum super nos”. JÓ 9.13. tantummodo invocetur nomen tuum super nos. Unde evenit ut spiritualiter tantum intelligendum credas quod. intelligere non potes. Intelligis: "Aufer opprobrium nostrum”. Sed fortasse quid hoc totum simul significare velit. nullus tamen sensus esse videtur.curvantur hi qui portant orbem”'” Et illud: "Elegit suspendium anima et multa alia.15. Sunt loca quaedam in divina scriptura. illud quod dicit Isaías: “Apprehendent septem mulieres vi­ rum unum in die illa dicentes: Panem nostrum comedemus. aufer opprobrium nostrum”'”. Chris­ tum. non vides. vel propter inusitatum modum loquendi. bonum promiserit an malum minatus fuerit. 154. 260 . qualiter ad litteram dictum' sit. subiungitnunc tantam in eodem populo cladem futuram. in quo omnem plenitudinem gratiae placuit inhabitare. Intelligis: “Vestimentis nostris operiemur". Intelligis satis: “Apprehendent septem mulieres vi­ rum unum”. Dicis igitur septem mulieres septem esse dona Spiritus Sancti. ignoras.1. Intelligis. ut inveniant in quo requiescant. Is 4. cum modo una unum habere soleat Et cum mulieres nunc a viris rogari soleant. ut vix septem mulieres unum virum inveniant. Potuit tamen propheta per haec verba etiam ad litteram ali­ quid significare. sive propter aliquam cir­ cumstantiam quae legentis intelligentiam impedit. qui solus earum opprobrium aufert. 155. Plana sunt et aperta verba. Intelligis: “Panem nostrum comedemus”. Quid dicere voluerit propheta. naquele momento. O profeta pôde também. seja por causa de alguma circunstância que dificulta o entendimento do leitor. dizendo: comeremos o nosso pão e nos co­ briremos com as nossas vestes. as quais desejam um só homem. acrescenta agora que na­ quele povo iria haver tanta morte e até tanta desaparição do gê­ nero masculino. porque sÓ ele recebeu o Espírito sem limite. e você não compreende o que quer dizer na letra. De onde se de­ duz que você somente deve crer dc maneira espiritual aquilo que. do momento que somente uma costumava ter um só homem. mesmo sendo claro 0 significado. dado que anteriormente tinha falado sobre a matança do povo prevaricador. a passagem de Isaías: “Sete mulheres pegaram um homem naquele dia. Você compreende bem: “Sele mulheres pe­ garam um homem”. As palavras são cla­ ras e compreensíveis. por exemplo. por­ tanto. por essas palavras. nas quais. no qual quis habi­ tar toda a plenitude da graça. que possamos apenas ser chama­ das com 0 teu nome. a partir das palavras. dado que não havia outro vivente quando pediam os dons do Espírito Santo. como é. e muitos outros. ao contrário. tira a nossa vergonha”. Mas talvez você não consiga entender o que isso tudo quei­ ra significar em seu conjunto. E. Com efeito. parece não haver nenhum sentido. Cristo. Você ignora o que o profeta quis dizer. o único que tira o opróbrio delas. você não vê. do mesmo modo que agora as mulheres costumam ser imploradas pelos homens. Há passagens na Escritura divina. Você poderá dizer. significar algo literalmente. se prometeu um bem ou ameaçou um mal. e ainda: "Minha alma escolheu a forca”. que dificilmente sete mulheres encontrariam um homem. que as sete mulheres são os sete dons do Espírito Santo. Você compreende: "Possamos apenas ser chamadas com o teu nome”. 261 .curvam aqueles que sustentam o mundo”. Você compreende: "Tira a nossa vergonha”. Você compreende: "Comeremos o nosso pão”. Você compreende: "Nos cobriremos com as nossas vestes”. isto é. para elas encontra­ rem aquele no qual repousar. Eis que o texto foi in­ terpretado de forma espiritual. seja por causa do uso íncomum das palavras. quod cer­ tum apparuerit eum sensisse quem legimus. qui de paucis eruuntur verbis. Non te oportet de nobis esse sollici­ tum. semper vera. dicunt ei: “Panem nostrum comedemus. divinos libros legimus. id potissimum diligamus. igitur. ut dica­ ris vir noster. id certe quod circumstantia scripturae non impedit. et sine se­ mine moriamur. Si autem hoc latet.more mulieres viros rogabunt. Et ne forte unus vir septem mulie­ res simul ducere formidaret. aliquando plurium enuntiationum una est sententia. multa inveniantur con­ traria. ne repudiatae dicamur. quod eo tempore magnum opprobrium fuit. sententia nullam admittit repugnantiam. et steriles. Si vero utrumque vitari non po­ test. aliquando unius enuntiationis plures sunt sententiae. aliquando plurium enuntiatio­ num plures sunt sententiae. in tanta multitudine ve­ rorum intellectuum. unde eas pasceret et vestiret. et sanitate catholicae fidei muniuntur. cum ibi aperta sint. et cum sana fide concordat Si autem et scripturae circumstantia pertractari ac discutí non potest. nihil apud nos significare videntur. Si utrumque vitetur. 262 . numquam falsa esse potest. “Cum. cum. quae. “tantummodo invocetur nomen tuum super nos”. perfec­ tae se habet fructus legentis. semper congrua est. Et hoc est quod dicunt: “Aufer opprobrium nostrum”. Caput XI: De sententia Sententia divina numquam absurda. et sis. aliud a regula pietatis errare. Multa huiusmodi invenis in scripturis. ut dictum est. sed cum in sensu. non haberet. et vesti­ mentis nostris operiemur”. saltem id solum quod fides sana praescri­ bit Aliud est enim quid potissimum scriptor senserit non dinoscere. Aliquando unius enuntiationis una est sententia. et maxime in Veteri Testamento. secundum idioma illius linguae dicta. enconlram-se muitas contradições. E. lernos os livros divinos.as mulheres implorarão os homens. não pode ser evitada uma e outra coisa. 263 . procuremos pelo menos somente aquilo que a verdadei­ ra fé prescreve. e o és. sobretu­ do. para que um só homem não receasse de cuidar ao mesmo tempo de sete mulheres. mas concorda com a verdadeira fé. enquanto ali são claras. outra coisa é afastar-se da regra da piedade. Não é necessário que tenhas preocupação conosco. sempre verdadeiro. com efeito. outras vezes muitas enunciações têm um único pensamento. Se. sobretudo no Antigo Testamento. elas lhe dizem: "Comere­ mos 0 nosso pão e nos cobriremos com os nossos vestidos”. Por isso dizem: "tira o nosso opróbrio”. às ve­ zes uma enunciação possui vários pensamentos. Se é evitada uma e outra coisa. Você encontrará muitas passagens parecidas nas Escrituras. “Quando. “somente seja invo­ cado 0 teu nome sobre nós". é desconhecer aquilo que preferivelmente o autor achou. CAPÍTULO U: O pensamento O pensamento divino nunca é absurdo. outras vezes muitas enunciações têm muitos pensamentos. é sempre coerente. Às vezes uma enunciação contém um só pensamento. o pensamento não admite alguma contra­ dição. Se isto não está claro. nunca pode ser fal­ so. como foi dito. escritas conforme o idioma daquela língua. procuremos. coisa que naquele tempo era um grande opróbrio. porém. Se também o contexto da Escritura não pode ser tratado nem discutido. o ganho do leitor é perfeito. portanto. procuremos certamente aquilo que não contraria o contexto da Escritura. aquilo que o autor que lemos tenha achado que pareceu certo. e não sejamos apelidadas de repudiadas ou estéreis e morramos sem descendência. as quais. Uma coisa. nada para nós parecem significar. enquanto na significação. não tendo de onde alimentá-las e vesti-las. para que sejas considerado o nosso homem. mas. diante de tanta variedade de conceitos verdadeiros que jorram de poucas pala­ vras e são munidos do juízo da fé católica. etsi voluntas scriptoris incerta sit. \S7. Partiendo dividimus quando ea quae confusa sunt distingui­ mus. et dignum magis est omnino silere in huiusmodi quam ali­ quid imperfecte dicere. Caput XIII: De meditatione hic esse praetermittendum Et iam ea quae ad lectionem pertinent. De Genesi ad liUeram 1. ut radiare dignetur in cor­ dibus nostris et illuminare nobis in semitis suis. quae et incipi­ entes erudit et exercet consummatos. inexperta adhuc stylo. Asdepius. Rogemus igitur nunc Sapientiam. Investigando dividimus quando ea quae occulta sunt resera­ mus. id est. cum potius eam quae scripturarum nostram esse debeamus”^^^ Caput XII. ut introducat nos “ad puram et sine animalibus cenam” 156. quae possint salva fide aliis atque aliis parere sententiis. corruamus. si forte diligentius discus­ sa veritas eam labefactaverit. '"Item in rebus obscuris atque a nostris oculis remotissimis. meditatione. Res enim valde subtilis est et simul iucunda.!bid. ut. Divisio fit et partitione et investigatione. non pro sententia divi­ narum scripturarum. 264 . quanto lucidius et compendiosius potuimus. De modo legendi Modus legendi in dividendo constat. in nullam earum nos praecipiti affirmatione ita proiciamus. 158. aliquid in praesenti dicere omitto. ideoque amplius prosequenda. Agoslinlio. explicata sunt. ut eam veli­ mus scripturarum esse quae nostra est. U8.21. Corpus Hernielicunx 41. sed pro nostra ita dimicantes. De reliqua vero parte doctrinae. sanae fidei congruam non inutile est eruisse sententiam”’^“. quia res tanta speciali tractatu indi­ get. si qua inde scripta etiam divina legerimus. da ma­ neira mais lúcida e concisa possível. O modo dc 1er 0 modo de 1er consiste em dividir. batalhando não em favor da opinião das Escrituras divinas. quando distinguimos as coisas que são confusas. e por isso merece ser descrita mais amplamente. enquanto devemos querer antes que o pensamento das Escrituras seja também o nosso. também divinos. a meditação. Pois correriamos o perigo. CAPÍTULO 13: A meditaçao não é tratada aqui E assim foi explicado aquilo que concerne a leitura. Quanto à última parte da educação. não é inútil extrair um pensamento consonante com a verdadeira fé". possam combinar-se com outras e outras opi­ niões. separando. investigando. ou seja. CAPÍTULO 12. porque tamanho argumento merece um tratado especial. Não foi ainda trata­ da por escrito. “Quanto às coisas obscuras e muito distantes dos nossos olhos. Roguemos agora à Sabedoria que se digne resplandecer em nossos corações e iluminar-nos em seus caminhos. 265 . Dividimos. caso uma verda­ de discutida mais profundamente faça cair aquela interpretação. não nos joguemos com aprovação precipitada em nenhuma dessas interpretações.. pretendendo que o nosso pensamento seja também o das Escrituras. mas da nossa. para introdu­ zir-nos “à ceia pura e sem carne de animais”. quando desvelamos as coisas que são obscuras. de sucumbir. os quais. aqui omito dizer algo.ainda que a intenção do autor seja incerta. se sobre elas estivermos lendo escritos. salva a fé. e em coisas deste tipo é mais digno calar-se to­ talmente do que dizer algo imperfeito. Algo muito sutil e ao mesmo tempo jucundo é a meditação que instrui os principiantes e exercita os avançados. A divisão se faz seja por 1) separação seja por 2) investigação. Dividimos. mathematicam. logica. "Virtus est habitus animi in modum naturae rationi consem taneus’'^^^ Necessitas est sine qua vivere non possumus. Haec tria remedia sunt contra maia tria. me­ chanica.APPENDIX APPENDIX A Divisio philosophiae continentium Tria sunt: sapientia. necessitas. quibus subiecta est vita humana: sapientia contra ignorantiam. Theologia tractat de invisibilibus substantiis. Boethius. inventa est omnis ars et omnis disciplina. Quae cum sit inventione ultima. Propter ista tria mala exstirpan­ da quaesita sunt ista tria remedia. sed felicius vi­ veremus. physica de invisibili­ bus visibilium causis. Theorica dividitur in theologiam. Istae tres usu primae fuerunt. propter virtutem inventa est practica. propter necessitatem inventa est mechani­ ca. virtus contra vitium. virtus. mathematica de visibilibus visibilium formis.1. practica. physicam. necessitas contra infirmitatem. Propter sapientiam inventa est theorica. Sapientia est comprehensio rerum prout sunt. De arithmetica 1. et propter haec tria remedia invenienda. prima ta­ men esse debet iii doctrina. 266 . 159. sed postea propter eloquenti­ am inventa est logica. Quattuor ergo sunt principales sci­ entiae a quibus omnes aliae descendunt: theorica. Para a Sapiência foi encontrada a teórica. Quatro. a necessidade. física e matemática. a mecânica. A necessidade é aquela sem a qual não podemos viver e sem a qual viveremos mais felizmente. Estas três foram as primeiras em uso. a matemática das formas invisíveis das coisas visíveis. A teórica se divide em teologia. a prática. mesmo sendo a última a ser descoberta. Esta. mas depois para a elo­ quência foi encontrada a lógica. aos quais a vida humana está sujeita: a Sapiência contra a ignorância. a primeira no ensino. a necessidade contra a enfermidade. Para extir­ par estes três males são exigidos estes três remédios. 267 . “A virtude é um hábito do espirito conforme a razão segun­ do a lei da natureza”. e para encon­ trar estes remédios foi inventada cada arte e cada disciplina. A teologia trata das substâncias invisíveis. A Sapiencia é a compreensão das coisas como elas são. Estas três coisas são três remédios contra três males. a virtude. para a virtude foi encontrada a moral. para a necessidade foi encontrada a mecâni­ ca. a vir­ tude contra o vício. todavia. deve ser. a lógica. a física das causas invisíveis das coi­ sas visíveis. portanto. das quais derivam todas as outras: a teórica.APENDICES APÊNDICE A: Divisão dos conteúdos da filosofía Há três coisas: a Sapiência. são as ciências principais. Ele­ mentum astronomiae est instans. Logica dividitur in grammaticam et in rationem disserendi. In his quattuor partibus philosophiae talis ordo in doctrina servari debet. Elementum mu­ sicae est unisonum. Primum enim comparanda est elo­ quentia. de quantitate discreta ad aliquid. et so­ phisticam. et haec dividitur in septem. deinde. ut prima ponatur logica. id est. ut ait Socrates in Ethica. secunda ethica. quinta venatio. quae tractat de spatio. tertia tlieorica. privatam. Probabilis dividitur in dialecticam et rhetoricam. quarta mechanica. Ne­ cessaria pertinet ad philosophos. secunda armatura.Et haec mathematica dividitur in quattuor scientias. tertia naviga­ tio. Elementum geometriae est punctum. publica ad rectores civitatum. Tertia est geometria. privata ad patres familias. Elementum arithmeticae est unitas. sophistica ad sophistas. id est. quae tractat de motu. de quantitate discre­ ta per se. Privata docet quomodo re­ gendi sint familiares. Solita­ ria docet quomodo unusquisque propriam vitam honestis mori­ bus instituat et virtutibus exornet. 268 . id est. quae tractat de proportione. quarta agricultura. Novissime mechanica se­ quitur. publicam. de quantitate conti­ nua mobili. nisi ratione praece­ dentium fulciatur. Mechanica tractat de operibus humanis. Prima est arithmetica. per studium virtutis oculus cordis mundandus est. Prima est lanificium. Secunda est musica. quae per se omni modo inefficax est. de quantitate continua immobili. Quarta est astronomia. Pu­ blica docet qualiter populus totus et gens a suis rectoribus gu­ bernari debeat Solitaria pertinet ad singulos. Practica dividitur in solitariam. et qui per carnis affectum sunt affines. et necessariam. quae tractat de numero. ut deinde in theorica ad investiga­ tionem veritatis perspicax esse possit. Ratio disserendi dividitur in probabilem. sexta medicina. id est. septima theatrica. 269 . que por si é totalmente ineficaz. A quarta é a astronomia. em quarto lugar a mecánica. a pública aos dirigentes das nações.A matemática. Por últi­ mo vem a mecánica. por meio do es­ tudo da virtude o olho do coração deve ser purificado. pública. isto é. como afirma Sócrates na Ética. 0 elemento da astronomía é o instante. isto é. A individual ensina como cada um deve organizar a sua vida com costumes ho­ nestos e orná-la com as virtudes. a terceira a navegação. O elemento da música é o uníssono. que trata do número. O elemento da aritmética é o número. A lógica se divide em gramática e na arte de argumentar. da quantidade contínua imóvel. que trata da proporção. se divide em quatro ciencias. que trata do movimento. que trata do espaço. com efeito. em terceiro lugar a teórica. a sétima o teatro. a segunda o armamen­ to. se não se apóia ñas razões das precedentes. A moral se divide em individual. privada. A necessária perten­ ce aos filósofos. A arte de argumentar se divide em provável. A privada ensina como devem ser tratados os familiares e os que são afins por afeição da carne. A provável se divide em dialética e retórica. em segundo lugar a ética. A primeira é a aritmética. a quarta a agricultura. A terceira é a geome­ tria. deve ser administrada a eloqüéncia. da quan­ tidade continua móvel. da quantidade divisa em relação a outra coisa. A segunda é a música. necessária e sofística. Nestas quatro partes da filosofia deve ser observada esta or­ dem no ensino: primeiro seja posta a lógica. A mecánica trata das obras humanas e se divide em sete ciencias: a primeira é a fabricação da lã. O elemento da geometría é o ponto. A individual pertence aos indivíduos. por sua vez.si mesma. a quinta a caça. A pública ensina como todo o povo e a nação devem ser governa­ dos por seus dirigentes. isto é. isto é. a sexta a medicina. Em seguida. a sofística aos sofistas. a privada aos pais de família. Em primeiro lugar. da quantidade divisa em . para que depois possa ser perspicaz na investigação da verdade. quem daemones siti­ unt. morum corruptionem ingerit. culturam daemonum suadet. necromantiam. quae fit per sacrificium sanguinis humani. libri eiusdem usque ad posteritatis memoriam traduxerunt. Haec generaliter accepta quinque complectitur genera ma­ leficiorum: manticen. unde necromantia. de vero mentiens. quem nonnulli asserunt ipsum esse Cham. seducit a religione divina. et in eo delectantur effuso.APPENDIX B De magica et partibus eius Magicae repertor primus creditur Zoroastres. quod sonat divinatio. Scribit autem Aristoteles de hoc ipso. Magica in philosophiam non recipitur. Hunc postea Ninus. rex Bactriano­ rum. maleficia. mortuus Latine. divinatio in terra. filium Noe. rex Assyriorum. praestigia. omnis iniquitatis et malitiae magistra. divinatio. et veraciter laedens animos. Hanc artem postea Democritus ampliavit tempore quo Hippo­ crates in arte medicinae insignis habebatur. 270 . eiusque codices artibus maleficiorum plenos igne cremari fecit. sed est extrinsecus falsa professione. sortilegia. Secunda est geomantia. Quinta est divinatio in igne. id est. necros enim Graece. id est. bello vic­ tum interfecit. Tertia est hydromantia. divinatio in aqua. sed nomine mutato. Mantice autem quinque continet species sub se. Quarta est aerimantia. et ad omne scelus ac nefas mentes sequacium impellit. quod interpretatur divinatio in mortuis. primam. divinatio in aere. quod usque ad XXII centum milia versuum eius de arte magica ab ipso dicta­ tos. et mathematicam va­ nam. id est. de onde vêm a necromancia. 5) prestidigitação. Sobre ele Aristóteles escreve que os seus livros transmitiram à memória da posteridade até dois mi­ lhões e duzentos mil versos de arte mágica. falsa por profissão. que fez queimar no fogo os seus livros cheios de malefícios. foi morto por Nino. filho de Noé. divinação. em geral. A terceira é a hidromancia. mestra de toda iniqüidade e malícia. que alguns afirmam ser o próprio Cam. que significa divinação. Esta arte foi posteriormente ampliada por Demócrito no tempo em que Hipócrates era considerado insigne na arte da medicina. leva à corrupção dos costumes. isto é. depois. 271 . 3) sortilégios. A quinta é a divinação no fogo. propugna a cultura dos demônios. pois necros em grego tem o significado de morto em latim. Ela. e impulsiona a mente dos seguidores para todo tipo de crime e de perversidade.^deiramente os ânimos. que os demônios bebem. A mântica contém sob si cinco tipos: a primeira é a necromancta. divinação sobre o ar. divinação sobre a terra. que significa divinação sobre os mortos. A magia não é recebida na filosofia. divinação sobre a água. deleitando-se em sua efusão. mas com outro nome. mas está de fora. rei dos bactrianos. 2) numerologia vã. 4) malefícios. rei dos assírios. feita por meio do sacrifício de sangue humano. isto é. vencido em guerra. compreende cinco tipos de malefícios: 1) mântica. A segun­ da é a geomancia. ditados por ele. Ela afasta da religião divina. mentindo so­ bre a verdade e prejudicando verd. A quarta é a aeromancia. isto é. Ele.APÊNDICE B: A magia e suas partes Pensa-se que o primeiro inventor da magia fosse Zoroastro. postea tres aliae. sub mathematica. Sortilegi sunt qui sortibus divinationes quaerunt Malefici sunt qui per incantationes daemonicas. quia in motu et volatu avium attenditur. aliquando ad au­ res pertinet et tunc dicitur augurium quasi garritus avium. secunda ad terram. in qui­ bus divinatio constaret. necromantia. tres. quinta ad ignem. qui in extis et fi­ bris sacrificiorum futura considerant Augurium vel auspicium aliquando ad oculum pertinet et dicitur auspicium quasi avispicium. Aruspices sunt dicti quasi horuspices. Varro enim quattuor dixit esse. terram. et in horoscopicam. Prima ergo. aerem. sicut genethliaci fa­ ciunt qui nativitates observant qui olim specialiter magi nuncu­ pabantur. Horoscopica. ignem. quarta ad aerem. id est. tertia ad aquam.quae dicitur pyromautia. vel aruspices quasi aras inspicientes. auspicium. aerimantia. Sunt ergo omnes simul undecim: sub mantice. id est sortilegium. quia aure percipitur. id est. id est. necromantia. per phantasticas illusiones circa re­ rum immutationem. aruspidna. aquam. pyromantia. coo­ peratione daemonum atque instinctu nefanda perficiunt Praestigia sunt. pra­ estigium. quinque. Mathematica dividitur in tres species: in aruspicinam. geomantia. vel alia quaecumque exsecrabilia remediorum genera. Praestigia Mercurius dicitur primus invenisse. horarum inspectores. Auguria Phryges invenerunt Aruspicinam Tages primus Etruscis tradi­ dit Hydromantia primum a Persis venit 272 . sensibus humanis arte daemonia illuditur. maleficium. in au­ gurium. de quibus in evangelio legimus. hydromantia. sive ligatu­ ras. id est. qui observant tempora in rebus agendis. est quando in stellis fata hominum quaeruntur. ho­ roscopica. quando. ad infernum videtur pertinere. quae etiam constellatio dicitur. Os malefícios são aqueles que. os arúspices. O horóscopo. a aeromancla. Varro diz que são quatro as partes das quais consta a divinação. portanto. olhando o futuro nas vísceras e fibras dos animais sacrifi­ cados. ou qualquer outro gênero execrável de remédios. porque observam os tempos propícios em fazer as coisas. augurio e horóscopo. sob a “numerologia” três. por meio de ilusões fantasiosas a res­ peito das mutações das coisas. a piromancia. água. porque se baseia no mo­ vimento e vôo das aves. fazem coisas horrendas com a colabora­ ção ou instigação dos demônios. a geomancia.que se chama piromancia. Os frigios inventaram os augurios. Os aruspices são chamados ou de '‘horúspices”. que observam os nascimentos e que antiga­ mente se chamavam magos. o sortilégio. como a voz das aves. Os sortílegos são aqueles que procuram as divinações nas sortes. ou arúspices. ou amuletos. a necroman­ cia. a terceira à água. que se chama também constelação. Tages transmitiu o aruspício aos etruscos. a necromancia. As prestidigitações consistem em iludir os sentidos huma­ nos com a arte demoníaca. isto é. a prestidigitação. isto é. Diz-se que Mercúrio foi o primeiro a inventar as prestidigitações. porque se percebe pelo ouvi­ do. o malefício. a quarta ao ar. isto é. porque por meio de encanta­ mentos demoníacos. isto é. dos quais lemos no Evangelho. às vezes se refere ao ouvido. a quinta ao fogo. a hidromancia. se dá quando nas estrelas se procuram os destinos dos homens. terra. 273 . a segunda à terra. ou seja. depois vêm outras três. e aí se cha­ ma augurio. inspetores das horas. A pri­ meira. o auspício. O augurio ou auspício às vezes se refere ao olhar. e se chama auspício. como fazem os astrólogos. porque observam as aras. o ho­ róscopo. isto é. parece pertencer ao infer­ no. A hidromancia inicialmente veio dos persas. como que “avespício”. A numerologia vã se divide em três espécies: aruspidna. fogo e ar. Ao todo são onze: sob a mantica cinco. Ad mentem divinam facta est creatura rationalis. in intellectu hominis subsistunt quidem. in seipsis. foris illi quid intus haberet ostendit. Item quod est in actu imago est eius quod est in mente ho­ minis. in mente divina sine omni mutabilitate subsistunt. et quod est in mente hominis imago est eius quod est in mente divina. ut aliis etiam pate­ re possit quod sibi soli notum est. Ad creatu­ ram rationalem facta est creatura visibilis. cum quid mente conceperit. Rationalis ergo creatura ad similitudinem divinae rationis. foris exemplum eius depingit. 274 . in mente divina. creatura vero corporea. postea etiam ad maiorem evidentiam. Ideo omnis motus et conversio creaturae rationalis esse debet ad mentem divinam. in intellectu. Sicut homo. ac deinde cor­ poream creaturam faciens. Deus volens ostendere invisibilem sapientiam suam. hoc est in ratione divina. In seipsis sine subsistentia transeunt. primo loco facta est. si­ cut omnis motus et conversio creaturae visibilis est ad rationa­ lem creaturam. exem­ plum eius in mente creaturae rationalis depinxit. verbis exponit. in ratione hominis. ita. quomodo id quod ad exem­ plum propositum est cum ratione eius concordet. sed tamen immutabiles non sunt. nullo mediante.APPENDIX C De tribus rerum subsistentiis Tribus modis res subsistere habent: in actu. e aquilo que está na mente do homem é imagem daquilo que está na mente divina. A cria­ tura visível foi feita segundo a mente do homem. querendo mostrar a sua invisível Sapiência. fazendo a criatura corpórea.APÉNDICE C: As três substâncias das coisas As coisas existem em três modos: no ato. sim. à semelhança da razão divina. Em si mesmas são passageiras por serem sem subsistência. Assim. portanto. Portanto. mostrou por fora à criatura racional aquilo que ele tinha dentro. em seguida. na razão divina. e. e a aiatura corpórea. na mente humana. para que seja acessível aos outros aquilo que só ele conhece. na razão humana. na mente do homem subsistem. na mente divina. todo movimento e retorno da criatura racional devem ser direciona­ dos para a mente divina. para maior evidência. Da mesma maneira que o homem. assim Deus. 275 . na mente divina subsistem sem nenhuma mutabilidade. Ou seja. foi feita. A criatura racional foi feita segundo a mente divina. em si mesmas. explica em palavras a maneira como aquilo que foi apresentado como imagem concorda com a sua razão. ao conceber algo na men­ te. desenhou a imagem desta na mente da criatura racional e depois. aquilo que existe na realidade é imagem daquilo que está na mente do homem. A criatura racional. como todo movimento e retorno da criatura visível devem direcionar-se para a criatura racional. representa fora de si a imagem disso. sem nenhuma mediação e antes de tudo. mas não são imutáveis. hoc ad mentem divinam pertinet.mediante rationali creatura. ad intellec­ tum angelorum. 160. 27G . pos­ tea in cognitione angelorum factae sunt. “Dixit Deus: Fiat”. Et facta est lux”‘®”. Cn 1.3. Et factum est ita"“"’. ad actum rerum.6. De ceteris vero operibus Dei dicitur: “Dixit Deus: Fiat. Gn 1. Et deinde adiungitur: “Et fecit Deus”. “Factum est ita”. 161. Quod enim dictum est. postremo in seipsis subsistere coeperunt. quia angelica natura primum in ratione divina fuit per dispositionem. Hinc est quod de angelis sub appellatione lucis in Genesi di­ citur: “Dixit Deus: Fiat lux. Aliae autem creaturae primum in ratione Dei fuerunt. “Et fecit Deus”. postea in se ipsa per crea­ tionem subsistere coepit. facta est ad similitudinem divinae rationis. Por isso no Gênese se diz dos anjos que são chamados de luz: “Disse Deus: seja feita a luz. ainda: “E Deus fez”. por fim começa­ ram a existir em si mesmas. E assim foi feito”. diz respeito à mente divina. E a luz foi feita”. "Assim foi feito” se refere à in­ teligência dos anjos.por sua vez. Aquilo que foi dito “Disse Deus: seja feito”. posteriormente co­ meçou a existir em si mesma pela criação. por meio da criatura racional. de­ pois foram feitas para conhecimento dos anjos. Das outras obras de Deus se diz: “Disse Deus: seja feito. E acrescenta-se. foi feita à semelhança da razão divina. pois a natureza angélica este­ ve primeiro na razão divina por disposição. As outras criaturas primeiro estiveram na razão divina. 277 . “E Deus fez” diz respeito ao ato das coisas. . Hugo of St Victor De tribus maximis circumstam tiisgestorum. Hugh of St. Étude historique et Edition criti­ que. G. 1984. Homann.-P. translated from the Latin with an introduction. Bultot et G. 176.M. accurante J.. 1991. Littérature et Spiritualité en Scandinavie mé­ diévale: La Traduction norroise du “De Arrha Anime” de Hugues de Saint-Victor.. 177. Wis. Hasenohr. W. Editores et J.. Vol. Indiana. A. Green. notes. and appendices by Frederick A. 279 . 175. Practica geometriae. Epitome Dindimi in philosop­ hiam). R. Scipio et Aníbal De providentia (Seneca). Attributed to Hugh of St. Canals. 484-493. Migne successores. Marquette University Press. apud Garnier Fratres. Hardarson. Victor.. Le 'VurDeus Homo” d’Anselme dg Canterbury et le ‘De arrha animae ” d’Hugues de Saint-Victor traduits pour Philippe le Bon. Hugonis de Sancto Victore Canonici Regularis S. Parisiis. De arrha animae (Hug de Sant Victor). 1995. 1966.P. De grammatica. 1935. Crapillet. R. Milwaukee. Turnhout (Brepols).-----BIBLIOGRAFIA-------sobre Hugo de São Vítor Fontes em original e traduzidas Edição do Migne. Migne. Baron. Textes établis et présentés par R. University of Notre Dame Press. Recteur de l’Hôpital du Saint-Esprit de Dijon. A cura de Marti de Riquer.. Victor. Victoris Parisíensis tum pietate tum doctrina insignis Ope­ ra Omnia tribus tomis digesta. 1879. Hugonis de Sancto Victore opera propedéutica (Prac­ tica geometriae. "Speculum" XVIÍI (1943). Les sept dons de TEsprit-Saint. Hugo de Sancto Victore. scholjis. ac vita auctoris expolita. Baron. traduction et no­ tes par Roger Baron. von K. 1969. annotati­ unculis. hrsg. Introduction et choix de tex­ tes par R. 1955. The Catholic University Press. Introduction. Paris. Éditions du Cerf. La réalité de Tamour.Hughes de Saint-Victor. Hugonis a Sancto Victore Expositio in Regulam beati Augusti­ ni. Six opuscules spirituels: La médidation. Hugo de Sancto Victore. 1913. M. Hugues de Saint-Victor. Paris. Hugo de Sancto Victore. PL 176. 1939. Vittore. Bloud & Gay. La parole de Dieu. 280 . 1988. 1969. cum vita ipsius ante hac nusquam edita. Soliloquium de arrha animae und de vanitate mundi.. texte critique. accurate castigata et emendata. Paris. texte et notes par Roger Baron. Opera omnia tribus tomis digesta. Hugonis de Santo Victore De Tribus Diebus ou Liber Septimus do Didascalicon. Hugues de Saint-Victor. Ex manuscriptis eiusdem operibus quae in Bibliotheca Victori­ na servantur. Mueller. Hugonis de Sancto Victore Didascalicon de Studio Legendi. Ce qu’il faut aimer vraiment. intitulata Specchio delta sancta Ecclesia. 1836. 1515. texte inédit avec introduction et com­ mentaire de Patrick Gautier-Dalché {Études augustiniennes). 1961. Opera utilissima a qualunque fidele Christiano. a critical text by Brother Charles Henry Buttimer. Intro­ duction. Regola di SanCAgostino per le monache: cavata dalla pistola CCXIcolla sposizione di Ugone da S. 1588. Hugonis de Sancto Victore Opera tribus tomis digesta. Washington. 1648. Nunc donno Thoma Garzonio de Bagnacabailo postillis. Hugues & Richard de Saint-Victor.A. Les cinq Septénaires. La contemplation et ses espèces. 144 p. La "Descriptio mappae mundV’ de Hu­ gues de Saint-Victor. Petrópolis. Victor: a medieval guide to the arts. 1997. Alessio. Ugo di San Vittore. Didascalicon da arte de 1er. Didascalicon. Rusconi. 1989. Freiburg. F-. 1991. Ugo di San Vittore. Paris. in Actes du qua­ trième congrès international de philosophie médiévale. Hugo von Sankt Viktor. Traduções do Didascalicon Hugo de São Vítor. traduzioni e note a cura di Vincenzo Liccaro. Vessenza delUamore. Traduzione dei tes­ ti originali. Didascalicon de studio legendi. Vart de lire Didascalicon. Agostino nei commenti di Ugo da S. Columbia University Press. Sansoni. 1974. Montréal-Paris. Introdução e tradução de Antonio Marchionni. Dtdascdlicon^ artes. The didascalicon of Hugh of St. Introduzioni. New York.Ugo di S. La riflessione sulle "artes mechanicae" (XH-XÎV sec). introduzione e note di Agostino Vita. 1991. Éditions du Cerf. 2001. in Lavorare nelMedioevo. 1987. Introducti­ on. L’unione del corpo e dello spirito. ciencias Arts Libéraux et philosophie au Moyen Âge. / tre giorni delVinvisibile luce. Vozes. 1969. Alfonso de Orozco. I doni della promessa divina. traduzione e note di Vincenzo Liccaro. Introduzione. traduction et notes par Michel Lemoine. translated from the Latin with an introduction and notes by Jerome Taylor. Herder. Vittore. Vittore e B. La Regola di S. Discorso in lode del divino amore. über­ setzt und eingeleitet von Thilo Offergeid. Milano. Firenze. Hugues de Saint-Victor. Rappresentazioni ed esem- 281 . testi emendati. Bonaventura 5. Science et Sagesse chez Hugues de Saint-Victor. The artes liberales as Remedies: Their order of Study in Hugh of St Victor’s Didascalicon. in "Scientia” und "ars” im Hoch. “Theologische Zeitschrift". Spoleto..-H.pidalVItaîia deisecc. Centro Italiano di Studi sulI’Alto Medioevo.F. 13-31. F. La scienza e la classificazione dette scienze in Hugo di S. Torino. Heft 2-3. Berlin-New York 1994. L. 829-846. 115-124. 7). Montréal (Canada) 1967. 282 . G... Paris-Montréal. De divisione Philosophiae. Pa­ ris. L’insertion des arts dans la philosophie chez Hu­ gues de Saint-Victor. 45 (1989). Baron. Actes du quatrième Congrès international de philo­ sophie médiévale. 551-555. Binding.. Allard. In loai presso i ALCdueima iuderlina. 1956. in Les arts mécaniques au moyen âge {Cahiers d’Études Médiév. Beiträge zur Geschichte der Philosophie des Mittelal­ ters... Band IV. in Doctor is seraphici S. Vrin-Bellarmin. Vittore. Quaracchi 1891. Les arts mécaniques aux yeux de l’idéologie mé­ diévale. Calonghi. D. Ein Beitrag zum Verständnis von usus und ars im 11. V. Dominicus Gundissalinus. 967-980.. R. Alessio. Epp. in Baur. Opusculum de reductione artium ad theologiam.und Späimittelalter 2. Münster.. 1903. 1984. Montréal-Paris 1969. Bonaventurae opera omnia édita studiio et cura PR Collegii a S. p. Per uno studio sulVottica del Trecento. 1982.. p. Berlin-New York 1994. Jahrhunderts. 1983. R. X-XVl. Jahrhundert. 317-325. 259-293. in La filosofia e le "artes mechanicae” nel secolo XII. Blackwell. /12. L. G. in Arts Libéraux et philosophie au Mo­ yen Âge.und Spätmittelalter 2. Bonaventura. 1957. in "Scientia” und “ars” im Hoch. Baron. "Ars” und "scientia” in der Geschichtsschreibung des 12. 23). 1985. in Mittelalterliches Kunsterleben nach Quellen des 11. Viktor. N.Hugues de Saint-Victor: cartographe du savoir. Quatre introductions à la philosophie au XlUe siè­ cle. Lafleur.-13. Montre­ al. Lusignan. Paris 1901. R. Paris-Montréal.. C. 283 . Silvia. The status of the Mechanical Arts in Medieval Classi­ fications of Learning. 164-213. 254-269. Actes du quatrième Congrès international de philosophie Médiévale. Brepols. in L’Abbaye parisienne de 5iiinMY’c/or au Moyen Âge (Biblioteca Victo­ rina I). Eine Einfürung. in R-J. Der Ort der "Kunst” im Wissenschaftssystem des Hugos von St. v'# *. Vrin Bellarmin. in Arts libéraux et philosophie au Moyen Âge. PIEM (Pontifical Institute of Mediaeval Studies.. 1983... Goetz. 77-114. -. in Les arts mécaniques au mo­ yen âge (Cahiers d’Études Médiév. 7). Funktion und Formen miííelalterlicher Geschichtsschreibung.VJJUlU. Nage). “Viator” 14 (1983). Mariétan. p. pp.ww4r 4. Javelet. "Revue d’Histoire de sciences et leurs applicati­ ons” 36. J„ Le problème de la classification des sciences d’Aristote à Saint-Thomas. MontréalParis 1969. p. Darms­ tadt. Stuttgart-Bad Cann­ statt 1993.. 89-105. “Medioevo” XX. Ovitt. Schmale.W. Senger. 1988. Montréal (Canada) 1967. 35-48. w« v w int-Victor. 557-568.. S. Paris-Turnhout. Die "Geschichte ” im Wissenschaftsystem des Mit­ telalters. G. H. Scienze *de rébus’ e discipline ‘de vocibus’ nella tradizione delîe dassificazioni del sapere (secoli VII-XIII) . 53-75. uu ^u.< «. 1991. Considérations sur les arts libéraux chez Hugues et Richard de Saint-Vîtor. 3-32. Jahrhunderts. 1982. Les arts mécaniques dans le Speculum Doctrina­ le de Vincent de Beauvais. A. 171-181. 1908. 51-61. La navigation d’après Hugues de Saint-Victor et d’après la pratique au Xle siècle. Un catalogue des oeuvres de Hugues de Sa­ int-Victor.Bellarmin. 195. Abteilung Mittelalterliche Geschichte. Paris 1973 (49). Transmissão das obras de Hugo Chefdebien. 12. PMS (Papers in Medieval Studies. X. D. la Summa Senten­ tiarum de Hugues de Saint-Victor. 1960. Edited by Claire Dolan. La table des matières de la première édition des oeuvres de Hugues de Saint-Victor. Paris. Romae. in Les arts mécaniques au Moyen Âge (Cahiers d'Études Médiév. 1982. Une attribution contestée. R. Die Aries Mechanicae im Mittelalter. Une preuve de l’authenticité de le "Somme des Sentences" attribuée à Hugues de Saint-Victor (Annales de rUniversité de Grenoble). -. Eynde. “Mechanica" et “Philosophia” selon Hugues de Sa­ int-Victor. p. 385-396. van den. R. Travail et travailleurs en Europe au Moyen Âge et au début des temps modernes. K. Vallin. Grenoble. "Revue d'Histoire de la Spiritualité”. tsegnn-unaBeteutungsgeschichte bis zum Ende des 13 Jahrhunderts (Münchener historische Studien. J. 1898. Vermeirre. Vrin . Apud Pontificium Athenaeum Antonia­ num. 7). 1991. n. Paris-Montréal. 284 . de. 529-560. Band II). 1966. Fournier. Ghellinck. "Revue Agostinienne”. R. Essai sur la sucession et la date des écrits de Hugues de Saint-Victor (Spicilegium Pontificii Athenaei Antoniani 13). "Recherches de Science Religieuse” 1 (1910) 270-289. Montreal 13). 257-288.Sternage]. de. "Revue néo-scolastique” 20 (1913) 226-239. Essai criti­ que. Centro italiano di studi sulPalto me­ dioevo. Vittore.t K t t i i i e . 147-178. _________ Eim Beitrag zur kommunikationsgeschichte des Mittelal­ ters. Spoleto 1980 (21). de Gandillac e É. R. Freundgen.. "Studi Medievali". Chatillon.. in Enirétiens sur la renaissance du Xlle siècle... Das Lehrbuch (Sammlung der beteutendsten pädagogischen Schriften aus alter und neuer Zeit). Pirón. Notes biographiques Hugues de Saint-Victor. FS Franz Joseph Schmale. Il "De Unione spiritus et corporis" di Ugo di S. 1968. K.. Jeauneau.Lrüy. BosI. Spoleto. 861-882. 1988. in Historiographia mediaevalis. in Monographien zur Geschichte des Mittelalters. Darmstadt. p. Stuttgart 1976. pedagogia Baron. Robert de Torigny. 203-209. J. Das Jahrhundert der Augustinerchorherren. B. Hugo von St Viktor. J. PL 202. historia. Studien zur Geschichtsschreibung und Quellenkunden des Mittelalters. Nouvelle édition 1886. Paris. 1896. A. Paderborn. 285 . 1313.. K. "Revue d’Histoire des Textes” 23 (1993). sob a di­ reção de M. Escola de São Vítor. La culture de l’École de Saint-Victor auXlle siè­ cle. L'origine des chapitres ultimes du Didascalicon de Hugues de Saint-Victor. Hauréau. Uie uuet uaií¿i uny u<£. 920-934. ■ Piazzoni.M. 883-888. Paris-La Haye. “Revue d’histoire ecclésiastiques” 1956.. A.M. De immutatione ordinis monachorum. Les oeuvres de Hugues de Saint-Victor. 1982.. S. Piazzonî. ügo dl San Vittore "auctor” delle ‘‘Sententiae de divinitate”. 1-17. 1876. São Paulo. p. Hannover. Notker Balbulus. Sicardj P.C. Brepols. Hugo von Sankt-Viklor. I. lilich.. und Peraldus (Bibliotek der katholischen Pädagogik).. Paris. 1893. M. Les Éd. sur l’Art de lire de Hugues deSaint-Victor. Van Steenberghen. Communi­ cations présentées au XIIP Colloque d'Humanlsme médiéval de Paris (1986-1988) et réunis par Jean Longère (Biblioteca Victorina I). Brepols. Jonas. Gabriel. University of Chicago Press.. Princípios fundamentais de pedagogia. Turnhout (Brepols). 1911). Schumann. Chicago..D. Diagrammes médiévaux et Exégèse visuelle: Le “Li­ bellus de Formatione Arche” de Hugues de Saint-Victor. Meier. Hugo von Sankt Viktor als Pädagog (Kleinere Schriften über pädagogische und kulturgeschichtliche Fra­ gen). 150-211. A. Meissen. 1890. Jews and Christians in the life and thought of Hugh of St. Hugo von Sankt Viktors Lehrbuch. Dodana. A. 1896. Mignon. 52 (1954). Les origines de la scolastique et Hugues de Sa­ int-Victor. Freiburg. 1991.. Paris-Turnhout. Alkuin.. Scholars Press. Die Geschichte der scholastischen Methode 2: Die scholastische Methode im 12 bis zum beginnenden 13 Jahrhundert. P. 1993. Victor. Hugo von Sankt Viktor als Pädagog. J. Rebecca. Rosa.Grabmann. “Rev. 1997. Moore.. Ed.. 572-592. edição inglesa. Sicard. Atlanta. 1961 (Freiburg. 1991. Darmstadt. Schmidt. L’organization des études au moyen âge et ses répercussions sur le mouvement philosophique. 1993. 1991. 286 . Philosophique de ïmuvain”. O. F. ln the vineyard of the text a commentary to Hugh ’s Didascalicon. Hrabanus Maurus. LAbbaye parisienne de Saint-Victor au Moyen Âge. Hugues de Saint-Victor et son École. du Cerf. 1991. Salesiana Dom Bosco. Du lisible au visible. Paris. Ausgewälte Schriften von 'Columban.. Stuttgart. Die Geschichte auf dem Weg zur “Ge­ schichtswissenschaft”. Victor on History and the Meaning of Things. in Studia monastica 25 (1983).. Atti del III Congresso internazionale di filosofia medioevale. Boehm.. Hugue of St. K. estética Baron. Ehlers. in La Filosofia della Natura nel Medioeuo. The principle of similitude in Hugh of St Victor’s theory of divine illuminations. Le cosmos symbolique du XIFsiècle. 1966.. Führer. Baron. D’Alverny. Bumke. Jahrhundert.. Chenu. Jahrhunderts (Frankfurter Historische Abhandlungen).215-236. in Speculum historiale. 1973. “The American Benedectine Rewiew” 30 (1978). “Giornale Italiano di Filologia”. Uumanesimo di Ugo di San Vittore. in Annales. Frankfurt-Lei­ pzig 1994. Civilization urbaine et théologie.R. Passo della Mendola (Trento) 1964. Wiesbaden. Sociétés. Busi. Freiburg-München 1965. Die hohen Schulen. 1966. Hugo von St Viktor. Zürich 1981. R. 287 . 67-102. Studien zum Geschichtsdenken und zur Geschichtsschreibung des 12. Das philosophische Denken im Mittelalter. 1986. J. 1253-1263. Geschichte im Spiegel von Geschichtsschreibung und Geschichtsdeu­ tung. 223-234. Flasch.Filosofia.-D. M. L’idée de Nature chez Hugues de Saint-Victor. Evans. G. M. Der wissenschaftstheoretische Ort der historîa im früheren Mittelalter. Civilizations (1974)... Neue Bilder einer populären Epoche.. 80-92. in Die Renaissance der Wissen­ schaften im 12. J. 663-693.. Economies. in Modernes Mit­ telalter. Ehlers. L’École de Saint-Viclor au Xlle siècle.L. G.. J.T. M. FS Johannes Spörl. “Archives d'Ilistoire Doctrinale et Littéraire du Moyen Âge” 20. L. 260-263.. Höfischer Körper-Höfische Kultur. 57-85. 1957. in Les études philosophiques 3. R„ L’estétique de Hugues de Saint-Victor. Milano. Von Au­ gustin zu Macchiaoelli. Ein Gedenkblatt zum achthundertjhärigen Todestag zweier Denkengestalten des Mittelalters. Recht und Gewaltenlehre bei Hugo von St Vik­ tor.. 1865. August in ischer und Dionysischer Neoplatonismus und das Mittelalter. V. in Actas del V Congreso internacional de Filosofía medieval. L'uomo e la natura nel pensiero di IJgo di San Vit­ tore. Häring. 1958. L. Abhand!. Cambridge. J.. B. M. 1966. Liccaro. Wiss. II. Prag. Mass. Liccaro. 919-926. böhm.. "Theolo­ gie und Glaube”..Grabmann. "Zeitschrift des Savigny-Stiftung für Rechtsgeschichte”.M. Ego di San Vittore di fronte alle novità delle traduzioni delle opere scientifiche greche e arabe. Koch. Commentary and hermeneutics. 1982. Gesell. J. K. W. 317-342. Washington. 1944. 1964. Victor. 241-249.. “De Esse ad Pulchrum Esse": Theologische Rele­ vanz der Schönheit im Werk Hugos von Sankt Viktor. Hugo von St Viktor f'fr 1141) und Peter Abaelard 1142). Madrid 1979. 34 (1942). The Theory of Knowledge of Hugues of Saint Vic­ tor (Catholic University of America Philosophical Studies 87). Liccaro. 173-200. Udine. 305-313. 1998. 1969. Lacroix.. in Renaissance and Renewal in the Twelfth Century.9. Karfíková. Kleinz. Turnhout (Brepols). Merzbacher. 181-208. Milwaukee 1959. Studi sulla visione del mondo di (Igo di San Vitto­ re.P. Atti del III Congresso internazionale di filosofía medioevale. Darmstadt 196. N.. in An Étienne Gilson Tribute... d. Hugues de Saint-Victor et les conditions du savoir au Moyen Âge. E. d.. in Platonismus in der Philosophie des Mittelalters. in La Filoso fia della Natura nel Medioevo. 118-134. Milano.. E. Die Lehre des Hugo und Richard von St. 1863-64... 288 . Passo del­ la Mendola (Trento). Kaulich. Das Auge im Mittelalter. Sacramentum Fidei. 1963. R. Southern. "Scholastik” 20-24 (1949). des 12. Aspekte der Antropologie Hugos von St. 26-47.. Studio filosófico. Possekel.mng Hugos von St Viktor. H. Fink. Ugo di San Vittore. Die Arbeitsmethode Hugo’s von Sankt Viktor. Die Nichtigkeit der Welt. "Theologie in Geschichte und Gegenwart". Münster. Esse et habere en Hugo de San Victor. Die Ps. Hugues of St Victor and the idea of historical develop­ ment. -. München..-dionysische Ge­ danken und die Glaubensauffas. 289 .A. -... Schleusener-Eichholz. Der philosophische Horizont des Hugos von St.-Dionysius Kommentare “In coelestem hierarchiam" des Skotus Eriugena und des Hugos von St Viktor. Geschichte und Geschichtsphilosophie bet Hugo von St Viktor. Aspects of european tradition of historical writing: 2.stinische und ps. in Die Metaphysik im Mit­ telalter. in L’Homme et son univers. H. 1985. Preludi di una storia del bello in Ugo di San Vittore. Das Weltverständnis Hugos von St Viktor unter Berücksich­ tigung des Metaphysikproblems. U.. Viktor. 1933. 433-456. Berlin. Alatri. 159-179. H. F. ihr Ursprung und ihre ßeteutung. Santiago-Otero. “Aevum" 26.Minuto.R. "Transactions of the Royal Historical Society” 21 (1971). W. Weisweiler. Schneider. Vorträge des II Internationalen Kongresses für Mittelalterliche Philosophie. Der Mensch in der Mitte.. 1952. "Recherche de théologie ancienne et médiévale” 61 (1994). 1898. Ein Beitrag zum Entstehen seines Hauptwerkes “De Sacramentis".. 215-221. G. Santini. 427-431. Louvain-la-Neuve 1986. Jahrhunderts. "Recherches de Théologie ancienne et médiévale”. Ein Beitrag zur Geistesgeschichte. Louvain 1952 (19). München 1961. Viktor. 5-21. 59-87 e 232-267. G.. Augu. Schlette. Les quatre sens de l’Écriture. in Die Renaissance der Wissenschaften im 12 lahrhundert.. 1961. Zimmermann. 80-84. “Historia”. 2. Berndt.Wolf. cap. Victor as a moral allegorist. Paris. G. vol. Textes de Hugues de Saint-Victor. Köln” 7 (1972). 290 . Exégèse médiévale. “Jahrbuch für biblische Theologie” 3 (1988). Die Theologie und die Wissenschaften. Gehören die kirchenväter zur Heilige Scrift? Zur Kanontheorie des Hugos von Sankt Viktor. 1984. 163-197. “tropologia” . “Mitteliateinisches Jahrbuch.. “Church History” 18 (1949). F.. Exegese Battles. La Bible dans les écoles du Xlle siècle. 191-199. A. 87-1022. Paris.. H.Exegetische Grundlagen der Geschichtskonzeption Hugos von St. Berlin-New York.L. IV. 287-359. -. 271-290. La pratique exégétique d’André de Saint-Victor. in UAbbaye parisienne de Saint-Victor au Moyen Âge (Biblioteca Victorina I). Paris-Turnhout. J. Lubac. 1987. Paris. “allegoria”.. 1974. Vik­ tor. traduits et présentés par Yves Delègue. R. 1981. Éditions des Cendres. Ehlers. Chatillon. Hugues of St. 2* parte. in Le Moy­ en Âge et la Bible. Traditionbewusstsein und Fortschrift­ sbewusstsein im späten Mittelalter. 220-240. Les Machines du sens: fragments d’une sémiolo­ gie médiévale. Thomas d'Aquin et Nicolas de Lyre. 1991. J. 153-160. Tradition victorine et Influence rabbinique. Yves Delègue. in Antiqui undModerni. Das 12 Jahrhundert als Geburtsstunde der Moderne und die Frage nach der Krise der Geschichtswissenschaft. Zü­ rich. de. Brepols.. Eius fun­ damentum philosophicum ac theologicum. 5-79. Ghellinck. "Irenikon” 22 (1949). dar­ gestellt im Zusammenhang mit dem trinitärischen Strö­ mungen seiner Zeit. Die Heilslehre des Hugos von St Viktor. Toronto” 55 (1993). Em stet ten.Moral Baltus.. J. Hettwer. J. Victore theologia perfectiva. 109-123. Il “reditus peccatorum”nette collezioni canoniche e nei teologi fino a Ugo di San Vittore. 1875.. "Mediaeval Studies. Der Glaubenstraktat Hugos von St Viktor als Zugang zu seiner theologischen Systema­ tik. Pontifical Institute of Mediaeval Studies. J.. Die Trinitätslehre des Hj^gos von St Viktor.. 395-411. 1897. Dieu d’après Hugues de Saint-Victor. Roma. 200-214. Victore.. F. 1963. J. 527-537. "Revue Bénedectine” 15 (1898). “Studia Antoni­ ana” 7. Roma. La “species quadri formis sacramentorum” des ca­ nonistes du Xir siècle et Hugues de Saint-Victor. J. Würz­ burg.. Iloffmeier. H. Die Cotfeslehre des Hugos von St Viktor. Ernst. München. 291 . 115-138. 1940.. Chatillon. Kilgenstein.. D.. C. Une eccïésiologie médiévale: Vidée de l'Église chez les théologiens de l'École de Saint-Victor au XlIe siè­ cle.. U. in Beiträge zur Geschichte der Philosophie und Theolo­ gie des Mittelalters. S. 1956. Köster. Humanism and Ethics at the School of St Victor in the Early Twelfth Century.S. Jaeger. Basic. Hugonis de S. “Revue des Sciences philosophiques et théologiques” 6 (1912). De fidei et scientiae discrimine et consortio juxta mentem Hugonis a S. Carpino. Vratislaviae.. Münster 1987. 1938. Gewissheit des Glaubens. “Scholastik" 27 (1952). Viktor. Vittore e la teología dei dont. Sakrament als Symbol und Teilhabe: Der Ein­ fluss des Ps. III-IV). F. La recherche de la Sagesse d'après Hugues de Sa­ int-Victor. Picascia. 29-41. Victor und die theologischen Rich­ tungen seiner Zeit. Dolphin. 2^22. C.. Die Lehre Hu­ gos von Sankt-Vikfor über die Offenbarung Gottes.. H. 292 . Paris-Bruges. A propos du ‘’con­ temptus mundi” dans T École de Saint-Victor.. Vittore. A„ Hugo von St.Leclercq. Anthropologie et spiritualité. Hugo of Saint-Victor. Lazzari. Ott.. Connaissance de Dieu et théologie symbolique d’après l’“ïn Hierarchiam coelestem Sancfi Dionisii” de Hugues de Saint-Victor {Recherches de Pliilosophie.. // “contemptus mundi” nella scuola di S. Napoli. Deus manifestas. L. p. R. "Revue des sciences philosophiques et théologiques” 51 (1967). R.. Die Christologie des Hugos von Sankt Viktor. Mística Bultot. Ugo di S.. 1963. Liebner. 91-133. “Classica et Mediaevalia” 16 (1955). Düsseldorf. Sententiae magistri Hugonis Parisiensis. “Studia Anselmiana”. Roma. "Recherches de Théologie ancienne et médiévale”. 1902. Schütz.. 1965.L. Pedersen. 1932. Hiltrum. M. Poppenberg. Mystic. J. Leipzig. 31-50. McSorley. Weisweiler. J. Deus absconditus. Louvain 1960 (27). 1959. J..-Dionysius auf die allgemeine Sakramentlehre Hugos von St. Roques. 1967. Wissenschaft und Gottesverlangen. E. "Medioe­ vo" XX.. 1836. 321-343.. Zur Mönchstheo­ logie des Mittelalters. Milano 1959 (51). C. 374-394. 15M79. Kontemplation und konstruktion. 407-415. G. 1994. E. Roma. Saudreau. 1954 (5). 1932. 232-238. P.E. “Rivista di Filosofia Neo-Scolastica”. Vittore. Paris II 1921. La vie d’union à Dieu et les moyens d'y arriver. 589-604. Chenu.A. P. La psychologie dans (’enseignement au Xlfe siècle..und Spätmittelalters 2.. Viktor und Wolframs von Eschenbach. Stras­ bourg. 436-455.. Bertola. Weiss. Die eheliche Lehens. 4 vol. Pourrai. Zum Verhält­ nis von Mystik und Wissenschaft bei Hugo von St. A. Michaud-Quantin. W. "Divinitas” 17 (1973). Louvain-Pa­ ris. M. La spiritualité chrétienne. 205-213.Mensching. H.. Ottawa-Pa­ ris. 1960.. Berlim-New York. Gneo. Di alcuni trattati psicologici attribuiti ad Ugo di S.. Hugonis de Sancto Victore methodus mystica. Gössmann. 7).D... C. in Études d’Histoire littéraire et doctrinale du Kill siècle. Psîcologia Allard.. Die Beteutung der Liebe in der Eheauffas­ sung Hugos von St. Actes du Premier Congrès international de philosophie médiévale. Paris-Angers. 1963 (“Analecta Dehoniana". Louvain-Bruxelles 1958. 293 . in L’homme et son destin d'après les penseurs du moyen âge.. "Münchener theologische Zeitschrift”. La psychologie de la foi auXIIf siècle. Viktor: “Scientia” und “ars" im Hoch. 1909.und Liebesgemeinschaft nach Hugo von St Viktor. 1839.. La dottrina del matrimonio nel "De Beatae Mariae virginitate” di Ugo di San Vittore. 6. M. “Colection de l'École Française de Rome”. Hugh of St Victor and the art of memory.Ostler.et philosophie au Mo­ yen Âge. 211-234. G. Münster. symbolism and use in the mysticism of Hugh of St Victor. H. 317-341. Zinn. esoterîsmo Luria. 38 294 .. G. Die Liebe als Grundmotiv der neutestamentlichen Theologie. 1951. Düsseldorf. 541-549. "Viator” 5 (1974).. Mandata. 1974 (22). Letras. P. Culture et Sagesse. Zinn.A. 513-528. SBD / FFLCH / USP SEÇÃO DE.S. Roma.. Aspects de la tradition Classique de Cicéron à Hugues de Saint-Victor.A. Rousselot. Montréal (Canada) 1967. 1906. Die Psychologie des Hugos von St Viktor. Some literary implications of Hugues of St. Michel. Ein Bei­ trag zur Geschichte der Psychologie in der Frühscholastik. A. 1908. Actes du quatrième Congrès international de philo­ sophie Médiévale. Pfctor’s Didascalicon. V.F.. gramática. in Arts libéraux. VI. geometría. Montréal-Paris 1969. L TOMBO: 264639 AQUISIÇÃO: O í RUSP RM BOOKS/N. in Beiträge zur Geschichte der Philosophie und Theologie des Mittelalters. "History of Religions” 12 number 1 (1972). Agape. Pour l’histoire du problème de l’amour au Mo­ yen-Age.N’011387 DATA: 10/11/05 PREÇO.... Warnach. . Av. 698-A Tel.: tOxx48) 232-41 12 Fox: (0xx4 a) 222-1052 FORTALEZA. Porceiro Comerciol Aletheio Livrorio e Popelorio Ltdo. . Q 704..AàEDITORA V VOZES SEPE E SHOWROOM PETRÓPOLIS. SP Tel. RJ Varejo (25620-001) Ruo do Imperador. PR Atucodo e vorejo ¡80020-000) Rua Voluritcrios do Pátrio..: (0xx31)3226-9010 Fox: (OxxSl) 3222-7797 Warejo (30190-060)RuciTupls. MG Atocodo e vorejo (36010-041) Rua Espírito Santo. MT Atacado e vom/o l?8005-970| Ruo Antônio Maña Coelho. 360 Tel. RJ Alocado (20040-009) Av. 245 PORTO ALEGRE.: (Oxx65) 623-5307 Fox: {Oxx65} 623-5186 CURITIBA. 197 A Tel. 33 R/C 1050-047 Lisboa Te(. MA Vorejo ¡65010-440) Ruo do Polmo. 16 e 18 Bairro Sonto Antonia Tel.p1 UNIDADES DE VENDA NO BRASIL APARECIDA. . CE Alncodo e varejo (60025-100) Ruo Major Focundo. BI.Angelo T«l.: [0xxl2) 564-1117 Fox: (0xxl2) 564-1118 BELO HORIZONTE. 4580 . BA Alocado e varejo (40060-410) Rua Carlos Gomes. n" 391 Tel. hHp. .: (Oxxl 1) 3277-6266 Fox: ¡0)0(11) 3272-0829 Vareja (01006-000) Rua Senador Feijô.(0*x31) 3532-4373 Fox.. (Dxx21) 2533-8358 Vorejo (20031-2011 Ruo Senador Dantos.. 74 . ¡0)0(62) 225-3077 Fax: [0xx62j 225-3994 JUIZ DE FORA. 845 Tel. 02 Tel. Rio Branco. n' 15 Tel: (0xx61) 326-2436 Fox: (0xx61) 326-2262 CAMPINAS. 166 Tel..(0x*92) 232-5777 Fax: (0xx92) 233-0154 PETRÓPOLIS. (0*5(321 3215-9050 fox: (Oxx32) 3215-8061 LONDRINA.cam br UNIDADE DE VENDA NO EXTERIOR PORTUGAL .//www. 114 Tel. [email protected](0)«24) 2237-5112 Fax: 10xx2it) 2231-4676 E-motl: vendas©voze5. Campus PUC Minas (32285-0401 Ruo Rio Comprido. PE Atacada e varejo ¡50050-410) Ruo do Principe.. AM Aíncodo e vareja (69010-230) Rua Costo Azevedo.: (Oxx?!) 2220-8546 Fox: (0xx21) 2220-6445 SALVADOR. 386 Tel.vc)zes. lOxxSl) 3423-7575 Varejo (50010-120) Rua Frei Coneco.Botrro Cinco Tel. (0xx31)3273-2538 Fox.Camhuci 01527-030 -Sõo Paulo. 834 .: |0)O< 11) 256-0611 Fax: {Dxxlll 25B-2S4! CODIGO OAS frestadoras de serviços telefônicos para longa DISTÂNCIA.Centro Telefax. 12.: Í0xx31) 3352-7813 Fax: Í0xx3I) 3352-7919 CUIABÁ..: (0)íx51) 3225-4879 Fox: (OxxSl) 3225-4977 Varejo (90010-273) Ruo Riachuelo. 1280 Tei. (0xx51) 3326-3710 RECIFE. Almirante Sarroso.Centro Tel. (Oiodl) 3105-7144 Fox: (Oxxl I) 3107-7948 Vorejo (01414-000) Rua Ftaddock Lobo. A. PF Alocodo e vorejo 170730-5161 SCLR/Norte. 311 solo 605 o 607 . (0x*31) 3222-4482 Vore'jo (30160-031) Ruo Espirito Santo. I I8-I. 100 Cgixo Poslal 90023 Te[. (Oxx24) 2237-5112 R. 5P Vorejo (12570-000) Cenlro de Apoio oos Romeiros Setor "A".le(epac. MG Afocodo e varejo (30130-170) Ruq Sergipe. 120-bia 1 Tel.(0xx31) 3595-8519 BRASiUA. Asa "Oeste" Ruo 02 e03-lojos 111/112 e 113/114 Tel. SC Atoctjdo e vorejo (aao 10-030] Ruq Jeranimo CobIIio. 482 Tel.: (0i«31)3226-9269 Tel. 91 . RS Alocado (90035-000) Ruq Ramiro Barcelos.(00xx3Sl 21) 355-1128 E-mail. 963 Tel. 72 . 1164 Tel. 30G Tei. SP Vore/o (13015-002} Rua flr. PR Aíocodo e vareja (86010-3901 Rua Piouí. MG .: (OxxSl) 3423-4100 Fqx.: (0xx31) 3274-8148 / 3274-8088 Fox: (0w31) 3274-8143 Parceira Comercial Atelheio Livraria e Papelorio Lido. esquina com Av.br (25689-900) Ruq Frei Luis. (OxxSl) 3226-3911 Fox. RJ lnl«rnel.com.: (0xx19) 3231-1323 Fox: (Oxx 19) 3234-9316 CONTAGEM.-.: (OxxZl) 329-5466 Fax: (0xx71j 329-4749 SÃO LUÍS.: (OxxaS) 231-9321 Fox: (0xx851 221-4238 GOIÂNIA. 41 -loIo 39 Tel : (0xx41)233-1392 Fox: f0xx41(224-1442 FLORIANÓPOLIS. 1081 . Campus PUC Minos (32630-000) Rua da Rosõrio.: (OxxBI) 3224-1380 e 3224-4170 RIO DE JANEIRO.Ceniro Tel.: (0xx9B) 221-0715 Fax: (0xx9B) 231-0641 SÃO PAULO.: (Oxx43) 337-3129 Fox: (0xx43) 325-7167 MANAUS. GO Aíoctido e varejo (74033-010) Rua 3.:(00«35l 21)355-1137 Fox. 730 Tel. de Jaguaio.lojo 1 Tel. .: (0xx21) 2215-6386 Fox.Centro Tel. SP Atacada Rua dos Parecis. 5 de Oulubro. 502 .
Copyright © 2022 DOKUMEN.SITE Inc.