APOSTILA DE HISTÓRIA - IMPACTO

March 26, 2018 | Author: Raisa Sant'anna | Category: Sparta, Ancient Greece, Ancient History, Crete, Athens


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Frente 1Ficha 1 Grécia Cidade-Estado Frente 2 História dos povos indígenais I Frente 3 Revolução Inglesa Frente 4 A história do Brasil 2 Gréca Esparta História dos povos indígenais II 18 30 O Iluminismo e o Século Das Luzes Abolicionismo 42 Ficha 3 Ficha 2 4 Gréca Atenas I A conquista da américa I 20 Independência das Treze Colônias 34 Proclamação da república 44 46 Belle époque 8 Gréca Atenas II A conquista da américa - II 22 Revolução Industrial 36 Ficha 4 12 Gréca Religiosidade, mentalidade e imaginário 24 Economia e sociedade açucareira A Revolução Francesa I. 38 Movimentos de contestação 50 Ficha 5 16 28 40 54 Grécia cidade-Estado a Formação da sociEdadE GrEGa. Fre n 01 te Fic h 01 a 1.2 o BErço da civilização ocidENtal É praticamente um consenso entre os helenistas que a sociedade grega representa, em verdade, o berço da civilização ocidental, tamanha a sua influência nos diversos níveis percebidos da vida material do homem contemporâneo. No campo das ideias, a produção filosófica dos gregos constitui a fonte onde beberam todas as principais ciências de hoje (Matemática, Física, Anatomia, História, Arquitetura, Química e etc.), as artes formaram uma escola denominada de classicismo que com uma produção teatral, arquitetônica e literária vastíssima seria o inspiração primeira dos autores renascentistas, praticamente dois mil anos mais tarde. 1.3 o ProBlEma com a tErra Uma das questões que mais dificultaram a vida dos habitantes da Grécia Antiga foi certamente o problema com a terra. Cerca de 80% do território é composto por cadeias de montanhas, sendo a menor parte composta por planícies de solo pedregoso e, portanto pouco fértil. Tal situação fará com que os gregos muito cedo partam em busca de outras terras fora do seu espaço de origem, colonizando diversos pontos do mar Egeu e do Mediterrâneo, mantendo deste modo, um contato com diversos dos povos da antiguidade (fator que contribuiria substancialmente para seu desenvolvimento cultural). A questão da terra também resultaria na eclosão de vários conflitos de ordem interna e externa pelo uso da mesma, observação que verificaremos com maior detalhes ao longo desta apostila A Grécia se localiza no continente Europeu, sendo a um só tempo continental, peninsular(Peloponeso) e insular(Ilhas diversas). i - NoçõEs PrElimiNarEs 1.1 a idEia dE “muNdo GrEGo” Abaixo, o Partenon, templo localizado na Acrópole de Atenas e dedicado a deusa Atena. Ao longo da sua história, os gregos antigos Jamais conheceram a centralização política, sua forma de organização eram as Cidades-Estados, caracterizadas pela manutenção da autonomia administrativa e legislativa. Cada uma dessas cidades possuía o seu próprio sistema de governo regido por leis que só teriam valor nas áreas dominadas pela polis. Embora não existisse unidade política, o Mundo Grego apresentava uma outra forma de identidade, percebida na vida cotidiana: a língua, as praticas religiosas, as características étnicas e inúmeros de seus elementos culturais poderiam aparecer, com algumas variações, em todas as cidades que compunham esta admirável civilização. ii – oriGENs da civilização GrEGa 2.1 a civilização crEto-micêNica As origens do Mundo Grego remontam os tempos da Civilização Cretense, uma fascinante sociedade desenvolvida a partir da Ilha de Creta - a maior ilha do Mar Egeu - por volta do ano 2000 a.C. Os cretenses possuíam uma grande habilidade para a navegação e para o comércio, tendo estabelecido contatos com a Mesopotâmia e o Egito, dentre outras sociedades da antiguidade oriental, tal experiência influenciou bastante no aprimoramento das artes em geral na Ilha, outra de suas grandes características. Até o século XV a.C., os cretenses exerceram uma completa hegemonia na região do Mar Egeu, construindo um sistema de saneamento complexo e um património cultural bastante apreciável, contudo, no que diz respeito a defesa ou a capacidade bélica de Creta, estas seria insuficientes, tornando-se vulnerável a invasão de inimigos exteriores, como ocorreria nos séculos seguintes. 2.2 as miGraçõEs dos iNdo-EuroPEus Grupos nómades oriundos das regiões centrais da Europa iniciaram sucessivas levas migratórias rumo à Península Balcânica, contribuindo para a colonização da área e fundando algumas das mais importantes cidades do que mais tarde seria chamado de Grécia. Vejamos os principais grupos indo-europeus: 2 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br • AQUEUS: Estes são reconhecidamente considerados o primeiro dos grupos indo-europeus a chegar na região balcânico, em algumas obras chegamos a ver a utilização deste nome como sinónimo de gregos, foram os responsáveis pela fundação da cidade de Micenas, de onde estabeleceram um intercâmbio com os cretenses e assimilaram boa parte de suas características e valores. Era o apogeu da Civilização Creto-Micênica. • JÔNIOS E EÓLIOS: Estes dois grupos chegaram por volta de 1700 a.C., foram responsáveis pela colonização de grande parte do litoral do Mar Egeu chegando até a Ásia Menor. Dentre os feitos atribuídos a eles, merecem destaque à fundação de Atenas pelos primeiros e a fundação de Tebas pêlos últimos. • DÓRIOS: Estes foram os migrantes que causaram as mais expressivas transformações para o período. De natureza guerreira e dominando perfeitamente as técnicas de metalurgia, o que lhes permitia possuir armas de ferro, os dórios impuseram sua vontade aos cretenses provocando a 1a Diaspora. 1° DIASPORA: Diante da inquestionável superioridade militar dos dórios, ocorreu uma fuga em massa dos habitantes das regiões dominadas, partindo para os mais diversos pontos da região do Mar Egeu. A diaspora ou dispersão causaria uma regressão na produção intelectual dos cretenses. truturava o "oikos", unidade económica que compreendia terras, casas, ferramentas, armas e gado, dos quais dependia a sobrevivência do grupo. O trabalho no "oikos" - pastoreio, agricultura de cereais, legumes e frutas, produção de óleo e vinho, fiação e tecelagem – era realizado pêlos membros do "genos" e pêlos escravos, obtidos através de pilhagens e saques; tanto quanto possível, o "oikos" procurava ser auto-suficiente. A principal ocupação dos nobres, chefes dos "oikos", era a guerra praticada contra os vizinhos ou inimigos externos. As lutas se restringiam ao combate individual entre os guerreiros, pesadamente armados. O objetivo das guerras era essencialmente a aquisição de escravos e de metais que o "oikos" não produzia. Além dos reis e dos nobres, existiam trabalhadores livres - demiurgos - ferreiros, carpinteiros, videntes e médicos, que prestavam serviços aos nobres e ocasionalmente participavam de suas assembleias, como ouvintes, sem direito a tomar decisões. Abaixo dos demiurgos, havia os tethas, homens sem posses e sem especialização, que vagavam de um lado para outro em troca de algum alimento ou roupa. Na imagem acima, desenho da Acrópole (do grego ἀκρόπολις, composto de ἄκρος, "extremo, alto", e πόλις, "cidade") é a parte da pólis construída nas partes mais altas do relevo da região. A posição tem tanto valor simbólico, elevar e enobrecer os valores humanos, como estratégico, pois dali podia ser melhor defendida. iv – a Formação da Pólis ou a cidadE Estado GrEGa Por volta do século VIII a.C., em algumas regiões do território grego dos Balcãs, da Ásia Menor e das ilhas do Mar Egeu, já havia um grande número de comunidades dominadas por grupos de famílias aristocráticas proprietárias das melhores terras, que justificavam seu poder pela autoridade que lhes provinha dos antepassados, muitas vezes um "herói" famoso do passado, ou mesmo até um deus. A figura do rei desaparecera, substituída por magistrados eleitos e por conselhos de nobres. Aos poucos o pequeno povoado tornou-se regra, com a população reunindo-se em volta das antigas fortificações micênicas, onde logo surgiam uma praça para o mercado e um ou dois templos. Esboçava-se assim a forma de vida tradicional dos gregos - a "polis" - que iria se expandir de forma original durante os séculos seguintes. Cada Pólis ou Cidade-Estado Clássica tinha sua própria forma de governo, seus instrumentos de de peso e medida, calendários e moedas particulares. Porém mantinha certos laços culturais, como o idioma, a religião e a prática de certas modaidades esportivas, com as demais. O advento do Estado na Grécia representou o surgimento da fase mais esplendorosa do mundo clássico, pois a polis representaria o espaço de afirmação do cidadão grego, onde a produção filosófica e literária ganharia sua maior expressão, onde as tragédias e as comédias seriam encenadas nos teatros monumentais construídos ao ar livre por arquitetos de um brilhantismo invejável e, ainda, um espaço de discussões políticas em que a retórica seria um instrumento fundamental para a persuasão nos embates inflamados. Entretanto, esta visão corresponde aos interesses de uma minoria da população, que constituía um governo de poucos, para a maioria a polis representou a exclusão social e a marginalizaçâo política. iii – o PEríodo Homérico Os quatrocentos anos que se seguiram à chegada dos dórios (de 1200 a 800 a.C. aproximadamente) permanecem bastante obscuros para nós, devido à escassez de fontes escritas. O que existe sobre a época são os poemas épicos a "Ilíada" e a "Odisseia" escritos por Homero, provavelmente no século VIII a.C., baseado em poesias e cantos transmitidos oralmente pêlos "aedos" (poetas e declamadores ambulantes), entremeando lendas e ocorrências históricas relacionadas com as guerras entre os dórios e os aqueus. Os poemas homéricos referem-se aos acontecimentos relacionados à destruição da sociedade micênica, como as guerras de Tebas e de Tróia. Relatam as açoes dos heróis gregos, com a ajuda de seus deuses. De sua leitura, percebe-se que a sociedade da época era formada por reis (basileus) e nobres, senhores de terras e rebanhos. Os nobres organizavam-se em famílias extensas - os genói - em que os membros eram unidos por laços de parentesco consanguíneo e/ou religioso. O "genos" era o núcleo humano em torno do qual se es- 3 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br ESPARTA o modElo EsPartaNo i. NoçõEs PrElimiNarEs Esparta é um caso particular dentro do estudo da civilização grega, fundada pelos dórios, sua arquitetura não era tão refinada como a de outras cidades-estados, seus cidadãos não manifestavam grande preocupação com as artes ou a filosofia e seu processo de urbanização não foi sequer concluído. A grande característica dos espartanos seria a sua extrema especialização militar, preocupavam-se em enrijecer os músculos e o espírito e em realizar operações de guerra simuladas. O filósofo grego Platão afirmara certa ver que quando visitou Esparta não teve a sensação de estar em uma cidade, mas em um “Acampamento militar”. GRÉCIA Fre n 01 te Fic h 02 a ii. a Estrutura lEGislativa As leis que vigoraram nesta cidade (conhecidas em seu conjunto como a Grande Retra) são creditadas a um lendário legislador chamado Licurgo que, segundo a tradição oral, as teria recebido do deus Apolo. O autor da constituição espartana teria em seguida partido para um exílio voluntário, afirmando que o conteúdo do código não deveria ser alterado na sua ausência. Entendemos que o envolvimento com o sagrado no processo de construção da constituição espartana é um importante fator ideológico para a sua manutenção, pois dificultava a sua contestação pela população da cidade. Ares, deus grego da guerra. iii. orGaNização social Na composição da estrutura social espartana percebemos a existência de três grupos, provavelmente estabelecidos um pouco depois da efetivação da conquista dórica, são eles: dões: perícia militar e obediência absoluta. Libertos(na realidade impedidos) de todos os outros interesses vocacionais e respectivas atividades, vivendo uma vida de caserna, sempre prontos para medir forças com qualquer inimigo, hilotas ou estrangeiros. As suas necessidades eram preenchidas pelos hilotas e periecos, o Estado olhava pelo seu treino, a sua obediência era assegurada pela educação e por um conjunto de leis que procuravam impedir a desigualdade(nem sempre conseguindo) econômica e qualquer forma de conseguir lucros. Todo o sistema estava fechado contra a influência externa, contra todos os estrangeiros e até contra a importação de bens do exterior. Nenhum estado se podia comparar a Esparta no seu exclusivismo ou na sua xenofobia.”. PEriEcos: Camada intermediária, composta de homens livres que não detinham o direito de cidadania. Viviam na periferia do núcleo urbano de Esparta, atuando no artesanato e num discreto comércio, sendo obrigados a pagar tributos ao Estado. Segundo Moses Finley, importante historiador norte-americano, os “periecos conservavam a liberdade pessoal e a organização de sua própria comunidade em troca da cessão de toda a espécie de ação a Esparta nas áreas militar e no exterior. Assim restringidas, as comunidades de periecos eram, por assim dizer, poleis incompletas; no entanto, não existem sinais de que tenham lutado para se libertarem da autoridade espartana. Sem dúvida, a resignação era a única atitude prudente, mas havia ainda outros motivos: paz, proteção e vantagens econômicas. Eram os periecos que dirigiam o comércio e a produção artesanal para as necessidades dos espartanos, e eram eles que faziam com que os produtos da Lacônia se mantivessem a um nível razoável, por vezes alto até, de artesanato e de qualidade artística.”. Na imagem acima, retrato de um soldado. EsPartaNos: Também chamados por alguns autores de esparciatas, representam a única camada social que detinha a cidadania espartana, concentravam as suas forças em duas atividades fundamentais: a guerra e a política. Segundo uma característica bem comum entre os segmentos mais abastados das sociedades antigas, os espartanos se recusavam a realizar trabalhos agrícolas e outras tarefas consideradas inferiores. Segundo o historiador Moses Finley, “ o corpo de cidadãos de Esparta formava uma soldadesca profissional, criados desde a infância para duas apti- Ao lado, uma bela peça do artesanato grego, conhecida como Ânfora - vasilha em forma de coração, com o gargalo largo ornado com duas asas. 4 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br Hilotas: Eram a maioria esmagadora da população espartana (cerca toda a sua força. O que manteve o domínio espartano sobre os hilotas e de 80%). Podemos identificar tanto características de escravo quanto de evitou rebeliões mais frequentes foi a emergência de Esparta como um servo em um hilota, já que embora o seu trabalho se assemelhasse ao acampamento armado, evolução cuja chave se encontra em Messênia, servil (entregava uma parte da produção aos espartanos), era considerado conquistada depois da Lacônia e muito mais aniquilada(de tal modo que propriedade estatal. No entanto, o hilotismo possuía uma série de parti- a região ficou virtualmente esvaziada das grandes obras arquiteturais que cularidades que o diferenciava das relações de trabalho baseada na escra- por toda parte, eram as mascas visíveis do Helenismo) Logo após meados vidão praticadas em Atenas ou Roma, e também da chamada servidão do século sétimo, os hilotas da Messênia revoltaram-se: a tradição designa medieval. este conflito como a Segunda Guerra de Messênia Ao longo da história, os hilotas protagonizaram, com certa frequên- e atribui-lhe a duração de dezessete anos. Os cia, inúmeras tentativas de levantes, sempre duramente reprimidas pelo Messênios foram finalmente esmagados e a exército. Tal situação fez com que os soldados ficassem sobre constante lição que deixaram traduziu-se numa total estado de alerta, mantendo os hilotas sobre pesada vigilância e realizando reforma social e constitucional , que transas kríptias (estudaremos posteriormente esta prática). formou Esparta em verdadeiro Para o grande historiador Moses Finley, “os hilotas formavam uma for- acampamento armado.”. ça de trabalho compulsória. Mais do que isso, o hilotismo era marcado por particularidades. Afinal, a prática habitual, em grande parte da Antiguidade, quando se escravizava uma cidade ou região, era vender os habitantes ou dispersá-los. Os Espartanos, contudo, tinham adotado a alternativa perigosa de os conservar subjugados na sua terra natal Na imagem ao lado, – e pagavam o preço. Enquanto a história grega está isenta, surpreum hilota endentemente, de revoltas de escravos, mesmo onde havia grandes trabalhando. concentrações, com nas minas de prata da Ática, as revoltas de hilotas estavam sempre latentes e de vez em quando explodiam com iv. o aParElHo Político diarQuia: Realeza dual. Os dois reis tinham atribuições militares e religiosas. Em tempos de guerra, um se deslocava com as tropas enquanto o outro permanecia na cidade. A existência dupla de reis deve-se, provavelmente, ao receio de que ocorresse um regime autocrático na cidade. GErÚsia: Conselho de anciãos. Composto por 28 gerontes, chegava a 30 quando os reis participavam das reuniões. A Gerúsia tinha caráter vitalício e mantinha atribuições legislativas e consultivas. EForato: O mais importante órgão do aparelho político dos espartanos. Composto por um total de cinco membros, os éforos tinham um mandato anual e seriam uma espécie de conselho administrativo e fiscal, eram responsáveis peal organização das reuniões na Apela e na Gerúsia, podendo vetar leis e denunciar indivíduos que comprometessem a ordem espartana. aPEla: Todos os cidadãos espartanos podiam participar, reuniam-se com a finalidade de votar leis e decidir sobre questões de política externa. Suas reuniões não primavam pelos longos debates, a votação era feita pelo levantar simples dos braços. caractErísticas culturais a) PrEParação militar: Praticamente todas as atividades promovidas pelo Estado e pelos espartanos estavam direta ou indiretamente ligados a guerra, o ambiente era sempre marcado por jogos, exercícios, treinamentos e preparação para os confrontos. Era hábito comum aos soldados abandonar suas mulheres em casa para almoçarem todos juntos no quartel, reforçando deste modo a união da tropa. Heródoto, historiador grego, assim se referiu aos lacedemônios (espartanos): “Assim os lacedemônios não são inferiores a homem algum em combate singular, e juntos eles são os mais valentes de todos os homens. De fato, sendo livres eles não são livres em tudo; eles tem um déspota — a lei - mais respeitado pelos lacedemônios que tu por teus súditos; eles cumprirão com certeza todas as suas ordens, e suas ordens são sempre as mesmas: não fugir do campo de batalha diante de qualquer número de inimigos, mas permanecer firmes em seus postos e neles vencer ou morrer.”. O mais alto valor para um espartano era a sua pátria. Na imagem acima, espartanos almoçam juntos no quartel. Era a vida de caserna. B) Patriotismo iNFlamado: O mais alto valor para um espartano deveria ser Esparta, sua pátria. Abaixo veremos um fragmento de Tirteu que explicita esta questão: “Nós, corajosamente, combatemos por esta terra, morremos por nossos filhos; não poupamos a nossa vida. Ó jovens combatei unidos uns aos outros e não temais senão a vergonha da fuga; estimai em vossos corações uma valente e sólida coragem e não vos inquieteis com a vida, na luta contra o inimigo (...)” TIRTEU, “Eunomia”. Citado por: AQUINO, Rubim. “Op.cit.”. 5 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br c) XENoFoBia: Poucos estrangeiros circulavam pela cidade e não eram vistos com bons olhos pelos espartanos que receavam a espionagem. d) EuGENia: Os espartanos tinham uma preocupação obsessiva com o que se entendia ser a “qualidade” de sua raça. A necessidade de se constituir um exército forte acabaria requerendo um material humano de “primeira linha”, dessa maneira, mantinham um acompanhamento cuidadoso na gravidez de suas mulheres que eram levadas para fazer exercícios que possibilitassem uma melhor gestação. Ao nascer a criança era avaliada por uma comissão de anciãos que buscava observar se o recém-nascido apresentava saúde perfeita, caso contrário ocorreria a sua execução (infanticídio). E) Educação: Oferecida pelo Estado, a educação espartana era voltada para a preparação dos soldados. Desde muito cedo, aos sete anos de idade, os filhos dos cidadãos eram entregues aos cuidados do ensino estatal e recebiam o pouco do conhecimento letrado que sua formação lhe dispensaria. Durante a maior parte de seu tempo, os aprendizes realizariam pesadíssimas cargas de exercícios físicos e diversas ênfase para a necessidade de um bom soldado saber roubar: “(...) Uns penetram nos jardins, outros nos alojamentos dos homens, e devem usar muita destreza e precaução: quem for apanhado é chicoteado sob pretexto de que não passa de um ladrão preguiçoso e inábil. Eles roubam toda a comida possível e adquirem prática de ludibriar quem dorme ou os guardas preguiçosos. Aquele que for apanhado, está sujeito a chicotadas e jejuns. (...) F) lacoNismo: Ao contrário dos atenienses, que desde muito cedo realizavam estudos de retórica e eloquência com o objetivo de aprimoramento de seus discursos, os espartanos caracterizavam-se pelo hábito de falar pouco, ou somente o indispensável. Compreendemos que a redução da oratória nesta cidade provoca um controle da capacidade crítica entre os espartanos e, com isso, debates e questionamentos não seriam comuns no cotidiano de Esparta. Este laconismo contribuiria muito para o conservadorismo político e institucional. G) KríPtias: Consistia numa matança ou espécie de policiamento periódico de hilotas. Já mencionamos aqui o medo presente entre os espartanos de uma grande rebelião deste segmento social, neste sentido, seria de suma importância controlar o seu crescimento populacional eliminado de tempos em tempos uma parcela de hilotas. As kríptias também teriam uma grande importância na formação dos soldados, já que através delas, os jovens aprendizes poderiam viver a experiência de matar homens, necessidade constante de qualquer sociedade belicosa. Segundo Moses Finley, as Kriptias eram”inicialmente um ritual de iniciação na idade de dezoito anos, depois tornou-se racionalizado, isto é, reinstitucionalizado, ao ser vinculado a uma nova função de polícia atribuída a um corpo de elite de jovens. Significativamente, o policiamento de Hilotas era uma de suas obrigações.”. 6 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br H) a mulHEr EsPartaNa: No mundo antigo, de um modo geral, as mulheres eram percebidas como inferiores aos homens, permanecendo sujeitas a sua vontade do nascimento até a morte. Em Esparta, especificamente, o gênero feminino apresentava pequenas regalias em relação ao restante da Grécia. Por ser responsável pela procriação – fornecimento de novos soldados, portanto -, a mulher de um cidadão era tratado com certos cuidados, praticando inúmeros exercícios físicos e recebendo o acompanhamento adequado.Sobre a mulher espartana, leia o texto abaixo, do Historiador e pensador grego Plutarco: “Considerava a educação a incumbência mais importante e mais bela do legislador; por isso dela cuidou desde as causas mais remotas, dispondo diretamente sobre os casamentos e nascimentos. Não é verdade que, segundo conta Aristóteles, tenha desistido, após tentativas, de disciplinar as mulheres, por não lograr vencer-lhes a excessiva liberdade e autoridade, causadas pelas numerosas expedições dos homens, que, obrigados nessas ocasiões a entregar a elas a direção da casa, por isso as tratavam com mais deferência do que convinha e lhes chamavam patroas; ao contrário, ele dedicou-lhes toda a atenção possível; exercitou o físico das jovens por meio de lutas, corridas, arremesso de discos e dardos, a fim de que não só os nascituros tivessem, para começar, raízes fortes em corpos fortes e crescessem melhor, mas também para que elas mesmas os aguardassem robustecidas e resistissem galharda e facilmente às dores do parto. Na imagem abaixo, o cotidiano de jovens espartanas, na visão do pintor francês Edgar Degas. Abolindo a moleza, sedentariedade e toda efeminação, acostumou as moças, tanto quanto os moços, a marchar em camisa nas procissões e assim dançar e cantar em certas solenidades pias de que rapazes eram espectadores. Não raro elas dirigiam chacotas oportunas a cada um deles, quando cometiam erros e, inversamente, nos seus cantos, gabavam sucessivamente os merecedores, assim inculcando nos jovens profundo amor à glória e emulação. Com efeito, quem era louvado por sua varonilidade e ganhava notoriedade entre as donzelas saía orgulhoso dos elogios, ao passo que a picada do motejo e da zombaria pungia tanto quanto as advertências sérias, porque os reis e os senadores compareciam aos espetáculos juntamente com os demais cidadãos. Nenhuma indecência havia na seminudez das jovens, por estar presente o pudor e ausente a incontinência; ao contrário, incutia-lhes simplicidade de costumes e o desejo de boa compleição; dava ao sexo feminino o gosto dos sentimentos nobres, pela ideia de que também ele tinha o seu quinhão de valor e de honra. Daí ocorrerem a elas ditos e pensamentos como se conta de Gorgo, mulher de Leônidas; uma estrangeira dissera-lhe, parece, que as espartanas eram as únicas mulheres a mandar nos maridos e ela respondeu: 'Porque somos as únicas que parimos homens.”. 7 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br GRÉCIA ATENAS I NoçõEs PrElimiNarEs “Sabemos conciliar o gosto pelo belo com a simplicidade e o gosto pelos estudos com energia. Usamos a riqueza para a ação e não para a vã ostentação de palavras. Entre nós, não é vergonhoso reconhecer a pobreza; é-o, bem mais, não tentar evitá-la. Os mesmos homens podem dedicar-se a seus particulares e aos do Estado; simples artesãos podem ter bastante compreensão das questões de política. Não consideramos o homem ocioso, senão somente aquele que é inútil. É por conta própria que decidimos nossos negócios e fazemos os cálculos exatos. “Para nós, não é a palavra que é nociva à ação, mas o não se informar pela palavra antes de se lançar à ação”. PÉRICLES. Citado por: MOSSÉ, Claude. “Atenas: A História de uma Democracia”. Brasília: UNB, 1997, p.11 Fre n 01 te Fic h 03 a Na imagem acima, a acrópole, cidadela ou parte mais elevada de Atenas. Nela foi construído o famoso Partenon, em honra à deusa Atena. Na imagem ao lado, réplica do Partenon, construída nos EUA. Localização: Atenas espalha-se pela planície central de Ática, que é limitada pelo monte Aegaleo a oeste, monte Parnita ao norte, monte Penteli a nordeste monte Hímetus a leste, e o Golfo Sarônico a sudoeste. A terra é rochosa e de baixa fertilidade. Na imagem acima, mapa da Grécia antiga. 8 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 1. o PEríodo aristocrÁtico 1.1 coNsidEraçõEs iNiciais O primeiro momento da história política de Atenas desenvolveu-se concomitante ao início da desagregação da ordem gentílica, percebe-se que a sociedade da época era formada por reis ou chefes (basileus) e nobres, senhores de terras e rebanhos. Os nobres organizavam-se em famílias extensas – os genói – em que os membros eram unidos por laços de parentesco consanguíneo e/ou religioso. Na imagem ao lado, a figura do basileu. Com o fortalecimento dos eupátridas percebemos uma crescente contestação aos poderes do Basileu, as pressões sofridas por ele fizeram com que este lentamente perdesse força em benefício dos grandes proprietários de terras atenienses. O “genos” era o núcleo humano em torno do qual se estruturava o “oikos”, unidade econômica que compreendia terras, casas, ferramentas, armas e gado, dos quais dependia a sobrevivência do grupo. O trabalho no “oikos” – pastoreio, agricultura de cereais, legumes e frutas, produção de óleo e vinho, fiação e tecelagem – era realizado pelos membros do “genos” e pelos escravos, obtidos através de pilhagens e saques; tanto quanto possível, o “oikos” procurava ser auto-suficiente. Com o fortalecimento dos eupátridas percebemos uma crescente contestação aos poderes do Basileu, as pressões sofridas por ele fizeram com que este lentamente perdesse força em benefício dos grandes proprietários de terras atenienses. Tal fato marcaria o início do período aristocrático, que iremos estudar neste primeiro tópico. 1.2 orGaNização social A sociedade ateniense era constituída na fase aristocrática pelos seguintes grupos, basicamente: EuPÁtridas: Donos das grandes propriedades de terra em Atenas, constituíam a “aristocracia de nascimento”, eram os únicos a possuir o título de cidadãos atenienses durante este período, podendo ocupar cargos públicos e tendo os direitos civis assegurados. GEorGóis: Pequenos proprietários de terra, não possuíam direitos civis, não sendo, portanto, considerados cidadãos. tHEtas: A imensa camada de homens livres expropriados, sujeitos à escravização por endividamento. Ao longo do desenvolvimento histórico de Atenas, novas camadas sociais foram ocupando posições de destaque em seu cotidiano, especialmente a partir da colonização – que estudaremos adiante -, dentre os novos personagens destacamos: dEmiurGos: De origens diversas – e controversas –, seriam os comerciantes e artesãos atenienses, compondo a princípio um segmento intermediário. mEtEcos: Denominação dada aos estrangeiros e/ou gregos de outras cidades-Estados que habitavam na cidade. Convém recordar que a idéia de forasteiro entre os gregos está relacionada com qualquer indivíduo oriundo do exterior da cidade, fosse grego ou não. Escravos: Eram inicialmente poucos, mas acabaram crescendo em número e importância dentro desta sociedade. Estudaremos o tema mais detalhadamente em um tópico posterior. 1.3 orGaNização Política A origem era o fator decisivo para a definição de direitos na Atenas aristocrática, fato que, conforme já dissemos, beneficiava apenas os eupátridas que detinham o controle de todos os órgãos políticos. arcoNtado: Com o declínio da autoridade do Basileu, surge o Arcontado- representado pela nobreza eupátrida. O governo passa a ser exercido por 9 arcontes eleitos anualmente pelo areópago. Deles ao mais importantes foram: arconte-basileus encarregado do culto;o arconte-epônimo responsável pela administração e o arconte-polemarco, comandante do exercito. arEóPaGo: Conselho aristocrático, formado por representantes da nobreza. Formado com a finalidade de indicar os arcontes e fiscalizar as suas atividades. Sofreu inúmeras transformações ao longo da história ateniense, exercendo, por exemplo, no período aristocrático(que posteriormente iremos estudar) importantes funções jurídicas, como a responsabilidade de julgar os crimes de homicídio premeditado, envenenamento e incêndio, entre outros. O filósofo Sócrates foi julgado no Areópago, quando Anito, um democrata radical, responsabilizou-o publicamente como corruptor da juventude, além de, costumeiramente, destilar dúvidas sobre a eficácia dos deuses da cidade. Sócrates como se sabe, foi condenado à morte pela cicuta. Rejeitando o apelo de vários dos seus discípulos, Platão entre eles, negou-se a escapar da prisão, bebendo na presença deles o pote amargo do veneno. 9 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br a coloNização atENiENsE O que se convencionou chamar de colonização entre os gregos também pode ser entendido como uma 2ª diáspora. Tendo em vista que a ruína do sistema baseado na estruturação dos chamados OIKOS, expôs toda a fragilidade do território grego, no que diz respeito ao desenvolvimento da produção da terra, os anos que se seguiram foram marcados por uma verdadeira crise agrária que só poderia ser resolvida a partir da expansão dos domínios das principais cidades para outros pontos do Egeu e do Mediterrâneo. O estabelecimento das colônias em outros pontos do mundo antigo foi de uma importância tremenda para a história ateniense, pois favoreceu uma série de transformações expressas em diversos níveis. No plano econômico, houve um certo alívio na questão do abastecimento de gêneros agrícolas, um comércio intenso foi desenvolvido com as colônias e outros centros, ampliando assim o contato entre Atenas e as sociedades do Mar Mediterrâneo. No plano cultural tivemos um notável incremento, impulsionado a partir do intercâmbio com as regiões conquistadas e com aquelas que Atenas mantinha relações comerciais, tal fato transformou esta cidade numa referência obrigatória em termos de produção intelectual. O incremento do comércio ainda favoreceria os demiurgos, que de meros coadjuvantes se transformaram em co-protagonistas da vida econômica de Atenas. Gradualmente, o enriquecimento dos comerciantes funcionaria como um estímulo para que passassem a reivindicar uma participação política igual a dos eupátridas. O aumento do número de escravos foi outra importante conseqüência da colonização. A expansão foi muitas vezes imposta e desta maneira, acabou fornecendo inúmeros prisioneiros de guerra. O aumento do fluxo de escravos dificultava o aproveitamento da mão-de-obra livre, forçando os thetas a contrair dívidas junto aos cidadãos, de modo que não conseguindo quitar seus empréstimos acabavam escravizados. Os georgóis(em menor proporção) também Na imagem acima, o brilho e a beleza foram vitimados por da arquitetura ateniense Clássica. esta situação. as lutas sociais É impossível negar que as mudanças geradas pela colonização ateniense provocaram em demiurgos, georgóis e thetas, cada qual por um fator específico, um anseio por transformações de ordem política, social e jurídica. Este panorama daria início a um período de confrontações que acabaria provocando mudanças. No século VII a.C., Atenas já estava completamente envolvida nestes conflitos, demonstrando um período de grande instabilidade. Para uma melhor visualização, observe o quadro ao lado: dENomiNação PartidÁria Pediano Habitantes do Pédium (planície fértil) Paraliano: Habitantes da Parália (litoral) Diacriano: Habitantes da Diacria (Montanhas) camada social Eupátridas PosicioNamENto Conservadores: Buscavam manter o monopólio da cidadania ateniense. Moderados:Buscavam a equiparação política com os eupátridas. Radicais: exigiam reformas amplas de ordem política e econômica. Demiurgos Georgóis e thetas os rEFormadorEs atENiENsEs O ambiente das lutas sociais em Atenas acabou por forçar os eupátridas a permitir algumas reformas que promoveriam mudanças internas a partir de propostas elaboradas pelos legisladores, dentre os quais destacamos as duas mais importantes: as rEFormas dE sóloN (594 a.c.) Sólon foi eleito arconte em 594 a.C., era um aristocrata que desde muito cedo se envolvera com as atividades de comércio e as viagens ao exterior, ficando assim afastado dos eupátridas e bem mais próximo aos demiurgos. Preocupado com as agitações sociais promovidas por georgóis e tetas, insatisfeitos com o conservadorismo do código de Drácon. Sólon viria a proclamar a abolição da escravidão por dívidas, fato que jamais voltaria a se repetir em Atenas segundo a historiadora Claude Mossé. a rEForma dE drÁcoN (621 a.c.) Nos últimos anos do século VII a.C., o legislador Drácon estabeleceu a primeira tentativa de instituir um direito comum a todos, até aquele momento as leis em Atenas ainda assumiam um caráter consuetudinário – baseadas nas tradições orais, passando a ser escritas o que possibilitaria o acesso de toda a população ao conhecimento do código. As leis de Drácon foram uma conquista limitada, uma vez que os privilégios dos eupátridas permaneceram inalterados. 10 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br As leis de Sólon foram além da reforma sobre o endividamento nos campos, o legislador também teria alterado o conceito de cidadania baseado na origem, característica da Atenas aristocrática, passando a adotar uma nova divisão social baseada nos rendimentos anuais de cada indivíduo, esta nova ordem seria conhecida como Timocracia (governo dos ricos), onde os demiurgos seriam os grandes beneficiados ao se igualarem politicamente aos eupátridas. Contudo esta reforma ainda possuía limitações, como veremos nas palavras de Claude Mossé: “(...) O fato de que esta classificação se tenha feito, a partir de então, em função da fortuna e não do nascimento (...) revela não apenas uma profunda alteração das mentalidades, mas também a vontade de Sólon de substituir, por novos critérios, os antigos costumes aristocráticos. É certo que, ainda assim, isto não resultaria, de imediato, senão no fortalecimento da autoridade da aristocracia, uma vez que o exercício da magistratura era-lhe exclusivo, do mesmo modo que somente ela tinha competência para administrar justiça, em virtude de um novo código de leis instituído por Sólon. No entanto, ao codificador uma autoridade que, até então, poder-se-ia dizer, baseava-se no direito divino, Sólon fixava-lhe limites – aos quais a evolução ulterior daria pleno significado. a tiraNia Conforme vimos no tópico anterior, as reformas de Sólon embora tenham produzido alguns avanços também tiveram limitações, além disso, não foram do agrado de todos os habitantes desta pólis. Os eupátridas sentiram-se prejudicados pela perda do monopólio político e da possibilidade de usar o próprio credor como calção pelo empréstimo concedido. As camadas populares esperavam por reformas bem mais profundas, como a redistribuição da propriedade privada da terra, estes fatores faziam com que as disputas tivessem prosseguimento. Em meio a essas agitações, assistimos o aparecimento dos governantes tirânicos que alcançavam o poder com o apoio das massas populares. Psístrato (560-527 a.C.) foi o maior dos tiranos gregos, líder do partido diacriano é visto por alguns historiadores como um político demagogo que fez uso do discurso favorável às massas como uma ferramenta capaz de sublevá-los contra os eupátridas. Tendo conseguido o seu intento, Psístrato acabou sendo atacado sucessivamente por fundiários e comerciantes, chegando a ponto de ser expulso da cidade, quando passou doze anos exilado. Tendo ainda sido expulso uma segunda vez, Pisístrato acumulou riquezas no exterior para finalmente desembarcar em Atenas apoiado pelas massas urbanas e rurais, conseguiria assim impor o seu governo pessoal dos eupátridas e demiurgos. A popularidade que este tirano alcançou junto aos indivíduos menos abastados de Atenas se deve fundamentalmente a algumas de suas medidas: ao confiscar terras de seus inimigos aristocratas, Psístrato fez um arrendamento aos camponeses pobres, desenvolveu uma série de obras públicas que acabou por absorver grande parte da mão-de-obra livre e estimulou largamente o comércio e a cerâmica. Segundo alguns autores, Psístrato ainda faria a concessão de ajuda material aos homens do campo como um artifício para adiar a partilha das terras exigidas por estes. Psístrato governou Atenas até o dia de sua morte, no ano de 527 a.C., quando foi sucedido por seus filhos Hiparco e Hipias, que governariam até 510 a.C., quando um levante popular poria fim no período da Tirania e iniciaria a mais importante fase da história ateniense: a Democracia. Pisístrato Pisístrato esteve no poder de 545 a.c(após um ou dois breves espaços de tempo antes disso) até à sua morte em 527 a.c, tendo-lhe sucedido seu filho mais velho Hípias, que foi expulso em 510 a.c. Durante trinta anos, houve um governo pacífico, um período em que Atenas cresceu rapidamente em poder e riqueza e é quando surgiram muitos novos sinais visíveis deste crescimento e do espírito de comunidade, poder-se ia quase dizer “nacionalismo”, que o acompanhavam: sobretudo em obras públicas e em grandes festivais religiosos. Mas, em 514 a.c, o irmão mais novo de Hípias, Hiparco, foi assassinado por um rival despeitado num caso amoroso com um adolescente, e a tirania depressa se transformou num despotismo cruel e foi derrubada. 11 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br GRÉCIA iNtrodução: ATENAS II No século VII a.C., momento que marca a expansão grega pelo Mediterrâneo, as condições de vida da maioria da população ateniense se agravaram, pois faltava terra boa para o plantio. Isso aconteceria por duas razões principais: o grande aumento da população e o fato de os mais ricos estarem se apoderando da terra dos mais pobres, quando estes não lhes pagavam as dívidas. Outro problema grave que causava grande descontentamento, e que muitas pessoas, além de perderem a terra ainda se tornavam escravos por causa de dívidas, geralmente contraídas em anos de mais colheitas. Uma saída para essas dificuldades foi justamente a imigração para outras terras. A colonização de outras terras estimulou muito o desenvolvimento do comércio e da produção artesanal além de estabelecer, a influência cultural de outros povos sobre a Grécia principalmente Atenas. Toda via apesar do desenvolvimento econômico e cultural boa parte da população ateniense continuava descontente principalmente pela escravidão por dívida e a ausência de participação política que era restrita aos aristocratas. Fre n 01 te Fic h 04 a 1- os ProcEssos dE Evolução Política Em atENas: A acentuada desigualdade política, econômica e social que prevalecia na Polis ateniense, leva as camadas sociais desfavorecidas a se organizarem, com o intuito de reivindicar os seus direitos para tentar mudar a sua triste realidade. Desta forma iniciou-se um processo de evolução política em Atenas, com o surgimento dos primeiros grupos que passariam a lutar para defender seus interesses. O primeiro grupo que surgiu foi o dos Pedianos composto pela elite eupatrida e apresentava um caráter conservador. Tinha este nome por que a elite Eupatrida ocupavam a região do Pédium que era a região mais fértil da península da Ática. Os Paralianos representavam a classe dos chamados demiurgos que apresentavam um caráter moderado, pois, os demiurgos já possuíam poder econômico faltando-lhes apenas poder político. Receberam este nome porque ocupavam a Paralia que era uma região litorânea na Ática. Os diacrianos agrupavam a camada dos camponeses e apresentavam um caráter revolucionário radical, sendo que estavam sobrecarregados devido os altos impostos e as más colheitas. Receberam essa denominação devido ocuparem a parte menos fértil da Ática chamada de Diácria. A primeira grande vitória dos atenienses insatisfeitos foi a nomeação de um legislador chamado Drácon, em 621 a.c. Com Drácon, as leis passaram a ser escritas em pedras e colocadas em praça pública, onde se organizavam as votações e as discussões políticas. As leis draconianas foram consideradas bastante rígidas, pois Drácon não acabou com a escravidão por dividas e muito menos estendeu participação política a maioria da população. No entanto a importância das reformas de Drácon estava no fato de ele elaborou as primeiras leis escritas, que a partir de então não puderam mas ser ignoradas ou falseadas. As leis draconianas foram consideradas desfavoráveis para a maioria dos atenienses, então as revoltas e os movimentos sociais continuaram exigindo reformas radicais. Desta forma os aristocratas pressionados pelos demiurgos e camponeses realizaram outra reforma desta vez comandada pelo legislador Sólon que tinha um vínculo com os comerciantes demiurgos. Com Sólon no governo, foi proibida a escravidão por dívida. Assim, muitas pessoas recuperaram sua liberdade e suas terras. Sólon também dividiu a sociedade ateniense baseado na renda, ou seja, o indivíduo participava do governo de acordo com a sua condição econômica. Está lei beneficiou demasiadamente a classe dos ricos demiurgos que a partir de então passaram também a ter poder político. As reformas implementadas por Sólon apesar de ter aberto ainda mais o caminho para o futuro regime democrático ateniense, foram consideradas moderadas, pois descontentou os dois extremos da sociedade, de um lado feriu os privilégios dos nobres eupádridas e de outro não satisfez os anseios dos camponeses que exigiam reformas radicais. Dentre as realizações de Sólon podemos citar: ● Fim da escravidão por dívida ● Fixação da extensão de terra que cada pessoa poderia ter ● Restituição dos lotes de terra que haviam sido tomadas pelos ricos à aqueles que os haviam perdido pelo não pagamento de dívidas. 12 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 2- a GuErra civil E o rEGimE tirâNico dE Pisístratus: Após a reforma de Sólon boa parte dos atenienses livres continuavam insatisfeitos, principalmente os camponeses que passaram a apoiar os tiranos, ou seja, homens que assumiam o governo a força sem seguir as leis. Em Atenas o tirano foi Pisístratus que se aliou aos camponeses conseguindo derrubar a nobreza e implementando um regime tirânico em Atenas,onde o povo passou a ter muito mais participação, pois Pisístratus realizou reformas radicais em benefícios dos camponeses. 3- rEalizaçõEs dE Pisístratus: ● Confiscou as terras da nobreza e entregou aos camponeses ● Iniciou a realização de várias obras públicas, diminuindo o desemprego ● Criou frentes de trabalho ● Deu apoio ao comércio e a agricultura através de empréstimo aos camponeses ● Acelerou o desenvolvimento cultural 4- a dEmocracia NascEu da luta: Com a morte do grande estadista Pisístratus, assume a administração em Atenas os seus filhos Hipargo, Hípias e Téssalos, entretanto não obtiveram o mesmo do pai fazendo uma péssima administração em Atenas, o que propiciou a nobreza retomar o poder. Toda via surge um homem Clistenes que assim como Pisístratus reorganiza o povo e novamente através de uma sangrenta batalha o poder, dando início a uma série de mudanças radicais em prol da população. Nascia o regime democrático de Clistens que ficou conhecido como o pai da democracia. 5- o rEGimE dEmocrÁtico: Clistenes fortaleceu a participação do povo na administração da cidade ao implantar suas reformas, Clitenes deu a Atenas um governo popular. Na democracia ateniense todos os atenienses possuíamdireitos políticos independentes de sua condição social ou econômica. No entanto, a democracia não representava todo o povo da cidade, pois os escravos estrangeiros e as mulheres não eram considerados cidadãos. Esse era um direito exclusivo dos homens livres, filhos de atenienses e nascidos em Atenas. 6- o FuNcioNamENto do rEGimE dEmocrÁtico atENiENsE: A partir da reforma de Clistenes, o poder dos arcontes, representantes dos eupátridas passou para dez magistratos, chamados estrategos e eleitos pela assembléia popular independentemente de sua riqueza. A Bule o conselho dos 400 passou a ser formada por 500 membros 50 de cada uma das 10 tribus. Os membros da Bule eram escolhidos por sorteios. Essa forma de escolha era a maneira de garantir a participação de qualquer cidadão. As leis votadas pela Bule deveriam ser aprovadas ou não pela assembléia popular (Eclésia). 7- o ostracismo: Uma das características marcantes do regime democrático de Clistenes foi a criação do Ostracismo que significava o exílio de 10 anos para o cidadão que colocasse os ideais democráticos em perigo. 8 – o século dE PériclEs: Péricles governou Atenas durante trinta anos (461 - 431 a.C.). Representava o Partido Popular e tornou-se ardoroso defensor da democracia escravista. Durante seu governo instituiu a remuneração para os ocupantes de cargos públicos, assim como para marinheiros e soldados, realizou várias obras gerando empregos e estimulou o desenvolvimento intelectual e artístico, principalmente o teatro, marcado pelo antropocentrismo, característica fundamental da cultura grega, em suas tragédias ou comédias a preocupação era retratar a vida humana, buscando compreender tudo o que cercava o ser humano, na sua história e em seu cotidiano. Todo o desenvolvimento da cidade estava baseado na exploração do trabalho escravo e no expansionismo sobre as demais cidades gregas, obrigando-as a manter a Confederação de Delos, mesmo após o final da guerra (448 a.C.), quando os persas já haviam sido derrotados. A postura imperialista ateniense serviria ao ideal panhenístico defendido por Péricles. Para o líder ateniense, as cidades deveriam se reunir em um congresso para tratar de assuntos comuns, como a reconstrução de templos ou o combate à pirataria. No entanto esse ideal não foi concretizado, pois as intensas lutas existentes serviram para reforçar a histórica separação das cidades, culminando com a Guerra do Peloponeso, envolvendo praticamente todas as cidades gregas, polarizadas entre Atenas e Esparta. é PrEciso saBEr mais! “durante o governo de Pericles( 461 á 429 ac), a democracia atingiu o seu nivel mais alto, principalmente por que, pericles alem de ter dotado a cidade de grandes obras publicas e ter feito grandiosos investimentos na cultura, agregou ao estado democratico os principios da isonomia que significa igualdade de todos perante a lei; da isegoria que era a igualdade de todos os individuos de acesso a palavra nas assembleias e o isocracia que era igualdade de participação de todos os cidadão no governo, o que tornou o governo de pericles voltado para o cidadão ateniense .“ (Julio charchar) 13 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br vamos vEr o QuE diz o ProPrio PériclEs: “Nossa constituição é chamada de democracia por que o poder está nas mão não de uma minoria, mas de todo o povo. Quando se trata de resolver questões privadas, todos somos iguais perante a lei, quando se trata de colocar uma pessoa diante de outra em posição de responsabilidade publica, o que vale não é o fato de pertencer a determinada classe, mas a competencia real que o homem possui.” Desta forma percebemos que o processo de configuração do estado democratico ateniense foi lento e gradual envolvendo multiplos conflitos sociais que acabaram contribuindo para que a participação politica se extendesse aos atenienses desprovidos de poder economico e origem nobre, entretanto, nunca podemos esquecer que a democracia ateniense encontrava-se restrita a minoria da população, pois tratou-se de uma democracia escravista, onde o trabalho do escravo foi de suma importancia para a formação do cidadão. 9- a dEmocracia GrEGa E a dEmocracia modErNa: É importante observar a diferença básica entre a democracia que surgiu a séculos a.C. no mundo grego e a democracia dos tempos modernos, pois a democracia ateniense era bem diferente da nossa, principalmente se tratando de como ela era realizada, pois os gregos possuíam uma democracia direta, ou seja, os cidadãos iam para a Assembléia, em que qualquer um deles poderia propor leis e todos tinham o direito de falar para defender ou atacar uma proposta. Hoje possuímos uma a chamada democracia representativa, pois nossos cidadãos votam para escolher seus representantes e são estes que propõe, discutem e votam as leis. 14 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 10-GuErra E idEal dE cidadaNia Na Polis do sédulo iv, a FuNção social da GuErra Para os GrEGos “É na relação indissociável entre política e guerra que encontramos o ideal hoplítico. Os critérios censitários de participação política, estabelecidos por Sólon, tinham por base justamente a capacidade dos atenienses de custearem o próprio armamento. Foi na falange hoplítica que nasceu o espírito público, já que os soldados lutavam em grupo, de forma coesa, e não mais enquanto indivíduos, como nos tempos homéricos. É a revolução hoplítica que promove a democratização da função guerreira e o enfraquecimento das distinções sociais. A transformação da atividade guerreira em prerrogativa do cidadão em Atenas restringiu a contribuição militar da aristocracia ao serviço pessoal, relegando à nobre cavalaria um papel diminuto, e não permitindo que ganhassem capital simbólico ao lutar com seus dependentes. Isto ocorreu enquanto expressão do poder da classe hoplita. Paralelamente, o “feito heróico” desaparece. O sucesso na guerra não é mais resultado da ação de um indivíduo excepcional, divinamente inspirado. Ao invés disso, a vitória é celebrada em honra da cidade, como expressão da comunidade cívicai. A derrota, por sua vez, é cantada por ocasião das orações fúnebres, em que os mortos em guerra são homenageados, sendo momento privilegiado de reafirmação da identidade da cidade e da philía entre os homens. Uma questão teórica central para o nosso estudo é a da naturalidade da guerra para os gregos. A guerra é um fato natural, acerca do qual nada pode ser feito. É a partir desta localização da guerra no reino da physis que a ética aristocrática construirá a hierarquia, ao dividir os homens entre os que comandam e os que são comandados. O desempenho na guerra desvela a natureza das coisas, ao diferenciar o vitorioso livre do derrotado escravo. Sobressai, assim, dos tempos homéricos ao período clássico, uma identidade entre guerra e cativeiro. Enquanto resultado da guerra, o cativeiro é justo. Xenofonte nos oferece uma radicalização da concepção grega de que à dinâmica interna da personalidade correspondem as relações sociais exteriores. Em suas obras, o comando militar é justificado pela moral, atribuindo ao sucesso militar o autodomínio, a coragem e a dureza. A guerra surge como teste da natureza interior dos combatentes, atualizando-a. O sucesso legitima o governo e a hierarquia social. Por conta disso, faz da derrota a legitimidade da escravidão, considerada justa por ter sido avaliado o caráter do escravizado.” 15 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br GRÉCIA i- mito E rEliGião "Quem sabe dizer e fazer o que é agradável aos deuses, com preces e sacrifícios, (...) traz a salvação à família e à cidade." Platão (Pf.Euthphr. 14b) Na imagem ao lado, Zeus, senhor dos céus e deus grego supremo. A religião grega, ao contrário do que se imagina, não é a mesma coisa que Mitologia grega. A “mitologia” reúne histórias que podem envolver ou não fenômenos sobrenaturais (“divinos”); a “religião” abrange todas as formas de comportamento com os quais os homens procuram se relacionar com a divindade. O monte olimpo (grego: Όλυμπος; também transliterado como monte Ólimpos, e em mapas modernos, Óros Ólimbos) é a mais alta montanha da Grécia, com 2.919 metros ou 9.576 pés. Na mitologia grega, o Monte Olimpo é a morada dos Doze Deuses do Olimpo(A lista varia um pouco, mas a mais aceita incluía Zeus, Hera, Deméter, Poseídon, Afrodite, Atena, Ares, Hefestos, Apolo, Ártemis, Hermes e Dionisio. Havia também um décimo-terceiro deus de igual nível, Hades, que não vivia no Olimpo e sim em seu reino, o mundo subterrâneo), os principais deuses do panteão grego. Os gregos pensavam nisto como uma mansão de cristais onde os mesmos deuses - como Zeus - habitava. Sabe-se também, na mitologia grega, que, quando Gaia deu origem aos Titãs, eles fizeram das montanhas gregas, inclusive as do Monte Olimpo, seus tronos, pois eram tão grandes que mal cabiam na crosta terrestre. Religiosidade, mentalidade e imaginário Fre n 01 te Fic h 05 a Os antigos gregos não utilizavam nenhuma palavra parecida com o termo “religião”, de uso corrente entre nós; para eles, o que importava era a , “piedade”, ou seja, o respeito e a reverência aos deuses. Tudo era da alçada dos deuses e deles não se esperava nenhum favor especial pois, a exemplo dos homens, eles agiam de acordo com o que recebiam. Um dos mais antigos testemunhos desse relacionamento simples e direto entre adoradores e adorados é a inscrição gravada pelo tebano Mantiklos por volta de 700 a.c em uma estatueta: “Mantiklos me oferece a Apolo do arco de prata; agora tu, Febo, dá-me em troca algo prazeroso”. Havia práticas religiosas públicas, como o culto aos deuses do Olimpo e aos heróis em diversos templos e santuários, e festivais religiosos de diversos tipos realizados periodicamente pelas poléis. Não havia textos sagrados, nem regras fixas, nem sacerdotes profissionais; eram os oráculos que auxiliavam os homens a entender os desígnios dos deuses. ii – caractErísticas. Os gregos depositavam suas crenças em um panteão de divindades conhecido como "Os Deuses do Olimpo". Segundo a tradição no topo do Monte de mesmo nome haveria um palácio invisível aos olhos dos mortais, onde habitavam as entidades responsáveis pelos mais diversos segmentos da vida cotídiana. De acordo com esta cosmogonia. 2.1- PolitEísmo. DIVINDADE ZEUS HERA POSEIDON HADES ATENA AFRODITE APOLO ARTÊMIS HERMES DIONISIO ATRIBUIÇÕES Senhor dos deuses do Olimpo. Esposa de Zeus; Protetora ao casamento. Irmão de Zeus; Senhor dos mares Irmão de Zeus: Senhor do reino dos mortos. Filha de Zeus; Deusa da sobedoria. Filho de Zeus; Deusa do amor e da beleza. Deus da luz. Deusa da caça. Mensageiro dos deuses. Deus do vinho e do teatro. É possível perceber que os deuses gregos apresentavam um comportamento recheado de atitudes características dos mortais, tais como inveja, ciúmes, desejo sexual e vaidade. Deste modo a religião grega não teria conhecido o maniqueísmo cristão, não havendo, portanto uma separação entre o bem e o mal, a mesma divindade poderia ser boa ou ruim. 2.2 aNtroPomorFismo. 16 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br iii – cultos E cErimÔNias. Pensava-se que os deuses interferiam diretamente nos assuntos humanos e que era necessário aplacá-los através de sacrifícios. A Asclépio, deus da Medicina, por exemplo, era costume sacrificar um galo. Os sacerdotes que auxiliavam os fiéis em suas preces e sacrifícios não constituíam o que hoje chamaríamos de “clero': considerados servos do deus, administravam seus templos e santuários, e na comunidade eram tratados como simples cidadãos. 3.1- os sacriFícios. Festivais religiosos eram celebrados regularmente, para que toda a comunidade pudesse honrar o deus da cidade. As famosas Olimpíadas, por exemplo, eram festivais da cidade de Olímpia em honra a Zeus e aconteciam a cada quatro anos. Além das cerimônias religiosas de praxe, havia também concursos de poesia, competições atléticas e corridas de carro. Na imagem ao lado, reconstrução da cidade de Olímpia na Antiguidade, sede dos famososm,, Jogos Olímpicos grego. Entre as modalidades esportivas presentes podemos citar as corridas, os saltos, o arremesso de disco e as lutas corporais. Além do esporte havia também competições musicais e poéticas. Os atletas que participavam das competições eram respeitados pelos gregos em geral. O prêmio para os vencedores era apenas uma coroa feita com ramos de oliveira colhidos num bosque consagrado a Zeus. Mas a sua glória era imensa. As cidades recepcionavam os vitoriosos com festas e homenagens. Poetas, como Píndaro, faziam poemas em sua homenagem, e o governo erguia-lhes estátuas. 3.2 – JoGos olimPicos. Era possível, ocasionalmente, conhecer os desígnios divinos através da arte divinatória. Os adivinhos interpretavam geralmente o vôo das aves, o aspecto das entranhas dos animais sacrificados e os sonhos. Havia também os oráculos, em que um determinado deus respondia a perguntas de seus fiéis através de um intermediário (sacerdote), tomado por um ouêxtase ou loucura divina. O oráculo mas famoso da Grécia era o de Apolo, localizado na cidade de Delfos. No quador a seguir veremos um trecho da tragédia "Édipo Rei" em que se fala sobre o santuário: Édipo: "(...) às escondidas de meus pais, viajei para Delphos a fim de consultar o oráculo. Febo depediu-me sem me honrar com uma resposta atinente ao motivo de minha viagem. Em troca, vaticinou infortúnio, desgraças coisas terriveis: que estava escrito que eu deveria casar com minha própria mãe, mostrar aos homens uma prole insuportável de ser, por último, que eu haviade ser o assassino de meu pai (...)” Sófocles. “Édipo Rei”. RJ: Difel, 2000. p. 83 3.3 – orÁculos. Na vida privada era praticado o culto aos mortos. Após a morte, todos iam para o mesmo lugar, o Hades; mas, para isso, era essencial que todos os ritos fúnebres fossem escrupulosamente cumpridos. Havia ainda os cultos de mistérios, em que os fiéis recebiam ensinamentos relacionados com a vida após a morte; os dois mais importantes, os Mistérios Eleusinos e o Orfismo, foram famosos durante toda a Antiguidade. Esses cultos eram chamados de mistérios porque suas doutrinas e rituais podiam ser revelados somente aos iniciados, que juravam mante-los em segredo. 3.4 – culto doméstico. PrÁticas, valorEs, costumEs, maNiFEstaçõEs culturais, rEliGiosidadE E dEvoção Na civilização GrEGa. “Existem milhares de maravilhas, mas nenhuma tão maravilhosa quanto o homem” Sófocles Aplicações no Caderno de Exercícios As ruínas do Oráculo de Delfos. 17 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br História dos povos 1. coNcEito Quem eram os índios iNdíGENas -i Sabe-se que a América já era habitada há cerca de 10 à 13 mil de anos. Existem indícios, como fogueiras pré-históricas1, que especialistas acreditam remontar à cerca de 40 mil anos, mas esta datação ainda não é muito aceita. De qualquer maneira, é certo que a cultura indígena já se desenvolvia por aqui milhares de anos antes de Cabral chegar com a sua esquadra. A ocupação populacional ocorria em toda a extensão do atual território brasileiro. Por volta de 700-900 a.C., o litoral brasileiro era habitado por diversos grupos indígenas. Daí em diante, as migrações tupi-guaranis levaram à expulsão desses grupos para o sertão. Alguns deles ainda permaneceram no litoral, como os charruas, no Rio Grande do Sul, os aimorés (botocudos), na Bahia e os tremembés, entre o litoral do Ceará e o Maranhão. Esses grupos, juntamente com os que foram expulsos para o .C sertão, ficaram 0a 50 800 d.C genericamente conhecidos como “tapuias”. A permanência dessas nações 1 00 0 d.C “tapuias” no litoral era uma d.C exceção, pois 500 do estuário do Amazonas até o Rio Grande do Área de ocupação tupinambá - séc. XVI Rota migratória tupinambá Sul predominou Área de ocupação guarani - séc. XVI Rota migratória guarani a presença dos Prováveis rotas seguidas pelas migratupi-guaranis, ções tupinambá e guarani que era um conjunto de nações que falavam a línguas do tronco tupi, que foram aprendidas com certa facilidade pelos portugueses. Fre n 02 te Fic h 01 a rios. E isso levou a uma visão preconceituosa com as nações chamadas tapuias, os grupos não tupis, pois como falavam línguas que os portugueses não compreendiam, acabaram sendo chamados de povos de “língua travada”. Os missionários não apenas aprenderam muito bem o tupi, como chegaram a elaborar uma gramática. Mas com a convivência entre nativos e portugueses, desenvolveu-se uma língua, que ficou conhecida como língua geral. Curioso, para não dizer trágico, é que esses religiosos utilizavam essa “língua geral”2 como meio de comunicação mesmo com tribos que falavam outras línguas. Ou seja, a “língua geral” acabava sendo imposta, daí que várias tribos indígenas acabaram aprendendo o tupi...com os jesuítas. Importante ressaltar é que a classificação dos indígenas do Brasil em tupis e tapuias teve origem, talvez, com os tupis e foi assimilada pelos portugueses. Certamente que esse não é o ponto de vista dos próprios índios denominados tapuias ou de como eles entendiam suas diferenças. Entretanto, por mais paradoxal que pareça, essa distinção em dois grandes grupos foi assimilada pelos portugueses a partir do “preconceito” que os tupis tinham em relação às nações não-tupis, os tapuias eram formados por diversas tribos, completamente diferentes umas das outras. De forma geral, as informações passadas pelos cronistas dizem respeito quase sempre aos tupis e quase nunca a outras tribos. E é exatamente essa falta de informação que levou diversas pessoas, de pintores a escritores, a atribuir hábitos tupis a tribos não-tupis, como a antropofagia, por exemplo. uma sociedade Guerreira Quando da chegada dos portugueses, as tribos tinham relações diversificadas umas com as outras. Entretanto, um aspecto chamou a atenção e intrigou os lusitanos: os índios viviam em constante estado de guerra. Conflitos entre tribos de etnias diferentes ou até entre etnias próximas ou aparentadas eram constantes. Essa situação, para o europeu, era difícil de entender. Américo Vespúcio, por exemplo, se perguntava por que os índios lutavam se eles não tinham propriedades, nem reinos ou senhores para defender? Ìndios e índios Não levou muito tempo para os portugueses perceberem que havia diferenças entre os vários índios que habitavam o litoral. Cronistas, como Fernão Cardim, por exemplo, observaram que a maioria dos tapuias usava o tacape como arma, em vez do arco e fecha, além de não conhecerem a agricultura e não praticarem a antropofagia, embora fossem muito hábeis em táticas de lutas e emboscadas. Você já percebeu que muita gente pensa que todos os índios do Brasil falam o tupi? Essa ideia, ou como diz o antropólogo Júlio Cezar Melatti, essa “supervalorização da língua e dos índios Tupi diante dos demais indígenas do Brasil”, remonta ao tempo que os primeiros portugueses, ao chegarem, depararem com o litoral quase todo ocupado por tribos que falavam o tupi. Daí que ela foi a primeira língua aprendida por navegadores, aventureiros, colonizadores e missioná- 18 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br Por que a Guerra? A verdade é que ainda hoje não está completamente esclarecida a razão das guerras indígenas. Várias hipóteses foram levantadas, desde a pilhagem até a vingança. Alguns cronistas da época consideravam que elas ocorriam por vingança. André Thevet, por exemplo, afirma que “todas as suas guerras não Guerra tupinambá, na gravura de These devem senão a um absurdo e gratuito sen- odore de Bry timento de vingança”3. Alguns estudiosos chegaram a concordar com Thevet, considerando que a vingança pelos antepassados mortos era uma forma de integrá-los ao mundo dos vivos. Ora, é interessante observar que nações indígenas iam a busca de novos territórios, provavelmente porque o território antigo sofria ameaça de esgotamento de recursos, levando a tribo ao risco da fome. Esse deslocamento poderia resultar na expulsão de outras nações indígenas da área conquistada. É o que pode ter ocorrido quando os tupis-guaranis desalojaram os “tapuias” e os empurraram para o interior. Porém, observe que esse expansionismo não resultou em submissão e nem na destruição dos derrotados. que não foram transformados em escravos e nem submetidos a quaisquer tipos de trabalhos forçados. Além disso, a conquista não resultava em mudanças nas estruturas sociais. No caso dos tupis e tapuias, por exemplo, observa-se que eles continuaram vivendo em uma sociedade igualitária e guerreira. Veja, a sociedade indígena é igualitária na sua essência e na compreensão de si mesma. Assim, a submissão do inimigo à escravidão, por exemplo, comprometeria esse igualitarismo. Do mesmo modo, a exterminação dos inimigos não faz sentido dentro da lógica da guerra indígena, pois a falta de inimigos, caso fossem eliminados, faz do guerreiro um sujeito sem função, visto que não teriam a quem combater. É lógico que isso não quer dizer que não havia mortes nos conflitos. Havia, e brutais. Mas esse não era o objetivo final da guerra O historiador Luiz Koshiba diz que “a guerra indígena não poderia redundar na completa aniquilação do inimigo, pois, como guerreiros, os índios só podiam existir uns contra osoutros.”4 Quem decidia a guerra era um conselho formado por anciãos e pelos guerreiros mais valentes. Para que os homens se entusiasmassem com a guerra, um chefe escolhido pelo conselho conclamava durante horas as glórias dos antepassados. Quando partiam para a guerra, a preocupação não era buscar riquezas, como já se viu, mas conseguir o maior número de prisioneiros. A decisão se o cativo seria sacrificado, trocado ou doado poderia durar cercas de um ano. Enquanto isso, deveria ser bem tratado, podendo até receber uma companheira. Nesse tempo, seria alimentado e engordado. Decidida a execução, aldeias vizinhas eram convidadas para a festa, onde seria servido o cauim, bebida fermentada feita de mandioca ou milho cozido. Nos dias que antecediam a execução, anfitriões e convidados bebiam e dançavam. Escolhia-se, então, o executor, que era todo pintado e enfeitado, assim como o prisioneiro, que era levado para o centro da aldeia e amarrado por duas cordas pela cintura. Mas com mãos e pés livres, para poder arremessar pedras e outros objetos em seus algozes. Era uma maneira de demonstração do valor do guerreiro e do destemor da própria morte. O cativo então era semi-imobilizado e sacrificado com um golpe de tacape na cabeça. Tudo era aproveitado. O corpo, depois de esquartejado, era dividido entre os participantes. Os pedaços eram colocados numa espécie de girau e moqueados. O miolo, as tripas e a gordura eram para fazer uma espécie de mingau, servido para velhas e crianças. Gândavo diz que “todos comem carne humana dos inimigos e tem-na pela melhor iguaria de quantas pode haver.” A execução deve ser compreendida como um ritual guerreiro ou, pelo menos, como perpetuador do espírito guerreiro. Ali não é sacrificado um simples prisioneiro, mas um valoroso guerreiro. Daí que, na cerimônia, ele é provocado, para que demonstre seu valor. A reação do cativo, através de atitudes de arrogância, como lembrar que matou e comeu vários parentes de seus executores, era uma atitude de coragem e bravura, como se o espírito guerreiro suplantasse a própria morte. “Contudo, dizer que a guerra reaviva a cada momento a coragem do guerreiro é ainda dizer pouco. No essencial, trata-se da sempre renovada demonstração de que, enquanto existir o guerreiro, não haverá medo da morte. E um homem que não teme a própria morte é impossível de ser dominado. A morte, para o guerreiro, será sempre preferível a qualquer forma de servidão. Eis porque a guerra e o guerreiro tornam-se a chave da reprodução ‘indivisa’, assegurando a igualdade”5 Nesse sentido, esquartejar e depois devorar o guerreiro significava que ele não fora abandonado para ser comido por bichos ou deixado apodrecer pelo tempo. Os inimigos que o devoravam reconheciam nele o valor sublime do guerreiro. Fernão Cardim conta que testemunhou um índio afirmar que preferia ser devorado pelos seus inimigos a ser “comido pelos bichos”. trabalho e tempo livre O navegador Américo Vespúcio esteve em uma aldeia indígena e escreveu o seguinte: “Em cada casa destas (as malocas) vivem todos muito conformes, sem haver nunca entre eles nenhumas diferenças: antes são tão amigos uns dos outros, que o que é de um é de todos, e sempre e qualquer coisa que coma, por pequena que seja, todos os circunstantes hão de participar dela.” A quase inexistência de bens privados entre os índios impressionou os europeus. Apenas suas armas e enfeites eram bens pessoais, todo o resto era partilhado, especialmente os produtos da caça, pesca e coleta. O fato de possuírem poucos bens facilitava os deslocamentos, quando as comunidades precisavam encontrar lugares melhores para viver. Mesmo vivendo basicamente da coleta (caça, pesca, etc.), os tupis-guaranis plantavam mandioca, além de milho, cará e batata-doce. Também cultivavam abacaxi, algodão e tabaco. Mas nunca formavam estoques além de suas necessidades. As tarefas eram divididas por sexo. Aos homens cabia caçar, pescar, cortar lenha, construir canoas e cabanas, além de limpar o terreno para a lavoura, mas, principalmente, a função guerreira. As mulheres, por sua vez, plantavam, colhiam, preparavam a comida, fiavam, teciam, faziam cestos e potes, colhiam frutos e raízes, além de cuidar da casa e das crianças. As sociedades indígenas são chamadas “sociedades do tempo livre”, ao contrário das “sociedades do trabalho” europeias. Os princípios são diferentes. Os indígenas estranhavam a obstinação pelo trabalho dos portugueses. Para eles (os índios), no máximo cinco horas de trabalho diário eram suficientes para obtenção de alimentos. Os portugueses, por sua vez, acabaram dando origem a uma visão preconceituosa dos indígenas, especialmente dos homens, não apenas porque desempenhavam funções, digamos, mais leves que as das mulheres, mas também porque não se alinhavam com a rigidez disciplinar que os portugueses queriam lhes impor. Na realidade, os europeus não conseguiam compreender a natureza da sociedade indígena. os Prisioneiros e a antropofagia O guerreiro que fosse capturado era levado amarrado para a aldeia. Ao percorrer a aldeia era ameaçado e insultado. Depois ele era colocado, segundo Gândavo, “numa casa, e junto da estância daquele que o cativou lhe armam uma rede”. Aí param as ofensas. Momento festivo da erimônia de execução do prisioneiro (Gravura de théodore de Bry) 19 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br História dos povos 1. iNtrodução iNdíGENas -ii o Proto-iNdíGENa Durante milhares de anos, há milhares de anos, povos caçadores e coletores ocuparam a atual Amazônia. A arqueóloga Anna Roosevelt localizou pinturas rupestres1na Pinturas rupestres no município de Monte serra do Ererê, Alegre, no Pará. em Monte Alegre, Pará, com idade aproximada de 11.200 anos. Também vestígios humanos foram encontrados próximos à Altamira. Sabese, também, que um povo caçador e coletor habitou a ilha do Marajó há 6.000 anos As condições físicas da Amazônia eram bastante diferentes. As glaciações e seus efeitos faziam com que a floresta não tivesse a extensão e intensidade de hoje. Provavelmente havia por aqui campos e cerrados em algumas partes. Foi nessa época que aqui existiam animais de grande porte, como o mastodonte, espécie de antecessor do elefante, o tatu-gigante, com seus dois metros de altura e o megatério ou preguiça gigante, com cinco a seis metros de altura. Todos herbívoros. Fre n 02 te Fic h 02 a Durante muito tempo, acreditou-se que a Amazônia, por ser uma floresta tropical, não poderia ter desenvolvido culturas mais complexas na sua organização. Por isso, as pesquisas ainda são muito escassas. Ou melhor, as pesquisas recentes ainda não tiveram tempo para desvendar todos os mistérios guardados pela floresta. Mesmo assim, é possível classificar a ocupação da Amazônia antiga em quatro períodos: paleo-indígena, proto-ceramista, ceramista e cacicado. Observe um a um esses períodos. o Proto-cEramista Como consequência do fim da era glacial, houve o aumento das chuvas devido ao aquecimento do clima. Por isso as florestas cobriram a Amazônia, tornando a alimentação mais abundante. Daí que, embora os grupos humanos permanecessem caçadores e coletores, passaram a ocupar as beiras dos rios, tornando-se mais sedentários. Por volta de 4.000 a.C., alguns desses grupos já utilizavam tigelas e outras cerâmicas utilitárias (abaixo, exemplo de ponta de uma arma), além de, provavelmente, plantar mandioca e batata-doc Acredita-se que, nessa época, surgiu em Rondônia um grupo que daria origem aos tupis. o cEramista Há cerca de 3 mil anos, havia grupos que viviam em habitações coletivas, com cerca de 100 a 150 pessoas, praticavam uma economia de subsistência e possuíam uma cerâmica ainda muito simples. Mais tarde a técnica foi evoluindo e surgem objetos mais complexos. Próximo a Manaus, foram encontradas urnas funerárias com cerca de 2 mil anos. Na ilha do Marajó também se encontrou vestígios de um povo que viveu há mais de 2 mil anos que guardava a cinza dos mortos em vasos. Lá também foram encontrados cachimbos, estatuetas e outros objetos.É possível que esses povos tenham sido substituídos por povos da cultura marajoara. cultura maraJoara Ainda hoje, pouco se conhece da cultura marajoara, pois os estudos estão apenas iniciando. Contudo, sabe-se que eles ocuparam a região central da ilha, próximo à lagoa Arari, a partir do ano 400 na nossa era. Lá, construíram aterros artificiais, chegando alguns a medir 250 m de comprimento, 59 m de largura e quase 6,5 m de altura4. Essa é uma das suas principais características. Eles serviam como proteção contra as cheias dos rios. Era aí que eles habitavam nas épocas de inundações, mas esse local também servia para fins cerimoniais e funerários. A construção desses tesos requeria conhecimentos de engenharia, mas também de uma marcante distinção social, onde uma classe dirigente coloca uma grande parte da população sob o regime de uma espécie de servidão. Nesse sentido, um aspecto que chama a atenção é que das urnas funerárias encontradas algumas são ricamente trabalhadas, enquanto que outras são bastante simples, reforçando a existência de uma elite e de uma camada inferior. Áreas de ocupação de antigas sociedades na ilha do Marajó. 20 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br A cerâmica marajoara é rica em detalhes, caracterizando-se por seus desenhos geométricos em preto, vermelho e branco. Os vasos funerários apresentam geralmente formas humanas estilizadas. Além de vasos, já foram encontrados apitos, enfeites, tangas de barro, estatuetas, confirmando que era uma sociedade complexa, inclusive com um culto mais elaborado. Algumas estatuetas eram de divindades. Por cerca de mil anos essa civilização dominou o Marajó. Até que por volta de 1350 foram suplantados pelos aruãs, povo de cultura mais simples, mas que provavelmente tinha a força das armas. a cultura tapajônica Representação dos aterros marajoaras A cultura que hoje é conhecida como tapajônica desenvolveu-se nas várias ilhas da região do baixo Amazonas, onde hoje é Santarém. Eram inúmeras aldeias, situadas em terras altas ou colinas, cada uma submetida a um chefe e todos abaixo de um chefe geral. Relatos do século XVII narram que havia o costume de mumificar o corpo desses chefes gerais, mas não há vestígios, pois missionários destruíram essas relíquias arqueológicas associando essa prática a rituais pagãos. cerâmica tapajônica As aldeias possuíam cerca de 20 a 30 casas, mas cronistas garantem que havia uma capital que era a mais populosa delas. E se for verdade o relato de Maurício Heriarte, que acompanhava Pedro Teixeira na expedição pelo rio Amazonas, essa capital possuía cerca de 60 mil guerreiros, fora o resto da população. Eles possuíam mercados, onde comercializavam milho, arroz selvagem, patos e papagaios, sendo que o milho era a alimentação básica Construíram também currais onde eram criados tartarugas e peixes-boi. A cerâmica desse povo era ricamente trabalhada e requintada nos detalhes. Estatuetas representam atividades cotidianas ou rituais. Diversas peças foram encontradas no Xingu, o que atesta o comércio entre essas duas regiões. A civilização tapajônica era bastante complexa e caminhava para a organização de uma sociedade urbana. Contudo, a conquista não destruiu apenas essa possibilidade, mas muito daquilo que poderia representar objeto de estudos para melhor se conhecer o passado dessa civilização. 21 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br a conquista da américa - i 1. mENtalidadEs imaGiNÁrio, rEsistêNcia E rElaçõEs dE PodEr o rEal E o imaGiNÁrio. Os séculos XV e XVI são conhecidos como os séculos dos grandes descobrimentos, para os europeus. Descobrimento do litoral africano, do novo caminho marítimo para as Índias, da América e também do Brasil. Foi uma época de realizações epopéicas, como a viagem de circunavegação. Aventuras marítimas que o poeta lusitano Camões considerou como feitos maiores do que os dos mitos e heróis gregos e romanos. cessem do sábio Grego e do troiano As navegações grandes que fizeram; cale-se de alexandro e de trajano a fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre lusitano, a quem Neptuno e marte obedeceram. cesse tudo o que a musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta. Fre n 02 te Fic h 03 a De verdade, pode-se dizer que esse período, para europeus, foi o momento do descobrimento do planeta Terra. Até então, as terras e mares conhecidos dos europeus não iam muito além do próprio continente, se for considerado o tamanho total do planeta. Com as navegações, a concepção do mundo mudou. Os horizontes do conhecimento alargaram-se. “Em suas viagens, os europeus encontraram altíssimas montanhas asiáticas com os picos brancos de neve e, na própria Ásia, terras tão baixas que sempre se alagavam. Encontraram escaldantes desertos africanos, onde os homens, quase mortos de sede, sofriam miragens e somente os camelos conheciam o segredo da sobrevivência. Na mesma África, contemplaram o rio Nilo, maior rio do mundo, as cataratas, lagos e lagoas e ainda savanas habitadas por zebras, girafas, leões. Encontraram na América florestas tropicais que, de tão deslumbrantes, incendiaram a imaginação dos homens e os fizeram se de Deus e ter visões do Paraíso.” (AMADO, Janaína e GARCIA, Ledonias Franco. Navegar é Preciso: Grandes Descobrimentos Marítimos Europeus. SP, Atual, 1989) as viagens oceânicas, possibilitadas por notável avanço na arte da navegação, também alimentavam as fantasias. a gravura mostra o contraste entre o avanço científico, retratado nos instrumentos, como o astrolábio, a bússola e armas de fogo, junto a figuras imaginárias. As navegações estimularam a investigação. Novos conceitos formavam-se. O homem tornava-se mais ousado nas ciências e nas artes. Havia mais autoconfiança. Evoluíram a física, a matemática, a astronomia e os conhecimentos zoológicos e botânicos, pois conheceram animais e plantas, nas “novas terras”, totalmente desconhecidos para eles. Buscava-se compreender melhor os mecanismos do universo, e até mesmo o funcionamento do corpo humano, através da dissecação de cadáveres. Entretanto, ao contrário do que se possa imaginar, esse avanço científico não desmoronou as fantasias da época. Em certo sentido, as estimulou. A barreira que separava o real do imaginário era muito tênue. Pode-se dizer, por exemplo, que a América já era imaginada antes mesmo de ser encontrada. Outros lugares eram dados como certos de existirem. Colombo, ao chegar à América, em um dado momento, pensou ter chegado ao Paraíso terrestre, que os europeus pensavam existir. Percebe-se que ciência e crenças populares, conhecimentos técnicos e fantasias conviviam na mesma aventura. A maior segurança dos navios estimulava o desejo de encontrar países imaginários, como Offir, de onde pensavam ser a origem de todas as riquezas dos tesouros do Rei Salomão. Outro lugar fantástico era o reino do Preste João, rei cristão que governava um país onde se localizava uma fonte da juventude e que havia rios repletos de ouro, prata e pedras preciosas. A sedução por esses lugares (que levou o homem provavelmente à maior de todas as aventuras) também era recheada de medos e incertezas. A navegação pelo mar aberto significava conviver com duras realidades, como tempestades, doenças, fome e sede. O risco de naufrágio era enorme, não sendo poucas as embarcações vitimadas. Ao lado desses perigos reais acreditava-se haver outros perigos. Monstros marinhos, imãs que atraíam navios para o fundo do oceano, abismos enormes onde os navios despencariam caso chegassem ao fim da terra eram outros componentes desse universo. O fascínio convivia com o medo. Percebe-se que o pensar da época certamente difere do de hoje. Não que o ser humano hoje seja incapaz de ter fantasias ou imaginar seres extraordinários. Mas no sentido de que as explicações para a quase totalidade desses fenômenos, reais ou imaginários, àquela época, eram tidos como expressão da vontade divina. É preciso entender que a época dos descobrimentos tem seus signos próprios, ou seja, os referenciais de uma época de profunda transformação, onde o imaginário medieval se funde à uma realidade completamente nova, nos vários aspectos da vida europeia. “o mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram sem casar Para que fosses nosso, ó mar! Fernando Pessoa, mar Português. 22 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 2. rEPrEsENtaçõEs simBólicas Os encontros entre os europeus e as sociedades indígenas que ocupavam o território hoje chamado Brasil têm como principais fontes de informações os relatos escritos pelos europeus, pois os indígenas não conheciam a escrita. Muitas vezes, e quase sempre, o olhar sobre o Novo Mundo era acompanhado de referências próprias do mundo europeu, com base em suas próprias lendas e histórias bem conhecidas.. Era como se esse encontro fosse corroborar, ou tornar verdadeiras, visões idealizadas por eles, como é o caso da crença na existência de um Paraíso Terrestre ou mesmo do Eldorado. Desse modo, aquilo que é real, o povo indígena, a praia, a mata, os animais, etc., acabam também gerando novas visões idealizadas, ou reforçando as antigas. Como se a nova terra, lugar de paz e delícias, de cenários magníficos e inocência, pudesse ser ou, pelo menos, abrigar o lugar onde viveram Adão e Eva. Tal visão vinha sendo alimentada desde que Colombo chegou às terras americanas. Entretanto, parece que entre os portugueses, a reprodução desse imaginário expressava-se com “os pés no chão”. Ou seja, o sonho era alimentado junto à possibilidade de ter deparado com uma terra de grande potencial econômico e, quem sabe, de encontrar riquezas materiais, como metais preciosos. Isso pode-se confirmar na própria Carta de Caminha, a “Certidão de Idade do Brasil”, que, mesmo enaltecendo a beleza natural do lugar, não deixa de vislumbrar as possibilidades de riquezas. “Nella até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma cousa de metal, nem de ferro lho vimos; pero a terra em si é de muitos bons ares assi frios e temperados como os d’antre Doiro e Minho (...) as águas são muito infindas e em tal maneira é greciosa que querendo a aproveitar dar-se-á n’ella tudo por bem das águas que tem; pero o melhor fruito que n’ella se pode fazer me parece que será salvar essa gente; e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ella deve lançar;(...)” (in aBrEu, J. capistrano de. capítulos de História colonial. são Paulo, Editora da usP, 1988) De certa forma, esse pequeno trecho é revelador dos objetivos da expansão marítima portuguesa. O conselho de Caminha ao rei D. Manuel mostra o comprometimento do empreendimento comercial com a expansão do cristianismo. O discurso religioso foi uma das bases da dominação colonial. Além disso, os reinos ibéricos eram comprometidos com o papado, sem falar que a religião servia de sustentação para a hierarquia social e para o poder político na Europa. A outra preocupação expressa era com a existência de ouro e prata. Afinal, naquela época, acreditava-se que o país mais rico seria aquele que possuísse a maior quantidade de metais preciosos. Mas, além dos metais, as navegações lusitanas buscavam outras riquezas materiais: especiarias e artigos de luxo do Oriente. Daí, nos primeiros anos após o contato com a “nova terra” não foi desenvolvido um projeto planejado e estruturado de exploração, como seria a colonização, mais tarde, ainda no século XVI. As informações dessa época, sobre a terra, os índios, a natureza e tudo o mais, existem através de relatos de homens como Pero de Magalhães Gandavo, funcionário da Coroa, Gabriel Soares de Souza, senhor de engenho e de índios escravizados, ou de Ambrósio Soares Brandão, judeu convertido que possuía um engenho na Paraíba. Outros importantes relatos são feitos por jesuítas e outros religiosos, dos quais, os mais importantes são de Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. Mas não só de portugueses obtêm-se informações. Importantes descrições são feitas por franceses, como Jean de Léry, que com muita frequência andavam por essas bandas, comercializando com indígenas. 3. civilização E BarBÁriE Na Idade Média, grande parte da população espalhada pelos feudos não sabia ler nem escrever. As pinturas, os desenhos e as imagens eram muito importantes, ordenavam o mundo para aqueles que não conheciam o latim e comunicavam-se em idioma vulgar. As imagens, assim como as culturas, eram hierarquizadas, valorizando sempre a cultura europeia em oposição a outras tidas como exóticas. A maior ou menor capacidade de um povo em incorporar a doutrina cristã poderia indicar o grau de barbárie: civilizados eram os europeus. Bárbaros eram todos aqueles que tinham costumes criticados pelos cristãos. (...). Nos séculos XIII e XIV o espaço envolvia uma dimensão mítica e não matemática. Se eu comprava uma porcelana com um desenho muito estranho para mim, supunha que aquele objeto vinha de muito longe. Se eu descrevesse um reino cujo soberano andasse nu, ostentasse jóias e dispusesse de centenas de mulheres, também suporia distância e dificuldade de acesso a esse lugar. Portanto, a distância não resultava de uma medida matemática, mas da diferença dos costumes, costumes chamados de exóticos. Logo, figuras - e não números - indicavam a localização de países e oceanos. Para o homem contemporâneo, acostumado a manipular a matemática, é fácil imaginar a distância entre os continentes ou cidades. Se falarmos de Nova York, de Paris ou Maringá, no Estado do Paraná, imediatamente imaginamos o mapa-múndi, e olhando para ele podemos ter ideia das distâncias. Na Idade Média era muito difícil calcular o lugar de uma cidade em relação a outra ou a distância exata entre dois pontos. Nos desenhos de antes do descobrimento da América, observamos uma dificuldade em se adequar as distâncias às proporções. Não se conhecia as regras da perspectiva. Marco Polo, por exemplo, avançou muito na cartografia quando observou que o mar-oceano era um só e banhava todos os continentes. Assim como a matemática, a cartografia era trabalho de especialistas. O renascimento do comércio, o crescimento das cidades e, em especial os descobrimentos marítimos, alteraram profundamente a concepção da natureza e do homem. Buscava- Ilustração segundo descrições do na-se compreender o universo através da experiência vegador Walter Ralegh. Seres fantásticos habitavam lugares distantes. E longe é o que é estranho. Janice theodoro 23 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br a conquista da o iNdíGENa Na visão do EuroPEu américa - ii Fre n 02 te Fic h 04 a Quando a frota de Cabral chegou à costa da Bahia, os marinheiros avistaram homens que gesticulavam da praia. Deste episódio, Pero Vaz de Caminha fez o seguinte registro sobre os indígenas: “eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas”. Essas foram as primeiras impressões registradas por ele sobre os habitantes de uma terra, para eles, desconhecida. O escrivão iria ainda se admirar da aparência bela e formosa daquela gente “de bons rostos e bons narizes, bem feitos”. Os primeiros contatos foram de receio de parte a parte, mas logo tornaram-se amistosos, envolvendo troca de presentes. Os portugueses desconheciam a cultura e o modo de viver dos nativos, daí concluírem em um primeiro momento que não tinham religião e que desconheciam a agricultura. Achavam que seu estado civilizatório era inferior aos dos povos africanos: “eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária , que acostumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame (mandioca), que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam”. Entretanto, apesar de Caminha achar que os índios não trabalhassem, concluiu que viviam em meio à abundância. Frutos saborosos e em quantidade inestimáveis, peixes, caranguejos, ostras, lagostas, camarões e outros mariscos impressionavam pela fartura. O clima ameno também era muito agradável aos europeus. A afirmação de Caminha de que a “terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados” foi reforçada por outros cronistas e navegadores. Pero Lopes de Souza, que veio em 1530 com seu irmão Martim Afonso, escreveu que “a terra é a mais formosa e aprazível que eu jamais cuidei de ver: não havia homem que se fartasse de olhar os campos e a sua formosura”. Continua dizendo que os que estavam com ele, homens que já tinham ido à Índia, estavam “espantados da formosura desta terra, e andávamos todos pasmados que não lembrávamos de tornar”. Não EXistE PEcado ao sul do EQuador Vê-se que as referências sobre os habitantes e a terra são visões idealizadas, quase a descrição de um paraíso. A nudez dos índios completava essa visão paradisíaca. Natureza exuberante e habitantes que transitavam naturalmente sem cobrir “suas vergonhas” faziam um elo inevitável com o Paraíso de Adão e Eva, de uma época da inocência que desconhecia o pecado, antes do fruto proibido, é claro. Se a terra parecia desprovida de pecados, o mesmo não se pode dizer da cabeça dos portugueses. Observe como Caminha fala com entusiasmo da genitália das nativas, mais propriamente de “três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos mui pretos e compridos pelas espáduas e suas vergonhas tão altas e cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tinham nenhuma vergonha”. De outra diz que “era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera envergonhar, por não terem a sua como ela”. Portugueses e europeus em geral pertenciam a uma civilização em que cobrir todo o corpo com roupas pesadas não era somente proteção contra o frio, mas regra moral e mesmo religiosa. Em uma sociedade profundamente cristã, as roupas também eram consideradas, de acordo com o Gênesis, como resultado do pecado Alegoria mostrando o navegador Américo Vespúcio (1451-1512) “desde Adão e Eva, que os levou a terem vergonha da própria pertar” a América, representada por uma índia tupinambá, de seu nudez, fazendo os seres humanos desenvolverem o hábi- “sono”.(Gravura de Theodore Galle, 1589) to de cobrir seus corpos. Para os europeus, os indígenas andavam nus sem nenhuma sensação de culpa. Os hábitos sexuais eram mais liberais e praticados com naturalidade. E isso era visto como um sinal de inocência, como se aqueles homens e mulheres pertencessem a uma parte da humanidade que não teria caído em tentação. A liberdade sexual entre as mulheres solteiras era absoluta. Muitas índias iam à busca de homens brancos até mesmo nos barcos, onde se entregavam com naturalidade. Américo Vespúcio disse que as mulheres indígenas eram “bem feitas, sólidas, carnudas, seios duros ...”, e que “elas inventam artifícios que tornam o ato do amor mais excitante”. O piloto, entretanto, não descreveu que artifícios eram esses. Essa liberdade sem culpas ou constrangimentos levou, temporariamente, à concepção de que não havia pecado ao sul do Equador. 24 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br sem Fé, nem lei, nem rei Observe, e isso é muito importante, que as impressões que os portugueses tinham não eram apenas idealizações. Pero Vaz de Caminha, por exemplo, apesar do pouco tempo que esteve por aqui, pode perceber certas singularidades da sociedade indígena. E as observou com algum espanto. No dia 24 de abril, por exemplo, dois índios foram levados a bordo. O capitão Pedro Álvares Cabral ficou sentado em sua cadeira, bem vestido, com colar de ouro, tendo outras pessoas a seus pés, em clara demonstração de autoridade. Ocorre que os dois nativos não deram nenhuma atenção especial ao capitão. Ou seja, eles não reconheceram ali a figura de um chefe, apesar de todo o ornamento, no capitão Cabral. Caminha muito estranhou a situação, afinal, vivia em uma sociedade hierarquizada, onde a posição de cada um era definida, e que se reconhecia cada vez mais o papel do Rei à frente de um poder central. Outros que por aqui estiveram também ficaram desconcertados ante a realidade indígena. Américo Vespúcio concluiu que eles não tinham economia, pois “não há entre eles comércio nem comerciantes”; nem política (“não têm Rei”); não têm religião nem justiça, pois não possuem “templos nem leis”. O historiador Luiz Koshiba diz que a visão dos europeus “revela, antes de qualquer coisa, uma profunda incompreensão dos europeus em relação às sociedades indígenas. Ao contrário do que diz Vespúcio, elas tinham, sim, uma ordem, mas completamente diferente daquela que se conhecia nas sociedades européias do período”. Essa incompreensão fica bem clara nas palavras de Pero Magalhães de Gândavo que, assim como outros cronistas, afirmou que na língua tupi não havia o som das letras F, L e R, daí haver concluído que os indígenas não tinham fé, nem lei, nem rei. Observe o que o cronista Gabriel Soares de Souza escreveu a respeito. “Ainda que os tupinambás se dividam em bandos, e se inimizaram uns com os outros, todos falam uma língua que é quase geral pela costa do Brasil, e todos têm uns costumes em seu modo de viver e gentilidades; os quais não adoram nenhuma coisa, nem têm nenhum conhecimento da verdade, nem sabem mais que há morrer e viver; e qualquer coisa que lhes digam, se lhes mete na cabeça, e são mais bárbaros que quantas criaturas Deus criou. Têm muita graça quando falam, mormente as mulheres; são mui compendiosas na forma da linguagem, e muito copiosos no seu orar; mas faltam-lhe três letras das do ABC, que são F, L, R grande ou dobrado, coisa muito para se notar; porque, se não têm F é porque não têm fé em nenhuma coisa que adorem; nem os nascidos entre os cristãos e doutrinados pelos padres da Companhia têm fé em Deus Nosso Senhor, nem têm verdade, nem lealdade a nenhuma pessoa que lhes faça bem. E se não têm L na sua pronunciação é porque não têm lei alguma que guardar, nem preceitos para se governarem, e cada um faz lei a seu modo, e ao som da sua vontade; sem haver entre eles leis com que se governem, nem têm leis uns com os outros. E se não têm esta letra R na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja, e a quem obedeçam, nem obedecem a ninguém, nem ao pai o filho, nem o filho ao pai, e cada um vive ao som da sua vontade; para dizerem Francisco dizem Pancico, para dizerem Lourenço dizem Rorenço, para dizerem Rodrigo dizem Rodigo; e por este modo pronunciam todos os vocábulos em que entram essas três letras.” Essa realidade deixava os portugueses algo atordoados. É que eles viviam em um mundo onde os Estados estavam organizados, havia códigos de leis nacionais, regras religiosas e padrões de comportamentos morais que funcionavam, para eles, como sinal de civilidade. Daí muitos considerarem os índios como incapazes ou atrasados. Por outro lado, os portugueses notaram que entre os indígenas não havia propriedade privada da terra e nem brigas por riquezas. O Estado também não existia. Os portugueses viam nessa espécie de vácuo político uma grande dificuldade de selar acordos, pois estavam habituados a que tratados, pactos e outros entendimentos entre povos fossem feitos pelos seus respectivos governos. E entre os índios não havia esse tipo de autoridade que os portugueses conheciam. índios e demônios O imaginário presente no Velho Mundo era povoado de santos, anjos, arcanjos, serafins e querubins. Mas, também, de seres disformes, bestas, bruxas, feiticeiras e demônios. Todos esses seres faziam parte da própria interpretação que o homem europeu tinha do mundo. Anjos e demônios eram referências para a compreensão do mundo que os cercava. Com a descoberta de novas terras -o Novo Mundo, são essas referências, em grande parte, que servem de parâmetro para definir e interpretar as terras recém descobertas. Daí que a “nova terra” podia ser idealizada como um lugar edênico, identificado como um lugar de beleza e inocência. Mas também podia ser concebido como um purgatório ou ligado ao próprio demônio. Em sua História do Brasil, escrita em 1627, Frei Vicente de Salvador chegou a ligar nome da terra a essa influência diabólica. Observe e trecho abaixo. “O dia em que o capitão-mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz, que no capítulo atrás dissemos, era 3 de maio, quando se celebra a invenção da Santa Cruz, em que Cristo Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pôs nome à terra, que havia descoberta, de Santa Cruz, e por este nome foi conhecida muitos anos: porém como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio, que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha nos desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome, e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado, de cor abrasada e vermelha, com que tingem panos (...)” Antes mesmo, Gabriel Soares de Souza, no seu Tratado Descritivo do Brasil, de 1587, já comparava a aparência dos nativos dom o demônio. “(...)há alguns que têm nas faces dois e três buracos, em que metem pedras, com pontas para fora; e há alguns que têm todos estes buracos, que com as pedras neles, parecem os demônios; (...). É lógico que tudo isso ajudava a construir esse imaginário na Europa Há muitas outras associações dos indígenas com práticas demoníacas. Os hábitos e costumes, como a antropofagia, a pajelança, a poligamia e a sexualidade podiam ser ligados ao universo demonizado. A iconografia ao lado dá uma idéia disso. Além de fantasiosa em relação à antropofagia, apresenta uma cena escatológica, em que um índio está urinando. É possível que essa demonização do Novo Mundo e seus habitantes tenha sido reforçada com a resistência indígena à colonização. Ou melhor, com os problemas advindos com a colonização portuguesa, como por exemplo, a submissão dos nativos à escravidão. A reação indígena podia ser interpretada como uma reação ao próprio cristianismo. Não se deve esquecer que quem trouxe a idéia de Diabo para o Novo Mundo foram os próprios cristãos. Entre os índios não havia essa entidade; não fazia parte de suas crenças. A crença na sua existência foi introduzida por aqui junto com a crença em Deus. 25 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br o comércio com as íNdias Era muito lucrativo 26 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br os PrimEiros tEmPos dE Brasil. Nos primeiros trinta anos, após o “descobrimento” do Brasil, a Coroa portuguesa não desenvolveu nenhum planejamento ou ação de aproveitamento sistemático da “nova” terra. O comércio com as Índias era muito lucrativo e as perspectivas em relação às terras americanas não eram das melhores, pelo menos de forma imediata, pois metais preciosos e especiarias não foram encontrados por aqui. Porém, a enorme quantidade de pau-brasil, árvore já conhecida dos europeus, não poderia escapar aos olhos lusitanos. E mesmo que o seu comércio não tivesse as mesmas perspectivas dos imensos lucros dos negócios com as Índias, as possibilidades de ganhos eram bastante animadoras. O mapa reproduzido está arquivado na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, Portugal. A Coroa portuguesa declarou o monopólio do comércio da madeira. E arrendou o direito de explorá-la, por três anos, renováveis, a um grupo de comerciantes, liderados pelo cristão novo Fernão de Loronha (ou Noronha). A partir daí, feitorias foram estabelecidas no litoral. Elas eram as bases para a extração do pau-brasil. A obtenção da madeira dava-se com a mão-de-obra indígena, através do escambo. Em troca do trabalho de corte e carregamento das toras, os índios recebiam tecidos, espelhos, tesouras, facas, machados e outros objetos de pouco valor relativo para os europeus, mas muito valorizados pelos indígenas. É possível que esse escambo tenha levado a um progresso produtivo nessas aldeias nativas. Além de portugueses, espanhóis e franceses passaram a frequentar o território, que a Coroa portuguesa considerava como sua possessão legítima. As negociações com os espanhóis foram facilitadas pelo Tratado de Tordesilhas. O próprio governo espanhol não concordava com a presença de seus súditos no território que, pelo acordo entre os dois países, pertencia a Portugal. Com os franceses as relações foram mais difíceis, pelo fato deles não reconhecerem o direito de espanhóis e portugueses dividirem o mundo entre eles. Em outras palavras, os franceses não reconheciam a validade do Tratado de Tordesilhas e, consequentemente, ignoravam os direitos portugueses sobre o território brasileiro. A presença de franceses no território, comercializando com os índios, era intensa. Firmaram até várias alianças ao longo do litoral. Essa ameaça à posse portuguesa foi determinante para que a Coroa portuguesa decidisse pela colonização da terra. 27 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br Economia e sociedade açucarEira Estado E caPital Privado - as caPitaNias A iniciativa de colonizar o Brasil era do Estado luso, e isso é fato. E as informações passadas por Martim Afonso de Souza ao rei D. João III muito contribuíram para a decisão de colonizar o Brasil por meio de donatarias, modelo já experimentado com sucesso nas ilhas do Atlântico africano. Daí, a terra foi dividida em imensas faixas no sentido litoral-sertão, formando as capitanias. O usufruto delas seria doado, em caráter hereditário, a particulares, notadamente membros da pequena nobreza, que deveriam explorar a terra com recursos próprios. Em troca, esses capitães-donatários receberiam Fre n 02 te Fic h 05 a uma série de direitos e privilégios, como a jurisdição civil e criminal ou o direito de doar sesmarias a pessoas que fossem católicas. Os lotes doados eram legítima propriedade de quem os recebia. Porém, de acordo com as Ordenações Manuelinas, a terra deveria ser aproveitada num prazo máximo de cinco anos. A definição das relações jurídicas entre sesmeiros, donatários e o Estado era regida por dois documentos: a Carta de Doação e o Foral. Se o sistema de donatarias nas ilhas do Atlântico mostrou-se satisfatório, sua aplicação no Brasil não teve resultados muito animadores. Houve donatários que nem chegaram a vir para o Brasil. Alguns depararam com tantas dificuldades que acabaram por desistir da tarefa de explorar a capitania. Outros morreram tentando. A escassez de recursos financeiros e humanos, as dificuldades com o meio geográfico, os frequentes conflitos com indígenas e a extensão territorial gigantesca são outras das razões para que esse sistema não tenha tido êxito esperado. Entretanto, pode-se dizer que pelo menos duas capitanias cumpriram a missão colonizadora a contento: São Vicente e Pernambuco. o PÚBlico E o Privado O sistema de donatarias implantado na colônia reproduziu, em certo sentido, relações típicas presentes na Metrópole. É que lá o Estado centralizado português confundia-se com a pessoa do Rei. O Monarca possuía um imenso patrimônio em terras e bens. Suas propriedades eram mais vastas que as da Igreja. Esse imenso patrimônio particular (esfera privada) acabava por se confundir com o patrimônio do Estado (esfera pública). Algumas vezes, o Rei pagava os funcionários do Estado com recursos extraídos de suas propriedades. Outras despesas pessoais da família real eram financiadas com dinheiro público. Na Colônia, o sistema de donatarias também inaugurou essa mistura entre o público e o privado. Atribuições do Estado e do capitão donatário, por vezes, eram as mesmas, sendo que este exercia as funções daquele. Ora, pelas atribuições conferidas aos donatários, eram eles que deveriam exercer o poder público. Ao ter direito de governo sobre a capitania, acabavam exercendo o Poder Executivo. Além disso, cabia a ele a aplicação da jurisdição civil e criminal. Entretanto, o donatário, apesar de receber o usufruto da terra, não a propriedade, utilizava a capitania como seu domínio particular. Duarte Coelho, por exemplo, da Capitania de Pernambuco, recusou submeter-se à autoridade de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil. Ou seja, impediu a ação do poder público naquilo que pertencia ao Estado, mas que era tratado como coisa privada. tomé dE souza vs. duartE coElHo “(...) ‘Ora, pois, Senhor, que eu cá por minha parte trabalho e faço tanto o que devo’, escrevia o donatário, ‘que é hora de aumentar as liberdades e privilégios e não para os diminuir’. Por muito tempo D. João III cedeu aos apelos de Duarte Coelho, chegando a interditar a Tomé de Souza as visitas a Pernambuco, apesar do que determinava seu próprio documento. De seu lado, o governador-geral valia-se das ordens reais para reafirmar seus poderes nas terras brasileiras: ‘O capitão Duarte Coelho, sobre quem largamente tenho escrito a Vossa Alteza, é mais do que todos aqui merecedor de muita honra e mercê de Vossa Alteza, mas não deixar ir Vossa Alteza às suas Terras parece-me grande desserviço de Deus, de Vossa consciência e danificação de Vossas rendas...’. “ (in Brasil 500 Anos. Ed. Abril) Alguns consideram que é o sistema de donatarias e sesmarias que dá início à tradição brasileira de concentração de grandes extensões de terras nas mãos de poucas pessoas, originando outra característica que permeou quase toda a história do país: o mandonismo local. Isso porque, na colônia, a imensa autoridade dos grandes proprietários de terras acabava fazendo o papel que deveria ser do poder público. MANDONISMO: Expressão usada para referir o “poder de mando” exercido pelos grandes senhores de terras nas suas regiões de influência, praticamente substituindo as autoridades governamentais ausentes ou distantes. Um dos efeitos dessa prática foi a tendência ao enfraquecimento dos limites entre as esferas pública e privada da vida social. (TEIXEI- o Estado Na colÔNia: o GovErNo GEral. Como se sabe, a divisão do Brasil em capitanias hereditárias não apresentou os resultados esperados. A maioria das vilas fundadas não fazia mais do que subsistir, além de não garantir a segurança do litoral. O Brasil continuava vulnerável num momento em que a produção de cana-de-açúcar apresentava-se com grandes possibilidades e os negócios com as Índias geravam lucros cada vez menores devido à concorrência internacional. Nesse contexto, o rei D. João III, visando melhor coordenar o empreendimento colonizador, decidiu criar, através do Regimento de 1548, o Governo-Geral, no Brasil, estabelecendo a centralização administrativa na Colônia. Assim, a Coroa pretendia redobrar os esforços contra a ameaça externa, bem como reafirmar a soberania da Metrópole sobre a Colônia. É no período dos três primeiros governadores (Tomé de Souza, Duarte da Costa e Mem de Sá) que a montagem do sistema colonial foi consolidada. Através do Regimento de 1548, as funções do governador foram definidas. Ele deveria avaliar e auxiliar o desenvolvimento das capitanias, estimulando a instalação de novos engenhos; promover a fundação de vilas e controlar as relações com os indígenas, castigando aqueles considerados hostis; deveriam ainda incentivar a catequese e evitar a escravidão dos nativos. RA, Francisco M. P. Brasil: História e Sociedade. São Paulo, Ática, 2000). 28 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br “A criação do governo-geral tinha, como se vê, uma clara intenção de centralização política, administrativa e jurídica da colônia. O governador não só dispunha de autoridade superior à dos donatários como estava investido de maiores atribuições: cobrança dos impostos devidos à Coroa; instalação dos serviços judiciários; fiscalização dos governos das capitanias e das vilas; fiscalização dos atos dos eclesiásticos e indicação dos vigários das paróquias; planejamento e organização das atividades militares.” (tEiXEira, Francisco m. P. op. cit.) Percebe-se, então, que o governo-geral seria o elemento centralizador da administração colonial, condição essencial para a afirmação da autoridade da Metrópole. A decisão de ampliar a atuação do Estado no Brasil vincula-se também à conjuntura internacional. Além da já mencionada queda de preços dos produtos orientais, deve-se considerar que os espanhóis intensificaram a exploração de ouro na América, ocupando novas áreas. Em 1545, encontraram as ricas minas de prata em Potosi, na Bolívia. Sem dúvida que isso era uma forte razão de estímulo à Coroa na sua decisão de, através do governo-geral, aumentar sua presença na colônia. o açÚcar O açúcar alcançara altos preços na Idade Média, quando era considerado uma rara especiaria e usado até como produto medicinal. Aos poucos, tornou-se gênero de primeira necessidade. Os portugueses dominavam as técnicas de produção desde o século XV, quando iniciaram a plantação de cana-de-açúcar nas suas ilhas do Atlântico. O açúcar ali produzido era distribuído na Europa primeiramente por genoveses e venezianos, posteriormente por holandeses. Com o conhecimento técnico necessário e a disposição de terras em abundância no Brasil, dificilmente a escolha dos colonos poderia ser outra que não o açúcar. Até então, as práticas dos países europeus no comércio internacional era de apanhar produtos em um lugar e levá-lo a outro aonde deveria ser vendido. É o caso do comércio com as Índias. Mesmo quando encontravam uma terra que não conheciam, a prática não era muito diferente. Comercializava-se o produto encontrado na terra “descoberta” a exemplo do pau-brasil, encontrado em grande quantidade por aqui. lariFÚNdoios E outras ProPriEdadEs Durante muito tempo, a ocupação das terras brasileiras foi compreendida como fruto de um grande projeto colonizador da Coroa portuguesa. Esse projeto teria resultado na implantação do modelo conhecido como “plantation”, que se baseava na grande propriedade monocultora, onde se cultivava um produto destinado ao mercado externo, com base no trabalho escravo. Hoje essa afirmação vem sendo bastante criticada por vários historiadores, que consideram que os interesses dos próprios colonos determinaram o caráter monocultor e escravocrata da colonização, já que não queriam ser meros camponeses no Brasil. E foram eles que decidiram concentrar seus esforços no plantio de cana-de-açúcar. Ao contrário, a Coroa chegou a tentar obrigá-los a destinar uma parte de suas terras para a produção de gêneros alimentícios, e que nem sempre obtinha sucesso. Mas, atenção. Mesmo que se considere que existia um modelo que interessava ao Estado português (latifúndio, monocultura, escravidão e exportação), deve se levar em consideração que entre os interesses da Coroa e a realidade da colonização, vai uma distância enorme. E que a colonização apresentou nuances mais diversificadas. Observe, já se viu que a obtenção de terras deveria ser feita através das sesmarias, que consistia em um pedaço de terra que o interessado solicitava ao donatário da capitania. O sesmeiro deveria ser homem de “cabedal” (recursos), mas não deveria receber uma propriedade maior do que pudesse cultivar. Além disso, havia um prazo para que se cultivasse a terra, sob pena de perdê-la. Ocorre que a prática foi diferente daquilo que estava na legislação. Houve sesmeiros que aproveitaram apenas um pequeno pedaço da terra, deixando a maior parte abandonada. Outros nem chegaram a produzir, mas nem por isso perderam a posse de suas terras. Outro exemplo é que, às vezes, o aproveitamento da terra antecedia a posse legal. Como se vê, as formas de obtenção de terras eram variadas, fugindo da ineficaz fiscalização portuguesa. A verdade é que a apropriação da terra foi, e continua sendo, bastante comum no Brasil. Nos séculos XVI e XVII, a extensão do território, a falta de fiscalização, em suma, as condições próprias da realidade colonial, facilitavam o acesso à terra, de forma legal ou não. Em geral, as melhores terras (aquelas favorecidas pela localização, fertilidade, proximidade de portos, etc.) ficavam nas mãos dos que tinham mais recursos. Era nelas que, em geral, iriam surgir os grandes engenhos de açúcar. Essa grande propriedade convivia com outras menores, de variados tamanhos. muitas das quais não tendo condição de montar uma casa-de-engenho, ou seja, a estrutura de moagem da cana e fabrico do açúcar, levavam sua produção para ser moída nos engenhos maiores: era a “cana obrigada”. Havia ainda aqueles que se instalavam nas propriedades como arrendatários de um senhor de engenho. Tanto no caso de produtores livres, como de arrendatários, deveriam deixar para o grande proprietário uma parte de sua LEGENDA: Grande propriedade açucareira. Mas a produção de cana-de-açúcar não era feita apenas em latifúndios, mas produção (em geral 1/4 e 1/3 respectivamente), pela moagem da cana. Deve-se mencionar, ainda, a existência de propriedades destinadas ao o latifúndio não foi, como já se disse, a única forma de ocupação nem de produção açucareira. cultivo do tabaco, especialmente na Bahia, além de pequenas propriedades voltadas à produção de alimentos e abastecimento de centros urbanos, como Rio de Janeiro e Salvador. Aplicações no Caderno de Exercícios 29 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br revolução 1. iNtrodução iNGlEsa Fre n 03 te Fic h 01 a Durante o século XVI, a vida política na Inglaterra girou em torno do fortalecimento da autoridade real. Já o século XVII foi sacudido por conflitos entre a monarquia e o parlamento que chegaram a levar o país ao recurso extremo de duas revoluções. As revoluções inglesas do século XVII representaram um marco na vida européia. Pela primeira vez na história do continente, a burguesia, aliada à pequena nobreza, assumiu o poder e lançou as bases para a consolidação de uma nova ordem, que se expressou pela hegemonia do parlamentarismo. Essa transformação exigiu uma série de rupturas. Os muitos conflitos do período podem ser divididos em dois momentos. O primeiro teve inicio com a Revolução Puritana, em 1640, e conduziu à execução do rei Carlos l e ao governo republicano de Cromwell. O segundo, em 1689, conhecido como Revolução Gloriosa, completou o processo político liderado pela burguesia (Mota 2002) 2. traBalHaNdo tEXtos a magna carta e o absolutismo "de Fato" Desde 1215, no reinado de João sem Terra, que o poder do rei esta limitado legalmente por um documento chamado Magna Carta. O parlamento tinha poder para conter o Rei em suas ações(...). Sendo assim não podemos igualar esta modalidade de absolutismo com o que ocorreu na França, pois lá não havia barreira jurídica que limitasse o poder o do rei, não havia uma Carta Magna, não havia obstáculos legais ao exercício do poder real. Se houve poder absoluto nas mãos do Rei Inglês temos de ter o cuidado de identificá-lo históriograficamente(...). Nesse sentido a dinastia Tudor exerceu o poder "de fato" não "de direito", o que em nem um momento a história nega. (...) (OLIVEIRA, Leão F. A invenção do poder: A história do absolutismo. Rio de Janeiro: vozes, 2001. Desde os tempos medievais, o Parlamento tinha o poder nominal na Inglaterra e nenhum rei poderia lançar impostos sem sua aprovação. Mas Elizabeth l era absolutista de fato. Lançava os impostos e fazia sua política sem consultar o Parlamento, confiando em que tudo seria aprovado. Seu absolutismo era consentido, pois a grande burguesia e a nobreza, que dominavam o parlamento, eram favorecidos por sua política. A final, a dinastia Tudor havia feito a Reforma protestante na Inglaterra e os nobres e os grandes burgueses arremataram e enriqueceram-se com as terras expropriadas da Igreja Católica. Elizabeth l vendia ou doava monopólios, isto é, o direito exclusivo de fabricar ou vender determinado produto sem concorrentes. Os principais beneficiários desses monopólios eram grandes burgueses, que compravam titulos de nobreza, e os nobres favoritos da soberana, que viviam em sua corte. As mediadas de Elizabeth eram recompensadas com a lealdade dos súditos, inclusive os pobres. (Micele. 1999) 3. traBalHaNdo tEXtos “[...] O Parlamento representava as classes proprietárias: apenas os homens que tivessem alguma propriedade tinha direito de voto, e nenhuma mulher, obviamente. As pessoas comuns não participavam diretamente na eleição dos membros do parlamento e menos ainda das decisões políticas. [...].” (HILL, Christopher. Vivendo o mundo de ponta-cabeça: o outro lado da revolução A morte de Elizabeth l, em 1603, criou um grave problema sucessório, pois a rainha não deixou herdeiros diretos. O trono inglês passou a seu primo, Jaime Stuart, que já era rei da Escócia. O sucessor de Elizabeth não recebeu dos ingleses muito apoio político e social. Ele era defensor da teoria do direito divino dos reis. A relação do monarca com seus súditos agravou-se por volta de 1610, quando Jaime l tentou fugir ao controle financeiro do Parlamento e impôs medidas como o monopólio real sobre as indústrias de tecidos. No mesmo período ocorreram, na Inglaterra, fortes movimentos migratórios em direção à América do Norte: muitos partiam para escapar da tirania da Coroa. Com a morte de Jaime l, subiu ao trono Carlos l (1625-1649), que acentuou as tendências absolutistas do pai. Dissolveu duas vezes o Parlamento, que se mostrara hostil a seu governo, impôs taxas extraordinárias para financiar sua política externa, intensificou a repressão contra puritanos. Por falar em puritanos, não devemos esquecer que nesse contexto existe também questão religiosa, pois de certa forma havia um mosaico de religiões nesse processo, que dentre as quais destacam-se: ♦ aNGlicaNos: Facção dominante, formada pela alta nobreza e por setores ligados ao rei. De certa forma apoiavam o regime absolutista. ♦ católicos: em pequeno número na Inglaterra, mas muito numerosos na Irlanda. Seus adeptos sofriam constante perseguições. ♦ calviNistas: grupo religioso majoritário entre a população inglesa. Estavam divididos em diversas correntes, das quais as mais representativas eram: ♦ PrEsBitEriaNos: Alta burguesia e latifundiários. Moderados, propunham uma política de conciliação com os anglicanos. ♦ PuritaNos: Média e pequena burguesia. Radicais, defendiam o liberalismo político, opondo-se ao absolutismo real. inglesa. Belo Horizonte, Varia História, n° 14, setembro de 1995) 30 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br As tensões que foram se acumulando no país resultaram em uma guerra civil (1642) entre os partidários da monarquia e os do parlamento. Ao lado do rei se enfileiraram a Igreja Anglicana e a nobreza rural. Com os parlamentares, que constituíam um exército próprio, estavam os moradores de Londres, das cidades litorâneas e os pequenos proprietários das regiões agrícolas mais desenvolvidas. As diferenças de classe, de origem social, expressavam-se nas diferenças políticas e religiosas e as reforçavam continuamente. Os lordes praticavam a religião anglicana. Os partidários dos comuns eram em geral presbiterianos e puritanos. Eles deram ao parlamento uma arma poderosa: o Exército de Novo Tipo. 4. traBalHaNdo tEXtos No exército de Novo Tipo, os oficiais eram voluntários e deviam suas promoções ao valor pessoal. Até mesmo partidários do parlamento se escandalizaram com a promoção de "plebeus" aos cargos de oficiais. Mas os construtores da organização sabiam que, com aqueles homens humildes, unidos pela religião, submetidos a uma rígida disciplina e forjados em combate, derrotariam os “cavaleiros”-o termo com que eram desdenhosamente designadas as tropas reais. Como observou Oliver Cromwell, organizador e líder do Exército de Novo Tipo: “Prefiro um capitão trajado de panos grosseiros, mas que sabe pelo que está lutando, àqueles a quem chamais de gentis-homens e que disso não passam. Honro um cavaleiro que se comporta como tal. [...] Se escolherdes homens honestos e de bem para capitais de cavalaria, os homens honestos os seguirão. [...]” (HILL, Christopher. O eleito de Deus; Oliver CromweeI e a Revolução Inglesa. São Paulo, Companhia das Letras, 1990) Essa nova formação militar mostrou-se decisiva para a derrota das tropas reais. As fileiras do Exército de Novo Tipo forneciam uma amostra representativa da parcela da população que apoiava a Câmara dos Comuns: os soldados eram em sua maioria pequeno-burguês, artesãos, proprietários rurais ou filhos de proprietários, seguidores das seitas puritanas e de outros grupos hostis à Igreja Anglicana. Tornaram-se como Roundhenads (cabeça redondas) devido ao austero corte de cabelo que usavam, característico dos puritanos. Outro traço distintivo do Exército de Novo Tipo residia na liberdade de organização e discussão, o que fez desse grupamento armado uma sementeira de idéias políticas. Nessas discussões, manifestavam-se grupos mais radicais que os puritanos, a exemplo dos Diggers e dos Levellers, que associavam diretamente a reforma religiosa e a luta política à revolução social. Os Levellers receberam esse nome porque, segundo seus adversários, pretendiam nivelar (do verbo To Levei) as condições sociais. Defendiam a população pobre das cidades e do campo e exigiam completa liberdade religiosa e a igualdade de todos perante a lei. Os Diggers (do verbo inglês to dig, cavar) opunhamse à propriedade particular do solo e exigiam que as terras da Coroa, os terrenos comunais e ociosos fossem cultivados pelos pobres, que deles teriam a posse comunitária. Ficariam assim conhecidos quando se instalaram num terreno não aproveitado e se puseram a preparar a terra para a semeadura, numa espécie de reforma agrária feita espontaneamente, em direta oposição aos poderes da sociedade e do Estado. Eram esses, basicamente, os atores envolvidos no confronto entre o rei e o Parlamento e depois, num segundo momento da Revolução Inglesa, no conflito instaurado entre a Assembléia e os grupos de soldados puritanos unidos em torno de Oliver Cromwell. 5. traBalHaNdo tEXtos Os Diggers e o MST: Um anacronismo controlado e necessário Segundo o historiador Christopher Hill, "o movimento dos Diggers [...] representou ao máximo os interesses dos que não possuíam bens. Constituiu numa tentativa de proceder por meio de ação direta a uma forma de comunismo agrário [...]." As concepções dos Diggers não são coisas do passado. A luta pela terra esta presente e vive em grupos como o MST. A luta do MST remonta o passado. Percebe-se por tanto uma relação embora anacrônica, mas necessária, entre os Diggers e os Sem terra no Brasil. Ambos os grupos vêem na revolução a maneira de conquistar seu grande objetivo, a terra. Vejamos o que diz o dirigente do MST João Pedro Stedile: "A reforma agrária interessa a toda a classe trabalhadora e deixou de ser apenas uma questão econômica para resolver o problema dos sem-terra que estão passando fome. Ela passou a adquirir um caráter revolucionário. [...] Então eu acho que nós devemos ter a consciência de preparar a classe trabalhadora sabendo que essas mudanças, que são necessárias, não serão dadas de mão beijada, nem na base de voto, nem de uma maneira simplista e fácil, devagarinho[...]” Logicamente devemos perceber as distancias ideológicas entre os movimentos, porém perceber a aproximação na forma de luta e de necessidade. Os anseios não mudaram, a sede por justiça social continua, a disposição de armar as mãos também. Dos Diggers ao MST, a luta pela terra continua. (COSTA, Anderson, História para o Dia-a-Dia.) Bibliografia: arruda, Jobson Andrade J. A revolução Inglesa.ed. Brasiliense. São Paulo. 1984. Hill, Christopher. O eleito de Deus; Oliver CromweeI e a Revolução Inglesa. São Paulo, Companhia das Letras, 1990. Vivendo o mundo de ponta-cabeça: o outro lado da revolução inglesa. Belo Horizonte, Varia História, n" 14, setembro de 1995. micElE, Paulo, As revoluções Burguesas. Ed. Atual São Paulo. 1994. mota, Myriam B. História das cavernas ao Terceiro milênio. Ed. Moderna. São Paulo. 2002. olivEira, Leão F. A invenção do poder: A história do absolutismo. Rio de Janeiro: vozes, 2001. 31 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 6. a crisE da moNarQuia iNGlEsa Na Inglaterra, por volta de 1640, a monarquia dos Stuart era incapaz de continuar governando de maneira tradicional. Sua política externa era deploravelmente fraca, em parte pela falta de dinheiro; as medidas econômicas, às quais foi obrigado a recorrer, alienaram tanto seus aliados potencias como seus inimigos. [...] Por volta de 1640, porém, as forças que acompanharam o capitalismo ou foram liberadas pela sua ascensão, especialmente na agricultura, não podiam mais ser contidas no velho quadro político a não ser por meio de repressão violenta, de que o governo de Carlos I se mostrou incapaz. Entre as “forças sociais que acompanharam a ascensão do capitalismo” devemos incluir não apenas o individualismo daqueles que queriam obter dinheiro, fazendo o que podiam com seus meios, como também o individualismo dos que quiseram seguir suas próprias consciências adorando a Deus, o que os levou a desafiar as instituições de uma sociedade hierarquicamente estratificada. Pressões e tensões similares produziram conflitos análogos em outros paises europeus, e estavam ligadas, sem dúvida, tanto ao crescimento da população quanto a ascensão do capitalismo. O resultado na Inglaterra foi diferente, todavia, do de todos os demais paises da Europa, com exceção dos paises baixos. Na Espanha, França e outros lugares, a monarquia absoluta sobreviveu à crise dos meados do século. Na Inglaterra, esta crise pôs fim às aspirações da monarquia de edificar um absoluto baseado num exército regular e numa burocracia. (Christopher Hill. ‘Uma revolução burguesa?’, Revista Brasileira de História, n° 7 . São Paulo, Editora Marco Zero/ Associação Nacional dos professores Universitários de História, março de 1984, p.10) 7. a GuErra civil: vitória dos PuritaNos O exercito parlamentar, comandado por Oliver Cromwell, venceu as tropas do rei, na Batalha de Naseby (1645). Carlos I se refugiou na Escócia, mas o parlamento escocês o entregou ao parlamento inglês por uma soma em dinheiro. O rei foi então decapitado em janeiro de 1649. Alguns meses depois, a Câmara dos Comuns aboliu a Câmara dos Lordes e proclamou a República sob a liderança de Cromwell. A supressão da Câmara dos lordes contribuiu para eliminação das estruturas feudais que entravavam o pleno desenvolvimento do capitalismo mercantil. Foi criado um Conselho de Estado, composto de 41 membros, mas o poder de fato estava nas mãos de Cromwell. Este apoiado pelo exército puritano, que sufocou rebeliões na Irlanda (1649), contribuindo para aumentar o prestigio do líder puritano. No plano externo, a medida mais importante da República de Cromwell foi a promulgação dos Atos deNavegação (1651), pelos quais ficou estabelecido que todas as mercadorias importadas deveriam vir para a Inglaterra em navios ingleses ou em barcos de países de origem. Esses decretos não só estimularam o desenvolvimento econômico, mas também reforçaram a defesa nacional. No plano interno, Cromwell reprimiu com violência a ação dos Digges e outros, que reivindicavam medidas democráticas, como o sufrágio universal e reforma agrária. Ao lado disso, dissolveu o Parlamento em 1653 e proclamouse Lorde Protetor da Inglaterra, impondo uma ditadura pessoal apoiada no exército que durou até 1658, ano de sua morte. Richard, seu filho e sucessor, não conseguiu manter a República unida e renunciou ao cargo em favor dos chefes militares. 8. traBalHaNdo tEXtos texto i “[...] antes éramos governados por um rei, lordes e comuns, agora o somos por um general, uma corte marcial e a câmara dos comuns; e peço que me digais onde está a diferença! [...].” texto ii (Panfleto Leveller. In: HILL, Christopher. O mundo de ponta-Cabeça. S. Paulo, Companhia das letras, 1991). oliver cromwell: quem era? Oliver Cromwell nasceu em 25 de abril de 1599 em Huntingdon, na Inglaterra. Foi criado no meio Calvinista puritano, o que lhe conferiu um profundo conhecimento da Bíblia. Eleito membro do parlamento em 1628, distinguiu-se pela defesa do puritanismo e por ataques à hierarquia da igreja Anglicana. Em 1640, foi eleito novamente para o parlamento, como representante de Cambridge, e uniu-se aos radicais, parlamentares que atacavam duramente a política do rei Carlos I. Quando, em 1642, começou a guerra civil, Cromwell tornou-se conhecido pelo extraordinário senso de organização e comando, graças à criação do Exército de Novo Tipo. Em 1649 proclamou a República (Commonwealth) e em 1653 assumiu o título de Lorde Protetor. Ficou à frente do governo até sua morte, em 1658. (MOTA, Myrian B, História das Cavernas ao Terceiro Milênio. S.Paulo. Moderna 2002) texto iii cromWEEl: de revolucionário à ditador No governo de Cromwell é inegável o crescimento econômico da Inglaterra, seu fortalecimento político também foi notório. Os atos de Navegação, a unidade política e as grandes conquistas foram mérito do Governo Cromwell. Porém tudo isso teve um preço relativamente alto, a começar pela decepção geral da arraia miúda, que via neste líder uma esperança de um mundo melhor. Enquanto revolucionário Cromwell defendia o parlamento, mas no poder expurga-o. Antes de chegar ao poder, era visto como um republicano moderado, que defendia a tolerância religiosa, porém ao se tornar senhor da Inglaterra implantou uma ditadura puritana. O homem que ganhou a confiança de grupos como os Digges e monta um exército chamado de Novo Tipo, agora liquida os que pedem democracia. A revolução Puritana trouxe em sua bagagem uma ditadura de um homem que pelo uso da força subjuga não só Ingleses, mas também escoceses e Irlandeses. Se suas medidas foram necessárias ou se o poder mudou seus pensamentos, a história ainda não deu a completa resposta, pois este não é o único caso em que revolucionários se tornam ditadores. O povo e a história vê isto ainda hoje. (costa, anderson. a História para o dia-a-dia). 32 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 9. a rEstauração da moNarQuia dos stuart: carlos ii E JaimE ii Houve na Inglaterra, logo após o fracassado e rápido governo do filho de Cromwell, uma disputa de generais. Monk, um deles, encontrou uma solução para a crise política, que foi apoiada por todo o país: em 1660, Carlos II, filho de Carlos I, assumiu o trono inglês. Carlos II (1660-1685) era adepto do Absolutismo. Suas atitudes eram recebidas com desconfiança pelo Parlamento= e pela população. As relações amistosas com Luís XIV, rei da França, aumentavam ainda mais a desconfiança. O Parlamento pressionava cada vez mais o rei, aprovando novos impostos sempre em troca de autonomia. Além disso, Carlos II era simpático ao catolicismo, seu irmão, futuro rei, já havia publicamente convertido a esta religião. Esse fato acirrava ainda mais as divergências entre o Parlamento e o monarca. Com a morte de Carlos II e a ascensão de seu irmão Jaime, os problemas continuaram. A burguesia inglesa temia uma rebelião armada, como aquela que conhecera anteriormente. Esperava-se que o rei morresse e deixasse o trono para uma de suas filhas protestantes. Mas o rei teve um filho homem, o que garantia a sucessão católica ao trono inglês. Execução de carlos i 10. a rEvolução Gloriosa Temerosa do absolutismo de Jaime II e da rebelião popular, a Inglaterra encontrou como solução entrar em acordo com Guilherme de Orange, da Holanda, casado com a filha protestante de Jaime II. O plano consistia em destituir Jaime II substituindo-o por Guilherme. Guilherme de Orange desembarcou na Inglaterra, com seu exército, em 1688. Jaime II tentou resistir, mas os soldados passaram para o lado de Guilherme. Ao velho rei absolutista só restou fugir para a França. Guilherme de Orange e sua mulher foram reconhecidos como soberanos da Inglaterra pelo Parlamento, que, temendo um novo absolutismo, promulgou um segundo Bill of Rights em 1689. A partir daí, passou a prevalecer, na Inglaterra, o principio de que o “rei reina, mas quem governa é o parlamento”. O governo ficava sob autoridade do Parlamento, que, a cada ano, limitava ainda mais o poder real. A Revolução Gloriosa foi inspirada nas teorias de John Locke, o grande teórico do liberalismo político que vigorou na Europa e na América a partir do século XIX. (GRUPPI. 1990) Guilherme de orange, futuro Guilherme III, ao lado da esposa Maria Regina, filha de Jaime ii. 11. traBalHaNdo tEXtos John locke e a revolução inglesa A produção intelectual de John Locke está diretamente ligada aos acontecimentos da Inglaterra do final do século XVII. Filho de um puritano que lutara ao lado de Cromwell, ele escreveu a maioria de suas obras no contexto da discussão política em torno da Revolução Gloriosa. Aperfeiçoada por Montesquieu, sua doutrina política foi incorporada na constituição dos Estados Unidos. Locke se opunha à visão de Hobbes, de que o estado de natureza seria o estado de guerra, com destruição mútua dos homens. Para Locke seria o estado de liberdade, com os homens vivendo juntos segundo a razão, sem uma autoridade para julgá-los. O governo seria um remédio contra os males gerados pelo fato de, em estado de natureza, cada homem ser juiz em causa própria e atacar as propriedades de outrem. Esse Estado, no entanto, teria de cumprir um contrato com a sociedade, zelar pelo bem público, defender a propriedade, caso contrario os homens teriam direito a uma rebelião. O poder do governo jamais se estenderia além do bem comum. Se o governo tentasse ser absoluto e violasse os direitos naturais dos indivíduos, perderia a fidelidade dos súditos. Nesse caso, poderia ser legitimamente derrubado. A comunidade teria o direito de pegar em armas contra o soberano para assegurar um contrato justo e proteger a propriedade privada. (CAMPOS, Flávio. Oficina de História. S. Paulo. Moderna). John locke 33 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br o iluminismo e o século das luzEs Fre n 03 te Fic h 02 a 1. o coNtEXto Histórico Em QuE surGiu o ilumiNismo O pensamento ocidental, antes tão marcado pelo misticismo religioso, conheceu a partir do século XVIII uma nova possibilidade de construção sustentada no Racionalismo. O mundo físico e seus fenômenos deixavam de ser justificados pela religião e passavam a ser explicados pela razão. O Iluminismo foi acima de tudo uma revolução cultural porque propôs uma nova forma de entender a natureza e a sociedade e significou uma transformação profunda na forma de pensar, pois rompeu com a maneira como as pessoas pensavam antes. Vale salientar que apenas uma parcela da população europeia teve contato com as novas idéias e descobertas científicas. A grande maioria da população continuou a pensar o mundo a partir do que ensinavam as teses religiosas. Voltaire e O Iluminismo também é chamado Movimento das Luzes, Filosofia das LuRousseau zes ou Ilustração. O século XVIII é denominado Século das Luzes. Desde o século XVI, a Europa vivia um processo de múltiplas transformações. As grandes navegações, a Reforma Religiosa, a formação do Estado Nacional e a expansão do comércio foram aos poucos desintegrando o que havia restado da velha ordem feudal. No século XVIII, o mundo preparava-se para viver o tempo do capital e da burguesia. Nesse período houve uma grande expansão demográfica na Europa e um melhor aproveitamento da riqueza produzida pelo comércio. Os capitalistas investiam em avanços tecnológicos que, por sua vez, permitiam acumular riquezas cada vez maiores. Foi nesse contexto de consolidação do universo burguês que as idéias iluministas se estruturaram. As novas formas de vida e as conquistas humanas da Época Moderna não se articulavam com a rigidez das antigas estruturas de poder político e econômico e, também, do pensamento religioso que dominava a vida intelectual. As conquistas técnicas abriam possibilidades de avanços em vários campos, com os quais antes não se ousava sonhar. Mas o universo intelectual dominado pelos pressupostos da religião católica condenava o interesse científico, logo apontado como heresia pelo clero, que temía perder seus privilégios econômicos, políticos e sociais. 2. ilumiNismo O movimento das Luzes realizou uma ampla crítica à forma do poder vigente (Absolutismo) e propôs um novo entendimento da vida social. Dessa forma, a atuação dos iluministas ultrapassou o campo científico, e o Racionalismo foi aplicado à análise social em aspectos como o das relações sociais, da relação entre o governante e os governados, da relação do rei com o Estado e o da religião. O pensamento iluminista, ao mesmo tempo em que refletia o panorama histórico do século XVIII, sedimentava o processo político-revolucionário que teria início no final daquele mesmo século. As principais formulações do pensamento político do Iluminismo foram: ● CRÍTICA AO ABSOLUTISMO. Não era propriamente uma crítica à monarquia e sim aos abusos cometidos pelos reis absolutos. ● CRÍTICA À TESE DO DIREITO DIVINO DOS REIS. Por entender que a sociedade e a história são construções humanas, os iluministas não aceitavam a ideia de que o poder real pudesse ser um atributo divino. ● CRÍTICA À PARTICIPAÇÃO DA IGREJA NA VIDA PÚBLICA. No conjunto das ideias iluministas havia a presença constante da defesa da laicização da vida política e social, ou seja, para os iluministas a religião não deveria interferir na sociedade e na política. ● DEFESA DO CONTRATO COMO MEDIADOR DAS RELAÇÕES SOCIAIS. Uma das obras mais conhecidas daquele período denomina-se do contrato social. Escrito por Rosseau, o texto apresenta a idéia — que depois se tornou universal — de que as relações sociais devem ser definidas por um contrato, um acordo aceito pelas duas partes, e não mais pelo sistema de privilégios do Antigo Regime (termo que se usa para designar a sociedade estamental da Época Moderna, caracterizada pelo Absolutismo e pelo Mercantilismo). Os termos dos contratos sociais devem ser estipulados pela lei, o que tornou necessária a existência de uma Constituição. Os pressupostos das Luzes estiveram presentes em inúmeras revoluções ocorridas a partir da segunda metade do século XVIII. Essas ideias varreram quase o mundo todo, levando as pessoas a se organizarem para derrubar a sociedade de privilégios que marcou o Estado moderno. Nas colônias americanas, o ideário iluminista estimulou as lutas de independência. No Brasil, as Conjurações Mineira (1789) e Baiana (1798) foram fortemente influenciadas pelo Iluminismo. 34 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br tEXto i a Fé do ilumiNista 0s iluministas combateram 35 religiões, sobretudo porque estas faziam uso de mistificações para convencer os fiéis. Mas, por outro lado, não pregavam o ateísmo; pregavam, sim, uma nova forma de relacionamento com a divindade, como podemos observar neste texto de Voltaire. "O deísta é um homem firmemente persuadido da existência dum ser supremo tão bom como poderoso, que formou todos os seres extensos, vegetantes, sensíveis e reflexivos; que perpetua a sua espécie, que pune sem crueldade os crimes e recompensa com bondade as ações virtuosas. O deísta não sabe como Deus pune, como favorece, como perdoa; pois não é tão temerário que se gabe de conhecer como Deus atua; mas sabe que Deus atua e que é Justo. As dificuldades contra a Providência não abalam a sua fé, porque são somente grandes dificuldades, e não provas... Reunido neste princípio com o resto do universo, não abraça nenhuma das seitas, que todas elas se contradizem. A sua religião é a mais antiga e a mais extensa; pois a simples adoração dum Deus precedeu todos os sistemas do mundo... Crê que a religião não consiste nem nas opiniões duma metafísica ininteligível, nem em vãos aparatos ou solenidades, mas na adoração e na justiça... O maometano grita-lhe: 'Tem cuidado, se não fazes a peregrinação a Meca!' 'Desgraçado de ti, diz-lhe um franciscano, se não fazes uma viagem a Nossa Senhora do Loreto!' Ele ri-se de Loreto e da Meca; mas socorre o indigente e defende o oprimido. "Voltaire (François-Marie Arouet), 1694-1778. Dicionário filosófico", s. v. "Théiste". In: Gustavo de Freitas (org.). 900 textos e documentos de História, v. 3, p. 11. tEXto ii roussEau a NaturEza Jean Jacques Rousseau (1712- 1778), escritor e filósofo francês, nascido em Genebra, nunca escondeu seu profundo amor pela natureza. Especialmente pelas flores e pelas plantas em geral. Pode-se dizer que todo o movimento ecológico moderno provém das conclusões que ele chegou há mais de dois séculos atrás. Ninguém como ele, entre os pensadores e homens de letras daquela época das Luzes, manifestou tamanha satisfação e prazer em manter-se tão próximo às belas coisas da natureza. Já adulto, Emílio, o personagem de Rousseau, ouve preleção sobre a natureza: religião natural. Ilustração: acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil. sENtimENto E NaturEza “Nesse estado, um instinto que me é natural, fazendo-me fugir de toda idéia entristecedora... me fez, pela primeira vez, ver em seus detalhes, o espetáculo da natureza, que até então só contemplara como uma massa e em seu conjunto” J.J.Rousseau – Devaneios de um caminhante solitário – 7ª caminhada, 1777 De um certo modo, pode-se considerar a posição de Rousseau, enaltecendo e celebrando a Natureza, como uma reação ao pensamento cartesiano. Um século antes dele, Descartes havia proclamado a emergência de uma filosofia que fosse útil aos homens, que deixasse de ser apenas um exercício especulativo para ajudar eficazmente a humanidade a dominar a Natureza. Contra tal visão utilitarista, de fazer da razão um instrumento de posse e senhorio sobre o mundo que nos cerca, Rousseau propôs uma abordagem sentimental da Natureza. Entendeu-a não como uma possível serva do homem – obediente à razão instrumental mas como a sua companheira na caminhada da vida. Também aceita-se a posição dele, de paixão e destemor a Natureza, como resultante de uma certa confiança que o Iluminismo havia dado aos homens do século XVIII, ocasião em que perdeu-se o medo reverencial que havia pelos fenômenos destrutivos, desencadeado pelas fúrias naturais (raios, trovões, enchentes, estiagens, etc...). A começar pelo invento do pára-raios, obra de Benjamin Franklin, ampliou-se enormemente o controle ou a previsão sobre as hecatombes naturais, espantando assim, aos poucos, o pavor que os homens e as mulheres sentiam frente ao que lhes parecia ser sobrenatural, entendidos como fazendo parte dos “ Mistérios de Deus”. Logo, se a Natureza não era mais a adversária do Homem, se ela não lhe obrigava mais a tremer, a rezar e a rogar por perdão, porque não torná-la uma sócia, uma amiga? voltairE scHilliNG(Ensaísta do Portal terra). 35 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br independência das 1. iNdEPENdêNcia das trEzE colÔNias independência trEzE colÔNias Fre n 03 te Fic h 03 a O antagonismo básico entre a metrópole e as colônias americanas foi a contradição de interesses entre a burguesia inglesa e a burguesia colonial, na medida em que o capitalismo inglês, em processo de crescimento, impedia o livre desenvolvimento das forças produtivas coloniais, impulsionado pelo nascente capitalismo das colônias da Nova Inglaterra. Entretanto, deve-se apontar que, em virtude da frente ampla que se formou, envolvendo a aliança entre as forças burguesas e democráticas, e os proprietários escravistas do Sul, a Revolução Americana sofreu evidentes limitações, uma vez que foi mantida a escravidão, somente suprimida cerca de 80 anos depois, no momento da Guerra de Secessão (1861-1865). A intransigência real apressou a mobilização da resistência anticoloiüalista. Intensificou-se a campanha política em favor da independência, devido sobretudo ao trabalho dos comités e dos lideres populares. Os legalistas ou tones eram perseguidos como traidores. Ao mesmo tempo, os patriotas ou whigs armazenavam armas e munições, preparando-se para o inevitável conflito armado. A Guerra da Independência teve inicio com os ataques ingleses a Lexington e Concord, em 1775. Embora vitoriosas, as tropas inglesas do General Thomas Gage sofreram consideráveis perdas humanas, devido à resistência organizada da população. Nesse mesmo ano, reuniu-se o Segundo Congresso Continental de Filadélfia, presidido por John Hancock e contando com a presença de destacados líderes, como Samuel Adams, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e outros. Apesar da situação de "guerra aberta", ainda havia muitos elementos vacilantes, que não aceitavam a idéia de uma separação completa da Inglaterra. Na verdade, embora declaradas em ”estado de rebelião” pelo Rei George III, as colônias ainda faziam parte do Império Britânico. Para alguns, o Rei estaria acima dos conflitos, sendo a política colonial opressiva obra dos ministros e do Parlamento... A estreiteza da visão política de alguns setores coloniais não lhes permitia enxergar nada além dos seus limitados interesses imediatos. Mesmo assim, o Segundo Congresso Continental conseguiu aprovar uma Declaração das Causas e Necessidades de Pegar em Armas e nomear George Washington, grande proprietário rural, como comandante-em-chefe das tropas norte-americanas. Estamos ante a alternativa de nos submeter a uma incondicional tirania de ministérios irritados ou resistir pela força (...) A última é nossa eleita (...) Temos avaliado o custo desta contenda, porém não encontram os nada mais horroroso do que uma escravidão voluntária(...)" (das causas e Necessidades de Pegar em armas, de John dickinson e thomas Jefferson, 1775.moralEs PadróN, F., op. cit.. tomo vi, p. 10 e 11) A obra mais importante do Segundo Congresso de Filadélfia foi, porém, a Declaração de Independência, aprovada em 4 de julho de 1776. Redigido em sua maior parte por Thomas Jefferson, esse documento formalizava a Independência e tomava possível aos norte-americanos pedir e receber auxílio estrangeiro. Seu significado político é, porém, mais amplo e profundo renunciava uma filosofia de liberdade (individual), que teve influência marcante não só na constituição da federação norte-americana, mas também nos movimentos emancipacionistas das áreas de dominação francesa, espanhola e portuguesa na América. A guinada que permitiu ao movimento de resistência colonial passar à ofensiva decorreu de vários fatores: • A inflexibilidade do governo inglês em promover qualquer conciliação com os revoltosos; • O trabalho desenvolvido pelas forças democráticas, através da propaganda (como, por exemplo, a publicação do Senso Comum, de Thomas Paine) e da formação de governos extralegais nas colônias; • A situação internacional que opunha a França, a Espanha e a Holanda Inglaterra, devido à posição hegemônica desta como potência colonial e comercial. A verdadeira essência da filosofia política da Declaração é a idéia - democrática - da soberania popular. Inspirada em John Locke (Segundo Tratado de Governo), James Harrington e em outros filósofos dos séculos XVII e XVII, a Declaração de Independência assimilou-lhes os conceitos e os ampliou, tomando-se uma síntese dos ideias liberais e democráticas da época e no entanto, profundamente original. “Consiste em três idéias básicas: (l) o ser humano - essencialmente igual em atributos, necessidades, obrigações e desejos - tem o direito básico à Vida, à liberdade e Busca da Felicidade; (2) para a obtenção desses direitos, o homem criou os governos; (3) o governo que não respeita esses direitos é tirano; tal governo pode e, na verdade, deve ser alterado ou abolido pelo povo que, então, tem o direito e o dever de criar a forma de governo que a seu ver, pareça-lhe mais adequado a promover sua segurança e felicidade’.” (aPtHEKEr, H.. op. cif., p. 109) 36 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br todos os homens foram criados iguais e são dotados de certos direitos inalienáveis entre os quais estão a vida, a liberdade e a Busca da Felicidade. (thomas Jefferson, declaração de independência) Convém notar que, devido às pressões dos grandes proprietários mais da Carolina do Sul e da Geórgia, e de alguns comerciantes de escravos da Nova Inglaterra, o trecho da Declaração que denunciava e criticava a escravidão foi retirado do documento em sua redação final. E o mundo virou do avesso A Guerra da Independência durou cerca de seis anos. Desde 1775, verificavam-se combates entre as tropas inglesas e norte-americanas. A principio, os norte-americanos sofreram sérias derrotas. O objetivo das forças inglesas era tomar os portos e vias fluviais, cortando as comunicações entre as colônias e isolando-as. Assim aconteceu em Nova Iorque em 1776, obrigando o exército de Washington a retirarse para Filadélfia. Às vitórias dos norte-americanos sobre as tropas inglesas e de mercenários alemães em Trenton e Princeton (1777) seguiu-se a tomada de Filadélfia pelos ingleses. A primeira grande batalha ocorreu no final de 1777,em Saratoga. Avitória norte-americanadeu outro rumo à guerra, pois significou o apoio da França (1778) e da Espanha, unidas por Pactos de Família contra a Inglaterra. "A Grã-Bretanha declarou prontamente guerra à França, e a Guerra da Independência tomou-se guerra mundial. A Espanha entrou nela como aliada da França em 1779 e foi de grande utilidade para a causa americana porque transformou Nova Orleãs em base para corsários e por se haver apoderado dos postos militares ingleses na Flórida ocidental. A Holanda, nação à qual tinha valido uma fortuna considerável sua condição de principal potência marítima neutra, viu-se obrigada pela Inglaterra a entrar na guerra em 1780; e Catarina II da Rússia formou uma Liga da Neutralidade Armada que estorvou bastante as operações da esquadra inglesa contra os comerciantes neutros. Se os inimigos da Inglaterra se houvessem unido, seria impossível a resistência contra eles; mas somente a França e a América do Norte agiram de comum acordo, e ainda assim só a partir de 1780." (morisoN, s.E. e commaGEr.H.s., op. cif., tomo i, p. 214) A entrada da França na guerra ao lado dos norte.americanos foi decisiva para a vitória final A França, interessada em debilitar o poderio da Inglaterra que, desde 1763, a desalojara do continente americano, e também vislumbrando a possibilidade de conquistar mercados consumidores, colaborou com homens, armas, dinheiro e navios. Entre os oficiais franceses, destacaram-se o Marquês de Lafayette, Saint-Simon e o General Rochambeau. 37 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br revolução iNdustrial 1. o surGimENto da sociEdadE iNdustrial caPitalista Fre n 03 te Fic h 04 a Por Revolução Industrial convencionou-se designar o processo de transformações econômicas e sociais, caracterizadas pela aceleração do processo produtivo e pela consolidação da produção capitalista. Tal processo assinala, ainda, a passagem em definitivo da produção baseada em relações feudais para a produção em que o capital e o trabalho estão definitivamente separados, isto é, a produção capitalista. A introdução do sistema de fábricas e a crescente mecanização das forças produtivas iniciou-se na Inglaterra, em fins do século XVIII, espalhou-se, posteriormente, ao longo dos séculos XIX e XX para vários outros países. Marx observava que a principal transformação teria sido a substituição da ferramenta, até então empunhada pela mão humana, por mecanismos cada vez mais complexos, acionados pelo homem agora transformado em verdadeiro autômato, e capazes de realizar múltiplas tarefas. Assim, a ferramenta, acoplada a um imperialismo mecânico, dá origem a uma máquina-ferramenta, responsável pelo trabalho industrial e por um aumento da produção, cujos limites não são mais definidos pela resistência física do operário, mas da própria máquina. As características gerais do novo processo de produção introduzido pela Revolução Industrial poderiam ser apontadas da seguinte maneira: ♦ Produção realizada em grandes unidades fabris, onde predomina a mais intensa divisão do trabalho. ♦ Separação entre capital e trabalho, pois o proprietário dos meio de produção (máquinas, equipamentos, instalações, matérias-primas, etc) não é o produtor direto. Este, agora completamente expropriado de meios próprios de subsistência, necessariamente tem que vender sua força de trabalho em troca de um salário. ♦ Produção realizada para um mercado desconhecido, cuja demanda cresce na proporção em que ocorra um barateamento do custo unitário da própria mercadoria produzida. ♦ Aumento sem precedentes na produção de mercadorias. ♦ Desenvolvimento de um grupo intermediário, entre o capitalista e o operário, encarregado de gerir o capital. ♦ Concentração da produção industrial em centros urbanos, uma vez que as novas fontes de energia, necessárias ao funcionamento do maquinismo, libertaram o sistema de fábricas de fatores naturais, como o vento (energia eólica), queda de água (energia hidráulica), etc. Com o emprego da energia fornecida pela máquina a vapor e, posteriormente, a energia elétrica ou a utilização dos derivados do petróleo, as fábricas puderam concentrar-se. ♦ O surgimento de um novo tipo de trabalhador (o operário), que trabalha em conjunto no interior das grandes fábricas, realizando uma produção onde predomina a mais intensa divisão do trabalho. O sistema de fábricas, portanto, socializou a produção, muito embora tenha sido responsável pela concentração das riquezas nas mãos dos capitalistas. FasEs da rEvolução 1ª Fase (+-1760/80-1860) Principais áreas de Inglaterra, concentração indus- Bélgica, França trial material básico industrial Ferro 2ª Fase (+-1860...) Alemanha, norte da Itália, Rússia, Estados Unidos, Japão, etc. Aço, Sintéticos Eletricidade, Petróleo Petroquímicos, Siderúrgicos, Eletrônicos, Automobilísticos, etc Monopolista ou Financeiro (fusão do capital industrial com o capital bancário) Progressiva diminuição da jornada de trabalho. Regulamentação do trabalho feminino e, alguns casos, proibição do trabalho infantil. Organização dos trabalhadores em Sindicatos. Organização da Associação Internacional dos Trabalhadores com o objetivo de unificar a luta operária e o movimento proletário internacional. Principal fonte ener- Vapor gética setor industrial pre- Têxtil (algodão) dominante capitalismo Competitivo ou livre-comercial (predomínio do capitalismo industrial) Exploração em larga escala do trabalho infantil e feminino. Jornadas de trabalho de até 16, 18 horas por dia. Reação dos trabalhadores através do movimento luddita e do cartismo. condições gerais da classe operária 38 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br Em sua primeira fase, embora algumas áreas da França e da Bélgica iniciassem sua industrialização por volta de 1830, a Revolução Industrial foi um fenômeno predominantemente inglês. Logicamente que toda uma série de fatores determinou o pioneirismo da Inglaterra. Esquematicamente, poderíamos enumerar: ♦ Maior “acumulação primitiva de capital” durante a fase de transição feudalismo/capitalismo (século XV ao século XVIII). ♦ Expropriação dos trabalhadores rurais de meios próprios de subsistência, através do “cercamentos dos campos” (enclosures), e conseqüente expulsão dos camponeses. O “movimento das cercas” produziu importantes transformações, dentre os quais pode-se destacar: agricultura voltada para um mercado cada vez maior e realizada segundo critérios capitalistas; produção agrária transforma-se em verdadeira empresa capitalista, possibilitando grande quantidade de alimentos às populações urbanas em crescimento; expulsão dos camponeses e conseqüente liberação de mão-de-obra necessária ao processo de industrialização. ♦ Expansão dos mercados consumidores, tanto a nível interno (a Inglaterra ao longo do século XVII passou de uma população de cerca de 5 milhões de habitantes para mais de 14 milhões), como a nível externo (seu próprio império colonial e também as áreas recém- emancipadas até então pertencentes à Espanha e Portugal). ♦ A Revolução Inglesa do século XVII, que eliminou os entraves feudais ao avanço capitalista no campo, acelerou o processo de cercamentos, possibilitou a tomada do poder pela burguesia associada à “gentry” e favoreceu a política do “laissez-faire”. ♦ A revolução técnica que possibilitou a mecanização da produção de tecidos de algodão. Graças à máquina de fiar, desenvolvida a partir de 1760, foi possível ao operário trabalhar com, vários fios ao mesmo tempo. Dessa maneira, superou-se o descompasso até então existente entre a produção de fios de algodão, já mecanizada, e a produção de tecidos. Paralelamente, desenvolveu-se a máquina a vapor, revolucionando os recursos energéticos. Finalmente, o desenvolvimento dos meios de transportes, com o aparecimento das ferrovias. Logicamente, todas estas transformações radicais produziram uma sociedade nova e bastante diferente da existente até então. As implicações da Revolução Industrial se fizeram sentir em todos os aspectos da vida humana. Em linhas gerais, pode-se apontar as seguintes transformações: ♦ Proletarização definitiva dos produtores diretos. Com o avanço da produção mecanizada de tecidos de algodão, os tecelões manuais em pouco tempo ficaram arruinados. Afinal, o que uma máquina de tecer, isoladamente, produzia, equivalia à produção de 200 tecelões manuais juntos. ♦ Decadência da indústria doméstica rural, incapaz de concorrer com o nascente sistema fabril. ♦ Surgimento das cidades industriais, em decorrência da concentração, não apenas do processo produtivo, mas, também, de milhares de trabalhadores que vão formar o nascente proletariado. ♦ Grande expansão do comércio internacional e crescente divisão internacional do trabalho, através da incorporação das áreas periféricas (produtoras de matérias-primas e gêneros agrícolas) às economias capitalistas centrais, responsáveis pelo processo industrial. Apenas a título de exemplo, pode-se lembrar que a Inglaterra, no princípio do século XVIII importava cerca de 450 toneladas de algodão; no princípio do século XIX, esse número atingia mais de 25.000 toneladas. ♦ Revolução nos meios de transporte, com a multiplicação das redes ferroviárias e das rotas marítimas atingidas pelo navio a vapor. ♦ Mecanização da produção agrícola, acelerando o êxodo rural e determinando o aparecimento das grandes cidades industriais. Com a Revolução Industrial, pela primeira vez na história das sociedades invertia-se a proporção entre a população rural e a população urbana. Por volta de 1830, na Inglaterra, a população urbana superava a população rural. ♦ Integração do processo produtivo fabril ao desenvolvimento cientifico, à medida em que esse possibilitava um maior rendimento e produtividade da própria produção. ♦ Antagonismo entre o nascente proletariado e a burguesia proprietária dos meios de produção. Essa confrontação estará na raiz dos movimentos operários do século XIX, assunto que será estudado posteriormente. ♦ Política anexionista colocada em prática pelas potências industriais, sobretudo a partir de 1870. Este novo imperialismo europeu tinha por objetivo a incorporação de áreas coloniais e a subordinação das economias dos países periféricos ao capital. Pretendia-se a exportação de excedentes de capitais gerados pela industrialização, além da busca de matérias-primas produzidas a baixo custo, e da ampliação dos mercados consumidores. Não se tem o objetivo de esgotar a questão da Revolução Industrial, o que de resto, seria absolutamente impossível. Assim, pretendemos aprofundar o problema referente à formação da concepção capitalista de trabalho, esperando possibilitar uma visão mais crítica da sociedade capitalista a partir do estudo de suas condições de trabalho. Ao mesmo tempo pretende-se distinguir a concepção de trabalho para a classe dominante e para a classe dominada, identificando como os meios de comunicação veiculam a noção capitalista de trabalho, enquanto a legitimam. 39 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br a revolução FraNcEsa – i iNtrodução "Se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da Revolução Industrial Britânica, sua política e ideologia foram formados fundamentalmente pela Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e fabricas, o explosivo econômico que rompeu com as estruturas sócio econômicas tradicionais do mundo não europeu, mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas idéias, a ponto de bandeiras tricolores de um tipo ou de outro terem-se tornado o emblema de praticamente todas as nações emergentes, e a política europeia (ou mesmo mundial) entre 1789 e 1917 foi em grande parte a luta a favor e contra os princípios de Fre n 03 te Fic h 05 a 1789, ou os ainda mais incendiários de 1793. A França forneceu o vocabulários e os temas da política liberal e radicol-democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário de nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e cientifica e o sistema métrico para a maioria dos países. A Ideologia do mundo moderno atingiu as antigas civilizações que tinham até então resistido às idéias européias inicialmente através da influência francesa. Esta foi a obra da Revolução Francesa". HoBsBaWN, Eric 3. "a Era das revoluções (1789-1848)". SP: Paz e Terra, 2001, p.71-2. i – NoçõEs PrElimiNarEs A segunda metade do século XVIII foi um período de intensa agitação política, o Antigo Regime recebia críticas e contestações de diversas naturezas e em vários lugares, é neste contexto que eclode a Revolução Francesa, para muitos o maior e mais importante de todos os movimentos revolucionários deste período. Uma primeira pergunta a se fazer é: se a derrubada do Estado absolutista não é um privilégio dos franceses, porque seu processo revolucionário é tão representativo a ponto de que este evento seja utilizado, convencionalmente, como marca inaugural do mundo contemporâneo? Nos tópicos seguintes tentaremos encontrar uma resposta. 1.1. o aBsolutismo FraNcês Quando o assunto é Absolutismo, talvez nenhum Estado europeu seja tão representativo quanto o francês. Em qualquer trabalho sobre este tema encontraremos a monarquia deste país em destaque, da qual Luís XIV, o famoso Rei-sol, a quem se credita a frase "O Estado sou eu!", uma das mais sintéticas definições que o poder absoluto recebeu. Devemos perceber que sendo o Absolutismo francês um modelo tão importante durante os tempos do Antigo Regime, sua derrubada é igualmente modelar. O resto da Europa (excetuando a Inglaterra) que durante tanto tempo copiou os hábitos da corte francesa agora veria atônito um processo de igual admiração, desta forma, não haveria maior prenúncio de que os tempos dos reis absolutos estavam chegando ao fim do que a queda do Absolutismo francês. 1.2 – um movimENto dE massas Durante muito tempo os historiadores chamaram a revolução de 1789 de "Revolução Burguesa", ora, esta definição é no mínimo incompleta, uma vez que ao longo de sua trajetória verifica-se o envolvimento de diversos segmentos populares como camponeses e sans-culottes, que embora não tenham atendido os seus anseios políticos durante o processo, pelo menos tiveram participação decisiva em diversos momentos como poderemos confirmar mais a frente. Se observarmos outras experiências revolucionárias do período, uma Revolução Gloriosa (1688) ou uma Revolução Americana (1766), notaremos que a mobilização das massas ou inexiste ou se desenvolve a partir de uma manipulação por intermédio das camadas dirigentes. Na experiência francesa, a presença popular foi real, antecipando para muitos, uma característica revolucionaria típica dos movimentos socialistas do século XX. 1.3 – o carÁtEr EcuméNico O fenômeno revolucionário francês inaugura uma idéia importante para a história contemporânea: o evento histórico cuja influência se percebe em escala mundial. Costuma-se afirmar no meio acadêmico que "nenhum ser humano, consciente de sua condição política que estivesse vivo na última década do século XVIII pode ter passado desapercebido pelo que acontecia na França". Em outras palavras, a Revolução e principalmente, suas idéias tiveram influência sobre os mais diversos processos históricos em todo o mundo durante o fim do século XVIII e boa parte do século XIX. 40 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br ii – a FraNça Pré-rEvolucioNÁria 2.1 – a orGaNização social. A sociedade francesa estava dividida em três ordens ou estamentos, uma forma de organização típica do Antigo Regime marcada pela pouca possibilidade de mobilidade social. Façamos uma análise da composição desses estados: a) 1° Estado - Clero: Composto pelos sacerdotes da Igreja Católica, estava dividido em Alto e Baixo clero, onde os primeiros seriam os mais elevados nomes da hierarquia eclesiástica (bispos e cardeais), gozando de inúmeros privilégios, viviam de modo parasitário às custas do Estado francês. O baixo clero era constituído de indivíduos de origem menos abastada e que acabavam exercendo as funções mais simplórias do funcionamento da Igreja. B) 2° Estado - NoBrEza: O segundo Estado estava dividido em três formas de nobreza: feudal, palaciana e togada. O primeiro grupo era composto pelos proprietários de terras que utilizavam a mão-de-obra servil, o que chamamos de palacianos seriam os membros da corte de Versalhes, finalmente, os nobres togados eram aqueles que compravam os títulos de nobreza. c) 3° Estado: A imensa maioria da população estava inserida nesta camada. Composto principalmente por burgueses, camponeses e sansculottes, este Estado pode ser identificado como a base econômica da França, pois nele temos não somente os responsáveis pela mão-de-obra do país, mas também os elementos que pagavam a maioria dos impostos, impulsionados pela liderança burguesa na maior parte do tempo, é a força matriz da revolução. Nas imagens a ostentação e a luxuosidade da nobreza. 2.2 . o aBsolutismo dE luis Xvi Luís XVI (1774-1792) governava a França segundo a cartilha de seus antepassados da Dinastia Bourbon, ou seja, com características absolutistas. Devemos lembrar, contudo, que já na metade do século XVIII, Paris era varrida por panfletos que traziam idéias diluídas das obras a) as GuErras do Estado: Ao longo de seu reinado, Luís XVI envolveu a França em incontáveis guerras que de um modo geral tinham uma característica em comum, eram extremamente dispendiosas para os cofres franceses. Para compensar o prejuízo provocado pelo envolvimento nos conflitos, a coroa impunha pesadíssimos impostos que eram pagos pelos membros do 3° Estado. Cena do filme “ligações Perigosas”- Glenn close e john malkovich interpretam nobres franceses dos grandes pensadores iluministas (Rousseau, Montesquieu e Voltaire, entre outros). Os panfletos também faziam denúncias contra a política do rei. Nos tópicos a seguir, iremos analisar alguns dos principais problemas do Absolutismo de Luís XVI. que levam uma vida devassa na corte às vésperas da revolução. B) os Gastos com a cortE: Já dissemos anteriormente que a nobreza palaciana vivia luxuosamente em Versalhes fazendo corte ao rei e à sua família. As altas despesas com vestuários, banquetes e bailes eram pagas pelos cofres públicos, situação que já passava do limite da tolerância para a maioria da população. 2.3 – a crisE EcoNómica Na segunda metade do século XVIII, a França ainda era um país fundamentalmente agrário, com a maioria da população concentrada nas áreas rurais, onde as características feudais ainda eram percebidas com grande força, estando boa parte dos camponeses ainda submetidos às obrigações servis. Nos centros urbanos, elementos da ordem capitalista já estavam em desenvolvimento, embora a produção ainda não fosse mecanizada, os burgueses eram a principal força econômica do país controle do comércio. Já comentamos no item anterior a desastrosa conduta de Luís XVI à frente das finanças do Estado francês em que a pesada tributação acabava recaindo sobre o terceiro estado. Tudo isso seria agravado por um tratado comercial com a Inglaterra (Eden- Rayneval) em que os tecidos britânicos entrariam no país mediante baixíssima alfândega em troca da entrada do vinho local sobre as mesmas condições na Grâ-Bretanha. Devemos entender que os franceses saíram no prejuízo. A produção angla era mecanizada e, deste modo, uma enxurrada de tecidos estrangeiros invadiu o pais dos Bourbons, colaborando para o fechamento de inúmeras oficinas de tecidos e, conseqüentemente, a falência de diversos burgueses e o desemprego em massa para as camadas médias urbanas. Aplicações no Caderno de Exercícios 41 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br a História do Brasil a GuErra do ParaGuai Fre n 04 te Fic h 01 a Na imagem acima, a Batalha do Riachuelo segundo o artista Victor Meirelles. 1 - maldita GuErra "A Guerra do Paraguai foi fruto das contradições platinas, tendo como razão última a consolidação dos Estados nacionais na região. Essas contradições se cristalizaram em torno da Guerra Civil uruguaia, iniciada com o apoio do governo argentino aos sublevados, na qual o Brasil interveio e o Paraguai também. Contudo, isso não significa que o conflito fosse a única saída para o difícil quadro regional. A guerra era umas das opções possíveis, que acabou por se concretizar, uma vez que interessava a todos os Estados envolvidos. Seus governantes, tendo por bases informações parciais ou falsas do contexto platino e do inimigo em potencial, anteviram um conflito rápido, no qual seus objetivos seriam alcançados com o menor custo possível. Aqui não há ‘bandidos’ ou ‘mocinhos’, como quer o revisionismo infantil, mas sim interesses. A guerra era vista por diferentes ópticas: para Solano López era a oportunidade de colocar seu país como potência regional e ter acesso ao mar pelo porto de Montevidéu, graças a aliança com os blancos uruguaios e os federalistas argentinos, representados por Urquiza; para Bartolomeu Mitre era a forma de consolidar o Estado centralizado argentino, eliminando os apoios externos aos federalistas, proporcionando pelos blancos e por Solano López; para os blancos, o apoio militar paraguaio contra argentinos e brasileiros viabilizaria impedir que seus dois vizinhos continuassem a intervir no Uruguai; para o Império, a guerra contra o Paraguai não era esperada, nem desejada, mas, iniciada, pensou-se que a vitória brasileira seria rápida e poria fim ao litígio fronteiriço entre os dois países e às ameaças à livre navegação, e permitira depor Solano López. Soldados paraguaios mortos durante o conflito Dos erros de análise dos homens de Estado envolvidos nesses acontecimentos, o que maior conseqüência teve foi o de Solano López, pois seu país viu-se arrasado materialmente no final da guerra. E, recorde-se, foi ele o agressor, ao ini- Soldados brasileiros ajoelham-se ante a estátua de Nossa Senhora da Conceição durante uma procissão em 30 de maio de 1868. ciar a guerra contra o Brasil e, em seguida, com a Argentina." DORATIOTO, Francisco, Maldita Guerra, Companhia das Letras, 2002 42 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 2 - o siGNiFicado da “GuErra do ParaGuai” Na História do Brasil “Joaquim Nabuco foi o primeiro a chamar a atenção para o significado mais profundo que teve, no transcurso da História, o fenômeno da Guerra da Tríplice Aliança. Ele disse que a Guerra do Paraguai foi ao mesmo tempo o apogeu do Império e o seu declínio. Os estudiosos da política do século passado no Brasil também insistem em que a Questão Militar surge logo depois da Guerra do Paraguai e vai se aprofundando até a República. Qual a razão disso? A sociedade escravista, uma sociedade em que a escravidão atinge uma expansão que ultrapassa o plano de uma simples instituição social — como era o caso do Império brasileiro e da sociedade do Sul dos Estados Unidos —, é incompatível com a existência de um Exército moderno, de forças armadas modernas. No limite, essa incompatibilidade inviabiliza o próprio Estado. Na clássica definição de Max Weber, o Estado é o monopólio da violência legítima. Ora, numa sociedade escravista, o Estado não pode ter o monopólio da violência legítima, porque a sociedade organiza-se sobre a violência privada dos senhores contra seus escravos. Por isso, na Independência do Brasil, ao se constituir um Estado soberano e ao se manter a escravidão, passou-se a viver um verdadeiro dilema. A manutenção da escravidão era uma das condições para a preservação da unidade nacional. Mas mantê-la significava inviabilizar o Estado, porque com escravidão não se constrói o monopólio da violência legítima. Sabe-se que a Guarda Nacional foi criada durante a Regência exatamente porque o Estado não confiava na tropa. Dessa maneira, a sociedade escravista bloqueia os fundamentos do Exército moderno, das modernas forças armadas. Esses fundamentos são basicamente dois: a universalidade do recrutamento e a hierarquia do oficialato baseada no mérito. Uma sociedade escravista como a brasileira bloqueia o recrutamento de pelo menos metade da população, os escravos. Por sua vez, os que possuíam escravos e, portanto, detinham uma parcela da violência legítima não queriam ingressar nas forças armadas, que tiveram de ser recrutadas nas camadas intermediárias da sociedade. Por outro lado, a hierarquia do Exército define-se pelo mérito. Mas, no Império brasileiro, ela definia-se pela própria estratificação da sociedade. A Guerra do Paraguai exigiu a constituição de um Exército. Na realidade, o Brasil não estava preparado para uma guerra, pois não dispunha de força armada moderna. Como o Paraguai tinha essa força armada constituída e moderna, tornou-se necessário que o Brasil montasse, pela primeira vez, um Exército moderno, Exército que vai para o Paraguai e faz a guerra. Não se monta impunemente, contudo, uma força armada moderna. Depois de tê-la formado, não se pode mais descartá-la. O que fazer com ela? A partir daí é que se instaura a Questão Militar, que iria progressivamente se aprofundando. E, como não se pode desmontar a força armada, acaba-se por desmontar a própria Monarquia. Isso significa dizer que, para eliminar sua incompatibilidade visceral, a sociedade irá adequar-se à força armada moderna, e não a força armada moderna à sociedade. Este é o fundamento da Questão Militar. Costumo dizer que a Independência foi uma revolução conservadora no Brasil. A expressão pode parecer paradoxal, mas é a mais apropriada. E uma revolução, porque uma colônia transforma-se em Estado soberano. Mas é conservadora porque, com a vinda da Corte portuguesa, esse fenômeno absolutamente extraordinário da História do Brasil, essa peculiaridade única da nossa História — a Colônia colonizando a Metrópole —, a iniciativa da Metrópole tinha ido tão longe que ultrapassou o ideário do senhoriato brasileiro, um senhoriato que estava realmente inventando uma nação. [...] como foi possível que, tendo uma estrutura incompatível com a existência de um Exército moderno, o Império brasileiro tenha se envolvido em uma guerra que exigia a montagem de modernas forças armadas? Essa questão relaciona-se com a forma pela qual o Brasil emerge como nação. Não foi um erro de visão dos estadistas do Império do Brasil envolverem o país na Guerra do Paraguai. A Guerra realmente comprometia a estrutura política e social do Império, porque criava um Exército moderno incompatível com o escravismo. Mas, se a Guerra não foi um erro, ela foi uma necessidade. O eixo da vida política brasileira no século XIX girava em tomo dessa contradição. Nesse sentido, pode-se dizer que a grande vantagem que tivemos com a Guerra do Paraguai não foi vencer a Guerra, mas participar dela, porque ela expôs as contradições, tornou pública e trouxe à tona a questão central da política brasileira da época, questão que se resolveu com a República, ou que, pelo menos, começou a se resolver a partir da República”. Fernando Novais, “O significado da Guerra do Paraguai na História do Brasil” Maria Eduarda C. Magalhães Marques (org.), A Guerra do Paraguai 130 anos depois, p. 79-81. Conde d´Eu em revista a tropas brasileiras em campo aberto,1869 Vista do mercado de Lambaré, situado no lado esquerdo da fortaleza de Humaitá (após sua conquista pelos aliados), 1868. Note-se a bandeira do Império do Brasil do lado direito. 43 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br aBolicioNismo um crimE E um luXo disPENdioso Myriam Becho Mota & Patrícia Ramos Braick No bojo das transformações que estavam ocorrendo no Brasil imperial, uma questão desencadeou discussões intermináveis e apaixonadas em toda a sociedade: a abolição da escravatura. A discussão para saber se o trabalho escravo poderia ser responsável pelo “atraso” do país, diante das “evoluídas” nações européias, ocupou jornalistas, escritores e políticos. Sem dúvida, a mancha do escravismo desfigurava a imagem “moderna” e “civilizada” que o império se preocupava em manter e anulava boa parte de seus esforços para atrair imigrantes europeus. Num nível mais profundo da discussão, qualquer pessoa com uma visão do mundo fundamentada nas concepções iluministas, liberais ourepublicanas considerava a sociedade imperial criminosa bárbara devido à simples existência do trabalho servil, independentemente dos castigos físicos que pudessem recair sobre os escravos. Na segunda metade do século XIX, a sobrevivência do escravismo não era apenas vista como criminosa, moralmente condenável, “prejudicial a imagem do Brasil no exterior”. Manter escravos se tornara um luxo dispendioso, o trabalho servil se mostrava cada vez menos rentável. Na verdade, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre representava uma exigência da expansão capitalista. A Inglaterra, pioneira na Revolução Industrial e na luta contra o tráfico negreiro, tinha consciência de que o escravismo constituía um entrave ao aumento dos mercados consumidores de suas manufaturas, e exercia forte pressão para por fim a esse obstáculo. A pressões externas aliavam-se às pressões decorrentes do próprio desenvolvimento urbano. Nas cidades, a contratação de trabalhadores livres, cada vez mais numerosos, se mostrava bem mais lucrativa do que o recurso à mão-de-obra escrava. Tudo isso favoreceu a aprovação de uma série de leis que restringiram gradativamente a esfera de ação do escravismo. A primeira, em 1850, foi a Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico negreiro. Em 1871, a chamada Lei do Ventre Livre assegurou a liberdade dos filhos de escravas que nascessem após a sua entrada em vigor. A assinatura da Lei do Ventre Livre amorteceu temporariamente as pressões externas contra a escravidão no Brasil, as quais haviam se tornado mais fortes após a Guerra de Secessão nos Estados Unidos (1861-1865) e a libertação dos escravos naquele país. Em contrapartida, deu novo impulso à campanha abolicionista no Brasil, que conquistou adeptos entre a elite e os elementos das camadas médias urbanas. Em 1880, foi criada a sociedade Brasileira contra a Escravidão, liderada por Joaquim Nabuco e outros abolicionistas. Em 1883, José do Patrocínio e João Calpp fundaram a confederação abolicionista, unindo diversas associações antiescravistas. Toda a década de 1880 foi marcada por intensos debates sobre a questão abolicionistas, principalmente na imprensa. Como se tratava de assunto polêmico mereceu cada vez mais espaço dos jornais. Mas nem todos os periódicos aderiram à campanha, uma vez que vários anunciantes eram senhores de escravos. Fre n 04 te Fic h 02 a Na capital do império, circulavam diversas publicações abolicionistas. Em suas páginas eram abordados todos os assuntos que pudessem contribuir para o avanço da luta contra a escravidão: resumos de conferências, datas e locais de eventos organizados para angariar fundos destinados ao movimento abolicionista, cópias de alforrias e relatos de violências cometidas contra os escravos. Procurando fugir a um confronto direto com as forças governistas, os partidários do abolicionismo conduziram sua campanha dentro da lei e da ordem, o que não os impediu, muitas vezes, de responsabilizar D. Pedro II, seus familiares e membros do governo pela manutenção da escravidão. Em contrapartida, os senhores de escravos reagiram à ação dos abolicionistas através de calúnias, difamações, punições e ameaças de morte. líderes como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio chegaram até sofrer acusações de serem “socialistas” e “anarquistas”. Em 1885, as elites do império tiveram de fazer novas concessões na tentativa de conter a campanha abolicionista. Foi assinado então a Lei Saraiva Cotegipe ou Lei do Sexagenário que dava liberdade a todos os escravos com mais de 65 anos. Finalmente, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel, na ausência do seu pai, D. Pedro II, e pressionada pelos setores abolicionistas assinou a Lei Áurea, libertando os escravos no Brasil. Cabe observar que a Lei Áurea não extinguiu a escravidão no Brasil. O que ela fez foi tornar livres todos os escravos por um período de 100 anos. Decorrido este prazo, no governo do Presidente José Sarney, esta lei foi revogada e a escravidão declarada extinta definitivamente. Claro que isso não significa que a escravidão só desapareceu do Brasil em 1988; nossa sociedade já estava bastante atrasada ao aboli-la em 1888, apesar dos termos peculiares da lei áurea. Mas a própria redação “cautelosa” do texto legal mostra a preocupação em aplacar os donos de escravos para que continuassem a apoiar o império vacilante. Após a abolição a vida dos negros não sofreu muitas alterações, uma vez que não houve uma preocupação de integrá-los à sociedade. Alguns ex-escravos plantaram pequenas roças de subsistência. Outros conseguiram empregos precários nas regiões rurais ou então se dirigiram às cidades, formando uma mão-de-obra marginalizada. Em algumas regiões, as autoridades exigiram que o ex - cativo assinasse um documento comprometendo-se a “viver bem em sociedade”. Isso significava que ele teria que trabalhar, mesmo que faltassem empregos. Milhares de negros libertos dirigiram-se para o Rio de Janeiro. Como o mercado de trabalho na região da capital não conseguiu absorver todo o contingente, foi grande o número de desempregados e subempregados. 44 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br Todos considerados, na época, preguiçosos, malandros e vadios pela parcela “branca” da sociedade. Juízos de valor que em certa medida persistem, numa evidência de que o preconceito é continuamente alimentado por uma situação de inferioridade social. As camadas populares do Brasil estão longe da cidadania plena. Capa de livro sobre o abolicionista Joaquim Nabuco. Original da Lei Áurea, assinada pela Regente Dona Isabel em 1888. A idéia de que vivemos em uma democracia racial vem de longe e se tornou quase que uma noção de senso comum, legitimada por uma convivência racial que, embora marcada por discriminação e conflito, se faz por negociação permanente. O paradigma das classes sociais, no entanto, relegou a segundo plano a questão racial, transformando-a em social. O capitalismo contemporâneo podia no Brasil se desenvolver em paz. Os conflitos que agitavam o continente africano no processo de descolonização ou que promoviam a violência nos EUA em plena luta pelos direitos civis da população afro-americana não teriam por que chegarao gigante luso - tropical. Finalmente o consenso se rompeu. Os blocos afros de Salvador procuraram entrar no circuito internacional da world music, construindo não um Brasil de brancos, negros e índios, mas de negros. Líderes indígenas rodam o mundo junto a personalidades internacionais, denunciando as atrocidades cometidas nos sertões. Imagens da violência urbana povoam a mídia nacional e internacional. O conflito está em pauta. Não há como escapar: o Brasil mudou. A violência e a desigualdade convivem com uma certa intimidade que inibe a explicitação do conflito social. HAMBURGUER, Ester, & THOMAZ, Osmar Ribeiro, Folha de São Paulo, 22/11/1994 In: MOTA, Myriam Becho, & BRAICK, Patrícia Ramos, Das Cavernas ao Terceiro Milênio, São Paulo: Moderna, 1997. 45 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br da república as ProPostas dE rEPÚBlica Proclamação 1 - os rEPuBlicaNismos No Brasil Fre n 04 te Fic h 03 a O movimento republicano apesar de unificado em seu projeto final, não contou com um sentido de unidade ideológica na condução do movimento e dos debates teóricos e ideológicos verificados em seu interior. Desta forma, pode-se verificar três grandes grupos de propostas no interior do movimento republicano nacional: a) o Positivismo: contou com uma ampla adesão dos militares e possuía um grande divulgador na Escola Militar: o coronel e professor Benjamim Constant. No Brasil, os positivistas influenciaram politicamente as classes médias e seu principal representantes no debate republicano: os militares do exército. Foi no exército que desenvolveu-se a ideias de salvação nacional, ou seja a noção de que cabia ao exército a missão de proteger o país dos vícios e da degradação política, visão aliás reproduzida em outros momentos da vida política nacional. Na análise positivista, o exército simbolizava a ordem sob a qual se eriegeria o progresso (daí o lema da bandeira: ordem e progresso), a solução política para o país seria a adoção de uma república ditatorial, chefiada, logicamente pelos militares. Os positivistas desejavam uma república moralizadora sem corrupção política, dirigida de forma autoritária e patriótica. O positivismo tinha muita forte do Rio de Janeiro (com os militares) e entre os republicanos gaúchos. Não são muito claros os motivos pelos quais os gaúchos eram fortemente positivistas, mas acredita-se que concorreu para isso a forte tradição militar naquela região e o fato de que os gaúchos formavam uma minoria que precisavam de uma forte doutrina que lhes desse forte grau de coesão interna. B) o liBEralismo: seguindo a tendência do liberalismo norte americano. Os liberais associavam a república a um modelo representativo, eletivo, gerido por uma constituição de caráter liberal, que assegurasse a liberdade dos indivíduos e o critério de igualdade perante a lei e a justiça. Este modelo defendia a adoção de um modelo político composto por um presidente (eleito por sufrágio universal) que governaria em harmonia com o Congresso Nacional e o Senado. Esta proposta tinha muita forca entre os integrantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e entre os políticos mineiros. c) o JacoBiNismo: faziam clara alusão ao jacobinismo francês. Lopes Trovão e Silva Jardim, seu maiores referenciais, defendiam uma república popular e democrática. Este grupo aproximava-se dos setores mais populares das cidades do Rio de Janeiro (maior força) e em São Paulo. Para os jacobinistas a república deveria ser fruto de um movimento revolucionário que promovessem as mudanças nas estruturas sociais. Falavam em democracia social, melhoria efetiva para os negros (entregues à sua própria sorte após a abolição), condições de vida digna para os trabalhadores urbanos e melhoria das condições de vida para os mais carentes. No interior do Partido Republicano, eram representados pelos republicanos radicais ou revolucionários, conforme veremos a seguir. A Proclamação da República segundo o artista Benedito Calixto. A obra dá ao episódio um tom épico que não existiu. 2 - o sENtido do GolPE A república brasileira surgiu de um golpe militar que articulou entre si as aspirações de três grupos sociais. A elite civil formada pelos oligarcas do café de São Paulo; a elite militar, que contou a adesão da alta cúpula do exército e os setores médios urbanos. A monarquia estava desgastada sem apoio nas suas bases, perdera o apoio do exército, da Igreja, do setor economicamente mais dinâmico da sociedade (cafeicultores de São Paulo) e criticada pelas populações urbanas. Ademais estava profundamente abalada pelo conjunto das transformações que marcava o final do século XIX no país e para as quais não conseguia estabelecer respostas. Desta forma, pode-se afirmar que a república representou a afirmação política das elites agrárias nacionais, em conformidade como o exército, que garantiu a vitória do movimento através de uma conspiração golpista. 46 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br 3 - rEdiscutiNdo a História – Novas aBordaGENs No debate em torno do movimento republicano no Brasil, o aluno deve ficar atento as seguintes análises: • Deve-se evitar entender a república como um fato isolado em si, do tipo: as causas da república foram os fatos ocorridos no 15 de novembro, mas sim se deve entender o movimento como o produto do conjunto das transformações econômicas, sociais, ideológicas que ocorreram no país no final do século XIX. • Não se deve fazer uma relação imediata entre abolicionismo e republicanismo, pelo menos entre os cafeicultores, pois durante muito tempo o Partido Republicano Paulista evitou falar em abolicionismo, temendo perder o apoio dos cafeicultores escravocratas. • Muitos abolicionistas notórios eram favoráveis ao regime monárquico. • Os cafeicultores paulistas seguiam o modelo positivista de modernidade muito comum no final do século XIX, mas não concordavam com o a república ditatorial e militarizada, pois defendiam o modelo político federalista e liberal norte americano. • O federalismo e o liberalismo estavam associado ao darwinismo social, que pregava a sobrevivência dos mais fortes na sociedade. Desta forma o federalismo era a forma de os estados mais fortes da federação vencerem os estados mais fracos. Já o liberalismo era o modo de os indivíduos e as classe mais fortes terem liberdade de se imporem aos indivíduos e as classes mais fracas. a república oligárquica e a base de seus mecanismos de contrele: o coronelismo (1894-1930). a posse de prudente de morais representou o principal rompimento na novíssima república. com ele subiram ao poder todos os ricos e poderosos latifundiários de todo o país que procuravam, desde a proclamação, um espaço para comandar a nação. Nesse momento, o Estado brasileiro passou a estar atrelado aos interesses das áreas rurais do país. A política exercida no interior passou a, praticamente, determinar a estrutura política nacional. No poder dos latifundiários dos municípios estava o centro giratório das principais relações de poder que passaram a caracterizar a república oligárquica. Vejamos isso mais de perto... 4 - a QuEstão do cliENtElismo As oligarquias agrárias iniciaram seu processo de dominação através da utilização de um tipo de poder construído na época imperial. Esse poder foi vulgarmente chamado pela historiografia de coronelismo. Quem eram os coronéis*? Eram donos de vastas extensões de terra do interior do país. Durante a Primeira República os coronelões estavam concentrados principalmente na região nordeste e possuíam um sólido esquema de dominação sobre os habitantes da região chamado de clientelismo. 5 - as Formas dE domiNação Política dos coroNéis Os laços culturais que uniam há muitos séculos os grupos que faziam parte da hierarquia de poder nos campos do país começaram a ser ampliadas, na Primeira República, para formas de dominação políticas direcionadas para manter nas diversas esferas de poder uma maioria de representantes do latifúndio. Coma subida ao poder de Prudente de Morais, as oligarquias latifundiárias de todo Brasil passaram a definir diretamente os destinos da nação. A República tornou-se um apanágio dos senhores de terras. Entretanto para manter essa estrutura funcionando em favor das elites agrárias, os latifundiários necessitavam controlar mais efetivamente o processo que podia lhes tirar o poder: as eleições. é nesse sentido que os coronéis tornaram-se a base de efetivação do poder oligárquico pois tiveram a importante função de determinar a eleição de representantes do latifúndio para a estrutura política nacional (governos municipais, governos estaduais, congresso nacional e presidência da República). Dessa forma, os coronéis passaram a usar sua influência social nos municípios para sempre buscar eleger candidatos favoráveis à continuidade da política oligárquica em todo país. Mas como intervir nas eleições? Podemos dizer que a própria organização das eleições** políticas brasileiras naquele momento favoreceram o domínio oligárquico. As eleições embora fossem “diretas” (ver quadro acima) eram abertas, ou seja, os votantes definiam a votação na frente das principais autoridades da região: o juiz, o padre e, acredite, o próprio coronel. Por outro lado, os coronéis desenvolveram formas de controle eleitoral que passavam pela lógica da garantia da vitória de seus indicados ao poder político. Podemos destacar pelo menos três formas de controle político do coronelismo nesse momento: voto de curral ou curral Eleitoral: consistiu em uma forma de controle do voto baseado na persuasão do coronel sobre seu “rebanho” de eleitores que eram transportados em grandes grupos para a comarca de votação e lá passavam a noite em meio a festas e presentes dados pelos coronéis/padrinhos para garantir o voto do curral para o candidato do latifúndio; *Coronel: patente militar atrelada à Guarda Nacional imperial. D. Pedro I, na época das independência, transferiu parte do poder do Estado para os influentes senhores de terras do interior do Brasil, para exercerem a função da vigilância e manutenção da ordem social em meio a um contexto de crescentes revoltas e insatisfações populares. **Eleições na Primeira República: pela Cosntituição de 1891, ficou definido que a república seria representativa e baseada em eleições diretas e universais. Ficavam excluídos minorias sociais como os analfabetos, as mulheres, os religiosos e os praças-de-pré (soldados de baixa patente). 47 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br as PróXimas ElEiçõEs... “dE caBrEsto” voto dE caBrEsto: forma de controle eleitoral baseado na intimidação e na força que era exercida pelos coronéis sobre os eleitores dissidentes, isto é, que se negavam a votar no candidato do “padrinho. Essa pressão dava-se na mesa de votação, pois o voto aberto possibilitava a fiscalização direta do coronel, e também fora dela através da figura do capataz ou “jagunço”, que persegui e ameaçava o votante com promessas de “viagem” para sempre; voto dE caiXão (FraudEs): esta forma de controle do voto baseou-se na violação das urnas eleitorais sempre com o intuito de acrescentar votos ao candidato do latifúndio. Muitas vezes, as votações recebiam o estranho acréscimo de votos de pessoas que já haviam morrido, pois os coronéis utilizaram as listas dos necrotérios e cemitérios da região parta reforçar a eleição de seus candidatos. Parece brincadeira, mas o voto de caixão foi largamente usado para definir eleições municipais, estaduais e até presidenciais durante a Primeira República. Dessas três formas, a estrutura política nacional sucumbiu ao domínio desonesto e permanente das minorias latifundiárias do país. Ficou muito difícil escapar desses mecanismos de dominação porque enfrentar os poderoso coronéis era, por vezes, selar mais um espaço no cemitério. A República, portanto, passou a ser uma extensão do poder rural. Será que mudou muita coisa em relação à política imperial? Essa pergunta é facilmente respondida se olharmos para os grupos dominantes dos dois regimes e constatarmos que eram todos latifundiários exercendo o poder do Estado em benefício de interesses particulares. o coNtrolE a NívEl Estadual: a “Política dos GovErNadorEs” Além das formas de controle eleitoral exercidas a nível municipal, as oligarquias também desenvolveram um interessante mecanismo de dominação visando monopolizar os governos estaduais da federação. Essa política ficou conhecida vulgarmente como política dos governadores e foi desenvolvida primeiramente no governo do presidente Campos Sales (1898-1902). Essa política foi fruto das necessidade das elites cafeeiras de se adaptarem ao momento de crise econômica que atingiu a produção de café e as exportações do produto desde a década de 1880. A “grande depressão” que atingiu a Europa entre 1873-1896 praticamente fechou o mercado externo para o café brasileiro e era preciso armar um mecanismo parta minimizar os prejuízos internamente. Uma das soluções urgentes tomadas foi o fechamento das alianças políticas entre as variadas oligarquias estaduais e possibilitar sua aproximação com o poder federal. Nesse sentido, as elites agrárias especialmente da região sudeste do país passaram a construir uma relação mais próxima visando o monopólio dos governos estaduais para facilitar medidas presidenciais para favorecer os interesses oligárquicos. uma troca de apoio político foi selado entre a presidência e os governos estaduais, em que os governadores apoiavam o presidente em seus projetos garantindo a maioria de parlamentares indicados ao congresso nacional e, em troca, o presidente liberaria generosos recursos financeiros para os governadores estaduais. Essa negociação ainda foi intermediada pela comissão Verificadora de Poderes, que consistia em um grupo de parlamentares oligárquico que tinham a função de selecionar os parlamentares vindos dos estados para conseguir formar a maioria no congresso. Dessa forma, as oligarquias sempre teriam em suas mãos o poder estadual, legislativo, executivo e municipal, isto é, toda a estrutura política da República. Essas formas de dominação foram muitas vezes direcionadas para recuperar a decadente economia do café, que não parava de acumular prejuízos desde a proclamação da República. Tal foi a oportunidade de intervir pela primeira vez na economia para favorecer os interesses dos cafeicultores com o convênio de taubaté (1906), quando o s estados cafeicultores (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), mesmo contrariando o presidente Rodrigues Alves, acabaram forçando compra do excedente de café não exportado pelo Estado Federal (União) e pelos estados não produtores de café. Esse foi um exemplo de árias práticas políticas e econômicas que visavam fincar os interesses oligárquicos no país. 48 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br a rEPÚBlica vElHa – a soBrEvida das oliGarQuias FuNdiÁrias Por: Carla Guedes , Cristiane Vilela e Laura Leme A República Velha é um momento de grandes transformações na ethos política da elite brasileira: as ideias conservadoras do Império são abandonadas, substituídas pelo federalismo e dinamismo que o mundo capitalista impunha. Prado Júnior bem define esse momento de transição quando resume a República, rompendo os quadros conservadores dentro dos quais se mantivera o Império apesar de todas suas concessões, desencadeava um novo espírito e tom social bem mais de acordo com a fase de prosperidade material em que o país se engajara 1. O contexto econômico inicial da República Velha é de grande especulação e intensa movimentação monetária, detonada pela política econômica conhecida por Encilhamento, posta em prática por Rui Barbosa, então Ministro da Fazenda, quando da abertura de bancos regionais autônomos com poderes de emissão de moeda e liberação de crédito como fomentação do mercado interno. O impasse, no entanto, foi esbarrar na especulação e no mau uso do crédito amplamente oferecido acabaram por gerar uma intensa crise econômica, remediada por meio de operação com capital estrangeiro, já no governo de Campos Sales, o Funding Loan, que penhorou as operações aduaneiras de Santos, Rio de Janeiro, Belém e Manaus. A intensificação da imigração europeia, superpovoando o mercado de mão-de-obra, alterou as relações de trabalho (colonato e parceira) e influenciou as novas estruturas sociais que estabeleceram a mudança do status quo vigente. O federalismo, característica máster da República Velha, evidenciou as diferenças regionais, de acordo com a produção da riqueza de cada região. Segundo Monteiro 2, a Federação consagrou os desejos de largas camadas das elites dominantes do país que no sistema anterior, não tiveram, até então qualquer possibilidade de ascensão ao poder. Em acordo com a tradicional historiografia brasileira, a hierarquia dos Estados se estabelece de acordo com a importância política e econômica de cada um. São Paulo e Minas Gerais tomam a dianteira no governo do país, devido à proeminência econômica do primeiro e da força política do segundo. Rio Grande do Sul ocupa uma posição de destaque na esfera mais alta da elite governante, num papel paralelo, até mesmo de contraponto à dualidade do “Café com Leite”. Sendo o Estado mais instável politicamente, palco de diversas contendas, o Rio Grande do Sul se caracteriza pela intensa disputa entre Liberais (ou Federalistas) e Positivistas 3. Sua presença política não pode ser desconsiderada, tanto é que desempenhou importante papel na desconstrução da República Oligárquica. Esta vertente considera os demais Estados como periféricos; exemplos: Espírito Santo, Bahia, Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, entre outros, que seguem esse período acomodados ou “silenciados” pelas barganhas propiciadas pelo que se convencionou chamar de “Política dos Governadores”, pela qual o governo federal garante o apoio à elite local, bem como financiamentos e repasses que possibilitam o comando regional, em troca de apoio incondicional às decisões do governo central. Em contra partida, Cláudia Viscardi apresenta uma releitura da Política do Café com Leite e da relevância desses Estados, em especial Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco. De acordo com a autora: “O poder sobre os pequenos Estados nas mãos do Rio Grande do Sul, especialmente os do norte e do nordeste, garantia ao Estado um peso significativo na Federação. Além disso, sua histórica associação ao Exército, somada ao tamanho de sua bancada (a sexta maior do País) e a sua força econômica faziam do Estado um dos mais proeminentes. Tal poder só era ameaçado pela Bahia e Pernambuco, Estados que também advogavam a posição de centro, em torno do qual, vagavam os satélites setentrionais do Brasil.” Viscardi divide o período da República Velha em três partes: primeiramente, a presença dos militares, conhecida como República da Espada; em segundo momento, percebe-se a proeminência dos candidatos de São Paulo no governo federal e, no terceiro Minas Gerais, dono do maior pleito da Federação, passa a impor participação mais ativa política na República, mas a autora apresenta os demais estados não como meros expectadores do desenrolar político, mas coadjuvantes atuantes que emprestam ao poder central seu prestígio e apoio, muitas vezes este apoio foi decisivo na alternância de Minas e São Paulo no cargo maior do executivo. A autora afirma que, “o modelo político em vigor no período em foco teve sua estabilidade garantia pela instabilidade das alianças entre os Estados politicamente mais importantes a Federação, impedindo-se, a um só tempo, que a hegemonia de uns fosse perpetuada e que a exclusão de outros fosse definitiva.”. 49 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br BEllE éPoQuE Fre n 04 te Fic h 04 a Na imagem acima, o Teatro da Paz em Belém. BEllE éPoQuE amazÔNia traNsFormaçõEs urBaNas Na amazÔNia da BorracHa: urbanismo, culturas e contradições na virada do século XIX ao XX. No contexto da passagem do século XIX para o XX, a Amazônia experimentou um período marcado pela euforia econômica decorrente da expansão da economia da borracha voltada para o mercado externo, que, naquele momento, vivia a crescente industrialização com o desenvolvimento contínuo de novas técnicas e fontes de energia, contribuindo decisivamente para a difusão dos ideais de modernidade. Essa realidade experimentada pela região proporcionou um fluxo de migrantes, principalmente nordestinos, que vieram conformar-se como mão-de-obra nos seringais. Esses migrantes nordestinos dirigiram-se para a região amazônica sob a influência de diferentes fatores: havia o desenvolvimento de propagandas que deslumbravam a economia da borracha, criando imagens favoráveis à possibilidade de construção de riquezas em curto prazo. Os próprios negociantes da borracha também figuraram como incentivadores da chegada de tal mão-de-obra, na medida em que ofereciam passagens, salários e acomodações para atrair o migrante. Contudo, não podemos deixar de levar em consideração que a realidade experimentada pelo nordestino na sua região de origem é condição fundamental para compreender a vinda do migrante. Para o historiador William Gaia, essa propaganda, no entanto, intensificou-se em um momento de grandes dificuldades no Nordeste brasileiro, em que a seca da década de 1870 matou parcelas significativas de pessoas no sertão, o que de certa forma também favoreceu o deslocamento desses migrantes para a Amazônia, dentre os quais prevaleciam os cearenses. Nesse contexto, vários nordestinos que se destinaram ao Pará, e que por algum motivo não chegaram aos seringais, localizando-se, dessa forma, nos centros urbanos, contribuíram para as consequentes modificações quanto à organização espacial das cidades. Belém e Manaus foram os centros urbanos que mais receberam migrantes. Nesse momento, na Amazônia com o aumento populacional o problema habitacional se agravou, requerendo um maior investimento em políticas públicas. os idEais dE civilização E modErNidadE Na amazÔNia A expansão da produção da borracha e a valorização do produto no mercado mundial está diretamente ligada ao surgimento de uma elite da borracha na região. Com essa nova realidade, tornava-se necessário a reestruturação do cenário amazônico para acompanhar as transformações sociais e econômicas do mundo capitalista em expansão. Ao comentar sobre essa elite da borracha, o professor Gaia afirmava: essa elite era constituída pelos denominados barões da borracha que eram todos aqueles que enriqueceram por meio da economia da borracha participando direta ou indiretamente da dinâmica de exploração, ou seja, não eram apenas os donos dos seringais. Esta denominação serve 50 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br para os donos do território no qual se extraía o látex, os donos das casas aviadoras que armazenavam o produto até sua comercialização, tal como os negociadores da borracha no mercado mundial que, em sua maioria, eram estrangeiros e moravam nas capitais amazônicas para melhor realizar aplicações de capital. Devido a essa realidade, as principais capitais da Amazônia, Belém e Manaus, passaram a experimentar uma maior proximidade com as cidades europeias e com o estado norte-americano sendo, desta forma, profundamente influenciadas pelos ideais de modernidade e civilização difundidos pelos grandes centros do capital. Essa influência fazia-se presente na adoção dos valores e costumes dos países “civilizados” como forma de buscar alcançar a modernidade. Nesse contexto, no final do século XIX e início do XX, a sociedade amazônica passou a sofrer intensamente as influências europeias provenientes, principalmente, de Paris. O modelo de organização e civilização francês passou a ser adotado pelos governos e elites amazônicas que insistiam em copiar as elites dos grandes centros industriais. Costumes, modos de vida, valores, formas de vestir e de se apresentar em público foram assimiladas dos países europeus. Com isso as elites amazônicas acreditavam estar alcançando a modernidade. As elites amazônicas abraçaram intensamente essa relação, sobretudo com a França, a fim de demonstrarem status e adquirirem o patamar de modernas e civilizadas diante do mundo contemporâneo. Nesse sentido, incutiam e ostentaram valores europeus, passando a importar vestidos, chapéus, tecidos, gêneros alimentícios, dentre outros produtos. A ostentação de riqueza e tentativa de igualar seus costumes aos dos europeus levou a elite da borracha até mesmo a contratar espetáculos das casas de shows estrangeiras. (William Gaia Farias) Em função da referência tomada em relação aos países industrializados, a crença nos ideais de modernidade colocavam na ordem do dia a necessidade de se materializar mudanças na organização das cidades, que deveriam sair da condição de “atraso” e representar o espaço, por excelência, da civilização. Como afirmou a professora Maria Stella Bresciani, a cidade configura o espaço por excelência da transformação, ou seja, do progresso e da historia; ela representa a expressão maior do domínio da natureza pelo homem e das condições artificiais (fabricadas) de vida. a QuEstão das traNsFormaçõEs urBaNas Devido ao grande desenvolvimento da economia gomífera na sociedade amazônica, o contexto da passagem do século XIX ao XX foi marcado por intensas transformações, que tiveram em Manaus e Belém seus principais referenciais. Nas duas cidades o poder público lançou projetos civilizatórios, que se traduziram em investimentos na urbanização e modernização de suas respectivas capitais. Sendo, desta forma, os centros mais expressivos, em termos de investimento e negociação, Belém e Manaus passaram a se constituir como áreas de transformações e conflitos ligados às disputas pelo espaço entre os diferentes grupos sociais. Em Manaus o centro urbano foi modificado para garantir as condições necessárias para os investimentos estrangeiros na a Biblioteca Pública de Manaus. paraense. Entre as principais construções da cidade de Manaus no período em questão temos: o Palácio da Justiça; Palácio do Governo; Theatro Amazonas, o prédio da Alfândega e a própria Biblioteca Municipal. Segundo Gaia, destaca-se também a penitenciária, como espaço voltado à garantia da ordem e harmonia da cidade, contanto com uma das mais modernas estruturas arquitetônicas instaladas nos últimos anos da década de 1900. Também foi criado o Instituto Benjamin Constant, destinado à educação de jovens carentes, voltado à formação de verdadeiras donas de casa, assim como de meninos aptos ao mercado de trabalho. o Teatro Amazonas. Tanto em Belém como em Manaus, ainda hoje, é possível perceber a herança dos tempos áureos da borracha, seja através das praças e monumentos, no entanto, essa memória recorrente que muitos possuem sobre a época da borracha como um período marcado pela riqueza, ostentação e luxo, deve ser reavaliada. Não podemos esquecer que os projetos modernizadores desses centros urbanos não incluíam as camadas pobres trabalhadoras, refletindo, assim, as contradições que também marcaram o desenvolvimento da sociedade na época da borracha. Ainda segundo Willian Gaia, o fausto da borracha amazonense conviveu com a miséria que atingiu os trabalhadores não envolvidos na sua extração e que, imigrados, ajudaram a compor o quadro de sujeitos desfavorecidos na cidade, cujo centro urbano fora preparado para a elite gomífera. cidade. Em 1880, houve a instalação do Banco do Amazonas e, na década seguinte, a implantação de bondes elétricos, além de água encanada, iluminação pública elétrica e a construção de um porto para exportação, já que, segundo Willian Gaia devido sua posição geográfica, Manaus não era bem quista pelos investidores que raramente abriam filiais de suas empresas no Amazonas, pois preferiam efetuar negócios e transações comerciais a partir da capital paraense. Neste contexto de desenvolvimento da exportação de sua produção e do aumento das suas receitas, Manaus investiu na construção de prédios luxuosos e grandiosos que marcavam sua posição no mercado mundial, disputando, assim, com a capital 51 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br tEXto comPlEmENtar traNsFormaçõEs urBaNas Na amazÔNia da BorracHa: urBaNismo, culturas E coNtradiçõEs Na virada do século XiX ao XX. Em Belém o grande nome de administrador público desse processo da cidade foi Antonio Lemos. Este como intendente da cidade, não mediu esforços para ver concretizados seus ideais de modernizar Belém. Lemos empreendeu inúmeros projetos, cujos objetivos era dar à capital do estado aspectos que simbolizassem e ostentassem a riqueza e o poder da cidade dentro da economia mundial, e que a elevasse a um patamar semelhante ao das cidades europeias. Todavia, é bom lembrar que Antonio Lemos administrou Belém em condições econômicas favoráveis ao afã de transformações urbanas exigidos pela elite gomífera. Sendo assim, foi possível' empreender as modificações necessárias à reorganização do espaço urbano, tais como a instalação de modernos sistemas de bondes elétricos no início do século XX, serviço telefônico, água encanada e iluminação pública elétrica, fazendo das principais avenidas boulevares amplamente pavimentados. – Foi na administração de Lemos que se deu, ainda, a construção do moderno Mercado Municipal do Ver-O-Peso, em 1901, seguido da construção do Palacete Bolonha, do Palacete Pinho, do Paço Municipal e do polêmico Asilo da Mendicância. Foi nesse contexto de supervalorização da borracha que foram construídas, ainda, luxuosas casas de diversão e lazer, muitas das quais serviam de locais para encontros políticos, como o Café Chic, Café da Paz, Moulin Rouge, Chat Noir, Café Madri e Café Riche, a maioria localizados no largo Na imagem acima, Antonio Lemos. da pólvora (Praça da República). Em Belém na década de 1870 os empreendimentos urbanísticos já começavam a se fazer presentes no cenário da cidade com a construção do luxuoso Theatro da Paz, de praças públicas, boulevares, além do incentivo para a instalação de um conservatório musical e circulação de revistas literárias. Nas décadas subsequentes, o processo de reorganização do espaço público foi intensificado com a construção de grandes praças ajardinadas, com fontes, coretos e estátuas imponentes, como, por exemplo, a Praça da República que, no início do século XX passou por uma grande reforma.' William Gaia Farias. cia intensificou a aplicação de leis e cobrou melhores condições das moradias do centro urbano. Terminada a primeira década do século XX, os arredores da praça dispunham, então, de grandes construções de moradia, tais como de pomposos edificios, como o Palácio do Governo e o já então estabelecido Theatro da Paz. De acordo com o aumento da exportação e valorização da borracha no mercado externo, intensificou-se a implantação, em Belém, de diversos bancos, sobretudo estrangeiros, e companhias de seguro, que atuavam atrelados à economia gomífera. Surgiram, também, nesse período, diversos estabelecimentos varejistas, escritórios de advocacia e consulados. Avenida portugal (16 de novembro) e a praca D Pedro II, em 1910. A rua apresenta-se bem arborizada, calçada, os postes de eletrecidade, os quiosques e com a presença de bondes elétricos em contrastes com as carroças ao lado. A urbanização de Belém e Manaus e o aspecto modernizador e civilizado que se queria dar a essas cidades eram complementados pela ostentação da elite gomífera que desfilava pelas ruas com as mais belas e luxuosas vestimentas francesas que, aliadas aos empreendimentos do governo, simbolizavam a riqueza e a relação de proximidade com a França. Por outro lado, no que se refere às camadas populares da sociedade, as políticas públicas não foram capazes de resolver seus problemas relacionados às necessidades básicas, como por exemplo, alimentação e moradia que tinham o preço elevado, o que os obrigavam a viver em habitações de péssima qualidade. A maior preocupação de Lemos em Belém era a limpeza e a higienização da cidade que, para por em prática este eixo do projeto, reformulou o código de leis e posturas da cidade a fim de adequá-los ao novo espaço urbano. Todavia, as políticas urbanísticas desenvolvidas, tanto em Belém quanto em Manaus, foram destinadas às classes dominantes, sendo os principais investimentos voltados aos setores econômicos de interesse dos investidores da borracha. Esse investimento em construções e reformas priorizou as áreas de maior interesse dos investidores, nas quais se localizavam as principais casas aviadoras e comerciais e onde se aplicavam os demais investimentos, também provenientes do capital estrangeiro. Diante de tantas transformações, destacam-se a construção de mercados como o Ver-O-Peso, melhoramentos dos portos de embarcação, implantação de linhas de bonde, construção do crematório de lixos domésticos, construção de redes de esgoto etc. A rua dos cearenses, uma das ruas dos setores pobres da cidade de Belém. Contraste com as ruas do centro da cidade na época. Na época das reformas urbanas, em Belém observou-se a intensificação das disputas por espaços centrais da cidade. Às camadas populares a situação ficou mais difícil, pois a Intendên- 52 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br A elite local buscava ser percebida como moderna, por isso incentivava os investimentos na construção de inúmeras obras, tais como praças e boulevares, a construção do luxuoso Theatro da Paz e instalações do Cinema Olímpia. As praças durante o que se convencionou chamar de Bellc Époque, consistiam em espaços onde a elite procurava demonstrar seu poder e riqueza, exibindo roupas e outros objetos importados, visto que o modo de vestir das camadas populares contrastava com as vestimentas das elites gomíferas que usavam os mais belos modelos europeus. Diferentemente das praças, o Theatro da Paz consistia em um espaço de lazer construído especificamente para a ostentação de uma elite recém constituída, nos quais as classes tidas como "desordeiras" não tinham acesso e nem sequer o direito de tran- sitar. Estima-se que, em 1878, tenha sido apresentado no Theatro da Paz cerca de 126 espetáculos de companhias provenientes da França, Portugal e Rio de Janeiro. Outro ambiente construído como centro de entretenimento, sendo que direcionado apenas à pequena burguesia ascendente, foi o Cinema Olímpia. Inaugurado em 1912, oferecia a seu público as mais belas e recentes produções do promissor cinema norte- americano e europeu. Nesse sentido, estabeleceu-se uma estratificação do espaço urbano que delimitou o ambiente a ser utilizado pelos diferentes sujeitos, restringindo-se as áreas à circulação de pessoas consideradas indesejáveis, por comprometer a inserção das cidades amazônicas na modernidade, especificando, dessa forma, a importância e o lugar de cada sujeito dentro da sociedade da borracha. a coNtradição No cENÁrio social A exploração da borracha na Amazônia foi expressiva a ponto de colocar a região em condições favoráveis na economia nacional, favorecendo as suas principais cidades, principalmente no período de boom, ou seja, de valorização do produto coincidindo com o aumento da produção. A prosperidade econômica certamente levou à produção de grandes riquezas, contribuindo para a constituição de uma vasta elite econômica; todavia, o cenário amazônico não era formado apenas por riquezas e benfeitorias, pois havia uma extensa massa de desfavorecidos que foram colocados à margem dos projetos urbanizadores. À medida em que os centros tornavam-se urbanizados e modernos, maior era o número de pessoas deslocadas e amontoadas nos arrabaldes das cidades, visto que os ideais urbanísticos contemplavam apenas as principais áreas dos núcleos urbanos (tanto de Belém como de Manaus), tidos como estratégicos. Dessa forma, logo as questões que giravam em torno de valores e modos de vida levaram a conflitos ligados a concepções sobre o uso dos espaços públicos pelos grupos sociais antagônicos. Quanto ao seu lado excludente, as reformas urbanas podem ser percebidas nos momentos de investidas da Intendência na destruição de cortiços e habitações populares dos centros das cidades. Não houve, nos projetos reformistas, a preocupação, por parte do poder público, de contemplar as camadas populares urbanas. Sob a defesa da modernidade e, consequentemente dos projetos urbanizadores que acompanharam os interesses do capital, portanto, da classe dominante, o poder público investiu na propaganda oficial na Europa e em outros estados do Brasil. O material de propaganda passava a imagem de cidades associadas às boas condições de limpeza, higiene e salubridade, além de ocultar qualquer informação que levasse à percepção da existência de conflitos sociais, pois os ideais de modernidade, civilidade e progresso também se sustentavam na utopia de harmonia social em sociedade capitalista ou pelo menos que demonstrassem o controle social pelo governo. Essa propaganda oficial contendo imagens harmoniosas era divulgada de várias formas, entretanto destacam-se os álbuns que eram divulgados nos Estados Unidos e Europa. Por exemplo, tanto em Belém como em Manaus os governantes encomendaram a produção de álbuns, merecendo destaque o álbum O Pará em 1900, organizado pelo literato e folclorista Sant'Anna Nery, que também atuou bastante nesse ramo no estado do Amazonas. Nos arrabaldes das cidades em insalubres moradias, a população não abastarda sofria com a falta de saneamento, sem energia elétrica e constantes epidemias. Estas últimas consistiram em uma grande preocupação do intendente Lemos, levando-o a criar medidas que garantissem a higienização da cidade, tal como a criação de um código de posturas que estabelecia como os trabalhadores deveriam proceder e se comportar em suas casas e ambientes de trabalho, aplicando multas aos que não obedecessem ao código e agissem de forma que comprometesse a saúde da população e a aparência da paisagem. Em seu projeto de higienização, Lemos buscou meios para intervir tanto no espaço público, quanto no privado, chegando a invadir habitações nas quais havia pessoas doentes, visto que temia que as epidemias se proliferassem e atacassem toda a cidade. As epidemias, assim como a má aparência da cidade, causada pela sujeira das ruas provocadas, principalmente, pelos vendedores ambulantes, era um impasse para a concretização do projeto de modernização que Lemos defendia. A prosperidade econômica decorrente da borracha criou dois mundos em um mesmo espaço. O primeiro, sustentado na ideia de que se vivia a Beije Époque, criou a ilusão de que os costumes requintados e copiados da França seriam imprescindíveis à valorização das elites amazônicas que poderiam viver em cidades modernas europeizadas, cujos centros eram verdadeiras reconstruções de Paris. O segundo que surgiu, quando se desabitou e expulsou para os arrabaldes as classes populares que ficaram alheias ao mundo construído por meio da riqueza produzida pela borracha. As camadas populares formadas por várias categorias de trabalhadores, como peixeiros, amas-de-leite, sapateiros, vendedores ambulantes, cozinheiras, criados, barbeiros, leiteiros, estivadores e tantos outros sujeitos desprovidos de riquezas materiais, entraram em conflitos com os defensores dos projetos de modernização urbana que atingiam seus interesses e suas liberdades no espaço público e privado. Foram criados espaços diferenciados destinados à elite da borracha e à massa de desprivilegiados, além de várias outras situações que contribuíram para aprofundar o fosso que separou investidores e trabalhadores. Contudo, ficou evidente a ocorrência de disputas pelo uso do espaço público. As camadas populares, mesmo ausentes aos bailes e festas promovidas pelo governo ou elites locais, nunca deixaram de participar e desenvolver suas manifestações religiosas e culturais. Organizaram festividades em homenagem aos santos que eram devotos, prepararam os carnavais de rua, dentre outros, o que preocupava as autoridades interessadas em manter a ordem nas cidades, já que tais organizações eram realizadas por pessoas tidas como desordeiras e que, no discurso do governo, comprometia a tranquilidade e o ar civilizado das cidades amazônicas. Os processos urbanísticos pelos quais passaram as cidades de Belém e Manaus tinham um caráter elitista pautado em ideais modernos propagados no mundo contemporâneo. Belém e Manaus tiveram seus cenários modificados por obras e monumentos ainda hoje perceptíveis. 53 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br movimentos de coNtEstação Fre n 04 te Fic h 05 a movimENtos milENaristas Era lá nos confins do Brasil que se decidiam as eleições durante a República Oligárquica. No final do século XIX, mais de 60% da população vivia no mundo rural. Cliente de coronéis, acuados por violências e desmandos dos poderosos e, em sua imensa maioria, desprovidos de terras para o seu próprio sustento, os habitantes do sertão brasileiro expressaram suas tristezas, esperanças e descontentamentos através de diversas manifestações sociais. No nordeste, a situação era mais precária. Com o deslocamento do eixo da economia agroexportadora para o sudeste e com o declínio acentuado da atividade açucareira[...], a miséria passou a compor o cenário da região. Anos de seca provocaram o êxodo de milhares de nordestinos para a região amazônica, onde, ao final do século XIX, a extração da borracha prosperava [...] Nesse contexto, formaram-se grupos armados que assaltavam fazendas, viajantes, vilas e cidades, denominados cangaceiros. Alguns saqueavam armazéns e distribuíam os alimentos para a população mais pobre. Outros realizavam “serviços” para coronéis nordestinos: eram contratados para eliminar adversários políticos ou compunham milícias contra famílias rivais. Além do cangaço, o Nordeste assistiu ao aparecimento de seitas místicas em torno de beatos e religiosos que, com orações e conselhos, alimentavam as esperanças da população de diminuir seus sofrimentos. Esses beatos percorriam o sertão acompanhados por dezenas de seguidores que acreditavam nos poderes milagrosos de seus guias. Tanto os cangaceiros quanto os beatos adquiriram enorme prestígio junto aos mais carentes. Temidos e respeitados, representavam alternativas para aqueles que, desprovidos do poder econômico, eram também excluídos ou manipulados pelo jogo político. Separadamente, cada qual a seu modo, o banditismo e a oração eram expressões do descontentamento social de setores que não possuíam uma sofisticada crítica aos perversos comportamentos políticos das elites e das oligarquias brasileiras.(Flávio de Campos e Renan Garcia) Compreender os diferentes movimentos sociais no campo, durante o contexto da 1ª República no Brasil, é partir de uma análise que leve em consideração a existência de duas realidades diferentes que marcavam o cenário republicano desde o seu prelúdio. Não podemos esquecer que as transformações advindas com a Proclamação da República faziam-se sentir, especificamente, nos centros urbanos das capitais federais. O campo, mesmo pós proclamação, ainda experimentava o mesmo ritmo de vida existente no contexto imperial. Em termos de cidadania, a República ainda negava, tal qual a monarquia, os direitos ao homem comum. Ao comentar sobre essa realidade, a professora Margarida de Souza Neves afirmou: Na República Velha, uma lógica paradoxal diferencia e ao mesmo tempo relaciona organicamente esses dois cenários – o da capital federal e do interior – à primeira vista opostos pelo vértice, o cenário do progresso montado na cidade que, após o 15 de novembro, assume foros de capital federal e o cenário do interior do país, onde a República recém-implantada, aparentemente, muda apenas, no cotidiano, os selos que estampilham as cartas que o correio de quando em vez faz chegar, a bandeira nacional hasteada nas festas, as notas e moedas que pouco circulam e algumas das datas pátrias festejadas com fanfarra e bandeirolas. Aprofundar na relação entre esses dois cenários, sem deixar de perceber as diferenças entre a modorra da vida no interior e a vida vertiginosa do Rio de Janeiro, é premissa fundamental para o entendimento da história do primeiro período republicano no Brasil. No conjunto das análises existentes sobre o movimento das massas sertanejas no Brasil da 1ª República percebemos que há uma significativa diversidade, onde alguns autores percebem a religião como parte essencial das sociedades rústicas, constituindo um quadro de referência fundamental para as formas organizadas da luta político-religiosa dessas comunidades, enquanto outros não reconhecem a dimensão religiosa como elemento central de tais movimentos, defendendo a ideia de serem motivados por questões mais político - materiais que religiosas, como é o caso de Rui Facó. No caso dos movimentos de fanáticos, “designando os pobres insubmissos que acompanhavam os conselheiros, monges ou beatos surgidos no interior, como imitações dos sacerdotes católicos ou missionários do passado”, Facó aponta a inadequação do termo e seu caráter pejorativo, entendendo ainda que “tem-se exagerado indevidamente[...] o fundo místico dos movimentos das massas sertanejas como foram Canudos, Juazeiro, o Contestado e um sem-número de episódios semelhantes, mais restritos, que eclodiram em diferentes pontos do Brasil”. Para o autor, esses movimentos tiveram um fundo”perfeitamente material”, sendo sua exteriorização mística ou messiânica “apenas uma cobertura a esse fundo”(Facó, 1965,p.9). Para o autor, a religião teria sido apenas um instrumento, pois a motivação da insubordinação “respondia ao espírito insubmisso daquela pobreza desvalida”. Mais centrado no caráter político do que sociológico, Facó entendia que a reação à desigualdade e à exclusão se fazia, mesmo que inconscientemente, através de uma roupagem mística [...] (Jacqueline Hermann. Religião e Política no Alvorecer da República) 54 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br o caso dE caNudos Antonio Vicente Mendes Maciel nasceu na primeira metade do século XIX em Quixeramobim, interior do Ceará. Tornou-se pregador e beato na década de 1870 e peregrinou pelo nordeste acompanhado de muitos adeptos. Despertou a oposição entre representantes da Igreja católica, que passou a cobrar medidas das autoridades contra o beato. Segundo Flávio Campos e Renan Garcia, Conselheiro foi preso diversas vezes, acusado de perturbar a ordem pública e encorajar a desobediência às instituições civis e religiosas. [...] Após a Proclamação da República, Conselheiro e alguns de seus seguidores reagiram publicamente à cobrança de impostos pelo governo. Numa localidade baiana, queimaram os editais em uma ruidosa manifestação. O governo enviou, para prendê-lo, uma tropa com 35 soldados que acabaram derrotados pelos fiéis. Alguns anos depois, em junho de 1893, o beato decidiu fundar uma povoação, deixando a vida de peregrino. Próximo ao rio Vaza-Barris, onde havia umas poucas e simples casas habitadas por algumas famílias, Conselheiro e seus seguidores ergueram um arraial denominado Belo Monte, que ficou conhecido como Canudos. A existência de uma comunidade que não se encontrava à mercê dos coronéis e escapava ao controle do Estado e da Igreja foi entendida como urna ameaça. De certo modo, era verdade. Canudos transformou-se na concretização do sonho dos sertanejos de ter urna vida com o mínimo de dignidade. A República Oligárquica não oferecia as possibilidades que o beato Conselheiro e seus seguidores apresentavam a todos os que viviam nos sertões. Implicitamente representavam a negação do regime. Em novembro de 1896 foi enviada uma primeira expedição militar a Canudos. A vitória dos conselheiristas aumentou o temor das autoridades. Aumentou também a popularidade do beato no Nordeste. Em janeiro do ano seguinte, uma nova expedição, com cerca de seiscentos homens armados, foi igualmente derrotada. Em fevereiro foi organizada a terceira expedição, com cerca de 1.200 soldados e forte armamento, incluindo quatro canhões, sob as ordens do coronel Antônio Moreira César, vitorioso comandante de tropas do Exército contra os federalistas no Sul. A derrota foi fragorosa. Os principais chefes militares morreram e a artilharia pesada foi recolhida pelos seguidores do Conselheiro. As notícias sobre os sucessivos fracassos militares tiveram enorme repercussão no país. Na Capital Federal e nas grandes cidades brasileiras, corriam boatos sobre a ajuda que os habitantes de Canudos estariam recebendo dos monarquistas, a fim de derrubar a República. Pela imprensa, a elite nacional, com raríssimas exceções, desenhava o beato como um fanático feroz que se aproveitava da ignorância da população e conseguia arregimentar seguidores. A comunidade de Vaza-Barris era, no começo de 1897, a própria encarnação do mal, a antítese da legalidade republicana. Enfurecidos, grupos republicanos atacavam portugueses e baianos no Rio de Janeiro, por serem identificados como monarquistas e conselheiristas. Novamente os jacobinos brasileiros saíram às ruas em defesa da República. Em pronunciamento à nação, divulgado pelos jornais, o presidente Prudente de Morais anunciou que o Exército "destroçará os que ali estão envergonhando a nossa civilização". Civilização e barbárie voltavam a se encontrar. Aplicações no Caderno de Exercícios A única foto conhecida de "Antônio Conselheiro", místico rebelde e líder espiritual do arraial de Canudos (18931897), Bahia, Brasil. Foto tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército. 55 n HISTÓRIA www.portalimpacto.com.br
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