Etienne Samain_ Ver e Dizer Na Tradição Etnográfica Bronislaw Malinowski e a Fotografia

May 11, 2018 | Author: Joana Lucas | Category: Anthropology, Sociology, Ethnography, Science, Philosophical Science


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“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 23“VER” E “DIZER” NA TRADIÇÃO ETNOGRÁFICA: BRONISLAW MALINOWSKI E A FOTOGRAFIA Etienne Samain Universidade Estadual de Campinas – Brasil Resumo: A constituição de uma antropologia visual de cunho científico não se fará independentemente de vários imperativos heurísticos que esboçamos no início deste artigo. Entre eles, evidenciamos a necessidade que se tem de promover uma história da antropologia visual. Nesse sentido, procuramos focalizar o papel desempenhado pela fotografia nas obras clássicas que Malinowski dedicou aos nativos das ilhas Trobiand, vendo como o antropólogo encarava a fotografia, como a fez, que lugar lhe alocava e a que funções a destinava dentro de seu próprio discurso antropológico. Palavras-chave: antropologia visual, ciências sociais, fotografia, Malinowski. Résumé: Le constitution d’une anthropologie visuelle de dimension scientifique ne se fera pas indépendamment d’une série d’impératifs heuristiques que nous esquissons au début de cet article. Parmi eux, nous mettons en évidence la nécessité qu’il y a de promouvoir une histoire de l’anthropologie visuelle. Dans ce sens, nous avons cherché à focaliser ici le rôle joué par la photographie dans les oeuvres classiques que Malinowski a consacrées aux natifs des îles Trobiands, cherchant à découvrir comment l’anthropologue envisageait la photographie, comment il l’a faite, quelle place il lui attribuait et à quelles fonctions il la destinait au sein de son propre discours anthropologique. Mots-clés: anthropologie visuelle, Malinowski, photographie, sciences sociales. O título dado a essa comunicação é voluntariamente excessivo. Repre- senta, antes de mais nada, um convite, e significa, dessa maneira, que, ao le- vantar certas questões e procurando delinear alguns caminhos críticos referen- tes aos usos das imagens (fotográficas em especial) no campo das ciências humanas – da antropologia em particular –, chamá-los-ei a outros desafios que hão de vir. Essas futuras trilhas que vocês abrirão e que serão fundamentais a Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 23-60, jul./set. 1995 24 Etienne Samain uma efetiva constituição de uma ciência da antropologia visual que não nasceu ainda, deverão ser procuradas não nos salões ou nos boudoirs, lugares onde, na maioria dos casos, boceja-se ou se querela em torno de repetitivas, cansati- vas e infrutíferas discussões. Oriundar-se-ão, sim, tanto a partir do firme mer- gulho na pesquisa de campo como na determinação aguçada de querer respon- der aos verdadeiros problemas que tais pesquisas levantam em termos geral- mente interdisciplinares. Num primeiro momento, propor-se-ão algumas reflexões em torno de questionamentos que não são realmente novos, mas aos quais se pode preten- der, talvez, oferecer alguns novos horizontes heurísticos. Em seguida, apontarei para um caso específico que poderia tornar essas interrogações mais palpá- veis: os usos da fotografia na obra etnográfica de Bronislaw Malinowski. O homem, a comunicação, a antropologia Que a antropologia clássica levante, até hoje, sérias reservas à criação de uma antropologia visual, que relute em entender que uma dissertação ou uma tese em antropologia social possa vir a substituir seus sagrados volumes escri- tos por fitas videográficas, eis fatos que não têm nada de bem novo e que, provavelmente, persistirão algumas décadas ainda. Já há 20 anos, Margaret Mead1 denunciava este “esmagador parti-pris verbal da antropologia” e a fixação devota – para não dizer fetichista – que esta consagrava às virtudes da escrita. Um fato que poderia evocar a querela dos anciãos e dos modernos se não levantasse, ao mesmo tempo, alguns sérios questionamentos que, breve- mente, esboçarei. Reconhecemos, primeiro, que não faltam pesquisadores que não têm uma formação antropológica consistente e que, no entanto, lançam-se de corpo e alma, com toda a parafernália ótica, na aventura visual antropológica. Seus empreendimentos são generosos, sem dúvida, mas nos decepcionam rapida- mente, ou porque não souberam medir suficientemente a viabilidade das reali- zações que vislumbravam, ou porque imaginaram que podiam fazer a economia da complexidade dos fatos antropológicos que procuravam registrar. Ao lado 1 Ver Margaret Mead (1975, p. 3-10) e Etienne Samain e Hélio Sôlha (1987, p. 5-6). Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 23-60, jul./set. 1995 “Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 25 deles, encontramos, num outro campo, antropólogos de formação sólida, pesso- as eruditas, que continuam a desprezar a fundação de uma antropologia visual, porque não querem ou – mais provavelmente – não sabem reinventar e traduzir visualmente alguns dos conceitos-chaves da ciência antropológica; ou, ainda, porque não se deram conta da urgência que há em se repensar, crítica e heuristicamente, as relações fundamentais existentes entre as ciências huma- nas e as ciências da comunicação. O que Margaret Mead, dessa maneira, pressentia e intuía na época, é que chegava o momento onde não bastaria “falar e discursar” em torno do homem, apenas “descrevendo-o”. Haver-se-ía de “mostrá-lo”, “expô-lo”, “torná-lo visível” para melhor conhecê-lo, sendo a objetividade de tal empreendimento não mais ameaçada pelo “visor” da câma- ra do que pelo “caderno de campo” do antropólogo. Eis um primeiro e simples boletim de ocorrências que, pelo menos, deveria nos lembrar este truísmo: não existem homens, sociedades e culturas sem a existência de meios para se comunicar. São precisamente esses meios de co- municação humana que os constituem e os fazem viver, pensar, organizarem- se entre si. Há de se admirar, dessa maneira, que, ante a polivalência e as singularidades dos meios de comunicação de que dispomos para sustentar uma melhor aproximação e compreensão desses homens e dessas culturas, não existem, ao mesmo tempo, maior relativização e maior integração dos mesmos. Será que continuaremos, de um lado como do outro, a defender unilateralmente a hegemonia de um meio sobre o outro, quando ambos são complementares, embora sempre singulares? A linguagem do “discurso” erudito representa um poder como a “mensagem da imagem” constitui um outro poder de apreensão de uma única realidade. Sem dever, aqui, estendermo-nos mais longamente sobre o assunto,2 vale a pena remeter aos trabalhos de Jack Goody (1988a, 1988b, 1994). Este antro- pólogo inglês responde ao famoso Pensamento Selvagem, de Claude Lévi- Strauss (1970), mostrando como a aparição da escrita “domesticou” esse pen- samento selvagem e instaurou o que ele chama a “razão gráfica”. Goody se detém, é verdade, na comparação entre a “fala pura e simples” e o advento da 2 Ver nosso artigo: Oralidade, Escrita, Visualidade. Meios e Modos de Construção dos Indivíduos e das Sociedades Humanas (Samain, 1994a). Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 23-60, jul./set. 1995 O autor insiste. como. com efeito. sobre a própria organização das sociedades humanas. ano 1. mas também. cinema. o surgimento dos novos meios e das novas tecnologias das visualidades modernas. aos meios comunicacionais de que nós nos utilizare- mos para descrevê-las ou revelá-las. visualidades modernas) proporcio- nam-nos deveriam tornar. antes de falar de uma antropologia visual. Poderia prosseguir seu trabalho abrasivo. 1995 . ao contrário.3 Pois o que ele observa é tão evidente que até tínhamos acabado por não percebê-lo mais. Mutatis mutandis e voltando para o assunto que nos diz respeito. também. talvez. dessa vez. escrita. 1990. n. não se faria urgente colocar mais claramente a questão de uma antropo- logia da visualidade humana tout-court. Deveríamos ir mais longe e perguntar se. não somente sobre os modos do pensamento humano. e em vista de que as invoca- mos. mas. No que nos diz respeito (antropologia visual). mais humildes e solidários para ousar empreender uma reavaliação comum das nossas “tecnologias do intelecto”.26 Etienne Samain “escrita”. heurísticos – o encontro e a mixagem de práticas cognitivas e comunicacionais seculares (visualidade. vem prosseguindo Pierre Lévi (1987. 23-60. 1992b). em particular. oralidade e escrita) com os mais recentes aparatos tecnológicos da verbo-visualidade contemporânea (som. torna-se mais claro. a que destinos entendemos dever conduzi-las. antropologicamente falando. Deveríamos. mais precisamente. 1992a. o fato de que nossas ambições mútuas de querer entender e interpretar as produções culturais de sociedades tão diversamente constituídas não serão alheias. da mesma maneira. fotografia. que as operações cognitivas. preocuparmo-nos e nos perguntarmos o que vem a significar – em termos não apenas antropológicos. incidem. p. Horizontes Antropológicos. de “moda- lidades de pensar”. 3 Trabalho que. jul. conviria perguntar nova- mente o que se espera das imagens em antropologia ou. informática). nos rastros de Goody. sobre os instru- mentos culturais de comunicação de que dispõe uma sociedade e não uma outra. As funcionalidades lógicas que esses meios e instrumentos de comunicação (fala. Porto Alegre. enfim. que esses meios diversos da comunicação humana proporcionam. 2. inclu- indo. vídeo./set. pretendemos utilizá-las e delas tirar proveito. ainda. Não apenas conhecer melhor os me- canismos neurofisiológicos e sensoriais que são a base da emergência de qual- quer pensamento humano. singu- larmente. enquanto esses são os determinantes de “estilos cognitivos”. Mostra. mas também as estruturas e os possíveis códigos neles embutidos. febril. entre o operador. Não falarei das relações que “esta superfície material de signos… suporte de per- cepções virtuais. mãe e matriz de tudo aquilo que havia de vir e que descobrimos. dessa maneira. mais alfabetizados visual e antropologicamente falando. com outras expressividades lógi- cas – ser capazes – sem dever renunciar à verbalidade – de pensar. enquanto ci- ência. 1994b). não se fará independentemente de uma história da antropologia visual. poderemos visualmente – isto é. o tempo de uma respiração possível. pudessem conjugar melhor ainda uma arte do sa- ber ver e uma arte do poder dizer e do fazer pensar através de imagens. Com uma Breve Bibliografia Seletiva (Samain. p. que não se organizarão a partir de mesmos parâmetros pelo simples fato de que uns e outras serão definidos e determinados em todas as suas esferas vivenciais pe- los novos meios das verbo-visualidades modernas? Deliberadamente. jul. sim. 2. 6 Remetemos às excelentes proposições de Guy Barbichon (1994). Horizontes Antropológicos. do surgimento da fotografia. dizer. n. até. nos fatos: duas aproximações complementares. Porto Alegre. que não pensarão como pensamos ainda hoje. ano 1. sendo a publicação inteira dedicada aos “usos da imagem”. Novo desafio que nos conduz a repensar esse momento intenso. 1995 . que. hoje. Importaria. 1994d). 23-60. única e definitiva de significação”6 entretêm. 4 Tratei longamente desses assuntos num artigo intitulado Para que a Antropologia consiga tornar- se Visual. em outros termos comunicacionais. ambos. duas tentativas de se responder a uma mesma necessidade: a de dizer o homem. numa práxis e transação social contínua. Não falarei desse falso distanciamento que. entender e mostrar antropologicamente homens e sociedades./set. a bibliografia referenciada na nota anterior. procura erguer-se entre o trabalho realizado por fotógrafos ou por antropólogos. e sim um desafio que temos que enfrentar. 5 Ver Samain (1994c. também. não falarei das imagens e das complexas questões5 que elas levantam tanto ao nível da produção. um dia. a pólvora nem a roda que temos que inventar. Será que. a máquina/maquinação/médium e o espectador. e à qual não fica atribuída uma unidade constante. às vezes. transmissão e decodificação. Ver. extraor- dinário.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 27 se é verdade que esses novos aparatos tecnológicos podem já e poderão cada vez mais servir à fundação e à prática de uma antropologia visual. que não serão mais os mesmos. Resta uma outra advertência de peso: a antropologia visual.4 Não é. sem ter. Mead. Horizontes Antropológicos. 23-60. lia atenta- mente suas obras sem me deter sobre as fotografias que apresentava. C. mas também na mesma época da antropologia. Malinowski acaba de desembarcar 7 Sobre sua vida e obra. parece-me imprescindível fazer a História da antropo- logia visual na direção que acabei de evocar. Sem responder a essa questão. será. 1942). entre muitos outros trabalhos: Firth (1957). tentei descobrir parte da obra do pai do funcionalismo com os meus olhos. há 20 anos. 2. Foi essa curiosidade e essa inquietação que me conduziram a tentar este primeiro ensaio em torno das práticas fotográficas de Bronislaw Malinowski (1884-1942) no campo de suas investigações antropológicas. Porto Alegre. mas já a realizavam. a 16 mil km de Londres. n. Não inventare- mos a roda. Va- leria a pena debruçar-se melhor sobre a natureza dessa eclosão conjunta – em meados do século passado – desses dois suportes. ser o de voltar aos seus idos. Panoff (1972). 1995 . que lugares lhe alocavam e a que funções a destinavam. É muito diferente. no entanto. Durham (1973). jul. ambas. che- gamos a relembrar o Balinese Character. reunindo uma dezena de artigos escritos por alunos de Malinowski. no entanto./set. Kuper (1975).28 Etienne Samain Nascimento da fotografia. suas paixões. Sem querer minimizar a importância dessa pu- blicação notável. Por que Malinowski e não outros pesquisadores famosos como Alfred Cort Haddon. não falavam de antro- pologia visual. mas. em se- tembro de 1914. Dessa vez. poder-se-á ler. quando. parece-me que um ângulo de ataque para pensar construir esta ciência visual antropológica poderia. que têm uma vocação co- mum: a de tentar revelar os homens e as sociedades. de Gregory Bateson e de Margaret Mead (Bateson. apaixonante e complexo. que não importaria poder ultrapassar esse marco – clássico demais – para penetrar nas obras de autores (fotógrafos ou antropólogos) que. p. como dela se servi- ram. ano 1. pre- cisamente. no final do século passado e nos primórdios do século XX. no melhor dos casos. Pitt-Rivers. porque. Walter Baldwin Spencer e Frank Gillen. Franz Boas? Porque. descobrir como a conceberam. Escolhi Bronislaw Malinowski. Kardiner e Preble (1961). à maneira delas e em várias direções. quando falamos de antropologia visual. Bronislaw Malinowski7 e os usos da fotografia Um mês apenas após a declaração da Primeira Guerra Mundial. seus delíri- os. Seligman. utilizaram-se da fotografia. G. seus imaginários. repito. 23). talvez?) que nos deixou (A Vida Sexual dos Selvagens. (DI. numa fotogra- fia (auto-retrato. 1995 . numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa. É possível imaginá-lo. primeiro e. Mais ainda: revê-lo. 80 anos depois. 25). nas ilhas Mailu. nas ilhas Trobiand: Imagine-se o leitor rodeado apenas de seu equipamento. n. jul. 23-60. Malinowski inicia o seu Diário8 [DI] nesses termos: Porto Moresby. Foto 68 e sua legenda). 20 de setembro de 1914. o etnógrafo aparece ainda em Vida Sexual dos Selvagens (Foto 15) e nos Jardins de Coral (Foto 85). depois. capital da Nova Guiné (Melanésia). empreendo minha primeira expedição em zona trópica. ano 1. p. p. vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista. 1985). Malinowski passará quase quatro anos na região./set. 2.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 29 em Porto Moresby. Ele tem 30 anos. 9 No conjunto das fotografias publicadas nas três monografias que estudaremos.9 8 Malinowski (1967) – utilizarei a versão francesa (Malinowski. (Argonautas do Pacífico Ocidental. Horizontes Antropológicos. um pouco mais ao sul. O dia 1 de setembro marcou uma nova época da minha vida. p. Porto Alegre. soltei- ro ainda. a paciência. já atacado pela calvície. escrever. várias vezes.30 Etienne Samain Em pé. sobretudo./set. a descaca das nozes de coco. as mãos sobre as ancas. Ninguém olha para ninguém nessa pose. Malinowski não é um amante da fotografia. 2. Acontece 10 Não é por acaso que a “tenda”. a lua nova. (DI. uma tenda10 e dois aparelhos fotográficos: um Graflex e uma Zeiss Kodak Anastigmat F. começo a fotografar – com péssimos resultados. Recebe. face a face. Trabalhará mais tarde com essas duas câmaras e uma teleobjetiva. ereto. rolos de películas. Malinowski chega a Mailu. Distribuo meias barras de fumo. muito alta. espécie de santuário e. praguejando e raivando. mais ainda: eles se recusam em manter a pose o tempo suficiente para que eu possa tomar os clichês. Ele prefere desenhar e. Ia com a intenção de tomar fotografias de certas cenas típicas: as atividades da aldeia em vista à festa. finge olhar. 1995 . 6. Foto 1. e olho algumas danças. p. Horizontes Antropológicos. introduzido pelo secretário do Departamento dos Negócios Externos do Commonwealth. Porto Alegre. através dos finos arcos de seus óculos. Dito isso. n. este. De camisa e calças brancas. de perfil. para tanto. depois. a perna esquerda apoian- do-se sobre a estrutura de um dos flutuadores de uma piroga de pesca. acobreados pelo sol e nus. tentativa de recolher amostras de todos os objetos técnicos.5 (diafragma pouco luminoso). Maré alta. seja o tema da primeira fotografia escolhida por Malinowski. (DI. p. suas máquinas fotográ- ficas o acompanham quase sempre ao longo de suas andanças. jul. objeto-fetiche do antropólogo. o espectro de Malinowski remete. a dois grupos de quatro nativos. o feiticeiro Togugu’á. usando uma peruca completa. ele planeja as fotografias que pensa dever fazer: […] Estabeleci meus planos de trabalho a Mailu: estudos descritivos e fotos das atividades econômicas na horticultura e na casa. Vou na aldeia com a esperança de fotografar várias fases do bara [dança]. com polainas e sólidos sapatos de couro. etc. como nota o antropólogo. Fotografei tudo isso – perdendo. 74). “caverna obscura” de seu trabalho de campo. 80). inserida na sua primeira monografia que dedicou aos nativos das Ilhas Trobiand (ver Argonautas. com a seguinte legenda: “A tenda do etnógrafo na praia de Nu’agasi”). ano 1. de certo modo. nem Malinowski que. Mais: muitas vezes. 23-60. placas no formato de 1/4. Hipocondríaco e orgulhoso. encarregado de realizar um relatório da situação dos nativos para o governo britânico. Falta de luz para instantâneos. carregando suas paixões amorosas sob o far- do de uma formação moral desastrosa. a cozinha do sagu. p. fala de suas atividades fotográficas) para ver como Malinowski. na maioria dos casos. p. p. em desespero ou se irrita profundamente: De tarde e de noite. escreve seu testamento – antes de partir para uma expedição perigosa de seis semanas – anota. essts linhas significativas: Horizontes Antropológicos. p. então. Em numerosos casos. em publicar “suas fotografias em álbum com textos explicativos” (DI. 23-60. laconicamente. me comportei injustamente e de modo estúpido. olho um pouco em torno de mim. de levar sua câmara ou a película necessária. Porto Alegre. fiz a volta da aldeia […] todo o pessoal saiu para pescar […] decido fazer fotografias. Decidi carregar meu aparelho a fim de tomar fotografias e. ao meio-dia. Entra. deprimido ou doente. 177). p. sofria desta falta de energia bem característica que faz de um pequeno trabalho – como embrulhar as placas ou colocar um pouco de ordem – uma monstruosa cruz sobre o Gólgota da vida. desde meio-dia. primeiro. de maneira clara. uma falta de jeito é um dos principais obstáculos ao meu trabalho. determinei as fotografias a serem feitas. acontece que Malinowski tenha-se es- quecido. Pensa. 251) Desajeitado. 83). jul. (DI. tomei arsênico + ferro e hoje. é a máquina que quebra ou são os seus fotografados que se mexem. aliás. desperdicei uma bobina. p. (DI. p. também. 168). Ontem e hoje tive dificuldades para tirar fotografias. um inexperiente e um não-profissional em matéria de fotografia. fotografias fracassadas. 2. por exemplo. 87). e quando. 61 vezes. no seu Diário. p. Me enrolei com o aparelho – em torno das dez horas – algo estragado. O destino está contra mim. 1995 .“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 31 que me torno furioso contra eles. Acordei às sete da manhã. quatro mulheres: na maioria. num outro momento. meu sentimento com relação aos nativos tende resolutamente no seguinte: “Que se extermine esses brutos!”. finalmente. luta com ela e a faz. Ontem. (DI. Carrego as câmaras […] Em Kaaulaka. não cessa de se referir a ela. me sinto melhor […] Fotos: a construção das pirogas./set. 218). Em outras ocasiões. (DI. (DI. De modo geral. ano 1. Furor e humilhação. n. e várias vezes. a rua. Deve-se reler o Diário (nele. Refleti longamente à viagem de barco que estou para fazer. 180). (DI. quando se mandam logo depois terem recebido sua porção de fumo. anotando as coisas a serem fotografadas. acabou funcionando. p. Fotografei mulheres. Voltei em estado de irritação. 218). 39 de Transactions and Proceedings of The Royal Society of South Australia (p. Uma relação aproximati- va e média de uma fotografia a menos de cada sete páginas de texto escrito. p. Estranho Malinowski. 1995 . (DI. existe uma versão francesa reduzida. fazer algumas observa- ções.32 Etienne Samain Tenho que tomar duzentas folhas de papel e outras coisas necessárias para trabalhar. sete anos antes da morte de Malinowski). algumas importantes constatações. p. São 92 na Vida Sexual dos Selvagens e chegarão a 116 nos Jardins de Coral. 2. republicada. 12 Malinowski (1929) – utilizarei a reimpressão inglesa de 1968. Algumas importantes constatações Sem falar de Os Nativos de Mailu [NM]. felizmente. jul. num primeiro momento. Um total de 283 fotografias espalhadas ao longo das 1883 páginas dessas três obras complementares. com o conjunto completo das fotografias (Malinowski. 1974).14 onde Malinowski já havia inserido 34 fotografias. em 1988. P. publicada em 1965 pela Indiana University Press. vale a pena encarar as grandes monografias às quais acabei de me referir e. 14 Publicada originalmente no v. a primeira e curta monografia publicada em 1915. Uma primeira coisa que nos chama a atenção é o uso crescente que Malinowski faz da fotografia. 23-60. ano 1. As câmaras. (Malinowski. Dutton & Co. Horizontes Antropológicos. 1961).12 – Os Jardins de Coral e suas Mágicas [JC]. 13 Malinowski (1935) – utilizarei a reimpressão inglesa deste livro duplo. Porto Alegre. dois fortes volumes13 sobre a horticultura dos trobiandeses (publicados em 1935. n. 1. O texto dos Argonautas incorpora 65 pranchas (totalizando 75 fotografias). 494-706). tão conhecido através das suas três imponentes monografias sobre os nativos das ilhas Trobiand e deixado à sombra no que diz respeito à sua atividade fotográfica… São as grandes obras de Malinowski sobre os trobriandeses: – Os Argonautas do Pacífico Ocidental [AP] (livro publicado em 1922). 11 Malinowski (1922) – utilizarei a versão inglesa publicada por E. essa monografia foi reeditada por Michael Young (1988)./set. Doze rolos de películas e três dúzias de placas e todo o equipamento necessário à revelação dos filmes. ou melhor.11 – A Vida Sexual dos Selvagens [VS] (livro publicado em 1929). Malinowski escreve e. o qual. de repente. 1995 . n. Outro fato. – A mesma situação apresenta-se. o arsenal necessário à revelação das chapas e dos filmes e a inexperiência pro- fissional do próprio Malinowski. existe. Isso fica corroborado pelo fato de que – na maioria dos casos – Malinowski. o verbal e o pictórico (dese- Horizontes Antropológicos. relativo à fotografia ou à prancha. novamente. 2. “Veja página tal a tal ou tal e tal”). pelos cuidados de Malinowski e de seu editor na inserção precisa das pranchas no corpo do livro. procurando uma simbiose máxima entre o que diz seu texto e o que sustenta visualmente o documento pictórico a que remete. um apêndice. no corpo de seu próprio texto. abre um ou mais parênteses para assinalar ao seu leitor: “Veja pranchas tais e tais…”. na utilização que Malinowski faz de suas foto- grafias. se levarmos em conta a época (1914-18). espécie de boletim exploratório da cena registrada onde se sente que o autor faz questão de nunca isolar a fotografia ou prancha de seu contexto etnográfico mais amplo. algo que ultrapassa – e de longe – a simples ilustração. 2. dessa vez mais importante e significativo: Malinowski acom- panha cada uma dessas pranchas com uma legenda extremamente precisa que oferece os seguintes ingredientes: – um título global. por sua vez. É muito. curto. como para salientar isto: “Se você. asso- ciados aos mesmos textos. Considerável até. Tudo isso fica confirmado. sintético. jul. quiser realmente entender o que relato. a tal “parágrafo”. rara- mente ultrapassando cinco palavras. Em outras palavras./set. você deve necessariamente rever e olhar atentamente o que também mostro nas minhas pranchas.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 33 deixando de lado outras numerosas figuras. 23-60.” 3. plantas. reintroduz e reconduz o leitor na própria prancha visual que lhe corresponde. para Malinowski. – logo seguido de um comentário de 20 a 40 palavras. Nada de uma condensação de fotografias no final do livro. remete seu leitor ou a páginas preci- sas de seu comentário escrito (por exemplo. p. desta vez. como se fosse uma parte anexa. as condições precárias de preparação das placas sensíveis. ano 1. a uma “divisão do capítulo”. ou – mais geralmente – a um “capítulo”. leitor. mapas e diagramas. Malinowski ordena com rigor suas pranchas dentro de seu texto. fica patente que. Nesse vaivém entre as fotografias e as legendas remissivas ao seu próprio texto. ao concluir sua legenda. Porto Alegre. Foto 16). Malinowski voltará sobre a segunda fotografia (AP. (Veja p.) (AP. dessa vez impressa. extraídas de Argonautas do Pacífico Ocidental [AP]. também não. * As fotos cujo número estiver entre colchetes [ ] encontram-se no final do texto. situando-o no quadro desse intercâmbio de presentes e contrapresentes. pingentes e tiras feitas de pandano seco. Tal osmose é capital para ele. 81. Além de descrever minuciosamente esse “bracelete” na página 81 de seu texto. 86) com o seguinte comentário: “A foto 17 ilustra o modo como esses braceletes são usados – os nativos os exibiram especialmente para a fotografia. apresentação./set. n. extraída de sua monografia de 1915 sobre Os Nativos de Mailu. (Veja p.34 Etienne Samain nhos. a não ser uma ou duas vezes – e nessas ocasiões ostentavam a ornamentação com- pleta da dança. ambos proporcionarão o sentido e a significa- ção. feito de pequenos discos do Spondylus [concha] vermelho). do segundo artigo. p. (N. o que é o kula. (Seqüência relativa aos dois principais artigos das transações do kula. 2. esquemas e fotografias) são cúmplices necessários para a elaboração de uma antropologia descritiva aprofundada. Horizontes Antropológicos. p. 81)” (AP. jul. 23-60. [2] – A mesma página. com imbricação das figuras no texto (NM. Vejamos isso mais de perto. O texto não basta por si só. do Ed. [4] – “Dois homens exibem os braceletes”: “A foto ilustra o modo como os braceletes são comumente enfeitados com contas.” Na seqüência e de maneira paralela. 155). em concordância com o autor. p. Porto Alegre. As fotos entre chaves { } não foram reproduzidas. p. ano 1. A fotografia. Acoplados. inter-relaciona- dos constantemente. reproduzindo exatamente o texto e as figuras do manuscrito (NM. Foto 17). o soulava (colar feminino de 2 a 5 m. 96). 1995 . variando em termos de tamanho e de acabamento. Não me lembro de ter visto homens usando os braceletes. então sim. de 1922) [3] – “Braceletes” [Mwali]: “A foto mostra diversos tipos. Mostra I: do visível ao legível – do legível ao visível: um percurso (Seqüência Mailu)* [1] – Página manuscrita de Malinowski.). dessa vez. [8] – Volta à fotografia e à legenda dos colares femininos. dada ao observador dessas fotografias. p. Isso ilustra o modo como o kula congrega grande número de pessoas pertencentes a diferentes culturas. [6] – “Duas mulheres enfeitadas com colares”: “Eis como o soulava é usado quando ostentado como enfeite (Veja p. para fechar a seqüência. ano 1. ou bagi. uma mensagem visual. seção II)”. 82)”. Foto 19). infalivelmente./set. Malinowski passa. ilhas Amphlett e Dobu (Veja seção III e Cap. focalizando. de uma das fotografias vistas. desde Kitava até Dobu. o que observamos? Uma simetria na apresentação dos artigos (masculino e feminino) principais do kula e.15 Malinowski apresenta uma foto de conjunto: [7] – “Uma reunião kula na praia de Sinaketa”. Foto 18) (close). numa faixa de mais de 2 km. uma operação cognitiva e lógica sui generis. “Mais de 80 canoas se acham ancoradas na praia. extremamente reveladora das escolhas pessoais e dos determinismos ideológicos subjacentes. aos quais tanto a fotografia como a legenda remetem. 23-60. Cerca de 2 mil nativos. (Foto 18) (legenda). n. com maior cuidado. onde se pratica a troca desses artigos. 81.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 35 [5] – “Dois colares feitos de discos do Spondylus vermelho”: “À esquer- da. Aproximamo-nos. Divisões II e III)”. na praia e em localidades vizinhas. os de Kitava. (AP. uma “abertura”. jul. de uma reunião kula. À direita. 15 Quero insistir sobre o trabalho de organização seqüencial das fotografias de Malinowski. Cap. como é conhecido entre os Massim do Sul). ao mesmo tempo. o soulava. 1995 . Divisão II. Foto 18). típico. Boyowa. Cap. {9} – Close da legenda e de suas indicações remissivas a outras partes do livro. assim. entre as próprias imagens. O katudababile não desempenha função de importância no kula (veja p. pela menção final de páginas ou capítulos de seu texto. ainda. Porto Alegre. o katudababile (ou samakupa. dessa maneira. sustentada por um denso comentário das respectivas fotografias e. em particular suas menções remis- sivas. Até aqui. feito de discos maiores manufaturados nas aldeias de Sinaketa e Vakuta (ilhas Trobiand). vindos de vários distritos. o verdadeiro artigo kula. sobretudo. referente ao quadro de conjunto. XVI. (AP. 2. Foto 20). Horizontes Antropológicos. da concepção que se pode ter quanto às articulações possíveis (ou potenciais) entre texto/imagem e. a legenda que a acompanha. XIV. reveladora. (AP. (AP. reúnem-se na aldeia. neste caso. XV. E. insiste sobre o fato de que um conjunto de outros artigos acompanham a viagem desses dois principais. logo depois. Horizontes Antropológicos. Cada pedaço é colocado em um orifício na extremidade de um cilindro de madeira e atritado contra um arenito. para descrever todo o cerimonial encantatório e mágico que precede tal pesca (seção II). (Veja seção III). XV./set. à tecnologia da produção dos discos e dos colares feitos com essas conchas. [11] – “As mulheres transformam pedaços de concha em discos achata- dos. (Veja seção III)”. Foto 50a]. XV. numa direção oposta”. n. aplainados e perfurados. também. no circuito do kula.” Os nativos consideram os braceletes como “fêmea” e os colares como “macho”. Porto Alegre. fazendo do kula uma transação na qual o princípio de equivalência revela-se extremamente rígido e preciso. esta tarefa é feita pelos homens”. [AP. O seu próprio texto chama o leitor para uma seqüência de cinco novas fotografias que lhe permitirão inteirar-se melhor do assunto que vem desenvolvendo paralelamente. [AP. Texto descrevendo a materialidade do soulava e definindo como. – (Cap. diz-se que os dois ‘se casaram’. Foto 52a]. ao lado dos braceletes masculinos. entra no círculo das transa- ções regulamentadas do kula. Foto 50b].36 Etienne Samain Essas menções remetem a quê? – (p. seção II): no capítulo XV. São as seguintes: [10] – “A concha Spondylus é quebrada e os pedaços são aparados em forma de círculos grosseiros. ano 1. Foto 51]. quando se chega. intitulado “A pesca e a indústria das conchas kaloma” [concha do Spondylus furada no centro (kaloma)]. – (Cap. seção II): a um texto novamente. 23-60. mas ainda com contornos irregulares. Malinowski torna a falar dos colares para aludir às técnicas de pesca dessas grandes conchas marinhas que vivem grudadas às cavidades dos afloramentos de coral e. p. [13] – “Os discos de concha.” [AP. so- bretudo. XIV. realizada em Dobu) volta a falar desses cola- res e braceletes para dizer como os nativos os consideram: “Quando dois dos objetos opostos se encontram no kula e são permutados. Malinowski não hesita. [12] – “Por meio de um instrumento de perfuração faz-se um orifício em cada disco. 1995 . onde Malinowski (que participa de uma cerimônia kula. jul. “os colares movem-se no sentido horário e os braceletes. seção III): todavia. que. mais uma vez. 2. – (Cap. Lembra-nos. mas. são agora enfiados em varetas finas e fortes…” [AP. 81): a um texto. 472). Foto 61). convidados a mergulhar num outro texto: o do Capítulo XIX. mais seguramente. verdadeiro artigo kula)”. Ao reler o conjunto das Horizontes Antropológicos. ambas remetendo. n. sendo. logo depois. (Veja p. 2. O que aconteceu ao longo deste percurso? Partimos de uma fotografia. O que aconteceu? Antes de responder. 1995 . [16] – “Transportando um soulava (o famoso colar feminino. promovendo uma impressionante circularidade entre textos e fotografias e procurando sua constante aliança. A primeira diz respeito à concepção dos papéis globais que. mas ao Cap. XV). com o líder carregando o colar em uma vara e o segundo homem soprando um búzio. Eis como trabalha Malinowski. funcionam.” (AP. dos homens e dos fatos sociais que estuda. (Veja seção III)”. Terminamos esse percurso. deve-se ir mais longe. Foto 52b].“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 37 [14] – “… e. “funcionar” e. Passando. o indispensável esforço para se aproximar. Três novas considerações se fazem necessárias. XIX. a um conjunto de outras fotografias (fabricação dos discos). 471)”. Funções mais precisas que Malinowski aloca a suas pranchas fotográficas Se a relação entre texto e imagens parece central na obra de Malinowski. XV donde vínhamos. dessa maneira são atritados sobre um arenito plano. para ele. Em outras palavras. [AP. “A parte que coube a To’uluwa da carga de braceletes trazida a Omarakana em outubro de 1915. 470-477) onde querem nos conduzir para descobrir o que vem a significar um pequeno kula de cunho familiar. longe de instaurar a redundância e a duplicação. a seu ver. pouco após aquelas que acabamos de co- nhecer. por um deles (Cap. p. Porto Alegre. seção III (AP. ano 1. jul. elas também. representa. efetivamente. III). 23-60. entre- tanto. Foto 60). isto é. (Veja p. p. de sua legenda e dos indicadores aos quais remetia (Cap. relativas aos braceletes e colares que aparecem. de repente. 1. a fotografia há de desempenhar com relação ao texto. fomos reconduzidos. vejamos ainda duas outras fotografias. as fotografias de Malinowski devem. por vários outros textos. não mais ao Cap. União esta que. “A comitiva. até que cada disco fique um círculo perfeito./set. pelo viés de duas novas fotografias. [15] – “Braceletes [Os Mwali masculinos] trazidos de Kitava”. até que a forma fique cilíndrica. (AP. aproxima-se da casa do chefe. nesse momento. pode ser observada). não se pode entender um fato social a não ser remetendo-o ao conjunto da estrutura social.38 Etienne Samain legendas que Malinowski deu às suas fotografias. no centro. a constituição jurídica. Porto Alegre. “dê melhor atenção” a este detalhe. Em outras palavras. insatisfeito do resultado de sua segunda monografia A Vida Sexual dos Selvagens. Para ele. “tocado pelo olho” (to see). po- líticos. jul. Para ele. para ele. “testemunha” (to show). “representa” ou. “observa- do”. a esta postura. dessa maneira. Espera da fotografia tudo isso e mais ainda. Malinowski investiga. n. no final de suas legendas. 1995 . a religião…) e o conjunto do corpo social. no sentido em Horizontes Antropológicos. “explicar”). “explica”. “note bem”. que serão as relações entre uma instituição dada (a organização social. 2. que permitirão descobrir a função de tal ou de tal instituição. E entendo por uso não somente a manipulação ou a satisfação direta ou instrumental das necessidades. a fotografia é uma “amostragem”. religiosos. to show ou to represent. não se deve esquecê-lo. Outra função freqüente da fotografia sobre a qual Malinowski torna a voltar. a fotografia “apresenta”. ele não pode ser mais conciso e claro no que diz respeito aos seus propósitos fundamentais: A investigação funcional direta consiste sempre no estudo de concatenações ou da relação de aspectos de uso atual. familiares. a fotografia oferece algo que pode ser “visto”. Significa. (to represent). muito rara- mente. Falando delas. atrás. descobre-se que alguns dos verbos usados para designar es- sas funções são claramente indicativos. Muito mais freqüentemente. 23-60. Malinowski insiste sobre as inter- relações existentes entre todas as ordens de fatos. Para ele. ele mesmo. melhor dizendo. Quando. o próprio antropólogo. “torna uma cena reapresentável”. ele usa os verbos to see (tal coisa can be seen. Malinowski. num prefácio especial à terceira edição da obra. “observe bem”. e sim as atividades corporais entendidas no sentido mais amplo de comportamento. utiliza o verbo inglês to ilustrate (que significa “ilustrar”. aliás. ao que aparece do lado esquer- do. 2. como se. faz-nos “conhecer”. perscruta como faria Sherlock Holmes. presentes nas três obras acima referidas. Malinowski. p. isto é. indaga. É a segunda observação. a economia. direito. “ensina”. é o pai de uma teoria antropológi- ca que procura entender como funciona uma determinada sociedade. o seu leitor a um “to note”./set. econômicos. busca esclarecer seu leitor. não tivesse conseguido dizer tudo acerca da própria imagem… Insiste e convida. uma “demonstração”: ela nos faz “ver”. enfim. “esclarecer”. mas também “demonstrar”. ainda. ano 1. VS 31. suas legendas e seus arranjos no texto. São as próprias fotografias. but the bolidy attitudes in the widest behaviouristic sense in which body embraces mind. grifo meu). Dessa vez. Pois. Porto Alegre. AP 33. às dos encantamentos do manto de gravidez que encon- tramos na Vida Sexual dos Selvagens (VS. beliefs. as fotografias das magias operadas sobre os Jardins de Coral (JC. JC 75 e JC 82). os contrastes. not merely the direct or instrumen- tal satisfaction of needs. xliv. Como? De que maneira? Ora observando os elementos relacionais e diferenciais contidos numa única fotografia. tridimensional num certo sentido. as Fotos AP 32. na realidade todos os costumes se encontram integrados dentro de um certo número de instituições.17 Al- guns exemplos bastarão. 59). integrate into a number of institutions. jul. […] Detailed analysis of social organization and culture would show us that most customs. 23-60. 1995 . emer- gindo da comparação de uma fotografia com uma outra ou várias outras. Fotos 100 a 109). (Malinowski. vasculhando as fotografias de Malinowski de um livro para outro. entender-se-á por que Malinowski investe fortemente na eficácia da fotografia enquanto ela lhe serve e também ao seu leitor de base tangível e expressiva para elaborar essas comparações e fundamentar visual- mente essas inter-relações ou concatenações. conjuntamente./set. ano 1. ora. 16 “Functional field-work consists always in the study of concatenations or the correlation of aspects in actual usage. ora medindo as relações ou as oposições. n. Fotos 42 a 51) e à fotografia de um rito de magia de guerra apresentada nos Argonautas (AP. que nos obrigam a tais percursos heurísticos. in fact all customs. […] Uma análise detalhada da organização social e da cultura nos mostraria que grande parte dos costumes. aliás. And by usage I mean not merely manipulation. com- parando por ex. 2.16 Nessa perspectiva. não é apenas o ver- bo to compare (também utilizado por Malinowski) que deve servir de alerta para investigar nessa direção. faz uma exceção muito significativa: antecipa a Foto 43 de Vida Sexual (“Primeiro Encantamento do manto de gravidez”) e a Foto 105 dos Jardins de Coral (“Exposição de alimentos destinados aos espíritos”) para juntá-las à Foto 58 (“Rito de magia de guerra”) que. ou seja. crenças e valores que circundam um objeto. ainda.” 17 Observar-se-á que é o próprio Malinowski que nos induz a tais reaproximações e comparações. 58. apresenta no final dos Argonautas (vejam a seqüência das Fotos 57. Foto 58). that is the ideas. para exemplificar esta segunda observação. todavia. as idéias. ele que quase que nunca reutiliza suas fotografias de um livro para um outro (ver. 1932.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 39 que o corpo abraça o entendimento. p. respectivamente retomadas em JC 79. Horizontes Antropológicos. and values which centre round an object. p. Bastaria repensar a Foto 18 dos Argonautas. (VS. todo um sistema muito coerente de princípios sociológicos. 1995 . 16. {22} – “Mulheres com enfeites rituais”. ele é um fotógrafo funcionalista. Malinowski não deixa sombra de dúvida sobre o que espera e procura nesta fotografia. (VS. agora. ao mesmo tempo. é precisamente isso que Malinowski espera das fotogra- fias: que elas possam estabelecer relações. o outro não). a Foto 18 tomava outra dimensão significativa quando posta face à Foto 16: os braceletes. jul. {23} – “Homens usando todos os acessórios festivos”./set. Foto 90). Mostrava dois ti- pos de colares (um de grande valor nas operações do kula. Mas. Porto Alegre. Sem sabê-lo. (AP. seqüências: um outro percurso (a) {17} – Legendando uma das primeiras fotografias dos Argonautas (Foto 4). (b) {18} – “Beldade melanésia”. 8). mas obedecendo a regras bem precisas. não as isola. (VS. p. talvez. 2. Para tanto. outro artigo central do kula. Ora. (VS. oposições. Foto 66). em toda fotografia. É o que ele vai procurar. mas também séries ou seqüências). [20] – “Mãe e filho”. Foto 72). inter-relações. (VS. Malinowski agrupa suas fotografi- as.40 Etienne Samain Mostra II: alguns exemplos de concatenações. o soulava. Foto 13). que conhecemos. Foto 67). Foto 81). grifo meu). Mulheres apanhando alimentos”. antes de serem reabastecidos”. (JC. p. Apesar da aparente confusão. Ele escreve: Episódio ritual de um sagali (distribuição cerimonial) bastante complicado. Horizontes Antropológicos. [21] – “Pai e filho”. Foto 14). ano 1. muitas vezes. n. 23-60. prefere trabalhar com conjunto de fotografias (duas. Foto 71). (VS. os famosos mwali. econômicos e cerimoniais rege o desenrolar da ação. [26] – “Celeiros quase inteiramente esvaziados de seu conteúdo. um tanto “confusa”. (VS. {25} – “Depois da distribuição. suficientemente. (VS. oposições de toda ordem. inter-relações. {24} – “Distribuição cerimonial de alimentos” [feita pelos homens]. {19} – “Tipo feminino não admirado pelos nativos”. Foto 91). (veja p. {50} – “Mãe e seu primogênito”. precisou de uma longa exposição…Toyodala. {43} – “Cortando as folhas brancas da Liliácea”. jul. Outras seqüências fotográficas importantes: – Jogos de crianças (VS. 1995 . segura o cor- po…”. (AP. Fotos 52-56). [35] – “Viúva em luto aliviado”. {39} – “Tecnologia da fabricação de potes – 2b”. [28] – “Sobre a estrada que atravessa a selva”. n. {36} – “Tecnologia da fabricação de potes – 1a”. (VS. Foto 33). [31] – “Duas moças bonitas. Foto 43). {38} – “Tecnologia da fabricação de potes – 2a”. Foto 44a). Foto 47). (VS. Foto 45a). Foto 34). (VS. Fotografia tirada em uma cerimônia de primeira gravidez…”. Foto 46). {48} – “Volta à casa paterna”. (VS. {45} – “O banho ritual”. (VS. Foto 35). (VS. p. Porto Alegre. Foto 32). (VS. (AP. (JC. (AP. Foto 46). Foto 92). o viúvo. 23-60. Foto 48). Foto 50). Horizontes Antropológicos./set. Foto 82). {40} – “Excelentes amostras dos potes fabricados nas ilhas Amphlett”. {47} – “Para evitar o contato com o chão”. (AP. (JC. [34] – “Viúva em luto completo”. {42} – “Primeiro encantamento das vestes de gravidez”. “Cadáver de uma jovem e bela mulher atin- gida por morte súbita e pranteada sinceramente pelo viúvo amparando o corpo para ser fotografado…”. (JC. não obstante o fato de um deles estar com a cabeça raspada em sinal de luto. A semelhança entre Namwana Guya’u e Yabukwa’u é tão impressionante que pode ser vista aqui. Foto 44). Uma desfigurada pelo luto”.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 41 [27] – “Celeiros reaprovisionados”. 2. Esta foto mostra também a trans- formação na aparência produzida pelo luto”. Foto 45). Foto 44b). [29] – “Sobre a estrada que atravessa um jardim depois da colheita”. (VS. [30] – “Dois irmãos. (VS. tirada ao pôr-do-sol. (VS. {41} – “O manto de gravidez. (VS. Foto 19). (VS. {44} – “Caminhando sobre a ‘ponte viva’”. (VS. Foto 49). [33] – “Cadáver depois da primeira exumação”. {46} – “Segundo encantamento do manto de gravidez”. (AP. (VS. Foto 42). Foto 45b). {37} – “Tecnologia da fabricação de potes – 1b”. [32] – “Cadáver enfeitado”. Foto 40). (VS. “A fotografia. {49} – “Vigília sobre a plataforma” (VS. ano 1. Foto 18). Foto 51). Foto 59) [também JC. parti do princípio do pitoresco e da acessibilidade. os “áli- bis” forjados em vista do texto que pretende escrever.42 Etienne Samain – Magia da madrepérola (VS. no tocante à horticultura – muito mais gravemente que nos dois volumes anteriores descritivos – cometi um ou dois pecados mortais contra o trabalho de campo. provavelmente. (AP. Porto Alegre. 1995 . Um texto que aparece no final do primeiro volume dos Jardins de Coral e suas Mágicas. Nas obras de Malinowski. [51] – “Um rito de magia de guerra”. Cada vez que algo de importante estava por Horizontes Antropológicos. eventualmente. Eis a razão principal para insistir sobre este fato. [51] – “Um rito de magia agrícola”. 23-60. (AP. Foto 43]. também. intitulado “Confissões de Ignorância e de Fracasso”: Uma deficiência essencial do meu trabalho de terreno deve ser mencionada: trata- se das fotografias. “provas”. Reto- marei desta maneira um texto pouco conhecido de Malinowski (que. Para o dizer com algumas palavras. ano 1. não se darão conta do quanto os meus permanecem mal documentados em termos pictóricos. “evidências”. Foto 57) [tam- bém VS. Se vocês. tenho esta convicção: Malinowski deve ter escrito muito pouco dos textos de suas três grandes monografias. constato que a verificação (o controle) de meus apontamentos de campo me conduziu. Foto 105]. p. n. a reformular minhas declarações sobre inúmeros pontos… […] Descobri também que. Fotos 101-109). “excrescências” do texto que escreve. Fotos 33-37). (AP. Tratei a fotografia como se fosse uma atividade secundária. Foto 58). Em resumo: as fotografias de Malinowski funcionam. procura ela- borar. ao contrário. Não disponho do tempo necessário para comprovar o que avanço. “molas inspiradoras” do texto que. 2. Não são. aliás. fala pouco da fotografia na sua obra inteira). sem ter colocado sobre sua mesa. – Cerimônia ritual do kamkokola (magia dos jardins) (JC. as fotografias funcionam. “desencadeadoras”. Redigindo meus dados materiais sobre os jardins [se refere ao Coral Gardens]. Fotos 75-78). um conjunto (importante) de desenhos e de fotogra- fias. como se fossem “pontos de partida”. jul. graças às fotografias./set. uma maneira – de certo modo menor – de agrupar “testemunhos”. Não vi Malinowski sentado na sua mesa de trabalho mas além daquilo que acabei de dizer. Foi um sério erro da minha parte. compararem meus livros com outros relatos de pesquisas de campo. com elas. diante de seus olhos. elas não são meros “suportes”. (c) [51] – “Encantamento mágico associado à gravidez”. – Queimada do jardim (JC. /set. “Era não só um excelente informante e colaborador. Tais escolhas me parecem depender muito menos de um eventual projeto estético pessoal de Malinowski do que da concretização de sua visão funcionalista das sociedades que observava. p. xlviii e liv da ed. p. freqüentemente. inglesa). Horizontes Antropológicos. também. o conjunto delas apresenta algumas características inte- ressantes. da primeira cerimônia nos jardins somente uma vez fui testemunha e. 1995 . uma boa série de planos médios. por acaso. 6. veja também as numerosas alusões a Billy no Diário e AP. no entanto. ao invés de estabelecer uma listagem de cerimônias que tinha a todo custo que ser documentada através de fotografias. entender-se-á por que. mas um verdadeiro amigo. a fotografia regrediu drasticamente no campo específico 18 Malinowski teve o apoio de Billy Hancok. fotógrafo. p. 3. noção já abstrata nas obras de E. n. jul. Se se encontra. coloquei a fotografia no mesmo nível que uma coleção de bugigangas como se fosse uma diversão acessória ao trabalho de campo. acontece que. Fotos 16 e 18. não tinha a máquina comigo! Conseqüentemente. Pois o que procurava o antropólo- go eram precisamente essas redes de relações e de concatenações presentes entre os elementos e fatos. Porto Alegre. tinha meu aparelho comigo. ano 1. visíveis e palpáveis. JC. Fotos 66 e 67. tomava-a… Porém. VS.18 tecnicamente falando. comerciante e comprador de pérolas nas ilhas Trobiand. 23-60. passando do funcionalismo de Malinowski ao conceito de “estrutura”. Os closes (como AP. Sendo dado que a fotografia não era para mim uma diversão. Se minha hipótese for exata. deixei escapar boas oportunidades. Evans-Pritchard e que perderá toda visibilidade direta nos trabalhos estrutura- listas de Lévi-Strauss. ao contrário. o tempo estava ruim e a luz deficiente também… Além disto. Embora todas as foto- grafias. visto que não tinha aptidões naturais nem me sentia atraído por esse tipo de coisas. presentes nas três obras não tenham sido feitas apenas por Malinowski. 461-462). dos grupos sociais estudados. cuja companhia e assistência trouxeram boa parcela de conforto material e apoio moral à minha existência um tanto penosa e monótona” (VS. que Malinowski tenha feito uma opção para o plano largo e de conjunto e tenha preferido a horizontalidade à verticalidade no tocante ao enquadramento. ele a desloca para multiplicar os pontos de vista do assunto que pretende representar (veja. JC. poucas vezes. Se a imagem se apresentava bem no aparelho. 2.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 43 acontecer. dessa vez. Foto 36) são extremamente raros. é fora de dúvida. 68-69 e 76-77. p. Fotos 79 e 75). Concluo com esta terceira e breve observação. 1966. E. (Malinowski. a altura da câmara é sempre a mesma e. Na medida em que não existe. fotografia que não seja. lápis e caderno. ano 1. Frizot (1994). antropológica. 23-60. enquanto antropólogos. o que Malinowski nos oferece de mais primoroso é justamente o fato de ter posto em evidência o inter-relaciona- mento fotografia e texto no discurso antropológico e. jul. se quisermos fundar uma ciência da antro- pologia visual. Se escolhi Malinowski. além das razões que já menci- onei. foi. e participe(m) pessoal- mente do que está acontecendo” (AP. a servir apenas de bloco de diversões exóticas oferecidas ao leitor. por extensão. Bancel. não deverá minimizar o impacto. porque. seria urgente debruçarmo-nos. lembrando a ambos. Horizontes Antropológicos. fazer a economia de uma de suas vertentes constitutivas: sua própria história. Ora. Clair (1993).44 Etienne Samain da antropologia social. Significa que a constituição de uma antropologia visual. um ensaio. os condicionamentos. até há pouco tempo. (Jean Michel Place). que uma história da antropologia visual não deveria se restringir a obras pictóricas inseridas nas monografias produzidas por antropó- logos. aliás. 1995 . que “de vez em quando deixe(m) de lado máquina fotográfica. n. 2. das centenas de artigos que lhe foram dedicados. É nessa perspectiva. os imperativos. aproveito a oportunidade da publica- ção para lembrar que esta pesquisa é. Ex- plicará tanto as relutâncias de alguns como as novas aberturas que se anunci- am. A antropologia visual não precisa de turíbulos. revistas) da mais alta qualidade crítica. gráfica e pictórica. reduzida que foi. a revista inglesa History of Photography (Taylor & Francis) e a recente (a partir de outubro de 1993) publicação francesa Xoana. um antropólogo. não encontrei sequer um que tratasse desse assunto. qualquer que seja. que todo projeto teórico antropológico crava na visualidade do próprio pesquisador. Blanchard e Gervereau (1993). p. daqui para frente. 21). a meu ver. Images et Sciences Sociales. antes de mais nada. que. sobre obras riquíssimas que nos legaram grandes fotógrafos do passado ou ainda vivos. isso sim./set. p. Post-scriptum Relendo este trabalho e valendo-me de ricas observações que me foram feitas por outros colegas e pesquisadores. Malinowski está lá para confortar. que se deva entender a aparição recente de um conjunto de publicações (livros. no discurso 19 Entre outros. catálogos. uns e outros. também. assinalo: Edwards (1992). Ensaio procurando mostrar. por essência.19 Creio. todavia. Porto Alegre. não poderemos. ). Foto 32). resta que precisaria retomar e com- pletar o trabalho a partir de um outro ângulo crítico. Tese. CLAIR. (Special Publications. 1995 . ano 1. Paris: Réunion des musées nationaux/Gallimard. 169-175. The Balinese Character: a photographic analysis. 1993.). Mimeografado. Horizontes Antropológicos. Catálogo. MEAD. se apontei para a legenda dada por ele à fotografia da “jovem e bela mulher atingida por morte súbita e pranteada sinceramente pelo viúvo. p. M. BATESON. (Livre-Docência). BARBICHON. 1942. 1973. en passant.. R. Referências BANCEL. Jean (Dir. p. que é visto amparando o corpo para ser fotografado” (VS. confesso que falta a este ensaio metodológico uma melhor atenção para com as distorções que o uso da fotografia pode. Images et colonies (1880-1962): iconographie et propagande coloniale sur l’Afrique française de 1880 à 1962. também. Eunice. n. G. Laurent (Dir. Guy. Usages de l’image: faire. Porto Alegre. DURHAM. Pascal. 83). 24. dire. 20). atentarmo-nos para as limita- ções e problemas introduzidos na antropologia justamente pela intervenção da câmera? Eis algumas questões que. Departamento de Ciências Sociais da FFL e CH da Universidade de São Paulo. me oferece Arlindo Machado. retomando o argumento de Margaret Mead. Se assinalei. Questões para pensar e talvez enfrentar num próximo tra- balho. a irritação de Malinowski quando os nativos não se mantinham posando para a câmera o tempo suficiente para sensibilizar os clichês (DI. ele próprio. Nicolas. Paris: Découverte/Sodis. Verificar se o trabalho fotográfico (de Malinowski ou de outros) não introduz e produz. Paris: Armand Colin. GERVEREAU. New York: New York Academy of Sciences.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 45 científico em geral. uma certa deformação na realidade que se quer observar e descrever? Ou. t. com muita sagacidade e amizade. 1993. Ethnologie Française. 2. L’âme au corps: Arts et Sciences:1793-1993. avril/juin 1994. A reconstituição da realidade: um estudo sobre a obra etnográfica de Bronislaw Malinowski./set. Dito isso. acarretar no trabalho do antropólogo. BLANCHARD. 23-60. quando denunciava as limitações de uma abordagem antropológica apenas verbal. p. jul. : Hombre y cultura: la obra de Bronislaw Malinowski. 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Campinas: Editora da Unicamp.48 Etienne Samain MALINOWSKI. SAMAIN. psicanálise e sociedade contemporânea: 1492-1900-1992. de 1915.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 49 ANEXO Mostra I: do visível ao invisível Seqüência tirada dos Nativos de Mailu (NM). 96). 1995 . p./set. p. Horizontes Antropológicos. dessa vez impressa. reproduzindo exatamente o texto e as figuras do manuscrito (NM. 155). [2] – A mesma página. [1] – Página manuscrita de Malinowski. jul. ano 1. 2. n. 23-60. com imbricação das figuras no texto (NM. p. extraída de sua monografia de 1915 sobre Os Nativos de Mailu. Porto Alegre. de 1922.50 Etienne Samain Seqüência relativa aos dois principais artigos de transações do kula. ano 1. jul. p. Foto 16 [4] AP. 1995 . extraídas de Argonautas do Pacífico Ocidental (AP). [3] AP. Foto 17 Horizontes Antropológicos. Porto Alegre. 2. 23-60./set. n. 1995 . Foto 19 Horizontes Antropológicos.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 51 [5] AP. Porto Alegre. p. n. ano 1. jul. 2. 23-60. Foto 18 [6] AP./set. Porto Alegre. Mais de 80 canoas se acham ancoradas ou atracadas na praia. ilhas Amphlett e Dobu (veja seção III e Cap. vindos de vários distritos. ano 1. Foto 20 – “Uma Reunião kula na praia de Sinaketa”. desde Kitava até Dobu./set. reúnem-se na aldeia. Cerca de 2 mil nativos. jul. 23-60. 1995 . n. Foto 18 (close) Horizontes Antropológicos. p. seção 2). na praia e em localidades vizinhas. nesse caso. Isso ilustra o modo como o kula congrega grande número de pessoas pertencentes a diferentes culturas.52 Etienne Samain [7] AP. [8] AP. 2. Boyowa. numa faixa de mais de 2 km. os de Kitava. XVI. 2./set. Foto 50a [11] AP. p. Porto Alegre. Foto 50b [12] AP. jul. 1995 . n.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 53 [10] AP. 23-60. Foto 51 Horizontes Antropológicos. ano 1. /set. 2. Porto Alegre.54 Etienne Samain [13] AP. Foto 60 Horizontes Antropológicos. Foto 52a [14] AP. Foto 52b [15] AP. n. p. jul. ano 1. 23-60. 1995 . 1995 . oposições… [extraídos de A Vida Sexual dos Selvagens (VS)./set. p. Foto 90) Horizontes Antropológicos. jul. 2. Foto 61 Mostra II: alguns exemplos de concatenações. 23-60. Jardins de Coral (JC) e Argonautas (AP)] [20] “Mãe e filho” (VS. ano 1. inter-relações.“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 55 [16] AP. Porto Alegre. n. antes de serem reabastecidos” (JC.56 Etienne Samain [21] “Pai e filho” (VS. n. Foto 82) Horizontes Antropológicos./set. 2. p. 1995 . jul. 23-60. Foto 81) [27] “Celeiros reaprovisio- nados” (JC. Porto Alegre. Foto 91) [26] “Celeiros quase inteiramente esvaziados de seu conteúdo. ano 1. /set. Foto 18) [29] “Sobre a estrada que atravessa um jardim depois da colheita” (JC. 1995 .“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 57 [28] “Sobre a estrada que atravessa a selva” (JC. Foto 40) Horizontes Antropológicos. p. n. 2. Foto 19) [30] “Dois irmãos” (VS. jul. 23-60. ano 1. Porto Alegre. tirada ao pôr-do-sol. jul. Foto 33) Horizontes Antropológicos./set. Foto 32) [33] “Cadáver depois da primeira exumação”. Uma desfigurada pelo luto” (VS. 1995 . o viúvo. n. “A fotografia. Foto 92) [32] “Cadáver enfeitado”.58 Etienne Samain [31] “Duas moças bonitas. que é visto amparando o corpo para ser fotografado…” (VS. segura o corpo…” (VS. precisou de uma longa exposição… Toyodala. Porto Alegre. “Cadáver de uma jovem e bela mulher atingida por morte súbita e pranteada sinceramente pelo viúvo. 2. p. 23-60. ano 1. ano 1. 2. Foto 34 [ver a legenda completa]) [35] “Viúva em luto aliviado” (VS. jul. Porto Alegre. p. 1995 .“Ver” e “dizer” na tradição etnográfica 59 [34] “Viúva em luto completo” (VS. Foto 35 [ver a legenda completa]) Horizontes Antropológicos. 23-60./set. n. 23-60. 1995 ./set. p. n.60 Etienne Samain [51] “Encantamento mágico associado à gravidez” (AP. Foto 43]) [51] “Um rito de magia de guerra” (AP. Foto 58) [51] “Um rito de magia agrícola” (AP. jul. Porto Alegre. Foto 59 [também JC. Foto 57 [também VS. 2. ano 1. Foto 105]) Horizontes Antropológicos.
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