Crianças e Adolescentes em Psicoterapia

April 2, 2018 | Author: Rafael Garcia Chagas | Category: Psychoanalysis, Psychotherapy, Sigmund Freud, Psychology & Cognitive Science, Psychiatry


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em psicoterapia * a abordagem| psicanalítica V JJBSh /Is origens da psicoterapia de crianças e de adolescentes na psicanálise A n ie S tü rm e r Este capítulo apresenta um breve histórico da psicoterapia de crianças e adolescentes que nasceu de m odificações técnicas baseadas na psicanálise. Será feito breve resum o histórico dos principais autores e os eixos teóricos psicanalíticos que em basam a clínica psicoterápica com crianças e adoles­ centes, com eçando com as pioneiras, H erm ine Von Hugh Hellm uth, Anna Freud e M elanie Klein. Após, são apresentadas algum as contribuições da Psi­ cologia do Ego e da Psicologia das Relações Objetais cujo corpo teórico en ­ riquece a prática da psicoterapia com crianças e adolescentes atualm ente. Além disso, aborda o início dessa prática n a América Latina. AS ORIGENS F reud ao observar seu neto, Ernest, b rin ca n d o com um ca rre te l, p e n ­ sou sobre a possibilidade de a criança e la b o ra r suas angústias depressivas atrav és do brinquedo. Para elab o rar o afastam en to de sua m ãe, o peq u en in o tran sfo rm av a a an sied a d e de separação vivida de form a passiva em algo ativo por m eio de sua b rin cad eira. S im bolicam ente, o ca rre te l significava su a m ãe, e ele tin h a o “p o d e r” de colocá-la longe (fo r t ) ou p erto (da) dele, m in im izan d o assim su a an g ú stia e im potência frente à sep aração , por m eio d a cap aci­ d ad e sim bólica. Esta criança n ão chora com a partid a da m ãe, pelo co n ­ trário . transform a essa experiência em jogo. Assim, Freud descreve o m e­ nino b rincando: Condições essenciais do psicoterapeuta de crianças e adolescentes A n a Cláudia S a n to s M eira Com o se form a um p sico terap eu ta d e crianças e ad olescentes? O que ele deve ter? Com o deve ser? Existem condições que são peculiares a q uem p re te n d e se d ed ica r ao tra ta m e n to de jovens pacientes? Para com eçar a escrever sobre um tem a tão re lev an te e po d er res­ p o n d er a essas p erg u n ta s, busquei a parceria e a in terlo cu ção en trev is­ tan d o colegas que, com um a disponibilidade adm irável, co m p artilh aram com igo as reflexões sobre seu quehacer en q u a n to te ra p e u ta s de crianças e ad o lescentes, de m odo que agora podem os dizer que este capítulo foi escrito a m uitas m ãos. Então, com o se form a um psicoterapeuta? A m aioria já deve ter o u ­ vido falar do fam oso tripé que sustenta a especialização em psicoterapia de o rientação psicanalítica. Temos nossa form ação firm em ente ancorada na som a dos efeitos que o tratam en to pessoal, a supervisão e a teoria operam d en tro de nós, em nosso aparelho m ental. É o que possibilita estarm os m ais instrum entalizados p a ra aten d er a pacientes em psicoterapia segundo os preceitos teóricos d a psicanálise. É en tão d a ação desses três elem entos que surgirão os atributos essenciais para tratarm o s desses pacientes. P roponho aqui que pensem os em o u tra form a que n ão a de um tripé com sup ortes paralelos e que não se cruzam . Sugiro a form a de três círculos - algo so b repostos um ao o u tro - com um cam po de intersecção e n tre eles, p ara rep resentar, ex a ta m e n te nesse espaço c e n tral - que é p arte tios três e ao m esm o tem po um só - o nosso m undo interno. É ali qu e se posiciona o q u e de psíquico foi fo rm ad o e tran sfo rm ad o a p artir da vivência de um tra ta m e n to pessoal, de supervisão da clínica e de nosso líle localiza as diferenças em questões m ais egoicas . os xostos . existem atrib u to s que devem ser in ere n tes aos profissionais que atendem especificam ente crianças e ad o lesc en tes e pecu liarid ad es p ró ­ prias da técnica desse aten d im en to . este capítulo oferece um m apeam ento daquilo que é específico do psicoterapeuta. Agora. É importante estar tranquilo com os séus aspectos infantis e adolescentos. C ontudo.que é acim a de tu d o da ludem do em ocional . alerta que lidam os o tem po todo com o infantil de nossos pacientes. m as tam bém do que o aten d im en to às três faixas etárias com unga em term os de condições necessárias a quem a ele se dedica. No e n ­ tanto.não pode ser fracionado por critérios de idade cronológica.disposição de tem po.análise ou psicoterapia. propondo. Um p sicoterapeuta indaga se é possível fazer esse fracionam ento da prática por idade. do adul­ to.ou p er­ correr os cam inhos da constituição psíquica onde aquilo que não se form a possa se c o n stitu irá posteriori em pacientes m ais graves”. a partir daí. se aquilo que im porta na situação analítica é lazer circular o pulsional e a sexualidade infantil. no contato com os jovens pacientes. É desse lu g a r . e.q u e vam os saber. íantasiaN e defesas sorilo temobilizadas. nos ui ibutos que o psicoterapeuta de crianças e adolescentes deve ter. fa zer ou te r um a série de quali­ dades que nos p erm itirão o exercício efetivo d a psicoterapia.que é o objeto de nossa atenção . organização do trabalho. Logo.na neurose . já que. na m edida em que o inconsciente . será que podem os falar d essas q u alidades q u e são com uns aos tera p eu tas de to d as as faixas etárias? C ertam en te que sim .as preferências. falarem os aqui das con­ dições que nos habilitam a percorrer esses cam inhos pelo psíquico junto a tuna parcela específica dos pacientes. dissolver sentidos coagulados e afrouxar o recalque . existem diferenças que conferem inegavelm ente caractelísticas diversas na dinâm ica. in d ep en d e n te da idade que têm : “é ele lo infantil] que está em jogo. na técnica e no olhar lançado. que se distingue. Ainda que seja certo que o inconsciente é atem poral e h abita com a m es­ ma qualidade a m ente de um m enino de 5 anos. Por sett conteúdo mais . sem dúvida. então. CARTOGRAFIA DA FORMAÇÃO • ' ^ Submeta-se a um tratamento pessoal . um rapaz de 15 e um h o ­ mem de 50 anos.Crianças e adolescentes em psicoterapia 4 3 em penho no estu d o teórico. Em expansão ao que esse terapeuta pontua.ou em questões de ordem prática . muitos conflitos. consul­ tório. No ano d e 19 08.. O desaparecimento de Hermine von Hug-Hellmuth é contemporâneo ao início de Melanie Klein e de Anna Freud. foi co n d u z id a p e ­ lo seu pró p rio pai. que o o rie n ta v a q u an to às interv en çõ es em relação à fobia do m enino. Enquanto procedia assim. su p erv isio n ad o p o r f r e u d . sob a cama. E lac rio u e tra to u p sicanaliticam ente seu próprio sobrinho Rudolph. p o r m uito tem po oculto. asfixian­ do-a. por meio do cordão. H erm ine von H ugh-H ellm uth t o rna-se a prim eira psicanalista de crian cas. Esse assassinato ficou abafado por m uitas décadas. Puxava então o carretel para fora da cama novamente. d e 5 anos. Essa observação é a pedra in au g u ra l do e n te n d im e n to do brincar infantil com o elem e n to básico p ara a com preensão das an sied ad es da criança. Esse a te n d im e n to p o ­ de ser co n sid erad o o prim eiro m o d elo d e um a p sico tera p ia infantil. 1995). p. ao mesmo tempo que o menino proferia seu expressivo “o-o-o-ó”. O m enino veio a assassiná-la. pois não legou um a sistem atização do seu m odo de trab a lh ar p o r m eio do jogo (Fendrick. linha um hábito ocasional e perturbador de apa­ Y c5 V ff nhar quaisquer objetos que pudesse agarrar e atirá-los longe. Talvez esse fato ten h a im pedido um m aio r avanço d a psicanálise e d a p sicoterapia de crianças nos p rim eiros anos do século XX.iiO M.. 1991). acompanhado por expressão de interesse e satisfação (.. de maneira que procurar seus brinquedos e apanhá-los quase sempre dava um bom trabalho. e assim foi c o n sta ta d o que a in te rp re ta ç ã o era possível com u m a criança (C astro. deva ter eclipsado suas co n tribuições. contudo. 1991. Esse “esq u ecim en to ” (Fendrik. Essa. Esse bom menino. Em bora H erm ine von H ugh-H ellm uth ten h a sido pioneira. aos 18 anos. im agina-se que seu trágico destino. para um canto. e saudava o seu reaparecimento com um alegre “ da” (ali).. de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas.. 102) e o silêncio sobre esse incidente trau m ático p o d eria esta r ligado ao tem o r sobre o fu tu ro das crianças an a lisa d as por seus pais ou alguém que estivesse nesse lu g ar e da im possibilidade de d ar co n ta do que ocorre com tran sferên cia (Fendrick. com o um segredo a ser preservado. 2 0 0 4 ). no dia 9 de setem b ro de 1924. emitia um longo e arrastado “o-o-o-”.) O que ele fazia era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada.irio (1«i ( iiiiv«< Kern < rtMro S. Em a an á lise do p e q u e n o H ans. então.. que não poderiam ignorar que a pioneira no terreno que ambas iriam disputar entre si tinha morrido assassinada por . Stürmer & << > ls. Ferro. era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno Freud (1 9 7 6 /1 9 2 0 ). na realidade. H ans e Mellita. Dois nom es se im põem q u an d o se fala em aten d im en to psicanalítico de crianças: M elanie Klein e A nna Freud. Klein viria a analisar. posteriorm ente. p. sen d o estim ulada p o r ele a se dedicar à psicanálise e ao atendim ento de crianças. habitam na minha vizinhança imediata. é um menino cujos pais. e é convidada por Karl A braham para trab alh ar em Berlim.. 19). como a mãe segue todas as minhas recomendações. 1991. M elanie Klein havia iniciado sua análise com S ándor Ferenczi em 1916. p. era seu filho Erich.( rl«inçus < • . um estudo de caso: O desenvolvi­ m ento de um a criança. Sobre a técnica de análise de crianças. d e quem a d o ta ria alg u m as ideias p a ra desenvolver su as p ró p rias p erspectivas sobre a o rg an ização do desenvolvim ento se­ xual. Além do mais. Fritz. a seg u n d a. o pequeno Fritz. em cuja criação tinham sido utilizados critérios inspira­ dos na psicanálise (Fendrick.M elanie Klein com eçou um a se c u n d a análise com Karl . N es­ se m esm o ano. M elanie Klein foi a Viena p ara fazer um a com unicação sobre a psicanálise de crianças e. seu prim eiro trabalho com o m em bro da S ociedade Psicanalítica de B udapeste. seus dois outros filhos. ap resentando. 16). Seu prim eiro paciente. O d eb a te estava e n tã o ab e rto e tra ta ria do que “d e­ via” ser a psicanálise d e crianças: um a form a nova e ap erfeiço ad a de p e ­ d ag o g ia.id o lcsc <>m ps« otorapui lI seu jovem sobrinho. Isso permitiu me encontrar muitas vezes. confrontou-se d ire ta m e n ­ te com A nna Freud. veio a se saber m ais tarde. ou a o p o rtu n id a d e de um a ex p lo ração psicanalítica do funcio n am en to psíquico desd e o nascim ento. C om eçava a q u e stio n a r certos aspectos do com plexo de Edipo. posso exercer uma grande influên­ cia sobre a educação de seu filho (Klein. nessa ocasião. No com eço de 1924. com sintom as de inibição in­ telectual. Melanie Klein 3 U co (o ‘V»wC\ <- Em 1920. dedicado à análise de um a criança de 5 anos: A criança em questão. com a criança. 1921 /1981. M elanie Klein ouve a com unicação de H erm ine von Hugh-H ellm uth. A prim eira. posição d efen d id a p o r A nna F reud. em 1919. com o q u eria M elanie Klein? . pela sua apaix o n ad a d efesa d a an álise “p u ra ” e p o r te r criado um novo m odo de in terp re taçã o atrav és do jogo. que são de minha fa ­ mília. e sem nenhuma restrição.A b rah am . pela sua firm e convicção na necessidade de um a alian ça en tre psicanálise e pedagogia. A dultos falam e associam . as crianças expressavam suas ansiedades e fantasias. G uiou-se pelo m étodo de in terp re taçã o dos so nhos de Freud.1981). que tom aram um a am p litu d e considerável com a ch eg ad a na In g late rra dos p sicana­ listas expulsos pelo nazism o. pois a té en tão trata v a as crianças em suas casas. desde as prim eiras ses­ sões. d a n ­ do acesso à sex u alid ad e infantil e à agressividade: em to rn o dessas fa n ta ­ sias podia se in sta u ra r um a relação tran sferen cial-co n tratrasferen cial e n ­ tre a criança e o analista. Para Klein. an alisou Rita. Klein ap re se n to u um a com unicação. a transferência é a esp in h a dorsal do tra ta m e n to . p assan d o a an a lisa r seus pacientes em seu consultório. são o lastro para as tran sferências (Klein. cujo m eio psicanalítico aderia às ideias de Anna Freud. inclu­ sive a negativa. Klein com eçou a tra b a lh a r com crianças em 1919 e logo observou que. Klein . co m p reen d eu a força das fan tasias incons­ cientes prim itivas d a m ente infantil. a convite de E rnest Jones. qu e in terp retav a. M elanie Klein conside­ rava o b rincar infantil um a form a de expressão de co n teú d o s m entais inconscientes. 1981). e usou a caixa in d i­ vidual pela p rim eira vez. Anie Stürmer & cols. se necessário. Com o ate n d e u cria n ­ ças pequenas e pré-verbais. sobre seus elem entos constitutivos e sobre o desenvolvim ento psicossexual diferenciado dos m eninos e das m eninas. M elanie Klein deixou Berlim . 1 9 2 9 /1 9 8 1 ). o conflito se am pliou. Os está­ dios precoces do conflito edipicino. Em 1926. en q u a n to crianças brincam e trazem à tona seus conflitos. na qual ex punha ex plicitam ente suas discordâncias com F reud sobre a d a ta ç ã o do com plexo d e Édipo. aplicando o princípio básico d a associação livre (L in d o n . A análise com A braham d u ro u 14 m eses e foi in terro m p id a devi­ do a m orte de A braham . Klein se instalou d efin iti­ vam en te em Londres (Lindon. A personificação e a distribuição de papéis no a to de brincar. Com a m orte de seu an alista. O setting in stitu íd o é m uito sem elh a n te ao que se utiliza ain d a hoje. com 2 anos e 9 m eses. e esse m aterial seria suscetível de in terp re taçã o no q u ad ro da situação transferencial. Em setem b ro d e 1927. que aparecem nas sessões através d as personificações nos jogos. Em 1923. ao brincar. d a n d o significado ao b rin q u ed o da criança. As ideias de Klein su scitaram fortes oposições. b ase ad a nos m ecanism os de dissociação e projeção. qu e consideravam suas ideias m etapsicológicas um a h eresia idêntica às d e Ju n g e Rank. a n ­ siedades e fantasias.3 2 Maria da Graça Kern Castro. e n tre os quais Anna F reud e Edw ard Glover. Com essas posições. É com esse caso que ela dá um passo definitivo no desen v o lv im en to da técnica do jogo. sim ilar às associações livres dos adultos. em 1925. D iferentem ente de A nna Freud. A d isco rd ân cia e n tre A nna F reud e M elanie Klein n ão parav a de crescer. destas controvérsias. Ambos tratam os aspectos pré-edípicos d a personalidade da criança. ou grupo in d ep en d en te. W innicott prioriza a im portância da relação da criança e sua m ãe n \il. a Psicologia das Relações Objetais. expressada pela inveja prim ária (Zim erm an. Klein publicou sua prim eira obra-síntese de seus historiais clínicos. do qual A nna Freud foi precursora. agressividade. depois de intermináveis negociações. 2001). 1981). em relação à im portância do m undo interno e o p o d er da fanta­ sia. o ponto de vista da inveja.K* ambiente*”. fundada pelas ideias de M elanie Klein. Nesse cam po de batalha entre as duas “divas” da psicanálise infantil está D onald Woods W innicott. Os confrontos assum iram tal intensidade que. Em 1932. Klein defen dia a ideia de que o tra ta m e n to de um a criança po d e­ ria ser p a rte in teg ran te d e su a vida. e. ou “m. Assim com eçou o período das Grandes Controvérsias. visto q u e to d a a criança passava por um a n eu ro se infantil. Em julho de 1942. sobretudo o conceito de posição (posição esquizoparanoide e posição depressiva). (K ahr. E nquanto M elanie Klein d estaca o papel da m ãe internaliza­ d a.isp<rtos saudáveis e a necessidade d e ser am ado. m arcadas principalm ente pela renúncia de Edward Glover à Sociedade B ritânica de Psicanálise surgiram três grupos: kleinia­ nos. Já A nna F reud achava que tra ta r era necessário ap en as q u an d o a n eurose se m anifestava em sin tom as e restrin g ia o tra ta ­ m en to de crianças ap e n as à expressão do m al-estar p arental. os . a tensão no seio da Sociedade Britânica de Psicaná­ lise atingiu um ponto crítico pelas divergências quanto às questões teóricas e técnicas entre os partidários de Klein e os de Anna Freud. e tam bém trouxe contribuições originais à psicanálise infan­ til. Não se pode n egar a influência de Klein no pensam ento de W innicott. surgiram duas escolas da psicanálise: a Psicologia do Ego. sobretudo. annafreudianos e independentes. assim com o sua concepção am pliada da pulsão de m orte. voracidade e das experiências psicóticas do bebê. Enfatiza que os conflitos ligados à perda de comi- . inaugurado por um ataque violento de Edward Glover contra a teoria e a prática dos kleinianos (Glover. Discorda de Klein ao não aceitar o conceito de pulsão de m orte e en ten d er a agressividade hum ana com o reação à invasões am bientais e ao sentido do v n d a d e iro self. em novem bro de 1946.Crianças e adolescentes em psicoterapia 33 chegou à conclusão de que a tran sferên cia só p o d eria ser estab elecid a e m an tid a se o con sultório ou a sala de jo g o s fosse sen tid o com o algo sep a rad o d a vida em casa (Lindon. 1981). A psicanálise de crianças. do outro lado. na qual expunha a estrutura de seus futuros desenvolvim entos teóricos. Além disto.1999). que participava do middle group. das fantasias diurnas e dos desenhos. Enfatizava que os filhos estavam ligados aos pais reais e atuais e. p a ra ele. Além disso. Toma e m p re sta d o de Klein o papel do jogo com o m eio d e ingressar no m undo infantil. por isso. 1995). e seus sofrim entos esta­ riam mais ligados aos sentim entos e conflitos de aprovação/desaprovação com seus pais reais. um a d e suas m aiores contribuições foi a criação e o de sen v o lv iin cn to da lla m sp te a d Child T h erap y Clinic em l. p o r exem plo. O b rin car é prazeroso e sa ­ tisfaz. W innicott considera um ego rudim entar desde o nascim ento. no qual criava um a aliança com o ego d a criança e a induzia para aceitação da análise. onde relata tratam entos de crianças en tre 6 a 12 anos. Sustentava que não poderia haver um a repetição enquanto a criança ainda estivesse vivenciando suas ligações originais (Ferro. o n ­ de a criança te rá a o p o rtu n id ad e d e desenvolver sua criatividade. C o nsidera a psicoterapia com o um espaço transitional. Aliava fins educativos e pedagógicos ao trata m e n to . en fatizan d o que o v erd ad eiro jo g o é criativo e ocorre na área dos fenôm enos transicionais. pois. Anna Freud criou em 1925 o K indersem inar (Sem inário de Crianças). 1995). o jogo é in terro m p id o ou é usado com o descarga. e q u an d o h á elevado grau de an sied a d e ou de carg a pulsional. Tal com o Klein. . Anna Freud tem ia a d eterio ração das relações d a crian ça com seus pais se fossem an alisad o s seus sen tim en to s negativos a respeito deles.ondres. Depois das experiências infelizes de Herm ine von H ugh-H ellm uth. u tiliza o “jogo do rabisco” (Squigle ) para se com unicar com alguns de seus pacientes. As situações negativas seriam resolvidas p o r m étodos n ão-analíticos (Ferro. nuidade do self são os aspectos que seriam levados para a transferência. q u an d o . o brincar não é apenas p u lsional. Em função disso. m as lim itava a utilização do jogo. Para ela. as crian­ ças não teriam tam bém m otivações para se tratar. >SO 3 4 Maria da Graça Kern Castro. Além disso. e n tã o ten tav a m a n te r um a situação positiva.V p r& o e. W innicott faz um a abo rd ag em p ró p ria da técnica do brinquedo. m as com visão d iferenciada. que se reunia no apartam ento da Berggase. não eram capazes de desenvolver neurose de transferência e tão pouco de associar livremente. sendo que as relações objetais iniciam a partir desse m om ento. tratava-se então de form ar terapeutas capazes de aplicar os princípios da psicanálise à educação das crianças. instituiu um período preparatório. publicou sua obra O ti'atamento psicanalítico das crianças. Anie Stürmer & cols. ao m esm o tem po que valorizava a utilização do sonho. Anna Freud COouóJJ^O' -y vo Em 1927. q u a n d o en fatizo u seus estu d o s dos processos de s e p a ra ç ã o /in d iv id u a ç ã o d a crian ça em re la ç ã o à m ãe. a in d a m uito u sa d a n a a tu a lid a d e . M ahler valo riza a m ãe com o e lem e n to do p a r sim biótico e seu pap el p a ra d iscrim in ar e d iferen ciar o b eb ê de si p ró p rio e d ese n v o lv e r um a n o ção d e coerência de se lf (L iekerm an e U rban. a visão dos fenôm enos é enfocada . A nna F reud focou p rin cip a lm en te nos asp ecto s do id e ego. R ap p ap o rt e Erickson. 2 0 0 0 ). q u e é base p a ra e n te n d e r os tra n sto rn o s borderline (M ahler. ex p lo ­ rando os efeitos da p re ssã o p ulsional no d ese n v o lv im en to d o ego. além d a influência d e A nna F reud. ju n ta m e n te com Kris. c o n sid e ra n d o que no início d a vida há u m a fase an o b jeta l. M arg areth M ahler. on d e. co n c eb en d o um ego in cip ien te n a fase sim biótica. m igrou p ara os E stados U ni­ dos com o m uitos o u tro s psicanalistas eu ro p eu s perseguidos pelo nazis­ mo. Ela en te n d ia que a ên fase no ego en c a m in h a o indivíduo p a ra u m a a d a p ta ­ ção à re alid ad e. p o r sua vez. 1999). seu pai não h esito u em analisá-la p o r duas vezes: e n tre 1918 e 1920 e e n tre 1922 e 1924. n ão era anôm alo pais trata rem seus próprios filhos ou paren tes. p ro p ô s um a d im e n sã o adicional.Crianças e adolescentes em psicoterapia 35 Q u an to a A nna F reud. TEORIA DAS RELAÇÕES OBJETAIS A perspectiva teórica das relações objetais valoriza os vínculos en tre objetos. E lab o ro u fases do p ro cesso se p a ra ­ d o /in d iv id u a ç ã o . liindou a co rren te p sicanalítica d e n o m in a d a “Psicologia do Ego”. Segue Freud e n te n d e n d o q u e o ego tem início co rp o ral. N esse m odelo relacional. lev an d o em c o n ta asp ecto s m ais prim itivos. Esses autores se fu n d a m e n ta ra m nos últim os trab a lh o s de F reud e tam b ém se alicerçaram nos trab a lh o s de A nna F reud (Z im erm an. N essa época. L oew enstein. M ostrou a co m p lex id ad e d essa ta re fa . 1982). U m a das suas p rin cip ais c o n trib u i­ ções teó rico clínicas. foi a elaboraç.ao do seu d iag n ó stico m etap sico ló g ico (perfil d ese n v o lv im en tal). PSICOLOGIA DO EGO H einz H atm ann. nas décadas iniciais dos tra ta m e n to s psicanalíticos. psicanalista au stríaco . e que n e s­ sa fase ex istiriam ru d im e n to s de relaçõ es objetais. em bora seja freq u en tem en te utilizad o p ara descrever a abordagem desenvolvida por M elanie Klein. com prev alên cia d e m ecanism os n eu ró tic o s sobre psicó­ ticos (Ferro. que levam ao surgim ento de novos elem entos (G reem berg e M itchell. A descrição d a identificação projetiva descrita por Klein (com o m e­ canism o para livrar a m en te de an g ú stias penosas. Bion. Klein su g eriu que o bebê p o d e te r um ego pouco desen v o lv id o d esd e o n asc im e n to . com alg u n s conceitos e desenvolvim entos o rig in ais. A p a rtir daí. Consiste num m odelo de ap a relh o psíquico que supõe um a relação o b jetai desde o início da vida. m u ­ da esta perspectiva. P o rtan to . Anie Stürmer & cols. a cria n ça estab e lece u m a relação com objetos totais. a crian ça in te rn a liz a rá “p a rte s ” de objetos arcaicos que serão d istin g u id o s e n tre “b ons e m au s”. p o ssuindo u m a c a p acid ad e ru d im e n ta r d e a p re e n ­ são de aspectos d e sd e seu nascim en to . a teo ria k leiniana. O te ra p e u ta se to rn a alvo dessas fantasias. A p a rtir d a relação com os objetos p rim á­ rios. com o processos interativos en tre s e lfe objeto. será in tern alizad o um objeto colorido pelas fantasias provocadas por essas experiências. O tem a das relações objetais recebeu a contribuição de vários a u to ­ res. fazendo uso d e m ecanism os d e defesa prim itivos. 2 0 0 0 ). 1995). Essas p rim eiras relaçõ es o b jetais. e n tra n d o n a p osição depressiva. se d ão com objetos parciais (posição esq u iz o p a ra n o id e ). C o n trad ize n d o F reud. e o paciente ex tern aliza o que acontece em seu m undo in tern o ao pro jetar na atu alid ad e d a tran sferên cia (Ferro. deu ascen são à “escola das id a ç o r s dc objeto". 1994). 1 9 95). 1995). Os objetos in tern a liza d o s estarão. As fan tasias p rim itiv as do bebê em erg em in terfe rin d o nas percepções e nas in teraçõ es com a m ãe e com seus cuid ad o res. m ais tard e . Klein su ste n ta que o m u n d o in tern o da crian ça é criado a p a rtir desses processos e é a chave p a ra a saú d e m e n ­ tal (L iekerm an e U rban. No d ese n v o lv im en to d esse m odelo te ó ­ rico. sujeitos às deform ações o p eracionalizadas p ela vida fan tasm ática da criança e n ão co rresp o n d erão às características dos objetos reais externos. p o rta n to . A vida psíquica é d o m in ad a pelo jo g o das fantasias inconscientes e das defesas a ela co n ectadas. evacuando-os para o ex terio r e para d e n tro de o utro que se to rn a recep to r do processo) to r­ na-se um a aquisição indiscutível p ara a psicanálise. na qual estão . en ten d e n d o e am p lian d o a identificação projetiva com o um a form a de com unicação p rim itiva de em oções (Ferro. se io /b e b ê . e n a m ed id a em q u e h o u v er m aio r in te g ra ç ã o e coesão d o ego infantil.3 6 Maria da Graça Kern Castro. a exitosa ela b o ra ç ã o d a posição dep ressiv a será g a ra n tia de m aio r sa ú d e m en tal. A rm inda A berastury id en tificad a com as ideias d e M elanie Klein. 1982. q u an d o esses p en sad o res co ncorda­ ram com Klein sobre a ativ id ad e precoce do ego. para c itar alguns dos p en sa d o res co n tem p o rân eo s d en tre outros. AMÉRICA LATINA E BRASIL Na A m érica L atina.l 11). que. E n tretan to . por consequência e com o solução dos conflitos criados nessa fase. en fati­ zaram a d ep en d ên cia to tal desse ego na au sên cia da su sten taçã o externa da m ãe (Likierm an e U rban. m as. definindo um a “fase genital prévia”. essa é uma d as suas contribuições técnicas m ais originais e que levam o psicole ra p e u ta a e n te n d e r q u e a criança “sab e q u e está en ferm a e que com ­ p reen d e e aceita o tra ta m e n to ” (A berastury. Além disso. M ichael Balint. a lase an al se e stru tu ra ria depois da oral e fálica. 2 000). ao co n trário de Klein e com um a consciência das contribuições de A nna F reud. ju n ta m e n te com E duardo Kalina e M auricio Knobcl.Crianças e adolescentes em psicoterapia 3 7 incluídos p en sad o res com o D onald W innicott. A ntonino Ferro. tiveram forte influência sobre a p sicoterapia d e crianças e adoles . C onform e A berastury (1 9 8 2 ). d esen v o lv en d o a an á lise de crian ças. H erbert R osenfeld. pela su a experiência perm itiu-se realizar um a série de m odificações no to can te à form a de co n d u zir as entrevistas com pais. 1999). tra d u z iu sua obra p a ra o ca ste lh an o . en fatiza que sua técnica teve suas ui7. focou seus estudos sobre as dificuldades d e sono nos lactentes. e d estac a as fantasias de “doença e cura ” que a criança ap resen ta nas prim eiras h o ras de jogo. am pliando alguns conceitos que vêm enric|iiecer ain d a m ais a teo ria psicanalítica. a n terio r à fase anal no desenvolvim ento libidinal. in au g u ra n d o o que se denom ina atu alm en te de “psicanálise vincular” (Z im erm an. seria início do com plexo de Édipo. A nne Alvarez e Francis Tustin. m ais p re c isa m e n te na A rg en tin a. p . Em 1957. conform e ('la. a p resen to u um a com unicação sobre a sucessão dos "estágios” d u ra n te os prim eiros anos de vida. E ntre 1948 a 1952. Ronald Fairbain e W ilfred Bion. bem com o os tran sto rn o s que acom panham a dentição. D onald M eltzer.cs da técnica e lab o rad a por M elanie Klein. fo rm an d o um a geração de analistas dc crianças. tam bém . Em seu livro Psicanálise da criança. tam bém foram b eb e r na fonte das principais linhas de desenvol­ vim ento do trab alh o de Klein. Sem dúvida. A rm inda dirigiu no Institu to de psicanálise da APA um sem inário sobre esse tem a. As ideias de A berastury. centes na d écad a de 1970 no Brasil. Esta instituição tn in a \e revolucionária não apenas p o r te r am pliado qu estõ es científicas. no Rio G rande do Sul. tam bém por 1 1 ter funcionado como um espaço que incentivava e refeirndava a prática psicoterápica. m ultiplicaram -se os p sico terap eu tas d edicados a a te n d e r ad o lescen tes e suas fam ílias (Freitas. Em consequência disso. m. Em se tra ta n d o de adolescentes. essen­ cialm ente. m ais especificam ente no Rio de J a ­ neiro e Rio G rande do Sul. Em 1971. com atitu d es p io neiras. Dr. 1989). e. o rg an izad o pela ASAPPIA (Associação A rgentina de Psi­ q u iatria e Psicologia d a Infância e A dolescência). am bas não eram m édicas nem psicólogas. vol­ ta va-se para as drogas. A influência teórica d a época era basicam ente a de M elanie Klein e A u n in d a A berastury. os trabalhos sobre esse tem a no Brasil tiveram d esenvolvim ento significativo em 1970. Fábio Leite Lobo assu m ia a direção do Instituto de Psicanálise do Rio de Ja n e iro e trazia um a p o stu ra m ais ab e r­ ta. no Rio de Jan eiro . S urpresa foi q u e m uitos profis­ sionais se in teressaram pelo tem a. estavam os pais assustados e confundidos fren te a esse qu ad ro que incluía. Luis Carlos O sorio.3 8 Maria da Graça Kern Castro. o ad o lescen te brasileiro. A inda em plena d ita d u ra m ilitar e sem possibilidade d e ex p ressar suas an g ú stias frente ao m al-estar social. Nesse m esm o p eríodo. sen d o a m aioria deles psicólogos. desse m odo’ iniciava um a fase de estudos sobre o tem a.e a ideia de criar a APPIA (A ssociação de P siquiatria e Psicologia da In l/inna e A dolescência). A p a rtir desses contatos. J u n to a isto. alienando-se do m u n d o real. principalm ente aos médicos e psicólogos mio psicanalistas” (F reitas. a d ro g ad ição e a sexualidade. Esse “fecham ento” resultou que a “classe excluída” fosse buscar sustentação em grupos de estudos. e. a fim de oferecer um curso de teo ria e clínica psicanalítica. que foi fu n d a d a em 1972. I louve bastante resistência das sociedades psicanalíticas filiadas à IPA em abrir sua form ação para psicólogos. Aberastury. Anie Stürmer & cols. 1989). ■any. p articip aram da I R eunião P anam ericana de Psiquiatria e A dolescência e do II C ongresso A rgentino d e Psicopatologia Inlanto Juvenil. vindo a o ferecer um a am pliação da p rá ti­ ca psicanalítica a não-m édicos. e Carlos ( astellar. O tra ta ­ m en to de crianças era realizado por psicólogas que supervisionavam e se an alisavam com psicanalistas de form ação m édica. Foi nesse período que E d u ard o Kalina e A rm inda A berastury desem barcavam no Rio de Jan eiro . havia p u ­ blicado um trab a lh o in titu lad o “O m u n d o ad o lescen te”. se sentindo sem h orizontes. supervisão . que já se envolvia com estu d o s sobre a criança. ru p tu ras. alguns se fortalecen d o e se to rn a n d o referên cia no ensino da psicoterapia. a p sicoterapia de o rien ta ção p sicanalítica tem um espaço qu e vai se solidificando com o d ec o rre r dos tem pos: to m a com o su sten tação a teoria psicanalítica e os progressos desenvolvidos p o r seus pen sad o res. Em pesquisa realizada por S elister (2 0 0 3 ). cm v irtu d e de diferenças teóricas ou políticas. O ESPAÇO DA PSICOTERAPIA DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA C onform e assin alad o neste capítulo sobre As origens da psicoterapia na psicanálise.Crianças e adolescentes em psicoterapia 39 e análise com psicanalistas que os apoiavam . D esta m aneira. p o r o u tro lado. Aqui no Brasil. e. D u arte (2 0 0 3 ) a p o n ta que. em Porto Alegre existem m ais de 50 instituições d e ­ dicadas ao ensino da psicoterapia. o q u e ofereceu um a base sólida. as APPIAs se constituíam de nom es con­ ceituados da psicologia. no início dos cursos d e form ação de psicólogos as d iscip lin as da á re a clínica e ram m in istra d as p o r m éd i­ cos. m ais especificam ente. constituiu-se m u ito árd u a a luta dos psicólogos p a ra serem reconhecidos com o capazes de exercer a lunção de p sico terap eu tas. o com prom isso com atualização continuada e o cliente”. foram se consti­ tuindo vários cursos de form ação de psicólogos. psicólogas. constituiu-se em um a técnica p ró p ria que dá conta d e um cam po e um “fazer” que é específico. devido às d ispu­ tas p o r espaço no m ercado de trabalho. visto que a prática da psicoterapia é o produto de interação com plexa entre a formação. C onform e C astro (2 0 0 4 ). fundando um a sociedade exclu­ siva p ara psicólogos. N esta investigação. o C onselho Federal de Psicologia reg u ­ lam entou os cursos de form ação e a p rá tic a e a experiência dos psicólogos form ados em cursos d e especialização n ão ligados ao m eio universitário. Nesse sentido. e abriam espaço para dife­ rentes discussões tanto políticas q u an to teóricas (Freitas. Com a Resolução n° 1 4 /2 0 0 0 . 1989). fo rm ad as há m ais d e 20 anos. descreve que a docência da psico terapia psicanalítica é exercida essen cialm en te por m ulheres. Nesse h iato que se colocou e n tre esta “a u to riz açã o ”. pois essa área ficava restrita à m edicina. “essa resolução destaca como imprescindível para realização da psicoterapia que o psicólogo seja obrigado a se subm eter a ama especialização em nível de pós-graduação a esse exercício profissional. em to d a a história d a psicanálise houve cisões. sen d o q u e os p rim eiro s pro . a p a rtir daí. ou ainda. n ão favoreceu a id e n tid a d e pro fissio nal d o p sic o te u ip e u ta . psicanálise e psiquiatria. se observa um a seleção n atu ra l. p. 2003. Psicanálise da criança.22). que envolve. seja sentindo. Trabalho apresentado no V Congresso la­ tino Americano de Psicoterapia. o p sico terap eu ta de O rientação Psicanalítica necessi­ ta se apossar de sua id en tid ad e. M. “não fo ra m poucos os que não aceitavam os novos profissionais” (D u arte. Anie Stürmer & cols. brincando. 2 003 p . ciente de que sua form ação estará cal­ cada em um a base sólida tan to ética q u an to teórica e técnica. 23) ainda a p o n ta que em sua longa experiência profissional. O psicotera­ peuta estará então auxiliando aquele que nos pede ajuda p ara se conhecer e sc encam inhar para atingir a liberdade para ‘Vir a ser o que se é” (Bion). W. R. Cada psicoterapeuta através do tripé formação. Estudos Psicanalíticos Revisados. IllON. Aprendiendo de la experiencia. lilüN . m as sim tivem os um a orig em m édica. R. 1982. que souberam “ousar” e “brigar” pelo que acreditavam . Tendo esses aspectos integrados dentro de si. CASTRO. no caso de crianças ou adolescentes. onde sobreviverão aqueles indivíduos e grupos que se form aram a p a rtir de um a b ase consistente. Porto Alegre. G. 2 2 ). W. exercendo a função “continente” (Bion). Reflexões acerca da prática da psicoterapia com criança: uma ponte entre passado. 1994. C ada vez m ais. a em patia e a capacidade e a plasticidade do ego em se colocar “ju n to com” o outro. dese­ nhando ou jogando. tendo com o modelo pioneiras da psicanálise infantil com o Anna Freud e Melanie Klein. fissionais “tiveram que dar um pulo. D uarte (2003. K. o cu p a n d o um espaço sin g u lar com o in stru m en to de ajuda p a ra o indivíduo da sociedade atual. 1980. presente e futuro. A. para depois se afastar. E m bora esses profissionais ten h am tido m u ita d isp o n ib ilid ad e. supervisão e tratam en­ to pessoal se instrum entaliza e se desenvolve para a realização de um a práti­ ca ou ciência/arte (Castro. . fu n d ad a p rin cip alm en te em princípios éticos. aquele que exerce a psicoterapia certam ente estará sedim entando um a técnica específica. 2004). REFERÊNCIAS ABKRASTURY. Rio de Janeiro: Imago. n a área d a Psicologia C línica. a intuição. Tal com o nossos pacientes.4 0 Maria da Graça Kern Castro. processar e devolver para o paciente aquilo que foi vivido na sessão terapêutica em doses hom eopáticas. pois n ão fom os. sem elhante ao processo de adoção” (D u arte. assim tam b ém a psicoterapia tem cam i­ n h ad o em direção ao “vir a ser” o que re alm en te “é”. Porto Alegre: Artmed. Esse aspecto a in d a se faz p re se n te a té hoje. p. maio de 2004. Buenos Aires: Paidós. além de atualização perm a­ nente do estudo e teoria. filhos de psicólogos. Porto Alegre: Artm ed. Ficção das origens: contribuições à história da teoria da psicanálise de crianças.. Revista do IEPP: Psicoterapia Psicanalítica. S. Porto Alegre: Artmed. KLEIN. 18. Obras psicológicas completas dc Sigmund Freud. A. A nsiedade associada à insegurança I n : _____ . 2003. D. A história da psicanálise através de seus pionei­ ros.Faculdade de Psicologia. p. MITCHELL.). A técnica da psicanálise infantil: a criança e o analista: da relação ao campo emocional. GROTJAHN. 5. EISENSTEIN. 2000. (Ed. S. 19-30. Rio de Janeiro: Imago. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. 11-25. 2. I n : ______ . um pouco da história. A história da psicanálise através de seus pioneiros: uma história da psicanálise vista através das vidas e das obras dos seus mais em inen­ tes m estres. EISENSTEIN. 1989. O processo de separação-individuação. p. In: CASTELLAR. M elanie Klein: Como ela via o inconsciente In: ALEXANDERE. URBAN. Donald Woods Winnicott: retrato y biografia. Psicanálise de adolescentes. 2003. p. Madrid: Biblioteca Nueva. v. Porto Ale­ gre: Artmed. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. C.. GREEMBERG. E. FERRO. Rio de Janeiro: Imago. Porto Ale­ gre. SELISTER. K. F. 1981.). p. El psicoanalisis dei nino . São Paulo: Mestre Jou. I. 2001. 1981. In: ALEXANDER. M. 2003.. Rio de Janeiro: Imago. J. 1976. Buenos Aires: Hormé. Child & adolescent psycotherapy. F. v.. FREITAS. . M. Além do princípio do prazer.).. ZIMERMAN. L. M. 1999. Rio de Janeiro: Imago. 599-599. Rio de Janeiro: Imago. FREUD. (Ed. 1991. psicoterapia e psicanáli­ se no RS. A. GROTJAHN. FREUD. M. Psicanálise na Inglaterra. Crise na adolescência: visão psicanalítica. FENDRICK. J. Teoria das relações objetais na teoria psicana­ lítica. KAHR. Dissertação (M estrado) . GLOVER. O Formador de psicoterapeutas psicanalíticos nas instituições de formação terapêutica em Porto Alegre. 1994. M. W. London: Routledge. In: LANYADO. A. D. LINDON. A. E. Fundamentos psicanalíticos: teoria. 1999. Pontifícia U niversidade Católica do Rio Grande do Sul. E ntrelaçam entos históricos entre psicologia. MAHLER. S. A. v. 1982. LIKIERMAN. HORNE. 2000. S.p. 406-418.. pensadores e clínicos. Contribuições à psicanálise. M. 1995. Porto Alegre: Artmed. B. Porto Alegre: A rtm ed. 163-167. p. Rio de janeiro: Rocco. 1981. WINNICOTT. The Roots of Child and adolescent psychotherapy in psycoanalysis.Crianças e adolescentes em psicoterapia 41 DUARTE. M.. (Ed. técnica e clínica. S. 1981. 9-15. ___ . Donald W innicott. a form ação da p erso n alid ad e. Busque u m a au torização pessoal. o q ue é esp erad o para cada e ta p a e a psicopatologia d a infância. C onhecer as teorias e os au to res nos possibilita d a r co n ta das diferentes d em an d a s que por certo su rg irão nos atendim entos. o com prom isso com atu alização co n tin u ad a e o paciente. pelo novo. M elanie Klein. S om ente a seg u ran ça fornecida po r eles é qu e nos perm ite tra n sita r com liberdade pelo d esconhe­ cido. e que suas inter vençftes não sejam pro d u to d e um discurso intelectualizado.o envolvim ento com esses pacientes e tudo o que isso im plica. a prática e a experiência dos psicólogos fo rm ados em cursos d e especialização não-ligados ao m eio u n iversitário. Faça um a fo rm ação específica que g aran ta um con h ecim en to profundo sobre o “m un d o in fan til”. sobre os m ean d ro s d o desenvolvi­ m ento em ocional e psicossexual.m as tam b ém os co n tem p o ­ râneos. e depois se esqueça deles. se os sinais que está ap resen tan d o são próprios do pe­ ríodo. Dito de o u tra form a. a intensidade e a frequência dos sintom as. Anie Stürmer & cols. através de seu tra ta m e n to . M argaret M ahler . Essa resolução destaca com o im prescindível p ara a realização d a psicoterapia que o psicólogo se subm eta a um a especialização em nível de pós-graduação. intern alize os conceitos d e ta l m odo que sua prática seja esp o n tân e a e n atu ral. Com a R esolução n° 1 4 /2 0 0 0 .F reud. o C onselho Federal d e Psicologia reg u lam en to u os cursos de form ação. Conheça a dinâm ica do processo adolescente para perceber o que está acontecendo. . em que m om ento do desenvolvim ento o jovem se encontra. A nna Freud. Leia m uito. m an ten d o um a coerência in tern a. o m aterial tra ­ zido pode estim ular ansiedades inconscientes e form ar pontos ce­ gos. esta rem condições significa que nossos traços de c a rá te r possibilita­ rão . para diferenciar o que é próprio dessa faixa etária e o que já se tornou psicopatológico. A prenda bem os conceitos. te n h a dom ínio das teo rias. • P í' • • • • prim itivo e pela n atureza m ais arcaica das fantasias. Leia os au to re s clássicos . que lhe indique q ue você está em condições de se tornar um psicotera p eu ta de crianças e adolescentes. que am p liaram as ideias pioneiras. D entre o u tro s indicadores. visto que a prática da psico terap ia é o pro d u to de in teração com plexa e n tre a form a­ ção. de cor e sal­ teado. esteja sem ­ pre se atu aliza n d o e utilize d e cada teo ria aquilo que ela tem de m elhor.e até facilitarão .4 4 Maria da Graça Kern Castro. Precisam os g o star g en u in a­ m en te deles. não só quando inserido em um curso formal ou quando as horas de supervisão contarem para o m ínim o exigido no currículo. A dquira a c a p acid ad e de reg ressão .Crianças e adolescentes em psicoterapia 45 * Lance m ão d a leitu ra de publicações atu ais. no en ta n to . nos envolverm os com as ativ id ad es propostas p ela criança. e n tra r no m u n d o d a crian ­ ça. Supervisione sem pre. Logo. com a condicão de d e p e n d ên cia d a C criança e com o desejo de in d ep en d ê n cia do a d o le sc e n te . podem os nos com unicar através d a lin g u ag em infantil. Efetue uma regressão a serviço de . pela qual se tem em p atia para se colocar no lu g ar do pacien te que vem b u scar ajuda. Outrossim . esp eran d o que a criança se com unique com o um adulto. pois tem os que b rin ca r de verdade. C om unique-se com eles d e m odo a ser acessível e co m p reen d id o . Seja esp o n tân eo ao brincar. Tenha curiosidade. sem elh a n te à de um a m ãe q u an d o recebe seu bebê e desenvolve um a preocupação m a terna prim ária . até p o rq u e um dia já fom os criança. Q u an d o nós conse­ guim os reg red ir (de form a sau d á v el). podem os te r um ad u lto te n ­ tan d o se co m u n icar com um a criança e. em situações que sim p lesm en te nunca nos en sin aram o q ue fazer. P roduza a cap acid ad e de reg red ir e d e v o ltar ao norm al várias v e­ zes d u ra n te um a m esm a bcssAo . Uma te ra p e u ta alerta: “sem essa condição. p o rq u e a diferença é fu n d a m e n tal. jo g a r sem u m a pressão ex tern a o u form al para isso. sem ficar cegado por conflitos ainda não-resolvidos. com o ag ir ou reagir. supervisione até o m om ento em que tiver segu­ rança de conseguir vislum brar o que h á para além de seu próprio inconsciente. sem . se in fan tilizar nem infantilizá-los. já a criança ain d a não chegou à fase a d u lta ”. m as com crianças e ad o lescentes costum am os ser pegos de surpresa com m u ita fre­ q u ência. E stabele­ cer um bom vínculo e um a firm e alian ça tera p êu tica com o pacien­ te d á a base p a ra que ele se sinta à vo n tad e p ara ex p ressar suas m ais pro fundas dores. será necessária um a p lasticid ad e de e g o . d e e s ta r e de tra b a lh a r com eles. D isponibilize-se em ocional. com o se n ta r no chão. pois as situações inusi­ tad as a que os pacien tes nos expõem n ão estão previstas nos livros. m uitas vezes. ten h a d isponibilidade afetiva e p razer com a atividade. in te rn a e tem p o ra lm en te p ara esta r de fa to com as crianças e os adolescentes. E studam os nos livros o que norm alm ente ocorre. resp eite-os e leve-os a sério . e n tra n d o em p atica m e n te em seu universo de faz-de-conta. m entai e em ocio n alm en te. p e rd e r o funciona­ m en to secu n d ário do p en sa m e n to . brincar. é preciso criati­ vidade para en co n trar form as diversas das tradicionais para p en e­ tra r pelas brechas que o jovem não tão facilm ente nos abre. b aru lh e n tas. \ P '’/V'y ^ ' ego p ara p o d e r se soltar física. a m anifestação de senti­ m entos hostis é m ais franca do que no adulto. É preciso lid ar com a situação d e b rin car e. violentas. sem um a co n ten ­ ção ad eq u ad a e um trabalho interpretaiivo. so m en te m ais tard e . serão traduzíveis em p alav ras”. O b rin car é fu n d am en tal p a ra que a criança co m unique e sim bolize seus conflitos. depois visuais e. co m p re enda o que^o jogo está q u e re n d o dizer e decodifique. O silêncio nas ses­ sões é fenôm eno com um na adolescência. traz en d o aspectos b a sta n te regressivos ao setting. e n te n d e r e tra b a lh a r com o p acien te. sem . Então. Anie Stürmer & cols. talvez m ais do que isso. • C o m p reen d a as m odalidades de com unicação não-verbais. Algum as form as de expressão de fantasias são. • A pure um o lh a r psicanalítico vo ltad o para a com unicação não-verbal. todavia. Preserve a capacidade de to lerar o ataq u e dos pacientes e sobreviva a eles. envolvem sujeira com tin ­ tas. As crianças são convida das no setting .v . Um a terap eu ta sugere um a m etáfora para isso: q ue perm itam os que os pacientes nos usem de sparring aquele saco de treinar boxe. porém . em ca d a gesto. D urante a infância e a adolescência. a tudo representar. . e não apenas os verbais que propiciem o acesso ao m undo in tern o do paciente. em todo m ovim ento. O m aterial trazido é m uito rico. p a ra le ­ las ao uso d a palavra. mas nem tudo t a / n ”. Vamos “inter' p re ta r b rin ca n d o ”. natu ralm en te.t “tudo desenhar. é preciso tolerância. Um a te ra p e u ta lem bra: “as fantasias m ais prim itivas não são de n a tu re z a verbal. e. que se d á através de to d a atividade lúdica. • Seia criativo p ara buscar recursos. nos m ínim os d e ­ talhes. aceitar um a co n d u ta atu ad o ra ou a descarga pelo ato. co n fo rm e a sua capacidade. m ostran d o o entendim cnto a ela. que nos possibilita com preen­ d er e in terp retar. que inclui m uita m ovi­ m entação corporal da dupla. T rabalhe com o sim bó­ lico e o im aginário. ao m esm o tem po. p or vezes. são inicialm ente corporais. para b rincar n a “lín g u a” d a criança. o que não significa. argila e água. com o bem define outra terapeuta. A in terp re taçã o se dá no p ró ­ prio b rin q u ed o . que encontra na re­ pressão um apaziguam ento. m as carreg ad o de prim itivism o e agressividade. sugere um a tera p eu ta. para d a r conta disso. falar.4 6 Maria da Graça Kern Castro. Além disso. Tenha tran q u ilid ad e p a ra tra ta r de assu n to s que p o dem ser considerados tab u s. m ais dis­ postos terem os de esta r a serm os usados e explorados. com crianças e adolescen tes. Por isso. a ponto de que o apego ou cu id ad o com esses objetos im peçam d e p erm itir a expressão do m un d o in tern o d a ­ qu ele que. Um a m esm a ação pode e sta r com unicando níveis m uito d iferen tes de fu n cio n am en to m ental. vivenciam os com m ais frequência do que quando . em cadeiras baixas. com o . e os ad olescentes se especializam em e n c o n trar * O nossos p o ntos fracos. sem dúvida. não p odem os ser obsessivos dem ais. se nos propom os a lhe oferecer um espaço de expressão. ho m o ssex u alid ad e. um a an g ú stia excessiva. assim com o o que é um a taq u e de b irra. pois as crianças são ’ jc v ^ m uito perspicazes. ou a te n d e r à sua d em an d a de m o vim entação dos m óveis da sala p ara realizar algum jogo ou d ram atização . o u tras.ainda tem o s q u e 'a c o m p a n h a la nesses m ovim entos. nossos pontos cegos. • Tenha o m esm o d e sp ren d im e n to p a ra situações com o te r de lim par u m a criança que urin o u ou o u tra q u e defecou. do en ças.Crianças e adolescentes em psicoterapia 4 7 • Tolere os m o m en to s de não -sab er q ue. a criançn poile te u tn r nos atacar. joga. Crie um d esp ren d im e n to para propiciar a ação da criança nas brincadeiras. drogas. \ Isso q u er d izer q u e talvez ele não possa te r tan to s enfeites. pula. a criança brinca. às vezes sim bolicam ente. ju n to com o am b ien te físico. às vezes. corre. se atira e. • Avalie sua disposição física. rNlecessitamos pintar. contudo. jo g a r bola e su ar m uito. m uito vidro ou p o rcelan a. elas p e­ dem que as levem os ao b anheiro. v * . \CV° aten d em o s adultos. • Seja to lera n te p ara su p o rta r que o consultório fique sujo ou b a­ g u n çad o d u ra n te a sessão psicoterápica. pois terem o s de botar a m ão na massa. co n c retam e n te . Seja v erd ad eiro e honesto. às vezes. elas fazem suas necessidades no m eio de nossa sala e tem os de lid ar com isso. Q u an to m ais regressivo o fu n cio n am en to psíquico da criança e do ad o lescen te. vai ex p lo rar to d as as possi­ b ilidades do am b ien te. um sintom a de in co n tin ência. Precisam os d iscrim in ar o que é um a ta q u e ao vínculo.s r sexo. m exer em argila e usar a m assa de m odelar. lançar u m a bola com V 0 . tem os que deixá la Inzer isso e . u m a agitação p sico m o to ra e u m a d esagregação psicótica. pois n ão podem os nos fu rtar de sentar no chão. n a m aio r p arte das vezes. nos a tira r objetos. m orte. À^ • P rep are seu co n su ltó rio para receb er a d em an d a dos pacientes. com anim ais d e estim ação. A tender vários ad o lescen tes silenciosos em horários seguidos ao alm oço p o d e exigir um esforço desnecessário. p a ra tu d o isso. virem com aparelhos de m úsica. Dê-se liberdade para. de flexibilidade e firm eza para nos ad ap tar e ajustar a nossa técnica. com o q u an d o u m a criança não q u e r e n tra r sozinha n a sala e. ev itan d o que eles caiam ”. se julgar necessário em determ inadas situações. do contrato. a gente puxa. P acientes m ais regressivos p re ­ cisarão ser contidos e. propõe a b rin cad eira do elástico com o um a figura de linguagem d escrever o m ovim ento dos jovens: “os ad o lescen tes vão esdo p ara ver se a rre b e n ta . Anie Stürmer & cols. com brinquedos de casa. ter atitudes m ais ativas. M an ten h a a m esm a lib erd ad e e flexibilidade p a ra m an ejar situ a ­ ções in u sitadas. ou trazerem am igos para a sala de espera. da condução do tratam en to . ter que fazer um a co n su lta com a m ãe ju n to . • • ^ • • força ou se jo g a r em nosso colo. Q uando estão quase rom pendo o setting. Este é o nosso trab a lh o na clínica: deixá-los ex p e rim en tar a á rea d a ilusão de que tu d o podem e até onde podem ir. sem ficar im obilizado pelas regras tradicio­ nais que m arcam o setting e o contrato terapêutico. Pense nisso e saiba sem pre p o rq u e está d ecid in d o p o r um a defi­ nição e não p o r outra. sem por isso esquecer as regras técnicas que nos balizam . A tender so m en te crianças em um tu rn o inteiro pode ser m uito desg astan te. e n tre o u tras m anifestações no co m p o rtam en to . perd erem o s o valor co m u n i­ cativo q ue elas trazem . C rianças e a d o ­ lescentes são pacientes im previsíveis. D istribua seus pacientes em horários que lhe sejam ab so lu tam en te confortáveis. caindo no precipício. ao m esm o tem po. Assim fazem com os pais: esticam ate ch eg ar quase a arrebentar. Se as to m arm o s sim ples­ m ente com o atu ação ou resistência. de acordo com o que nos é apresentado pela criança e pelo adolescente. d iferen te do que esperávam os. n ecessitam o s de força físi­ ca e saú d e. Seja m ais com preensivo e m aleável ao avaliar situações da re a ­ lidade de cada fam ília. ganhar um pouco mais de jogo de cintura”.4 8 Maria da Graça Kern Castro. preciso lubrificar a cintura. Uma p sico terap eu ta de adolescentes. no entanto. . sem. en trev istad a para este capítulo. Necessitam os. com prom eter o tratam ento. Lidam os com inúm eras su rp resas no setting. com o com binações de horários e férias. quando vejo um a criança. em cada aspecto do setting. É com o expressa um terapeu­ ta: “sinto que. Por isso. pois.com o p eq u en o s adultos . e n tão . Os pais são co p articip an tes desse tra ta m e n to . a p roxim idade nos põe à prova: enfren tantos as resistências. com os irm ãos e os m eio-irm ãos. T rabalham os com um cam po estendido. o que exige m uito de nossa m ente. • Preveja a p articip ação m ais d ireta (e concreta) de terceiros no set­ ting. os pacientes não nos falarão d ire ­ ta m e n te de seus problem as. angústias. m uitas vezes. • C onserve a cap acid ad e de ser em pático e paciente com a fam ília q ue está envolvida. id en tifican d o as dinâm icas relacio n ais que e stã o oco rren d o e co m p reen d en d o seu papel nessa dinâm ica. conform e define um a p sico terap eu ta infantil. Logo. nos envolverem os sem p re com os pais e. m aridos ou filhos reais. fazendo um uso inconsciente d essa criança com o um sintom a. Assim. conflitos. m esm o que não possam os . dos fam iliares e da criança gera um peso adicional.ficar em frente à TV. não tem os c o n tato com os pais. para p o d er c o m p re en d er o sim bolism o que. m as é fu n d a m e n tal que estejam os in ter­ n am en te d ispostos para tudo o que essa presença tácita nos im põe. m as estarão falando d e si e de seus objetos in tern o s q u an d o . Ali. babás. esse co n tato se im põe com o fu n d am en tal. avós. dúvidas e m e­ dos . O lham os a criança e o ad o lescen te inseridos em seu contexto fa­ miliar. um olhar m ais am plo. film es e novelas. No tra ta m e n to d e adultos. m uitas vezes. se a tra p alh am . terem o s um o lh ar m ais individual e. em geral. • Lem bre que existe um a história in teira a ser co n tad a p o r eles e co m p reen d id a p o r nós. faz com que eles ocupem o cenário d as sessões. Lidar com as transferências e resistências dos pais. m ad ra sta s e p ad ras­ tos. precisam os firm ar tam bém com eles um a forte aliança tera p êu tica. no co n tato com a fam ília. p reo cu p ad a e.ou não qu eiram o s . • C onceba um a psicoterapia de crianças e ad o lescen tes som ente com a p articipação dos pais. ao m esm o tem po.. as m anipulações dos pais que se . D evem os sab e r que eles tam bém sofrem . A m ed id a dessa particip ação será ava­ liada e co n d u zid a por nós.Crianças e adolescentes em psicoterapia 4 9 • Tenha em m en te que. a p a re n te m e n te . devem os ter con h ecim en to dos p erso n ag en s. Com efeito. falarem d e o u tras pes­ soas quaisquer. os boicotes. já na psi­ coterap ia com crianças e adolescentes. esteja a tu aliza d o nos p ro g ram as jovens e infantis. m uitas vezes. heróis e vilões dos d esen h o s. çolocam -se em cena tran sferên cias e c o n tra tra nsferências cru ­ zadas que d e m a n d a rã o nosso o lh ar ta n to a te n to q u a n to sensível. q u an d o necessário. neuróticos. proposto p or Esther Bick. equivocados. esp ecialm en te q u an d o ela tem com o corolário a desvalorização dos pais e evite prom over ou co rresp o n d er à dissociação en tre os pais e o te ra p e u ta . com o define u m a tera p eu ta.q u an d o os pais n ão querem .é d e suporte. m as tam bém pais abusadores.conseguim os não interferir. d esafia­ dos. e tem os d e lidar com isso. verem os um q u ad ro d e psicose ou de perversão se estru tu ra n d o . fracassados. sem p o d er fazer n ad a . em que curso m atricular. N ecessitam os de m u ita tolerância à frus­ tração. Identifique o tipo e a severidade da psicopatologia dos pais. Assim. aprendem os a aceitar e a to lera r que a fam ília en c o n tre suas próprias soluções. N ão se posicione a favor ou co n tra a criança ou os pais. evitam os atitu d e s m oralistas e supergoicas com os pais. Aceite que . A av a­ liação é um m om ento para conversar com os pais e com a criança. de d e n ú n ­ cia? . de o rien tação . Passe pela vivência do m étodo de observação da relação m ãe-bebê.n ão vam os co nseguir tra ta r e a ju d a r a todos aqueles que nos buscam . e não pode p arecer um in q u érito ou o p reen ch im en to de um a ficha de an am n ese. para. Isso é ex tre m a­ m ente difícil. Anie Stürmer & cols. mas tam bém m ães nar- . Não e n tre em com pe­ tição com eles. não conseguem ou não p erm item . superp ro teto r ou professoral. d esv alorizados. de p arceria. Am iúde. que propicia a experiência de um lugar in term ediário e n tre a p resença e a distância. Na m ed id a em que na observação . de proteção. Temos pais confusos. su a resistência em b uscar um tra ta ­ m ento p ara si próprios. p o d er orientá-los e trabalhar. e n tão .atrav és do pedido de tra ta m e n to . P erm aneça em um a posição d e escuta ab e rta e receptiva. • • • • • sentem narcisicam ente feridos. R enuncie à idealização. m es­ mo q u an d o tem os um p acien te que visivelm ente está sofrendo e q u er aju d a. e p o d e re ­ mos to le ra r que eles escolham em que escola colocar seu filho. perversos. Fique a te n to para a m an u ten ção da n eu tra lid a d e. de co n frontação. poder m o d e­ lar o tipo de co n tato que se tem com os pais.5 0 Maria da Graça Kern Castro. m as é real. psiewpatas. Deixe em suspenso o afã pedagógico. Identifique as “e n co m en d as” . pois lidarem os com inúm eras interferências dos pais. pois a criança e o ad o lescen te podem te n ta r in citar esse lado em nós. em que m édico levar. Resista ao im pulso de ser m atern al. com plicadas. m ães descuidadas. T rabalhe com os pais a resp o n sab ilid ad e pela co n d u ção que eles decidem d a r para a vida de seu filho e as consequências de atos com o um a in terru p ç ão . U m a crian ça subm issa q u e com eça a se m o stra r e se posicionar. os pais erram . cru eld ad e e opressão. sem se deixai cap tu rai poi d em an d as equivocadas. se sentem cul­ p ados e buscam m udar.que são inerentes à clínica . Porém. O Có­ digo de Ética dos Psicólogos traz. É d iferen te trata rm o s um ad u lto que vem por v o n tad e e iniciativa próprias.ju s ta m e n te q u a n d o e stá m e lh o ra n ­ d o . até o lim ite que eles p erm itirem . Às vezes. S u p o rte situ açõ e s em que . da igu ald ad e e da in teg rid ad e do ser h u ­ m ano. N ecessitam os m u ita to lerância p a ra lid ar com as resistências da fam ília em relação à m elhora do filho. que se loco­ m ove sozinho e que nos paga ele m esm o p o r seu trata m e n to . D ialogue m uito com esses fenôm enos . exploração. elabore a sen sação de estar de m ãos atadas em situações com o não p o d er fazer u m a ú ltim a sessão p a ra se despedir. q u an to em relação aos pais. N ossa co n d ição de in te rv ir ju n to aos pais é lim itad a pelo lu g ar q u e ocu p am .e saiba usá-los tan to em relação à criança. não são nossos p ac ie n tes e d e m a n d a m um tipo específico d e in terv en ção . m altratan te s. ou p o rq u e ach am q u e e x a ta ­ m en te aq u ilo q u e avaliam os com o um a m elh o ra ou evolução é um a piora. Esteja p re p ara d o p ara d en u n c ia r casos de abuso e m altrato . reconhecem .Crianças e adolescentes em psicoterapia 51 • • • • cisistas. porque aquilo é o m áxim o que conseguem . eles erram po rq u e sim ples­ m en te não se im portam . Reflita sobre os processos de identificação e co ntraidentificação. d ese sta b iliza m u m a din âm ica c o n fo rta v e lm e n te in sta la d a n a q u e ­ la fam ília. que b asearem o s nosso trab a lh o no respeito e na prom oção da liberdade. não há culpa.ide com p ressões das fam ílias e da escola para um a m elhora rápida dos sin to m as que tro u x eram o paciente para tera p ia. O utras vezes. discrim inação. I. violência.o p ac ie n te ser re tira d o d a p sico tera p ia pelos pais que não p o d em ou n ão q u erem m ais pagar. não existe um o lh a r voltado para o filho. ao m esm o tem p o . negligentes. . não há preo cu p ação . ou um ad o lesc en te bonzinho q u e com eça a se rebelar. m as. já q u e eles p artic ip a m do tra ta m e n to . co n trib u in d o para elim in ar q u aisq u er form as de negligên­ cia. pois esses p acien ­ tes não podem vir ao consultório sozinhos. em seus Princípios F u n d am en ­ tais. da d ig n id ad e. com os aspectos transferenciais e co n tratran sferen ciais. falar com os professores. Muitos determ inantes orgânicos ou fisiológicos podem estar envol­ vidos em um sintom a como enurese. Hoje. m esm o com crianças m uito peq u en as. precisam os de tem po para en tra r em contato com a escola. Essa prática nos reserva grandes su rp resas. o neurologista. encoprese. tem os a possibilidade de vivcnciar algum as situações ím pares e revivenciar outras situações que d o r­ m itavam bem acom odadas no interior de nosso inconsciente.r>2 Marici da Graça Kern Castro. Na intensidade do contato que se estabelece entre terapeuta e as crianças e os adolescentes que vêm a tratam ento. • Leve em conta que trata r de crianças e adolescentes exige mais do que o horário de consultório. a nutricionista. “Tem os a possibi­ lidade de ver o d esa b ro ch a r de m uitas po ten cialid ad es q u a n d o dim inuem os sin tom as e q u an d o . m as tam bém podem ser um veneno se todos esses cuidados não forem tom ados. mas tantas outras sobrevivem m al-elaboradas. vejo que o trabalho com crianças e ad o lescentes é m uito m ais com plexo e difícil”. com a fonoaudióloga. Anie Stürmer & cols. Muitas vivên( ias jazem bem acom odadas. talvez. atrav és do jogo e do b rin ca r . Seu inconsciente seria m ais perm eável. • Suponha o psiquismo do paciente sem pre integrado com seu corpo. Não podem os habitar um a ilha quando se trata de aten d e r a um indivíduo que ainda tem m últiplos objetos de dependência. . informe-se sobre medicações psiquiátricas. Além desses contatos. CONSIDERAÇÕES FINAIS O percurso que traçam os para nossa carreira profissional nos reserva algum as surpresas. Por isso. coloque-se à disposição para recebê-los no consultório ou para devolver de m aneira ap ro priada um en ten d im en to que os instrum entalize a li­ d ar de form a m ais adequada com aquele que é objeto de nossa a te n ­ ção. Devemos reconhecer nossos limites. bem indicadas e bem acom panhadas. que po­ dem ser de grande ajuda quando bem avaliadas. assum indo seus desejos e se res­ p o n sabilizando p o r suas escolhas e a to s”. vejo que n aq u e la época m e sen tia m ais à v o n tad e com crianças do qu e com adu lto s. Um a te ra p e u ta recorda: “voltando ao início de m inha carreira. som ente com ela seja possível. Além disso. que tam bém os tratam . eles re to ­ m am a v erten te saudável de suas vidas. gagueira ou obesi­ dade. inevitáveis descobertas e u m a riqueza que. pois sentia que p o d eria ser m ais esp o n tâ n e a e livre com elas.o que ain d a acho que é v erd ad eiro . o pediatra ou o psiquiatra. Crianças e adolescentes em psicoterapia 5 3 insuficientem ente trabalhadas, longe dos olhos analíticos. O trabalho com esses jovens pacientes, todavia, faz levantar nossas repressões, da m esm a lorma que eles nos tiram da côm oda poltrona de terapeutas, onde, com adultos, repousam os nosso saber e nosso fazer m ediado pela fala. As crianças e os ad o lescen tes d em an d a m outros níveis de com uni­ cação, nos convidam a graus diversos de funcio n am en to e nos incitam a um m odo de fazer m uito particular. D esacom odados, seguim os por dois cam inhos: ou ab an d o n am o s a clínica dessa faixa etária ou aceitam os seu cham am en to e nos lançam os nessa av e n tu ra que é p assar - ju n to deles por to d o s os cam inhos em curva de um a prática tão rica, tão viva. Nas palavras de um a te ra p e u ta , trab a lh ar nessa clínica é “e sta r conectado com a criança e com o ad o lescen te que um dia fomos, revivendo a m agia de desco b rir o m u n d o e a si m esm o ju n to com nosso p ac ie n te”. A través deles, m an tem o s a flexibilidade para estarm o s ab erto s ao novo, ao im previsto, ao inusitado e às su rp resas que cada sessão pode trazer, co n serv an d o a cap acid ad e de nos su rp re en d erm o s com tudo isso, já que lidam os com pessoas em pleno potencial de desenvolvim ento. As orien taçõ es aqui ap resen tad a s são um re trato das percepções de quase 50 tera p eu tas que, a p a rtir de relato s individuais sobre sua prática, integraram um só texto, o que, de certa form a, espelha tam b ém com o se dá a form ação de um p sico terap eu ta de crianças e adolescentes: passa­ mos p o r in úm eras experiências, ap ren d em o s, lem os, escutam os, escre­ vemos. Um dia, to d a essa equipagem com eça a ad q u irir um a form a in­ tegrada e a fazer to d o sen tid o d en tro de nós. T ornam o-nos psicoterapeutas de crianças e ad o lescen tes aos poucos e, talvez, n u n ca term inem os a nossa form ação - qu e é in tern a , acim a d e tu d o - , de m odo que possivel­ m ente sejam os p ara sem p re um vir-a-ser. Encerro esse p ercu rso com o te ste m u n h o de um a te ra p e u ta , que dá voz às im pressões de m uitos daqueles que a essa atividade se entregam : “acred ito que a ex p eriência de p sico tera p eu ta nos equipa com excelência para trab alh arm o s m elh o r com adultos tam bém . A o p o rtu n id a d e ím par de aco m p an h arm o s um p acien te em tera p ia - em um m o m en to privile­ giado de form ação e e stru tu ra ç ã o da p erso n alid a d e - é um diferencial. Ao m esm o tem po, às vezes, é ex tre m am en te cansativo, pois precisam os estar ate n to s às m ais diversas form as de linguagem , com preendê-las, tra d u ­ zi-las e torná-las inteligíveis aos pequenos. M uitas vezes m e p erg u n to : até q u an d o vou a te n d e r crianças? Parece que, q u an to m ais m e questiono, mais a u m en ta o n ú m ero d e en cam in h am en to s de crianças e m ais eu vejo os pacien tes m elh o ran d o , ten d o alta. Acho que é um a paixão". A clínica com crianças e adolescentes: o processo psicoterápico A n ie S tü rm e r M aria da Graça Kern Castro E screver sobre os conceitos que são ce n trais no processo e na relação terap êu tica na p sico terap ia com crianças e ad olescentes não é tarefa fácil. P eculiaridades envolvem essas faixas etárias e diferenciam os tra ta m e n ­ tos dos de adultos. Três fatores são específicos de tra ta m e n to s com cria n ­ ças e adolescentes. Em prim eiro lugar, esses pacientes, p o r serem legal­ m ente m enores e d ep e n d e n te s de suas fam ílias1, sofrem , d e form a mais aguda, a particip ação e a interferência de terceiros, pais ou responsáveis, no vínculo psicoterápico. O cam po psicoterápico bipessoal se to rn a m ais com plexo pela ressonância das transferências p atern as e m a te rn a s que se en trecruzam . Isso exige m aior flexibilidade do p sico tera p eu ta e m uita .itenção às questões de n eu tra lid a d e e de sigilo. A inclusão dos pais ou responsáveis em um a psicoterapia busca o ferecer o su p o rte necessário à m anutenção do tra ta m e n to , assim com o co m p re en d er an sied a d es e m o­ dos de fu n cio n am ento d e cada família. Um segundo fator diferencial se p rende à solicitação do tratam en to . No caso de crianças, geralm ente, a busca do aten d im en to é realizada pelos ulultos responsáveis. M uitas vezes, vêm m obilizados por indicações ou ingestão d a escola ou de m édicos. R aram ente as crianças pedem ajuda direta, em bora en contrem form as de m obilizar ansiedades e a atenção, im ­ pulsionando a família a buscar auxílio psicoterápico. A tualm ente, cons­ tatam os que inúm eras crianças solicitam explicitam ente aos pais a busca de psicoterapia. Pensam os que essa nova postura deve-se ao fato de que esse tipo de trata m e n to passou a ser mais difundido nos meios de com unicação poi m eio de filmes e novelas Além disso, "estar em psicoterapia" é algo 7 8 Maria cia Graça Kern Castro, Anie Stürmer & cols. m uito valorizado p or alguns pacientes que com entam sobre essa experiên­ cia com o algo positivo com seus am igos e colegas. Assim sendo, fazer psicoterapia é algo m uito mais próxim o à realidade das crianças, a tu a l­ m en te do que há décadas. Os adolescentes em sofrim ento psíquico costum am buscar o próprio tratam en to , por um a iniciativa pessoal. A p artir da décad a de 1990, os jovens têm vindo esp o n tan eam en te para psicoterapia, em contraste com décadas anteriores em que eram , na m aioria dos casos, encam inhados por pais, escola ou am igos (Castro, 2 0 0 0 ). Os adolescentes em tratam en to psicoterápico referiram ter procurado psicoterapia por m otivação pessoal, m as tam bém ap o n taram im portantes fatores, com o incentivo e apoio de nam orado, am igos e da família para a busca. Os m otivos da procura de psicoterapia foram variados e personalizados para cada entrevistado, mas 53% dos entrevistados referiram tem as ligados à depressão, à tristeza e /o u a perdas reais. A fala dos adolescentes m ostrou que o fator desencadeante d a busca de trata m e n to foram processos de perda e luto atuais, que podem ter reavivado perdas anteriores (Pinto et al., 2 0 0 1 ). Há ain d a um terceiro fator a ser co n sid erad o que está relacionado às form as com unicativas do m aterial das sessões2. A criança e o adolescente ain d a não usam a palavra no m esm o nível que o adulto, u tilizando o u tras form as com unicativas, além da expressão verbal. C rianças, p re d o m in a n ­ tem en te, usam o b rin car com o form a d e m anifestar seus estad o s m entais. Por vezes, a co m p reen são do m aterial lúdico se to rn a m uito difícil, tan to pelo co n teú d o - re m e ten d o a níveis m ais profundos das fantasias incons­ cientes - q u an to pelos m odos de expressão no setting. O jo g o e o brincar, d en u n c ia n d o algo d esconhecido que é d a ordem do inconsciente, podem ser considerados n arrativ as (com ou sem palavras) que, aos poucos, vão o rg an izan d o a ex p eriência infantil. Os adolescentes, por se encontrarem às voltas com transform ações no corpo e m aior pressão pulsional, estão envolvidos com redefinição da im a­ gem corporal, as ressignifícações identificatórias e oscilações en tre atividades m asturbatórias e início da vida sexual genital. Por essas peculiaridades pró­ prias da etapa, costum am , além da palavra, usar formas com unicativas pré e paraverbais nas sessões, que podem incluir expressões lúdicas, gestos, m ovim entação e tam bém com unicação pelo vestuário, por tatuagens e o u tras expressões corporais. Uma form a primitiva de com unicar aspectos nao representados pode ser as tão com uns atuações. Assim, ao trabalhar com crianças e adolescentes, o psicoterapeuta tem que estar m uito atento ao im previsto, ao “fator surpresa” (Caron, 1996), que surge nas sessões. no p re sen te capí­ tulo ab o rd arem o s os conceitos-chave que são centrais no processo te ra ­ pêutico com crianças e adolescentes. 1987). aos poucos. com o p assar do tem po. possibilitando que reconheça suas reações. an tes e depois d a form ação. cada p sico tera p eu ta vai.Crianças e adolescentes em psicoterapia 79 Com o p sico terap eu tas de crianças e d e adolescentes. co n stru in d o um estilo próprio de tra b a lh a r que. No tran scu rso de seu ofício. m as foi Kurt Lewin (1965) q uem ap ro fu n d o u um a teo ria do cam po to tal. O campo psicoterápico O riu n d o da Física. bem com o a supervisão e um a base teórico-clínica de q u alid ad e. Um m elhor co n h ecim en to de com o seu m undo interno funciona co n trib u irá para as percepções e o en te n d im e n to dos relacionam entos e do m u n d o interno de seus pacientes (Lanyado e llo rn e. lazendo p a rte do cam po psicoterápico. o tera p eu ta en tra em co n tato com o seu jeito de ser. que d u ra rá anos. 2 0 0 0 ). su rp re en d id o s p o r situações inusitadas que nos exigem soluções ad e q u ad as p a ra cada m om ento q u e se ap resen ta. que nos to rn ará in stru m en talizad o s com esse tipo d e paciente. p erso n alizad a e única. co n stru ir um a traje tó ria profissional que im plica o já conhecido tripé d a form ação: um tra ta m e n to pessoal. é necessário. A través do tra ta m e n to pessoal. além do gosto p o r tra b a lh a r com essas faixas etárias. som os. preservando as necessárias carac­ terísticas da relação terapêutica. fre­ q u en tem e n te . As regras técnicas são sem pre as m esm as que regem o processo. na qual propôs que o co m p o rta m e n to hum ano t d eriv ad o da to talid a d e d e fatos coexistentes. Para to m ar a m elhor atitu d e. ser sen sato . e que esses têm o ca rá te r d«’ um cam p o dinâm ico. no qual cada p arte d e p e n d e de um a inter-relação . fenôm enos que ocorrem en trelaçad o s. o conceito de “ca m p o ” foi trazid o p a ra a psico­ logia. m esm o ten d o consciência de que alg u m as delas sao inefáveis e e x tre m am en te difíceis de serem colocadas em palavras. co n tra tran slerência e aspectos resistenciais. d e funcionar. valendo-se d a técnica de que dispom os. C o n sid eran d o as com plexidades expostas acim a. com um contrato e uma clara aplicação destas regras que o norteiam (Etchegoyen. que protegem o setting. se to rn a um a m aneira de ser. a saber: relação tera p êu tica e o d e­ senvolvim ento do vínculo. mas o terapeuta desenvolverá um estilo próprio. pela teoria da Gcstalt. os fenôm enos de transferência. As ilustrações e os casos clínicos u sad o s neste texto m ostram com o trabalham os e esp eram os p assar aos leitores algum as das ricas ex p eriên ­ cias vividas nos settings. o setting age com o um a m o ld u ra desse cam po. Anie Stürmer & cols. que poderá exer­ cer um a presença contínua no cam po psicoterápico. o filho. e que o entendim ento dos fatos psíquicos está relacionado ao seu sentido no contexto das relações intersubjetivas (Ferro. m as com o um a e stru tu ra . 1995). a situ ação tera p êu tica pode ser vista com o um conjunto d a constituição do cam po em ocional de am bos. N esse fun cio n am en to em ocional. tan to do p acien te q u an to do tera p eu ta. Abro a porta c quem me espera é Márcia. com as dem ais p artes que configuram o todo. Os problem as e vantagens da com preensão da situação terapêutica devem ser colocados a partir da concepção de um cam po transferencial-contratransferencial. A to talid a d e dos fenôm enos é m ais com plexa e am pla do que a som a das partes. Ao m esm o tem po. ju n to com o paciente (criança ou adolescente) e o psicoterapeuta. no qual o par tera p êu tico n ão pode ser visto com o d u as pessoas isoladas. tendo que ser levadas em conta as fantasias in­ conscientes dos pais. 2 0 0 2 ). sita mãe. por sua vez. tam b ém d á novos sentidos a situações edípicas e narcisistas não resolvidas da história individual de cada um dos seus pais e do p ar conjugal. o psico­ terap eu ta ressignificará sua própria criança e adolescência e seus pais em sua história pessoal.8 0 Maria da Graça Kern Castro. p ro d u to dos in teg ran tes da relação. Estas configuram . in term ed iad a pelo interjogo d as identificações projetivas e introjetivas do par. fico atônita. no seu tratam ento. que estão envolvidos num processo dinâm ico e criativo. No transcurso do processo terapêutico. com as fan tasias inconscientes básicas da d u p la. Deveria eu atende la? O correto mio . o cam po psicodinâm icQ-se to m a mais_comple:xo pela presença do p sicoterapeuta. Q uando se tra ta de psicoterapias de crianças e adolescentes. E o horário da sessão de Suzana. na relação vincular do p ar te ra ­ pêutico. Assim sendo. do paciente e dos seus pais. que contém o en co n tro de d u as subjetividades. O cam po psicanalítico se refere a situações em que os fatos psíquicos são com preendidos atrav és de seus significados no co n tex ­ to de relações in tersubjetivas. vão reincidir na psicoterapia do filho (Kancyper. um a estru tu ra singular. o conceito de “c am p o ” foi tra b a lh a d o pelo casal Bara n g er (1 9 68). prom ovendo efeitos no paciente e no terap eu ta. exercendo contínuas reestruturações que. O caso que segue nos m ostra essa situação: Suzana e sua fa m ília 18 horas. cujo fu n cio n am en to resulta d a in teração e dos aspectos incons­ cientes. Ela adentra a sala dizendo: ‘‘lloje eu é que vim " Por instantes. Na Psicanálise. m uitas vezes. que está insegura com o afastam ento da filha. re­ clama que não quer vir. no qual as m esm as peças ag ru p ad as de um a form a original criam um cenário em que vão se criando novas com preensões. e o casal. m as. No processo p sicoterápico. a te ra p e u ta significa esse “te rc e iro ”.c r-W A t-* . m as será suficiente? Aí en tram as nuances do tra ta m e n to de crianças e ad olescentes. ao m esm o tem ­ po. precisam os co m p reen d er e explicitar as ansiedades e o funcio­ nam en to do grupo fam iliar ou crenças que. O pai tem estado distante e não vinculado ao tratam ento. então. C ada um tem u m a história que se in tercàm b ia com a de S uzana. nos demos conta: “Onde está o p a i? ”. esse não se colocou como um terceiro para estabelecer a separação entre mãe e filha. que irá se colocar “e n tre ” a p ac ie n te e sua m ãe. A seguir. que acabam afetan d o o cam po. Na relação das duas fa lto u a entrada de Paulo. Entendo. . pode e deve ser ch am ad o para p a r­ ticipar m ais ativ am en te d a p sicoterapia d e sua filha.f q r>rrO^> C^CX- \ -— Crianças e adolescentes em psicoterapia 81 'V-vO I l A O ^ seria preservar o settin g e o horário de S u za n a . o te ra p e u ta a ten to a essas com plexidades vai discrim i­ nan d o aspectos dos pais e da filha. já que as duas m antêm um a relação sim biótica e m arcar outro horário para Márcia? Todos esses pensam entos circulam em m inha m ente enquanto M árcia se ins­ tala na poltrona. Dessa m an eira. e isso a tem deixado m uito insegura a meu respeito e em relação ao tratam ento. têm fantasias sobre o tra ta m e n to de sua filha. serão ab ordados alguns fenôm enos. que preciso enxergar a Márcia “criança” . que constituem e ocorrem no cam po psicoterápico. A psicoterapia com crianças (e em alguns casos com adolescentes) não pode ser confundida com um a psicoterapia familiar. cad a um dos pais. são transgeracionais e se atravessam na psicoterapia individual com a criança ou jovem (C astro e Cimenti. trabalham os seus anseios e dúvidas e. sem p re que houver n ecessidade p ara o tra ta m e n to evoluir. partes do quebra-cabeça. D iferen tem en te do trata m e n to de adu lto s. em inúm eras ocasiões. S uzana. o pai. cuja responsabilidade deixou para a esposa. O que se passa no cam po psicoterápico se asse­ m elha a um quebra-cabeça de m últiplos encaixes. pue aos poucos se separa dela à m edida que o tratam ento progride e observo uma necessidadc de reforçar a aliança terapêutica. Márcia está desconfiada. Paulo. Neste m om ento. pois a filh a tem apresentado resistências em comparecer às sessões. 2 0 0 0). sem com isso co n fig u rar um tra ­ tam en to psicoterápico dos pais. o pai. O utro aspecto é que se d á num espaço específico. Alguns aspectos diferenciam a relação tera p êu tica das dem ais n a vida do paciente. O en q u ad re supõe en tão um co n tra to no qual são explicitadas as com binações e a form alização do vínculo terap êu tico . depois d e configurado. ela vai sen d o co n stru íd a no vínculo. a disp o n ib ilid ade de sua m enfe co n tin en te para e n tra r em co n tato com o u tra m ente e sua receptividade em ocional. além desse e n q u a d re form al. Nas psico terap ias envolvendo m enores. além desse co n trato com o paciente. ressonância em p ática e sintonia e n tre as partes. n o rte a d a pelos princípios teórico-clínicos que fu n d a m e n ­ tam a p rática. O p aciente irá sem pre no m esm o consultório. Com a criança ou com o ad o lescen te com bina-se sobre a frequência e d u ra ção das sessões. Im plica tam b ém um a aliança de trabalho. já que supõe as n orm as e os papéis do paciente e os do tera p eu ta. C onfigura-se n u m a relação q u e é singular e intransferível. assim com o pela con tin ên cia em ocional do te ra p e u ta e por sua h ab ilid ad e de m a n te r um espaço p ara sim bolizações e o p en sar a respeito do que está sendo com unicado pelo paciente. g eralm en te os pais. b u scar e cum prir horários das sessões e eslarem disponíveis sem pre que necessário. férias e tam b ém sobre as questões de p a g a ­ m en to dos h o n o rários pelos seus responsáveis legais. b asead a num co n trato com algum as norm as a serem seguidas. que serão os instru . criando-se assim um a atm o sfera de expectativa q u an to ao que o esp era em um a sessão. O en q u a d re. é necessário o co n trato com os responsáveis. é o “setting in tern o ” do p sico terap eu ta. ou seja. n ão é um a re la ­ ção n atu ra l e esp o n tân e a. A relação tera p êu tica é um vínculo ge­ nu ín o e com características próprias e discrim inadas dos relacionam entos com uns d a vida do paciente. A relação terapêutica A co n stan te relação envolvendo te ra p e u ta e p acien te está no cerne de to d a psico terap ia psicanalítica. 2 0 0 0 ). além de se responsabilizarem fin an ceiram en te pelos honorários. em m an ter as condições ex tern as de levar. Esses têm qu e se responsabilizar pela cooperação. é um dos pilares q ue auxilia a to rn a r a relação “te ra p ê u tic a ”. m esm o h o rário . no “aqui e ag o ra” d e cad a sessão. Em prim eiro lugar.8 2 Maria da Graça Kern Castro. Anie Stürmer & cols. nos m esm os dias. fora do consultório. faltas. o n d e ocorrem os en co n tro s: o setting. O p ro d u to é um p a rtic u la r en co n tro de m en tes e em oções do p a r te ra p e u ta e p acien te (Ferro. Im portante. E nfatiza-se a q u es­ tão do sigilo e con fidencialidade dos dad o s das sessões. O setting re p resen ta um m arco ex tern o p a ra o d ese n ro lar do processo que é e siru tu ra n te d a psicoterapia. tam bém poderão agir. m esm o que de form a não-verbal. Lem brem os que A berastury (1982) nos ensinou que as crianças trazem seus conflitos e sintom as nas prim eiras • ssoes. Raul defendendo sua psicoterapia Raul. em 1923. descobriu que a interpretação da transferência negativa. A aliança terapêutica evolui com o tem po e está bascada na ligação positiva com o psicoterapeuta e na percepção do paciente de que necessita de ajuda. passava por período de intensas resistências. ao trata r Rita. às quais não . a sua vida pessoal e em ocional não é dividida com o paciente. fenôm enos que nom eou d efa n ta i< is de doença e cura. há dois anos em tratam ento. assim com o aprim orarm os . Um terceiro asp ecto. quando dizia para sua fam ília que era m uito chato o tratam ento e am eaçava não ir. <'.rianças e adolescentes tendem a captar os aspectos da personalidade do terapeuta e. dissipou ansiedades. No entanto. um a “n eutralidade” total. é impossível m anter a ficção. que é base da transferência positiva. sem pre evidenciarem os aspectos de nossa per­ sonalidade que estarão sendo m ostrados nas m aneiras de trabalhar com o paciente. sen d o a priva­ cidade do te ra p e u ta re sg u a rd a d a (Lanyado e H orne. Elas se m anifestavam em sua casa. ou seja. à supemção de resistências e ao enfrentam ento de m om entos difíceis durante o processo psicoterápico. 9 anos. criando a aliança com a m enina. na hora de sair pura as sessões. por o u tro lado. No entanto. sabe-se que.Crianças e adolescentes em psicoterapia 8 3 m entos indispensáveis p a ra a criação e m an u ten ç ão do processo te ra ­ pêutico. com papéis e funções dife­ renciadas p ara p acien te e p sico terap eu ta. que discrim ina esse vínculo em relação aos dem ais é qu e não existe a reciprocidade que en co n tram o s em o u tras for­ mas de relacio n am ento. Ela é assim étrica.i escuta e a observação psicanalítica. Im portante é estarm os atentos ao jogo de identificações projetivas e introjetivas que m oldam os lenômenos transferenciais/contratransferenciais. 2 000). a partir disso. 1989). mas não são idênticos. m as. Aspectos da n insferência e aliança terapêutica se m esclam . aliados ao desenvolvim ento das habili­ dades técnicas do “fazer” psicoterápico e do pensam ento clínico. Este estará disponível p ara o u ­ vir e in tera g ir com a crian ça ou ad o lescen te. à aceitação da ajuda. Mas esta nem sem pre poderá estar presente no início de um tratam ento (Sandler. m as Klein. já no prim eiro eniuntro. Já a aliança vai derivar de um a razoável relação objetai. A aliança pode ser definida pelos aspectos conscientes e inconscientes da crian­ ça ou do adolescente que levam à cooperação. nas sessões. indícios de um a fa n ta sia de que se dem onstrasse gostar e se sentir ajudado pela tera­ peuta. mesm o convidado). A q u estão d a existência da tran sferên cia nos tra ta m e n to s com cria n ­ ças foi um dos tem as das fam osas “C ontrovérsias” e n tre p artidários de Anna Freud e d e M elanie Klein (Fendrik. é sem elhante ao observado com pacientes adultos e visa repetir protótipos de relações e desejos infantis que se reatualizam no setting e no vínculo (Laplanche e Pontalis. Pelo exem plo citado. cria n ­ ç a /te ra p e u ta e fa m ília /te ra p e u ta . então. o pai e a mãe. que Raul não iria mais. esclarecido que as resistências de Raul estavam ligadas a um conflito de lealdade com seus pais. 1970). Raul conseguiu expli­ car aos pais as razões pelas quais precisava ainda se tratar. É um a repetição de necessidades e desejos que não foram com preendidos e satisfeitos no passado. vem os que a existência de u m a sólida aliança tera p êu tica e n tre os diversos co m p o n en tes d a situação tera p êu tica. decididamente. Em entrevista com seus pais (à qual Raul não quis estar presente. apesar das adversidades que tiveram que ser enfrentadas. . A terapeuta solicita algumas sessões para trabalhar com Raul a decisão fa m ilia r e a possível despedida. desagradaria a mãe.8 4 Maria da Graça Kern Castro. no seu jogo. Defendeu e lutou pela m anutenção de sua psi­ coterapia. 1991). trabalhava bastante e não apresentava as queixas que eram relatadas por sua mãe em rela­ ção ao tratam ento. faltava. os quais convivia. na qual estejam presentes. estes reclam am do trata­ mento. colocam em risco o p ro sseg u im en to d a psicoterapia. nao poderia tia n sfe rir toda sua neurose. de que não estavam satisfeitos com os resultados e pensavam “tirar féria s” do tratam ento do filho. Anie Stürmer & cols. trazia m uitos conteúdos im portantes. Os fenômenos transferenciais e contratransferenciais O fenôm eno transferencial com crianças e adolescentes. Começaram a surgir. M esmo sendo manejadas as resistências. Ficou. Assim feito. é indispensável p ara que sejam su p e­ rados os m o m en to s de resistência e im passes que. Assim sen d o . sem anas depois a mãe envia o pagam ento e avisa. o m enino diz que precisa m anter seu tratam ento e solicita um a “sessão tripla” . ele. que resistiam ao tratam ento do filho. em um sentido estrito do term o. A nna F reud su sten tav a que a criança vivia conflitos com seus pais reais. Na sessão seguinte. dem onstrando um a fo rte aliança terapêutica. e por isso. no que fo i compreendido por eles. m uitas vezes.i criança tem . q u an d o trab alh am o s com crianças bem peq u en as. p . A disponibilidade dos objetos prim ários para os cuidados e educação d a criança com plicaria o reco n h ecim en to do que seria a transferên cia. sob v értices diferentes. que são a base de sua vida de fantasia. pas­ sando a ad m itir a existência de neurose tran sferen cial em alguns casos de análise d e crianças (G lenn. Por exem plo. O senso da criança de quem ela é e de com o o utros vão reagir é m uito afetad o por expectativas b asead as em seu passado. a im agem dos pais concretos do cotidiano é tran sfo rm ad a pelas fantasias p re d o m in an tes n a m en te in fan ­ til. As figuras tran sferid as eram deform adas e coloridas pela pred o m in ân cia m aior ou m en o r de im pulsos destrutivos ou libidinais. que p ara Klein seriam sem elhantes à associação livre do ad u lto . 0° devido à p erm eab ilid ad e co n scien te/in co n scien te. sem que isso se configure . m esm o a criança m uito pe. um ad u lto sem elh a n te aos seus pais. à qual só ela tem icesso. m as tam bém m atizado pelos relacio n am en to s fam iliares recentes. quena já teria “um p assa d o ” a transferir: as vivê n cias p re coces com imagos p aren tais in tern a liza d as seriam tra n sfe rid a s ao te ra p e u ta . A través da ação ' ilos m ecanism os introjetivos e projetivos. Os re lacio n am en to s objetais precoces são transferidos atrav és d a técnica do jogo sim bólico. no setting.155). Klein teorizou sobre as o rigens dos relacio n am en to s objetais precoces no início da vida.insforicias no setting (l. Fantasias e im aginações do paciente sobre o te ra p e u ta são 1 inilx in m é ío s jitra v és dos quais as relações p assad as e p re sen tes são ii.m sferencial. d esde o início da vida./ CP Crianças e adolescentes em psicoterapia 85 0 relacio n am en to ou fan tasia sobre o p assad o fo rtem en te ligado às pes­ soas co n cretas dos pais. co n sid eran do q u e a tran sferên cia era o eixo central do tra ta m e n ­ to psicanalítico com crianças. m esm o a criança convivendo e sendo cuidada por seus pais no cotidiano. a* Klein (1981) ap o n tav a que a cap acid ad e de tran sferir existia na criança. O p sico tera p eu ta pode ser percebido. O d eslocam ento drsses padrões e dos m odos da criança se relacio n ar com as pessoas sig­ nificativas de sua vida constitui o eixo da relação tra n s fe re n c ia l/contran. A criança tem vida m ental ativa e. 1991. característica da relação tran sferen cial” (Klein. A nna F reud reform ulou sua posição. em alg u n s m om entos tem os que ajudá las q u a n d o vno ao b an h eiro . Dessa form a. . com o qual in terag e. 1996). pela criança com o um objeto real .anyado e H om e. . Em 1946. d esd e m uito cedo. faz p arte da “relação privada p a c ie n te /a n a lista . A caixa individual u sa d a pela criança. e se estabelece de form a esp o n tân e a e rápida. seu ego ru d im en tar é capaz de usar l m ecanism os prim itivos p ara lid ar com as an sied ad es ligadas às pulsões de ■ >J ' vida e de m orte. 2 0 0 0 ).^ . Ângela chega para a sessão propondo o jogo do elástico3. que sente que passar na m inha fren te significa deixar a m ãe (da barriga) para trás. i'icam evidentes aspectos de latência. nesse momento vive um conflito. então. Por outro lado. por consegidnte. como se ficar rica e forte implicasse em tirar algo de alguém. reeditados nesse jogo. ou regredir para não se separar de mim. conscien­ temente. responde com m uita ansiedade e é necessário discriminar ju n to a ela o que está acon­ tecendo. que tem coisas do passado de que ela está falando. Uma fica rica porque tira da outra. Ângela. Anie Stürmer & cols. no qual Ângela se sente culpada em relação à mãe biológica. Há três anos em tratamento. aparece uma gi'ande ambivalência. existe o desejo de ganhai. que não deseja aprender a ler e a escrever. Nessa perspectiva. Ç ppM . a crian ça pode p erce­ b er seu te ra p e u ta de form as diferen tes q u an d o alcança novos níveis de org an ização d esen v olvim ental (G lenn. . diz que quer continuar “burra” (sic).vr> ^ Comento. vem para tratamento por problemas de con­ duta. pois se tom a evidente que ela sabe pular melhor que eu. o jogo se torna um a grande confusão. Assim. pois está na I a série do ensino fundam ental e se nega a se alfabetizar. Aparece uma inconstância entre se dar bem. Nesses m om entos de intervenção. estão apresentando-se defesas obsessivas e tam bém a concom itante intcrnalizaçõü da alfabetização. Por outro lado. ema e não quer admitir. 7 anos. O te ra p e u ta é visto com o um objeto transferencial com o qual vai re p etir experiências prim árias e tam bém com o um novo objeto em sua vida. Em alguns momentos.8 6 Maria da Graça Kern Castro. então. o jogo se tom a confuso. a deixarei mal. Canta a música: “ se um dia eu pudesse ver meu passado inteiro. o que gera sentim ento de culpa. mas a cada momento em que me ultrapassa.. 1996). ser forte. apontando que repete comigo algo do seu passado. angustia-se. deixá-la mal. Ao mesmo tempo. não querendo passar para outra fase. me ultrapassar. E necessário discriminar que ela está mais adiantada.” . que considera pobre e. e eu começo a perder o jogo. o te ra p e u ta é foco de desenvolvim entos específicos das fases libidinais em evolução. em outros momentos. Aparecem a í aspectos ti'ansferenciais. No jogo. Refere. se eu passar na sua frente. fica ansiosa. Ângela: Ganhar ou perder? Conhecer e crescer. u m a gratificação. ganhar o jogo é “tirar” da mãe. filh a adotiva.. quando eu começo a ganhar. Existem regras a serem cum pri­ das. As características particulares da relação ii. Nesse caso. sentindo-se culpada. m odulados pelos processos transferenciais e contratransferenciais. podem os observar com o Ângela repete. S entim entos contratransferenciais. larga o jogo de elástico e se direciona para o quadro. vai até a porta e canta: “havia um hom enzinho torto. A contratransíerência pode ser co m preendida com o um conjunto de reações inconscienles do terap eu ta à transferência do paciente. fo i levada à psicoterapia por queixas de sua fam ília (Ir que era m uito “parada e sem in ic ia tiv a E r a considerada incom ­ petente. que oportunizam o acesso à m ente infan­ til. seria necessário ao terapeuta um ap ro fu n d am en to em sua psicoterapia ou análise pessoal. pai .m sferencial-contratransferencial auxiliam o tera p eu ta a conhecer mais sobre as fantasias do paciente. a alcance. Essa é um a resposta às interpretações construídas pela dupla nas sessões. m ostrando a ela sua fa n ta sia de não poder “ ficar rica” (alfabetizar-se). Transfe­ rência e co n tratran sferên cia são fenôm enos com plem entares. a “bobona” da fam ília Gabriela . Ao term inar a sessão. rem o ta­ mente. e eles ocorrem pelo interjogo de identi­ ficações projetivas e introjetivas. a fantasia q ue tem em relação ao objeto interno. Intervenho. Gabriela. e é o mesmo que refere quando brinca com o jogo do elástico e diz que vai ficar “ p a tin a n d o ” até que eu. a terapeuta. Ajuda a en ten d e r certos sentim entos que são em itidos p ara dentro da mente do terap eu ta pelo paciente. pois imagina que esta?'á deixando alguém “ pobre” . podem indicar pontos cegos do terap eu ta. No . com o se fos­ sem dois lados da m esm a m oeda. tanto pela fam ília quanto pelos colegas. 7 anos. principalm ente. escrevendo algum as palavras. Nesse caso. Ha liga e. seu funcionam ento e as expectativas que teve no passado e as que tem para o futuro. Tam bém traz seu conflito e sofrim ento atu al ligado à inibição intelectual que. no setting terapêutico. vincula a dupla. No trata m e n to psicanalítico. bobona e hurra.Crianças e adolescentes em psicoterapia 8 7 N um a determ inada sessão . às fantasias e à história das prim eiras relações objetais. os relacionam entos. andava por um cam inho torto. tinha um a casa torta e a í encontrou Jesus”. perm itindo um trab alh o conjun­ to. A com preensão desse processo é um a form a im portante de instrum entalização do terap eu ta. por serem inconscientes. está ligado ao desejo de evitar co n tato com suas origens e adoção. d espertados pelas vivências e pelos sen­ tim entos dele.i capacitá-lo a discrim inar o que lhe p ertence daquilo que é com unicação ilo paciente. esse jogo e. Repetiu. 1946) q u a n d o com eça a inte . Nesse jogo. pois insuportáveis para serem escutadas naquele m om ento. a m enina fez uso d a Identificação proje­ tiva com o form a de com unicar algo que as palavras ain d a não davam con­ ta: intenso sen tim ento de dor e hum ilhação que experim entava. Nesse caso clínico.8 8 Maria da Graça Kern Castro. a m enina manifestava intensas crises de choro e raiva. a terapeuta se sentiu realmente “incom petente ” para manejar os impasses criados pelos gritos. e o jogo da batalha serve para isso. Vai até o sofá e se deita por um instante. chamando-a de burra e bobona. Ao ejetar p ara dentro da m ente de sua tera p eu ta os sentim entos in­ toleráveis e indesejados que vivia. pega em sua caixa dois pedaços de pano solicitando ajuda para costurá-los. dirige-se ao armário. e a terapeuta derruba um barco de Joana. Destinava à terapeuta diversos papéis: as filhas. Anie Stürmer & cols. segundo mês de tratamento. criando forte núcleo resistencial. Joana a cam inho da integração Joana entra para a sessão e propõe o jogo de batalha naval. Depois de certo tempo. Contratransferencialmente. ela tem certa dificuldade em aceitar e entender as regras. a faxineira. vem os em Jo a n a a tran sição e n tre as posições csq u izo p aran o id e para depressiva (Klein. durante semanas. Joana reluta em continuar derrubando os barcos da terapeuta. Disso resulta um contra-ataque. choros e violência de Gabriela. a vendedora e outros que a h u ­ milhavam e desqualificavam. quando era tentada qualquer compreensão desse. Iniciado o jogo. As tentativas de com unica­ ção verbal eram danificadas. ela personificava um a poderosa e rica proprietária de loja que dominava a todos com seu poder. A p artir dessa vivência de com unicação prim itiva. mas elim ina um deles. A tera­ peuta com enta o quanto quer aprender a “brigar ”. Destrui-las com gritos m antinha a m enina afastada do contato emocional com seu doloroso sentim ento de desvalorização. Começa a ju n ta r os pedaços com agulha e linha. separa as coisas dentro dela. dinheiro e inteligência. m as que tam bém tem condições de costurar aquilo que está separado. m uito zangada e incomodada. A terapeuta via seus esforços de compreendê-la e ajudá-la em seu sofrimento serem frustrados. m andando a terapeuta calar a boca. A terapeuta com enta que quando Joana fica m uito braba. passou a jogar de “dona da loja”. Ela fica braba e desiste do jogo. via fenôm enos transferenciais e contratransferenciais e o processo pôde ser retom ado. ou tapava os ouvidos. se mostrou motivada a buscar ajuda. Idealizava o pai e desquali­ ficava a mãe. Sim ultaneam ente. Ao perceber que quanto mais preocupada a terapeuta ficava. que era “ galinha”. Seus pais haviam se divorciado recentemente. com vida bastante di/et ente da (/r/o relatava nas sessões. o que a deixava m uito braba e triste. Seu discurso parecia não comunicar. ju n tar. p e r­ sonificando um m ovim ento interno d e in teg ração de aspectos cindidos de seu self. que passa a incluir m ividades com o costurar. cuidado e continência. Contava sobre grupos de amigos que eram pichadores de prédios. sofria m uito com o afastam ento do pai. pareciam invenções. Podem os o b serv ar an te rio rm e n te que aspectos libidinais estão se firm ando no m u n d o in tern o de Jo a n a e são expressos n a sua capacidade de reparação. Suas invenções e exageros eram a . personificadas pelo jogo. Os m ovim entos de in teg ração se m anifestam p o r m udanças na relação tran sferen cial. filh a única. que ficava tomada dc preocupações por sua integridade e segurança. responsabilizando a mãe pela separação. a terapeuta se deu conta de que a paciente fazia um jogo de provocação para m anter sua atenção. consertar. eram “ falações” que enchiam as sessões. com histórias grandiosas. Em seg u id a. atacava verbalmente sua terapeuta. pois tinha muitos conflitos com sua mãe. a te­ rapeuta sentia que havia um certo exagero nos episódios relatados por Clara. tem condições de co stu ra r os pedaços de pano. ameaçava abandonar o tratamento. passou a relatar envolvimento com atividades de risco. mas sim preencher o espaço de atos concretos. estava bem. Em determinada época.Crianças e adolescentes em psicoterapia 8 9 grar aspectos d estru tiv o s de seu self. que foi um a m aneira de se au to riz ar a “b rigar”. Referia sair à noite com amigos que dirigiam alcoolizados e que se expunham a perigos no trânsito. Quando convidada a discriminar o que real­ mente acontecia e os riscos reais a que se expunha. que. desatenção com os estudos e preo­ cupação com as brigas com o namorado. Na vida cotidiana. Tomando contato com seus aspectos pessoais m obili­ zados por Clara. Dizia que os perigos e os riscos de serem pegos em flagrante a estimulavam. Seus aspectos agressivos foram personificados na b a ta lh a naval. 15 anos. Relatava episódios em que quase fo ra m presos e de como se saíram triunfantes do perigo. de tão grandiosos. Fazia relatos que eram verdadeiras descargas verbais. pelos relatos de sua fam ília. O setting tom ado pelas * falações" de Clara Clara. mais Clara a provocava e aum entavam seus relatos. que prioriza a com preensão dos fenôm enos da relação terap êu tica em rodes de I c l nç ò es históricas e de c a u s a s o el ei t os . O paciente p assa a perceber o te ra p e u ta não com o objeto am eaça­ dor. que vão se diferen cian ­ do de form as m ais deform adas para form as m ais realistas d e lidar com a realid ad e in tern a e ex tern a. Num nível histórico. mas tam bém nossa própria cap acidade de tra b a lh a r com essas faixas etárias. Criava. Intervenções na atualidade: como e quando interpretar O espaço psicoterápico pode ser com p reen d id o seg u n d o alguns m o­ d e l o s da teoria psicanalítica. Mas o que C lara tem ia e. O m odelo k l ei ni ano . to d a um a gam a de transform ações corporais. m as com o alguém em quem pode confiar. Pelos exem plos ap resen tad o s. puderam . aos poucos. A criança ou adolescente. d estem ida e “m arg in a l”. co n d u z a m udanças no c a ráter das transferências. sentim entos e pensam entos com o seus. o que. os desafios escolares. p o d erá se identificar com a capacidade d e continência e de p en sa r do te ra p e u ta . Nesse caso clínico. so b retu d o . assim com o suas a n ­ siedades frente ao início de sua vida sexual. que tem ia iniciar com o n am orado “g alin h a”. tem os o m odelo freu ­ d i a n o . As pressões da reali­ d ad e. mas nasciam de sua necessi­ dade transferecial de ser olhada e de despertar o cuidado da terapeuta (e dos pais). quase deliran tes por vezes. o novo corpo e os novos papéis. se to rn a ap to a in tro jetar m o­ delos m enos p ersecutórios de vínculos. levavam -na a se utilizar de processos de cisão. Suas “invenções”. m as. sem n ecessitar projetá-los tan to . psíquicas e fam iliares. tentativa de criar um mundo interessante. via identificações p ro ­ jetiv as. fazia sua tera p eu ta tem er por ela? Possivelm ente. p au latin am en te . Vai discrim inando os próprios im ­ pulsos. ser com ­ p reendidas com o defesas. evidenciou-se a form a de C lara m obilizar um n o ­ vo o lh ar sobre ela. T om ando consciência dos sentim entos provocados em nós. então. ta n to por crianças q u an to por adolescentes.9 0 Maria da Graça Kern Castro. é que poderem os co m p reen d er o sofrim ento e agir tera p eu ticam en te . de suas pulsões e o tem o r à vida sexual. vai se sentindo co ntido em suas ansiedades e. no tran scu rso da p sicoterapia. sofrim en­ tos e ou estados confusionais expressos nas sessões. não só colocam à prova nossa to lerân cia e co n ti­ nência. percebe-se que os sen tim en to s c o n tra ­ transferenciais frente a situações p erm ead as de agressividade. ao se ver aceito e com preendido. Anie Stürmer & cols. um a Clara corajosa. de seu m u n d o interno. Com o consequência. os p erso n ag en s e as n arrativ as nas sessões refletem aspectos da vida in tern a do p acien te. o logo é visto com o tex to n arrativ o e p ré -p artilh ad o pela d u p la c ria n ç a / le ra p e u ta . não ex istin do sentidos prontos. seg u in d o os co n ­ ceitos de Bion.* . In terp retaç ão é o processo de colocar sensações em palavras. T e ^ p O ^L ^ ^ jJ x lc c lò • C <**x *~ ^ . A tualm ente. O jo g o . seja pelas palavras. as n arrativ as d a sessão. sem que o te ra p e u ta “e n tre ­ gue" um a in terp re taçã o p ro n ta. 2000). m as a serem d escobertos ou . No caso das psicoterapias com crianças. Essa experiência pode ser m uito im p o rtan te e necessária para o p acien te visando que seu te ra p e u ta viva e ex p erim en te o não sab er e esteja em algum m o m en to identificado com seu “estado de -K ” (Bion. pelo jo g o ou pelo uso d e o u tro s m ed iad o res. m uitas vezes. o te ra p e u ta tem que to le ra r o seu próprio desconhecim ento do que está ocorrendo na relação te ra p êu tica para p o ­ der. ^ . plenas de vários sen tid o s e possibilidades. são en ten d id a s com o in satu rad as: são abertas.C4Aj^jQrc\<S c j la ^ líL c x e j j ^ \ /° ^ 4rv-*3lu3> J ^ d s ic . H ouve um a m u d an ça epistem ológica que rejeita o p en sam en to linear e positivista. to rn a n ­ do co n hecido p ara o p acien te as fantasias. O nível intrapsíquico é co n sid erad o um asp ecto m ais am plo. contextos de in teração e influências recíprocas. Hoje. Tentativas p re m a tu ra s de in te r­ pretação p odem fracassar. A in terp re taçã o . é re su ltad o fi­ nal de um trab alh o de sem anas. m uitas vezes. Em o u tras circu n stâncias. só m ais tard e. guardá-los e processá-los m en talm ente. pois. até de m eses de com unicações verbais e nno-verbais en tre a d u p la paciente te ra p e u ta (Lanyado e H orne. 19 8 0 ). Temos um longo processo para a co n stru ção in terp re tativ a . tipo causa e efeito. o que envolve a noção de processos. que in­ clui períodos em que o te ra p e u ta tem a função de co n ter sen tim en to s e pensam entos p ro jetad o s em si pelo p acien te. ch am ad o “relacional in sa tu ra d o ”. com unicando histórias p artilh ad a s e que exprim em afetos (Ferro 2 0 0 0 ). em que as narrativas gerad as no cam po são co m p reen d id as com o holografias da relação em o­ cional p a c ie n te /te ra p e u ta . ab a rca d o pelos contextos intersubjetivos e transsubjetivos. A ciência psicoterápica atu a l é m enos d eterm in ista e m ais ligada às diversas possibilidades. intervir. Há um terceiro m odelo. até qu e ocorra a ocasião p ara devolvê-los p ara reintrojeção. 1 . as ansiedades. Esse é o m odelo freu d ian o d e to rn a r o inconsciente consciente. esse é o estad o m en tal que a criança ou o ad o lescen te estão vivendo.0 ° ' • Crianças e adi adolescentes em psicoterapia 91 busca com p reen são d e níveis intrapsíquicos ou das fantasias inconscien­ tes. as defesas e os m odos de funcionam ento m ental que não podiam ser co n h e­ cidos p or serem in aceitáveis em função d e m ecanism os de repressão. os conflitos. h á u m a ten d ên cia ao a b a n d o n o das intervenções p ro n ­ tas. Deita-se no sofá. ela separa os coringas e me dá as cartas para embaralhar. Abro a porta po n tu a lm ente. pois terá de dorm ir um a noite longe de casa e não sabe se conseguirá. a relação de que ela quer ju n ta r dois: ela e a mãe. pois ela ficaria afastada da mãe. Ela briga muito. para ganhar o jogo. tran sfo rm an d o -se” (Ferro. Começamos a jogar. por isto não quer viajar sozinha. Ela diz que tem um a viagem e que está com um pouco de medo de ir. Anie Stürmer & cols. que fo rm a m a trinca. e a mãe entrega um material da escola. A mãe diz na sala de espera: “olha. Digo que para ela é m uito difícil ver o pai e a mãe ju n to s e ela separada. ganho o jogo. Talvez por isso tema viajar. grita comigo. devido ao bom vínculo com a paciente. Nesse m om ento. propondo jogar “ p i f ”. Maria corre para o sofá. con­ versem sobre isso”. se dirige ao ar­ mário de jogos e pega as cartas. então. percebo . Faço. Ouço-a em silêncio. em que tem os que fa zer frases com figuras pura que o outro adivinhe. m as são criadas em con ju n to com a crian ­ ça. fazendo algum as perguntas sobre seus sentim entos. e é difícil para ela ver que as pessoas são separadas. m o stran d o qual cam inho seguir. Juntam os os dois baralhos. tem que fo rm a r três se­ quências de núm eros com naipes iguais ou três cartas de naipes dife­ rentes. Maria entra e pergunto sobre o que se trata. não suportando ver o casal parental unido. Enquanto conversamos. essa “p erd o a” o erro da tera p eu ta. dizendo que não tem nada a ver o que estou dizendo. Este caso clínico possibilita que en ten d am o s com o u m a in te rp re ta ­ ção fora do nível de com preensão d a paciente pode ser m odificada d u ­ ran te a sessão e. grita m uito quando acha um a carta que fa z p a r com outra. o que a deixa m uito bra­ ba. vai até o quadro e propõe o jogo de frases enigmát icas. continua a fa la r mais um pouco sobre a viagem e que não quer fa la r de seus medos.9 2 Maria da Graça Kern Castro. sem usar significados previam ente satu ra d o s pela m en te do terap eu ta. As sessões são com o “dois textos vivos que interagem co n tin u am en te e n tre si. Tenho que retom ar as regras explicando que. As in terp retaçõ es do jogo não são dadas p reviam ente por algum sup o sto sim bolism o im plícito. deita-se. Maria então se levanta. Interpretação saturada: Maria ensina a terapeuta por qual cam inho seguir. falando sobre um a viagem de estudos. pois quer colocar dois naipes iguais e um diferente. 2 0 0 0 ). Maria se levanta da poltrona. e ela diz que ganhará o jogo de m im . criados. desistindo de continuar a jogar. Maria chega à sessão com sua mãe e se esconde na sala de espera. Ao mesm o tempo. necessita Jazer de um a maneira mais concreta. Porem. Porém. exemplificado a seguir. construída. então. com o jogo enigmático. com figuras desenhadas que refletem a interpretação.Crianças e adolescentes em psicoterapia 9 3 que está m uito difícil para Maria aceitar a interpretação que insisto em repetir. e vai processando m entalm ente suas ansiedades referentes ao conteúdo apontado. Maria resiste e se fecha. com o conteúdo que trabalham os antes. quebra-se a resistência. agora. O + ô - 5A tV Z ) + e <30 + AN + @ - ' 130 bA J & l O $ .CA ■+ X ô' A -O -*• M ATE 0 e + -+SA 5 • £ + £ . Maria com unica que podem os fa la r da mes­ m a coisa de um a outra maneira. M aria mostra o cam inho: Começamos. ela ri m uito. a fa z e r o jogo de frases enigmáticas. .5 0 R 3 UM -f -+ O M ARÍA T era peu ta “A MARIA FICA ZANGADA QUANDO A TERAPEUTA FALA QUE O PAI E A MÃE VÃO FICAR JUNTOS Quando verbalizo que teme se separar da mãe. trajetó rias e m ovim ento no settin g . novam ente. indicando um novo cam inho. que corrigiu a rota da sessão. no caso de adolescen tes. M aria resistia a quê m esm o? A interpretação an terio r estava satu rad a de significados fornecidos pela tera p eu ta. mas por nós duas. tatu a gens. sugerindo um jogo de adivinhação de frases enigm áticas. A presentam os a nossa síntese pessoal b asead a nos nossos estudos. que pode ser expresso por m eio de jogos. e M aria os sentiu com o invasivos. personificações. aqueles que consideram os m ais im p o rtan tes sab e n ­ do que o assu n to não foi esgotado. pelo contrário. q u e leva em conta a to talid ad e dos fenôm enos que ocorrem no cam po bipessoal. re q u ere m de nossa m ente flexibilidade e co n tin ên cia e um c o n stan te acesso ao nosso próprio m a te ­ rial inconsciente.9 4 Maria da Graça Kern Castro. nos tra ta m e n to s e n a co n stru ção de nossa traje tó ria no ofício com o psico terap eu tas. p ara d a r conta dos fenôm enos co n tratran sferen ciais que essas faixas etárias suscitam . que exigem do p sico tera p eu ta um a g ran d e cap acid ad e n eg ativ a e paciência p a ra lidar com o novo e o inusitado. ap en as. Não podem os deixar de onía . p o stu ra. a “quatro m ãos”. não apenas p o r m im . gritando alto. foi possível re to m a r os processos de com unicação que estavam interrom pidos. a necessidade de a ten ç ão às form as com unicativas n a sessão. Anie Stürmer & cols. além da p ala­ vra. a criança e o adolescente. um a profusão de m aterial não-verbal. por e starem em tran sfo rm ações físicas e psíquicas. Dessa m anei­ ra. A participação dos pais no tratamento. gestos. S alientam os. Resistiu à form a ou ao conteúdo da interpretação? Em seguida. m ímica e. indicando que as palavras ouvidas eram um enigm a para ela. começa a elaborar as questões simbióticas com sua m ãe e a suportar a exclusão im posta pela triangulação edípica. 4 pelas quais expressam suas fan­ tasias e seus sen tim en to s. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os fenôm enos descritos neste cap ítu lo se e n tre laça m e foram divi­ didos em tópicos p a ra fins didáticos e para sua m elh o r com preensão. sen d o possível d im in u ir a resistência que estava se estab elecendo. o que a fez se rebelar. d esen h o s. à um faciliiador. Como descrevem os an terio rm en te. um a expressão corporal por m eio d e roupas. em vez de ser vista com o (Miti ave. lúdico. que incluem . m an d an d o a tera p eu ta ficar quieta. Nesse m odelo interativo. A pontam os. M aria su p o rto u o “erro ” d a te ra p e u ta . ela m esm a d á o cam inho. Buenos Aires: Pai dós. Buenos Mn»n Karglemen. 1980. ' li>go do elástico .Crianças e adolescentes em psicoterapia 95 tizar a riqueza que um bom vínculo com a família pode proporcionar para a manutenção e o progresso psíquico dos pacientes legalmente menores em psicoterapia psicanalítica. MAIIANGER. BARANGER. e 10: Formas comu­ nicativas na psicoterapia com adolescentes. M M>N . por exemplo. K fundamental que o psicoterapeuta possa se abrir à voz e à expressão da criança e do adolescente valorizando as suas experiências particulares e seu sofrimento. vendo-os com o subjetividades em construção e com o su­ jeitos de seu próprio discurso. para ser psicoterapeuta de crianças e adolesientes. W. Ver Capítulo 7: A comunicação na psicoterapia de crianças. Tornamos nossas as palavras de nosso querido mestre David Zimerman. 2004. Psicanálise de crianças: teoria e técnica..adores.consiste em um elástico amarrado em volta das pernas de dois | iiy. I Vim Capítulo 10: Formas comunicativas na psicoterapia com adolescentes. se utiliza um terceiro elemento. manter a espontaneidade e nitcnticidade. além de ser “gente como a gen te”. lussa a vez para outro.459). em seu tratamento pessoal. Porto Alegre: Artmed. Problemas dei campo psicoanalitico. Ganha o jogo quem finalizar todas as etapas (no caso de iipenas dois jogadores. devemos gostar dessas faixas etárias. M. Um terceiro jogador fará uma série de movimentos. quando refere que. W. que servirá para amarrar o elástico). Apremiiendo de lo exjieriStiria. 1982. caso erre. A. o psicoterapeuta de crianças e adolescentes deve ter a possibilidade de analisar. . NOTAS I Ver Capítulo 6: O lugar dos pais na psicoterapia de crianças e adolescentes. exaustivamente os conflitos mais precoces que essas faixas etárias costumam trazer nas suas sessões e se sentir com livre acesso a esses aspectos em seu inconsciente. obedecendo a etapas t|iic só poderão ser ultrapassadas se a anterior for realizada com êxito. III FERÊNCIAS • \ u i UASTURY. 1968. como no caso da sessão terapêutica. p. cadeira ou mesa. Para finalizar. um ser humano comum. ujeito às mesmas grandezas e fragilidades de qualquer outra pessoa o • [lie nos tornará mais próximos e empáticos com nossos pacientes (Zimerinann. Rio de Janeiro: Imago. Revista do Ins­ tituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia. J. A. n. Porto Alegre: Artmed. 2002. Porto Alegre: Artmed. _____ . Santos: Martins Fon­ tes. Inveja e gratidão. n. M. FENDRIK. K. Londres. K. Adolescentes em psicoterapia: a percepção de si e do tratamento. 9-16. SANDLER. PINTO. ZIMERMANN. São Paulo: Mestre Jou. 1987. Boletim IEPP. FERRO. The handbook o f child and adolescent psychoterapy: psychoanalytic approaches. J. O Campo analítico com crianças e adolescentes.. 1991. Fundamentos da técnica psicanalítica. 1965. v.CASTRO. In: CONGRESSO LATINO AMERICANO DE PSICANÁLISE DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Rio de Janeiro: Imago. 1995.96 Maria da Graça Kern Castro. In :_____ .. 2000. J. Revista do Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia. IANYADO. 66/72. Porto Alegre: Artmed. I n :_____ . L. S. PONTALIS. Psicoterapia infantil: pensar relações e criar significados. 2. CIMENTI. A psicanálise como literatura e terapia. LEWIN. M. 4. 2000. 2000. IAPLANCHE. 1991. MENEGAT. Reação surpresa na psicanálise de crianças. Resumo. 2000. Teoria de campo em ciência social. Gramado.. Anie Stürmer & cols. 3755. M.. H. A. J. 1991. Routledge. São Paulo. M. abr. A. Manual de técnica psicanalítica. I n :_____ . Vicissitudes do amor e do ódio na transferência e na contratransferência.. KLEIN. B. A História do Jogo e seu significado. C. A técnica da psicanálise infantil. CARON. Anais. M. 1981. Vocabulário da psicanálise. Porto Alegre. 9. 1989. N. CASTRO. Um olhar clínico sobre a adolescência: características e quei­ xas mais freqüentes de adolescentes em psicoterapia.. G.4. HORNE. p. Análise Infantil. . GLENN. p. _____ . A ficção das origens. Inveja e gratidão. H.. K. V. 6. 4. A Técnica na psicanálise infantil. E. E. 2. Rio de Janeiro: Imago. _____ . M. Porto Alegre: Artmed. p. KANCYPER.. In: JORNADA DO INSTITUTO DE ENSINO E PESQUISA EM PSICOTERAPIA (IEPP). v. 2001. _____ . Porto Alegre: Artmed. 30 abril de 1994. 1996. L. Rio de Janeiro: Imago. ETCHEGOYEN. Psicanálise e psicoterapia com crianças. 2004. Contribuições á psicanálise. G. In: CONGRESSO IATINO AMERICANO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. 1970. D. CASTRO. Notas sobre os mecanismos esquizóides. 1996. K. G. São Paulo: Pioneira. m édicos e outros profissionais que as acompanham. Reportando-nos a Anna Freud (1 9 7 1 ). entre outros. no intuito de estabelecer uma adequada indicação terapêutica. mas também com a família. pois podem ocorrer interrupções no transcurso do processo terapêutico devido a múltiplas causas. No caso de psicoterapia com crianças. q u e se m o d ific a m n o d e c o r r e r d o p r o ce s s o psicoterápico. e os principais fenôm enos presentes em cada etapa da psicoterapia. não só entre paciente e terapeuta. com o a satisfação da família com apenas o esbatimento dos sintomas. nem sempre a psicoterapia atinge essas três fases. nunca deixando de considerar que crianças são seres em pleno desenvolvim ento. esses aspectos devem ser observados ainda mais atentamente.As etapas da psicoterapia com crianças Lívia Kern de Castro Paula von Mengden Cam pezatto Lisiane Alvim Saraiva A psicoterapia psicanalítica com qualquer faixa etária. resistências. que ocorrem depois de realizado um processo de avaliação detalhada do paciente. se bem -suce­ dida. dificuldades financeiras. mas sim pelas características do vínculo te ra p e u ta -p a c ie n te . sofrendo transformações constantes. pois além da relação paciente terapeuta. o que torna o processo psicoterápico bastante com plexo. uma avaliação ampla e profunda. A experiência nos mostra que essas fases não são determinadas por sua duração. sabemos que há na criança alternâncias nos seus movimentos . fase intermediária e de término. Alguns aspectos do tratamento com crianças serão explorados no decorrer deste capítulo. envolve os pais. Porém. mudanças de domicílio. escola. com porta três fases: início do tratamento. com o a importância da consolidação de um bom vínculo. mas com a sua família? De quem é a demanda? De que m odo o funcionam ento dessa criança está prejudicado? Por que dessa forma? O que pode ser feito? A partir da observação. normalmente. foi observado algum com portam ento preo­ cupante ou. e que os derivativos pulsionais. et al. assim com o elementos do funcionam ento psíquico da criança. podem existir fatores internos e externos interferindo. por reforços legais. pelos quais uma criança é trazida para aten­ dimento. Em geral. consciente ou não. é possível verificar inúmeras razões e m otivos. fantasias e integração ou não das instân­ cias psíquicas. declarados ou não. rotinas. distorcendo ou desviando o crescimento psicológico infantil. com o é esperado e normal no curso do desenvolvim ento infantil (Bernstein e Sax. Anie Stürmer & cols. sintomas que não melhoraram com a passagem do tempo. A avaliação é o período no qual se faz necessário com preender dados globais do paciente. mas se constituir em um verdadeiro encontro com ela. mecanismos de defesas predominantes. as crianças são encaminhadas nct expectativa .98 Maria da Graça Kern Castro. Zavaschi. Na maioria das vezes. Já nos primeiros contatos. que surgem variadas formas de defesa. progressivos e regressivos. Além disso. por haver pedido aos pais ajuda para os seus problemas. Copolillo. Essa etapa não pode ser apenas considerada uma coleta de dados da história e do contexto da criança. do pediatra. o que empobreceria o vínculo. recursos egoicos. PERÍODO DE AVALIAÇÃO: O ENCONTRO E raro que uma criança seja trazida à consulta por vontade própria. no que diz respeito à fase de desenvolvim ento em que se encontra. ego e diretrizes de desenvolvimento evoluem em ritmos desiguais. entre outros. sendo de fundamental neces­ sidade conhecer a conflitiva subjacente para melhor compreender a criança em questão. 1990. a criança vem para tratamento em virtude de uma preocupação dos pais ou de uma recom endação da escola. que as forças pulsionais e do ego estão em constante fluxo e adaptação. Também é importante que se questione: Por que a procura de atendimento nesse m om ento? Há algo especial que m otivou a busca? O que ocorre não somente com a criança. Em muitas situações. sua família e seus sofi imentos. então. os quais incluem elem entos do funcionam ento e organização da família em termos de hábitos. 1996. valores. percebemos algum fator desencadeante importante. 2005).. Crianças e adolescentes em psicoterapia 99 de que se ajustem ou se com portem da maneira que a família ou a escola deseja. . a criança expressa seus conflitos. 1978). pensamos que a psicoterapia psicanalítica não tem por objetivo a adaptação da criança. jo g o s e material gráfico. são semelhantes aos buscados junto a pacientes adolescentes e adultos. que são dispostos sob a forma de uma caixa individual que representa o sigilo e o mundo interno da criança. Através do brincar. não exclu­ sivos daquele paciente. Entretanto. Esse período varia em cada caso. tudo acontece de forma inesperada e rápida. ocasionando m odificações no mundo intrapsíquico e inter-relacional. Trabalhava du­ rante toda a noite e estudava à tarde. ajudar a criança a expressar melhor suas em oções e a com preendê-las. com a diferença que. com crianças. angústias. separados desde antes do nascimento do menino. A entrevista com a criança é denominada ‘Hora de Jogo Diagnostica’ e objetiva o conhecimento dela por meio de atividades lúdicas. que inclui entrevistas com os pais ou responsáveis (juntos ou sepa­ rados). que incluem a utilização de brinquedos. permitindo ao terapeuta observar o nível de desenvolvim ento em ocional e cognitivo em que se encontra (Efron et al. além de buscar a remissão dos sintomas. com o ilustra o exem plo a seguir: Gustavo. A psico­ terapia infantil é. 1995). isto é. mas sim oportunizar a essa um espaço de autoconhecim ento a partir da exploração de seus potenciais. embora haja uma sequência geral seme­ lhante. um instrumento psicológico capaz de. 5 anos. exigindo do terapeuta dinamismo e flexibilidade mental. Desde a primeira hora de jo g o . 2000). é possível verificar a fantasia incons­ ciente da criança sobre o motivo pelo qual foi levada ao tratamento. Os objetivos d o tratamento. além de muita disponibilidade para movim entação física (Castro e Cimenti. A mãe estava constituindo nova família e o pai estava muito ausente. entrevista familiar. fo i levado à avaliação por apresentar comportamento agressivo com os pais. sem conseguir se organizar finan­ ceiramente paru os encargos da pensão de Gustavo e para as próprias despesas. em decorrência de uma rotina de trabalho estressante. fantasias e capacidade sim bólica. portanto.. entrevistas com a criança. que permite a obser­ vação da interação pais/criança/dem ais membros da família e entrevistas de devolução. O período de avaliação com preende um espaço de tem po necessário para se conhecer a criança e fazer um mapeam ento de vários aspectos. portanto. bem com o sua fantasia inconsciente de cura (Aberastury. além de materiais coletivos. 1995). ou por um colega especializado em psicodiagnóstico. especialmente quando há necessidade de avaliar déficits cognitivos e motores ou estabelecer diagnóstico diferen­ cial. caso haja suspeita da interferência de alguma condição médica geral. O psicodiagnóstico e a avaliação multidisciplinar auxiliam na elaboração da hipótese diagnostica. É possível. Abrange os aspectos passados. Nus entrevistas iniciais com o menino e sua faniditi. que esteja provocando sintomas semelhantes aos de origem em ocional. há importantes recursos que podem complementar a avaliação e auxiliar em uma indicação terapêutica adequada. onde passeava com seu pai. a personalidade total do paciente. A aplicação de testes pode ser realizada pelo próprio psicoterapeuta. ao máximo. ao comentar sobre os pensamentos da criança acerca do motivo de seu encaminhamento já na primeira sessão. 2000. limitado no tem po e que utiliza m étodos e técnicas psicológicas para descrever e compreender. O psicoterapeuta. Dessa forma. estará facilitando a aliança terapêutica. se esse dominar as técnicas necessárias e se sentir confortável para tal. Por isso. A terapeuta era representada pela mulher que jogava uma boia. Porém. que podia jogar uma boia. assinalando seus medos. principalmente na arca da leitura. expectativas e fantasias sobre o que lhe acontecerá no decorrer da avaliação. sintomas decorrentes de fatores orgânicos daqueles de origem em ocional. um navio com uma mulher. iniciou avaliação no final do ano escolar devido a un\a importante dificuldade de aprendizagem. então. Gustavo contou que o mar era “fu n d o" e lá havia muitos peixes e tu­ barões. que seja necessário o encaminhamento para outros profissionais. Anie Stürmer & cols. Chega. remetendo ao pedido de ajuda do menino.. é importante o psico­ terapeuta ter sólidos conhecim entos sobre o desenvolvimento infantil nor­ mal e patológico1.100 Maria da Graça Kern Castro. também. ali só caberiam crianças. entre outros. estando apto a diferenciar as crises vitais (comuns ao desenvolvimento normal) das acidentais (peculiares à história de vida da própria criança). Efron et al. O barco furou e iriam afundar. Fernando. que optou por desenhar cuidadosamente um barco a velas. 7 anos. Depois das entrevistas com os pais. presentes (diagnóstico) c futuros (prognósticos) (Cunha. O psicodiagnóstico é um processo científico. Gustavo revela que tanto ele quanto seu pai estavam “afun­ dando” e precisavam de ajuda. Para a realização de um trabalho desse tipo. a psico- 0 . fo i realizada uma hora de jogo com o paciente. a boia era pequena e ç. O resultado do primeiro teste utilizado (Teste Visuomotor de Bender) apontou indícios significativos de lesão cerebral. Mesmo assim. Deise balbuciava como um bebê.descartando possíveis dificuldades em outras esferas que não a psicológica. Dessa form a. 6 anos e 5 meses. Um exame realizado por equipe multiprofissional ocorre sempre que se faz necessária uma ava­ liação mais com plexa. Esses poderiam estar interferindo diretamente na curiosidade e no desejo de descobrir coisas novas e de aprender. estavam interligados às dificuldades para aprender. antes obscuros. na intenção de descartar possíveis déficits intelectuais. neurológicos ou orgânicos.Crianças e adolescentes em psicoterapia 101 terapeuta percebeu inúmeros conflitos relativos a segredos familiares. quando é preciso investigar e integrar dados referentes às con dições médicas. que ocasionou o encaminhamento do menino para um neuropediatra. surgiram novos dados relacionados à história de Fernando. abrangente e inclusiva. agressividade direcionada à mãe adotiva e diversos outi'os comportamentos característicos de crianças bem pequenas. Exames médicos confirmaram o compro­ metimento neurológico do menino. por dificuldades em desenvolver a fala. Seus efeitos. a psicoterapia e o tratamento neurológico. A partir disso. . Em muitos casos. social ou escolar. faz-se necessária uma investigação que atenda outras demandas. Nas primeiras sessões de avaliação. Para tal. a profissional optou por recorrer à testagem psicológica. com o ocorreu no tratamento de Deise. enurese noturna. tais co m o neurologistas. Deise. cognitivas. desenvolvendo uma maior comunicação verbal aos poucos e intercalava brincadeiras adequadas à faixa etária com brincadeiras < /< • montar e cubos para crianças de 2 a 3 anos. foram iniciados simultaneamente. sociais da criança que está sendo avaliada. pediatras. para chegar a uma hipótese diagnostica e a um prognóstico mais coerente . entre outros. sendo informado que o paciente teria sofrido crises con­ vulsivas ainda nos primeiros meses de vida. psicopedagogos. é funda­ mental que o psicoterapeuta recorra a outros profissionais quando pre­ cisar levantar dados de natureza m édica. fonoaudiólogos. com o o atendim ento com binado com profissionais de outras áreas. fo i encaminhada para tratamento psicológico pela fonoaudióloga que a acompanha há um ano. ou seja. somados aos conflitos emocionais familiares. favorecendo a diminuição do sofri­ mento de Fernando. psiquiatras infantis. que avaliou as funções intelectivas como medianas e adequadas à faixa etá­ ria. A. Este tal ve/. Ainda durante o processo de avaliação.102 Maria da Graça Kern Castro.io com unicados os aspectos saudáveis e. Quando adotada por uma mãe solteira. com o resultado. que auxiliará no pla­ nejamento do tratamento. Ao final da avaliação. A formulação psicodinâmica deverá englobar uma descrição das principais defesas. 1971). foram necessários vários atendi­ mentos complementares para auxiliar na etiologia e no diagnóstico da menina. seja o momento . 2005). que* é a última etapa do período avaliativo. para uma neurologista infantil e uma psiquia­ tra infantil. 1993] ou DSM-IV-TR [APA. vinha se desenvolvendo normalmente até essa idade. obteve-se os dados de que fora adotada aos 3 anos e. levando a um diagnóst ico que reflete múltiplos pontos de vista m etapsicológicos. além de prescreverem uma dosagem baixa de Risperidol. Nas entrevistas de anamnese. Freud. a apresentação dos conflitos centrais do paciente e. as quais diagnosticaram um foco de epilepsia benigna. 1996. uma apreciação do modelo de funcionamento mental predominante e das relações de objeto que estabelece. provenientes de abordagem meticulosa e multifacetada da história do paciente e seus sintomas (Silverman. tanto do ponto de vista descritivo (CID-10 [OMS. Anie Stürmer & cols. posteriormente. parece ter parado de se desenvolver e voltou a utilizar bico e mamadeira. além de enurese noturna na cama que dividia com a mãe.. Também deverá enfocar aspectos preditivos das respostas do paciente em relação à situação terapêutica (prognóstico). O uso do “Perfil Desenvolvimental” proposto por Anna Freud é um recurso auxiliar bastante interessante que pode servir com o guia para a organização e o detalhamento do material clínico. de acordo com os registros trazidos à terapeuta.. que fo i encaminhada. na medida em que se fortalecia o vínculo terapeuta/paciente/mãe. que justificaria em parte o atraso na linguagem. Inicialmente s. consideramos importante estabelecer uma for­ mulação diagnostica. 2003]) quanto dinâmico. Tal formulação diagnostica e indicação terapêutica será comunicada de uma forma compreensível ao paciente e seus familiares nas entrevistas de devolução. os mais com ­ prometidos no desenvolvim ento do paciente. A professora também fo i contatada no sentido de auxiliar Deise a desenvolver autonomia e se autorizar a crescer. bem com o seus recursos de ego e sua motivação para o tratamento (Zavaschi et al. Foi realizado um psicodiagnóstico. com diagnóstico de transtorno afetivo bipolar grave e his­ tórico de diversas internações. i frequência de uma sessão semanal para crianças mais . Normalmente. antes do início da psicoterapia. por situações externas (dificuldades de levar e buscar a criança. dúvida e até mesmo raiva explícita. Os sentimentos de vulnerabilidade dos familiares devem sempre ser considerados. pois a devolução pode ser recebida com desapontam ento. faltas e trocas de horário. Por isso. entre outros aspectos do contrato. problemas econômicos. tais com o não apresentar distúrbios globais severos. que se in­ vestigue a possibilidade de a família seguir as com binações necessárias para a manutenção do tratamento com o buscar e trazer a criança nos horários marcados. Assim. pois tem por objetivo discutir os achados diagnósticos com os pais de uma forma compreensível. possuir relativa força egoica e defesas razoáveis para suportar uma semana entre as sessões. com o frequência das sessões. entre outros). participar das entrevistas agendadas com os pais. aspectos relativos ao contrato terapêutico podem ser abordados já nas entrevistas de devolução. se necessário.Crianças e adolescentes em psicoterapia 103 mais delicado do processo. Os pais sonham com uma criança perfeita e com um relacionamento familiar ideal. Zavaschi e cola­ boradores (2005) sugerem que a própria criança entregue o pagamento de seu tratamento ao psicoterapeuta. no entanto. a frequente uti­ lização de justificativas baseadas em dificuldades financeiras (reais ou não) para encobrir resistências ao tratamento. pois é uma frequência que possibilita proximidade e aprofundamento. se estabelecem combinações formais imprescindíveis para o curso do tratamento e para a consolidação e manutenção do setting. A esse respeito. Indicada a psicoterapia. Autores com o Parsons. Essa indicação. Observamos. sigilo. honorários. Tais combinações podem mobilizar resistências e ansiedades tanto no paciente e em sua família quanto no terapeuta. férias. horários. o terapeuta deve estar preparado para lidar com as manobras defensivas que possam surgir em decorrência do rom pim ento desse ideal narcísico parental. A frequência das sessões já deve ter sido examinada no período avaliativo e está baseada numa visão global do funcionam ento da criança e das possibilidades de a família manter o tratamento. tra­ balha-se em psicoterapia psicanalítica com duas sessões semanais. Radford e H om e (1999) contraindicam . por exemplo. também se realizam psicoterapias com uma sessão semanal. em nossa prática. tem que levar em conta algumas condições da criança. efe­ tuar o pagamento dos honorários. Em deter­ minados casos. pois isso a auxiliará a compreender o investimento dos pais e a seriedade do tratamento. Atualmente. Também é fundamental. ser capaz de tolerar frustrações e conter ansie­ dades. pode-se indicar a frequência de três sessões semanais. sendo necessário auxiliá-los através de outros encaminhamentos. portanto. 2005). FASE INICIAL: A ALIANÇA Indicada a psicoterapia e contratado o tratamento. predominam em oções e ansiedades pnranoides que devem ser com preendidas e trabalhadas (Ianklevich. que inclui a indicação. é imprescindível a construção de uma hipótese diagnostica descritiva e psicodinâmica que norteará a indicação terapêutica. pela experiência acumulada em inúmeros casos atendidos nessa modalidade. obter um entendimento aprofundado do sofrimento da criança e de seu m odo de funcionamento mental a partir de uma visão ampla e global d o contexto social. dando a impressão de es­ tarem “piores” com a terapia. alcançamos resultados positivos mesmo com crianças muito fragilizadas. Todavia.uz. pois há m aiores possibilidades de que atuem o conflito fora do setting psicoterápico. comprometidas emocionalmente. Cabe lembrar também que a psicoterapia nem sempre é a exclusiva indicação ao paciente que chegou à avaliação. No início do tratamento. considerando suas necessidades e possibilidades (Ianklevich. desconfianças e resistências acerca tio iiatam ento que se inicia. é necessário também um planejamento da psicoterapia.f 2003). . Muitas vezes os familiares é que estão apresentando dificuldades para manejar uma crise vital do desenvolvimento da criança. l. os objetivos (cons­ cientes e inconscientes) e os recursos do paciente. Outras vezes a demanda é dos pais. Assim como na avaliação. 2005. especialm ente entre a primeira e a oitava sessão (Chaieb et al. É nesse período que a maioria dos abandonos de tratamento costu­ mam ocorrer. Também se deve estar atento às articulações que os sintomas que originaram o pedido de ajuda têm na fantasia. em nossa prática percebemos que essa frequência de tratamento pode ser a única possível para determinadas famílias e. que acabam se dando conta de que eles também precisam de psicoterapia. Isso se deve ao lato deo terapeuta possuir menos recursos para trabalhar as ambivalências. tanto da criança com o de sua família. visando à elaboração de uma indicação te­ rapêutica adequada para cada caso específico. familiar e desenvolvimental. 20 05 ).104 Maria da Graça Kern Castro. nessa fase. O propósito da etapa avaliativa é. a fase inicial se caracteriza principalmente pela construção de um vínculo de confiança e da aliança de trabalho. AnieStürmer & cols. já que. 20 05 ). A aliança tende a evoluir com o passar do tempo. com o pode ser visto no caso de Rafael: . A situação seguiu assim por quase cinco meses. Após a primeira sessão. O jo g o possibilita partilhar temores e viver situações à distância no tempo e espaço. por se mostrar dependente da mãe para as tarefas escolares. 9 anos. com o se sentiu com a interrupção do tratamento anterior. A terapeuta compreendeu que Juliana queria muito poder ‘grudar’ nela e form ar uma aliança. A única coisa que lhe chamou a atenção foi uma mãozinha de ‘g e l e c a q u e grudava em tudo. apresentava agressividade. sentindo-se livre para investigar e explorar suas fantasias. nesse momento. 1982). A menina ignorava tais verbalizações e seguia utilizando apenas os jogos coletivos. mas sem muita curiosidade. era preciso estabelecer um vínculo de confiança e ter alguma segurança de que não se sentiria “ abandonada”. Usando-a. temores e sentimentos. normalmente é a criança quem escolhe o que deseja utilizar no decorrer da sessão e isso vai revelando algo sobre ela mesma. Antes. perda e controle. aproxim ações e recuos na construção do trabalho psicoterápico (Ianklevich. deslocando ansiedades e conflitos que podem ser elaborados. enfrentar os seus conflitos de dependência. O terapeuta é guiado pela criança e acompanha o jo g o . mas ao seu brincar e às personificações que cria. o que era assinalado pela terapeuta. baixa autoestima e brigas no lar. Frequentemente. Vinha de um tratamento anterior que durara pouco tempo em virtude da mudança da terapeuta para outra cidade. baseada na crescente ligação positiva com o terapeuta e na percepção (conscien te) da necessidade do ajuda (Sandler. intervindo ou interpretando aspectos significativos do m esmo. Juliana tentava atingir a terapeuta. com resistências alternadas com aproxim ações. quando Juliana recomeçou a explorar a caixa e seu conteúdo. mas não podia. Dentre os materiais lúdicos disponíveis na sala de atendim ento.Crianças e adolescentes em psicoterapia 105 Juliana. Isso só foi possível quando a paciente estava bem vinculada e já podia confiar na terapeuta. o paciente aceita melhor as interpretações quando essas não se referem diretamente a ele. Juliana não conseguia tocar nos conteúdos de sua “caixa/cabeça” antes que a terapeuta se apresentasse constante e como um objeto confiável. O cam po que se cria na fase inicial precisa conter esperanças e receios. Juliana mexeu em sua caixa apenas na primeira sessão. Ao iniciar o novo tratamento. colando a mão nela. Juliana não mais tocou na caixa. por ter sofrido maus-tratos na família de origem. Ana. No período de avaliação. tendo momentos de isolamento.. É. mostrando-se mais preparado para receber interpretações (Zavaschi. Certo dia. compreenderam que agora estavam form ando uma dupla com uma tarefa comum.rani produções sempre inacabadas e insatisfatórias para a . 7 anos. a de “segurarem” juntos os problemas dele. o paciente. Após um firm e contrato com os pais. Anie Stürmer & cols. passava as sessões produzindo bonecos disformes de massa de modelar. escolhia repetidamente jogos de tabuleiro (Damas. explorar e resolver os sintomas e as dificuldades emocionais do paciente. que visa examinar. terapeuta e Rafael. Moinho) e voleibol. propôs: “Vamos mudar o jogo de vôlei? Agora. Rafael. Ludo. 9 anos. Dessa forma. solicitando a ajuda da terapeuta para colá-los com muita cola e durex h. chegou à psicoterapia encaminhado pela escola. com um histórico de cinco tentativas de ti'atamento. e sim vamos contar quantos toques conseguimos dar na bola sem deixar ela cair!’’. FASE INTERMEDIÁRIA .106 Maria da Graça Kern Castro. No final da primeira fase. Ela pouco brincava ou falava. fo i iniciada a psi­ coterapia de Rafael. O objetivo dessa etapa é a essência do tratamento (Luz. a criança resgata assuntos ou brincadeiras ocorridas em momentos anteriores do tratamento. com interpretações acerca da dificuldade em confiar o filho a um profissional. fo i encaminhada para tratamento por uma instituição de proteção ao menor. mais aliviado dos sentimentos persecutórios e mais familiarizado com o processo terapêutico. não é mais de fazer pontos. et al. analisar. Juntos. após cerca de quatro meses de tratamento. a etapa mais longa dos tratamentos. 2005). em geral. deverá se aliar ao terapeuta na tarefa de identificar conflitos e buscar elabo­ rá-los.O PRO CESSO ELABORATIVO A fase intermediária do processo psicoterapêutico é o período que se estende desde o m om ento em que se consolida a aliança terapêutica até a ocasião em que uma séria proposta de término passa a ser discutida entre paciente e terapeuta. É possível ao terapeuta perceber a evolução para a fase intermediária quando passa a existir continuidade nos temas trazidos pelo paciente entre sessões. 2005). Inicial­ mente. impo psicoterápico. tais com o eructações e llatulências. ocupou-se com a construção de uma casa para residirem. E sempre importante apontar que a criança tem permissão de expressão simbólica para brincar. pois sabe que . a dominar os instintos e a se defrontar com todas as dificuldades inerentes à vida” (p. ocasião em que decidiu fazer uma “Buldoga” para lhe fazer companhia. Assim. apenas com o uma forma de expressão. A criança com eça a pensar no terapeuta com o uma pessoa da sua vida diária. Winnicott (2000) ressalta que “o fornecimento de um ambiente suIieientemente bom na fase mais primitiva. Nas sessões seguintes. a constituir um ego pessoal. que manifestava muito sofrimento. com o desenho cuidadoso dos filhotes do casal de cachorros. Nossa limção com o terapeutas é buscar significados para tais atitudes. na qual o paciente só poderá •ter ele mesmo e mostrar seus aspectos positivos e negativos quando se sentir ‘«'giiro cm um ambiente suficientemente bom. passando a utilizar a personificação com os bonecos que construíra e a se interessar por contos infantis e brinque­ dos variados. Aos poucos seu brincar pas­ sou a ser mais rico e simbólico. Construiu o que chamou de “família de cachorros felizes” .i/er uma alusão com a situação terapêutica. A aliança terapêutica e a confiança consolidada possibilitam um clima di* intimidade a partir do qual sentimentos de raiva ou aversão ao terapeuta podem também com eçar a emergir. seu ódio e sua inveja. i ler experiências. por fim. que alargavam seu contato com seu mundo interno. capacita o bebê a começar a existir. no início um tanto maníaca. tais ações podem ser entendidas com o actings. Essa com preensão do terapeuta se dá a partir da relação da dupla e da trama de sentimentos agressivos e amorosos que permeiam o r. Muitas vezes. mas não pode fazer tudo. a relação entre a criança e o terapeuta muda à medida i|iie o tratamento passa para a fase intermediária.'is mais diversas em oções e aos estados de seu self. É com um o uso do banheiro pelas crianças. Paulatinamente. bem com o a vazão de impulsos corporais. expressando conteúdos orais e anais sádicos e agressivos. em outras. rela­ cionando-as com os conflitos subjacentes. 404). de seus traumas reais vividos. pois isso coloca em risco o setting. tarefa que ocupou meses de sua terapia. em que ele possa ter expe­ riências que remetam . em bora com papel e função bem discriminados das demais relações de sua vida. desenhar ou falar sobre qualquer tema. Estava em terapia havia um ano quando propôs o desenho de um cachor­ ro denominado “Buldogue”. Entrou na sessão em busca desse desenho. E possível l.elaboração. pode mostrai sua agressividade. de tigelas para sua alimentação e.Crianças e adolescentes em psicoterapia 107 menina. O paciente também fornece ao psicoterapeuta indícios do m om ento propício para interpretações ou outras intervenções dirigidas a tais conflitos e dificuldades. evitando tocar nessas situações dolorosas. As possíveis causas para a interrupção prematura incluem fatores do terapeuta. 2005). Quando a criança está sofrendo por uma perda real. Mesmo com essas conquistas. por morte ou abandono. com consequente alívio dos sintomas e com crescimento mental (Luz. através de postura física e olhares para o terapeuta. A dupla deve buscar descobrir ou criar esses sentidos (Ferro. 2000). Qualquer paralisação do processo terapêutico pode mm pensada n a o s ó n partii da interação entre a transferência do paciente . é mais adequado deixar que ela mesma chegue ao insight no seu ritmo (Castro e Cimenti. respeitados e integrados à sua personalidade. Na medi­ da em que a psicoterapia evolui. diminuindo o uso de mecanismos regressivos e de actings (Zavaschi et al. que reagiria aos estímulos em uma tentativa de se livrar das experiências instintivas sem vivenciá-las. é importante lembrar que a elaboração não se limita à hora terapêutica. Nestes momentos. ou interpretações previamente saturadas pela mente do terapeuta. 2 0 0 0 ). é necessário estar atento aos sentimentos contratransferenciais para não entrar em conluio inconsciente com o paciente. tolerados. 1995). mudanças no jo g o e enriquecimento do mesmo (Castro e Cimenti. Para o psicoterapeuta. uma das tarefas mais difíceis no curso da psi­ coterapia é o defrontar-se com o profundo sofrimento da criança. O m esm o se pode pensar para os casos de estagnação do progresso terapêutico. O brincar pode ser entendido com o texto narrativo que é pré-partilhado pela dupla. é com um que a criança relate a ocorrência de insights fora da sessão. passando a utilizar com mais frequência a linguagem verbal. concreta. não existindo sentidos prontos. Também se evita interpretar quando a criança está tentando entender o que ocorre com ela. Isso pode ocorrer quando ele passa a brincar com o mesmo brinquedo. Anie Stürmer & cols. 2005).2 Em relação a esse aspecto. pode-se esperar que a criança alcance insights cada vez mais genuínos e significativos. 2005).108 Maria da Graça Kern Castro. Essas com preensões afetarão diretamente as relações da criança com os pais ou outras figuras significativas. do paciente e também da realida­ de (Luz. Sem essa espontaneidade.. O jog o é uma narrativa que faz parte de um campo emocional esta­ belecido entre a criança e o terapeuta. ela precisa mais de continência do que de interpreta­ ções. repetir o mesmo material. Nessas situações. no espaço do setting tais aspectos serão trabalhados. o verdadeiro self poderia ficar encoberto por um falso. mesmo que sob diferentes formas. os riscos de interrupção não se extin­ guem nessa etapa intermediária. A DESPEDIDA A fase final do processo psicoterápico é o período que se estende desde a primeira m enção séria de término do tratamento até o minuto final da última sessão. Términos a pedido também podem ser o final de um processo produtivo e de crescim ento (m esm o que em certos casos o psicoterapeuta ainda apontasse conteúdos a serem trabalhados). combinada para o encerramento de fato (Luz. de modo que os pais vinham se revezando para dormir com ela à noite. das três partes envolvidas quando há uma melhora visível e clara que justifique um término terapêutico. retirando-se do quarto do casal. a fase intermediária torna-se a mais longa de todo o processo. que estavam vinculadas ao sintoma de Maria. Na maioria das vezes. pois esbarravam nos conflitos dos pais de Maria. mas também sob a ótica de um fenôm eno de cam po. produto da interação dos três elementos (terapeuta. a interpretação e a elaboração dos conflitos manifestos e latentes que originaram a busca de tratamento para a criança. dos pais. sendo com binado um período para trabalhar com criança o processo de separação e a despedida do terapeuta. ou. paciente e pais) (Kancyper.3 No caso de não-interrupção do processo psicoterapêutico. Após alguns meses em psico­ terapia. ocorre o que chamamos “término com binado” . no decorrer dessa fase novos conflitos poderão emergir e novas questões poderão ser fo co do trabalho terapêutico. 6 anos. 2005). seus pais solicitaram uma entre­ vista e comunicaram a interrupção do tratamento da menina utilizando como justificativa a possibilidade de anteciparem as férias. FASE FINAL . Maria “pegou no sono ” em sua própria cama. A ideia da finalização do tratamento pode vir do paciente. A menina recusava-se a dormir sozinha. ainda. com o aparece no caso de Maria: Maria. Em função disso. geralmente os pais. com preendendo a exploração. quando uma das partes. A psicotera­ peuta desde o início percebera as dificuldades sexuais do casal. quando . do terapeuta. anunciam a decisão de encerrar o processo. que precisavam do sintoma da menina para encobrir suas próprias dificuldades conjugais e pessoais. Na semana seguinte. fo i levada a tratamento devido a dificuldades para con­ ciliar o sono.Crianças e adolescentes em psicoterapia 109 e a contratransferência do terapeuta. As tentativas de trabalhar as resistências parentais foram infrutíferas. 200 2). nas quais havia dois desenhos muito parecidos. Terapeuta: Ana. O tratamento de Ana já durava quatro anos e meio quando paciente. cada um com um carro andando em uma estrada. necessariamente. identificar os ganhos conquistados e as situações que ainda merecem alguma atenção psicoterápica (Luz. que desenhos são esses que trouxeste? Ana: Um carro indo para cada lado. então? Ana: Esse está indo para a tua casa e esse indo embora. fo i combinado para seis meses depois. terapeuta e responsáveis legais concordaram com o término. que seria a entrevista na qual é vivenciado o término do tratamento por parte da criança. brevemente. Não sei se vão se encontrar. Ana chega ao consultório da psicoterapeuta carregando duas folhas. Duarte (1989) desenvolveu a ideia de “entrevista final” em psicoterapia infantil. a separação pode ser vivenciada e trabalhada no cam po psicoterápico sem pressa. que havia sofrido abandonos. via-se que os carros andavam em direções opostas. Na primeira. a criança expõe suas fantasias de doença e de cura e. ela parece reviver de m odo sintético todo o processo psicoterápico.110 Maria da Graça Kern Castro. não sendo. A autora considera que essa “entrevista final” ocorre quando a criança pode compreender que deixará de fazer psicoterapia e irá se separar do terapeuta. O encerra­ mento então. desde o m otivo de busca até o m om ento da despedida. tudo bem ?" . quando há uma concordância entre os pais. se abanaram e disseram "Oi. na última. Anie Stürmer & cols. Obser­ vando atentamente. Terapeuta: Estão se distanciando. 2005). o terapeuta e a própria criança de que ela está bem e poderá seguir sua evolução sozinha. A autora aponta semelhanças entre a primeira entrevista de tratamento e a entrevista final. tempo razoável para trabalhar o processo de separação com essa menina. Interpretações transferenciais relativas à perda e ao luto pelo término são muito úteis para auxiliar o paciente a se despedir de seu terapeuta. Essa etapa final tem com o objetivo ajudar a criança a examinar suas condições reais para um término. Em uma das sessões seguintes. mas quando st: cruzaram pela estrada. Esse é um período em que se mesclam trocas transferenciais-contratransferenciais relacionadas às questões da realidade externa ante ao fato de. não existir mais o vínculo paciente-terapeuta nos moldes em que até então aconteceu. trabalhar as questões relativas ao luto pelo fim do relacionamento com o terapeuta. a última sessão. acho que é bem assim. ligado às pulsões. agora sem a ajuda do terapeuta. o que pode ou não ser considerado resistência. Os critérios para se decidir um término relacionam-se aos objetivos terapêuticos e à mudança psíquica alcançada pela criança em três espaços. É uma etapa de “balanços” e de elaboração da separação. indo para minha casa e tu indo para longe de mim. a responsabilidade pela criança e seguir lidando com as dificuldades que possam vir a surgir no curso do desen­ volvimento. resultantes da for- . Já falei para minha professora que ano que vem não virei mais aqui nas terças-feiras. O término do tratamento psicoterápico de uma criança é uma vitória para ela e também para o terapeuta. seja por serem prematuros ou postergados (Luz. que estamos nos despedindo. tratamentos prolongados além do necessário também podem refletir dificuldades de separação da dupla ou da família de assumir. que estão se distanciando como nós.. que envolve as relações objetais e espaços vinculares e um espaço transubjetivo. seus derivativos e fantasias. 2 0 0 5 ). Cada terapeuta tem seus próprios critérios para alta. Um tem po com bin ado para o térm ino possibilita rever etapas e examinar conquistas obtidas ao longo de todo o processo.. como sugere Bianchedi (1 9 9 0 ): espaço intrasubjetivo. podendo envolver ansie­ dades tanto do paciente quanto do terapeuta em lidar com a separação. Esse possível retorno dos sintomas pode ocorrer devido ao fato de ainda haver um trabalho de elaboração por fazer ou apenas sinalizar uma reação à eminência de separação da dupla. em que se mesclam uma gama de sentimentos com o pesar pela separação e a satisfação pelas conquistas alcançadas. percebe-se que términos fora do timing podem acarretar riscos para um bom fecham ento do processo. Nem sempre é fácil. bem com o ana­ lisar objetivos que não puderam ser atingidos total ou parcialmente. Da mesma forma. diferenciar entre o que ficou por fazer e o que é uma recapitulação d o passado. que responde pelo espaço social e cultural. eu. Diante disso. tais términos podem denunciar dificuldades con ­ tra transferenciais por parte do terapeuta. Além disso. Quando ocorrem precocem ente. embasados nas experiências profissionais e na síntese individual. espaço intersubjetivo.Crianças e adolescentes em psicoterapia 111 Terapeuta: Então são carros que se conhecem. é possível que o luto não seja elaborado suficientemente. Ana: E. Em diversos casos há um retorno dos sintomas ou até uma piora em resposta à possibilidade de término iminente. portanto. pode ser indicada uma redução da frequência das sessões no decorrer desse processo de término. .Apresenta uma ideia mais realista do terapeuta e de suas funções.Apresenta com portam entos sublimatórios. 2005). com o reconhecim ento de que circunstâncias futuras podem produzir novos problemas e que um outro período de trabalho pode se tornar necessário (Castro e Cimenti. privilegiamos a de Kemberg (1995). desenvolvendo novos interesses e criatividade. Anie Stürmer & cols. A elaboração da separação é apenas o ponto de partida para que o paciente possa seguir sozinho e com mais autonomia a sua caminhada. mação e do tratamento pessoal (Castro. . dando-se conta da perspectiva de tem po e apresentando planos futuros. com o tristeza e pesar. que ficam negados. demonstrando bom relacionam ento com ele. . sendo desfeitos os vínculos transferenciais. pois mascara os processos de separação e elaboração de lutos. propõe-se que a data da última sessão também seja acordada entre ambos (Luz. o que algumas vezes pode ser sugerido pela própria criança. Sendo o término programado de comum acordo entre paciente e terapeuta. desfrutando das conquistas obtidas no decorrer do processo. acom panhados de satisfação com seus ganhos. .Retoma o curso de seu desenvolvimento sem tantas barreiras e sofri­ mentos. o término pode ser considerado uma etapa que fica em aberto. Além disso. .Demonstra sentimentos ambivalentes com relação ao término. 1989).Obtém insights. Ainda que essa data seja definitivamente fixada. . . que sugere alguns indicadores por parte da criança: . . por isso. Em relação a esse aspecto. é importante ressaltar a inadequação de concretiznr o término em período imediatamente antes ou após as férias.Demonstra mudança na qualidade das suas com unicações. O final de um processo psicoterápico implica também na perda da onipotência. Entre inúmeras listagens de critérios de alta. havendo aumento de verbalizações.Usa defesas mais flexíveis e evoluídas. 200 0). em alguns casos.112 Maria da Graça Kern Castro. tornando-se mais reflexiva na busca de entendi­ mento acerca das causas dos fenôm enos que observa em si e na realidade externa. É claro que não foram trabalhados todos os aspectos e conflitos da criança.Passa a trazer mais material referente à vida cotidiana. intermediária e final). o que contribui para aumentar a com plexidade do processo. caso seja necessário. A receptividade em ocional do psicoterapeuta e sua habilidade para criar um espaço psicoterápico continente. porventura. sendo que essas etapas se caracterizam pela forma e pelos conteúdos pelos quais a psicoterapia transcorre. Por isso. a fim de explorar os sintomas e tentar resolver as dificuldades em ocionais. 0 brincar. “ as fantasias não-domesticadas” e o pensar sobre as experiências em ocionais que brotam nas sessões. constituem uma aliança de trabalho e um vínculo único e diferenciado dos demais. . é fundamental que o terapeuta de crianças esteja conectado com o seu m undo interno e com seus próprios aspectos infantis. acompanham o caso. é imprescindível para a realização de uma psicoterapia. via relação transferencial-contratransferencial.Crianças e adolescentes em psicoterapia 113 a vivência de uma boa experiência psicoterápica na infância mantém as portas sempre abertas para que um novo processo possa ser iniciado em outro mom ento de vida. Ainda que o terapeuta deva estar atento a todas as partes envolvidas. Uma peculiaridade do tratamento nessa faixa etária consiste no fato do trabalho criativo envolver não apenas o paciente e o terapeuta. em alguns casos. NOTAS 1 Ver Capítulo 3: Desenvolvimento emocional normal da criança e do adoles­ cente. outros familiares. 2 Vim Capítulo 5: A clínica com crianças c adolescentes: o processo psicoterápico. que acolha a espontaneidade. a escola e demais profissionais que. para ser receptivo com o rico e m ultifacetado m undo interno da criança. J Vci Capítulo (>: () luxar dos pais na psicoterapia d«* crianças e adolescentes. o cerne do trabalho terapêutico e o principal veículo para mudanças psí­ quicas é a relação psicoterápica estabelecida com a criança e a compreensão dos fenômenos transferenciais e contratransferenciais. Terapeuta e criança se conhecem . CONSIDERAÇÕES FINAIS O processo psicoterápico com crianças abrange a avaliação e as três etapas de tratamento (inicial. mas também os pais e. pois existe i\demanda. fantasias. desde o início até o final do processo da psicoterapia. os pais demonstram que muitas etapas anteriores foram vencidas. por outro lado. . A percepção de que um filho precisa de atendimento psicoterápico pode gerar desconforto e culpa nos pais. ansiedades e conflitos. principalmente a do reconhecimento de que algum tipo de ajuda se faz necessária. muitas vezes. Este capítulo abordará a importância da participação dos pais ou res­ ponsáveis. Assim. manu­ tenção e término do processo psicoterápico.0 lugar dos pais na psicoterapia de crianças e adolescentes Anie Stürmer Clarice Kern Ruaro Lisiane Alvim Saraiva Na maior parte dos tratamentos de crianças e adolescentes. o contato inicial com o terapeuta é realizado pelos pais ou responsáveis. mas sim em decorrência de comportamentos desadaptativos ou crises desenvolvimentais que trazem preocupações aos pais. mas. Os psicoterapeutas que trabalham com essas faixas etárias. há o temor o a resistência de sair dos/u/iw (/no. a prática da psicoterapia se mostra indissociável da entrada de muitos discursos. com o em qualquer início de tratamento. o desejo de entender e resolver a conflitiva. levando seu filho para atendimento. a busca não se dá de forma espontânea. Principal­ mente no caso de crianças. à escola e ao pediatra. simultaneamente. O lugar ocupado pela família é extremamente relevante na psicoterapia de menores. Ao fazer contato com um psicoterapeuta. e a partici­ pação dos pais ou responsáveis é fundamental para a consolidação. deixando transparecer a singularidade própria da psicoterapia de orientação psicanalítica. Desde o primeiro contato telefônico. se veem frente a questões inescapáveis relacionadas com a presença dos pais nos tratamento dos filhos. o sentimento de ambivalência está subjacente à che­ gada dos pais e do paciente. O papel • In*.Crianças e adolescentes em psicoterapia 117 Algumas peculiaridades também podem intervir na relação pais-responsáveis/psicoterapeuta. Pais de pacientes autistas ou psicóticos exigirão do psicotera­ peuta grande habilidade de manejo. Diferentes entendimentos . pagar pelos honorários do profisulunal. portanto. u i sua ausência. não se dá apenas no nlvel do mundo fantasmático. O fato de o paciente ser dependente de um adulto. geralmente um I imiliar. com o a patologia da criança ou da família. pois precisam se sentir apoiados para levar a psicoterapia adiante.i psicoterapia de seus filhos. existe o com prom isso legal de contatá-los e. cabe questionar: com o será a entrada e qual a IMilicipação destes na psicoterapia da criança ou adolescente? Que espai. dúvidas e ansiedades? Como • !il< im ciai suas demandas das trazidas pelo paciente em questão? AIIOR DAG EM HISTÓRICA E TÉCNICA DE DIFERENTES AUTORES Iodas essas reflexões se fazem presentes desde os primórdios do li filamento psicannlílicn com crianças e jovens. fatores de realidade se fazem igualmente (ui sentes. sendo.ii In ao para colocar suas preocupações. de pelo menos um dos pais ou responsáveis para a realização de atendimento sistemático de criança. o profissional comunicará o fato às autoridades com pe­ li ui es. auxiliados em suas dúvidas e . para tal. conforme o I o parágrafo do mesmo artigo. ou de qual forma os pais serão inseridos no percurso ' l. Dessa forma. adolescente ou interdito. conform e a legislação vigente. por exemplo. esse contato se faz imprescindível. Independentemente de com o essa participação será traba­ lhada tecnicamente. participar efetivamente da psicoterapia da criança. Nesse ponto. A INSERÇÃO DOS PAIS NO PRO CESSO PSICOTERÁPICO: A SPECTO S LEGAIS A participação dos genitores ou responsável legal no tratamento de menores de idade é tema disposto no artigo 8° do Código de Ética Prolissional do Psicólogo (20 0 5). ou seja. criança e terapeuta. visto que são os primeiros que têm a incum­ bência de trazer o filho para as sessões.mgústias através de contatos mais seguidos com o terapeuta. visando proteger os interesses do menor e do próprio psiCOterapeuta. faz com que o contrato de tratamento implique o envolvimento < !< • pais. Esse artigo regula a obrigatoriedade de o profissional obter autorização. adultos no decorrer do tratamento. 118 Maria da Graça Kern Castro, Anie Stürmer & cols. e perspectivas teóricas dentro da linha psicanalítica seguem em contínuo aprimoramento e expansão, na forma de inserção dos pais, culminando inclusive em controversos posicionamentos (a abordagem kleiniana é diferente da visão da Escola Francesa, por exem plo), que por sua vez terão influência direta sobre a técnica empregada. O caso que pode ser considerado o primeiro tratamento psicanalítico realizado com uma criança foi o clássico “Pequeno Hans” , de 1909. Nesta ocasião, Freud (19 76 ) atuou com o supervisor do pai do menino, este sim desempenhando o papel de analista do próprio filho. Freud nunca tratou uma criança diretamente, mas esse caso tem um inegável valor histórico, pois permitiu que os impulsos e desejos sexuais infantis fossem vislumbra­ dos diretamente, corroborando seu recém publicado “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” , de 1905. Klein, pioneira da psicanálise infantil, tinha uma visão bem própria em relação à participação dos pais reais no tratamento de crianças, visto que, para ela, os pais que tinham relevância eram os “fantasiados” , perten­ centes à realidade psíquica do paciente. Entendia que avistar os pais frequentemente dependeria de cada caso em particular, e “confessava” que, muitas vezes, achou melhor limitar esses encontros, a fim de “evitar atritos com a mãe” (Klein, 1981, p. 117). Dessa forma, o conflito era per­ cebido prioritariamente com o advindo do mundo interno da criança e de suas imagos parentais internalizadas, sendo pouco enfatizado o caráter relacional e intersubjetivo (Zornig, 2001). Klein (1981) afirmava que, para uma análise infantil alcançar suces­ so, era necessário estabelecer uma relação de confiança com os pais; só assim o analista estaria em condições de obter informações úteis sobre o comportam ento da criança fora das sessões. Para a autora, os pais esta­ riam incluídos no cam po de análise, pois a criança depende deles, mas eles não estão sendo analisados. Essa relação teria peculiaridades por to­ car de perto nas dificuldades e no sentimento de culpa dos pais que, ao recorrer ao tratamento para o filho, estariam admitindo sua responsa­ bilidade sobre a doença da criança. Além disso, compreendia que a mãe nutriria ciúmes da relação confidencial desenvolvida pelo paciente e o analista. Klein acreditava que esse ciúme se derivava da rivalidade da mãe com sua própria im ago materna, com o uma mãe interna inflexível que exigiria a restituição dos filhos que lhe haviam roubado. A análise dc crianças era por ela entendida com o sendo parecida com a do pacientes adultos, pois utilizava a transferência, desdo as primeiras sessões, para acossai os substratos mais profundos d o psiquismo inlantil, Crianças e adolescentes em psicoterapia 119 remetendo às primeiras relações objetais e às suas fantasias inconscientes (Zavaschi et al., 2005). Klein (1932) se abstinha de interferir na educação das crianças, a menos que observasse erros crassos no tocante ao manejo dos pais. Com­ preendia que dessa intervenção só poderia “advir novos entraves à aná­ lise, provocando efeitos desfavoráveis na atitude dos pais com seu filho” (p. 113). Reiterava que a relação que estabelecia com os pais de seus pe­ quenos pacientes era com o objetivo de “lograr que auxiliem nosso tra­ balho de forma passiva; devem se abster tanto quanto possível de qual­ quer interferência, quer fazendo perguntas que incitem a criança a falar da análise em casa, quer alimentando as resistências que ela possa abri­ gar” (p .114). Quando a criança era dom inada por resistências, os pais deveriam auxiliar para que comparecesse às sessões. Assim, a ambivalência dos pais à análise do filho estaria sempre per­ meando todo o tratamento. A situação se tornava mais favorável quando a análise chegava ao término ou em etapas mais avançadas, pois o “desa­ parecimento ou a redução da neurose tem excelente efeito sobre os pais” (Klein, 1981, p. 116). Além disso, sob essa perspectiva, é muitas vezes difícil o reconhecimento da melhora do paciente, pois a terapia seria “pre­ ventiva” e, por conseguinte, não percebida pelos genitores. A doença não afetaria a vida cotidiana da criança, tal com o a enfermidade neurótica afeta a do adulto, por exemplo. Anna Freud (1 9 6 4 ), por sua vez, valorizava os vínculos com os pais reais, mas destinava a esses o lugar de educadores, imprimindo um cará­ ter pedagógico ao tratamento. Sua abordagem terapêutica recaía predo­ minantemente na análise das defesas egoicas e das competências alcança­ das em cada estágio do desenvolvimento, ponderando que a meta do ana­ lista seria manter a boa vontade do paciente para trabalhar em conjunto. Para tal, em determinados momentos, o analista poderia sugerir que as crianças brincassem um pouco na sessão, interrompendo o trabalho analílico, a fim de não pressioná-las demais e manter sua ansiedade em um nível que elas pudessem suportar (Sandler, 1990). Nos comentários realizados no livro Técnica da psicanálise infantil, cm parceria com Sandler (1990) Anna Freud enfatizou diversas vezes a importância da existência de uma fase preparatória à terapia, para auxili.n c atrair a atenção da criança para o conflito interno, despertando sua hostilidade frente à parte patológica, a fim de consolidar a aliança de tralamento. Acreditava que uma relação afetiva imediata poderia não desen­ volvei necessariamente uma aliança adequada, mas poderia ser útil ao 120 Maria da Graça Kern Castro, Anie Stürmer & cols. trabalho terapêutico. A cooperação da criança com o terapeuta deveria surgir de seu desejo em comunicar suas ansiedades. Caso isso não ocor­ resse, seria sinal de que a criança estaria relutante em entrar em tratamento, o que não era percebido por Anna Freud com o resistência. A relutância poderia existir devido à existência de segredos na família, conflitos de leal­ dade, ou poderia estar, também, manifestando a ambivalência inconsciente de um dos pais ou de ambos sobre seu tratamento (Sandler, 1990). Em dissertação de mestrado que teve por objetivo realizar uma revisão crítica sobre o lugar dos pais na história da psicanálise infantil, Atié (1999) examinou a posição de diversos autores, inclusive Anna Freud, no que tange essa questão. Referiu que Anna Freud percebia as dificuldades enfrentados pelo analista ao lidar com a dependência da criança em relação aos pais, mencionando que o início, a continuidade e a conclusão do tratamento só poderiam ocorrer caso fosse possível confiar na compreensão dos genitores. Propôs que a autoridade do terapeuta deveria ser sentida pelo paciente com o sobressalente à autoridade dos pais. O terapeuta, portanto, deveria se colocar no lugar do Ego-Ideal da criança no decorrer de sua análise. Os pais, por sua vez, aceitariam ou não essa posição do analista, conformando-se com os pedidos dele e dividindo o trabalho analítico e educacional, ou se opondo e utilizando a criança com o objeto de disputa. A fim de evitar a segunda hipótese, Anna Freud buscava investigar se os pais possuíam o que chamara de “compreensão analítica”, ou seja, se conseguiam concordar e entender as diretrizes e ações pedagógicas que seriam propostas pelo psicanalista no decorrer do tratamento da criança (Atié, 1999). A dependência da criança em relação aos pais, embora limitasse o trabalho do analista, trazia também aspectos positivos, na medida em que possibilitava ao terapeuta orientá-los a implementar modificações no mun­ do externo da criança. Assim, os contatos com os pais do paciente eram percebidos com o extremamente importantes por Anna Freud, pois esses seriam foco de orientação e acompanhamento no decorrer do tratamento da criança. A intervenção ocorria seguindo critérios pedagógicos e não a partir de um trabalho com as fantasias inconscientes dos pais (Atié, 1999). Anna Freud também entendia que o fato de a criança não estabelecer transferência seria um empecilho à análise infantil, posto que ainda se encontrava sob influência dos pais reais, sem condições, portanto, de atualizar tais relações no contexto da análise na relação com o terapeuta (Zavnschi et al., 2005). Considerava, por conseguinte, as c rianças muito frágeis para se submeterem à análise (atendeu crianças a pailii da latência), mio acieditando que elas pudessem desenvolvei a n iir.lnenna e é per­ meada pela produção de fantasias e do desenrolar do processo edípico (Zornig. entendem os que as diferentes linhas psica na líricas construíram posições peculiares em relação à participação dos pais na psicoterapia de crianças e adolescentes. colocan do a dimensão simbólica do sintoma infantil com o ocultando questões parentais. desejos e discurso dos pais. O terapeuta não pode perder de vista a entrada de todos esses latores na transferência. Ao psicoterapeuta cabe. 2001). ou seja. Nesse sentido. deslocando a demanda dos pais do sintoma da crian­ ça. 2 004). 2001). singularizando suas narrativas (Zornig. na qual se destacam as contribuições de Dolto e Manonni .ambas influenciadas pela teoria de Lacan . mas da articulação entre o lugar proposto por eles e a construção da neurose infantil. pode acabar se alienando no desejo do outro e estabelecendo relações narcísicas e simbióticas.é sustentada a posição de que a neurose dos pais possui um papel fundamental no sintoma da criança. O sintoma não fica reduzi­ do às demandas parentais. prom ovendo um espaço de escuta para a criança ser ouvida com seus desejos e discurso próprio. Traz para o primeiro plano a p o ­ sição que a criança o c iip ã lio s fantasmas. ficando ela fixada em um determinado lugar em virtude dos desejos e das fantasias deles. A partir dessas considerações. o sintoma infantil teria a fun­ ção de esconder a “ mentira” do adulto. e que. 1994). dessa forma evitando a an­ gústia de castração. entendendo que a abordagem psicanalítica deveria vir associada. sujeitando-se a preencher o que falta na mãe. Para a Escola Francesa. A criança tem suas singularidades e não é apenas um re­ flexo ou espelho dos pais. Conform e o entendimento dos autores da Escola Francesa. Além disso.Crianças e adolescentes em psicoterapia 121 associar livremente em função de sua imaturidade psíquica. os pais e a criança se entre­ laçam em um campo transferencial único. elaboradas a partir de . então. nas entrevistas. Há ainda um fator que diferencia a psicoterapia com crianças e jovens que se dá em função de uma “amarração” entre o paciente e as demandas exteriores a ele. Assim. intervir com o elemento separador. O^sintoma da criança depende não só da articulação imaginária inconsciente estabelecida com os pais. as intervenções clínicas podem tomar duas direções: a questão familiar sendo o sintoma da criança enten­ dido com o um deslocam ento do acontecido na sexualidade dos pais ou uma intervenção que se interessa pelo desejo do sujeito e constituirá uma prática de subjetivação. a criança procura se identificar com o que suspeita ser o desejo materno. a uma ação educativa (Patella. O desaparecimento do sintoma na c riança provoca eleito sobre os pais e vice-versa (Kupfer. portanto. 2004). Concordamos que é imprescin­ dível a participação dos genitores ou responsáveis em todo o processo psicoterápico. Anie Stürmer & cols. esta­ belecer e desamarrar questões e fantasmas da história de cada família que possam estar impedindo o desenvolvimento sadio do pequeno paciente ou do adolescente. É necessário ouvir as diferentes demandas para retirar a criança de uma determinada função na estrutura familiar. as histórias transgeracionais. representado pela família e pelo social. C‘c H O ser humano já nasce inserido em uma cultura que o antecede. mesmo que “atravessada” pelas projeções e pela subjetividade dos seus pais. suas próprias experiências e observações. vindo pela palavra. p o­ de ser efetivada de forma positiva. bem com o. Estar atento às manifestações resistenciais dos pais ajudará a prevenir abandonos e forta­ lecerá a relação com o terapeuta. já se fazem inscritos e vibran­ tes os valores. é imprescindível: a criança tem uma vida mental própria. 1998. entendendo sua dinâmica. Na mente dos seus progenitores ou cuidadores. em nosso entendimento. Ila tam bém loimas de . mas sim com o intuito de conter ansiedades. seja com crianças ou adolescentes. 55). A tarefa do psicoterapeuta será a de auxiliar na discriminação e sepa­ ração desses aspectos através de contatos. e o intrapsíquico na consti­ tuição do sujeito” (Kaès. A transmissão geracional. “ É possível pensar na articulação fundamental entre o j nter sub­ jetivo. Deixar os pais à parte do tratamento apenas suscitará fantasias e resistências que poderão criar im­ passes terapêuticos a respeito da terapia. Ter um olhar para a criança em separado dos pais. ao se aproximar da história familiar. p. os mitos familiares e os proje­ tos identificatórios (Lisondo. Manter encontros periódicos com os pais auxilia a diminuição das fantasias persecutórias. ASPECTO S TRANSGERACIONAIS Para com preender a constituição psíquica do sujeito.122 Maria da Graça Kern Castro. então. faz com que venham à tona segredos ou aspectos ocultos. em um elo que faz parte da constituição d o sujeito desde o seu início. pois demonstra por meio do sintoma a própria subjetividade e deve ser ouvida com o sujeito de pró­ prio discurso. que não configurem um setting de tratamento pessoal. é básico incluir o aspecto transgeracional e sua articulação entre o intrapsíquico e o intersubjetivo. também. que vão se evidenciando na medida em que é construída uma relação de confiança. veio a tratamento trazida por sua mãe por apresentar aftas recorrentes na boca e estar com problemas de rendimento escolar. Rosa morou um tempo com a menina na casa da mãe. onde jaziam “objetos mortos”. Aos 18 anos. o não-simbolizado se repete até se fazer “ouvir” de alguma forma. Esse entendimento possibilitou que a terapeuta trabalhasse com sua mãe nas sessões reservadas a ela. “ amarrando” o sujeito a algo que ele não tem acesso. Rosa perdeu sua irmã. que Vitória chamava de avô. abriu um espaço para que repensasse seus lutos e suas culpas. mas acabou “entre­ gando a filha" para a avó criar e fo i morar com outro companheiro. morre o companheiro da avó. não-nomeável. A terapeuta. os quais tinha de carregar em seu mundo interno. Um ano antes da busca de terapia. faziam parte da casinha e tinham que ficar na caixa. buscando novas formas de lidar com a menina auxiliando a entender o “porquê” de sua dificuldade em assumir sua filha e estabelecendo a possibilidade de falar sobre suas perdas trazendo para a consciência os lutos que permeavam «^ ^ . Assim. Esses lutos apareciam nas fantasias trazidas no jogo da menina. A terapeuta entendeu que Vitória tinha um “cantinho”. soube que estava grávida. Seu namorado. na cor preta. mas que se repetem por gerações. mãe de Vitória. pai de Vitória. mas não convi­ veu com Vitória. Esse conteúdo ficou contido na mente do terapeuta à espera do momento propício para ser devolvido para a menina. em um “cantinho”. pois constituiu outra família e a vê poucas vezes. Rosa. a terapeuta observou os váiios lutos na família e a falta de espaço para elaborá-los. 8 anos. resei-vou um espaço onde colocou objetos confeccionados por ela com massinha de modelar: em miniatura. Em seguida. Situações traumáticas não representadas nem nomeadas podem emergir em gerações seguintes com o fantasmas. ao atender a mãe. como no exemplo a seguir: Vitória trazia conteúdos de que o pátio de sua casa estava contaminado com um vírus e tinha de ser desinfectado. pois interpretá-lo naquele momento seria saturar a mente da criança. vítima de um atropelamento. resultantes do não-dito. Vitória. com o perigo de que “todos os animais da casa m o r r e s s em E m sua caixa individual. Ao se inteirar da história familiar. guardados. Logo. assumiu a paternidade.Crianças e adolescentes em psicoterapia 123 transmissão pelo negativo. a terapeuta soube de diversos episó­ dios que envolviam perdas e lutos em sua família. sua mãe casou novamente e teve duas filhas deste relacionamento. perdeu seu pai na infância. de 8 anos. Através das aftas. permite a expressão e ressignificação do “não-dito”. pois há tendência a anular pelo terceiro vértice d o triângulo. 2 0 0 6 ). através do sintoma de Vitória. Anie Stürmer & cols. Se essa é im possibilitada. seria o de cham ar o pai para participar d o p rocesso de tratam ento da filha. ' '< a vida dessa família e que Vitória veio “tamponar”. como se houvesse uma ausência de figura mas­ culina na mente das mulheres da família. Nesse caso. Sua mãe não se sentia autorizada a assumir o papel de mãe. a partir dessas con statações. ~ 0 . s y ^ y Vitória mostrava em seu corpo 0 choro não-chorado da família. como fazia através das aftas. Esse luto. A estruturação familiar fica comprometida com a família transgeracional. trazendo à tona a possibilidade de desam arrar os fantasmas trans­ geracionais dessa família. Além disso. a entrada de um terceiro (n o caso 77 0 psicoterapeuta) form aria a outra ponta d o triângulo. por sua vez.124 Maria da Graça Kern Castro. . Vitória. obstacu lizando a integra­ çã o dos papéis paterno e m aterno n o psiquism o da criança. Os objetos transgeracionais exercem uma demanda de desinvestim enlo da vida com um . F . sentiu-se obrigada a “entregar” a filha para a avó no lugar da irmã que havia falecido tragicamente. mãe e filha form ariam um a “ dupla fechada” que prescinde da entrada d o terceiro. com o se houvesse uma “fidelidade” aos mortos. com o se houvesse uma dívida com os antepassados. O tratamento tinha como foco fazer com que Vitória pudesse expressar seus sentimentos sem ter que somatizar. a falha na triangulação que se repete desde as gerações anteriores (a figura masculina ausente ou distante) também é um aspecto transgeracional. com en ­ trevistas periódicas. Nessas con d ições. op ortu n iza d o a diferen ciação e dessim biotização. a terapeuta se co lo ca co m o outro m o ­ delo. p ode haver a insuficiência d o papel paterno ou ausente ou não referido no psiquism o m aterno. 2005). seja pai ou psicoterapeuta. sem espaço psíquico para “ser". () fantasma apareceria na criança pelas lacunas percebidas daquilo que niU) é dito pelos pais (Pereira. A substituição d o pai pela m ãe na situação triangular edípica é disfuncional e leva à patologia. ninguém entra e há certo triunfo (M azzarella. Outro objetivo da terapeuta. as dores e a raiva que ficavam expressados no sintoma da paciente. que exige sacrifício. “não-chorado” e não-elaborado pela família. se sentia com um “cemité­ rio” (o “cantinho” reservado em sua caixa) em seu mundo interno. Dessa maneira. Para isso. que acabam por “descartar” os homens após engravidarem. ao ser endereçado para tratamento. desenvolvendo a possibilidade de pensar e de desenvolver vida psí­ quica própria para essas gerações encarceradas” (Pereira.. conform e a especificidade de cada caso. refletindo-se nos cruzamentos das transferências que ocorrem no campo. Outras questões merecem atenção: qual é a posição que o filho ocupa no equilíbrio psíquico dos pais. . fazendo-se valer de soluções abertas e criativas. com o. na dinâmica familiar e na determinação de lugares já instituídos. u. da sua família com o um todo? Possuem estes capacidade para suportar e manter o processo psicoterápico do filho? (Reinoso. por exem­ plo. Ouvir as queixas e preocupações dos pais não apenas se presta para que se tente entender o que se passa na família e na criança em questão. de um luto patológico. já que modalidades variáveis de inclusão de pais e demais familiares podem se mostrar bené* . ficará encriptada. 2002). O “fantasma” designa algo que está no psiquismo com o herança de um trauma. 1996y v. pairando com o uma alma penada. o que torna mais com plexo o cam po transferencial. Deve-se lembrar que as m odificações efetuadas pelo tratamento na criança trazem reflexos na subjetividade dos pais. inclusive com sessões que reúnam a família inteira. pois poderá provocar atuações e contra-atuações (Rosemberg. com todas as suas vicissitudes. Isso não poderá ser desconsiderado pelo terapeuta. o trauma vivido com o “ impensável” pela mãe e avó faz com que a geração seguinte desenvolva sintomas. as aftas que condensam o “não-dito” e “não-pensado” pela família. que não pode ser elaborado na cadeia geracional.Crianças e adolescentes em psicoterapia 125 No exemplo acima. 2002). Isso exige do terapeuta uma postura mais flexível. há entrecruzamento de transferências oriundas tanto da mãe quanto do pai. mas também abre a possibilidade de identificar qual a demanda da criança e qual a demanda de seus pais. Tais mu­ danças podem com prom eter a homeostase familiar ou a estrutura do casal. Além das transferências bipessoais com o paciente. O trabalho com os pais ao longo do tratamento pode seguir de várias formas. 20PC ~ MANEJO TÉCNICO E POSTURA TERAPÊUTICA A multiplicidade transferencial (Iancarelli Filho.o u ca do tratamento com crianças e adolescentes. o que esperam da psicoterapia e se possuem condições para efetivá-la. voltada ao que não é dito. A escuta do terapeuta. colocando o terapeuta em uma posição de contínua atenção.u ^ . “favorecerá a elaboração e a metabolização desses conteúdos cindidos. quais são as fantasias e expectativas. A vivência do trauma. 126 Maria da Graça Kern Castro. pois mesmo que questões da neurose parental e /o u das tramas transgeracionais estejam presentes. para que as suportem e as aceitem (Siquier e Salzberg. rapidamente se encaminhava os pais para sua pró­ pria psicoterapia ou tratamento de casal. A presença dos pais oferece uma ótima oportunidade de observar com o cada família interage. 2001). passível de inúmeros conflitos e de intenso sofrimento (Castro e Cimenti. estando disponível para que os pais tragam suas ansiedades e que possa respaldá-los na delicada tarefa de manter um filho em tratamento (Castro e Cimenti. É par­ te da competência terapêutica auxiliá-los a com preender suas fantasias a respeito da criança e das mudanças que o tratamento poderá ocasionar. acrescido de uma escuta que reconheça a importância fun­ damental que seus pais têm na estruturação psíquica. a fim de. . quais são os mecanismos defensi­ vos predominantes. Não ter pressa em remeter os pais para um processo psicoterápico individual próprio (caso seja indicado) é uma cautela necessária. Há alguns anos. consi­ derando o papel que a criança ocupa naquela família e todo o contexto envolvido. dessa forma. Uma psicoterapia. poderá reconhecer tais situações. O segundo plano seria dar lugar para a participação dos pais. assim com o reconhecer que seu discurso funciona com o uma matriz simbólica fundamental para a constituição psíquica da criança. 2000). O terapeuta deve sempre considerar e trabalhar em dois níveis: o primeiro seria o trabalho psicoterápico com a criança ou adolescente pro­ priamente dito. Isso significa um trabalho na posição subjetiva do paciente frente ao desejo de seus pais. o paciente tem um mundo in­ terno próprio. O psicoterapeuta. “ pois fazer uma apressada transposição entre o encontro com os pais de carne e osso e a sintomatologia da criança é estabelecer uma visão simplista do caso” (Mazzarella. f icas em muitos casos. O inconsciente infantil não é um sim­ ples reflexo do inconsciente parental (Zornig. 2004). 2000). que é único. essa visão mudou. de quem deverá se separar (Siquier e Salzberg. através de um suporte terapêutico. se existem aspectos dissociados e identificados proje­ tivamente de uns membros nos outros. p. 25). incluirá um trabalho rea­ lizado com a criança. com o seu psiquismo. 2006. É impossível excluir os pais da psicoterapia. nos cuidados e na educaçito da criança. ao longo do tratamento. 2002). Anie Stürmer & cols. Hoje. manejá-las e trabalhá-las com o paciente e os familiares envolvidos (Zimerman. quais os papéis existentes e se há mobilidade entre eles. pessoal e distinto dos demais. 2002). de acordo com as singularidades de cada caso. A mãe refere que lembrou das conversas com a terapeuta e entendia t/ue Adriana eslava dando um recado para eles. Adriana se referia aos seus pais. não conseguindo dissuadir os pais de sua decisão. ter '‘manias” e não brincar com crianças de sua idade. que se sentiam “deixados de lado”. unão regados” pelo jardineiro/ terapeuta. esta­ vam considerando que a remissão dos sintomas era suficiente. Mostrava que sua atitude simbiótica era decorrente também de sua agressividade. veio a tratamento por apresentar dependência excessiva da mãe. Em um plano consciente. pois Adriana havia comen­ tado com ela sobre o filme. No dia seguinte. os conteúdos da sessão eram de grande agressividade. não conseguir se adaptar à escola maternal. seus temores em relação a crescer e se independizar da mãe. Nas primeiras sessões. . Adriana era inconstante: às vezes enti'ava bem. mas referia reiteradamente que Adriana não “gostava” dele e que pre­ feria a mãe a ele. A tera­ peuta entendeu junto a eles que interromper o processo seria precoce. então. se ficassem afastadas. mesmo que 0 sintoma tivesse sido esbatido. temia que algo muito grave acontecesse com a mãe. a mãe entrou na sala com a paciente. O desaparecimento do sintoma fe z com que os pais decidissem encerrar 0 tratamento. Adriana não demonstrou as dificuldades anteriores. man­ tendo-se afastado afetivamente dos temas relativos a ela. caso se separassem. interagia pouco com 0 pai. Em sua última sessão. e 0 jardineiro só havia regado uma. No primeiro ano de tratamento. nas demais sessões. Os esforços da terapeuta foram em vão. Além disso. decidida apenas por eles. que afazia não se desgrudar dela e dos temores de que as fantasias agi'essivas se tornassem realidade. algumas sessões para finalizar 0 tratamento. 4 anos. se eximia do relacionamento com a filha. Nas sessões de despedida. O pai comparecia às sessões para o casal. aceitan­ do a separação da mãe. a mãe liga querendo retomar o tratamento e concor­ dando que o processo não estava finalizado. No ano seguinte. foram trabalhadas as fantasias agressi­ vas de Adriana. ao iniciar 0 período letivo. ingressando na escola sem problemas. em outros momentos. A figura paterna era ausente. as outras duas não haviam crescido”. Aissim. Quando entrava sozinha. sendo esclarecido aos pais que se tratava de uma interrupção. Adriana fe z um desenho dizendo que “havia três gramas a serem regadas. em outras chora­ va e não queria se separar da mãe. Adriana trouxe 0 conteúdo de um film e no qual a personagem havia caído dentro de um poço e não con­ seguia ser salva.Crianças e adolescentes em psicoterapia 127 Adriana. Foram combinadas. Por mais que a decisão de procurar uma psicoterapia tenha sido pensada e amadurecida. os sentimentos da mãe quando a terapeuta funcionava como “terceiro”. portanto. Foi combinada. auxiliá-los a tolerar as dores e culpas causadas por essa ferida. Essas ses­ sões não configuravam um tratamento pessoal. A realização de entrevistas periódicas com os pais pode auxiliá-los a perceber seu grau de tolerância com o sofrimento do filho e com o seu próprio e o ritmo que cada família suporta frente às mudanças da criança (Siquier e Salzberg. foram enfocados aspectos pessoais de cada um deles que interferiam em seu relacionamen­ to com Adriana. então. finalmente. por exemplo. realizou-se um novo contrato em que a tera­ peuta tinha encontros periódicos com cada genitor em separado e tam­ bém com a dupla. para auxiliar no desenvolvimento da psicoterapia de Adriana. O pai começou a participar mais ativamente do tratamento. o terapeuta. muitas vezes. Anie Stürmer & cols. variando na intensidade. É importante que o terapeuta considere a longa trajetória que ocoí reu antes que os pais ou responsáveis chegassem ao seu consultório. como. 2002). . sendr > esse.128 Maria da Graça Kern Castro. de acordo com seus critérios teórico/clínicos. trazendo a filha para as sessões. É nossa tarefa. mas sim um acompanha­ mento. o último recurso buscado para aliviar < > sofrimento da criança/adolescente ou mesmo de seus pais. Es­ se tratamento fo i levado a termo e só finalizado quando terapeuta. pois geram desconforto e são muito dolorosos paia serem mencionados logo no início. foram “regados” mais de perto. Nas ses­ sões com o pai. a busca de tratamento para um filho expõe seus pais a uma delicada situação de vulnerabilidade narcísica. e. pais e paciente acordaram sobre o momento apropriado. a partir daí. O primeiro encontro com o terapeuta é sempre permeado por angústia e culpa para < > • pais. Nas sessões individuais com os pais. O término do tratamento. e o que em sua história impedia que isso acontecesse. Como já salientado. o foco era entender sua dificuldade em assumir seu papel paterno. também. nova sessão com os pais que. a última opção. só pode ser com preendido atra­ vés de uma decisão conjunta das partes envolvidas: paciente/terapeuta e pais: a criança tem o direito de manifestar se deseja e está apta para o término. que a separava da filha. as situações e os fatos que envolvem e mobilizam maior ansiedade geralmente serão evitados uns primeiras entrevistas. obser­ var se o paciente apresenta sinais de integração psíquica e crescimento emocional. os pais avaliarem quando se sentem satisfeitos com o tratamento realizado. Tal movimento pode promover mudanças e desacomodações. Conduzindo a entrevista fami­ liar da forma com o se conduz uma entrevista de grupo. avaliando a dinâmica da família em questão. e tal as| M tio não for trabalhado. Marina sofria muito com seus sintomas. por serem dem a­ siado intensas.içadoras para os pais e para a configuração familiar vigente. seja pela inter­ rupção do tratamento ou por uma estagnação deste. . A doença da família emerge graças ao sintoma de seu expoente mais indefeso e. o progresso dificilmente se dará. parecendo mais um investigador formulando um inquérito acerca das condutas da família. tente projetar em um membro apenas toda sua patologia (Ferro. pois. é comum que a família. Com o decorrer do tratamento. vieram em busca de tratamento para a íilha.im ao grupo familiar.Crianças e adolescentes em psicoterapia 129 Os pais devem ser ouvidos com toda atenção e acolhimento necessários para que se sintam à vontade para contar sobre os motivos da busca de aten­ dimento para o filho. mais sadio. dessa forma. muitas vezes. Se as m odificações do filho forem sentidas com o demasiado um . Em alguns casos. que antes estavam concentradas no paciente e depois retorii. Atitudes e posturas compreen­ sivas e empáticas por parte do terapeuta auxiliam no estabelecimento de uma confiança inicial. Os pais de Marina. o terapeuta po­ derá perceber o conjunto das com unicações com o o produto de uma men­ te grupai. Nesse sentido. 12 anos. Isso pode acarretar em um reposicionamento de angústias advin'l.i. mas fundamentais para a compreensão da situação atual. 1995). o paciente para o qual se busca atendimento é apenas o depositário de uma patologia mais séria que engloba a família. Muitas vezes. ocasionando. interrupções precoces e abandonos repentinos. não oportunizando ao terapeuta sequer i possibilidade de abordar as angústias subjacentes. O terapeuta deve ter a sensibilidade de não conduzir as entrevistas com o interrogatórios. da família. Negligenciar ou não abordar as possíveis dificuldades dos pais rela­ cionadas com a busca de tratamento para um filho pode levar a um incremento das resistências. o térm ino pode se dar ainda na fase da avaliação. poderá contribuir para as resistências e ansiedades. A queixa principal era a sua dificuldade de dormir sozinha em seu quarto. uma maior flexibilidade da organiza­ d o defensiva e uma consequente elaboração de conflitos do paciente tende i ocorrer. por vezes. que possibilita maior conforto aos pais/responsáveis para que falem de temas delicados. simultaneamente. ahlm de apresentar terror noturno. costumava trabalhar no turno da noite. interromperam o tratamento de Marina. para que se desenvolvesse uma aliança terapêutica que sustentasse suas ansiedades e os fizesse co m ­ preender o processo de mudanças que a remissão dos sintomas da filha traria à dinâmica familiar. seu desejo de crescer e se individuar ficaram eclipsados pela problemática parental. im e­ diatamente. Esse caso clínico evidencia o quanto os sintomas da menina en co ­ briam questões parentais e protegiam os pais de se “ encontrar” . quando estava em casa. Ao perceberem que a psicoterapia da filha poderia trazer à tona a conflitiva do casal. a impossibilidade de discutir quais as dificuldades financeiras ou de fazer algum tipo de re-contrato era resistencial e se mostrou potente para impedir que a problemática de M. Após algumas sessões de avaliação com Marina e seus pais. Talvez a aborda­ gem da terapeuta tenha sido muito direta e esse casal necessitasse de maior tempo. estavam se vendo “ju n tos” na mesma cama.130 Maria da Graça Kern Castro. as dificuldades de separação da dupla mãe-filha ficaram mais evidentes. Nas primeiras sessões com os pais após o contrato tera­ pêutico. Após muitos anos de distanciam ento. Com a aposentadoria do pai e a volta dele para casa. No caso acima. acolhim ento e paciência. Observamos. informaram que a menina sempre dividira a cama com a mãe. igno­ rando que a paciente já estava vinculada. a terapeuta começou a questionar sobre a presença da meni­ na no quarto deles e como seria para o casal caso ela viesse a dormir sozinha.i rina e de sua família fosse tocada. às voltas com a eclosão das pressões pulsionais e a confi­ guração de seus pais com problemas de sexualidade. Nessa mesma sessão. nesse exemplo. a intrincação dos sintomas de Marina. Ambos se recusaram a realizar a sessão de despedida. já que o pai viajava muito e. uma púbere. A questão dos honorários é com plexa e pode ser cam po para atua ções. tendo o apoio do pai. Anie Stürmer & cols. necessitando tê-la na cama do casal. a terapeu­ ta indicou que a menina permanecesse em psicoterapia. assim como salientou que entrevistas sistemáticas com os pais também seriam necessárias. sentiram-se tão m obilizados e assustados que. Alguns pais dizem sr sentirem “ hum ilhados” se (' proposta uma . O sofrimento da filha. Nas entrevistas iniciais com os pais. As questões financeiras e de pagamento se prestam para resistências que podem impedir a conti­ nuidade da psicoterapia. a mãe apontou as dificuldades finan­ ceiras da fam ília e optou por interromper o tratamento. ainda que o terapeuta perceba a necessidade de trabalhar algumas questões para poder dar continuidade ao tratamento. mas também com preendendo que talvez eles ainda não esteliiin prontos para abordar temas delicados que causariam desorganização no #rupo familiar. encam inham os o filho para instituições de confiança que realizam bons tratamentos psicoterápicos. empatizando com a dor e culpa que o tratamento da criança pode lhes causar. a impossibilidade de manter o tratamento de um filho pode estar relacionada com a ma­ nutenção de um sistema familiar que aponta para repetição de histórias parentais e transgeracionais (M azzarella. pois depen• It iido d. existem variações na técnica. é preciso i|iir saiba respeitar a decisão dos pais. e é sobre esses que as intervenções do psicoterapeuta devem lecair (Rosemberg. mas em algum miiincino deverá entrai cm contato com os pais para firmar contrato e . muitas vezes. surgindo manifestações com o atrasos. surgem queixas da frieza e inacessibilidade do terapeuta frente às questões de ordem prática e financeira: quando são apontados recursos reais da fa­ mília. OS ADO LESCENTES E SEU S PAIS No caso de adolescentes. poderá com parecer sozinho à < . são os pais ou responsáveis os produtores dessas «ilnações. Entretanto. 20 0 6 ). demonstrando a importância do lutam ento. Todavia. marcar a primeira consulta por livre e espontânea viiiitiide. Em outros casos. costuma ser uma lorma de reforçar a aliança de trabalho com eles e assim evitar entraves posteriores e boicotes ao prosseguimento da psicoterapia. . no tratamento de crian­ ças e adolescentes. o terapeuta acolherá o paciente. 2002). faltas e pro­ blemas relacionados com o pagamento. somadas às possibilidades de mudanças percebidas servem de base para usar o pagam ento com o resistência. v i m o que. Auxiliar os pais a superar dificuldades. i i m u i . Nestas situações.i idade e maturidade do jovem . Se o trabalho com os pais no contexto de avaliar de onde provêm e o porquê do surgi­ mento de resistências é desconsiderado. inclusive com o um sintoma. sentem que lhes é pedido “dem ais” . na im possibilidade dis­ so. Embora as lim itações finan­ ceiras estejam presentes.Crianças e adolescentes em psicoterapia 131 adequação dos valores aos seus recursos ou se. o manejo de tais aspectos se torna mais com plexo. a continuidade do tratamento poderá ficar ameaçada. As am bivalências frente ao sofrim ento do filho. geralmente. 132 Maria da Graça Kern Castro. Dependerá da vontade do adolescente com parecer junto aos pais nessas sessões. 2 00 2). Existem casos em que o adolescente prefere não comparecer nas sessões destinadas aos pais. o que será respeitado. através de entrevistas. Caso contrário. A partir da década de 1990. existe uma maior acessibilidade ao tratamento psicoterápico com várias instituições dedicadas à formação de psicoterapeutas. que o percebia angustiado com algumas . 2000). depressão por in­ definição profissional. ficando para ele a decisão de comparecer junto aos pais ou não. contrastando com as queixas de décadas anteriores. 2 0 0 2 ). “a mídia. programas sobre saúde em rádio e TY popularizou a psicoterapia e informa sobre com o e onde buscar esse tipo de auxílio” (Castro. Esta mudança se deve a vários fatores. sem esquecer que. com o a maior democratização da psicoterapia. O pai de Pedro. Essas queixas se referem mais a aspectos internos. Todas essas mudanças estimulam os adolescentes de hoje a bus­ carem ajuda espontaneam ente. 17 anos. conflitos fam i­ liares e em relação à separação dos pais. Cabe ao psicoterapeuta acolher esse pa­ ciente em um prim eiro m om ento. é importante que o paciente saiba desses encontros e seja convidado a par­ ticipar. podem os incor­ rer no risco de fomentar fantasias de “conluio” entre pais e terapeuta. que tem procurado ajuda por sua vontade própria. que podem contaminar a confiança que o adolescente depositou no trata­ mento e em seu terapeuta. problem as de relacionam ento familiar e conflitos de autoridade em relação à família. problemas com imagem corporal. que oferecem bons serviços de atendimento aberto à c o ­ munidade. Em função do sigilo e a fim de construir uma relação de confiança. estabelecer a relação inicial com os mesmos. observou-se uma m odificação na d e ­ manda para psicoterapia por parte do adolescente. os pais deverão ser com unicados e contatados para formalização do contrato e estabelecim ento d o setting (Ribeiro Pinto. ligou para marcar consulta Explicou que estava preocupado com oJilho. A partir da década de 1990. antes voltada para uma reduzida elite que podia pagar honorários muito caros. ansiedades em relação ao futuro profissional. ced e­ ram lugar a atuações. sexualidade ba­ nalizada. o que fazia com que o núcleo familiar e escolar indicasse tratamento (Ribeiro Pinto. Além disso. Anie Stürmer & cols. Atualmente. sendo ele m enor de idade e dependente. As queixas até m eados da década de 1980 giravam em torno de desadaptações escolares. Nesse caso. quando fosse necessário. princi­ palmente com a mãe. mas ainda que­ rendo “aproveitar” sua adolescência. então. a terapeuta privilegiou a prim eira consulta co m Pedro. esta b elecen d o uma aliança terapêutica que possibilite que o ca so seja bem en ca m in h a d o e evolua co m tranquilidade. A terapeuta acolheu a queixa de Pedro. tendo que escolher sua profissão. Pedro concordou que a terapeuta avistasse os pais e preferiu não participar desses encontros. aceitan d o e viab iliza n do sua progressiva separação. participan do tam bém d o p rocesso. não se sentindo em condições de assumir responsabilidades que a nova etapa exigiria. seus pais eram divorciados e havia dificuldades de relacionamento. marcaria uma sessão com os pais. combinando um período de avaliação. . Observar o tratam ento d o filh o adolescen te à distância é uma loi ma de respeitar o crescim en to d ele. Pedro mostrou estar passando por uma “crise”. Após. Foram realizadas. Para que isso a con teça . a fim de contratar a psicote­ rapia propriamente dita. foram levantados dados da história familiar e realizadas combinações para o contrato de avaliação. sessões conjuntas com Pedro e cada um dos pais. evitou sentim entos persecu tórios que p oderiam ser suscitados se tivesse con versad o co m os pais em prim eiro lugar. Esses foram ou vidos tio seu tem po. Em bora o pai tivesse en trad o em con ta to para m arcação da consulta. A terapeuta disse ao pai que marcaria uma consulta primei­ ramente com Pedro a fim de ouvi-lo e.Crianças e adolescentes em psicoterapia 133 situações. Em suas consultas. Nas sessões com os pais. os pais precisam confiar no terapeuta. Dessa m aneira. além de uma crise situacional. Encontrava-se con­ fuso e angustiado. foram acolhidas as necessidades tanto d o paciente quanto d os pais. fo i indicada a necessidade de psicoterapia em vista do momento de crise que o jovem estava enfrentando. depois. evidenciando uma necessidade de fortalecer aspectos inter­ nos de Pedro para seguir em frente. em função do término do ensino médio e estar se preparando para as provas de vestibular. Além disso. observadas as diferenças entre o tratam ento de crian­ ças e adolescentes. Contratou com Pedro que realizaria entrevistas com ambos os pais em separado e ele ficaria livre para comparecer às sessões com os genitores. esses foram ouvidos a respeito de seu relacionamento com Pedro. mas de um a outra maneira. Isso é um golpe esmagador. com o. mes­ mo sendo portador de tal síndrome. pela qual a terapeuta se apaixonaria. carinho. Ele era fechado. visto que. que es­ tava detectando dificuldades de relacionamento do menino devido a uma importante síndrome que esse apresentava e prejudicava sua fala e crescimento físico. O filho devolve esse investimento e se estabelece um sistema de trocas afetivas. 10 anos. por exem plo. A tristeza que advém de diagnósticos severos. devido ao grau de continência e apoio de que necessitam para se sentirem acolhidos e possam manter o filho em tratamento. já que esse filho real é uma distorção quase com pleta do filho sonhado ou ima­ ginado. pode interferir ainda mais nas trocas interativas e nos vínculos com a criança. Além disso. A ESCUTA DE PAIS DE CRIANÇAS E AD O LESCEN TES COM TRANSTORNOS INVASIVOS DO DESENVOLVIMENTO. geralmente muito longo. peregrinam por m édicos. Tendem também a ser mais frequentes. não reage ao seu olhar? Como ficam os pais nas situações onde há dificuldades de trocas afetivas? Geralmente. não conseguia se relacionar bem com os colegas de classe. Anie Stürmer & cols. na psicoterapia com crianças psicóticas. Nas primeiras entrevistas com os pais. SINDRÔMICOS E PSICÓ TICOS Em casos mais graves. surgem outras questões de ordem externa: Com o e onde buscar tratamento? Terão condições econôm icas de man­ ter os tratamentos indicados? João.134 Maria da Graça Kern Castro. ao se transformarem em pai e mãe. com o o de trans­ tornos invasivos do desenvolvim ento ou de outros quadros psicóticos. O que ocorre com os pais quando percebem que seu filho não reage aos seus estímulos. chegou a tratamento encaminhado pela escola. A primeira entrevista foi toda a respeito da doença de João. estando sempre só. sendo necessário aos pais deixar dam que teriam feito todo o possível para buscar os melhores tnitamentos para o . os contatos com os pais se tornam indispensáveis. frustração. mostrando tudo que sabiam so­ bre a doença para a terapeuta e fazendo questão de comentar que. desalento e culpa. Sobre um filho sempre recaem as demandas narcísicas de seus pais. esses estavam muito preocupados em exj)licar sobre a síndrome de João. incrementam sua sensação de potência. autistas ou sindrômicas. psiquiatras. psicólogos até terem a confirm ação diagnostica. era uma criança adorável e normal. devido a sentim entos de pesar. Há um pesado trabalho de luto a ser elaborado pela perda do filho per­ feito idealizado. desqualificando as pontuações do pai e consi­ derando problemas de manejo da babá e da escola. que também precisavam de um espaço no qual pudessem falar sobre suas angústias. teve que. os pais foram se sentindo cada vez mais acolhidos e respei­ tados em seus sentimentos. foi observado que ci. como suporte emocional. pessoas de bom nível cultural. O pai se mostrou mais disponível e trouxe o menino na maio­ ria das sessões. pouco participava e não considerava importan­ tes os sintomas do filho. Usava de total nega­ los sintomas e se dizia sobrecarregada com as “manhas e manias” ção < do menino. consideravam o filho muito inteligente e culpavam a escola de não saber lidar e de ser insensível com seu filho. relatavam suas preo­ cupações com o filho por apresentar instabilidade. por apresentar condutas “ esquisitas. fo i encaminhado para avaliação psicoló­ gica pela escola maternal. agitação e fraca ca­ pacidade de atenção. Com essa atitude empática. financeiramente sustentar uma criança que precisava de uma atenção especial e uma série de tratamentos médicos concomitantes. Fazia uso de medicação psiquiátrica. Adriano. pois os pais nunca encontravam horários. não tinha noção de perigo e apresentava linguagem pouco desenvolvida. Adriano não atendia ordens ou limites. culpas e cansaços. Contam com ela em diversos outros momentos. Foi difícil a realização da avaliação. tendo uma postura mais cuidadosa com ele. Percebia também o quão oneroso era emocionalmente e. 2 anos e 11 meses. Kealizada avaliação. da qual não sabiam sequer a indicação ou nome. Ao mesmo tempo em que negavam as evidentes dificuldades da criança apontadas pela escola. A terapeuta então. A terapeuta fo i acolhendo esses pais. Afirmavam para a terapeuta serem bons pais e estavam fazendo o possível para reparar o fa to de terem um filho com uma síndrome. por vezes.s áreas mais preju- . falar pouco e ser muito destrutivo Seus pais. e a tem como aliada para prosseguimento da psicoterapia. com muita calma e paciência. A terapeuta percebeu que o simples pensamento de que estavam exaustos gerava culpa e os fazia reagir de maneira reativa às suas intervenções. Chegaram a ameaçar a escola de que fariam denúncia de maus-tratos ao menino. mostrar que entendia também seu sentimento e imaginava o quanto era difícil criar e sustentar uma situação tão complexa. Confiaram na terapeuta. A mãe era evasiva e introspectiva.Crianças e adolescentes em psicoterapia 135 filho. recomendada pelo pediatra. sendo que era justo e natural que ficassem cansados em determinados momentos. os preconceitos que se criaram com as mães de crianças autistas. Isso pode gerar uma decepção na mãe que. mas ainda negavam as reais dificuldades de Adriano e. decepção. aumentando as dificuldades na interação e com unicação da dupla. para rever uso da medicação. possivel­ mente decorrente de suas funções egoicas desorganizadas. telefonaram dizendo que o filho estava me­ lhor e que haviam buscado tratamento com outro profissional. Havia dificuldade de olhar. Em muitos casos. com hipótese diagnostica de quadros F 84. sugerem que há tuna dificuldade no bebê de olhar a mãe ou de retribuir seu olhar. não aceitaram a indicação terapêutica. de características psicó­ ticas. O impacto de ter um filho diagnosticado com perturbações severas é muito doloroso e coloca a família em um turbilhão de em oções: surpresa. Foram elas “acusadas” de serem mães freezer e geradoras da patologia do filho. por exemplo. foram indicados: avaliação psiquiá­ trica. de forma não-consciente. passa a valei apenas paia a salislação . Os pais ficaram muito abalados e tristes.136 Maria da Graça Kern Castro. Essa posição marcou em uma determinada época os profissionais da área da saúde e educação que manifestavam certa atitude crítica em relação às crianças portadoras de síndromes psicóticas e autísticas. impulsiva e sem “filtro menta­ lizado”. e atendimento psicoterápico para a criança. relacionados às causas do autismo psicogênico. raiva e depressão.9 e F 70 ( ClD-10). de atenção e dispersividade. é necessário um tem­ po para assimilar e elaborar internamente o choque de diagnósticos gra­ ves. com ecolalias e conduta desorganizada. Desde Kanner (1943). Realizadas entrevistas com os pais. pais intelectualizados e mães “geladeiras” foram. O psicoterapeuta tem que ser sensível com a dor dos pais e tolerar suas dúvidas e questionamentos. aliado ao acompanhamento para seus pais. diminui os investimentos e estimulações ao seu bebê. naquela ocasião. Foi salientado que o prognóstico seria favorável se realizados os atendimentos sugeridos. além das in­ terferências maturativas e afetivo-emocionais. Meses depois. momento de relaçao intensa de aléiçiio e carinho. por muitos anos. Constatou-se a presença de um transtorno invasivo do desenvolvimento. dicadas eram as ligadas à capacidade de vinculação. com o. es­ tando em um nível de funcionamento ao redor de 21 meses. pesar. Apresentava rendimento abaixo de sua idade cronológica. o mais breve possível. Anie Stürmer & cols. A amamentação. Observações de vínculos entre mãe e bebê autista. Sua linguagem era muito pobre. houve uma falta de sensibilidade com pais tão sofridos. Por algumas décadas. ainda mais quando não são auxiliadas por seus com ­ panheiros. mas podem ser encontradas algumas particularidades na organização fantasmática inconsciente do pai e da mãe ligados a fortes componentes pré-edípicos que preponderam nas relações do casal com a realidade. Seus modos idiossincráticos de ser as tomam crianças extremamente difíceis de lidar. não é reconhecida. que as alienam do contato com o outro. As mães sofrem com a irresponsividade do filho. as crises de birra. empatia e com preensão com os sofri­ mentos dos pais. que regula a impulsividade. a ausência de noção de perigo. Os ri­ mais. para que tenha uma escuta continente e possibilite pro . Com o que reco­ lhendo suas “antenas psicológicas” . passando a viver no coti­ diano dos filhos. além da referência frequente a depressões na mãe após o nascimento. lüstin (1990) aponta que aprendeu com os pacientes psicóticos sobre a importância da autoridade paterna e sobre o desastre que resulta se a autoi idade do pai. desviando-as do “estranho e assustador não-Eu” (Histin.Crianças e adolescentes em psicoterapia 137 da necessidade de nutrição da criança. Crianças autistas impõem seus padrões particulares através do uso de formas e de objetos. p. com o som e luz. fechando-se para outras vivências sociais (Monteiro. com uma falta de empatia com o contato humano. 107). sem que o ambiente se preo­ cupasse com sua situação. Uma pesquisa realizada com 14 mães de crianças autistas apontou que elas viviam num grande estresse. pedindo que lhe ofereçam apoio na matemagem. Observamos que nos relatos dos pais surgem acontecimentos ligados a perdas. A criança autista. Kssas considerações se tornam importantes para que o psicoterapeuta mantenha um papel de tolerância. 1990. A grande maioria havia deixado suas profissões para se dedicar ao filho autista. que repercutem na vida familiar e nas relações com o filho. exige muitos cuidados da mãe. mesmo quando seus pais “ funcionam” de maneira adequada. 1997). É muito im­ portante que isso esteja presente na mente dos psicoterapeutas para que não continuem perpetuando um erro ao culpabilizar os pais pela doença do filho. Atualmente. 2008). já que é o investimento pulsional do pai em relação ao filho a garantia de sua inclusão na cultura humana. as reações exage­ radas aos estímulos sensoriais. por exemplo. 1'anto o pai quanto a mãe possuem uma história pré-edípica composta de mitos familiares e com fantasmas transgeracionais que influenciará na organização psíquica desse novo indivíduo. se refugiam em um mundo enigmático e particular. no mundo da linguagem e na cadeia transgeracional. e o isolamento social levam as mães a abandonarem suas atividades pessoais. pois toda atenção estava sendo dirigida às crian­ ças. se sabe que não há estruturas de pais de psicóticos. (Rocha. Acesso em: 20 jan. procuramos articular nossa prática psicoterápica com as lições recebidas dos pioneiros da psicanálise. Dissertação (Mestrado) Departamento de Psicologia. ( ii mundo. Entretanto. por sua vez. além de tais aspectos formais. hoje. M. arcando com as responsabilidades advin­ das do pagamento.Janeiro. p. deve sempre considerar que não há com o tratar de um filho sem esta­ belecer uma relação sólida e de confiança com a família. 1999. G. Este.). Sao Paulo: Escuta.pdf-I-anna+ freud-I-e+ papel+ dos-Ipais+ na + psicoterapia >.rXhuóQJ: www. Do discurso parental à especificidade sintomática na psicanálise de crianças.1. 2000. CONSIDERAÇÕES FINAIS Para finalizar. os pais necessitarão maior ou menor continência por parte do terapeuta. ou terapia familiar. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.E1CHMAR. pois estão emocionalmente envolvidos com o trabalho realizado e impli­ cados nas mudanças e desestabilizações geradas a partir do processo psi­ coterápico. O lugar dos pais na psicanálise de crianças. A. CASTRO. 133-165. O olhar clínico sobre a adolescência. <1. F . transporte e horários das sessões. podem os avistar muito mais longe e que nos facilitaram pensar e sermos criativos em nossa prática clínica. gigantes sobre os ombros de quem.br/frida. cessos de discriminação em algumas circunstâncias bastante caóticas nes­ sas famílias. Dentro das possibilidades de cada caso. REFERÊN CIAS ATIE.. Rio . 1U. Anie Stürmer & cols. 1999. é salutar que pai e mãe sejam encaminhados para uma psicoterapia pessoal. reiteramos que a presença de pais na psicoterapia de crianças e adolescentes é crucial. a par de manterem os encontros com o terapeuta do filho sempre que necessário. quando o processo psicoterápico da criança estiver consolidado e houver oportunidades. 2002. Neste capítulo. O lugar dos pais na psicanálise de crianças.org. S. In: ROSEMBERG. . Os genitores são responsáveis pela manutenção formal do processo. M.102. estabelecem vínculos com o terapeuta de seu filho.138 Maria da Graça Kern Castro. Dependendo das características da família e da natureza da dificuldade em ocional da criança ou adolescente. CONGRESSO IATI NO AMERICANC >DE PSICANÁLISE DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES.104/scholar?hl=pt-BR&lr=&q= cachc: KCx UI . 2008. (Org.sbprj. Disponível em: < http://66. São Paulo: Escuta. A. Revista do IEPP. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. Vivências maternas na realidade de ter um filho autista: Uma compreensão pela enfermagem. Fazer-se herdeiro: transmissão psíquica entre gerações. PATELLA. I. LISONDO. M. Contratransferência da análise de crianças e adolescentes. et al.) Autismos. 2005. KAÈS. Disponível em: < http://teses. p. 2. Rio de Janeiro: Mestre Jou. RIBEIRO PINTO. 2004. p. MONTEIRO. J. G. 2000. 2004. Psicoterapia infantil: pensar relações e criar significados.pdf> . M. FREUD. IANCARELLI FILHO. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A. 1995. C. (Org. (Org.br/ip_m/lucianapatella. 113-132. ROSEMBERG. 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Tal com o nos sonhos. o processo de com unicação vai ocorrendo. espaços e tempos. está guardado na pasta e é visto e exa­ minado em silêncio com cuidado e delicadeza? Crianças diferentes ou a mesma criança. Assim. escolhas de objetos. o que acontece intrapsiquicamente durante esse processo de com unicação? Com o entender a linguagem não-verbal e /o u pré-verbal? O brincar é semelhante ao sonhar Ambos dependem de uma adequada repressão para que haja simbolismo. do brincar e do jogar. Sem este. um tempo de sonhar e. está ocupando todo o nosso tem po? E este desenho. olhares. através da atividade lúdica há a revelação de fantasias. que nem era percebido. a régua e esquadro. um tem po de lembrar o relatar o sonhado. com todo seu corpo. Mas. não há o brincar propria­ mente dito. No sentido temporal. o indivíduo . diferente do trabalho do sonho que ocorre em dois tempos distintos. no brincar os dois momenlos acontecem concomitanUMiienie.A comunicação na psicoterapia de crianças: o simbolismo no brincar e no desenho Inúbia do Prado Duarte Por que ocorre a escolha deste ou daquele brinquedo e não daquele outro em uma sessão psicoterápica? Por que hoje este jo g o ficou esquecido e aquele. No entanto. em situações diversas. por que foi realizado tão rápido e logo atirado no lixo. expressões faciais. enquanto aquele feito com todo esmero. fa lam através de desenhos. e pela forma com o são executadas mostram com o funciona o indivíduo que sonha e brinca. o brincar é uma linguagem através da qual aquele que brinca nos conta o que está ocorrendo~érn seu m undo interno' ao m esm o tempo em que revela seu m odo de ser. Essa dupla capacidade é idêntica à observada no uso da palavra. dormindo. dormindo. permitindo sua realização. O brincarequivale à linguagem verbal. a livre associação de ideias e o brincar. após. como sopa. Anie Stürmer & ço brincando já está expressando o que naquele m om ento está sendo produzido em sua associação lúdica. simultâneas. está asso­ ciada à regressão. revela e esconde. A progressão evolutiva propicia transformações e amadurecimento pela própria experiência onírica e lúdica ao fazer o discurso característico do associar livre­ mente. A livre associação de ideias. análoga ao sonho e ao brincar. Outra criança é uma princesa que é salva da bruxa má. que pega criancinhas. por um belo rei. em dramatizações lúdicas. Todos eles apresentam em seu funcionamento uma regressão e uma progressão evolutiva. sendo esse um dos critérios mais válidos para avaliar a saúde mental infantil. Regressão porque propicia um maior contato com conteúdos mais primitivos que podem revelar os pri­ mórdios do conflito. às restrições sensomotoras. ao resistir mostra escondendo. muito semelhante a pessoas que não conseguem conciliar o sono porque temem sonhar ou evitam situações prazerosas por temerem uma total desorganização egoica. Ao brincar. onde o símbolo não é a coisa em si.1 4 2 Maria da Graça Kern Castro. maturativa. Nesses dois exemplos. com a invasão das pulsões amorosas e agressivas. disfarça-o. e o juízo da realidade serve de garantia do poder entrar e do sair do mundo de fantasia. O brincar também pode ser relacionado com a redução da censura e da direção racional do pensamento. pois essas estão a serviço da efetivação da atividade lúdica Portanto. há uma grande diferença entre q sonhar e o brincar: a mobilidade que serve de descarga não é suprimida ao brincar. a criança interage com um cenário e ajuda a construí-lo com sua participação ativa (Takatori. Escolhe um boneco pequeno para atirar em um enorme caldeirão com água fervendo. representa-a. sentindo como se não o tivesse realizado. Uma menina brinca fazendo de conta que é uma bruxa muito malvada. Podemos tecer um paralelo entre o sonhar. ou seja. que ao mesmo tempo mostra. servindo. pelo contrário. resistindo. ao símbolo. sem o perigo de sucumbir à esse movimento regressivo. mas não sofre as restrições sensomotoras. coloca-a em sua própria cama ondeJicam dormindo. é excitada. à redução da censura e da direção racional do pensamento. 2007). ao mesmo tempo em que realiza o desejo da pulsão. Exemplo desse funcionamento há em abundância na literatura psicanalítica e em nossos consultórios. as duas meninas realizam seus . que chega na hora em que seria atirada em um poço profundo e escuro. O rei a leva ao palácio. ao mesmo tempo em que mostram a capacidade egoica de poder regredir. Diversas crianças não conseguem brincar com receio de entrar e ficar nesse mundo irreal. Huizinga. pois estavam fazendo de conta. relações de grupo que. Como linguagem em um sentido amplo. p. na vida. Há alguns anos2. de K. no qual ainda as palavras não são capazes de substituir as ideias. externa ou superegoica. desenvolve-se com ordem. N. materializado na ação lúdica. mas também para as inibições. Ele nos indica como acontece o desen\< >lvimento e nos aponta não só para os avanços e progressos. mas que possuem objetivos pedagó­ gicos. manejava as ansiedades e deixava-se controlar pelo superego. Huizinga citado por Lebovici e Diatkine. ação despojada de qualquer interesse mate­ rial e de qualquer utilidade. segundo regras estabelecidas. mediante o disfarce. O que a criança chama de brinquedo se caracteriza exatamente por ser destituído de objetivos expressos e determinados. 2 0 0 7 ). Ambas podem brincar sem correr o risco de qualquer acusação. 1985. e a segunda pode ficar com seu rei-pai que a salva da mãe-bruxa. o mundo infantil do brincar é in­ vadido por atividades ditas lúdicas. 14). Os dois grupos de crianças diferiram na maneira como o ego enfrentava os conflitos. No entanto. . o brincar está ligado à constituição subjetiva. o brincar abrange a comu­ nicação não-verbal e a pré-verbal. O brinquedo livre é aquele escolhido pela criança de acordo com sua motivação momentânea. Muitas vezes. ou que acentuam. capaz de absorver totalmente o jogador. sentida como fictícia e situada fora da vida comum. a primeira ao se transformar em bruxa malvada pode se ver livre de seu irmão menor. havia uma maior intensidade na rigidez de suas defesas. ser o equivalente à me­ táfora em um estágio primitivo. com a utilização de todo corpo. constatei que nesses aspectos não havia diferenças significativas. saborosamente se rodeiam de misté­ rio. O jogo' [ brincar] foi definido pelo historiador holandês Huizinga como: Ação livre. Nas crianças que brincavam de modo estereoii pado. o quão estranhos são ao mundo habitual (J. e suscita. mas sim quanto ao modo como o ego enfrentava as ansiedades.Crianças e adolescentes em psicoterapia 143 desejos. e pode. 2008. então. pensando que pudesse haver diferenças quanto aos conflitos intrapsíquicos r graus de severidade do superego. que se realiza num tempo e num espaço estrita­ mente definidos. as dificuldades e as patologias (Baleeiro. São Paulo: IWsipectivH. perguntei-me qual seria a diferença entre crianças que brincavam de modo espontâneo das que brincavam de modo estereotipado. Itomo udens: o jogo como elemento da cultura. e o pensamento se manifesta de modo quase que concreto. Assim. no entanto a resistência não leva à interrupção do ato lúdico. É importante enfatizar uma diferença essencial: em psicoterapia com crianças. sem haver envolvimento afetivo ou entusiasmo e ausência de mo­ vimentos que dão ideia de vida. na função do brincar com Melanie Klein. (3) Brincar estereotipado: limitação. e. criatividade limitada relacionada ao es­ paço. como a capacidade da criança sadia. assim especificadas: ( (1) Brincar espontâneo: grande criatividade e riqueza de expressão no conteúdo dramatizado e verbalizado. Isaacs. mas sem confundi las. vincula o mundo da irrealidade subjetiva com a realidade objetiva. surgiram diversas formas de comportamento lúdico. ou seja. Melanie Klein ( 1969). fundindo harm oniosam ente os Ijord^s. interesse intelectual. falta de dramatização e de vida e repetição compulsiva de atitudes. despertavam nosso interesse. Anie Stürmer & cols. não olhar para os brinquedos. fantasias. Durante essa pesquisa.1 4 4 Maria da Graça Kern Castro. Enfatizamos nossa concordância com alguns autores. Essa pesquisa permitiu observar em que elas se diferenciavam. Segai e Winnicott. Tanto a inibição no jogo da criança doente. ansiedades e sentimentos de culpa. mas descobre-os através do jogo. resolver seus conflitos sem ajuda externa. a resistência aparece nas transformações decorrentes da simbolização. escasso envolvimento. construção sem dar vida ou movi­ mento aos objetos lúdicos. A criança se torna capaz de admitir ilusões solm* o que está . M iln êrT l991) que ressalta o fato de que a criança não conhece a existência dos limites. de conservar essa capacidade e poder brincar livremente. negação do brincar. participação fraca ou ausente. de forma gradual e continua. mesmo em situações adversas ambientais. enquanto houver o brincar propria­ mente dito. O simbolismo permite à criança alterar o alvo-mãe e transferir a outros <> 1> 1 «mos seus interesses. pouca conotação afetiva. (4) Ausência do b rincar: rejeição. Milner. evidente evolução no curso do brincar e participação com envolvimento afetivo da criança. ao ressaltar a importância do jogo espontâneo de imaginação e ao explicar o uso dos símbolos de cada criança. através do brincar. no curso do brincar espontâneo. em especial. estando em conexão com suas emoções e ansiedades particulares e com sua simação • i< > tal. progressão na armação do material. A diferença entre a saúde e a patologia foi detectada quanto à capacidade de simbolizar. repetição de cenas de maneira compulsiva. como a arte. (2) Brincar de construção: concentração e silêncio. que formaram quatro categorias. pobreza de conteúdo. em vários de seus trabalhos. desde que se sinta segura dentro do espaço-tempo do setting terapêutico. / ?rn um deles. 4 9 ) fez uma diferença entre dois tipos de formação de símbolos v de função simbólica. seguindo formulações de Freud. 89). saliento a importância da capacidade de ilusão na formação simbólica (Milner. da dinâmica intrapsíquica no entrelaçam ento id-superego-ideal de ego-ego ideal. 2 0 0 4 ). do interjogo entre mundo interno e ambiente. transferência-contratransferência. Melanie Klein. 1991) e a possibilidade de transferir interesses ini­ cialmente dirigidos ao objeto original. que cham ei de equação . escrevem a respeito dessa transferência de interesse como sendo devida ao conflito com forças proibitivas em relação ao objeto original. portanto. das defesas frente às ansiedades primitivas. em particular. deve ser considerado o inconsciente contido nos fenômenos psíquicos de resis­ tência. p. cissim como também à perda real do objeto original.94). relações de objeto. também descreve um aspecto dessa proibição. enfim. 1991. da realidade objetiva. Aqui. Diz essa autora em um dos trechos mais claros na compreensão da origem do “porquê” da necessidade do simbolismo via conflito. Segai (1993. quando desde o começo se enlaçam com uma verdadeira experiência. que facilitam e dificultam sua expressão no campo psicoterápico. na luta entre narcisismo e necessidade de objeto. que mantém o indivíduo integrado como um todo. por limitada e estreita que seja. simbolismo. Isaacs (1974. Jones. Muitos fenô­ menos psíquicos são inerentes a esse iceberg que é o brincar: fantasia. p. Essa afirmação é importante à compreensão das atividades lúdicas que sempre estão entrelaçadas com fatos do meio ambiente e do mundo interno e que necessitam de objetos para sua realização. menos aterrorizantes (Milner. ao falar da natureza e função da fantasia incons­ ciente. Expressam primitivamente uma realidade interna e subjetiva. enfatiza os aspectos dessa proibição que têm a ver com as forças que mantêm a sociedade unida como um todo. Permite-se experimentar simbolicamente situações verdadeiras de faz-de-conta. p. já produtos das transformações dos con­ flitos entre pulsões de vida e de morte. Assim. afirma que as primeiras fantasias surgem de impulsos orgânicos e estão entrelaçadas com as sensações corporais e os afetos. em todos os aspectos que compõem a vida m ental humana (Duarte.Crianças e adolescentes em psicoterapia 145 vendo e fazendo acontecer enquanto brinca. em seu estudo A Teoria do Simbolismo. que: ErnestJones e Melanie Klein. Klein sustenta que o modo pelo qual ocorre nossa agressão con­ tra nossos próprios objetos originais nos deixa aterrorizados pela possibilidade de retaliação. assim transferimos nosso interesse para substitutos menos atacados e. (2) aprecia concluir que seus impulsos agressivos podem ser expressos sem o retorno da violência do meio para ela. (3) brinca para dominar angústias. propiciando o desenvolvimento de contatos sociais. (6) a brincadeira. No segundo caso. a fazer outro traço. Anie Stürmer & cols. o do simbolismo verdadeiro ou representação simbólica. muito semelhante a crianças pequenas quando ainda estão sob o predomínio do pensamento concreto. Daí resultavam desenhos significativos e a relação entre terapeuta e paciente era facilitada tornando-se mais próxima Ao completar o desenho. O jogo começava com um rabisco feito pelo terapeuta sobre um pedaço de papel em branco. Um violino é um pênis. é um critério evolutivo. a criança expressava sua experiência de ser e o modo como experiencia a totalidade de si mesma (Mazzolini. mas aliados à unificação e integração geral da personalidade. a criança era estimulada. mas não é inteiramente equacionado a ele. não é algo para ser feito em público. por exemplo. servem à autorrevelação e comunicação com o inconsciente. o símbolo representa o objeto. Winnicott (1 9 9 4 ) pode sintetizar importantes ideias com as quais concordamos. o símbolo está tão equacionado ao objeto simbolizado que os dois são sentidos como sendo idênticos. o uso de formas e artes e a prática religiosa tendem por métodos diversos. (5) a brincadeira favorece uma organização para o início de relações emocionais. Afirma ainda que (4) as perso­ nalidades infantis evoluem através de suas próprias brincadeiras e das invenções lúdicas feitas por outras crianças e por adultos. a equação sim­ bólica é mais evidente. Geralmente era realizado na entrevista inicial como forma básica de estabelecer uma comunicação mais livre. tocar violino é se masturbar e. simbólica e que subjaz ao pensamento concreto esquizofrênico. Uma das maiores contribuições à técnica psicanalítica de Winnicott (1 9 9 4 ) foi introduzir o jogo dos rabiscos3 para proceder em uma consulta terapêutica com crianças. o método visava a três finalidade básicas: (1) ade um Instiumentodiagnós . Essa distinção é importante. Em pessoas. e servem de elo entre a relação do indivíduo com a realidade interior e entre o indivíduo e a rea­ lidade externa ou compartilhada e (7) tal como os sonhos. com ca­ racterísticas acentuadas de funcionamento psicossomático. Seguia-se novo traço do psicoterapeuta. Após.1 4 6 Maria da Graça Kern Castro. a partir desse rabisco inicial. quando ele afirma que a criança: (1) tem prazer em todas as experiências de brincadeira física e emocional. controlar ideias e impulsos que conduzem à angustia. porque além de ser um elemento de diagnóstico psicopatológico que determina a intervenção terapêutica adequada. 2 0 0 7 ) Para Winnicott. e assim sucessivamente. por­ tanto. não fazendo nenhum a conexão com seus sentimentos e fantasias. O jo g o do rabisco foi ad qu irind o sig n ificad o s que ca ra cte riz a m um a a b o rd ag e m p sico te rá p ica vincular. me colocando em prova constante. p rin cip alm e n te co m p a cie n tes d e d ifícil acesso . Seguidamente. utilizou o recurso da comunicação peíos desenhos praticamente durante todo o seu tratamento. Quando lhe era mostrada a relação entre os dois desenhos. Os dois conteúdos desenhados se uniam como se fossem um único desenho . Muitas vezes .Crianças e adolescentes em psicoterapia 147 tico . (3 ) a d e fu n cio n a r com o um recu rso te ra p ê u tic o com o m esm o v alo r que os so n h o s re p re­ sen tam co m o via de a ce sso ao in co n scien te . Usava um lado. associando os conteúdos de ambos. A relação terapêutica fo i intensa durante todo o tratamento. que fez psicoterapia durante quatro anos aproxim adam ente . primitiva. produzindo outro desenho no verso. “cobrava ". amassava ou rasgava a folha e jogava-a no lixo. pois ele não conseguia negar quando era por dem ais evidente as coincidências dos dois lados da mesma folha ao levantá-la contra a luz. Eram projetadas para fora. ele se negava a aceitar e reagia ou com indiferença ou com muita raiva. seus desenhos revelavam as imagens em negativo tal qual existiam em sua mente. Resistia a toda e qualquer interpretação que procurasse trazer algum sentido a suas brincadeiras ou a seus desenhos. cujo motivo de consulta havia sido perturbações do sono. mas não eram sentidas como suas. esse tinha a favor da evolução do tratamento a inteligência de Diego. Diezo desenhava n o s dois lados de uma mesma folha de jjqp el ofício branco. No entanto. Fazendo uma analogia com a fotografia. Os sentimentos de desconfiança agressiva de Diego despertavam muitas vezes a dúvida se realmente a terapia o estaria ajudando. A transferência negativa predominou e contratransferencialmente me exigia. crises asmáticas e crises de agressividade com jlescontrole e ataques físicos dirigidos às pessoas mais próximas. ( 2 ) a de fa cilita r a co m u n ica çã o in te ra c io n a l. as interpretações eram sentidas como “ fabricadas ou inventadas” pelo terapeuta. logo em seguida virava a folha. serv in d o ta m b ém co m o e stím u lo à criativ id ad e do te ra p e u ta . que o protegia de se enfrentar com aspectos ameaçadores relacionados a uma situação edípica inicial. Esse menino lutava heroica­ mente para m anter a cisão. alisava-a e guardava. Y ^ J Diego. um menino de 4 anos e 6 meses. de onde o terapeuta tirava. que n ecessita m de o u tra s estra té g ia s e in terv e n çõ e s d iferen cia d a s. 148 Maria da Graça Kern Castro. te n d o e m co m u m se u s in íc io s . o r ig in a ­ d os e d ete rm in a d o s p elo tipo de re la ç ã o de o b je to . te m o s g ra fic a ­ m e n te: M ^ t i m 7 . pouco a pouco. durante as quais ele amassava as folhas desenhadas. . em uma das faces da folha e era-lhe praticamente impossível negar a relação entre eles. lenta. Diegofoi tendo a experiência de ir juntando suas partes cindidas. Sua produção gráfica revelou a evolução. rumo à definição de identidade. A ssim . no b rin c a r e na a p re n ­ d iz a g em e s tã o in te rlig a d o s . não sem crises de raiva. Anie Stürmer & cols. tendo como “pano de fu n d o ” a intensa vivência da conflitiva edípica primitiva. 1 l)n m ã e cultura via simbolism o. Os fe n ô m e n o s da sim b o liz a ç ã o no pensar. sofrida. Assim. é escolhido pelos pacientes infantis e adolescentes na fase inicial de seus tratamentos. < '• necessário conhecei a história da criança ou ado­ . pode ter diferentes significados. há o perigo de mexer em outra vareta que não é a que se deseja retirar. A linguagem metafórica vai surgindo paulatinamente. formando um nó enredado. 2 004) j e desenvolve por ^identificação idêntico. Uma perturbação da simbolização pode levar também a formas de brincar que impedem o aprender. cada jogador deve ir desenredando.Crianças e adolescentes em psicoterapia 149 Essa figura (Duarte. concomitante à capacidade lúdica. às vezes. inicialmente através de seu corpo e de movimentos pré-verbais. um jogador atira as varetas. a criança já é capaz de se comunicar por meio de sinais. O jogo de Dominó (Duarte. No entanto. 1989). seu adversário. Nesse caminho. A criança pequena se comunica primariamente pelo movimento e pelo brincar. Aspectos característicos foram observados na estrutura e fun­ cionamento do jogo de Varetas (Duarte. são essenciais os processos de identificação introjetiva e projetiva. 2004) ilustra a compreensão dos fenômenos psíquicos que ocorrem no caminho entre o ponto inicial da comunicação fusionai entre mãe e seu bebê. Acontecendo isso. que se superpõem à capacidade de sentir e suportar temporariamente a falta de objeto. recíproca entre/no par. Na fase da latência_. o jogador perde a sua vez e o outro. Esse jogo. dependendo do momento e da situação na qual se encontra o par paciente/terapeuta e dos fenômenos que estão ocorrendo no campo psicoterápico. com a experiência e a liberdade de variar o brincar. espelhada O seu início se dá pelo jogador que tiver a peça dupla. verdadeira associação livre e a comunicação mediante o jogo e o comportamento. que aos poucos e com cuidado. continua a tarefa de ir desmanchando aquele enredo. Atingindo esse estágio evo­ lutivo. e a essa prim eira peça não se apresenta nenhuma outra possi­ bilidade de se acoplar alguma outra peça se não for de modo idêntico por ambos os lados. essencial ao registro da história e da Cultura. No entanto. para descobrir seus signi­ ficados simbólicos. até atingir um determinado grau onde é possível haver a capacidade de abstração que prescinde a expressão corporal e se torna possível a leitura e a escrita. ela pode alternar entre comunicação por meio da fala e do desenho. a capacidade de deslocamento e condensação e o surgimento dos objetos e das situações transicionais. o estabelecimento da relação objetai. Esse entendimento inicial facilita sua utilização como linguagem na clínica psicoterápica. por vezes. podendo indicar o estabelecimento da aliança e do contrato terapêutico. No início. seis ou zero. condição necessária para o surgimento do simbolismo. A cada movimento. há uma diminuição do uso da linguagem verbal. uma que seja igual a que está em uma das pontas da armação das peças sobre a mesa. Quando uma criança nos convida a brincar ou convida-nos a ver o que faz enquanto brinca.1 50 Maria da Graça Kern Castro. com o predomínio da ação. Além disso. du­ rante longo tempo. Somente pode haver evolução se o jogador tiver. sem perder jamais a relação do cada fator com a nIiunçA o total daquele . mas são geradores potenciais de temas que permitirão que se observe novas conexões com o que já foi expresso. criança. comunicação não-verbal e pré-verbal. que ainda não são pensamentos. Talvez esse aspecto facilite o contato do terapeuta com material inconsciente. o acesso ao inconsciente é mais direto. Se não possuir. simultaneamente com afirmações que ainda serão feitas. aspectos de sua vivência familiar e escolar. a criança realiza algo com seu comportamento e. não é acompanhada pelo terapeuta. naquele brincar. A presença continente e de reverie existentes no campo psicoterápico permite que seja criada uma condição de confiança e segurança capazes de servir de suporte para vivências ansiogênicas decorrentes de intensos conflitos endopsíquicos. Anie Stürmer & cols. de uma maneira retroativa ou. revelando outros conteúdos que não estavam presentes no início daquele ato. Seus jogadores devem seguir linhas de identificações que permitam a continuidade do jogo. otimizando o tempo de tratamento na infância. 2003). Ao brincar. Na atividade lúdica. está tentando comunicar conteúdos que são inacessíveis. Sendo assim. entre as suas peças. com menos barreiras. deve com­ prar do monte ou perde sua vez de jogar e precisa aguardar até que outra peça seja colocada. outros elementos são levados à ação. Eles têm uma tendência para começar a ressoar com coisas que já foram ditas. a presença mental de alguém com quem a criança possa brincar permite que o jogo seja transformador de angústias (Felice. devemos investigar o significado de cada símbolo lendo cm conta todos os mecanismos e formas do rc*prosontação. O jogo de Dominó pode ser entendido como o protótipo da antítese do que seria a representação lúdica de uma associação de ideias pela sua rigidez de regras. indica não ter sido esflõtacla nossa compreensão de seus_aspectos~sinil><'»li< ■ < > Para compreender o jogo. a partir disso. às vezes. A lingua­ gem é usada com menor repressão. idêntica a alguma que ele possua. Quando um brinquedo ou um jogo é repetido diversas vezes." exige ser visto sob diversos ângulos e entendido por iodos os lados. enquanto ela. levando em conta os fenômenos transferenciais na relação terapêutica. E. quando surge no campo psicoterápico. lescente que está jogando. (5) o jogo é uma sublnnação. Seu efeito no desenvolvimento posterioi se conserva e transcende os resultados imediatos que . o jogo e o brincar: (1) proporcionam alívio e prazer porque descarregam fantasias masturbatórias e porque suprimem o gasto ener­ gético da repressão liberando a fantasia. (3) proporcionam alívio da pressão superegoica através da personificação. A criança proporciona tantas associações aos elementos separados do jogo como os adultos aos elementos separados do sonho. Na personificação. sejam esquecidos ou se ressignifiquem. o jogo mostra um melhor equilíbrio entre fantasia e realidade. produto da pressão do superego primitivo exigente sobre o ego. ansiedade e sintomatologia. O jogo. que não sendo exteriorizados provocariam perseguição interna. tendo relação com a posição depressiva e capacidade de reparação. Tem maior capacidade para modificar a realidade ou. sublimação e reparação são três conceitos inter-relacionados que estão na base da atividade egoica que sustenta o jogo. transformando as experiências sofridas passivamente em ativas dominando ansiedades. A interpretação per­ mite restaurar o prazer do brincar pela resolução dessas ansiedades e a liberação da energia antes ocupada em manter a repressão. ou um mesmo jogo. mesmo que seus conteúdos se repri­ mam. O elemento lúdico fun­ ciona continuamente para dar sustentação a uma realidade paradoxal em que as coisas podem ser reais e irreais ao mesmo tempo. a relação com a realidade está subordinada às vívidas elaborações da fantasia. adquire dis­ tintas significações de acordo com o contexto global que o produziu. O fator de alívio provém da projeção ao mundo do jogo dos primitivos objetos superegoicos. Nas com tendências paranóicas. como a linguagem. toleram melhor a frustração. Simbolização. Em síntese. o mesmo brinquedo. se não conseguem. sendo ele próprio resultado de uma das primeiras sublimações. Apresentam grande inibição de fantasias por sentimentos de culpa e o resultado disso é a inibição do jogo e da aprendizagem. Nas crianças neuróticas. Assim. O jogo proporciona diagnósticos de saúde e doença nas crianças. Em crianças normais. O desenvolvimento simbólico e emocional que uma criança alcança na psicoterapia marca toda sua vida. (4) a ini­ bição do brincar obedece aos intensos sentimentos de culpa.Crianças e adolescentes em psicoterapia 151 que brinca. favorece a formação de símbolos e a sublimação. existe um compromisso com a realidade. as imagens se aproximam mais aos objetos reais. (2) obedecem à compulsão à repetição. A realização de desejos associada a essas ações é a negação da realidade e uma inibição da fantasia. o equilíbrio entre ambas se inclina para o lado da irrealidade. Crianças psicóticas executam ações monótonas. e as respostas ao CAT-A em 60 crianças de 4 anos e um mês a 5 anos e 11 meses. Psicoanálisis de ninos. 15-19. aqui. Rio de Janeiro: Imago. Teoria I. p. 1993. a experimentação e a criatividade. Buenos Aires: Paidós. El uso de asociación libre por el psicoanalista. 2. BOLLAS. 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ARFOUILLOUX. as inibições do brincar na criança devem ser entendidas como indicador de extrema gravidade. . Buenos Aires: Paidós. 50. Revista de Psicoanálisis . do brinquedo e do desenho. podem ter o tratamento. CAPER. ronnas do brincar: uma revisita à dissertação de mestrado 25 anos depois. 2 0 0 7 . 12. C. Companhia viva: psicoterapia psicanalítica com crianças autistas. 1972. M. realizamos uma pesquisa sobre a relação entre as formas de brinquedo infantil espontâneo e estereotipado.152 Maria da Graça Kern Castro. NÃo publicado. já que implica que seu aparelho psíquico está sofrendo severas limitações. Psicologia de los juegos Infantiles. implica em uma “atividade lúdica” com regras espe­ cíficas. 3 Em inglês squiggle game.APA. 2 Na dissertação de mestrado (PUCRS-76) “Relação entre formas de brinquedo infantil e respostas ao CAT-A”. 1958. Em um tra­ tamento. v. 1994. mas há uma diferença que desejo assinalar: o jogar. ALVAREZ. CHATEAU. Instituto de Psicanálise da SPPA. 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As crianças e /o u adolescentes necessitam administrar o estabeleci mento de novos vínculos. na cultura e na sociedade promoveram mudanças nas constituições familiares e na sua definição. o adolescente e seus pais Rosa Lúcia Severino INTRODUÇÃO As grandes transformações na ciência.13 Psicoterapia familiar nas situações de recasamento: a criança. a situação dos pais. e a do novo casal. na economia. distribuição de tarefas e funções que se alternam. mas muito pouco pode se prever ou pretender generalizar e classificar. A complexidade das relações que se estabelecem na construção e na estruturação dessas famílias podem ser observadas. De conceitos mais restritos. conviverem com novos irmãos e se submeterem a regras e aos padrões de comporta mentos diferentes dos que foram criados. lidarem com conflitos de lealdade. poi vezes. em que a família era composta por um casal heterossexual e seus filhos. gerando-se um número cada vez maior de no­ vos casamentos e reorganizações familiares. passamos para concepções nas quais a família pode se definir como um grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto com adultos envolvidos nos cuidados das crianças. a profissionalização e a independência financeira da mulher estão entre os fatores que incidiram no alto índice de separações e divórcios. expostos .i situações econôm icas desiguais entre duas cuniin. que embora separados precisam comunicar-se e continuar se respon sabilizando pelos filhos. que começa sua vida com filhos. com expectativas que. Famílias monoparentais. com a dinâmica própria de cada fase. ligações significativas com o cônjuge do primeiro matrimônio. Como psicoterapeutas. permanecendo.Crianças e adolescentes em psicoterapia 2 3 9 Para a família extensa. noras ou genros com quem irão interagir. que requerem estudos aprofundados. Entre todas essas. ampliada ou aberta. O comportamento e o desenvolvimento de um indivíduo influenciam todos os demais membros da família. A íamília é o sistema menor dentro de um macrossistema social. onde lluem trocas e interferências mútuas. com indivíduos perten­ centes a organizações familiares tradicionais: famílias com regras de fun­ cionamento já estabelecidas e com uma identidade que possibilita a seus integrantes o uso da mesma linguagem. reestrutu­ rada. somos desafiados a construir um espaço tera­ pêutico de acolhimento e resolução de conflitos. DO INDIVÍDUO À FAMÍLIA Os indivíduos se caracterizam por pertencerem a múltiplos sistemas. Esse modelo de organização fa­ miliar também pode se definir como combinada. utilizando minha experiência clínica e trabalhos de diferentes autores. estão entre as novas configurações familiares. muitas vezes não se cumprirão. novos sobrinhos. muitas vezes. Somos igualmente solicitados a mergulhar em um mundo de novas possibilidades. compreensão e tolerância de todos os envolvidos. Quando os filhos . abordarei neste capítulo a família com recasamento. baseadas em experiências anteriores e diferentes. constituem uma condição importante para o adequado funcionamento da família. A lamília tem um ciclo desenvolvimental que acompanha o cresci­ mento dos lilhos. reconstituída. o desafio consiste em ter que incorporar uma nova família com netos que não são netos. As delimitações de espaços psicológicos entre pais e fi­ lhos. demandando muita sensibilidade. famílias com dois núcleos advindos da separação ou divórcio e casais homossexuais com lilhos adotivos ou biológicos de um dos parceiros. com um único genitor envolvido na criação e educação dos filhos. e esta igualmente influencia iMis integrantes. A qualidade do relacionamento e a intimidade entre os cônjuges. são priorizadas. com famílias que necessitam construir outra identidade. bem como entre estes e os filhos. de todos com outros familiares e com o meio externo. vivência relações afetivas intensas que in­ fluenciarão nas escolhas relacionais futuras (Severino. geniiorinl e que variam em in­ tensidade e comprometimento (Francrsr. as demandas são diferentes do período da adolescência. podemos observar vários casamentos com o mesmo parceiro. favorecem a renegociação de regras anteriormente estabelecidas. para posteriormente se separar no caminho da diferenciação. As famílias do recasamento compõem um grupo no qual um novo membro (ou membros) é incluído. As transformações vivenciadas pelo grupo se refletem no relaciona­ mento do casal. Pelo menos um dos envolvidos teve uma experiência matrimonial anterior e em um grande número. 1999. A transmissão transgeracional de modelos aprendidos. da família com adultos jovens. As expectativas frente ao casamento se modificam e. em uma rede de relações que as­ sume um caráter sentimental. O casamento na juventude é diferente do período da educação e criação dos filhos. Para se compreenderem as relações de casamento. por vezes. quando expli­ citadas. amigável. 1996.509). modificando-se o contrato inicial de acordo com as novas demandas. assim como do período do envelhecimento: da paixão ao amor responsável e maior companheirismo e acolhimento recíproco. p.2 4 0 Maria da Graça Kern Castro. Então. p. São famílias abertas. 76). a dele­ gação de papéis. ao mesmo tempo. Nesse contexto. dar o suporte necessário para o crescimento físico e em o­ cional dos filhos. ou quando os filhos saíram de casa. crenças e mitos familiares operam na dinâmica conjugal. É na família de origem que os indivíduos experimentam a condição de se sentir fortemente vinculados. são pequenos. qual experiência relacional vivenciou. que precisa se confrontar com as suas diferenças e. Anie Stürmer & cols.nratrlli. Fatores do desenvolvimento individual dos cônjuges igualmente entram em cena. tanto como observador do casamento dos pais quanto na interação com cada um deles. Muitas vezes. e. . a ruptura no casamento tem nessas relações primordiais a verda­ deira motivação. conflitos não resolvidos com as famílias de origem podem confundir e obscurecer reais necessidades: e muitas vezes. é fundamental a pesquisa sobre como cada componente se constituiu como indivíduo den­ tro da sua família de origem. ambos tiveram. nas quais as pessoas envolvidas podem desem­ penhar papéis nunca antes assumidos.iht » • l. a falta de flexibilidade no sistema dificulta a solução de crises. num sistema anteriormente composto por pais e filhos e que se desfez por separação ou divórcio ou pela morte de um dos cônjuges. chegando à dissolução do casamento. A perda do cônjuge. muitas vezes a perda da rede de amigos. pode ser intensificada. Somam-se questões de ordem prática. 1997. • ilém de vivenciarem a ausência do genitor que saiu de casa. tencionados e deprimidos. se as crianças são pequenas. experimen­ tando fantasias ou temores de perder o que ficou. 104). associan­ do-se aos conflitos de lealdade. coloca os adultos numa situação de iso­ lamento maior do que o desejado. Os adultos experimentam ansiedade e confusão. o estabelecimento de novas amizades. em especial quando a sepa­ ração é abrupta e não-consensual (Sluzki. a raiva. nem sob o ponto de vista econômico. Se não pode se sustentar sozinha. p. Ocorrem separações em que ou o pai ou a mãe fazem do filho um aliado contra o outro cônjuge. ela permanecerá dependente do ex-marido. O retorno ao mundo social extrafamiliar. luto e preocupações a respeito de sexo e casamento. No período inicial do divórcio. muitas vezes precisando intensificar sua atividade profissional. Se o homem não se mantém muito atento ao seu relacionamento com os filhos. o que não é bom. que culmina em separação. associada à perda de vários vínculos. de­ para-se com novos desafios como morar e se organizar sozinho. misturando-os nas conflitivas pertinentes ao casal e sobieciurogando emocionalmente a criança ou o adolescente. preocupação. corre o risco de se tornar um pai periférico. solidão. os pais. provo­ ca reações e emoções desconhecidas por todos os envolvidos nesse pro­ cesso. Raiva. dirigindo sua energia para a separação física e financeira. tristeza. comportamentos ambíguos. sentindo-se tam ­ bém sobrecarregada com o novo papel de cuidar sozinha da casa e dos filhos. Para os pré-adolescentes e adolescentes. além de ficar longe dos filhos. . nem emocional. podem se voltar mais para si mesmos do que para os filhos. Já a mulher. característica também da idade. conflitos de lealdade e sentimentos de rejeição costu­ mam emergir nesse período. pode se afastar por maior tempo de casa.Crianças e adolescentes em psicoterapia 241 CONTEXTOS QUE ANTECEDEM AO RECASAMENTO O período de crise no casamento. A perda do convívio com as famílias extensas de cada um. que na maioria dos casos. dispendendo muita energia psíquica para sobreviverem à dor e aos sentimentos de culpa que acompanham a ruptura do casamento. a vida sexual fora do casamento ou relação estável. é quem deixa a casa. gera sen­ timentos de insegurança. o homem. representam outras dificuldades advindas do divórcio. abandono e traição. que envolvem condições eco­ nômicas. mas considerar que esta se transformou em dois núcleos. náo havendo .2 4 2 Maria da Graça Kern Castro. mas as formas como os pais se separaram. A observação clínica coincide com a literatura especializada. Assim. em especial se tratando de adolescentes. mais fácil será para os filhos conviverem com essa situação e elaborá-la. Se houve consideração. bem como favorece a aceitação de um novo casamento. a perda de contato com um dos pais e privações econômicas advindas dessa situação são os fatores que trazem problemas e intensificam o sofrimento. Os ex-cônjuges podem desenvolver relações amistosas. que cria um clima d<* hostilidade. a preservação da moradia dos filhos. enfati­ zando essas condições como fundamentais para o divórcio emocional. os cônjuges mantêm o padrão comportamental e relacional que tinham previamente. auxilia os filhos a enfrentarem a nova realidade. A sociedade conjugal se desfaz. nos casos onde há ausência de comunicação ou litígio. a família do pai e a família da mãe. mas a sociedade parental deverá permanecer até que os filhos se tornem adultos e independentes. observando-se menor flexibilidade no sistema. res­ peito mútuo e envolvimento no cuidado dos filhos. Acreditar que não perderam a família. poderão chegar a acordos que preservem uma relação positiva e a continuidade da união enquanto pais. pois além de constituírem um sistema de apoio. bem como a manutenção dos vínculos com seus familiares. cooperando um com o outro e priorizando o bem estar dos filhos. E quanto melhor ela­ borado estiver o divórcio para os adultos. proporcionando carinho e compreen­ são aos netos. Em alguns casos. O litígio. na dissolução do casamento. ressentimentos e antagonismos antigos geram sentimentos de raiva e hos tilidade que interferem nas combinações sobre o cuidado com os filhos. Assim. Em geral. Pode se observar a manu tenção do litígio conjugal. Anie Stürmer & cols. transmitem um sentido histórico e de continuidade da família. arranjos flexíveis serão viabilizados preservando a presença e par­ ticipação de ambos os genitores na vida dos filhos. Podem ainda atuar como mediadores com os pais. um casal não se separa muito diferentemente do que conviveu. Ter assegurado o direito de conviver com aquele que não tem a cus­ tódia. Se os recursos econômicos forem suficientes. Os avôs desempenham um papel muito importante. pode trazer alento e esperança. favorecerá o convívio com o grupo de amigos e colegas de escola e ajudará na superação das dificuldades. Não é o divórcio que prejudica os filhos. De acordo ainda com pesquisas norte-americanas. a maioria das crianças vivenciou o recasamento de um ou ambos os pais. o relacionamento com seus avós paternos. é provavelmente a razão mais co­ mum dada pelas pessoas. também relataram melhores relacionamentos com seus pais. Para que os relaciona­ mentos permaneçam estáveis. pa­ drastos ou madrastas e irmãos. Em pesquisa recente. 54). Durante o período de 20 anos. ocorrido no período da infância. estudiosa sobre o assunto. Para aqueles que experienciaram o recasamento de ambos os pais. Os achados mostraram que o subsistema parental continua impaclando a família binuclear 20 anos após a ruptura do casamento. p. em que foram entrevista­ dos 173 indivíduos 20 anos depois do divórcio de seus pais. madrasta e irmãos emprestados era distante. em que um único genitor se responsabiliza pela criação e educação dos filhos (Ahrons citado por Kaslow. Kaslow (1 9 8 7 ). intitulada “Ligações familiares pós-divórcio: implicações a longo prazo para as crianças”. (3 ) Alguns indivíduos divorciados não toleram a condição de esta rein sozinhos. 1987).Crianças e adolescentes em psicoterapia 2 43 nenhuma comunicação direta entre os ex-cônjuges. aponta como motivações para um novo casamento: (1) Motivos similares para o primeiro casamento: amor e desejo de compartilhar a vida com alguém. procuram outro . gerando famílias delinidas como monoparentais. 2/3 relatou que o recasamento do pai foi mais estressante do que o da mãe. As crianças que relataram que seus pais foram cooperativos. no sentido de desenvolver e alcançar novas realizações. exercen­ do forte influência na qualidade dos relacionamentos dentro do sistema familiar. dependerá de um complexo entrelaçamento de diversos fatores (Ahrons. se sentindo sem reconhecimento. o que leva a supor que as pessoas seguem buscando o casamento como uma instituição válida para satisfazer seus anseios e necessidades. 75 a 80% dos divorciados voltam a se casar. 2 007. (2) Oferecer uma vida em família para os filhos do primeiro casa­ mento: as tarefas de constituírem genitor único podem ser opres­ sivas e a possibilidade de dividi-las com um segundo parceiro que auxilie é muito atrativo. negativo ou inexistente. avós. e 1/3 dessa amostra relembrou o recasamento como mais estressante que o divórcio. Ahrons (2 0 0 7 ) descreve o estudo longitudinal com famílias binucleares. Quando a relação das crianças com o pai se deteriorou depois do divórcio. se desenvolvam ou piorem. Conviver com o romance e a relação altam ente sexualizada do início de um relacionam ento pode ser mais um fator de estresse para os filhos. casamento para se livrar da sensação desconfortável de desequi­ líbrio. Para mães de crianças pequenas. consti­ tuem uma estrutura familiar complexa. acarretará sentimen­ tos de deslealdade em relação ao outro genitor ou temor de prejudicar sua relação com o mesmo. em especial para as que têm muitas ocupações profissionais. p. Quando e como introduzir um novo parceiro na vida das crianças é um ponto chave e delicado. Manter segredo gera tensões. . de acordo com Kaslow (1987). há também o risco de significar uma perda dolorosa. deixando as crianças inseguras e desconfiadas frente a outros rela­ cionamentos. considera-se aconselhável um período de tempo entre o divórcio e o recasamento (dois a três anos) para um bom ajuste familiar. FORMANDO UMA NOVA FAMÍLIA Quando um homem e uma mulher se unem num segundo casamen­ to. cm especial se tratando de adolescentes. Anie Stürmer & cols. administrar o tempo disponível para estar com os filhos e um namorado costuma ser complicado e. Se ocorrer cedo demais. por vezes. próxima às perdas vivenciadas na separação dos pais. muitas vezes por se sentirem culpados pela separa ção ou por temor das consequências se o ex-parceiro tomar conhecimen to. na qual conflitos e tensões pró­ prios da convivência se intensificam e as reações se tornam visíveis. que raramente deixam de pei eeber que está acontecendo alguma coisa que min ••M á sendo falada. “É como se nas famílias recasadas o processo de se unir e pertencer tivessem lugar sob um poderoso microscópio. 329). De modo geral. (4) Outros casam de novo para serem apoiados financeiramente.2 4 4 Maria da Graça Kern Castro. 1994. focado diretamente na essência dos relacionamentos interpessoais” (Visher. E se o namoro não segue adiante. Há situações em que os pais excluem completamente os filhos do novo relacionamento. um novo casamento tem maiores chances de ser bem-sucedido se os cônjuges realizaram alguma terapia pós-divórcio para explorarem a dinâmica de seus relacionamentos. enfraquecendo vínculos de confiança. trazendo consigo os filhos de relacionamento(s) anterior(es). E. acaba ocorrendo uma exposição precoce de um ou mais envolvimentos. A hieI ftrquia em relação às idades. pode ser mais difícil para as crianças acharem o seu lugar no sistema. Os sistemas se tornam ainda mais complexos se ambos trazem filhos d os casamentos anteriores. sem tei tido anteriorm ente uma .Urinas podem ficar acirradas. além das experiências com suas famílias de oi igem. Quando são adolescentes. coincidindo ou não com a formação da nova íamília. a criança tem seu universo relacional ampliado ao conviver com outras figuras de avós e tios: ter que se ajustar a diferentes estilos de vida contribui para torná-los indivíduos flexíveis. a supervisão e •oimmicação aberta são fundamentais: o tabu do incesto não opera ime­ diatamente. Relações com “novos” irmãos devem ser desenvolvidas. Além disso. incompreensíveis aos olhos dos adultos. os filhos devem interagir com dois novos sistemas familiares: precisam conviver com pessoas com estilo de vida diferente que trouxeram. podem ainda ocorrer alianças ou exclusão por questões de gênrro. Por outro lado. rivalidades li. os conflitos. Quando ambos os pais recasam. e isso demanda atenção c cuidados especiais. intensifican­ do-se. assim. a idade das crianças e o tipo de divórcio vivenciado. Ilm glande desafio para as famílias com recasam ento consiste na liecessldade de se tornarem um tfrupo. é difícil para os casais das famílias com recasamento per­ mitir que as crianças expressem seus sentimentos positivos e negativos cm relação aos quatro adultos envolvidos em suas vidas. reunindo-se como grupo de coirmãos. sobretudo nas crianças. Quando a criança é muito pequena no momento da separação de seus pais. Uma reação de hostilidade. podendo ocorrer o enamoramento entre os “não-irmãos”. entre os quais o tempo de du­ ração do matrimônio prévio. vivências com uniões ou matrimônios anteriores. fre­ quentemente. não se mantém. Os •ii11 1 lios envolvidos precisam aprender a lidar com necessidades muito *11 1 «*ientes. Alcançando um estágio cognitivo posterior. a maneira como o grupo anterior se rela­ cionava. Se a rede familiar inclui muitas pessoas.Crianças e adolescentes em psicoterapia 245 Deve-se ter sempre presente que a nova constituição familiar ocorre sobre uma situação de luto pela perda da primeira família: a elaboração das perdas dependerá de muitos fatores. por se constituírem processos inconscientes. em especial quando os filhos são pequei i o s . por vezes. explosão de raiva ou agitação. pode estar encobrindo uma profunda tristeza. melhor a in­ tegração de toda a família. Quanto melhor o relacionamento entre os não-irmãos. quem é caçula ou o mais velho. o luto pode ficar adiado. situações externas que ressignifiquem sentimentos de perda suscitarão reações. Muitos sentimentos podem não ser identificados. por exemplo. coincide com autores que apontam alguns preditores de dificuldades na organi­ zação das famílias com recasamento (Carter e McGoldrick. 1995): 1. favorecendo um sentido de pertinência fami­ liar. no qual é esperado que as mulheres cuidem dos filhos. agir “como se” essa fosse apenas uma família comum. o novo par deve construir sua identidade de casal. a expectativa de que a nova esposa substitua a mãe real irá gerar disfuncionalidades no sistema. história através da qual pudessem se organizar gradualmente. 5. Esforços para estabelecer fronteiras rígidas em torno da nova associação familiar e pressão para haver lealdade e coesão primá­ rias na nova família. podendo acarretar sintomas nos filhos. 4. desenvol­ ver alianças mútuas e solidificar sua relação. Dentro desse grupo. Tradicionais papéis de gênero. ou se comportar com hostilidade1 . uma vez que será importante o envolvimento direto do pai com os filhos quando estes estiveram com ele e a nova parceira. exemplificada no caso descrito. Minha experiência clínica. Anie Stürmer & cols. ficar confusos e divididos entre duas cuidadoras. Em con sequência. Crianças dos recasamentos não estão procurando novos pais. devem ser revisados. A aceitação por parte das famílias extensas auxilia no processo de construção da nova família. Mudança na custódia dos filhos perto do recasamento. O apoio vind dos amigos e da rede social aumenta a adaptação e o desenvolvimento das forças das famílias reconstituídas. Exclusão dos pais ou avós biológicos. se existirem sentimentos de raiva intensa ou amargura em relação ao divórcio ou se ainda há ações legais pendentes. Negação das diferenças e dificuldades. 7. 3. Incapacidade de abandonar o ideal da primeira família intacta e passar para um novo modelo conceituai de família. . Negação de perda anterior e/ou um intervalo curto entre os casa­ mentos.2 4 6 Maria da Graça Kern Castro. combatendo sua influên­ cia. 9. 8. 2. poderão ter medo de perder a mãe. Assim. Incapacidade de resolver questões de relacionamento intenso na primeira família. Falta de consciência das dificuldades emocionais do recasamento para os filhos. Uma grande discrepância entre os ciclos de vida das famílias. 6. easando com ele quando nós apenas nos conhecia mos. Cooperar ou gostar deles pode ser sentido como deslealdade. se a aproximação é gradual. Talvez porque se espera menos dos homens por padrões culturalmente aprendidos. apenas sob o ponto de vista da madrasta: F m estava me scníindu tão sozinha que fu i facilmente arrastada pelo pai de Cinderela. Da real impossibilidade de substituição. frequentemente as crianças resistem a um dos lares. A expectativa de que o homem assuma a posição de único provedor da família gera estresse e impasses. amorosa e flexível. Um dos piores problemas que os parceiros dos recasamentos devem enfrentar é serem colocados no papel de malvados. Considera-se igualmente problemático quando uma mulher vê no novo companheiro um substituto para um pai ausente: situação vivida na relação anterior ou porque no meio dos conflitos pós-separação o litígio conjugal colocou o pai para fora da relação. Pesquisas indicam que a posição de um padrasto é mais fácil do que a da madrasta. A nova esposa. revolta. Nesses casos. A complexidade evi denciada nessas relações inspirou uma nova versão para o conto de fadas Cinderela.164). nesses contextos. Uma situação peculiar acontece quando uma criança sente ciúmes do padrasto com quem tem que dividii a atenção e o amor da mãe (Schwartz. 1995. p. Entretanto. quando for necessária a colocação de limites as crianças demonstram melhor adaptação e aceitação. advêm sentimentos de frustração e por vezes. provocando desajustes na relação do casal. Quanto mais os padrastos ou as madrastas se envolvam nos cuidados e disciplina. pode ten­ tar amá-los mais do que ama seus filhos. Uma w. A relação de proximidade e intimidade com o genitor que tem a custódia interfere nos esforços positivos dos padrastos ou madrastas. casados. 1996.Crianças e adolescentes em psicoterapia 2 4 7 Além disso. eu percebi que ele ainda estava obcecado pela esposa falecida . fazendo com que eles não se sintam sobrecar­ regados ou desafiados como as mulheres. estabelece uma relação onde não pode reconhecer em si mesma sentimentos de raiva quando ocorrem comportamentos destrutivos ou de superexigência (Carter e Peters. impedindo que estes sejam reconhecidos. sensibilizada com a tristeza dos enteados. 293). Em consequência. p. mais as crianças poderão sentir que o território do pai ou mãe real está sendo invadido. é funda­ mental que os adultos se apoiem no estabelecimento das regras. uma vez que suas responsabilidades financeiras com os filhos do primeiro casamento deverão continuar. CONTEXTOS TERAPÊUTICOS PARA FAMÍLIAS COM RECASAMENTOS Entre os motivos principais de consulta. A próxima coisa que fiquei sabendo fo i que ela fugiu para se casar com o príncipe (que era uma fon te de tormento no castelo) e eles contaram que ele a havia “salvado” de uma escravidão em sua própria casa. as quais ficavam compreensivelmente enciumadas. à medida que os filhos crescem. E quando o pobre homem repentinamente morreu. As madrastas podem ser perce­ bidas como adversárias. . Ilustra as muitas dificuldades que essas famílias enfrentam. 1996. em especial as filhas mulheres.2 4 8 Maria da Graça Kern Castro. A figura a seguir apresenta esquematicamente parte do genograma familiar no qual se evidencia a triangulação de Renato. O texto descrevendo um sentido contrário do famoso conto de fadas aponta para a evidência de que todo o conflito familiar pode ter outra versão. o paciente identi­ ficado. que Cinderela jam ais imaginou que poderia se esperar ajuda dela em casa. A expectativa sobre as madrastas ou padrastos de amarem auto­ maticamente os filhos do novo cônjuge mais do que amam a seus próprios é um dos fatores que impactam mais do que ajudam nas novas relações e pode criar o mito da madrasta malvada. porque deviam lavar e cozinhar enquanto Cin­ derela se recusava afazê-lo. e a abordagem terapêutica procurou acompanhar a complexidade da cons­ trução da nova constelação familiar. Anie Stürmer & cols. ou estão fazendo parte dos novos arranjos familiares. que sempre ficava do seu lado. p. contra mim. com a mãe (extrema proximidade) c* com a madrasta (relação dc conflito). Elas também se ressentiam. Ela ficava fo ra muitas horas. Sempre que eu tentava por ordem na pobre menina órfã. atualmente encontramos crianças que estão vivenciando ou já vivenciaram a separação dos pais. Ele gastava muito com presentes para ela e para as minhas filhas não dava nada. O relato a seguir foi escrito pela mãe de uma família com recasa­ mento. 293-294). que se tornam as maiores protetoras de suas mães e suas guias mais leais (Carter e Peters. ela tinha um acesso de mau humor e corria para seu pai. eu não consegui controlar Cinderela. Ele adorava cegamente Cinderela e era tão indulgente com ela. muito culpado. form ada e com independência econômica. A vida rolou. morava ainda com os pais e gastava minha grana com o que eu gostava: passeios. as roupas f oram indo aos poucos. Divertíamo-nos como casal e também com os filhos. Sua filha. etc. Ele casou. 3 anos. teve filhos. combinamos sair juntos. Acaba­ mos namorando e. Ele se mostrava culpado. passei a dorm ir no aparta­ mento dele. congressos. sua ex-esposa. e o filho. estava arrependida. e dois anos depois. que encabeçou a separação. ela jogava pesado com as críanças. que fizeram com que convivessem com meus familiares. fico sabendo que ele se separou. o que gerava conflitos de lealdade. dessa vez. Sua mãe não apoiava nossa união e se unia a Marina. Paralelamente. sendo apenas amigos.Crianças e adolescentes em psicoterapia 2 4 9 LUTANDO PARA SEREM FELIZES Conhecemos-nos no período da faculdade. fazendo tu­ do para Luciano voltar. não as autorizando a gosta­ rem desta intrusa. Novo reencontro. o requisitava constantemente. de mae viva . pois era o m entor intelectual do evento e sofria pelas crianças. Renato. com quem fazíamos viagens e passeios. Marina. em relação ao que estava rolan­ do. Joana. fazíamos muitas coisas boas juntos e houve épocas em que eu queria até ado tá los. Luciano cedia às soli­ citações de Marina. Entre a saída de Luciano de sua casa e o nosso namoro foram apenas seis meses. Eu inicialmente achei o máximo nam orar um cara já com filhos. hobbys. como era tudo ótimo. Por opção. enfrentávamos o inconformismo de Marina. amizades. < \ue de início. tinha 7 anos. N un­ ca me assustou a ideia de me envolver com meus enteados. Fomos relativamente felizes no início com as crianças. reencontramos-nos ca­ sualmente. Eu era uma m u­ lher solteira. de vida boa. e quando eu estava noiva. No ano seguinte. quando então em clima de muitas brigas. eles decidiram retornar para a casa da mãe. En­ frentamos novas dificuldades: as crianças preferiam perm anecer conos­ co mesmo quando fosse o período combinado para ficarem com a mãe. Foi uma época problemática: para Marina. Isso ficou notório quando o tempo passou e a adolescência os impulsionou a re­ cuperar a mãe. quando não me sentia dona de minha própria casa. Não pensavam que poderiam circular lá e cá. segui­ da por Renato um mês depois. mas aos poucos comecei a m udar de ideia. De mulher solteira. pois não sabia como lidar com a demanda dos filhos. e mudamos to­ dos para uma casa nova. Anie Stürmer & cols. Lucas. não conseguia dar a mesma atenção aos maiores.2 5 0 Maria da Graça Kern Castro. Entre os conflitos de lealdade e carências. A vida de casal ficou interferida e o romantismo sem lugar. aos 10 meses de Lucas. Com o nenê pequeno. quanto mais eu era generosa. nasceu nosso segundo filho. O que importava para eles era ter garantido o amor de Marina. Luciano não conseguia me proteger das agressões da ex-esposa. passei a ser mãe de três filhos. mas ainda estávamos levando. eles me agrediam para poder voltar para ela. Procuramos atendimento quando Renato estava com H anos e apresen tava problemas de desatenção e agitação na escola (l. Hoje. mas que não imaginava o que poderia ocorrer. Meus enteados ficaram conosco durante cinco anos. Mas. Talvez as coisas tenham se acalmado quando ficou definida a troca de guarda para Luciano. Após quatro anos de casados. já que tínhamos uma pretensa grande fa m í­ lia. Não sei por que não seguimos a indicação de terapia. Outro erro. Ricardo. Joana veio morar conosco. ansiedade que era repas­ sada para Joana e Renato.ulza) . isso representava a divisão do patrimônio com filhos que não eram seus. Depois. amorosa e cheia de recursos. mais minha presença salientava as limitações da mãe deles. Acreditávamos que poderíamos ser felizes com essa grande família. Sempre achei que seria viável. Entrei nessa história sem que tives­ sem feito a mínima separação emocional. Hoje. Dois anos depois. sei que a melhor madrasta não se compara com a unha da mãe. pensei ter entrado numa história que já tinha todos os personagens. Luciano me consultou sobre Joana poder ficar e respondi que jamais me oporia. foram tempos difíceis: Luciano se demorava para retornar para casa. independente. Eu sobrava. engravidei de nosso prim eiro filho. sei que cometi alguns erros. McGoldrick. levando-se em consideração os triângulos formados dentro dessas famílias. tornando mais difícil a experiência das madrastas (McGoldrick. com a inclusão dos familia­ res no atendimento sempre que necessário. sessões com Luciano e Luiza. Gerson e Schellenberger (1999). onde a hostilidade entre as crianças e a nova esposa gera conflito no pai. Marina. mas na presença de ansiedade e tensões. coincidindo com o pedido de alteração da guarda dos filhos. as crianças estando aliadas à mãe e em conflito com a madrasta. sua frequência e intensidade aumentam” (p. A cultura ocidental influencia em expectativas maiores em relação à maternidade do que à paternidade. apre­ sentava depressão. sugerem triangulações previsíveis em famílias com recasamento: triangu­ lação criança. sessões com Joana e Renato e deles com a mãe. vinculada aos filhos. que já morava com o pai. pensar triângulos é “ob­ servar as maneiras previsíveis nas quais as pessoas se relacionam umas com as outras num campo emocional. evitando a triangulação. Gerson e Schellemberger. Esse caso clínico exemplifica padrões relacionais possíveis de serem explorados e compreendidos em famílias com recasamento. seus filhos e o padrasto. devem ser considerados os espa­ ços d<* tempo entre o término do primeiro casamento e a constituição da nova estrutura familiar» a idade dos filhos e o tipo de comunicação man­ tida pelos ex cônjuges. Indicou-se psicoterapia individual para Renato com enfoque familiar. Para um planejamento terapêutico. ansiedade e ambivalência frente a permanecer ou deixar a casa materna e ficar próxi­ mo da irmã. 1999). Foram identificados em Renato sentimentos de tristeza. . que fica cfividido entre a esposa e os filhos. 71). Ocupar uma posição menos central na vida das crianças e respeitar a ligação dessas com o pai e a mãe deixa a criança mais livre. entre outras. sofria por terem saído de casa. Embasando-se na teoria de Bowen (1 9 9 1 ). Essas questões foram relacionadas com o comportamento inquieto de Renato e sua falta de atenção nas atividades escolares. Triangulações também podem ocorrer com a mãe biológica. partindo dessa teoria. o que operava como motivo para as crianças evitarem estar com ela.Crianças e adolescentes em psicoterapia 251 O processo de avaliação psicológica incluiu a nova família. agravando a situação. pai e madrasta. entre tantos outros. Os movimentos dos triângulos po­ dem ser tão imperceptíveis que dificilmente se pode observá-los em situa­ ções emocionais tranquilas. é importante realizar intervenções terapêuticas em nível estrutural. nas quais se evita a discussão de questões conjugais. Parale­ lamente. as sessões se realizam em con­ junto. uma vez que auxilia os cuidadores a descobrirem m aneiras de levarem adiante o projeto da . Anie Stürmer & cols. tendo-se presente que a disso­ lução foi da sociedade conjugal. experimentando sentimentos de abandono ou rechaço. pai e mãe são vistos separadamente. são estimulados comportamentos de colabo­ ração e respeito mútuos. No processo de avaliação e terapia. a parental deve se manter até a entrada dos filhos na idade adulta. 1999. Se o problema apresentado envolve diretamente o padrasto ou a ma­ drasta. O trabalho psicoterapêutico em nível individual deve enfocar ques­ tões relativas à autoestima. caso contrário. de aceitação das diferenças e o restabelecimento de ligações e comunicação que estejam interrompidas. em especial no processo diagnóstico.2 5 2 Maria da Graça Kern Castro. desenvolvendo sentimentos de confiança nos outros e a capacidade de expressar pensamentos e emoções que levem a uma interação mais positiva. relacional e individual que favoreçam a comunicação dos próprios sentimentos. que favoreçam um espaço a dois. que possibi­ lite a expressão. estes deverão participar desde o início e durante o tratamento. p. Crianças cujos pais se separaram quando ainda muito pequenas po­ dem reviver sentimentos de solidão. O casal deve ser auxiliado a estabelecer fronteiras flexí­ veis.sse aspecto educacional é im portante. a capacidade de escutar os outros e o desenvolvimento de competências relacionais e afetivas (Francescato e Locatelli. mas porque dessa relação depende a estabilidade de todos os demais. Nessa situação de transição e crise familiar. O relacionamento satisfatório do casal é fundamental não somente para sua felicidade. os pais da primeira família devem ser incluídos. 528). Com a família e o casal. deve-se enfocar a criança ou ado­ lescente oferecendo-lhes um espaço terapêutico individual. realizam-se sessões com o grupo familiar. As funções parentais devem ser apoiadas tanto no sentido financeiro quanto no sentido educacional e emotivo. que podem se desencadear por situação advinda do ambiente familiar. escolar ou de outros eventos fora da família. Se a comunicação é positiva. a compreensão e a elaboração desses conflitos. Quando uma criança ou adolescente são o motivo de consulta. o que requer um planejamento consciente e objetivo. direcionando-se o foco para alternativas de solução conjuntas frente as dificuldades do paciente identificado. F. Outra questão a ser trabalhada é auxiliá-los a reconhecer que a relação entre os pais e os filhos do primeiro casamento vem de muito mais tempo do que com o novo parceiro e. Considerando que os hábitos e formas de convívio devem se cons­ truir numa nova ordem. a relação a dois entre estes e os enteados pode favorecer o estreitamento dos laços afetivos. etc. sendo assim. a criação de rituais familiares auxilia na defini­ ção da nova família. conforme estavam acostumados os pais da primeira família com seus filhos. desenvolvendo ativida­ des conjuntas. compreendida seja como perda do cônjuge ou do genitoi que saiu. elegendo datas e momentos para que isso se viabilize. Para sintetizar muito do que foi dito até o momento. Pensar nas competências dos indivíduos em vez de se acentuar as dificuldades é um caminho para auxiliá-los a recuperarem a autoconfian­ ça e olharem para o futuro. Essas mesmas habilidades poderão resultar ou não em um novo casamento. o vínculo é mais forte. O envolvimento e o compromisso do pai ou mãe com as crianças é completamente diferente do que com os novos parceiros. sentindo-se igualmente validados enquanto pessoas com ­ petentes. contribui para reassegurar a proximidade nas relações. (2) participação de atividades comuns. com suas regras. por exemplo. (3) bom padrão de comunicação. minimizando sentimentos de exclusão experimentados por padrastos ou madrastas. pode ser res­ guardada. incluo alguns (atores indicativos de uma organização com sucesso e satisfação. mas é importante que o novo grupo escolha como fazer a sua celebração em particular. aju­ dará as famílias dos recasamentos a se sentirem conectadas e unidas. mas também como perda da ideia da família de origem. igualmente. suas lembranças suas tradições.Crianças e adolescentes em psit oterapia 2'* l nova família. Promover encontros. sobre a importância da relação dual entre pais e filhos. (5) orientação religiosa e (6) habilidade para lidar com o estresse de maneira positiva. (4) confiança. reunindo avós ou tios de ambos os lados. Ahrons (2007) aponta seis características descritivas da força fami­ liar: (1) expressão de apreciar uns aos outros e sabedoria para dispender tempo juntos. confor­ me Francescato (1 9 9 9 ): I ) Elaboração da perda. podendo se desenvolver na organização de uma nova família. . Orientar os adultos envolvidos na construção da nova família. A comemoração de eventos ou datas festivas. 4) A individualização dos rituais familiares: a nova família necessita viver seus rituais e tradições a seu próprio modo para a construção das ligações afetivas. b) os adultos e as crianças respeitam os ex-cônjuges. É imperativo para a saúde das famílias com recasamento que em nossas cabeças façamos justiça para a flexibilidade. 5 ) 0 desenvolvimento da relação entre genitores e filhos do atual companheiro: quando foi possível estabelecer inicialmente uma relação amigável. sobretudo na fase inicial. mas colaboram nos interesses dos filhos (Francescato e Locatelli. As palavras-chaves são flexibilidade e clareza. estabelecem-se relações satisfató­ rias entre os filhos e os padrastos/madrastas. Anie Stürmer & cois. 0 os padrastos ou madrastas não têm relações legais com as crianças. g) existe a consciência de que é necessário certo tempo (2 a 4 anos) para o processo de construção de uma família reconstituída. 3) A solidificação do novo casal: na família reconstituída com suces­ so o casal é muito unido e conseguiu superar. o trabalho com famílias ao longo de muitos anos me ensinou a recouliecct . 1990). c) as ligações genitor-filho são pre­ cedentes à formação do casal. em que: a) os adultos e as crianças se encontram e se unem enquanto estão em posição diferente do seu ciclo de vida individual. A terapia acontece na cabeça dos terapeutas.2 5 4 Maria da Graça Kern Castro. o problema de administrar o próprio espaço e o próprio tempo e os limites entre o espaço do casal e aquele da família. familiar e de casal. 3 2 9 ) CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora muitas dificuldades tenham sido discutidas nesse capítulo. 1994. para a criatividade e para o esforço que os adultos (madrastas e padrastos) fazem pelas suas famílias e para a resiliência das crianças em se ajustar a todas essas mudanças. 2) A definição de expectativas realísticas: esse é um fator decisivo e signi­ fica que os membros da nova família têm a noção de pertencer a um tipo de família diferente da tradicional. p. 6) Colaboração entre as famílias: os adultos não são hostis ou compe­ titivos. e) as crianças se movimentam entre duas famí­ lias. d) existe um genitor biológico em outra casa ou na memória. (Visher. deixando a função educativa exclusivamente para os pais e alcançando com o tempo um acordo com os mesmos sobre essa distinção de papéis. .). L. 61-83. cuidando para não repetirem os erros cometidos no passado. CAGNETTI. Terapia Familiare. 64-86. CARTER. 51. 46. i> lo t 11 4 . B.. Famílias resultantes de segundas núpcias: la creación de un nuevo paradigma. Porto Alegre: Artmed. n. A. In: BOWEN. 1. GERSON.. 19-30. p. v. Family relational patterns and triangles. frente a situações de maior estresse ou sofrimen­ to. In: WALTERS. Hacia la diferenciación de si mismo en la familia de origen. M. Buenos Aires: Paidós. 2007. podem temporariamente “se paralisar”.. F. mostram-se muito ativos e participativos. Co­ mo todas as famílias. (Ed. rUANCESCATO. De la familia al individuo: la diferenciación del si mismo en el sistema familiar Buenos Aires: Paidós. R. v. M. Cienograms: assessment and intervention. 5 0 9-539. cabendo a nós.. La red invisible. 1987. (Ed. Desafiados a “inventarem” a nova família. GERSON. Family ties after divorce: long-term implications for children. New York: Brunner/ Mazel. p. SILVERSTEIN. 1996. New York: Pocket Books.OW. D. L. p. (Ed. D. (Ed. In: MCGOLDRICK. REFERÊNCIAS ABELSOHN. CARTER. M. CARTER. 364-400. 2. C. S. In: ANDOLFI.). Em especial. p. R.). S. R. Family Process. muito provavelmente imbuí­ das do desejo de acertarem a nova escolha. M. Favorecer o restabelecimento de relações quando houveram ruptu­ ras familiares e estimular a ampliação de redes de convívio social estão entre os objetivos da psicoterapia familiar.W. p. B. M. Milano: Raffaello Cortina. v. 1992. (Ed. PETERS. M. as famílias dos recasamentos desenvolvem a tolerância. LOCATELLI. AHRONS. M. The dynamics o f divorce. L. M( IGOIDRICK. GREGO. CARTER. BOWEN. L. K. Family Process. terapeutas.). O.. D. SCHELLENBERGER. B. 31. 1999. 1991. M. KASL. 5 3-65. As mudanças no ciclo de vida familiar. 1999.. a aceitação das diferenças e a criatividade.. ajudá-los a recuperarem as próprias competências. 1996. ed. New York: Norton & Company. J.. procurando se adaptar às demandas da nova situação. A “good enough” separation: some characteristic operations and tasks. 1995. MCGOLDRICK.).. SCHELLENBERGER. Luci e ombre delle famiglie aperte. Rapporti in terp ersonali ill’interno delle famiglie ricostituite. p. I KANCESCATO.Crianças e adolescentes em psicoterapia 255 seus inúmeros recursos e saídas para a solução dos problemas enfrenta­ dos ao longo de seu desenvolvimento. 1991.. B.. Love honor and negotiate. La crisi della coppia. SCHWARTZ. I n : _____ . TUSTIN. FERNANDES. MILHER. v. 1996. Porto Alegre. 1984. _____ . 1978. Porto Alegre: Artmed. F. 1994. Autismo infantil precoce. p. S. Rio de Janeiro: Imago. __. > / 2 . Autismos. F. Autismo infantil e vínculo terapêutico. Buenos Aires: Spatia. Revista Brasileira de Psicanálise. D. n. Buenos Aires: Spatia. I n : _____ . Dos sons à palavra: explorações sobre o tratamento psicanalítico da crian­ ça autista. 119-141. Letra Freudiana. 148-151. C. Revista Fort-da. p. P S. MELTZER. Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self. In: ROCHA. 2 0 0 0 . TRKVARTHEN. ___. Ü brincar c a realidade. Insight Psicoterapia. p. v. Adolescên­ cia: o segundo desafio. jun. L. M. 2006. D. Hio de Janeiro: F Alves. __ _. 1983. 1995. Campinas.. Estudos de Psicologia. Barueri. 1992. . Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. 1990. 2 09-225. MARQUES. O primeiro sentimento de existência do bebê: entre corpo e psiquismo. STERN. H. 3. D. n. R. São Paulo: Escuta. n. 2 003. TOMASELLO. São Paulo: Martins Fontes./mar.). C. ROCHA. __. O ambiente e os processos de maturação. Análise das funções comunicativas expressas por terapeutas e pacientes do espectro autístico. El Claustrum y la adolescência. I n : _____ . 18. Autistic children assesed as not brain-damage. 54-62. 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Como conse­ quência. negá-lo. bem como para eximir os demais de respon­ sabilidades e das providências a serem tomadas. e até mesmo para alguns profissionais da área da saúde. suscetí­ vel. é maior a sua vulnerabilidade para condutas de risco. entrar em conta­ to com ideias ou ameaças de morte mobiliza questões relacionadas com a própria morte. é praticamente um tabu. se justificam como uma proteção contra a per­ cepção de um risco iminente. emotivo. Tam­ bém o narcisismo do terapeuta é colocado eni cheque ao se deparar com o fato de que em certos casos as suas intervenções poderão não ser suficien­ tes para impedir o ato suicida. O adolescente é caracteristicamente impulsivo. mas no real e no concreto. pois se refere a questões de vida e morte não apenas em nível simbólico. mais do que desinformação. o ataque ao corpo é a única forma de expressar os conflitos internos e aplacar a tensão produzida pelas rápidas mudanças desencadea­ das pela puberdade. impaciente e está em constante desequilíbrio. pois. para alguns deles. Os jovens com tendência suicida mobilizam e desa­ fiam o terapeuta de maneira peculiar: são intensas as identificações projeti­ vas que provocam reações contratransferenciais igualmente intensas. hipersensível. c Lú_ Psicoterapia de adolescentes com tendência suicida S andra Maria M ailm an da Rosa Esse tema suscita questões que vão muito além do entendimento e do manejo técnico. em especial na sociedade ocidental. . Dessa forma.OQ_ f& CCi. muitos dos mitos que existem em torno do suicídio. modificar o ambiente sociofamiliar. sendo a faixa de 15-18 anos a mais crítica para os comportamentos <le risco. prin­ cipalmente nos países em desenvolvimento (OMS .3 2 2 Maria da Graça Kern Castro. com o ato. essa ação é poten­ cialmente perigosa. Pos­ teriormente. agora menos baseada na moral. busca a compreensão do ato com um enfoque mais médico e social. Na An­ tiguidade Clássica. vai-se percebendo que existem fatores predisponentes e situações desencadeantes do comportamento suicida. demoníaca e moralmente recriminável. um ato contra o Estado. No século XIX. Mesmo sem consequência de morte. O suicídio ou parasuicídio é definido como qualquer ação que varia quanto ao grau de consciência. chegando à visão atual do suicídio como uma questão de saúde pública. seja pela sua intencionalidade autodestrutiva ou pelo desconhecimento do indivíduo quanto aos riscos. Gradualmente. para os gregos e romanos. E difícil precisar a frequência dessa ocorrência na populaçAo Jovem brasileira. sendo punido com severidade: os bens da vítima eram confiscados.10/09/2007). as reações da sociedade assumiram diferentes características diante do suicídio: admiração. o corpo era exposto à execração pública e os parentes deviam pagar multa ao Estado. só havendo menção ao ato suicida quando Santo Agostinho e São Tomás de Aquino o taxaram como uma ação pecaminosa. e o suicídio passa a ser visto como uma manifestação de lou­ cura. incorporado à lei civil. 2 0 0 6 ). intelectuais e filósofos começam a questionar esses conceitos. sendo abundantes na literatura as histórias com fim trágico. como um ato de suprema liberdade ou solução aceitável para as situações intoleráveis da vida. Inú­ meras pesquisas apontam para o suicídio como a segunda ou terceira cau­ sa de morte entre adolescentes e jovens adultos. devido íi pre* . começa a se esboçar o conceito de suicídio romântico. cuja motivação vai desde o desejo de acabar com a própria existência até a intenção de. outras 20 tentam sem sucesso. A abordagem. para cada uma delas. o suicídio passou a ser visto como um atentado contra as instituições sociais. Anie Stürmer & cols. relacionadas ao abandono ou à perda do ser amado. Durante séculos a Igreja não se posicionou. em que os amores impossíveis levavam a ameaças ou à consumação do suicídio. despertando rea­ ções de hostilidade e punição aos ditos infratores (Timbó. A média de suicídios na população geral teve um aumento de 60% nos últimos 50 anos. Cerca de 3 mil pessoas por dia cometem suicídio em todo o mundo e. co­ mo ofensa a Deus ou. ou interpretado como um desvio de comportamento. Através dos tempos. pela qual o indivíduo provoca um dano físico a si mesmo. Lituâ­ nia. A adolescência é um período de grande turbulência emocional que demanda um sofrido trabalho de reorganização psíquica em função das fantasias e angústias intensas. porém. 1996). 2002) são o enforcamento. Porto Alegre desponta com a taxa mais elevada. 2005).Crianças e adolescentes em psicoterapia 3 23 cariedade dos registros médicos e policiais. Os meios e procedimentos mais utilizados pelos jovens brasileiros (Souza. Estima-se que no Brasil entre 9 e 12% dos adolescentes atentam contra sua vida e 1/3 das hospitalizações psiquiátricas têm a tentativa de suicídio como um dos motivos de baixa (Resmini. Análises epidemiológicas indicam que a maioria dos suicídios entre os jo ­ vens ocorre em casa durante o dia. Existe uma estreita relação entre a constituição da genita lidado e a confrontação com a ideia de morte como um fato irreversível < ■ . Isso se deve à escolha de méto­ dos mais letais. O corpo é vivido como o lugar de onde emerge uma força pulsional incontrolável e inquietante. à bissexualidade e admitir a diferença de sexos e gerações (Ladame c Otrino. pedido de ajuda menos frequente e por serem mais frágeis diante de rupturas relacionais e outros tipos de ten­ sões (Frazão. e para que se possa escapar da angústia ligada à possibilidade de consumação do incesto e do parricídio. Minayo e Malaquias. 2002). o índice de mor­ talidade é maior na população masculina. As taxas mais altas de suicídio entre jovens aparecem na Rússia. que são acionadas principalmente pelas transformações corporais da puberdade. Hungria e Nova Zelândia (Avanci. Minayo e Malaquias. o jovem deverá renunciar à onipotência infantil. maior propensão para violência impulsiva. aproveitando a ausência dos pais. e. 10% conseguem consumar o ato nos próximos 10 anos (Botega. 2003). Sabe-se que a população feminina utiliza esse recurso com mais frequência. estrangulamento e sufocamento. Pedrão e Costa Júnior. Dentre as principais cidades brasileiras. a projeção é de que existem pelo menos dez vezes mais suicídios no Brasil do que é de fato relatado (Souza. Entre as meninas predomina a ingestão de medica­ mentos e substâncias químicas (Avanci. seguidos do uso de armas de fogo e explosivos. 1993). Pedrão e Costa Junior. e ressaltam que uma relação pobre com a figura materna é um dos impor­ tantes fatores de risco. 2006). Estima-se que de 15 a 25% daqueles que buscam a morte tentam novamente no ano seguinte. atropelamentos e afogamentos podem camuflar uma intenção suicida. 2005). desses. maior incli­ nação ao abuso de substâncias. seguida por Curitiba. Tendo isso em mente. Sem falar na dificuldade para determinar a intencionalidade de algumas situações aparentemente aci­ dentais. visto que os acidentes de trânsito. significa unta cnstraçAo simbólica. de finitude da vida e o reconhecimento da morte) (Tubert. a adolescência representa um segundo nascimento. as perdas consequentes das alterações da pu­ berdade fazem irromper a noção de morte (noção de temporalidade. A circuncisão. fé na força mágica das palavras). a perda da identidade infantil e o ingresso no mundo dos homens. o que lhe restabelece o sentimento de liberdade. que posteriormente é trazido de volta à vida pelos espíritos. 1989) produz-se quando ele não é capaz de tolerar e elaborar dois fenômenos concomitantes: o desmorona­ mento do seu ego ideal frente às feridas narcisistas e a falha de seus ideais de ego. A proibição do incesto e do parricídio também está representada nesses ritos. definitivo. é encenada a morte do rapaz. As de­ fesas maníacas são o último recurso para aliviar a dor e o sofrimento psí­ quico. quando muitas vezes ele recebe um novo nome. ainda não estabelecidos suficientemente. 20 0 0 ).3 2 4 Maria da Graça Kern Castro. Anie Stürmer & cols. O risco de morte implícito nessas condutas relaciona-se com a onipotência infantil ainda não superada. 2001). 1999). A forma de comunicação nessa faixa etária dá-se preponderante­ mente pela ação. com o decor­ rente sofrimento narcisista e autoestima abalada. Na cultura de muitos povos primitivos. mar­ cando o fim da infância. Amâncio e Sampaio. A manipulação dessa ideia e a experimentação dos limites representam a fantasia de con­ trole sobre a vida e a própria morte. muito mais do que pela palavra. O narcisismo do adolescente caracteriza-se pelo retraimento da li­ bido (introspecção) e delírio de grandeza (hipervalorização dos próprios desejos e atos psíquicos. O colapso narcísico (Probst. Nos ritos de iniciação. é arriscar-se a morrer para conseguir viver e entender o que isso significa (Oliveira. que o jovem será admitido entre os adultos. e a sensação é de poder sobre a própria vida. Ao mesmo tempo que o advento da capacidade procriativa traz implícita a noção de vida. de retomada do con­ trole. Surgem então as tentativas de morte. que faz com que o jovem não considere a possibilidade de dano ao próprio corpo ou dos outros. quando entiio . tão frequente na cultura desses povos. muitas vezes mascaradas através de jogos e condutas arriscadas. poderão dar lugar a depressões e ao surgimento da conduta suicida. O rompimento das fan­ tasias mágicas e onipotentes e o reconhecimento da morte. existe um risco de pane (Dias. que será resolvido pela passagem ao ato. onipotência de ideias. Desafiar a morte e tentar dominá-la. Quando o mal-estar e a estranheza causados pelo novo corpo atingem um nível insuportável e não é possível fazer o luto pelo corpo perdido. com o sonho íntimo da imortalidade. e somente através da renúncia a esses desejos primitivos da infância < . Sob esse enfoque. e esperança de que da próxima vez vá ser diferente do outro. um ato mágico em que existe um pe­ ríodo de morte simbólica. O conflito entre o corpo real (genital) c o corpo idealizado (impúbere) leva a outro . Também é fator marcante a influência que têm sobre o indivíduo as crenças da sua cultura relacionadas com a morte.Crianças e adolescentes em psicoterapia 325 o púbere é obrigado a romper o narcisismo onipotente da primeira in­ fância. é possível que mais do que a expressão do instinto de morte. como conse­ quência (Sinay. 1 999). em particular. representado pelo vínculo idealizado com a mãe. com ruptura do vínculo com a realidade e os objetos externos. 2004). Para Ladame e Ottino (1 9 9 6 ). um modo equivocado de que­ rer viver. Na evolução da hu­ manidade. e experimen­ tada como um renascimento. ao mesmo tempo em que ele ataca a si mesmo. o que o adolescente esta­ ria buscando não seria realmente a morte. mas o controle da mesma atra­ vés da sua sobrevivência ao ato suicida. o suicídio encerra vários paradoxos: o corpo se torna um objeto estranho e ao mesmo tempo ú p ró p rioãoTujeito. caso não exista uma plani­ ficação ou associação com outros fatores de risco. O rito de iniciação condensa a significação da morte. paradoxalmente. o isolamento. Pen­ sar sobre a morte é necessário e estruturante nessa idade (Teixeira. e sobre o suicídio. para só assim poder alcançar o poder social (Tubert. etc. quando só então adqui­ rem um caráter mórbido que pode levar ao ato suicida (Barrero. É necessário que se faça uma diferenciação entre ideação suicida e aqueles pensamentos mais ou menos mórbidos que buscam responder às interro­ gações existenciais tão características do período da adolescência. seria. é bastante comum o aparecimento de ideias suicidas. o gesto suicida é dirigido contra um inimigo vivido como extenor. 2005). Com as meninas os ritos ocorrem após a menarca. o castigo e o renascimento. do nascimento e a constitui­ ção do sujeito como tal. seguida de uma reconexão com o mundo. a negação da morte como o final de tudo é uma constante. 1983). Muitos pacientes trazem na ideia suicida o desejo de viver de outra maneira. assim. e têm em comum com a iniciação dos meninos a separação da mãe. numa mescla de fantasia de imortalidade por um lado. o ato suicida venha acompanhado de uma fantasia de vida ou sobrevida melhor ou mais feliz que a atual. Isso não constitui um perigo por si só. A tentativa de suicídio do jovem ocidental seria para Tubert (1 9 9 9 ) um equivalente dos rituais primitivos. possibilitando-lhe o acesso à ordem simbólica. Nessa fase. é bastante comum que surja um interesse maior pelos símbolos de morte. E o dano ou a morte ocorreriam. Durante a adolescência. atitudes de atração/repulsão por acontecimentos horríveis. cortes. As práticas de arranhões.e 3 2 6 Maria da Graça Kern Castro. Na adolescência. álcool. muitos comportamentos. extravasando-a no próprio corpo. inalantes). nos quais a escolha feita é pelo sofrimento ao invés da morte. Essa seria uma forma de alcançar a calma e a paz que para esse jovem existiam antes do início da puberdade. e também pode ser caracterizada como um comporta­ mento suicida (Coldibeli. As falhas narcisistas assu­ mem papel preponderante. onde a dor física está a serviço da expressão da dor emocional. salvando o corpo idealizado? O paradoxo maior é que o adolescente quer e não quer morrer. provocar vômito ou usar laxantes e moderadores do apetite para controle do peso (Carlini-Cotrim. portar armas. paradoxo: como destruir o corpo real. não usar preservativo nem método anticoncepcional. consumir substâncias (cigarro. apesar de não serem abertamente suicidas. vão muito além da identificação com os pares por meio das inscrições no corpo. pois rompem o limite entre estética e sofrimento. Também a chamada Body Art. A prática da automutilação é mais uma das formas com que os jovens lidam com a angústia. na medida em que levam à incapacidade do psiquismo de enfrentar situações ansiogênicas. mas como negação da realidade. 2007). Anie Stürmer & cols. quei­ maduras. Essa imobilidade permiti­ ria a negação da perda do objeto primário e a busca do reencontro fu­ sionai com ele. 2 0 0 0 ). bater a cabeça contra a parede configuram microssuicídios ou parassuicídios (Oliveira. o ato suicida já não é encarado tanto como um momenlo delirante. um atuar fora de controle. sendo fruto mais de um “rapto ansioso” do que psicótico. sejam elas internas ou externas (Flechner. que é a entrada na idade adulta. como também as teorias centradas exclusivamente no ódio ao próprio corpo. que inclui a scarification (cicatrizes feitas com bisturi) e o branding (a pele é marcada com ferro quente. maconha. deve haver cuidado nas atiludes a serem tomadas em relação a . andar de moto sem capacete. O momento suicida é de rompi­ mento entre pensamento e ato. I*t»i ser difícil de definir a intencionalidade autodestrutiva na adoles­ cência. podem ser considerados de risco: dirigir sem cinto de segurança. Gazal-Carvalho e Gouveia. Ottino (1996) critica o emprego excessi­ vo do termo “psicose” nesses casos. 2 0 0 1 ). deter o que não está podendo ser controlado. Mas o acento maior das teorias atuais recai sobre a vulnerabilidade desses ado­ lescentes devido à sua fragilidade narcísica. A tentativa suicida seria uma busca de imobi­ lidade para extinguir a atividade psíquica. Atualmente. envolver-se em brigas. um estado de desespero em que não há possibilidade de representação simbólica. como acontece com o gado). Amâncio e Sampaio. 2000). atração súbita por armas de fogo o produtos tóxicos. início precoce das atividades sexuais (para reter o parceiro). nd). o que pode significar a diferença entre a vida e a morte daquele indivíduo. • história pregressa: tentativas prévias de suicídio. sempre existem avisos. • sexualidade: vínculos simbióticos. perda. perde-se a oportunidade de intervir adequadamente. Mesmo diante de uma nítida simulação. humor depressi­ vo. com re­ lações conflituosas. Quanto aos sinais precursores. impulsividade. ausência ou falta de convívio com um dos pais na infância. • mensagens indiretas que aludem ao suicídio: preparativos para viagem (cartas de adeus.Crianças e adolescentes em psicoterapia 3 2 7 comportamentos predominantemente manipuladores. com conduta agressiva e repressora. Dentre os fatores que contribuem para o risco de suicídio (Resmini. exposição prévia ao suicídio de pessoas significativas. tristeza. mensagens. conduta antissocial. pais dependentes de substâncias psicoativas. indecisão. doação de objetos pessoais. • sintomas psiquiátricos: ansiedade. 1 9 9 3 ). ou bom desempenho. ausentes. uso de substâncias psicoativas. grupo de amigos problemá­ ticos e desvalorizados. indícios que anunciam as intenções suicidas (Bouchard. destacam-se: •. aludindo à morte. • diagnóstico: o distúrbio depressivo aumenta a probabilidade.aspe^qsjanuliaresj abuso sexual. forte ansiedade de separação diante de ameaças de rompimento.). borderline . que não parecem ter um propósito real de autodestruição. raiva. Ao se desconsiderarem os riscos e a gravidade potencial de tais comportamentos. etc. inte­ resse* por temas relacionados à morte. comportamentos autodestrutivos. depressão. ameaças de suicídio. irritabilidade. é conveniente que se busque entender o motivo da escolha dessa forma específica de expressão. cólera. pois indica que o jovem foi incapaz de responder de forma mais saudável à pressão dos seus conflitos internos. mas com muita pressão pelo próprio êxito. • aspectos sociais (apoio emocional insuficiente): moram sozinhos ou com outras pessoas que não os pais. transtõmcTcíe conduta. agressividade. maus-tratos ou negligência. são restos de esperança que configuram um pedido de ajuda: • mensagens verbais diretas. choro. baixa . transtornos do apetite e do sono. • aspectos escolares: mau rendimento escolar. desesperança. 3 2 8 Maria da Graça Kern Castro, Anie Stürmer & cols. autoestima, ansiedade aumentada, isolamento, mutismo, perda de interesse nas atividades, busca pela solidão; • comportamentos como faltas à escola, dificuldade de concen­ tração, queda no rendimento escolar; hiperatividade ou lentidão extrema, atração e preocupação com temas de morte e reencarnação; negligência com a aparência, consumo excessivo de álcool, drogas ou medicamentos. O processo suicida segue uma evolução, desde o início da crise até a passagem ao ato (Bouchard, s.d.): 1) Busca de solução - alternativas que possam gerar mudanças na situação estressante ou reduzir o sofrimento. A ideia de suicídio ainda não foi considerada ou é vista como apenas uma das possibilidades. 2) Ideação suicida - são rejeitadas as soluções ineficazes para a cri­ se, e dentre as possíveis, aparece, súbita e brevemente, a morte. Esta passa a ser considerada com mais frequência e começam pensamentos sobre como colocar em prática. 3) Ruminação - o desconforto aumenta, é mais difícil de suportá-lo; sensação de terem se esgotado todas as possibilidades de solu­ ção; retorno constante da ideia de suicídio. 4) Cristalização - certeza de que o suicídio é a solução, passando à elaboração do plano. Isso leva a um alívio, parecendo não haver mais problema, pois a solução foi encontrada. Desligamento emocional dos demais e sentimento de isolamento. 5) Elemento desencadeante - é iminente a passagem ao ato, bastan do qualquer elemento precipitante. Cabe lembrar que o tempo de desenvolvimento de todo esse processo pode ser muito curto, durando por vezes apenas algumas horas. Entre­ tanto, nunca é tarde para se intervir: a ambivalência e o medo de passar ao ato estão presentes até o último instante, e o processo pode ser interrom piclo a qualquer momento. Não deve ser esquecido, entretanto, que os pas sos desse processo evoluem mais rapidamente na segunda tentativa, quan do as mensagens são mais veladas e o método utilizado é mais violento. No tratam ento com o adolescente, deve-se investigar o que lhe vem à mente quando pensa cm suicídio c o que pensava no momento da tentativa. Ilelatar que pensava em alguém pode sinalizai um desejo de vivei c que ainda mantém interesso pelos objetos, ao passo que "mio estai Crianças e adolescentes em psicoterapia 12*1 pensando em nada” pode significar que já matou dentro de si as pessoas significativas, indicando gravidade maior e grande risco de repetição do ato (Laufer, 1996). P, 17 anos, refere pensar em morte o tempo todo. Entretanto, demons­ tra preocupação com os amigos e como ficarão após sua morte. Pensa em se afastar do convívio deles com antecedência, para que tenham tempo de se acostumarem com sua ausência enquanto ainda está vivo. Esses são objetos com quem ele ainda se importa, que ainda não matou dentro de si. A tentativa de suicídio, segundo o grau de risco que implica, pode ser (Tubert, 1999): 1. “Benigna” - ato compulsivo, de baixo risco, com características reativas a situações de mudança ou perda, em um contexto emo­ cional depressivo; é simultaneamente um castigo e um ato de vin­ gança; ocorre em local onde seja possível ajuda; busca continen­ te; é uma tentativa de restabelecer contato com alguém signifi­ cativo. Os instrumentos utilizados são menos perigosos e mais ambivalentes (como remédios, que também servem para curar). Simboliza a morte como tentativa de renascer. Posterior alívio da tensão, podendo chegar ao arrependimento e desaparecendo a intenção suicida. 2. “Maligna” - ato impulsivo, de muito risco; relacionado com es­ trutura e psicopatologia ligada à personalidade prévia, sem desencadeantes observáveis; ocorre na ausência de testemunhas; os instrumentos utilizados indicam que a busca da morte é a fina­ lidade maior (armas, jogar-se do alto de um prédio, por exemplo, ou na frente de carros); após a tentativa, dá-se um agravamento da tensão e persiste o desejo suicida. A tarefa terapêutica é auxiliar o paciente a compreender o ato e liberá-lo da sua fascinação pela morte através, principalmente, do traba­ lho sobre o momento traumático. Deve-se procurar converter a angústia m i um alarme que permita um primeiro ponto de ancoragem, que pas­ sará, necessariamente, pela figura do terapeuta (Flechner, 2 0 0 0 ). O tra­ balho do terapeuta pode ser comparado aos ritos de passagem, em que a "iniciação” (morte da criança) dar-se-ia através da ação do terapeuta co­ mo o mediador da lunçao simbólica OXibert, 2000). 3 3 0 Maria da Graça Kern Castro, Anie Stürmer & cols. No contato com adolescentes suicidas, a empatia deve ser utilizada como principal instrumento. Deve-se tentar ver o mundo através dos olhos do paciente, em uma escuta ativa, acurada, empática, que possibi­ litará entender o conflito para o qual o paciente não vê outra solução, senão a morte. Ao investigar com o paciente as razões para sua conduta ou ideação autodestrutiva, o terapeuta poderá auxiliá-lo a buscar modos alternativos de lidar com as crises e problemas que enfrenta. Mas deve-se estar alerta para o risco de uma entrevista excessivamente centrada nos aspectos destrutivos, pois seria como uma confirmação aos temores do paciente de ser julgado como doente mental, o que poderia levá-lo a re­ trair-se defensivamente (Resmini, 1993). C., 18 anos, foi encaminhado pelo clínico com queixa de dores pelo corpo que não correspondem a doença somática. Na primeira entrevista, conta que se sente triste “desde sempre”. Após a morte recente do pai, transfor­ mou seu quarto num verdadeiro cenário fúnebre: pintou as paredes de preto, acrescentou objetos como velas, forca, arame farpado, lâminas de barbear. Remete o significado de cada objeto a ideias e/ou tentativas ante­ riores de suicídio. A terapeuta optou por realizar mais uma entrevista an­ tes de encaminhá-lo ao psiquiatra, visto que o paciente iá estava medicado com antidepressivQ e demonstrava desejo de falar a respeito do que sentia e no que pensava. Na segunda entrevista, fo i feito o encaminhamento psi­ quiátrico, que foi prontamente aceito pelo paciente. Na terceira entrevista ainda não havia consultado o psiquiatra e estava muito bravo com sua mãe. Queixava-se de que ela teria lhe dito que não se preocupasse com o fato de ir ao psiquiatra, pois isso não significava que fosse louco. Apesar de o assunto ter sido muito examinado nessa sessão, C. não retomou mais. Tanto ele quanto sua mãe se esquivaram das tentativas de contato feitas pela terapeuta, restando a esta o papel de causadora da dor e sofri­ mento do paciente, a pessoa que o considerava um louco. Além disso, foi transferida para ela toda a preocupação com a sobrevivência do rapaz. Fica, aqui, uma indagação relacionada com um aspecto paradoxal do atendimento em consultório a este tipo de paciente: a urgência de uma intervenção psiquiátrica e medicamentosa, em contraste com a necessi­ dade de se estabelecer um vínculo mais consistente com o paciente antes de proceder ao encaminhamento. A estrutura familiar tem participação importante no contexto da questão suicida do adolescente. Encontram so nessas famílias a indiícrcn pois deve ser capaz de receber e conter esses aspectos.^ . 2 0 0 0 ). mas mantê-la também significa morrer como sujeito. em geral é cercado de uma aura de mistério que permite a proliferação de fantasias a respeito. voltando a agressividade contra si mesmo. As alterações da puber­ dade afetam não só o adolescente. Sob esse enfoque. por isso. por sua vez relacionados com a violência e que não foram elaborados simbolicamente (Flechner.t ou lallia da função paterna e predomínio da função materna. inclusive a de que cabe a ele dar continuidade a esse “destino”. bem como as angústias relacionadas à sua própria morte (Flechner. São famílias incapazes de tolerar a expressão da agressão potqm não podem elaborá-la nem simbolizá-la. da qual não é possível sair de outro modo. 2000).nI • materna fortalece a posição narcisista.('^ | \ .t l t>. Mes­ mo que o fato seja do seu conhecimento. é imprescindível que tenha analisado os aspectos que tocam diretamente a sua própria adolescência. que irrompe no filho através da identificação inconsciente com seus antepassados suicidas. Ele renuncia à própria identidade e fica sem um lugar onde possa se definir e se reconhecer como sujeito. Em muitos casos o paciente relata situações claramente autodestrutivas sem demonstrar preocupação com sua conduta.' prY 'N . mas também a todos os que convivem com ele. E bastante frequente encontrar na história familiar desses adolescentes uma ou mais situações de morte por suicídio em gerações anteriores. o que serve para impedir a desintegração do grupo. e este é posto à prova. Isso significa que as atitudes dos pais podem estar relacionadas com uma reativação de conflitos transgeracionais.V > V A ^ Crianças e adoles< ««ntfs om p«l 1 »* ciação e a indiscriminação dos papéis de seus membros. fato geralmente desconhecido pelo paciente. Aumao com .também merece atenção especial: o paciente projeta no terapeuta sua hostilidade e angústia de morte.c A A -£-A -*' (L P rf^ \ * W . para só posteriormente interpretá-los e devolvê-los ao paciente. Como vimos anteriormente. fazendo parte de um segredo familiar. o ato suicida pode ocorrer como um fenômeno de repetição de algo escondido nos pais. A saída da posição narcisista significa uma morte. A contratransferência na relação terapêutica com pacientes em risco . que se faz cargo da depressão (TíT . As angústias de morte sito projetadas no terapeuta. mesmo que admita o risco implícito quando confrontado com a situação. dando-se um desoquilíbi lo nu família. o tera­ peuta representa o responsável pelo despertar da dor psíquica e. reativando “antigos demônios” que até então estavam silencia­ dos. Tubert (2 0 0 0 ) entende que a tentativa de suicídio pretende romper a relação indiferenciada com a mãe. aiis^m l. 4 > y < ( \i t • vi ^ o < ''v £ ^ ^ . O adolescente é escolhido como uma vítima “propiciatória”. Anie Stürmer & cols. é um rapaz aparentemente bem adaptado: fa z faculdade. se dá muito bem. Laufer (1 9 9 6 ) faz distinção entre os pacientes que apresentam idea­ ção suicida. um significado para o que ocorreu . deixando-o com a sensação de estar encurralado. estagia no outro turno. É o que F. sempre havendo o temor de que não retorne. ou que então abandone o tratamento (Tubert. debca a terapeuta por algum tempo sentindo uma profunda tristeza e vontade de chorar. F. negligência no atendimento. podendo ocasio­ nar atuações. O ódio contratransferencial aparece no tratamento com muita fre­ quência através de reações como o sentimento de maldade e aversão (mais comum com pacientes com alto risco de suicídio). Quanto aos segu nd osjá perderam a habilidade de duvidar das consequências de seus atos e pouca coisa se modifica internamente como resultado dessa tenta­ tiva. Tais pacientes “contaminam” aqueles com quem convivem. pois embora possa não estar mentindo. mobilizam o terapeuta. nem sempre estando sob efeito da maconha. São comuns seus longos atrasos e faltas. da qual fa z uso quase diário. permanece em sua mente até a sessão seguinte. permanecendo eles com uma parte morta dentro de si. cuja situação angustiante a levou à contra-atuação como resposta incons­ ciente. 2000). toca numa banda e tem uma namorada com quem. Buscou atendimento por dificul­ dades de relacionamento com o pai. a cada sessão relata situações em que se coloca em risco de vida.. fomentadas por atua­ ções e agressões. invadin­ do-os com sua angústia e desesperança. Alerta-se para a promessa do adolescente de que não vai tentar um novo ato sui­ cida. Os pri­ meiros ainda mantêm condições de duvidarem de seus pensamentos e ações e mantêm algum sentimento de interesse por seus pais. isso não poderá ser mantido enquanto não encontrai um sentido. o que pode oportunizar uma tentativa suicida. provocando culpa e ansiedade. mas buscam ajuda daqueles que já tentaram suicídio. F. gera em sua terapeuta. 19 anos. o terapeuta protege-se num desejo inconsciente de que o paciente morra. Como resposta às agres­ sões do paciente. As ameaças suicidas do paciente. o que estimula ainda mais a preocupação da terapeuta. Cada vez que sai do consultório.. Entretanto. segundo ele. paciente e sobre quem recai a pesada ta r e fa de se preocupar com sua integridade. terminando sua tormenta.3 3 2 Maria da Graça Kern Castro. sorridente e agradecido. fazendo contatos telefônicos quando ele não comparecia à sessão. j. de invulnerabilidade. uma falha na capacidade de simbolização e seja em si um gesto de des truição do corpo “real”. 2 0 0 6 ). Apesar de algumas questões relacionadas ao suicídio na adolescên­ cia ainda não estarem muito claras. o sofrimento é tal que o adolescente não vê outra alternativa senão morrer destruindo.abalado e reformulado durante o período da adolescência. a tentativa de suicídio não teria propriamente o objetivo de acabar com tudo. Dentre os diversos fatores que contribuem para o desenvolvimento de condutas suicidas. assim. invencibilidade e imortalidade. o inimigo que projeta em seu próprio corpo.Crianças e adolescentes em psicoterapia 3 33 com ele. Fato esse que. A busca da própria morte assume diferentes significados para cada indivíduo. pode estar paradoxalmente representando um sinal de esperança. Lara Muno/. Como a ação é uma característica desse período de vida. senão controlar onipoten temente o que causa sofrimento e levar a um renascim ento em melhores condições. Resta o questionamento do quanto ele tem noção de que também está destruindo a si mesmo. não podendo ser meramente reduzida à compreensão de um ataque ao corpo com o objetivo de eliminá-lo. como substituto do pensar. o qual é .'i que esse tem a função de auxiliar o jovem a desenvolver uma adequada capacidade de simbolização. à qual o jovem terá que se submeter para que possa amadurecer emocionalmente e ingressar na vida adulta. A noção de morte e o início do reconhecimento da possibilidade da própria morte impõem uma limitação narcisista. c Fodl Marque/. pois suas causas são multifatoriais (Botega. Embora o momento suicida represente um colapso mental. destaca-se a importância do contexto familiar. Em um estudo recente (Sauceda Garcia. identificou-se que conflitos familin los foram os overilos que mais íroquentemenie precipitaram leutativnN de suicídio entre os jovens. 2 0 0 6 ). Vimos aqui que para a compreensão das condutas autoagressivas e de risco. surge como uma das formas de expressar e tentar resolver os conflitos internos que ainda não podem ser metabolizados pelo apare lho psíquico. deverá passar a fazer parte da sua vida mental. a passagem ao ato. de elaborar em especial o conflito edípico < ■ aprendera lidar com a agressão. . Por vezes..e precisa ser . Neste sentido. é central o conceito de narcisismo. a procura de algo diferente do que está sendo viveu ciado naquele momento. já é ponto pacífico que não existe um único tipo de funcionamento psicopatológico que explique esse compor­ tamento. ou se permanece numa fanta sia onipotente de vida eterna.. et al. além de entendido. portanto. de suma importância que sejam mais estudados os comportamen­ tos suicidas nessa fase da vida. com o objetivo de divulgação e ações preventivas. um contato regular com colegas da área que auxi­ liem na identificação de pontos cegos e equívocos na condução do caso e com quem possam ser discutidas em especial as reações contratransferenciais que podem entravar o tratamento. Na interação com o paciente. em especial junto à escola e à família. Encontrar palavras para nomear os fantasmas e desejos faz parte do trabalho de busca de um sentido ao ato suicida e demais condutas autodestrutivas. aprender a colocar em palavras os senti­ mentos e aflições. A proxi­ midade da morte do outro traz aspectos de indagações sobre a própria existência e sobre o sentido da morte e da vida (Teixeira. antes de tudo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Internacional para . além de possibilitar a adequada expressão da agressão. Para que consiga realmente ajudar um adolescente suicida. é impres­ cindível que o terapeuta tenha bem-resolvidas as questões relacionadas com sua própria adolescência. nem sempre conscientes. poder simbolizar as pulsões destrutivas são aspectos que fazem parte do processo de reconstrução progressiva dos vários fatores que motivaram o ato suicida ou que levaram a concebê-lo como saída inevitável para o impasse em que o jovem se vê.3 3 4 Maria da Graça Kern Castro. . 10/09/07). lugares onde pode ser feita a detecção precoce e tomadas medidas mais imediatas e efetivas. É reco­ mendável. são despertados sentimentos inten­ sos. Anie Stürmer & cols. pois somente encarando-os de frente é que esse jovem poderá evoluir. 2 0 0 3 ).i Prevenção do Suicídio (AIPS) alertam para a necessidade de se reforçar programas para que seja possível identificar e prevenir o comportamento suicida. ter uma função continente para suas fantasias e intensas angústias. e tenta-se alcançar a desesperança do pa­ ciente pode levar o terapeuta a um encontro consigo mesmo. mas como “uma condição de saúde influenciada por um ambiente psicológico-social e cultural de alto risco” (Ciência e Saúde. para “que não continue sendo visto como um fenômeno-tabu. ter uma mente mais saudável e progredir para uma vida sexual e social adulta. levar ao abandono ou até mesmo facilitar a passagem ao ato. em especial os assuntos ligados à vida e à morte. O tratamento psicoterápico com esses adolescentes deve. ou um resultado aceitável de crises pessoais ou sociais”. Aplacar os senti­ mentos de desamparo e solidão. mctes. F.br/scielo. 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