A mitologia medieval na Divina Comédia - XIII Encontro Estadual de História A ESCRITA DA HISTÓRIA

June 12, 2018 | Author: Daniel Lula Costa | Category: Documents


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XIII Encontro Estadual de História ANPUH-PR CADERNO DE RESUMOS

A ESCRITA DA HISTÓRIA 12 a 15 de Outubro de 2012

Londrina PR

A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

XIII Encontro Estadual de História ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA - SEÇÃO PARANÁ DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA 12 A 15 DE OUTUBRO DE 2012

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Londrina – Paraná – Brasil A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Diretoria ANPUH-PR Diretora: Beatriz Anselmo Olinto – UNICENTRO/Guarapuava Vice-Diretor: Leandro Henrique Magalhães – UNIFIL Secretario Geral: José Miguel Arias Neto – UEL Segundo Secretário: Marcos Nestor Stein – UNIOESTE/Rondon Primeiro Tesoureiro: Edson Armando Silva – UEPG Segundo Tesoureiro: Oséias de Oliveira – UNICENTRO/Irati Universidade Estadual de Londrina Reitora: Nádina Aparecida Moreno Vice-Reitora: Berenice Quinzani Jordão Pró-Reitor de Pesquisa: Mario Sérgio Mantovani Pró-Reitora de Extensão: Cristiane Cordeiro Nascimento Diretora do CCH: Mirian Donat Chefe do Departamento de História: Edméia Aparecida Ribeito Coordenadora do PPGHS: Silvia Cristina Martins de Souza Comissão Organizadora José Miguel Arias Neto – UEL Beatriz Anselmo Olinto – UNICENTRO/Guarapuava Bruno Sanches – UNESP/Assis Celina Aparecida Negrão – UEL David Antonio de Castro Netto – UEL Edméia Aparecida Ribeiro – UEL Edson Armando Silva – UEPG Érica da Silva Xavier – UEL Gilberto da Silva Guizelin – UNESP/Franca Leandro Henrique Magalhães – Unifil Marcos Nestor Stein – UNIOESTE/ Mal. Cândido Rondon Muriel Emídio Pessoa do Amaral – UNESP/Bauru Neobi Fumiko Kayano – UEL Oséias de Oliveira – UNICENTRO/Irati Talita Sauer Medeiros – UNESP/Assis

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Comissão Científica Ailton Jose Morelli – UEM Alessandra Carvalho – UEPG Ângelo Priori – UEM Antonio Cesar de Almeida Santos –UFPR Beatriz Anselmo Olinto –UNICENTRO Carmem G. Burgert - Universidade Federal do Rio Grande Cláudia Prado Fortuna –UEL Cláudio DeNipoti –UEPG Eulália de Moraes – FAFIPAR Fabiana Cardoso Malha Rodrigues –UFF Frank Mezzomo – FECILCAM/ Campo Mourão Gabriel Giannattasio – UEL Geni Rosa Duarte – UNIOESTE Gilmar Arruda - UEL Helena Isabel Mueller – UEPG Hélio Rebello Cardoso Jr – UNESP/Assis-SP Hélio Sochodolak – UNICENTRO/ Irati Jair Antunes – UNICENTRO/ Irati Jó Klanovicz - UNICENTRO José Jorge Andrade Damasceno - Universidade do Estado da Bahia José Miguel Arias Neto – UEL Leandro Henrique Magalhães- Centro Universitário Filadélfia – UniFil Liliane Freitag – UNICENTRO/ Guarapuava Lúcia Helena Oliveira Silva –UNESP/Assis Luciana Regina Pomari –Unespar/Fafipa Luciana Rosar Fornazari Klanovicz –UNICENTRO Márcia Elisa Teté Ramos – UEL Marcio Santos de Santana – UEL Marco Antonio Arantes –UNIOESTE Marco Antonio Neves Soares – UEL Marcos Gonçalves – UNESPAR Marcos Nestor Stein– UNIOESTE Maria Ignês Mancini de Boni - Universidade Tuiuti do Paraná Méri Frotscher Kramer– UNIOESTE Renata Cerqueira Barbosa – UEL Renata Senna Garraffoni – UFPR Rinaldo José Varussa-UNIOESTE Rivail Carvalho Rolim –UEM Roberto Massei - UENP – Jacarezinho Rogério Ivano –UEL Rosângela Maria da Silva Petuba-UEPG Rosemeri Moreira -Faculdades Guarapuava/LEGH-UFSC Sandra Regina Barbosa da Silva Souza -Universidade do Estado da Bahia A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

6 Silvia Cristina Martins de Souza –UEL Solange Ramos de Andrade –UEM Yonissa Marmitt Wadi – UNIOESTE

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Sumário St 01: Infância, Adolescência E Juventude: História E Historiografia............................08 St 03: África E Africanidades: História E Ensino.............................................................32 St 04: Cultura, Etnias, Identificações.............................................................................43 St 05: Memórias Contra-Hegemônicas, História E Ensino De História.........................82 St 06: Cultura E Letras No Brasil E Portugal (Séculos Xviii E Xix)..................................94 St 07: História E Linguagens........................................................................................114 St 08: História: Cotidiano, Saberes E Práticas Tradicionais........................................132 St 09: As Multifaces Do Poder Na História E Nas Ciências Humanas.........................140 St 10: História Ambiental: Questões, Temas E Perspectivas No Paraná....................152 St 11: Memórias. Identidades E Conflitos Sociais......................................................166 St 12: Patrimônio Histórico-Cultural: Reflexões E Relatos De Práticas.....................186 St 13: História Do Corpo: Masculinidades, Feminilidades E Gênero.........................226 St 14: História Da Mídia E História Na Mídia.............................................................247 St 15: Personagens Populares E Intelectuais Na Escrita Da História........................274 St 16: Estudos Clássicos, Gênero E Usos Do Passado...............................................285 St 17: Mundos Do Trabalho: História E Historiografia.............................................295 St 18: Instituições E Ideias Jurídicas.........................................................................326 St 19: A Escrita Da História Na Diversidade De Linguagens E Fontes: Música, Literatura, Cinema, Teatro........................................................................................................344 St 20: Crenças E Práticas Religiosas: Teoria E Metodologia...................................379 St 21: História Da Loucura E Da Psiquiatria............................................................419 St 22: Historiografia Paranaense: Matrizes & Mutações (Séculos XIX-XXI)...........428 St 23: Intelectuais: Gerações, Percursos, Ideias....................................................452 St 24: Documentos No Ensino De História: A Diversidade De Práticas De Leitura Apresentada Nos Currículos E Materiais Didáticos...............................................476 St 25: História Do Esporte, Lazer E Práticas Corporais .........................................485

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ST01- INFÂNCIA, ADOLESCÊNCIA E JUVENTUDE: HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA “Reação à lei”: notícias sobre o Código de Menores (Revista Veja, 1979) Anelise Rodrigues Machado de Araujo Discente no Programa de Pós-Graduação em História (Mestrado) Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Orientadora: Profª Drª Silvia Maria Fávero Arend Palavras-chaves: Infância, Leis, Mídia. Em meados de outubro de 1979 uma notícia considerada impactante correu o Brasil. Segundo a investigação de um repórter, Cláudio Faviere, a polícia paulista vinha submetendo “menores”, crianças com menos de 18 anos de idade, a violentas sessões de interrogatórios. A prática de promover interrogatórios em locais ermos e distantes das delegacias, conhecida por “pau de estrada”, costumava ocorrer para extrair confissões de “menores” supostamente envolvidos em atos criminais. A revista Veja, periódico semanal com alcance nacional, discorreu acerca do episódio em três páginas da edição nº 580, de 17 de outubro de 1979. Com o título “A escola da violência”, a matéria da revista Veja frisou que a ampla repercussão do caso acabou abafando outros dois acontecimentos que, conforme desejava o governo federal, talvez tivessem estampado as manchetes em plena semana do Dia das Crianças, comemorado dia 12 de outubro. O primeiro foi o encontro do então presidente, João Figueiredo, com 84 crianças das cidades-satélites de Brasília, como parte das ações da Semana da Criança. O segundo ocorreu dois dias após a conversa entre o presidente e as crianças, quando Figueiredo sancionou a Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979, que instituiu o Código de Menores. Segundo a reportagem, os dois eventos envolvendo a comemoração da Semana da Criança pouco repercutiram, pois a divulgação das fitas gravadas pelo repórter da Rádio Globo esteve no centro dos debates. A reportagem “A escola da violência” dedicou seus parágrafos finais a uma crítica ao Código de Menores sancionado naquela semana. O texto relaciona o Código a expressões como “campo do palavrório” e “declaração de intenções”, considerando-o pouco inovador se comparado às necessidades do país para lidar com os “problemas dos menores”. Afirmando que uma das poucas reais modificações propostas pelo Código se referia à adoção de brasileiros por casais estrangeiros, a matéria de Veja procurou demonstrar como as denúncias das sessões de interrogatório executadas com violência acabaram tomando conta das pautas jornalísticas de tal modo que o sancionamento do Código recebeu pouca atenção. Contudo, mais de um mês depois, em 28 de novembro de 1979, a revista trouxe uma matéria que tratava das repercussões da nova legislação. Intitulada “Reação à lei”, a reportagem corroborava com a anterior ao afirmar que a repercussão não causou grandes comoções quando o Código de Menores havia sido sancionado por Figueiredo na Semana da Criança de 1979. Porém, anunciava que a nova legislação, enfim, começava a repercutir. A matéria “Reação à lei”, a qual ocupou a página 129 da edição n. 586 de Veja, trouxe questionamentos levantados por diretores de redes de televisão e teatro especialmente acerca da censura que o Código de Menores impunha. A classificação etária para transmissões apresentados pela legislação exigiam uma adaptação de programas de televisão, rádio e das A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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apresentações teatrais. As novas medidas não foram bem recebidas por esses meios e logo o debate chegou à imprensa. Na seção “Das Casas de Espetáculos, das Diversões em Geral, dos Hotéis e Congêneres”, e, mais especificamente, na Subseção I, chamada “Dos Espetáculos Teatrais, Cinematográficos, Circenses, Radiofônicos e de Televisão”, o Código de Menores de 1979 previa um conjunto de regras para que “menores” pudessem comparecer, a trabalho ou como espectadores, aos locais que lidassem com espetáculos. Contudo, previa também que a maioria das prerrogativas que ali constavam poderiam ser suplementadas por decisões de outras autoridades judiciais. Era o que constava no artigo 52, o qual deixava explícito que mesmo o limite de idade fixado pelo Serviço Federal de Censura poderia ser modificado. Deste modo, a reportagem de Veja lida com o descontentamento dos produtores de tais programas de entretenimento. Acreditava-se que cada um das então 1.792 comarcas brasileiras lidariam com critérios de censura distintos. Com isso, temia-se que as redes de televisão precisassem, por exemplo, tirar determinado programa do ar somente em uma ou outra cidade, o que prejudicaria o trabalho da emissora. Neste contexto, verifica-se a existência de múltiplos debates em torno da legislação que visava dispor sobre assistência, proteção e vigilância a “menores”. O segundo Código de Menores brasileiro, sancionado 52 anos após o primeiro, esteve em vigor apenas durante a década de 1980. Com a efervescência das questões da infância e da adolescência nos palcos da sociedade brasileira, ocorrida durante aquela década, o Código de Menores logo cedeu lugar para o Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990. No intuito de colaborar com a produção historiográfica acerca das questões da infância, este trabalho visa analisar a implementação do Código de Menores de 1979 a partir das matérias produzidas e veiculadas na revista Veja. Apesar de estar disponível on-line para consultas, a revista foi pesquisada no acervo físico disponível na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis. Esta opção metodológica se deu devido a minucia viabilizada pelo suporte em papel. Ao lidar com um período cada vez mais estudado por historiadores e historiadoras, busca-se verificar os processos que fizeram com que crianças e adolescentes fossem tomados como sujeitos de direitos. Governar, assistir e tolerar: um estudo sobre as políticas sociais para infância e juventude no Brasil (1979 – 1990). Camila Serafim Daminelli Mestranda em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina Orientação: Prof. Dr. Rogério Luiz de Souza. Co-orientação: Profa. Dra. Silvia Maria Fávero Arend

Palavras-chave: Políticas sociais; legislação infanto-juvenil; jornais impressos. Resumo expandido: Uma das maiores contribuições de Michel Foucault para o campo da História da Infância e Juventude seja, talvez, a noção de biopolítica. Este conceito permite investigar os movimentos que tiveram esta população como alvo, durante todo o século XX, como tentativas de governar, através de suas condutas, a população de maneira geral. Foi através da criança e do jovem que uma série de saberes puderam entrar no campo das práticas privadas das famílias, práticas políticas que tem na vida sua centralidade, daí um biopoder. O estudo da legislação infanto-juvenil brasileira no século XX dá exemplos de como a vida das crianças e dos jovens entra nas técnicas de poder e de governo social. Para citar alguns, podemos imaginar a repercussão que causou o artigo que destituía, na legislação de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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1927, os pais do pátrio poder sobre os filhos e filhas devido às condições sócio-econômicas. Igualmente importante foram os decretos sobre a regulamentação do labor infanto-juvenil, que prescrevia tanto as condições em que os menores poderiam trabalhar, quanto as situações e atividades que não poderiam ser exercidas pelos mesmos. São alterações no âmbito jurídico, que por si sós não alteram as práticas sociais, mas que de maneira alguma passaram despercebidas pelas famílias na esfera das práticas culturais, uma vez que muitas delas, a custo de sua sobrevivência coletiva, tiveram que modificar seu cotidiano e suas maneiras de viver. O paradigma aberto pela noção de biopoder instaura também outras possibilidades para se pensar o poder como um exercício e como tal, não sendo um privilégio do Estado, se irradia, criando relações de poder em todos os seguimentos e relações sociais. Essa noção é muito importante quando o/a historiador/a analisa o Código de Menores de 1979. Em primeiro lugar, porque um olhar desavisado acredita que uma série de práticas estão extintas da realidade brasileira neste período, dada sua invisibilidade. Questões como o trabalho e a prostituição infanto-juvenis desaparecem. Outras, como no caso das infrações, estão menosprezadas no que concerne às possibilidades. Esses dados se tornam ainda mais importantes se levarmos em conta que estes temas foram trabalhados minuciosamente pelas leis anteriores, o Código de Menores de 1927, ou, no caso da prostituição, o tema é, ao menos, mencionado. Em um momento em que as fronteiras entre ser adulto ou ser criança estavam se fortalecendo cada vez mais – devido à noção de menor infrator, que apartava os/as pequenos/as do universo carcerário adulto brasileiro - causa estranhamento que a legislação específica infanto-juvenil sugira ao leitor que se dirija à Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) para questões relativas ao trabalho. Um segundo ponto importante é que este conjunto de leis não deve ser entendido como “tudo o que há por dizer”; se investigado juntamente com outros documentos, como os processos do poder judiciário, ou as reportagens de jornais, veremos que há uma série de práticas institucionais que não se pautam pelas normativas jurídicas. O contexto de formulação destas leis nos sugere que esta realidade não é fruto de erros operacionais ou falhas institucionais, mas uma decisão tomada propositalmente, dado que o mesmo foi escrito por um corpo de juristas que visavam deixar a maior margem possível para as decisões do Juiz de Menores. O passado recente que narramos, através da legislação infanto-juvenil e de reportagens sobre o cotidiano noticiado de meninos e meninas por dois jornais catarinenses, entre 1979 e 1990, sugere que há negligências, descompassos e prioridades na assistência à infância e à juventude no estado, mas também que as leis possibilitaram uma série de poderes sobre as suas vidas que não estão inscritas em suas linhas. O que encontramos como realidade noticiada pelos jornais catarinenses são ‘soluções’ exercidas pelo corpo policial e pelos braços da filantropia, quando, a rigor, as vidas dos/as pequenos/as estariam a cabo dos pareceres dos juízes. Problematizar estas questões e investigar o cotidiano da infância e juventude no Estado de Santa Catarina em suas relações de poder com a sociedade, as famílias e as instituições são parte do estudo que realizo para a escrita da dissertação de Mestrado, junto à Universidade Federal de Santa Catarina, na Linha de Pesquisa Relações de Poder e Subjetividades. A infância cidadã a partir do estatuto da criança e do adolescente Daniele Ditzel Mattioli1 Rita de Cássia daSilva Oliveira2

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Mestranda em Educação pela UEPG, historiadora, advogada, professora de História da rede pública de ensino do Estado do Paraná. 2 Doutora em Educação. Universidade Estadual de Ponta Grossa.

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Palavras-chave: Estatuto da Criança e do Adolescente. Ensino de direitos de crianças e adolescentes. Lei de Diretrizes e Bases. Esta comunicação é parte integrante de pesquisa do curso de Mestrado em Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa e busca apresentar uma análise entre a Lei de Diretrizes e Bases que torna obrigatório conteúdo que trate dos direitos de crianças e adolescentes no ensino fundamental e as determinações do Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes e do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos que também discutem a inserção do tema no currículo escolar. Durante muito tempo a infância não foi caracterizada como um momento especial, merecedor de cuidados e afeto para o desenvolvimento humano. As crianças eram tratadas na condição de adultos em miniatura, sendo desde então “orientadas para o trabalho, para o ensino, para o adestramento físico e moral, sobrando-lhes pouco tempo para a imagem que normalmente está a ela associada: do riso e da brincadeira” (DEL PRIORE, 2008, p.08). Apenas em fins do século XIX, com a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, é que o entendimento sobre a infância no Brasil é alterado. Nesse sentido, o ensino dos direitos de crianças e adolescentes tem como base a concepção de infância inaugurada no país com a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8069/1990 que passa a reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, que devem ser respeitados levando em conta a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. O ponto inicial deste trabalho foi a compreensão da formação cidadã da criança e do adolescente a partir dos princípios estabelecidos no ECA, por meio de levantamento bibliográfico e documental. A estruturação do trabalho parte de uma pesquisa qualitativa, porque se preocupa “com o significado dos fenômenos e processos sociais [...] que permeiam a rede de relações sociais” (PÁDUA, 1997, p. 31), estabelecidas entre os órgãos governamentais, não-governamentais, instituições e demais atores sociais envolvidos com as questões relacionadas à criança e ao adolescente. Utilizou-se como fundamentação teórica as contribuições de Kant (2006) sobre o papel da educação na formação do homem, bem como a valorização dos direitos humanos nesse processo e a abordagem de Bobbio (1992) sobre o conceito de direitos humanos. A pesquisa realizada envolveu a análise dos textos legais referentes à educação e aos direitos humanos de crianças (Constituição Federal de 1988; Estatuto da Criança e do Adolescente; Lei de Diretrizes e Bases; Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes; Documento Básico do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA para a realização da 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), bem como autores envolvidos na discussão da temática (CHAUÍ, 1999; COMPARATO, 2008; DEL PRIORE, 2008; MACHADO, 2003; OLIVEIRA e AMERICANO, 2003). O objetivo do estudo é analisar o parágrafo 5º do artigo 32 da Lei nº 9394/96 (Lei de Diretrizes e Bases), que torna obrigatório no currículo do ensino fundamental conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes em consonância aos textos do Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes 2011-2020 e dos Planos Nacionais de Educação em Direitos Humanos 2003 e 2007. As conclusões indicam que: a) o Estado brasileiro reconhece a educação como direito humano essencial; b) o ensino dos direitos humanos de crianças e adolescentes é uma prática necessária para a concretização do preparo para o exercício da cidadania definido como uma das finalidades da educação; c) para que a experiência da cidadania aconteça nas escolas os princípios que regem o Estatuto da Criança e do Adolescente devem ser de domínio dos profissionais da educação. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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O universo brincante da infância nas colônias italianas de Curitiba. Elaine Cátia Falcade Maschio Doutoranda do PPGE/UFPR Orientador: Marcus Aurélio Taborda de Oliveira O presente trabalho pretende apresentar a análise do universo brincante da infância nas colônias italianas nos arredores de Curitiba. Busca compreender a infância imigrante, e especialmente a infância de seus descendentes, e a relação com os brinquedos e as brincadeiras. Neste sentido, busca saber se existia um tempo lúdico da infância nas colônias italianas e se esse tempo tinha lugar no tempo produtivo do adulto. Assim, o estudo investiga qual era o tempo do brincar das crianças nas colônias italianas, predominantemente agrícolas; que tipos de brinquedos eram produzidos e com que recursos; quais eram as brincadeiras que permeavam o tempo da infância e como eram aprendidas. O recorte temporal estabelecido para esse estudo abrange as três primeiras décadas do XX e corresponde ao período em que a primeira e a segunda geração de imigrantes instalados nas colônias vivenciou sua infância. Momento também de grande desenvolvimento econômico destas comunidades. A fim de compreender melhor esse universo lúdico da infância na perspectiva histórica, foram privilegiadas fontes documentais localizadas no Arquivo Público do Estado do Paraná e em acervos particulares. Nestes acervos foi possível localizar documentos oficiais e iconográficos que apontaram para possíveis pistas sobre a ludicidade da infância nas colônias. Recorreu-se também a memória, aas lembranças do tempo da infância através da metodologia da História Oral. Trata-se de depoimentos, colhidos entre os descendentes da antiga colônia de Alfredo Chaves, ou ainda, localizados em obras bibliográficas que, abordando em seu escopo os diversos aspectos da organização das colônias. O diálogo historiográfico contemplou autores que trataram desde a imigração italiana, como Trento (1989), Franzina (2006); da história da imigração italiana no Paraná como Balhana (1978); e de autores que aprofundam a discussão sobre a compreensão histórica da infância como Gouvêa (2009), Kuhlmann e Fernandes (2004) e Becchi (1994). Cumpre notar que no Paraná, ainda que a necessidade de mão de obra estrangeira estivesse pautada na povoação e no desenvolvimento das pequenas propriedades para suprir as necessidades alimentares da população curitibana, os primeiros imigrantes italianos chegados ao estado foram estabelecidos nas regiões litorâneas. O intuito do governo era que esses imigrantes pudessem colaborar na produção da indústria açucareira, uma vez que os alemães e poloneses já estavam nos arredores de Curitiba promovendo a produção e o comércio de gêneros alimentícios. Entretanto, a transferência dos colonos italianos do litoral para o planalto Curitibano ocorreu muito antes do que o previsto. As precárias condições de permanência e a impossibilidade do cultivo nas colônias litorâneas forçaram o governo a transferir as famílias italianas que desejavam trabalhar também com a terra na produção de gêneros alimentícios desenvolvendo a sua própria forma de plantio. De forma gradativa, grande parte do contingente de imigrantes italianos dirigiu-se a Curitiba, fixando-se em novos núcleos coloniais formados através da compra de terras feita pelo governo do Presidente Rodrigo Octávio de Oliveira Menezes. Os núcleos coloniais Antonio Rebouças, Santa Maria do Novo Tyrol da Boca da Serra, Dantas (Água Verde), Santa Felicidade, Alfredo Chaves foram criados no ano de 1878 para abrigar aquele contingente imigrante que se deslocava do litoral. Os demais núcleos (Pilarzinho, Eufrásio Correia, Maria José, Presidente Faria, Santa Gabriela e Umbará) foram criados posteriormente até o início do século XX. As colônias italianas Santa Felicidade, Água Verde, Pilarzinho e Umbará correspondem atualmente a bairros de Curitiba. As demais colônias – exceto a colônia Alfredo Chaves que se tornou município no ano de 1890 A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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denominando-se Colombo - correspondem hoje a bairros de municípios que compõe a região metropolitana: Santa Gabriela no município de Almirante Tamandaré; Novo Tyrol no município de Piraquara; Antonio Rebouças no município de Campo Largo; Maria José no município de Campina Grande do Sul; Eufrásio Correia e Presidente Faria no município de Colombo. Essas colônias foram sendo organizadas de modo a estabelecer núcleos de produção agrícola. Portanto, eram comunidades rurais, que tinha na família o centro da relação social. A família, geralmente extensa, desenvolvia o trabalho diário na lavoura e na casa, praticavam as devoções religiosas, efetuavam as primeiras aprendizagens das crianças antes de enviá-las as escolas. Desse modo, partia da família a definição das concepções e representações sobre a infância. É a família que delimitava a divisão do tempo da infância: o tempo de auxiliar nos trabalhos domésticos e rurais, do tempo da devoção religiosa (orações e catequese), o tempo da escola, e o tempo das brincadeiras. Esses elementos, ao mesmo tempo em que contribuíram para ordenar a infância, promoviam a projeção social das crianças para a vida adulta. Deste emaranhado de aspectos, coube ao presente estudo trazer a tona o tempo livre da infância. O tempo de brincar. O tempo da infância da falta de responsabilidade com os afazeres delimitados pela família ou por outras instituições. Havia esse tempo, em que as crianças pudessem viver a infância plena das brincadeiras? Embora os documentos pouco tenham orientado sobre essa questão, ao contrário do que possa parecer, a condição do ser criança não foi negada nas comunidades agrícolas compostas por imigrantes italianos e de seus descendentes. Um tempo livre de atividades produtivas, de “obrigações” com a família, com a igreja ou com a escola pôde ser contemplado na análise sobre a infância nas colônias italianas. Além disso, na contra mão do que a historiografia apresenta, os adultos eram capazes de compartilhar o seu tempo produtivo com as crianças, ensinando e se envolvendo entre as brincadeiras. Analisando algumas destas questões, o presente estudo não tem a pretensão de elaborar uma reflexão sobre a história material da infância ou de esgotar a totalidade do tema. Há muitas outras possibilidades de investigar o universo brincante da infância imigrante. Entretanto, ao lançar um olhar mais atento para as pistas e para os indícios dos modos de brincar da infância nas colônias italianas, um repertório amplo de atividades e de brincadeiras espontâneas e regradas foi revelado. Fazia parte desse conjunto lúdico, os brinquedos improvisados e produzidos com materiais recolhidos da própria natureza, as filastrocche histórias e rimas infantis, e as atividades voltadas para a infância que evocavam as superstições e crenças populares concebidas ainda nas regiões de origem daquelas famílias. As brincadeiras espontâneas denotavam a liberdade da infância alcançada pela criança nos cotidiano regrado pela família. Imitando o mundo adulto ou lançando mão da imaginação, as crianças aproveitavam os instrumentos do trabalho e os espaços extensos das propriedades rurais para brincar. A análise do tempo livre na infância pôs em evidencia brincadeiras livres e imaginativas. Revelando ao mesmo tempo a universalidade das brincadeiras e os modos particulares de brincar, o universo brincante da infância estava associado ao seu contexto e ao cotidiano nas colônias. Compartilhando as brincadeiras, pais e filhos, nonos e netos, estabeleciam uma relação dialógica, pois o tempo e a atenção dispensados pelos adultos no ato de brincar caracterizavam os sentimentos de desvelo que estes demonstravam ter por aquele tempo inicial da vida. Palavras-chave: infância, brincadeiras, colônias italianas.

Entre a noção de delinquência e infração: Crianças e adolescentes sob a ótica da mídia impressa, Criciúma – SC. (1980 - 2000)

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Elisangela da Silva Machieski, mestranda no programa de Pós Graduação em História – UDESC, sob a orientação da professora Dra Silvia Fávero Arend. Palavras-chave: História. Infância. Imprensa.

“A criança é o futuro da nação”. Esta perspectiva de futuro, presente no senso comum, na atualidade, teve sua origem vinculada ao processo de transição do período monárquico para o republicano. Nesse contexto, a identificação da criança e do adolescente passou a ser vinculada as noções de fragilidade, de docilidade e sobretudo, na atualidade, de um indivíduo em formação. Este “cenário imaginado” era ameaçado pelo modo de vida das crianças e adolescentes pobres. Percebidas na qualidade de futuras cidadãs, não deveriam ficar a vagar pelas ruas ou trabalhar. A criança e o adolescente, a partir desse período passou a fazer parte de um projeto político que tinha por objetivo transformar o Brasil em uma nação civilizada, aos moldes dos países europeus. Tendo em vista este processo histórico, durante o século XX, a criança e o adolescente tornaram-se alvo do discurso médico, pedagógico, psicológico, jurídico e da mídia entre outros. Nesse sentido, a mídia no Brasil tivera um papel importante na difusão de um ideal de infância e de juventude, com base no pensamento burguês. Cabe destacar o papel da mídia impressa – jornal – que, através, sobretudo, de denúncias, difundiu o ideário da proteção e do amparo para os infantes pobres e abandonados, bem como da noção de menoridade penal para os considerados infratores. O jornal, assim como as demais mídias impressas, coleta e ao mesmo tempo alimenta a memória social. O discurso jornalístico se postula como um meio emissor e propagador de “verdades”, porém, temos que entender o mesmo como uma apropriação ou uma representação desse real, muitas vezes de forma fragmentada. A partir desta percepção, os jornais são considerados como um meio capaz de criar e fixar representações sociais acerca da sociedade. As fontes documentais que subsidiam este artigo são as reportagens e notícias publicadas nos jornais Tribuna Criciumense e Jornal da Manhã, entre 1980-2000, que tratam da temática da criança e do adolescente. A opção por esses dois periódicos deu-se por sua elevada importância, não apenas na cidade de Criciúma mas, também, na região carbonífera. O Tribuna Criciumense é o jornal com maior disponibilidade de acervo no longo período, fundado em 1955, contava com uma publicação semanal e assim funcionou até 1999, quando passou a ter publicação diária. A circulação, inicialmente, era restrita ao território municipal de Criciúma, somente no final da década de 1970 o jornal alcançou maior espaço de circulação, englobando grande parte da região carbonífera. Já o Jornal da Manhã teve desde sua fundação, 1983, publicação diária e ampla circulação em toda a região carbonífera. Ambos os jornais encontram-se no Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez, Criciúma/ SC O foco desta análise esta centrada na narrativa jornalística acerca da criança e do adolescente considerado infrator ou infratora visando perceber como foram construídas imagens negativas a respeito destes infantes. Na década de 1980, em Criciúma, os jornais passaram a retratar o considerado problema social das crianças e adolescentes – abandonado e delinquente - com forte veemência. Este fato esta associado às conjunturas nacionais e internacionais. É importante lembrar que o ano de 1979 foi instituído, pela Organização das Nações Unidas, como o Ano Internacional da Criança. Neste mesmo sentido, na década de 1980, no Brasil, temos um conjunto de atores sociais que lutaram em prol dos direitos da criança, que resultou na instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990. O recorte temporal, 1980 a 2000, foi pensado de maneira a articular os fragmentos jornalísticos a vigência da legislação voltada ao público infanto-juvenil. Na primeira década do A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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recorte temporal selecionado era vigente o Código de Menores de 1979. No segundo momento verifica-se a instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente. Busca-se estabelecer então um paralelo entre a narrativa jornalística e as referidas leis com o intuito de identificar se a mudança da legislação interferiu sobre o discurso da mídia impressa em relação às crianças e adolescentes considerados infratores e infratoras.

Juventude e viveres urbanos: identidades e sociabilidades no Porto Meira (Foz do Iguaçu, décadas de 1990 e 2000) João Paulo De Souza Miglioli Graduado em Historia pela UNIOESTE Mestrando junto ao Programa de Pós-Graduação em História, Poder e Práticas Sociais UNIOESTE Bolsista CAPES Orientador: Prof. Dr. Robson Laverdi Palavras chave: Juventude, Periferia, Foz do Iguaçu Este trabalho tem por intuito discutir como jovens da “periferia” de Foz do Iguaçu/PR tecem suas relações entre si e com o próprio bairro Porto Meira daquela cidade. As diversas formas pelas quais estes sujeitos organizam e pensam suas vivencias nos levaram a pensá-las para além de estereótipos e categorias que, ao que tudo indica, não dão conta da análise, e nem de modelo de explicação para pensar a multiplicidade de experiências desses jovens. O Porto Meira – hoje conhecido como a região da Grande Porto Meira, devido às suas dimensões se constitui com aproximadamente trinta e dois bairros, com uma população aproximada de mais de 40 mil habitantes, – localiza-se na região sul da cidade de Foz do Iguaçu/PR. A região está separada pelos rios Paraná e Iguaçu do Paraguai e da Argentina, respectivamente. A constituição do Porto Meira, como muitos outros bairros da cidade se deu de forma heterogênea, formado por ocupação de áreas de fundo de vale, ocupação da barranca do rio. Onde em muitos casos, e um em específico pode ser emblemático, foi o da “Favela do Queijo” que foi transposta de uma área próxima ao “centro” da cidade para o Porto Meira, inclusive conservando seu nome e os “barracos” que foram simplesmente desmontados e reconstruídos nessa localidade. Durante a década de 1970 a região foi um importante local de comércio, realizado via travessia do rio Iguaçu por balsa entre Brasil e Puerto Iguazu, Argentina. Depois da desativação dessa balsa, após a construção da ponte Tancredo Neves, a região passou a ser menos importante economicamente. Geograficamente, essa região pode ser pensada como um grande “mosaico”, na medida em que suas feições atuais nos permitem perceber que convivem dentro deste grande espaço localidades distintas umas das outras, ou seja, áreas mais periféricas separadas de outras mais bem estruturadas. Em fase inicial, grande parte das discussões que me levaram realizar tal pesquisa se deve ao fato de eu próprio ser morador dessa localidade e não concordar inteiramente com algumas abordagens que procuram quase sempre encontrar explicações globais para pensar, não só a questão da juventude, mas esta ligada a áreas ditas periféricas. Explicações que buscam encontrar muitas vezes um “remédio” para acabar com os males do ambiente negativo que é a periferia. Realidade esta que leva quase que sem outra sorte a maioria dos jovens dessas localidades a se tornarem potenciais criminosos ou serem mortos pela violência cotidiana. Procuro discutir com uma leitura pessimista sobre jovens moradores de áreas periféricas que partem de uma perspectiva sociológica afirmando que há uma crise de valores, tanto na sociedade e na juventude. Busco A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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pensar outro “perfil” desses jovens com os quais procuro dialogar sobre suas experiências. Todavia não pretendo criar simplesmente uma leitura alternativa às outras já existentes; o que busco é perceber que esse jovem é múltiplo, suas práticas e experiências não são unas, as formas com as quais tecem suas teias de sociabilidades não são únicas e dependem de meios que não podem ser explicados apenas pelo viés da desilusão ou da classe social, ou simplesmente pela ausência de um estado provedor de benefícios. Assim, ao lançar o olhar sobre essa localidade e sobre as vivencias desses jovens optei por utilizar as fontes provenientes dos depoimentos orais, pois é uma forma mais direta de lidar com as trajetórias de vida desses sujeitos e como interpretam e vivem com essa realidade. Assim também, como reelaboram e dão significado às suas vivências. Essa opção não se dá única e exclusivamente pelo fato de querer “dar voz” a estes sujeitos. Mas, me debruçar nesta pesquisa e buscar pensar historicamente as especificidades da localidade e dos sujeitos com os quais estou dialogando. Tendo em vista que a grande maioria dos trabalhos acadêmicos e outras obras lidam com periferias de grandes centros urbanos. O intuído é promover uma discussão relativa à própria formação do bairro, todavia vivido e experimentado por jovens.

Um conflito de táticas e estratégias: a rua como espaço cotidiano de brincadeiras da infância pobre e/ou abandonada de Feira de Santana/BA entre 1890 e 1945. Lívia Gozzer Costa Mestranda em História Social pela Universidade Estadual de Feira de Santana sob orientação da Profª Drª. Andréa da Rocha Rodrigues.

Palavras-chave: infância; cotidiano; brincadeiras. O presente texto pretende analisar o cotidiano de brincadeiras vivenciado pela infância pobre e/ou abandonada de Feira de Santana no período que se estende de 1890 a 1945. Paralelamente, buscamos traçar o cenário social, cultural e econômico no qual estavam inseridas estas manifestações lúdicas e cotidianas praticadas pelos sujeitos deste trabalho. Ver-se-á que um projeto de cidade civilizada arquitetado para a feira na transição do século XIX para o XX esteve em diversos momentos ameaçado pelas experiências de brincadeiras, jogos de azar e trabalhos vivenciados pelos meninos pobres e/ou abandonados e, concomitantemente, pela inexistência de instituições assistencialistas direcionadas ao gênero masculino, uma vez que em Feira de Santana havia apenas um estabelecimento voltado à proteção das meninas órfãs e abandonado – o Asilo Nossa Senhora de Lourdes. A questão da infância pobre e/ou abandonada emergiu enquanto um problema nas documentações aqui analisadas na transição do século XIX para o XX, período que remonta crises de ordem econômica (secas, câmbio, carestia de alimentos, etc.) se não determinantes, ao menos influentes no que tange o empobrecimento das camadas mais economicamente vulneráveis da sociedade. Problema porque, até onde a literatura e as fontes nos permitem afirmar, inexistiram quaisquer iniciativas e/ou apelos em torno da imprensa no que tange o recolhimento, assistencialismo e filantropia às crianças pobre e/ou abandonada da Feira de Santana de meados do século XIX. Logo, o recorte temporal aqui proposto é particularmente importante no aspecto do despertar da sociedade como um todo para o destino dos sujeitos objetos deste estudo. Tal contexto se alia a outro, não menos importante, porém pouco analisado pela produção historiográfica feirense: a abolição da escravidão e a incorporação da mão de obra livre-assalariada nos centros urbanos em desenvolvimento. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Também não podemos desmerecer o fato de Feira de Santana ter sido, durante boa parte de sua história, uma cidade com índices habitacionais voltados majoritariamente para o campo em detrimento do urbano. Das 69.911 pessoas que habitavam a Feira de Santana de 19073, pouco mais de 22 mil localizavam-se no perímetro urbano. O baixo índice populacional a nível urbano não contabiliza, no entanto, as migrações pendulares, caracterizadas pela presença daquelas pessoas que se utilizam de um espaço da cidade diariamente a fins de trabalho ou comercialização de produtos, muito comuns em Feira de Santana, tendo em vista tratar-se esta cidade de ser uma região de comércio próspero e localização geográfica estratégica – entre o sertão e o recôncavo. Tal cenário, composto pelas supracitadas crises econômicas, pela abolição da escravidão e da necessidade da força de trabalho livre e assalariada, bem como a predominância de uma população urbana mesclada e heterogênea (composta de sujeitos das áreas rurais, suburbanas, de outras regiões da Bahia ou Brasil, interessados no mais das vezes nas benesses das práticas comerciais comuns nesta cidade, retirantes advindos das secas, etc.) é o pano de fundo onde protagonizaram os personagens desta pesquisa. Em sua esmagadora maioria meninos, possivelmente filhos da pobreza, sobreviventes das secas, libertos da lei do ventre livre, órfãos, abandonados ou quem sabe até donos de seu destino, uma vez que poderiam ter escolhido as aventuras das ruas à segurança de um lar, como possivelmente tenha sido o caso do menor Ramiro “de cor preta, de 13 a 14 anos de edade, de pouco crescimento, que desde segunda-feira 7 do corrente não voltou á casa” de seu padrinho (Gazeta do povo, 17/11/1892, “Menor desaparecido”). O cotidiano destes menores se deu nas ruas, nas vielas, nos becos, nas praças, na feira. Numa Feira ansiosa por mudanças em suas estruturas físicas e hábitos de uma população mista, uma elite econômica e letrada feirense buscava destruir certa ordem rural que remontava às origens desta urbe, na intenção de prepara-la para receber as luzes do progresso que já haviam iluminado outras cidades do Brasil. “A nova cidade, em considerável desenvolvimento urbano, já não podia permitir que determinadas práticas continuassem em voga pelas suas ruas” (OLIVEIRA, 2000: 14). Mas foi no cotidiano desta cidade que os meninos pobres e abandonados sujeitos deste trabalho inventaram as artimanhas e táticas4 necessárias para rumar na contramão do progresso ansiado pelas elites. Neste sentido, buscamos “analisar as práticas microbianas, singulares e plurais, que um sistema urbanístico deveria administrar ou suprimir e que sobrevivem a seu perecimento”. Além do mais, desejamosseguir o pulular desses procedimentos que, muito longe de ser controlados ou eliminados pela administração panóptica, se reforçam numa proliferação ilegitimada, desenvolvidos e insinuados nas redes da vigilância, combinados segundo táticas ilegíveis, mas estáveis a tal ponto que constituem regulações cotidianas e criatividades sub-reptícias [...] (CERTEAU, 2009: 162).Uma forma de trilhar o cotidiano dos meninos pobres e/ou abandonados existentes nas ruas da cidade de Feira de Santana entre 1890 e 1945 é através dos relatos da imprensa local. Defensores de um projeto urbanístico e progressista, os jornais feirenses acabaram detalhando elementos cotidianos destes personagens. Neste estudo daremos ênfase aos momentos lúdicos, de divertimento e entretenimento vivenciados pelos menores, ocasiões estas bastante 3

Disponível no site do IBGE, sessão Documentos Históricos. Arquivo: “População do Brazil por Municípios e Estados (1907 – 1972)”. 4 Lançamos mão dos conceitos de estratégia e tática encontrados em Certeau (2009), entendendo por estratégia o conjunto de forças possíveis na medida em que um sujeito que detém o poder (econômico, científico, político) se isola em um ambiente próprio que o possibilita gerenciar uma exterioridade distinta da sua através dos discursos, das leis, das regras, de códigos, etc. Por outro lado, as táticas são cálculos que independem de um lugar próprio e de um discurso formulado. Assentam-se nas decisões, no tempo, extraindo elementos estranhos do forte para alçar possibilidades de ganho. No cotidiano dos meninos pobres e/ou abandonados objetos deste estudo há costumeiramente a consagração dos tipos táticos, ou seja, vitória dos fracos sobre os fortes.

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enaltecidas pela imprensa, uma vez que a imagem a eles atrelada remontava quase sempre à ociosidade em detrimento do trabalho. Referências bibliográficas CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. OLIVEIRA, C. F. R. M. De empório a Princesa do Sertão: Utopias civilizadoras em Feira de Santana (1893-1937). (Dissertação de mestrado), UFBA, Salvador. 2000. Conjuntura política e estruturação acadêmica: a participação juvenil nos anos 1960 e 1970. Márcio Santos de Santana – Doutor em História Econômica – UEL. Palavras-chave: Juventude – Reforma Universitária – Ditadura Militar.

Dois movimentos distintos estruturam o artigo. O primeiro movimento, de ordem teórica, será uma reflexão sobre as instituições educacionais e o intelectual (sobretudo, os estudantes) e seu papel na sociedade. O segundo movimento, com vistas a repor a historicidade da pesquisa, nos conduz à análise do processo de constituição e implantação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1970/1971, bem como seus desdobramentos posteriores, sobretudo em face da criação dos cursos de Estudos Sociais, em substituição aos de História, Geografia, Filosofia e Ciências Sociais, à luz da Reforma Universitária de 1968 e as pressões do regime militar. As características sublinhadas anteriormente possibilitam visualizar como, pela natureza do trabalho na universidade, a trajetória dos principais atores do debate constrói-se, o tempo todo, a partir de antagonismos, dualidades e ambiguidades, que se constituem em significativa medida, elementos fundamentais para responder às questões propostas. Cabe também ressaltar as proposições colocadas pelas reflexões de Antônio Gramsci, que se ocupou com zelo dos temas relacionados ao “papel dos intelectuais”, pela abrangência de suas considerações a esse respeito e, ainda, por dois outros aspectos. O primeiro seria ele identificar que a reprodução dos valores que interessam aos dominantes na sociedade capitalista é projetada, construída e disseminada por intelectuais. O segundo seria ele eleger a escola, chegando a mencionar aspectos específicos da universidade, como lugar privilegiado dessa construção ideológica. Contudo, é na junção desses dois aspectos em seu pensamento que reside a questão mais valorizada nesta pesquisa. Ela consubstancia-se na possibilidade de resistência a esse papel de reprodutor da cultura que se confere aos intelectuais, se, ao tornarse conhecedor desse papel, o intelectual reflita sobre como ele pode encontrar, nessa reflexão/ação, o espaço de resistência aos mecanismos de reprodução do sistema. É possível não se concordar com a medida da possibilidade de transformação que Gramsci deposita no intelectual e na instituição escola – nesse caso, a universidade –, mas é necessário e justo reconhecer seu mérito ao perceber essa possibilidade. À luz das considerações traçadas, a análise terá como marco inicial o projeto de universidade proposto pela Reforma Universitária de 1968 no Brasil – início cronológico da investigação. Esse projeto pode ser definido como tecnocrático e direcionado aos interesses do capital. Podemos indicar, acompanhando a discussão de Bomeny (1994), alguns antecedentes da reforma de 1968. A criação da Universidade de Brasília (UnB) em 1961, bem como a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) são considerados marcos importantes desse movimento. A UnB é retratada como “projeto seminal” da universidade. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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O ano de 1968, tão carregado de simbologia no que concerne à participação política juvenil, sobretudo em razão dos eventos conhecidos como Maio de 68, tem importância especial para se pensar a criação das universidades paranaenses, pois, a realização da reforma universitária produziria acentuadas transformações na formação profissional no Brasil, haja vista a reestruturação dos três níveis de ensino (o fundamental, o médio e o superior), revelando um processo de reordenação do sistema educacional do país. A participação política da juventude se fez por meio de variados expedientes, sobretudo em razão da ação do aparelho de repressão montado pelo regime Militar, cuja ação no Paraná se deu de forma intensa e sistemática por conta da Delegacia de Ordem Política e Social do Paraná (Dops). Os jovens universitários se mobilizaram de variadas formas. Um desses núcleos de ação se deu em torno das eleições de 1972 para o Diretório Central dos Estudantes (DCE). O grupo permaneceu na militância por um bom tempo, mesmo não tendo conseguido a reeleição no ano seguinte. O grupo “Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima” se consolidou na oposição, sobretudo em razão de sua militância na imprensa alternativa. Essas e outras iniciativas serão objeto central da reflexão.

Imagens da infância, imagens da guerra: pequenos soldados em cartões-postais franceses no contexto da grande guerra (1914-1918) Marco Antonio Stancik Doutor em História pela UFPR Professor Adjunto do Depto. História e do Programa de Pós-Graduação em História da UEPG Palavras-chave: Primeira Guerra Mundial; Cartões-Postais; História e Imagem Quando o governo francês decretou a mobilização, no início da Grande Guerra, mais tarde denominada Primeira Guerra Mundial (1914-1918), por todo o país foi entoada a Marseillaise, aos gritos de “Vive la France”, “Vive l’Alsace”. Completando aquele quase clima de festa, os militares exibiam vistosos uniformes, com suas características calças vermelhas. Os integrantes da cavalaria desfilavam portando espadas e capacetes guarnecidos de plumas, suntuosos resquícios do século XIX, em sintonia com a tradicional visão romântica da guerra, ainda vigente. Enquanto a população depositava flores nos fuzis dos combatentes a caminho do front, a crença geral era que tudo se resolveria muito rapidamente e que em curto espaço de tempo seu retorno se daria na condição de heróis vitoriosos, para a maior glória francesa. Difícil, hoje, tentar compreender tal estado de espírito e tais anseios. Contudo, na França do início do século XX há muito se falava da iminência e/ou da necessidade da guerra. Afinal, o país convivia com a ideia da revanche contra os alemães. Esse sentimento já durava algumas décadas, tendo se iniciado em 1870. Naquele ano, a derrota sofrida pelos franceses na Guerra Franco-Prussiana resultou não apenas na unificação da Alemanha, mas também na ultrajante perda dos territórios da Alsácia e da Lorena. Seguiu-se o sentimento de humilhação experimentado por toda a população francesa. O desejo de vingança passou a ser alimentado desde então, tendendo a impregnar a política, a cultura, o imaginário coletivo, portanto, a vida cotidiana do povo francês. Para fomentar tais sentimentos, além do Exército, contribuíram ainda instituições como a Igreja, o sistema de ensino, sob o patrocínio do Estado, e mesmo o ambiente familiar. E assim, desde as últimas décadas do século XIX, as crianças francesas aprendiam a manejar armas na escola primária. Sempre tendo em vista, entre outros objetivos, retomar a Alsácia e a Lorena e A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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eliminar a ameaça representada pelo poderio militar do sempre próximo Estado Alemão, seu inimigo histórico. No mesmo contexto da Guerra Franco-Prussiana, ou seja, na década de 1870, foi divulgada uma invenção que rapidamente se tornou muito popular: o cartão-postal. Segundo alguns, uma invenção austríaca, segundo outros, fruto da criatividade alemã. O fato é que o número de postais produzidos em países como a Alemanha, a França, a Inglaterra e a Bélgica já era contado aos milhões na Europa das primeiras décadas do século XX. Liderando tal indústria, a França teria produzido mais de 120 milhões deles apenas no ano de 1910. No país, entre os muitos temas abordados às vésperas e durante a Grande Guerra, numerosos postais apresentavam caráter nitidamente beligerante, ou faziam apologia ao militarismo, enaltecendo a imagem do militar francês e demonizando o inimigo. Em tais casos, o soldado tendia a figurar como um gentil cavalheiro, dedicado não apenas ao seu país, mas à esposa ou namorada. Ao mesmo tempo, o uso do uniforme militar e o porte de armas o distinguiam também como um homem forte e corajoso, pronto para o auto-sacrifício em favor de causas consideradas nobres e patrióticas. O militar constituiria, assim, importante esteio e fonte de esperança da Pátria na resolução de seus problemas. Constata-se ainda que o soldado muitas vezes comparecia nos cartões na figura de crianças que trajavam uniformes militares, ostentavam armas de brinquedo, e/ou que se apresentavam em cenários que remetiam a campos de batalha. Lá, combateriam o inimigo, em regra personificado pelo soldado germânico, ou boche, como era habitualmente citado, de forma pejorativa. Geralmente, tais postais eram coloridos com as cores pátrias. Assim, a França estimulava suas crianças para a luta contra o inimigo alemão, propondo a revanche como uma de suas mais sagradas missões. Os postais contribuíram, portanto, no sentido de reafirmar, legitimar e manter tal suposta missão sempre presente no imaginário francês das vésperas e durante a Grande Guerra. A partir da análise das mensagens transmitidas pelas imagens veiculadas pelos postais franceses produzidos e/ou circulados antes e durante aquele conflito, pretende-se explorar as mensagens que fizeram apologia à guerra e que, para tal, serviram-se desse importante meio de comunicação, amplamente utilizado no período. Para isso, são analisadas as imagens da infância, as quais eram apresentadas pelos cartões-postais em trajes similares aos militares e em pose e circunstâncias que remetiam a situações bélicas. O objetivo é evidenciar as representações que, divulgando tais imagens que remetem à infância e à guerra, o faziam de forma a contribuir para instigar e fortalecer o desejo de vingança contra a Alemanha. Simpósios temáticos: Instrução e trabalho: a experiência dos ingênuos no Paraná (1871-1888) Noemi Santos da Silva – mestranda em História Social (UFPR) Orientação: Profª Dr.ª Joseli Maria Nunes Mendonça Palavras-chave: ingênuos - instrução pública – século XIX Este trabalho centra sua análise no envolvimento de “filhos livres de mulher escrava” com as práticas escolares no Paraná escravista. Estes menores foram comumente denominados de “ingênuos” e constituem a parcela social livre por nascimento após o decreto da Lei de nº 2040 de 28 de Setembro de 1871, também chamada de “Lei do Ventre Livre”. A lei garantia parcos direitos aos filhos de escravas, pois previa que os mesmos vivessem como posse do senhor de suas mães até a idade de oito anos, dado este período, o senhor optava entre permanecer com o menor até que este completasse a maioridade, desfrutando gratuitamente de seus A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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serviços, ou entregá-lo ao Estado, o qual o indenizaria com uma irrisória quantia. O período estudado (1871-1888) é marcado por intensas discussões no âmbito político acerca do término da escravidão no contexto brasileiro, momento no qual, se opta pela Abolição gradual tendo em vista solucionar o problema do suprimento da mão de obra e ainda formular medidas que favorecessem a inserção de ex-escravos no mundo do trabalho livre. Entre tais medidas encontram-se aquelas associadas à escolarização, pois, à instrução foi dada a missão de promover a formação desse grupo para um devido preparo para a liberdade que, supostamente, esses indivíduos deveriam vivenciar. Estas ações refletiam a intensidade de valores comuns à época, como os ideais de civilização e progresso, itens consideravelmente presentes nos discursos oficiais. Na Constituição Imperial, ingênuos possuíam direito à instrução primária gratuita, e em 1883, o Regulamento da Instrução Pública da província paranaense incluía os filhos livres de mulher escrava como crianças atingidas pela obrigatoriedade escolar. Resta conhecer, entretanto, se estes menores frequentaram a escola de maneira semelhante às demais crianças livres ou se ouve distinção na forma de acesso à instrução pública. Pretende-se ainda compreender de que maneira foram formuladas as propostas educacionais discutidas pela elite política imperial, pela intelectualidade abolicionista ou mesmo por grandes proprietários, quando direcionadas aos ingênuos brasileiros. Estes intentos podem ser atendidos através da consulta e análise da legislação, periódicos, como o jornal Dezenove de Dezembro, Anais de Congressos Agrícolas de 1878 e publicações de cunho político sobre escravidão e abolição, como a obra de Perdigão Malheiro “A Escravidão no Brasil” e o clássico de Joaquim Nabuco “O Abolicionismo”, os quais trazem postulações acerca do futuro projetado para os libertos e ingênuos da nação. Para tomar dimensão das práticas escolares envolvendo ingênuos no Paraná é utilizada a documentação oficial da província, a qual envolve Relatórios e Correspondências de Governo e, principalmente, a documentação escolar, composta por mapas escolares, listas de matrícula e frequência, termos de vista, Relatórios de professores e inspetores entre outros escritos. Este corpo documental é significativo por mencionar, muitas vezes a condição dos alunos (se livres, libertos, escravos ou ingênuos) ou mesmo destacarem situações interessantes e atípicas que demonstram de alguma maneira a forma como o assunto foi debatido entre agentes sociais diretamente envolvidos com o cotidiano escolar. A documentação utilizada na tarefa investigativa encontra-se disponível no Departamento de Arquivo Público do Paraná, Biblioteca Pública, ou em formato digital. O debate historiográfico sobre a instrução dos ingênuos é consideravelmente recente, grande parte das pesquisas se associa à História da Educação, ramo onde é possível verificar uma ampla gama de trabalhos referentes à maneira como foi realizada a escolarização desse grupo em outras regiões do império, fator que permite dialogar de maneira comparativa com tais experiências. O embasamento teórico de análise também contempla a História Social da escravidão tendo em vista compreender o processo abolicionista nacional e regional, além de refletir sobre a experiência de liberdade vivida pelos ingênuos. A pesquisa encontra-se em andamento, entretanto, alguns indícios já localizados permitem refletir alguns aspectos. As evidências documentais demonstraram que os projetos educacionais direcionadas aos ingênuos brasileiros tenderam a considerá-los como mão de obra útil ao senhor de suas mães, por isso, foram frequentes propostas de escolarização, as quais vinculassem educação e trabalho, principalmente no formato de aprendizado de ofícios. Além disso, muitos projetos discutidos pelo corpo político associaram tais menores ao que se entendia por “vícios do cativeiro e da raça”, características supostamente intrínsecas aos negros que precisavam ser corrigidas e civilizadas pela luz da instrução. O acesso dos ingênuos à escolarização no Paraná evidenciou o envolvimento dos mesmos com práticas escolares peculiares: no período noturno, juntamente com adultos. Esta tarefa investigativa pode complementar estudos sobre a história da infância e da escravidão A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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no contexto paranaense oitocentista, além de enriquecer a discussão em torno da emblemática questão da educação dos negros no período imperial. Os Aprendizes: recrutamento e disciplina nas Companhias de Aprendizes Marinheiro de Pernambuco. (1857-1870). Wandoberto Francisco da Silva Mestrando do Programa de Pós-graduação em História da UFRPE. Orientadora: Profª. Dra. Alcileide Cabral do Nascimento - UFRPE Instituição: Universidade Federal Rural de Pernambuco. Palavras – chave: Criança – Recrutamento - Marinha 1. INTRODUÇÃO As investigações direcionadas à infância no Brasil têm apresentado um crescimento que já se torna visível no campo das ciências humanas e sociais. No entanto, o tema do recrutamento de crianças no país ainda apresenta um quadro limitado. No que se refere à Pernambuco, espaço que comporta escolas militares desde a segunda metade do século XIX, especificamente, as Companhias de Aprendizes da Marinha, existe um espaço amplo para pesquisa e para por em evidência a história de pequenos aprendizes bem como a construção da própria memória da Marinha no Estado. O engajamento de menores em atividades ligadas ao mar é uma herança que vem desde o período colonial. Todavia, foi durante o século XIX, especificamente, a partir do segundo reinado, que essa prática aparece acompanhada do estabelecimento de instituições de formação de marinheiros. O presente trabalho tem como objetivo central historicizar o recrutamento de crianças para as Companhias de Aprendizes da Marinha de Pernambuco, localizada no Recife, durante o período de 1857 a 1870. Compreender como e por que razões o Estado imperial direcionou suas forças para arregimentar os enjeitados das casas de caridades, os órfãos de pais e de mães e os garotos de famílias pobres, tornou-se, em nossas análises, um problema e uma questão a ser investigada. É importante perceber que esforços empreendidos para o recrutamento de crianças durante o século XIX não se resume apenas a necessidade de alcançar um determinado número de reserva militar para os quadros da Marinha e até mesmo do Exército brasileiro. Manter esses garotos e jovens em instituições militares era também uma forma de colocá-los sob a vigilância de um Estado que começava a se organizar com políticas de prevenção, contenção e cuidados com a população. A esses estabelecimentos militares coube a importante função de inserir socialmente, disciplinar e tirar das cidades aqueles que já não eram vistos como o doce símbolo da inocência, mas como elementos potencialmente perigosos e perturbadores da ordem pública. 2. OBJETIVO. Pesquisar e historicizar o recrutamento de crianças em Pernambuco, especificamente, aquelas alistadas à força ou voluntariamente para as Companhias de Aprendizes da Marinha, durante o período de 1857 a 1870. 3. METODOLOGIA As fontes documentais que viabilizam este trabalho e que formam o nosso acervo primário estão todas digitalizadas e em forma de manuscrito. Por meio das séries de documentos, Arsenal da Marinha e Ministério da Marinha (1857 -1870), disponíveis no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, pretendemos detectar quais as formas utilizadas pelas Escolas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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de Aprendizes, para arregimentar garotos pobres, enjeitados e órfãos no estado de Pernambuco. As Leis imperiais (1855-1870), disponíveis no site da Câmera dos Deputados, servirão para identificarmos quais as determinações legais para o recrutamento, já que, o governo imperial foi progressivamente sancionando leis que visavam sanar a falta de planejamento e o esvaziamento de homens nas Forças Armadas. Além dessas fontes citadas, analisamos o Diário de Pernambuco (1857-1870), principalmente, a parte dedicada ao Ministério da Marinha. Nesse espaço do periódico, saíam às listas dos menores alistados nas companhias de aprendizes, as condições dos garotos nesses estabelecimentos militares e outras informações oficiais ligadas a Armada. Os Anais Pernambucanos e os Relatórios de presidentes de província (1857-1870) também se configuram como fontes privilegiadas de análise. O nosso lugar de pesquisa se propõe em “dar voz” aos vencidos e privilegiar os pequenos sujeitos históricos, fazendo emergir em nosso trabalho aqueles garotos que foram inseridos em uma “arcaica tradição do Estado brasileiro”: a de facultar o acesso de crianças a situações de conflito. Para isso, utilizaremos o método indiciário proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg, que consiste na investigação “detetivesca” a partir de pistas, indícios, símbolos e o exame de pormenores em detrimento de fatos e coisas evidentes. 4. RESULTADO E DISCUSSÕES A entrada de crianças na Marinha criou a possibilidade de formar tropas profissionais. Os aprendizes dessas instituições recebiam o treinamento específico de um marinheiro. Eram apresentados, logo cedo, a rotina e a disciplina próprias de um homem do mar. Meninos que ainda na juventude seriam destinados a ocuparem os espaços vazios que o recrutamento forçado e o alistamento de voluntário não conseguiriam preencher. Nesse caso, essa alternativa apresentava não só uma forma viável de suprir as tropas da Marinha de Guerra, mas, sobretudo, a possibilidade de ter marinheiros habilitados e disciplinados para atuarem de forma eficiente nessa força militar. A mobilização de menores para os quadros das Companhias de Aprendizes aconteceu por diferentes caminhos. Os enjeitados das casas de caridades foi uma das fontes que contribuiu para alimentar os quadros dessas instituições. Enviados pelos responsáveis da Santa Casa de Misericórdia ou por outros estabelecimentos semelhantes, os meninos eram inseridos na vida militar ainda nos primeiros anos de juventude. Os voluntários matriculados pelos pais e os enviados pela polícia seriam outras possibilidades de se conseguir menores para Companhias. Vale salientar, que muito desses meninos enviados pela polícia eram recolhidos nas ruas sob o uso de força, configurando-se não como alistamento voluntário, mas como recrutamento forçado. Os chefes de polícia, responsáveis por esse tipo de recrutamento, agiam como braço forte dos presidentes de província nos assuntos ligados à formação de reserva de marinheiros. A força era um mecanismo que essas e outras autoridades não hesitaram em utilizar para recolher das ruas os pequenos peraltas ou larápios, como eram chamados por essas autoridades. Essa medida foi autorizada pelo regulamento das Capitanias dos portos, que não isentavam do recrutamento, os menores que apresentassem algum tipo de capacidade para o ingresso na “profissão marítima”.5 Eram retirados das ruas aqueles garotos que estavam, segundo o discurso das autoridades, aumentando as fileiras dos desocupados ou ameaçando as propriedades e as 5

Ministério da Marinha. 1856. pp 4. Disponível em < http://www.crl.edu/brazil/ministerial/marinha> acesso em maio de 2012.

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vidas dos cidadãos. Esses tinham que ser afastados da mendicância ou vadiagem e serem colocados como reserva útil ao Estado. A preocupação de não deixar esses meninos na condição de vadio, dando-lhes uma ocupação, era visível mesmo quando esses eram retidos nas companhias temporariamente com a finalidade apenas de correção. Percebe-se que o recrutamento de menores se tornava uma prática significativa para os governos provinciais e as suas autoridades locais. Era através dele, que os presidentes de província, chefes de polícia e delegados conseguiriam tirar das cidades parte de uma infância vista como problema. Uma estratégia que beneficiava de um lado administração pública e de outro a Armada imperial que era suprida com braços para o serviço militar. 5. CONCLUSÃO A admissão de menores em instituições militares, especificamente as Companhias de Aprendizes Marinheiro, era uma prática comum nas províncias brasileiras do século XIX. No país o abandono de crianças passava ser uma prática rotineira. As instituições militares tornaram-se uma saída para os que fossem entregues em casas de caridade e para os filhos de famílias pobres. Além de representar um importante espaço para o envio daqueles garotos presos pelas autoridades policiais no processo de vigilância da cidade. Entendemos que o recrutamento de crianças no Brasil durante o período imperial surge ligado as novas necessidade de um Estado com tendências liberais, que evidencia em suas preocupações a importância de gerir por completo a política, os negócios, a economia, o território, a cidade e a população. Sobre a cidade recai um olhar vigilante que procura estabelecer uma população sem doenças, sem revoltas e sem crimes, eliminado das ruas os vadios, os contagiosos e os degenerados. Nessa conjuntura, aparece à preocupação, por parte do poder oficial, com o grupo de crianças, os órfãos e os expostos, que estavam inseridos nos espaços das urbes, juntamente com outros segmentos marginalizados da população, ameaçando a ordem estabelecida e sujeitos a adquirirem todo tipo de vício. O Arsenal da Marinha de Pernambuco tornou-se taticamente importante por absorver um excedente populacional considerado pelas elites como potencialmente perigosos (órfãos, enjeitados e meninos pobres), comportando-os em suas Companhias de Aprendizes. Era preciso para a recém-nação criar um modelo disciplinar capaz de tornar o homem passível, dócil e sujeito ao controle, no qual estava incluído o enquadramento e o adestramento de crianças e jovens potencialmente perigosos. A Companhia de Aprendizes Marinheiro cumpria essa função ao mesmo tempo em que fazia o papel de profissionalizar e formar futuros marinheiros, tão importantes ao Império brasileiro. 6. BIBLIOGRAFIA CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no Recife, 18221850. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2002. CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite imperial. Teatro de sombras: a política imperial. 2ª ed. – Ed: UFRJ, Relume-Dumará, 1996.

DONZELOT, Jacques. A polícia das Famílias. 3 Ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001. DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo, Cia. das Letras, 2002, p.19. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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FOUCAULT, Michel. Em defesa da Sociedade. São Paulo; Martins Fontes, 2006. ________. Vigiar e punir: Nascimento da prisão. 34 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. ________. Segurança, Território e População. São Paulo; Martins Fontes, 2008. GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais – morfologia e história. São Paulo: Cia das Letras, 1989. GRINBERG, Keila e SALES, Ricardo. (org.). O Brasil Imperial. Volume II: 1831-1870- Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. MARCÍLIO, Maria Luíza. História Social da Criança Abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998 NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. A ressaca da Marujada: recrutamento e disciplina na Armada Imperial. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1999. VENÂNCIO, Renato Pinto. Os aprendizes de guerra. In: História das crianças no Brasil, Del PRIORE, Mary. São Paulo: Contexto, 2000.

História local e identidade histórica: possibilidades para o ensino de história. Proponente: Gerson Luiz Buczenko. Graduado em História pela FIES (2009) e Mestrando em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (2011). Palavras-chave: História. História Local. Identidade Histórica. Resumo: O presente artigo apresenta um debate sobre o ensino de história no Brasil, abordando-se principalmente os conceitos de história local e identidade histórica. Inicia-se assim, com um resumo sobre a história da educação no Brasil e nesta, o ensino de história, optando-se ainda pela discussão das reformas curriculares sofridas durante o regime ditatorial que vem a afetar de forma pontual o ensino de história. Buscou-se ainda, o debate sobre a história local e a identidade histórica, abordagem destacada nos PCNs de 1997 e 1998. O presente trabalho ainda tem uma origem na pesquisa histórica sobre o Município de Campo Largo, situado na Região Metropolitana de Curitiba, marcado em seu nascedouro pelo tropeirismo, seguindo-se pela economia do ouro e, principalmente, a economia da erva-mate, onde alcançou grande desenvolvimento. Com a migração dos engenhos de erva-mate para Curitiba, o Município passou por longo período de prostração, ganhando destaque a partir de 1950, quando da instalação de empresas do ramo da louça e cerâmica. Assim, percebe-se como a história local, através do ensino de História, em sua prática diária em sala de aula, notadamente nas séries iniciais da educação básica brasileira, pode influenciar na formação de uma identidade histórica. Assim, este trabalho está organizado da seguinte forma: inicialmente fazemos um breve resgate da história do ensino de História na educação brasileira; em seguida, abordamos o ensino de história e a história local; e finalmente buscamos os conceitos de identidade histórica, concluindo pela importância da abordagem e valorização da história local no processo de formação da identidade histórica para o jovem neste início de um novo século. Na História da educação brasileira, houve inúmeras reformas educacionais ao gosto, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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ora das elites dominantes, ora ao gosto de governantes, que tentaram direcionar a educação de um modo geral, a atender seus objetivos particulares, assim afetando também o ensino da história. Não faltaram intelectuais de renome em nossa História da educação, que marcaram a ferro suas intencionalidades, iniciando-se com a forte influência do ensino Jesuítico através da Ratio Studiorum; as Reformas Pombalinas; a legislação direcionada para a educação a partir de 1824; a criação do Colégio Imperial de Pedro II em 1837; e, em seguida as grandes propostas para a educação como: Couto Ferraz (1854); Leôncio de Carvalho (1879); Benjamin Constant (1890); Carlos Maximiliano (1915); Luiz Alves e Rocha Vaz (1925); Francisco Campos (1931); Gustavo Capanema (1942), entre outros intelectuais que pensaram em aprimorar a educação brasileira. Assim, a educação brasileira caminhou em direção ao aperfeiçoamento, atendendo aos novos ditames da sociedade brasileira. No que se refere às propostas curriculares de história, ainda estão presentes velhos debates segundo Bittencourt (2006), que se iniciaram principalmente durante o regime militar, momento em que o Brasil viveu uma separação entre a produção historiográfica produzida nas Universidades brasileiras e estrangeiras e a produção escolar, quadro que somente passa a mudar ao final dos anos setenta, com novos debates sobre o encaminhamento da educação e, ao conhecimento que passaria a ser abordado diante daquilo que vinha sendo tradicionalmente ensinado em sala de aula. Durante o período ditatorial, com um clima indefinido de ora medo, ora de euforia por um crescimento econômico (GERMANO, 1993, p.160), o Brasil viu ser aprovada e colocada em execução em tempo recorde, a Lei nº 5.692/71 que iria fixar as bases para o ensino de 1º e 2º Graus, estabelecendo a integração das disciplinas de áreas afins, de forma que História, Geografia, Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e a Educação Moral e Cívica, foram incorporadas à área de Estudos Sociais, marcando várias gerações de estudantes em sua formação e, atendendo os pressupostos do regime em vigor, principalmente pela demanda profissionalizante, que acabou por estabelecer limites claros do acesso ao conhecimento. Na década de 1990, uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de nº 9394 de 1996, estabeleceu toda uma revisão na organização dos currículos, em seu conteúdo mínimo, além de outras alterações fundamentais para a educação brasileira. Atrelando-se à LDB (1996), em 1997, a Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação (MEC), propõe os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o primeiro e segundo ciclos da escola fundamental e, em 1998 os Parâmetros Curriculares Nacionais para o terceiro e quarto ciclos, com a principal finalidade de se caminhar para um currículo único para todo o país. Na área de História os PCNs, propunham especialmente uma mudança do ensino que até então era organizado de forma linear, para uma transformação em eixos temáticos, uma experiência já colocada em prática na década de 1980 no Estado de São Paulo, segundo Schmidt e Cainelli (2009). Assim, o professor, ao presenciar o retorno da disciplina de história como disciplina autônoma e obrigatória, passou a questionar a submissão do ensino de História a pacotes prontos, idealizados por técnicos ou intelectuais bem intencionados, sem o conhecimento da realidade escolar. Dessa forma, passou-se a repensar as práticas pedagógicas em geral e principalmente no ensino de História, face ao público estudantil que estava na escola, agora com uma diversidade cultural maior, fruto dos processos migratórios do meio rural para o urbano e do norte e nordeste para o sul. O ensino da história passou por um verdadeiro repensar, movimento este que ainda não cessou, embora o conhecimento de conteúdos reconhecidos como tradicionais seja obrigatório, oportuniza-se assim a reflexão sobre a abordagem dos conteúdos de História, diante de uma nova geração de estudantes que é resultado de uma sociedade que também está em transformação.

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Menor idade na Manaus da bélle époque. Paulo Marreiro dos Santos Júnior. Doutor em História Social Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas – Campus Presidente Figueiredo. Palavras - Chave Menor, criminalidade, controle social.

Este artigo objetiva opor-se ao imaginário que mistificou o ufanismo da Manaus da Bélle Époque, período caracterizado pela riqueza da economia da borracha, entre os séculos XIX e XX. Momento de relevância histórica, pois a cidade passa a ser vista como ausente de populares, sem contrastes, sem tensões, sem pobreza. Objetivando criticar tal panorama historiográfico local, iluminar-se-á o processo de construção de experiências vividas pelos ‘menores’ no cotidiano tenso da coletividade da cidade, um cotidiano cheio de segmentos sociais menos privilegiados, vistos como merecedores de vigilância, estigmatização, repressão e tolerância, apesar da prosperidade do período áureo da borracha. Com isso, a pesquisa propõe uma outra leitura do processo de formação da sociedade manauara – pelo viés dos ‘menores’. Através das “ocorrências policiais” do Jornal do Comércio do Amazonas, entre os anos de 1906 a 1917 houve o estudo sobre os ‘menores’ em Manaus. Buscou-se perceber a criminalidade enquanto fenômeno social, uma vez que as “ocorrências” eram produtos dos registros policiais. Nessas crônicas policiais, constavam os registros de segmentos sociais que foram ordenados, classificados, hierarquizados, controlados. Um desses segmentos que fazia parte das páginas das crônicas policiais do Jornal do Comércio foi a dos ‘menores de idade’, justificando – assim – o modelo de fonte histórica utilizada. Do ponto de vista metodológico, investigaram-se os menores presentes nas crônicas que foram enquadrados pela polícia por crimes e/ou contravenções, como: vadiagem, pequenos furtos, desordem, destruição do patrimônio público e em especial os casos que envolviam menores que fugiam de seus tutores, produzindo inúmeras denúncias destes sobre seus tutelados fujões, provocando assim perseguições policiais aos fugitivos. Os ‘menores’, enquanto protagonistas dessa pesquisa, ora eram algozes, ora vítimas, como nos casos noticiados de “defloramentos”. Nesse conjunto das ocorrências policiais, a pesquisa propôs trazer a tona todo o contexto de tensão da ‘menor idade’ da Manaus da Borracha, segmento pouco lembrado pela historiografia local.

O abandono de crianças na História do Brasil: um balanço aberto Thiago do Nascimento Torres de Paula / Bacharel, Licenciado e Mestre em História na UFRN (Doutorando em História na UFPR, bolsista Capes / Orientador: Prof. Dr. Luiz Geraldo Santos Silva) Palavras-chave: Criança.abandono.assistência. O objetivo deste texto, é apresenta um balanço sinteco sobre a produção historiográfica nacional relativo ao abandono de crianças recém-nascidas. A criança, não especificamente a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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recém-nascida abandonada, tornou-se objeto de estudo na década de 1960, no trabalho do historiador francês Philippe Ariès, que buscava construir uma história da criança, a partir da organização da família burguesa e da escola. Após as análises investigativas de Ariès, muitas pesquisas sobre a criança surgiram, várias delas contestando as informações do estudioso. Colin Heywood, historiador inglês, é um dos exemplos de contraponto a Ariès, pois defende a existência de um conceito de infância ainda na Idade Média. Afirma ainda, que a infância é a impressão que os adultos têm das crianças, dessa forma em temporalidades diferentes, havia distintas formas de infância. Inicialmente na Europa os estudos relativos à exposição de crianças, foram desenvolvidos pelos especialistas em Demografia Histórica, que trouxeram à tona a grande população de recém-nascidos abandonados no passado. No Brasil, ainda na primeira parte do século XX, Gilberto Freyre já fazia menção muito superficialmente aos recém-nascidos abandonados. Registrou que, apesar de muitas igrejas e conventos em Recife que poderiam recolher os expostos, havia um verdadeiro desleixo para com as crianças recém-nascidas abandonadas. Estudos sobre o abandono de crianças no Brasil surgiram como temas secundários em trabalhos sobre a prática de assistência à sociedade. Podemos citar Tolstoi de Paula Ferreira, que nos anos 40 do século XX, analisou as ações da Santa Casa de Misericórdia em São Paulo e entre os objetivos da pesquisa estava a atitude do recolhimento dos recém-nascidos enjeitados. Na década de 1960, A. J. R. Russel-Wood desenvolveu também uma pesquisa sobre as práticas assistenciais na América portuguesa, discutindo os documentos da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Segundo a historiadora Alcileide Cabral do Nascimento, “O trabalho de Russel-Wood tornou-se um tipo de discurso fundador sobre a assistência aos expostos. Seus temas, seus enfoques, suas teses marcaram as pesquisas posteriores sobre o aparelho assistencial destinado a preservar a vida e amparar as crianças abandonadas”. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo também foi alvo de pesquisa de doutoramento de Laima Mesgravis, que apresentou seus resultados na década de 1970. Tal como no trabalho de Russel-Wood, o recolhimento e o amparo dos recém-nascidos enjeitados não eram o eixo central de seu trabalho. Porém, é ela que cria a tese de que a Roda tinha a função de evitar o infanticídio, garantindo o segredo da identidade de quem abandonava e “garantir a honra” da mulher branca que tinha filhos ilegítimos. Mesgravis inicia uma discussão sobre a relação entre o abandono de recém-nascidos e a ilegitimidade. A partir da década de 1980, a criança e a prática de seu abandono e recolhimento tornaram-se objeto de estudo específico no Brasil. Maria Luiza Marcílio com sólida formação na área de Demografia Histórica, organizou na Universidade de São Paulo (USP), o Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina, conhecido como CEDHAL. À frente deste centro de pesquisa, a mesma estudiosa, com ajuda de seus bolsistas, realizou o levantamento de documentos e textos em vários arquivos e bibliotecas do país sobre a criança e seu abandono. Seus trabalhos deram inicio, no Brasil, à construção da História Social da criança abandonada pelo método da Demografia Histórica. No final dos anos de 1980, uma segunda geração da Demografia Histórica começou a apresentar os resultados de suas pesquisas em arquivos e sistematizadas no CEDHAL. Em 1988, Renato Pinto Venâncio defendeu, na Universidade de São Paulo, uma dissertação em que analisava especificamente o abandono de crianças recém-nascidas na cidade do Rio de Janeiro do século XVIII, tendo por base, principalmente, a documentação da Santa Casa de Misericórdia. Na última década do século XX, muitas foram as contribuições na produção historiográfica referente à criança e seu abandono. Em 1993, Venâncio defendeu sua tese na Universidade de Paris X, que só foi publicada no Brasil em 1999. No seu trabalho, fundamentado nos métodos da Demografia Histórica, o pesquisador construiu uma História Social, comparando a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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assistência aos recém-nascidos abandonados nas cidades do Rio de Janeiro e Salvador nos séculos XVIII e XIX. O mesmo descobre como as famílias pobres de ambos os espaços faziam diferentes usos da Roda dos expostos, como a única maneira de o Estado contribuir na criação de seus filhos. Também expõe que existia uma preocupação de pais e mães que deixavam seus filhos na Roda em reencontrar seus rebentos. Ainda nos anos de 1990, a historiadora Mary Del Priore organizou dois grandes trabalhos sobre a história das crianças, em que reuniu pesquisadores das mais variadas tendências da historiografia. O primeiro foi publicado em 1991 e o último em 1999. Outros estudos contribuíram para ampliação da temática, como a dissertação de João Alfredo dos Anjos, defendida na Universidade Federal de Pernambuco em 1997. Destacado por ser o primeiro trabalho acadêmico sobre a Roda dos expostos da cidade do Recife. Afirma a relação entre abandono e ilegitimidade, construída por Mesgravis nos anos de 1970. Em uma perspectiva diferente da História Social, firmada na Demografia Histórica para o tema em questão, temos alguns poucos trabalhos na linha da História Cultural baseados nas ideias foucaultianas. Um destes estudos é de Henrique Luiz Pereira Oliveira, dissertação defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1990, em que analisa o abandono de recémnascidos na cidade de Desterro, hoje Florianópolis, no século XIX. O mesmo observou que a ação do Estado no ato de prestar assistência aos expostos seria uma forma de disciplinar os indivíduos e a sociedade. Ainda na linha foucaultiana, temos a tese de Nascimento, apresentada e defendida em 2005 na Universidade Federal de Pernambuco. A pesquisadora, em vários momentos de seu trabalho, faz uso de elementos da Demografia Histórica, mas sua base teórica nitidamente está em Michel Foucault. Ela investiga a institucionalização do acolhimento dos expostos em Recife na transição do século XVIII para o século XIX, na mudança de uma ação caritativa cristã para uma ação mais racional com um apoio do Estado, que buscava disciplinar a sociedade, tendo em vista que a população de expostos, uma vez livre do infanticídio, seria um risco para coletividade. Por fim, Venâncio em 2010 organizou um livro que congrega historiadores brasileiros e portugueses, desde os mais experientes até as mais novas gerações de pesquisadores. Neste trabalho, sob o título Uma história social do abandono de crianças - De Portugal ao Brasil século XVIII-XX, encontramos as investigações mais recentes sobre os expostos e a exposição de crianças. Tal trabalho é o primeiro da historiografia brasileira, que faz um balanço sobre as pesquisas do abandono de crianças recém-nascidas, buscando refletir sobre está triste realidade de nosso tempo presente.

Infância e Relações de Gênero: em foco a adoção internacional (1990-2006)

Silvia Maria Fávero Arend Doutor em História Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

Palavras Chaves: História - Poder Judiciário - Relações de Gênero A circulação de coisas, pessoas e idéias através dos diferentes territórios do globo não é um fenômeno novo na História. Todavia a partir da instituição do Estado Moderno na Europa A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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ocidental, que lentamente construiu a noção jurídica de nacionalidade baseada nos princípios do jus solis e/ou jus sanguinis, este fenômeno adquiriu determinados contornos que caracterizam os processos de imigração e emigração nos séculos XIX e XX. Nesta apresentação iremos focar nosso olhar em um processo singular de circulação de pessoas entre os diferentes estados nações na segunda metade do século XX: a chamada adoção internacional. Objetivamos entender como as representações de gênero são de fundamental importância nos procedimentos judiciários e extrajudiciários que envolveram a adoção internacional entre 1990 e 2006. Esta análise foi realizada a partir de dados coletados em dois estudos. Em pesquisa realizada em uma parceria entre o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina e o Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF) onde foram analisados 35 Autos de Habilitação para Adoção Internacional de famílias francesas, responsáveis pela adoção de 68 crianças e adolescentes, entre 1990 e 2006. E em uma pesquisa sobre a História da legislação internacional e brasileira sobre a infância. As reflexões relativas a estes processos foram efetuadas a partir dos referenciais teóricos da História Transnacional, da História Social da Família e das Relações de Gênero. Durante a primeira metade do século XX observamos a presença de dois discursos em relação às crianças e adolescentes considerados abandonados nas legislações nacionais e internacionais. Um dos discursos preconizava que os infantes deviam ser enviados para grandes instituições, enquanto que outro afirma que o melhor lugar para estas crianças são as denominadas famílias adotivas. Depois da Segunda Guerra Mundial cada vez mais o discurso relativa à família tornou-se hegemônico. Todavia, esta circulação de crianças e adolescentes entre instituições de acolhimento e famílias adotivas, de acordo com as instituições internacionais, devia ser regulamentada, pois a pessoa devia ser integrada na nova ordem na condição de filho. Nesta perspectiva era necessário encontrar uma família que pudesse acolher este infante considerado abandonado prioritariamente no seu próprio país. Caso isto não aconteça o caminho proposto era a adoção internacional. Todavia esta imigração, à luz destes princípios sócio-jurídicos transnacionais, deveria ocorrer de tal forma que todos os direitos da criança fossem garantidos. São estes pressupostos que embasaram as políticas sociais para as crianças brasileiras consideradas em situação de abandono após os anos de 1990. A partir da instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, o Estado brasileiro passou a ter maior controle sobre esta diáspora infanto-juvenil. Paulatinamente foram sendo criadas nos estados da federação as Comissões Estaduais Judiciária de Adoção (CEJA) que passaram a controlar os trâmites da adoção internacional. Em comparação a outros estados brasileiros a Comissão Estadual Judiciária de Adoção de Santa Catarina recebia um grande número de candidatos a adoção internacional. Entre 1990 e 2006, 351 crianças e adolescentes do estado de Santa Catarina forma enviadas para os seguintes países: Itália, França, Holanda, Espanha, Estados Unidos, Alemanha e Dinamarca. Os processos judiciários relativos à adoção internacional são volumosos e contém uma grande quantidade de informações. As representações de gênero sobre as mães e pais consangüíneos estavam presentes, sobretudo, nos relatórios sociais produzidos pelas assistentes sociais. Após 1990, no Brasil, as mães e pais de crianças e adolescentes não podem mais perder o Pátrio Poder em função de sua condição de pobreza. Neste caso as representações de gênero eram fundamentais, pois contribuem sobremaneira para que pudesse ocorrer a destituição do Pátrio Poder. As imagens evocadas eram as de mulheres que abandonam sua prole. De maneira geral estas mulheres eram associadas a duas atividades consideradas ilegais no Brasil e que colocam em perigo a vida dos infantes: o tráfico de drogas e a prostituição. Os estudos das Ciências Humanas, desde os anos de 1980, no Brasil demonstram que uma parcela significativa dos homens das camadas populares se desresponsabiliza pela criação de seus filhos e filhas. Sendo A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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assim a ausência do considerado “provedor do lar” era sempre ressaltada nos relatórios sociais. As representações de gênero relativas aos candidatos a adoção internacional, por sua vez, foram evocadas por psicólogos, médicos ou ainda outros profissionais das instituições que prepararam os mesmos, tal como, a Médecins du Monde, em seus relatórios. Estes documentos possuíam o objetivo de demonstrar para as autoridades brasileiras que aquelas pessoas iriam desempenhar de forma satisfatória a função materna e paterna. A imagem da mulher tranqüila e afetiva, ou seja, potencialmente “boa mãe” era recorrente. Já a dos homens esta associada ao mundo do trabalho na perspectiva de que para ser um “bom pai” deve ser um bom provedor. Como afirma o historiador Henri Rousso, entre a verdade jurídica e a da História há um grande abismo.

Marginalização, delinqüência e criminalidade infantil na cidade de São Paulo no inicio do século XX Robson Roberto da Silva Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Historia Social (PPGHS) Orientador: Prof. Dr. José Miguel Arias Netto Instituição: Universidade Estadual de Londrina – PR (UEL) Palavra-chave: Infância, marginalização, criminalidade Resumo: Nesse artigo acadêmico será analisada a situação de indigência, marginalização e criminalidade em que estavam submetidas às crianças abandonadas ou em estado de vulnerabilidade social nos cortiços e nas ruas do centro histórico na cidade de São Paulo no início do século XX. No período do final do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, a capital paulista passou por importantes transformações econômicas e sociais sem precedentes na sua história, que definiram o seu perfil urbano e populacional que conhecemos atualmente. Alguns eventos históricos importantes contribuíram para o crescimento vertiginoso de São Paulo: 1) Após a libertação dos escravos em 13 de maio de 1888, os excativos, desvinculados da servidão, tinha a liberdade de permanecerem nas fazendas e venderem seu trabalho aos seus antigos senhores ou migrarem para as cidades em busca de melhores condições de vida e trabalho. 2) Nas últimas décadas do século XIX, houve um aumento significativo da imigração européia, principalmente italianos, para o Estado de São Paulo, especialmente após a Abolição, eles vinham para substituir a mão-de-obra escrava nas fazendas de café no interior do Estado como trabalhadores livres, contudo, muitos se fixaram nas cidades e foram trabalhar como operários nas fábricas paulistas. A libertação dos escravos e a vinda dos imigrantes europeus impulsionaram o mercado de trabalho livre permitindo o crescimento industrial. Em poucos anos, São Paulo tornava-se uma das principais metrópoles do Brasil. Entretanto, esse desenvolvimento também trouxe seus aspectos negativos devido ao crescimento populacional desordenado: aumento da miséria, desemprego, moradias precárias, carestia, indigência, marginalização, prostituição e criminalidade. Dentre todos esses flagelos sociais, o que mais preocupava as autoridades políticas e a sociedade foi o aumento da marginalização e da delinqüência infantil, conseqüência direta das condições miseráveis em que a maioria das famílias paulistanas vivenciava nos precários cortiços que foram sendo construídos nas áreas centrais da cidade ou nas proximidades das fábricas para abrigar essa crescente população. As condições higiênicas e estruturais precaríssimas das famílias que moravam nos cortiços foram determinantes para o fenômeno da desestruturação familiar, em A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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que os pais, motivados pelas dificuldades sociais e materiais, não tinham as mínimas condições de sustentar seus filhos. Além disso, a insalubridade de um meio vicioso, o comportamento perverso, a negligência, a promiscuidade e aliado com o vício do alcoolismo consumido pelos adultos potencializavam esse ambiente de desestruturação familiar, permitindo as crianças abandonar suas famílias e seus lares, vivendo na indigência e na criminalidade. Um grande número de crianças indigentes e abandonadas perambulava pelas ruas e cortiços da capital paulista, praticando pequenos roubos no comércio do centro da cidade, a mendicância pelas ruas, o vandalismo nas casas e nos edifícios públicos ou entregando-se a prostituição, especialmente as pobres meninas que somente encontravam nessa odiosa ocupação uma forma de sobrevivência, arriscando-se em contraírem doenças venéreas como a sífilis. A presença dessas crianças indigentes era uma grande ameaça a ordem pública. Através das notícias jornalísticas e nas matérias da imprensa paulistana é que a sociedade civil expressava sua preocupação e exigiam das autoridades políticas medidas para conter o avanço da indigência e da delinqüência infantil. Diante dessas circunstâncias sociais, o governo começava a enfrentar o problema da delinqüência e marginalidade infantil a partir de um viés fundamentado numa visão cientificista importada dos países europeus, principalmente com as teorias racistas da criminologia italiana ou antropologia criminal influenciada pelos estudos de Cesare Lombroso e da medicina social ou eugenia pelos estudos de Francis Galton. As autoridades políticas, os médicos e os criminologistas encaravam esse problema social como resultado da degenerescência ocasionada pelo cruzamento racial existente no processo histórico do Brasil, que acabava reproduzindo uma população inferior, doente e degenerada, ou seja, os descendentes que nasciam de famílias com o histórico de perversidades, depravações e vícios, seriam igualmente viciosas, denominados delinqüentes natos segundo as teorias criminológicas vigentes, sendo necessários sua vigilância e controle para não aumentar os índices de criminalidade e quando se tornassem adultos, seriam cidadãos úteis para a sociedade. Assim, nas primeiras décadas do século XX, a questão social da infância marginalizada e criminosa foi enfrentada pela atuação da polícia de costumes e dos organismos jurídicos: tribunais de menores, juizado de órfãos e os institutos correcionais criados nesse período e tornou-se objeto de estudos médicos e psiquiátricos específicos sobre a degenerescência racial e a perversidade social carregadas por essas crianças, transformandoas em menores infratores, tanto na linguagem médica como na jurídica. ST03- ÁFRICA E AFRICANIDADES: HISTÓRIA E ENSINO “Angolano segue em frente”:música e nação em Angola (1950-1970) Amanda Palomo Alves Doutoranda em História – Universidade Federal Fluminense (UFF) Orientador: Prof. Dr. Marcelo Bittencourt

Palavras-chave: Angola; musicalidade; movimentos de libertação. Nossa proposta de pesquisa aponta para a possibilidade e a viabilidade em tratarmos a canção como uma fonte importante na pesquisa histórica. Compreendemos a música como uma manifestação capaz de traduzir nossas múltiplas identidades culturais, constituindo uma das formas de preservação da memória coletiva e nos auxiliando nas leituras e interpretações sobre a sociedade. Nesta direção, observamos que o conteúdo expresso em algumas letras de canções interpretadas e compostas por músicos angolanos, nos anos cinquenta, sessenta e setenta do século XX, oferece visibilidade para questões como a luta pela descolonização e o A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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nacionalismo em Angola. Em outras palavras, é uma produção fortemente influenciada pela história política do país. Angola foi colônia de Portugal até 1975 e sua luta anticolonial possui importantes particularidades no cenário africano. Durante a segunda metade da década de 1950, consolidado o controle político-militar por Portugal, a Polícia Política Portuguesa (PIDE) se instalou em Luanda a fim de investigar e cessar as movimentações dos angolanos envolvidos com a divulgação de panfletos que continham mensagens anticoloniais. O autoritarismo e o sistema de partido único adotado por Portugal agravaram a situação colonial, condicionando o tipo de luta que seria levado adiante pelas forças independentistas. Sabemos que desde os princípios da colonização, a colônia foi dividida em dois campos distintos e desiguais: a sociedade colonial e a sociedade colonizada. Na situação colonial africana, a dominação foi imposta por uma minoria estrangeira em nome de uma superioridade étnica e cultural dogmaticamente afirmada. De acordo com Frantz Fanon, não basta ao colono limitar fisicamente, isto é, com seus policiais e guardas, o espaço do colonizado, pois para ilustrar o caráter totalitário da exploração colonial, o colono faz do colonizado uma espécie de “quintessência do mal” (FANON, 2005, p. 58). A natureza violenta da conquista, somada ao caráter de dominação, levou o colonialismo a negar e destruir permanentemente as identidades culturais e nacionais dos vencidos. Sob esta ótica, Serrano declara que na relação de dominação, a identidade do outro é determinada pelo dominador. O colonizador, ao estabelecer categorias, como o “indígena”, o “nativo” ou o “assimilado” prescreve categorias de identidade e define o caráter da relação de si próprio com os que estão na situação de dominados (SERRANO, 2008, p. 47). Ao atentarmos para os países de colonização portuguesa poderemos observar que os quatrocentos anos da presença portuguesa em África são marcados pela luta permanente dos povos africanos. A história da libertação desses povos aparece em suas diversas formas de resistência, como a produção literária de protesto e denúncia escrita por intelectuais, movimentos, greves e desobediência civil. Carlos Serrano afirma que as campanhas de pacificação dos povos africanos são apenas algumas batalhas na prolongada guerra de resistência. Mas, se as diversas formações sociais antigas se opuseram ao colonialismo, novas formas de luta permitirão forjar a unidade desses povos dentro das novas fronteiras impostas pelo colonialismo. Em um primeiro momento, sob a forma de movimentos culturais, onde jovens intelectuais começam a conscientizar parte da população dentro das poucas possibilidades legais existentes para mais tarde nascerem dentro da clandestinidade - os partidos políticos que iriam conduzir a luta pela independência (SERRANO, 2008, p. 47). São nos centros urbanos que nascem - através de jornais escritos por intelectuais africanos - as primeiras denúncias do modo violento com que se impôs a dominação colonial. Durante os anos 1940 e 1950 jovens de Angola se reuniam em Lisboa com demais estudantes das colônias de Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe a fim de formarem organizações que combatessem o jugo colonial e em prol da independência. Em 1951 surge em Lisboa o Centro de Estudos Africanos (CEA), que reuniu os principais futuros líderes dos movimentos pela descolonização das colônias portuguesas: Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade. O governo salazarista pôs fim às atividades do Centro, mas não findou os encontros daqueles estudantes que deram continuidade à luta política anticolonial na Casa dos Estudantes do Império (CEI), através de uma intensa atividade cultural de reabilitação do patrimônio histórico e cultural dos seus povos. Uma nova fase de luta acontece a partir de quatro de fevereiro de 1961, quando uma série de ações é desencadeada em Luanda, gerando repressão violenta e a morte de três mil pessoas pelas forças coloniais. Com o início da luta armada nas diversas colônias, a prisão de militantes nacionalistas, a fuga de outros para o exterior e o encerramento, em 1964, da CEI, os intelectuais se dedicam, sobretudo, às atividades político-militares dos seus partidos na luta pelas independências. Com os movimentos de independência travados e a luta armada fora de Angola e ao longo de suas fronteiras, as autoridades coloniais reconheceram que a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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cena cultural no interior do país politizou os angolanos, alimentando um sentimento generalizado de revolta. Durante este período foi gravada uma série de canções que sinalizavam a necessidade de descolonizar e enalteciam o sentimento nacional angolano. A coleta de algumas canções já foi feita e na atual fase da pesquisa estamos nos debruçando sobre o período colonial em Angola e angariando novas fontes. Ao findar este breve texto, gostaríamos de salientar que pretendemos, também, contribuir para a ampliação dos estudos africanos no Brasil. Percebemos a necessidade de mudança na estrutura curricular dos cursos em todos os níveis, modalidades e etapas de ensino que tendem a desconsiderar ou simplesmente omitem a participação africana na construção do conhecimento em diferentes campos das ciências. Assim, nosso objetivo é colaborar para ampliar o conhecimento sobre a história desse continente, em especial, Angola, aprofundando um tema pouco trabalhado pela historiografia e dando continuidade à superação acerca do desconhecimento brasileiro sobre o país. Referenciais: FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2005. SERRANO, Carlos. Angola: nascimento de uma nação – um estudo sobre a construção da identidade nacional. Luanda: Edições Kilombelembe, 2008.

Medicina doméstica moçambicana e algumas práticas de cura na primeira metade do século xix Ana Paula Wagner, doutora em História, professora do Departamento de História da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) Palavras-chave: medicina doméstica; práticas de cura; Moçambique Em 1858, era publicado nos Anais Brasilienses de Medicina, na cidade do Rio de Janeiro (Brasil), um artigo do médico italiano Luís Vicente de Simoni. Nesse texto, seu autor apresentava alguns aspectos dos métodos empregados por ele no cuidado de enfermos do Hospital Militar e Civil de Moçambique, instituição na qual trabalhou durante o período de 1819 a 1821. Nesse estudo, sobre a “Mortalidade nos enfermos tratados no Hospital Militar e Civil da cidade de Moçambique” Luís Vicente de Simoni destacou, especialmente, os recursos utilizados na cura das febres que acometiam a população daquela colônia portuguesa. Para o tratamento dessas moléstias, Simoni valia-se, geralmente, de uma “infusão diaphoretica”, preparada com “flores de sabugueiro” e “acetato de ammonia, edulcorada e com addição ás vezes da casca da raiz de fedegoso, ou de algumas flores de marcella galega” (SIMONI, 1858, p. 92). No mesmo artigo também era apresentado um outro tipo de tratamento para as febres, este utilizado pelos próprios habitantes de Moçambique. Neste caso, fazia-se a aplicação, sobre a pele do enfermo, de uma compressa com areia, cinza, ou sal, aquecida em uma fonte de calor. Conforme ressaltado pelo médico, a aplicação dessa compressa devia seguir uma ordem específica das partes do corpo, iniciando pela cabeça e terminando pelos pés. Ao final da aplicação, a pessoa febril ainda poderia ser envolvida num cobertor e tomar uma infusão caseira, na busca pela redução da temperatura corporal. O conhecimento do médico italiano sobre as práticas de cura locais decorreu de sua experiência como “físico-mor” naquele referido hospital. Durante o período em que exerceu essa atividade, Luís Vicente de Simoni fez anotações e registros dos casos médicos que atendeu e, posteriormente, logo após sua chegada ao Rio de Janeiro, escreveu um Tratado Médico sobre Clima e Enfermidades de Moçambique. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Nesse Tratado observamos interações de diferentes universos culturais no que diz respeito a saberes e práticas de cura. Em primeiro plano, encontram-se as concepções européias de saúde e de doença, particularmente ligadas às idéias neo-hipocráticas, as quais relacionavam as condições ambientais (natural e social) com o estado de salubridade ou de insalubridade dos lugares e com a saúde da população. Para os adeptos dessa matriz de pensamento era fundamental conhecer as especificidades de cada localidade para uma correta investigação das doenças ali existentes. Simoni, compartilhando dessa perspectiva médica, acreditava que era necessário identificar o contexto social das doenças e da sua cura. Assim, descreveu alguns aspectos da sociedade moçambicana, como os hábitos alimentares, o uso de vestimentas, a realização de atividades de lazer, entre outras práticas cotidianas. Ao se dedicar a esses temas no Tratado, o médico italiano acabou apresentando um outro plano de leitura da sua obra, no qual também é possível encontrar os saberes locais, identificados pelo seu autor como uma medicina doméstica moçambicana. Simoni utiliza a expressão “medicina doméstica” em oposição a uma ciência médica acadêmica. Todavia, a noção de uma medicina doméstica moçambicana, ou popular, pode ser vista de outra maneira; ou seja, em grande medida, ela implica em concepções, saberes e práticas de cura que levam em conta as especificidades e as particularidades do contexto africano. Ainda que essa concepção local abrangesse indivíduos originários de diferentes culturas, é inegável a presença de uma matriz africana. De acordo com essa perspectiva, a doença era encarada como um desequilíbrio individual e social, e os processos de cura deveriam ser orientados na busca de uma conexão entre os mundos visível e invisível. Em larga medida, tratava-se de um conjunto de conhecimentos heterogêneos e que colocam outros pontos de vista sobre que significa adoecer e o que é necessário fazer para se restabelecer o estado de saúde. Em vista desse entendimento, interessa-nos, de maneira especial, enfocar e discutir as práticas terapêuticas encontradas no território moçambicano para o tratamento de febres em geral e, ainda, os usos que a população local fazia da aplicação de calor para a termorregulação da temperatura corporal, como “tomar hum bafo” [banho de vapor] ou o uso de compressas de “areia quente”. Também queremos destacar que muitos dos recursos empregados nas práticas de cura moçambicanas estavam ao alcance da população em geral. Entretanto, existiam indivíduos identificados como detentores de habilidades específicas voltadas ao restabelecimento da saúde. Eram pessoas que, dentro das sociedades africanas, desempenhavam um importante papel como “intermediários entre o mundo real e o sobrenatural, entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos”, agindo no sentido de “preservar o equilíbrio e garantir a protecção de que todos precisam” (ROQUE, 2007, p. 266). Nesse sentido, é possível considerar que a presença dos ngangas e de todo um conjunto de agentes sociais responsáveis pelos rituais de possessão, adivinhação e cura, também constitui um dos elementos que singularizam as práticas locais. Por fim, acreditamos que nosso estudo, além de permitir descortinar comportamentos e hábitos da população moçambicana do Oitocentos, irá contribuir para um conhecimento mais amplo da diversidade histórica africana e para a reflexão a respeito das diferentes sociedades que integram o continente africano. Como argumenta Anderson Ribeiro Oliva, “temos que reconhecer a relevância de estudar a História da África, independente de qualquer outra motivação”, pois este é um campo do pensamento humano, importante por si só (OLIVA, 2003, p 423). Esta comunicação é resultado de pesquisa financiada por Fundos Nacionais Portugueses, através da FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia, no âmbito do projecto HC/0121/2009, “Tratado Médico sobre o Clima e Enfermidades de Moçambique”, coordenado pela Dra. Eugénia Rodrigues, do Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Referências bibliográficas OLIVA, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática. Estudos Afro-Asiáticos, Ano 25, n. 3, 2003, pp. 421-461. BASTOS, Cristiana. Corpos, climas, ares e lugares: autores e anônimos nas ciências da colonização. In: BASTOS, Cristiana; BARRETO, Renilda (Orgs.). A Circulação do Conhecimento: Medicina, Redes e Impérios. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2011, p. 25-58. CELERINA, Jacques de Salis di. Esboço sobre as molestias da Costa Oriental D´Africa. In: Annaes Marítimos e Coloniais, 1846, n. 2, 6ª. Série, p. 43-72. RODRIGUES, Eugénia. “Uma celebrada negra, que se chamava Joana”. Rituais africanos e elite colonial em Quelimane no século XVIII. Povos e Cultura – Tradições Populares, n. 11. Lisboa: CEPCEP, 2007, p. 231-254. ROQUE, Ana Cristina. Da importância do culto dos vadzimu e do nyamusoro entre os Teve (sécs. XVII-XIX). Povos e Cultura – Tradições Populares, n. 11. Lisboa: CEPCEP, 2007, p. 265-303. SIMONI, Luís Vicente de. Mortalidade nos enfermos tratados no Hospital Militar e Civil da cidade de Moçambique durante o tempo em que na qualidade de physico-mór dessa capitania delle foi médico o Dr. L. V. de-Simoni. Annaes Brasilienses de Medicina: Jornal da Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, ano 12, vol 12, 1858, p. 90-92. SIMONI, Luís Vicente de. Tratado Médico sobre Clima e Enfermidades de Moçambique, 1821, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Sessão de Manuscritos, código I-47,23,17. WAGNER, Ana Paula. População no Império Português: recenseamentos na África Oriental Portuguesa na segunda metade do século XVIII. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2009.

Sombras e obscuridades: o desafio apaixonante que cerca o passado africano

Luciana Regina Pomari Doutora em História pela UNESP. Professora da UNESPAR/Fafipa.

Palavras-chave: História da África; Metodologia; Ensino.

O objetivo deste trabalho é fazer uma reflexão sobre a história da África e de seu ensino. Para isso utilizo-me das experiências obtidas nos últimos anos através do desenvolvimento de projetos de extensão universitária e de ensino, junto à rede pública de educação básica, no Estado do Paraná. O aumento recente das discussões relativas à história da África e a cultura afro-brasileira deram relevância para os debates sobre as fontes, as metodologias e as diferentes formas de abordagem e aos padrões de periodização africana. Mitos e preconceitos esconderam a verdadeira história da África. As sociedades africanas eram tidas como as que não podiam ter história. Muitos dos trabalhos científicos publicados nas primeiras décadas do século XX, sobretudo de não africanos, procuravam anular os esforços dos estudos acerca da historicidade do continente africano. Tais críticas apontavam, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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principalmente, como óbice para não se fazer uma história desde a perspectiva africana, a ausência de fontes e documentos escritos. Outrossim, a história da África que existia era recorrente de fontes externas ao continente. A perspectiva de tal abordagem em relação a certas partes do continente projetava-se não sobre o que foi a trajetória dos povos africanos, mas sobre como deveria ser ou ter sido. Principalmente em relação às organizações político-administrativas da África, houve uma grande incompreensão das instituições políticas especificamente africanas. Porque se tentou fazer a história de várias regiões da África a partir dos conceitos eurocêntricos, como os de “Idade Média”, “modos de produção” ou “relações sociais” típicas do passado do continente europeu. Em tal contexto é inegável a afirmação de que houve uma recusa em considerar os povos africanos como criadores de culturas originais de longas, médias e curtas durações. Porque historiadores não renunciaram a certos preconceitos frente à construção de uma história da África? Porque a historiografia européia nunca se dispôs a destinar para a África um status de entidade histórica? Como a historiografia ocidental só atribuiu historicidade a certas regiões da chamada “África branca” em detrimento e sem conexão com as regiões centrais e subsaarianas chamadas de “África negra”? A quem interessava apresentar de forma hierarquizada as civilizações africanas (com as variedades lingüísticas e culturais que compõe as variadas vertentes históricas de um conjunto de povos e sociedades, que são moldadas através de convivência secular ou até milenar), apontando diferenças entre mais e menos civilizados ou selvagens? Como estudar a história da África e não perceber as simplificações abusivas - tanto teóricas quanto metodológicas - sobre tal continente, dentro das concepções linear e limitada, da chamada “história universal”? Assim nos colocamos a questão: como podemos mudar a representação do continente africano, tido como marginal, servil e anacrônica, nos textos historiográficos ou didáticos, a partir de uma versão original e crítica para atender as demandas das leis 10.639/03 e 11.645/08? Para que possamos estabelecer argumentos frente a questões como: pelo que lutam os povos da África? Ou as tribos indígenas na África? E podemos responder que é pela liberdade, da mesma forma, que responderíamos sobre os outros povos não africanos. Para que a história da África é preciso dar o mesmo enfoque dado à história universal, isto é, o da tomada de consciência e das lutas por liberdade. Por isso, ela deve ser reescrita até retratar uma revanche da história eurocêntrica e colonialista. Resta uma grande questão: como a mudança do discurso sobre a história da África pode mudar as abordagens metodológicas rumo a criticidade e reelaboração mais conexa com as novidades da historiografia atualmente? Em toda a história da humanidade ou das civilizações a produção acadêmica referente à história da África é ínfima e secundária. No entanto, as novas publicações têm assumido óticas cada vez mais positivas, apontando que esse continente tem tido impar relevância, como berço da humanidade. Como afirma o historiador africano Ki-Zerbo: “é uma exigência imperativa que a história (e a cultura) da África, sejam vistas de dentro, não sendo regidas por réguas de valores estranhos. (...) Mas, essas conexões tem que ser analisadas nos termos de trocas mútuas, e influências multilaterais em que algo seja ouvido da contribuição africana para o desenvolvimento da espécie humana” (KI-ZERBO, 2009, v.1, p. 1). São essas algumas preocupações historiográficas e metodológicas acerca da História da África que analisaremos com mais detalhes na exposição do Encontro Regional da Anpuh/PR.

Da sujeição ao sujeito: novas perspectivas em história social - experiências da liberdade e relações de trabalho após a emancipação. (Sergipe 1888-1930) A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Camila Barreto Santos Avelino Profª. Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná Doutoranda em História – UFPR Orientador Prof. Dr. Luiz Geraldo da Silva Esse trabalho se propõe a analisar experiências da liberdade nas trajetórias de populações afro-brasileiras, mais especificamente, na vida de homens e mulheres egressos da escravidão em Sergipe entre os anos de 1888 a 1930. Buscaremos compreender as relações de trabalho após a abolição a fim de elucidar o desenvolvimento de uma “economia autônoma” por parte desses libertos. As experiências sociais, individuais e coletivas das populações de cor serão abordadas como meio que viabilizará descortinar também outras trajetórias de vidas, bem como, iluminar o contexto social que serviu de cenário para concretizar a ação desses sujeitos no tempo. As referências que utilizaremos nesse trabalho visam contribuir para o debate em torno das novas perspectivas sobre a emancipação nas Américas e desse modo, pretendo justificar a pertinência desse trabalho, que dentre outros aspectos objetiva elucidar os diálogos entre África e Brasil através de pesquisas recentes que vêm sendo realizadas a partir da década de 80, e que tais como, esse trabalho, objetiva dirimir a “invisibilidade” em torno da cultura e identidade afro-brasileira no Brasil. Apresentaremos um balanço historiográfico sobre a temática, estabelecendo diálogos com outros trabalhos semelhantes, já desenvolvidos na área da História Social, nos quais ancoraremos nosso embasamento teórico. Nesse campo, destacam-se diversos autores e pesquisadores brasileiros, norte-americanos e africanos, que tem trazido à tona diversos estudos sobre a escravidão moderna e sobre o pós-emancipação nas Américas. A metodologia utilizada está embasada na pesquisa Serial e na micro-história. Utilizaremos as seguintes fontes, os registros paroquiais de batizado, casamento e óbito, os inventários e processos crime entre os anos de 1888 a 1930. O esforço das pesquisas concentradas nessa documentação se constitui por serem fontes essenciais para elucidarmos as trajetórias dos escravos para a liberdade, bem como iluminar os laços de parentesco, compadrio, bens e riqueza, relações sociais e de trabalho. O cruzamento das fontes irá nos subsidiar em problematizarmos as diversas conjunturas das vidas desses personagens. Os limites impostos pela ausência de algumas fontes serão dirimidos no desenvolvimento do trabalho, a partir da análise do contexto social, permitindo vislumbrar aspectos que perpassavam a singularidade da vida desses indivíduos enquanto sujeitos históricos. Palavras – chave: trajetórias, trabalho e autonomia.

HAILE SELASSIE I: UM DEUS NEGRO OU UM EMPERADOR ABSOLUTISTA Zeus Moreno Romero mestrando em História pela Universidade Estadual de Maringá/UEM Palavras chave: África, América, Rastafarianismo Haile Selassie I, nascido em 1897 com o nome de Tafari Makonen, foi o imperador da Etiópia, país que resistiu o colonialismo das potências europeias na África até a invasão da Itália de Mussolini em 1936. Neste mesmo ano, o Imperador fez um discurso na Liga das Nações sobre o uso das armas químicas que os fascistas italianos estavam utilizando contra o seu povo. Foi um imperador que governou com “mão de ferro” e modernizou Addis Abeba, capital da terra cristã negra. Também teve o respeito de países como Reino Unido e Estados Unidos da América, que erroneamente insistiam chamar de primeiro mundo. Foi constante a sua A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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aparição nas revistas de celebridades devido às suas excentricidades. A visita que fez ao Brasil, país com a maior população negra fora da África, foi aproveitada pelos seus opositores para realizar um golpe de Estado na Etiópia, que ao final não tive consequências. Haile Selassie I, por outro lado, foi considerado pelo movimento rastafári a encarnação de Deus, “Sua Majestade Imperial” (His Imperial Majesty), Jah Rastafarai, juntamente com o Pan-africanista Marcus Garvey, considerado a reencarnação do São João Batista. O movimento rastafári surgiu na década de 1930 nas favelas de Kingston (Jamaica) e atualmente possui mais de 600.000 seguidores A visita realizada pelo Imperador africano à Jamaica foi histórica para os rastafáris, milhares de pessoas afro-americanas receberam seu “Deus negro” com cantos espirituais religiosos. A partir da década de 1960, graças às músicas de Bob Marley, o movimento rastafári se estendeu por todos os continentes. A adaptação que fez o cantor jamaicano do discurso de Haile Selassie I, realizado em 1935 nas Nações Unidas, converteu a canção “War” em uma das mais traduzidas na história da música, divulgando pelo mundo uma mensagem de antiimperialismo, antirracismo, de paz, amor e respeito entre os povos do planeta terra. Albarosie (Italia), Seeed (Alemanha), Agua Bendita (Espanha), Dub Incorporation (França), Mercado Negro (Portugal), Steel Pulse (Reino Unido), Intinn (Irlanda), Dub Basque Fundation (País Vasco), Orxata Sound System (Catalunha), Strad-a-felt-a-sound (Noruega), Acustice Bulgarian Reggae (Bulgária) Cala Góra Barwinków (Polonia), Jah Division (Rússia), Dubioza Kolective (Bósnia e Herzegovina), Ayhan Sicimuglu Istambul Latin Orquestra (Turquia), Iyam (Israel), Armenian Reggae Reincarnation (Armênia), Keýpimi bozup bilmersin (Turquemenistão) JahOne Love (Mongolia) The Pionners (Japão), Ranah Rasta (Indonésia) Kai-Jo Brothers (Tailândia), Long Shen Dao (China), Karma (Vietnam), DJ Werner Rex (Papua-Nova Guiné), 1stribe (Fiji), Coulored Stone (Australia), Katchafire (Nova Zelândia), Alpha Blondy (Costa do Marfim), Mamee Ibra (Senegal) Shaka Zulu (África do Sul), Afrika Rainbow (Cabo Verde), Prince Wadada (Angola), Manuel Wambo Wanji (Camarões), Ganga Vibes (Marrocos), Teddy Ab (Etiópia), Daday (Madagascar), Burning Spear (Jamaica), Tribo de Jah (Brasil), Fidel Nadal (Argentina), Godwana (Chile), Nou Vin Lakay (Venezuela), Alqa Roots (Peru), Atajo (Bolivia), Chala Madre (Uruguay), Lion Reggae (Colombia), Cimarrón (El Salvador), DJ Kabeto (Honduras), Señor Juan (Guatemala), Eddie Lover (Panamá) e um largo etecetera de cantores e bandas reggae, se pode observar como o mensagem do “Rastafarianismo”, segue atualmente representado em todos os continentes e línguas. A música reggae é fruto da espiritualidade e também um canto de lamento pelos quatrocentos anos de escravidão, pela Apartheid, a discriminação racial, e outros “inventos” das elites que intentam justificar o seu domínio sobre a maior parte da população. A música serve como ferramenta de luta pacifica, mostra passagens intolerantes da história humana e serve para conscientizar as pessoas. O Imperador absolutista ou “Deus negro” que morreu em Adis Abeba em 27 de Agosto de 1975, não podia imaginar a transcendência que teria no mundo enterro a sua figura. Em África, América e em tudo o planeta ficam geminadas mensagens de respeito intercultural, luta pela igualdade de direitos, paz, amor e unidade para todos os povos.

Das raízes africanas à cultura afro-brasileira: um caminho entre a lei 10.639/2003 e a produção em dança afro-brasileira na escola. Jeancarlos Nunes Garcia – Aluno PDE - UEL. Orientador: DR. Ronaldo Alexandre de Oliveira - UEL. Palavras Chave: Escola; Cultura Afro-Brasileira; Dança. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Este artigo a apresenta, com base na inserção da lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório no currículo oficial da rede de ensino, a temática História e Cultura AfroBrasileira. Após os levantamentos dos documentos existentes na escola sobre a normatividade desse tema nas Diretrizes Curriculares da Educação Básica de Arte, de História, e nos Cadernos Temáticos (Educando para as Relações Étnico-Raciais). As experiências de estudos e práticas vivenciadas em um trabalho de produção de dança afro-brasileira na escola, que apontou um caminho na direção de aproximação entre o direito do aluno de acesso ao conhecimento e as possibilidades pedagógicas desenvolvidas nessa produção. Este Trabalho envolveu professores de diferentes áreas do conhecimento, equipe pedagógica, direção escolar, equipe administrativa e ultrapassou os limites muros da escola, culminando na participação de pais de alunos inseridos no projeto, que eram de 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º Ano no Ensino Médio realizado no Colégio Estadual Comendador Geremias Lunardelli no Município de Grandes Rios – PR. Nas Diretrizes Curriculares da Educação Básica de Arte na sua organização, encontramos em seus conteúdos estruturantes6 especificamente nos movimentos e períodos, a presença da Arte Africana inserida nas quatro linguagens da arte: Artes Visuais, Teatro, Musica e Dança. Em sua proposta metodológica percebemos as possíveis relações entre essas linguagens com os elementos formais7, composição8 e nos movimentos e períodos9. Nas Diretrizes Curriculares da Educação Básica História, são evidenciados em seus Conteúdos Estruturantes três eixos: Relações de Trabalho, Relações de Poder e Relações Culturais. Por meio da utilização desses, o professor poderá inserir o tema História e Cultura Afro- Brasileira em suas aulas. (DCE História, 2008, p. 64). Podemos perceber que tanto nas DCEs Arte como nas DCEs História o professor tem a liberdade metodológica para lidar com a História e a Cultura Afro Brasileira, aprofundando aspectos que sejam pertinentes ao conhecimento dos alunos e suas relações com outros conteúdos específicos relacionados a cada disciplina, sendo possível a todas as séries e a qualquer momento no contexto pedagógico. Nos cadernos Temáticos Educando para as Relações Étnico-Raciais é apresentado uma série de discussões, estudos, debates, elaboração, acompanhamento de propostas, realização de seminários, simpósios, sugestões de filmes, vídeos, livros, revistas, sítios, artigos, etc. Este material tem a intenção de focalizar as relações étnico-raciais de modo a colaborar para uma compreensão crítica dos condicionantes que determinam a situação que observamos atualmente no Brasil em relação aos afrodescendentes e africanos. Propõe-se, dessa forma, o necessário enfrentamento ao pensamento eurocêntrico, enfrentamento este que, segundo entendemos, precisa ser feito cotidianamente no interior de nossas escolas estaduais. (CADERNOS TEMÁTICOS, 2008, p. 6) 6

Conteúdos estruturantes são conhecimentos de grande amplitude, conceitos que se constituem em fundamentos para a compreensão de cada uma das áreas de Arte. Os conteúdos estruturantes são apresentados separadamente para um melhor entendimento dos mesmos, no entanto, metodologicamente devem ser trabalhados de forma articulada e indissociada um do outro. (DCE Arte p.63) 7 Relacionado a forma que se da a produção artística como por exemplos: o timbre em Música, a cor em Artes Visuais, a personagem em Teatro ou o movimento corporal em Dança. (DCE Arte p.63) 8 É o processo de organização e desdobramento dos elementos formais que constituem uma produção artística. Num processo de composição na área de artes visuais, os elementos formais – linha, superfície, volume, luz e cor. (DCE Arte p.63) 9 Se caracteriza pelo contexto histórico relacionado ao conhecimento em Arte. Esse conteúdo revela aspectos sociais, culturais e econômicos presentes numa composição artística e explicita as relações internas ou externas de um movimento artístico em suas especificidades, gêneros, estilos e correntes artísticas. (DCE Arte p.63)

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Percebemos que este caderno fornece aos professores da rede pública de ensino do Paraná uma série de produções que poderão contribuir como recursos didáticos a serem discutidos e refletidos em sala de aula no dia-a-dia com os alunos. Por meio de um projeto intitulado “DANÇA- Viagem ao Mundo Através do Corpo” vinculado ao programa Viva Escola, que possibilitava ao professor, trabalhar com um grupo de alunos os conteúdos de sua disciplina em horários de contra-turno com 4 horas/aula semanais, ampliando as necessidades do professor e dos alunos em aprofundar e explorar determinados conhecimentos sistematizados na disciplina em questão. No contexto escolar, com o projeto havia a preocupação de apresentar aos alunos a linguagem da dança desprendida de pré-conceitos, considerando a presença da dança inserida a culturas em diferentes lugares do mundo. A expressão individual de cada aluno era valorizada em propostas criativas nas construções coreográficas, existia uma transposição de informações adquiridas por várias fontes de conhecimento, como livros, revistas, internet, vídeos, músicas, entre outros, para as práticas artísticas. Nesse contexto, fomos idealizando um estudo sobre a cultura africana e afro-brasileira tanto no campo teórico como nas práticas corporais, resultando na produção em dança que nominamos de “Das Raízes Africanas à Cultura AfroBrasileira” organizada em uma sequência que representaria esse título. Na Cultura africana encontramos a integração da música com a vida social e religiosa, tendo uma funcionalidade, isto é, não existe por ela mesma. Canto, instrumentos, fala, ritos, festas, danças, natureza e afazeres do cotidiano fazem parte de um mesmo contexto, interagem entre si e formam um todo que dificilmente é desmembrado. (ALMEIDA: PUCCI, 2002, p.95) No Brasil esse contexto vai se alterando, incorporando-se aos poucos estruturas da cultura européia, partindo daí outras formas de expressão, caracterizando-se como brasileiras. “Os sincretismos nascem assim do entrelaçamento e das influencias mútuas no processo de aculturação” (ALMEIDA; PUCCI, 2002, p.97). Inicialmente, a dança representa os movimentos típicos da cultura africana em sua origem, em sequência interpreta a vinda dos africanos ao Brasil (luta e sofrimento), por meio da realidade do trabalho escravo, a letra da música fala sobre o despertar dos escravos “Tava durumindo cangoma me chamou. Disse “levanta povo! Cativeiro já acabou.”10 Em seguida abre-se uma roda, aparecendo alguns dos orixás mais cultuados no Brasil que são incorporados (em forma de representação) tais como: Iemanjá, Oxum, Oxossi, Xangô, Nanã e Oxalá, um personagem com uma roupa estampada (imitando pele de animal) representa os homens e os animais da áfrica; e outro com roupas brancas que representa o candomblé. Em sequência os sons do berimbaus avisa o recuo dos orixás e anuncia a entrada dos capoeiristas que fazem suas evoluções de dança e luta, finalizando a dança com um toque mais abrasileirado do samba, um casal de dançarinos faz evoluções de cortejos e após, chama todos os participantes da dança para caírem no samba, os orixás se aproximam novamente e é finalizada a dança como uma grande festa de miscigenação numa união entre africanos, brasileiros e afro-brasileiros. A dança não é um adorno na educação, mas um meio paralelo a outras disciplinas que formam em conjunto a formação do homem, com menos medo e com a percepção de seu corpo como meio expressivo em relação com a sua própria vida (FUX, 1993, p. 40) Percebendo o envolvimento dos alunos nesse projeto de trabalho, concluímos que os conhecimentos sobre a História e a Cultura Afro-Brasileira vieram de encontro às necessidades educacionais, sociais e ao cumprimento da lei 10639/2003. O aprendizado vivenciado pelos participantes, tanto no campo teórico como nas práticas artísticas, foram visíveis por meio de acompanhamento de todo o processo.

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Refrão da música: Tambores de Minas (Cangoma e Sansa kroma) faixa 20, do livro Outras Terras outros sons que acompanha o um CD.

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Desta forma, podemos concluir que as metodologias, por meios de projetos, são mais significativas para o professor e para os alunos, por apresentarem um maior comprometimento de ambas as partes em toda a construção do saber.

Referências: ALMEIDA, M. Berenice de; PUCCI, Magda Dourado. Ouras terras, outros sons. São Paulo: Callis, 2002. Fux, Maria. Dança experiência de vida. (trad. Norberto Abreu e Silva Neto) São Paulo. Summus, 1983. PARANÁ, Secretaria de estado da Educação. Educando para as Relações Étnicos -Racias II / Superintendência da educação. Diretoria de Políticas e Programas Educacionais, Coordenação de desafios Contemporâneos, - Curitiba: SEED – PR., 2008. PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação do. Diretrizes Curriculares de Arte para a Educação Básica. Departamento de Educação Básica. Curitiba, 2008. __________________. Diretrizes Curriculares de História para a Educação Básica. Departamento de Educação Básica. Curitiba, 2008

Lei 10.639/2003, uma Realidade ou mais uma Política Curricular Obrigatória? Professores de História: suas Apropriações e Resistência a Lei. Rosemeire dos Santos- Mestranda (Universidade Estadual de Londrina) Orientadora: Maria de Fátima Cunha Palavras-chaves: Lei 10.639/03, professores, apropriação Este trabalho tem por objetivo problematizar as apropriações efetuadas pelos professores sobre a Lei 10.639/03, especialmente os professores que atuam junto aos alunos dos sexto aos nonos anos do ensino fundamental. Trata-se de uma discussão que se pretende alicerçar sob a ótica das abordagens curriculares. Compreendendo a Lei como resultante de um movimento social complexo, iremos analisar como e se sua efetivação tem ocorrido na prática cotidiana das escolas. Um vasto arcabouço teórico fundamenta esse trabalho que estará referenciado tanto pela História quanto pelo Ensino. Buscaremos uma abordagem que traga à discussão questões relacionadas ao multiculturalismo proposto pela legislação, sua imposição por meio de uma política curricular oficial e, diante dessa política curricular, as apropriações e adequações a que a legislação tem sido submetida adaptando-se, assim, às diferentes realidades escolares e às mais variadas orientações a que estão ligados os professores, seja por suas histórias de vida, seja por sua formação acadêmica. Desde janeiro de 2003, o ensino das histórias e culturas africana e afrobrasileira tornou-se obrigatório no sistema educacional brasileiro, a partir da sanção da Lei 10.639/03 pelo então presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Propostas de uma educação multicultural já se faziam presentes na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), mas, com a nova legislação, essas propostas adquiriram um caráter de obrigatoriedade. Todavia, após alguns anos, as discussões em torno da eficácia da lei ainda se encontram distantes de um consenso. Os pesquisadores dessa temática trabalham na tentativa de construir um arcabouço teórico que nos permita entender mais claramente as redes e conexões de apropriações e significados que se estabeleceram nos espaços de atuação e interferência dessa nova legislação, no caso, as escolas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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A despeito da obrigatoriedade do novo currículo, sua efetivação propiciou uma inquietação entre os professores: o que ensinar e como ensinar? A quem caberia preparar esses profissionais, muitas vezes desprovidos de informação e formação suficientes, para lidar com esse novo currículo? De que maneira suas experiências de vida “em termos de lastro de certeza” (TARDIF, 2000, p. 235), suas histórias, seus referenciais de formação, sua religião, sexo e etnia marcariam as decisões a serem tomadas frente a essa nova proposta curricular? Se, de acordo com Thompson (1981), as pessoas experimentam suas próprias experiências como sentimento e as aplicam nas diversas áreas de sua vida, como os professores têm aplicado suas concepções anteriores a essa nova legislação? Esses questionamentos nos permitem focar o olhar nas relações de ensino e aprendizagem, especialmente entre aqueles que fazem parte do grupo ensinante. De acordo com Siman (2005, p. 97), as novas correntes pedagógicas e historiográficas “consideram o sujeito que aprende como um sujeito portador de experiências e representações socioculturais e ativo no processo de aprendizagem”; numa perspectiva da educação histórica isso irá lhe proporcionar uma aprendizagem significativa. Mas, para os professores, como tem sido o processo de atribuir significação àquilo que a nova lei a priori afirma ser obrigação ensinar? Quais são as maneiras de imbuir de valor e significado um currículo novo e com o qual nem todos concordam? No Brasil, há uma “velada” discriminação oculta por trás de uma suposta democracia racial. Desde meados do século XX, existe um processo que almeja a inserção no currículo educacional de uma história que aborde a ancestralidade e cultura africana no Brasil. (NASCIMENTO apud SANTOS, 2005, p. 25). Ou seja, para o movimento negro, a Lei 10.639/03 é uma conquista, um passo inicial na construção de uma educação capaz de valorizar a história e a cultura negras, retirando-lhes a pecha de “periférica” e “complementar à cultura europeia”. Na disciplina escolar História, após o final do século XIX, o elemento negro brasileiro foi diluído no repetido mito das três raças e na tese de uma democracia racial que, ao mesmo tempo em que folclorizou sua presença na história brasileira, destituiu este elemento de historicidade e o tornou um ser sem cor cujos problemas passaram a ser estudados sob a ótica da probreza sem qualquer relação étnica. Um dos objetivos da Lei 10.639/2003 é a desconstrução desse modelo, nesse trabalho buscaremos, por meio da análise curricular, entender como e se esse objetivo está sendo atingido.

ST04- CULTURA, ETNIAS, IDENTIFICAÇÕES

História, poderes e identificações: Diálogos possíveis entre Foucault, Elias e Agamben na contemporaneidade Beatriz Anselmo Olinto UNICENTRO Palavras-chave: identificações – história - biopolítica Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são para quem deles experimenta contemporaneidades obscuras. Contemporâneo é, justamente, aquele que é capaz de escrever mergulhado apenas nas trevas do presente. 11 O presente projeto busca estabelecer um diálogo entre algumas reflexões de Michel Foucault (1926-1984), Norbert Elias (1897- 1990) e 11

AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009 (p.62-63).

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Giorgio Agamben (1942) com o objetivo de ampliar a análise sobre os processos de subjetivação e dessubjetivação na episteme moderna12. Com isso pretende-se construir uma reflexão teórica sobre algumas percepções que envolvem os processos relacionais identitários construídas na contemporaneidade. Serão problematizados os conceitos de história, poder, corpo em três obras dos autores citados acima, a saber, respectivamente: Em defesa da Sociedade (curso ministrado no Collége de France 1975-1976), Os Alemães (1989) e Homo Sacer (1995). Sempre abordadas dentro das demais problematizações empreendidas por esses autores no conjunto de suas pesquisas. A necessidade de ampliar a reflexão teórica sobre os processos identitários emergiu ao final da pesquisa realizada na UNICENTRO, sob o título Profilaxia Rural no Paraná (1916-1921)13, no qual foram estudados os trabalhos desenvolvidos pela Comissão de Profilaxia Rural nesse estado entre os anos de 1916 e 1921. Através dele pode-se indicar que o trabalho da Comissão ajudou na diminuição das resistências existentes, durante a primeira década do século passado, ao investimento público vultoso na área da saúde. Tais resistências parecem ter sido dissipadas através da constituição de uma verdade médica calamitosa sobre a situação do interior do Estado, visão essa instituída a partir dos trabalhos da Comissão de Profilaxia. O médico Heráclides Souza Araujo, responsável por essa Comissão, defendia a ação direta do médico sobre a população, o que aproximaria a “autoridade” do “povo” com a entrega dos remédios no próprio “habitat”. Um método “intensivo” segundo o autor, através do recenseamento, visitação do médico e seu “uso assistido” dos medicamentos, ou seja, a sua administração por um guarda sanitário. Só assim, com essa proximidade com essa população “refratária”, o médico passaria “[...]a ter sobre eles verdadeira e direta ascendência. A ação do povo passa a ser apenas obedecer, cumprir ordens em seu benefício e deixar-se medicar.”14 Como já dissera Trajano dos Reis “e não se pode cuidar da salvação pública sem ser um ditador”15.Para justificar o autoritarismo evidente das afirmações da profilaxia, foram compostas visões depreciativas sobre as populações rurais. Nesse sentido, o relatório sobre os trabalhos da Profilaxia Rural apresentava, além das resistências das oligarquias locais, também formas de resistências das próprias populações rurais, apesar de lidas depreciativamente dentro de modelos de teimosia e ignorância: Cuidando carinhosamente, fazendo-se respeitar pela nobreza do seu gesto, vai o médico, pouco a pouco, se apoderando da confiança da gente dos campos, levando-a, com habilidade, ao exame e tratamento das outras doenças, que, raramente, suspeita causar-lhe dano. Porque essa gente é naturalmente impressionável, o médico não esquece os meios de que a ciência pode dispor para convencer os mais teimosos.16 No dia em que se conseguir pela educação do sertanejo convencê-lo de que o maior mal que ele pode fazer a si mesmo, aos parentes e vizinhos é permitir que em redor da sua habitação, na horta e no seu pomar, continuem a espalhar fezes humanas ou defecar na superfície do solo ora aqui , ora ali, poderemos precisar o tempo necessário para a extinção da ancilostomose entre nós17 O teimoso e o ignorante apareciam como quase ingênuos, 12

Sobre a episteme moderna pode-se compreende-la como as condições de possibilidade de uma formação discursiva, sua homogeneidade em uma determinada época e espaço. Ela é abordada pela arqueologia do saber, compondo uma perspectiva de corte em camadas horizontais de análise. A episteme moderna emergiu e duplicou o homem em uma posição tanto de objeto do saber, quanto como sujeito do conhecimento. Sobre isso ver: FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 13 Ver: OLINTO, Beatriz Anselmo. Sem ilustração: a Profilaxia Rural no Paraná e a heteronomia das populações. In: XXIV Simpósio Nacional de História. www,shn2011.anpuh.org. 14 SOUZA ARAUJO. Heráclides de. A Prophilaxia rural no Estado Paraná: um esboço de geografia médica. Curitiba: [s.n.], 1919 (p.130). 15 Idem (p. 112). 16 Idem (p. 158) 17 Idem (p. 211)

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seres abandonados em sua eterna minoridade. Uma nomos ordenadora só poderia vir como uma salvação externa a essas criaturas apresentadas sem nenhum traço de civilização. Pois que, se convencidos das benesses da ciência, é porque eram impressionáveis, e, se um dia fossem educados, apenas cessariam de adoecer por sua própria culpa. A Profilaxia apresentava-se como uma positividade biopolítica. A única forma de incluí-los nos projetos nacionais do período, seria então, manipulá-los e salvá-los de si mesmo, pois que estava diagnosticada a heteronomia18 dessas populações. Com isso suas vidas foram expostas como vidas nuas19, sua hexis corporal foi minuciosamente examinada e seus costumes passarão a ter valor moral ao tornarem-se maus hábitos, pois: “Não há nenhuma zona do Estado que a gente visite, seja no litoral, seja nos campos, nos sertões ou no Baixo Paraná, em que se não encontre o povo dominado pelo mal habito de não fazer usos de latrinas” 20, afirmava Souza Araujo em 1919. O que enfim estava sendo gerido por essa profilaxia? Uma vida nua olhada por um projeto político. Uma vida exposta a luz de saberes a fim de transformá-la em operações reconhecíveis e previsíveis. A Profilaxia lidava com a vida compondo duplos como: civilização e barbárie, progresso e atraso, higiene e perigo, sujeito da ação e objeto de pesquisa. Duplicação integrante da ordenação das coisas e das gentes pela episteme moderna. O ser - humano é duplicado e seu ser e estar no mundo analisado e modificado. Para isso, a Comissão de Profilaxia, fez tabula rasa sobre as medidas profiláticas desenvolvidas pelas culturas indígenas, do trabalho das populações rurais desde a infância, da existência de uma medicina popular e do crescimento da produção agrícola no estado naquele momento. A vida dos trabalhadores no campo foi vista como o negativo, o avesso da civilização desejada, seus conhecimentos e seu trabalho foram desprezados. Eram representados como ignorantes e embrutecidos, às vezes por ignorância e sempre pela doença. Vistos como seres incapazes de autogestão, necessitando serem retirados de uma situação de falta, de ausência, por uma nomos planificada por um sujeito do conhecimento externo a eles. Com essas reflexões aponta-se que a modernidade é fiel a herança metafísica ocidental e com isso ao politizar a vida nua e incluí-la na polis, o faz construindo a política como biopolítica.21 A zoé, a vida, entra na polis e o viver é transformado em bem viver, o viver político da bíos, entendido como o viver de um corpo disciplinado, mas ainda excluído. Pois que a inclusão ocorre apenas diante do abandono de sua vontade autônoma em nome de uma submissão aos objetivos pragmáticos de um outro. Concordando com Giorgio Agamben, a novidade moderna não é tanto incluir a vida na polis, mas sim transformar todo o espaço político em biopolítica, fazendo coincidir bíos e zoé. Disso decorre que o único valor político seja a vida, transformada em vida nua, e a sua gestão, um fim em si. A figura do hommo sacer para Agamben, seria a metáfora dessa situação. Ele seria o homem capturado pelo poder soberano, matável por esse, mas insacrificável, tornando-se uma zona de indistinção entre a biopolítica e a vida natural. 22 O homo sacer habitaria uma terra de ninguém, entre a cidade política e a casa patriarcal. Hoje todos somos virtualmente homines sacri, pois na modernidade: “O poder soberano entra em simbiose cada vez mais intima não só como jurista,

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Em oposição ao uso autônomo da razão e ao seu imperativo categórico, é que se compõem o conceito de heteronomia. Nele encontra-se uma forma de sujeição a uma lei exterior ou quaisquer outras determinações que não pertençam ao âmbito da legislação estabelecida pela consciência moral de maneira livre e autônoma, nas quais “não é a vontade que então da à lei a si mesma, mas é sim o objeto que dá a lei à vontade pela sua relação com ela”. A heteronomia então seria uma menoridade diante da de vontade de outrem, de um interesse pessoal ou passional. KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2005 (p. 85-87, BA 87 BA 88-89) 19 Entende-se aqui vida nua como uma produção histórica específica dentro do biopoder. Ver: AGAMBEN, G. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. 2ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010. 20 SOUZA ARAUJO. Heráclides de. A Prophilaxia ... (p. 211) 21 AGAMBEN, G. Homo sacer:...(p,15). 22 Idem. (p. 16).

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X I I I E n c o n t r o E s t a d u a l d e H i s t ó r i a A N P U P R 46 mas também com o médico, com o cientista, com o perito, como sacerdote.”23 Essas formas de biopolítica exigem um corpo a ser exposto e reduzem o espaço político a formatação da vida de um povo.24 O estado nação moderno é fundado sobre os procedimentos de localização, ordenamento e nascimento, ou seja, um nexo entre território, governo e regras automáticas de inscrição da vida. 25 O projeto biopolítico inscreve-se, então como o projeto de construção de um povo, entendido em duplo sentido, tanto político quanto de pobres desamparados a serem regidos. A pesquisadora Carmem Kummer também apontou, com muita propriedade, ao final de sua dissertação dedicada a mesma Comissão de Profilaxia Rural no Paraná, uma permanência do problema da saúde nas zonas rurais do estado, assim: Conforme o IPARDES, apenas 35,8% de 199 municípios considerados rurais apresentavam (em 2001) algum tipo efetivo de prestação de serviços na área da saúde. Não podemos negar que nenhuma ação foi tomada desde a década de 1910, uma vez que o saneamento no meio rural nessa época deu início a muitos projetos realizados décadas depois. Por outro lado, possivelmente podemos afirmar que as justificativas apresentadas para definir este índice alarmante se inserem nas mesmas queixas apresentadas por Souza Araújo, João de Barros Barreto e Eduardo Leal Ferreira, quais sejam, o infindável descaso político das elites locais com aqueles que julgam ser irrelevantes e desnecessários para o país. 26 Uma continuidade de problemas que poderiam ser trazidos para a ordem do dia sob as mesmas justificativas utilizada pelos médicos do início do século XX. Ou seja, uma permanência de uma visão de mundo em torno do rural e sobre as pessoas que lá vivem. Essas permanências se caracterizam como um conjunto de estigmas, metáforas, estratégias, imagens, políticas, etc; dispostas para o rural e que partem do pressuposto de uma eterna minoridade daquela população. Consequentemente, o apelo recorrente é por formas de tutela e conseguinte sujeição, como uma inferioridade diante do urbano, do moderno, do científico e do erudito. Não seria a toa que os discursos sobre a modernidade no campo hoje, início do século XXI, sejam ligados ao agronegócio, um empreendimento extremamente mecanizado e de alta tecnologia, que necessita de poucos viventes no campo. Sem os viventes, só restaria a terra moralizada como boa? Por outro lado, a agricultura familiar é objeto de inúmeras tentativas de resgate, de conservação, ou ainda de criação de opções econômicas sustentáveis, as quais permitam a sua sobrevivência. Propostas cientificamente embasadas por bem intencionados e exteriores saberes acadêmicos. Aqui, novamente a heteronomia, as soluções encontradas para os problemas criados, são elaboradas por outrem com interesses e disposições de fora da vontade autônoma. As pessoas envolvidas e as necessidades por elas mesmas percebidas, não participam do projeto, esvaziando a ação como um processo autônomo de responsabilização. Em ambos os casos, a verdade científica incorre, mais uma vez, no perigo de subsumir o outro. Lembrando mais uma vez Foucault “vocês não tem direito de menosprezar o presente”.27 Pois cada um é responsável pelo processo histórico do conjunto. A final a modernidade é uma atitude, uma maneira de pensar e agir que se apresenta como tarefa contemporânea. Foi durante a pesquisa empírica e a problematização da documentação levantada, que se constituiu um encontro entre as reflexões dos autores Foucault e Agamben, as quais agora se objetiva ampliar. Porém, somente olhando as obras em questão no presente projeto é que se poderá compreender de que forma os conceitos de Norbert Elias poderão compor com esse horizonte de pesquisa. Assim, a escolha do livro Em defesa da Sociedade, que contém o curso ministrado por 23

Idem (p. 119). Idem (p. 145). 25 Idem (p. 172-174) 26 KUMMER, Carmem Sílvia da F. Não esmorecer para não desmerecer: As práticas médicas sobre saúde da população rural paranaense na primeira república. Dissertação (Mestrado em História) Curitiba: UFPR, 2007 (p.136). 27 FOUCAULT, M. O que são as luzes? In: ___. Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005 (p . 341-342) 24

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Foucault no Collége de France em 1975 e 1976, embasa-se através da opção pela análise genealógica. Através dela, o autor buscou uma insurreição dos saberes contra os “efeitos centralizadores de poder que são vinculados a instituição e ao funcionamento de um discurso científico”. Uma pesquisa genealógica seria então a forma de “dessujeitar os saberes históricos e torná-los livres, isto é, capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico unitário, formal e científico.28 Em Em defesa... a análise do poder centra-se nas estratégias do seu exercício sobre o corpo e sobre a população. Aponta como modelo para essa análise a inversão da máxima de Clausewitz (a saber, a guerra é a política por outros meios) percebendo assim “a política como a continuação da guerra por outros meios”29 A genealogia do estado moderno expõe uma batalha permanente para limpar e moldar o corpo social em um longo movimento de estatização e centralização do poder de guerra por este.Por outro lado, seguese Norbert Elias, com a noção de processo civilizador, que pode ser definida como um longo caminho percorrido pela civilização ocidental no desenvolvimento do seu horizonte de sensibilidade, um processo de repressão a tudo que fosse ligado a natureza animal do ser humano, através dos estabelecimento de pequenas nuances comportamentais, como “o processo pelo qual se verificou a sistematização dos controles sociais”.30 Justifica-se então o diálogo entre os autores, pois que, através dos três pontos centrais do processo civilizador, a saber: controle dos acontecimentos naturais, controle das relações entre os humanos, controle do aprendizado,31 Norbert Elias, conseguiu interligar o desenvolvimento da tecnologia, do autocontrole, do lazer, da educação e do estado nacional na formação do mundo contemporâneo. Nos dois volumes do livro O processo civilizador, o autor demonstrou, através de pesquisa documental e em uma perspectiva de longa duração, como o controle exercido através de outrem foi interiorizado, ou melhor, transformou-se em um autocontrole. Através do desenvolvimento de sentimentos de vergonha, o processo civilizador retirou a vida instintiva e afetiva da vida em comum. É nesse processo de controle das pulsões que se desenvolveu o controle da violência e a sua monopolização pelo Estado. Assim, o senhor feudal virou membro da corte do rei e trocou a espada pelo apanágio. Foi uma pacificação da política através do estabelecimento de novas regras. A política tornou-se um jogo, pois possuiria regras, exigiria mobilidade e autocontrole dos participantes. Porém, não só a política se assemelharia a um jogo. Para Elias, a sociedade é formada por configurações, ou seja, o indivíduo participa de diversos jogos ao mesmo tempo em sua vida diária. Vivencia diferentes figurações, em cada um delas e assume multiplos papéis, cumpre variados comportamentos e níveis de controle, conhecendo, cumprindo e manuseando as regras e as relações de cada uma dessas figurações e criando uma configuração específica. Também é importante destacar que Elias em nenhum momento de suas reflexões diminui a importância dos conflitos no viver social, ao contrário, os processos podem não ser planejados, porém se dão entre tensões e relações de poder.32Portanto, o processo civilizador é, nos termos de Elias, tanto uma sociogênese, quanto uma psicogênese, ou seja, foi um processo coletivo do Ocidente a partir do final da Idade Média, passando pela constituição do Estado moderno, até a contemporaneidade, mas também é um processo interno de autocontrole pelo qual cada pessoa passa desde o seu nascimento. “A história de uma sociedade se reflete em uma história interna de cada indivíduo”.33 É nesse sentido que se dialoga com a visão de 28

___. Em defesa da sociedade. São Paulo Martins Fontes, 1999 (p. 14 - 15). Idem (p.22 e 54). 30 GEBARA, Ademir. Educação e lazer na teoria do processo civilizador. Revista Semana de História. Guarapuava, ano 2, nº 2, p. 134-144, 2004. 31 Idem (p.134 -135). 32 PONTAROLO, Fábio; GOMES, Cerize; OLINTO Beatriz A. Sobre sociologia: fundamentos de tória social para futuros historiadores. Guarapuava, UNICENTRO, 2010. 33 ELIAS apud HEINICH, Nathalie. A sociologia de Norbert Elias. Bauru: Edusc, 2001( p. 13). 29

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Foucault, porém de uma forma dúbia, pois se, por um lado as reflexões parecem passíveis de aproximação, por outro há um distanciamento irredutível. Aproximam-se pelo tempo longo, a psicogênese e sociogênese imbricadas, a estatização e centralização da guerra, a periodização; entretanto, a guerra interna permanente, a ruptura trazida pela noção de episteme, de regimes de verdade e de arqueologia, criam um afastamento das analises desenvolvidas por Elias, tanto em O Processo Civilizador, quanto em A Sociedade de Corte. Pois que, para Foucault, sob a regência da lei, continua a ser a guerra o motor da ordem. Disso decorre, não uma configuração de jogo como o é para Elias, mas uma sociedade com divisões binárias, as quais legitimam pertencimentos e identificam inimigos, em uma batalha na qual a verdade torna-se uma arma na relação de força de um sujeito falante guerreiro,34 em discursos verdadeiros apoiados na tradição e na mitologia. Nesse ponto novamente uma aproximação, agora com a obra Os Alemães. Pois Foucault desenvolveu uma noção de pacificação autoritária articulada no discurso do direito, da filosofia e em uma certa forma de discurso históricopolítico na Europa a partir da Revolução Inglesa. Também Norbert Elias fez uma digressão sobre o nacionalismo e sobre a violência no século XX nessa sua última obra. Nela analisou como a aplicação de modelos aristocráticos de comportamento em estados europeus teve em seu cerne a noção de desigualdade entre os viventes, não só de forças, mas de qualidade e de grupo. 35 Na continuidade do mesmo livro, o autor analisou o colapso da civilização discutindo o nazismo, os campos de concentração e os julgamentos dos crimes de guerra. Nesse momento da obra uma ponte temática com Giorgio Agamben pode ser construída, pois que esse último tem dedicado grande parte da sua reflexão a estes fenômenos, como é o caso do Hommo sacer e da obra O que resta de Auschwits.36 A partir desses primeiros diálogos é que se buscará construir um embasamento teórico mais amplo que permita alargar o horizonte de investigação sobre processos de identificação, de subjetivação e dessubjetivação, bem como refletir sobre as noções de cidadania, de posicionamentos de grupo e dos usos e características do conhecer histórico. Reflexões essas que também embasarão o desenvolvimento das atividades de pesquisa e ensino empreendidas pela proponente no período de abrangência desse projeto. Fiel a proposta desse projeto a metodologia discute a polaridade tensionada existente entre uma função tradicional da escrita da história37, de construir uma memória coletiva, e uma função geneológica da escrita da história, quase uma anticiência.38 O presente projeto pretende filiar-se a segunda. Advém daí a responsabilidade por todos os limites que acompanham escolher uma discussão teórica antes de buscar a pesquisa empírica. Porém, refletir sobre os paradigmas que norteiam o conhecer na contemporaneidade, em nenhum momento quer obliterar a história como densa pesquisa empírica problematizada a partir de lugares no presente, apenas reforçar essa problematização antes de imergir uma vez mais em monumentos. Nesse diálogo entre temporalidades, inerente ao ofício de historiador, é que se busca adensar a reflexão, não para a constituição de mais um modelo a-histórico que apague a complexidade da diferença, mas, exatamente ao contrário, ao compor uma percepção crítica do mesmo, tornar-se mais atenta as míninas nuances, vendo tanto subjetivações, quanto as 34

FOUCAULT. Em defesa ...p. 63 ELIAS , Norbert. Os Alemães: A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: ZAHAR, 1997. Essa problematização também pode ser encontrada em WEBER, Max. O caráter nacional e os junkers. In:___. Textos selecionados (coleção os pensadores). 2ed. São Paulo: Abril, 1980 (p.111-119). 36 AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha. São Paulo: Boitempo, 2008. 37 A noção de historiografia tradicional é definida por Novais e Forastieri em relação a historiografia moderna, essa última dialogaria com as ciências sociais, enquanto a primeira não. Porém, ambas corresponderiam “à necessidade de criação da memória social”. Ver: NOVAIS, Fernando; SILVA, Rogério Forastieri Silva. Nova história em perspectiva. São Paulo: Casacnaify, 2011 (p.15) 38 “As genealogias são, muito exatamente, anticiências. [...] É exatamente contra os efeitos de poder próprios de um discurso considerado científico que a genealogia deve travar combate.”FOUCAULT, Michel. Em defesa...(p. 15). 35

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dessubjetivações, tanto estratégias, quanto táticas. Por certo, em alguns momentos analisando paradigmas, mas também, esmiuçando as astúcias e tensões envolvidas. Aproximando-se do diz Agamben: “É como se aquela invisível luz, que é o escuro no presente, projetasse a sua sombra sobre o passado, e este, tocado por esse facho de sombra, adquirisse a capacidade de responder às trevas do agora.” 39 Na passagem acima, a influência do conceito de história em Walter Benjamim40 explicita-se nas reflexões do filósofo contemporâneo, pois nos dois autores o passado é também agora. Se em Benjamim, o passado era um relampejar no presente, em Agamben, ele é uma resposta as perguntas produzidas pelas sombras desse último. Abre-se um espaço novo em uma visão que poderia soar, até então, um pouco estrutural, mas longe disso, o presente e o passado são, um jogo de luz e sombra, aberto para invenções, hibridismos e criatividades dos viventes. Fazer tal proposta torna-se possível exatamente ao trazer para o debate também as contribuições de Norbert Elias e a sua noção de configuração. Essa permite perceber não só a inseparabilidade entre indivíduo e sociedade, como também a dinâmica do jogo, a multiplicidade, o manipular das regras e as negociações, em uma complexidade de diferentes posições assumidas e/ou escamoteadas. Nas palavras do autor: Sem dúvida temos consciência, ao mesmo tempo, de que esse abismo entre indivíduos e a sociedade não existe na realidade. Toda sociedade humana consiste em indivíduos distintos e todo indivíduo humano só se humaniza ao aprender a agir, falar e sentir no convívio com outros. A sociedade sem indivíduos ou o indivíduo sem a sociedade é um absurdo. 41 Adensando essa reflexão, retorna-se a Giorgio Agamben, para quem os viventes encontram os dispositivos42 entendendo-se esses como: “Qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes.”43 Porém, o autor vê diferença entre os dispositivos disciplinares e os contemporâneos, os disciplinares produziriam sujeitos, enquanto os hodiernos por serem disseminados sobre os viventes acabariam por produzir apenas espectros de sujeitos, semelhantes a máscaras.44 Porém, na visão que aqui se pretende compor, usar máscaras também pode ser tática, astúcia em um jogo de identificações. Se existe diferença o seu encontro pode produzir novas relações e quebrar alguns modos de conhecer por vezes enrijecidos.

Região, história e historiografia: o conhecimento na revista História Questões & Debates (1980-2000) Bruna Silva Mestranda do Programa de Pós Graduação em História da UNICENTRO Palavras-chave: História: questões e debates, Região, historiografia.

39

AGAMBEN. O que é o contemporâneo?... (p. 72) BENJAMIM, Walter. Sobre o Conceito de História. In___. Magia e técnica, Arte e política. (obras escolhidas 1) 6 ed. São Paulo: Brasiliense, 1993 ( p. 222-232) 41 ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994(p.67). 42 Para trabalhar a noção de dispositivo, Giorgio Agamben apóia-se em Foucault e os interpreta como procedimentos para a gestão prática dos viventes. Assim, um dispositivo organiza e situa normas de conduta do viver. Ele é uma positividade histórica, isto é, uma coerção e comando de sentimentos e comportamentos. Ver. AGAMBEN, G. O que é um dispositivo? In:___. O que é o contemporâneo?... (p.30 e 31) 43 Idem (p. 40). 44 Idem (p. 42). 40

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A presente pesquisa visa compreender como a história e a historiografia foram escritas, pensadas e editadas na Revista: História questões e debates, no interstício de 1980-2000. O periódico se caracteriza como uma publicação de caráter científico produzido pela Associação Paranaense de História – APAH e, posteriormente, com apoio da Universidade Federal do Paraná, através do Programa de Pós Graduação em História. Neste periódico pretende-se analisar questões inerentes à concepção e a elaboração de uma história regional, bem como o diálogo de historiadores e outros pesquisadores com o ensino no Paraná, além de compreendermos, identificarmos e problematizarmos as influências das correntes historiográficas existentes nos artigos, principalmente os debates acerca da Nova História. As revistas científicas fazem parte do longo processo de produção do conhecimento, não somente o veículo de publicação precisa ser qualificado, mas também os artigos. Ou seja, ambos, necessitam ser conhecidos e re-conhecidos. Através desta construção e, consequentemente da desconstrução de saberes é que o conhecimento surge. Tal processo é denominado por Bruno Latour como ciência em construção.Esse crédito pode materializar-se nas apresentações, nas capas, nos artigos, resenhas, mesas redondas, trabalhos publicados etc, no referido periódico. Assim pensar as apresentações45, os artigos da área de história, seus autores e leitores contribuirão para entendermos a leitura do grupo idealizador da revista em relação ao passado local e institucional, e ainda, as concepções que permeiam a construção de diferentes conceitos de história e região desses sujeitos. Entre 1980 e 2000, a periodicidade da revista é semestral, portanto, resultando duas edições por ano. Contudo, como veremos a diante, algumas edições deixaram de ser publicadas. Segundo a própria fonte, isso ocorreu devido a fatores financeiros e não por falta de demanda intelectual. Porém, tal questão merece ser analisada.História: questões e debates será considerada como um viveiro de sociabilidade, tal como proposto por Jean-François Sirinelli46 e, sobretudo, um local em que estão impressas as maneiras como o seu grupo idealizador leu seu passado e imaginou o futuro. Os periódicos publicados não possuem apenas artigos, a revista História: questões e debates, também foi chamada de dossiê algumas vezes por seus editores, local aonde são publicados um conjunto de textos temáticos. Por conseguinte, são publicadas resenhas, notas de leitura, resultados de eventos, como conferências, mesas redondas. Também é pertinente salientar que as edições seguem publicando por longo tempo, as notícias da Associação Paranaense de História - APAH e a listagem de dissertações de mestrado defendidas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná – UFPR.A Revista História: questões e debates é nascida na conjuntura institucional dos anos 1980, por ora foi considerado que os grandes debates intelectuais se davam no eixo universitário Rio – São Paulo. A revista mantém as características teóricas voltadas para educação e formação de professores de história, sendo assim, nasce com a proposta de manter constante diálogo com os professores de primeiro, segundo e terceiro graus. É pertinente lembrar que o contexto educacional dos anos 80 era um momento no qual os ensinos, primário, médio e superior haviam passados por diversas mudanças durante a ditadura militar, as quais resultaram em altas taxas de analfabetismo e descontentamento.47Na primeira edição do periódico encontramos artigos que debatem o ensino, não apenas o escolar, mas também o ensino do meio universitário. No artigo denominado A política educacional e o ensino de história, de autoria de Maria José Trevisan são tecidas considerações a respeito do ambiente universitário 45

As apresentações são escritas por diversos autores, não necessariamente pelo editor da revista. Apud DUTRA, Eliana de Freitas; MOLLIER, Jean-Yves (Org.). Política, nação e edição: o lugar dos impressos na vida política, Europa e Américas nos séculos XVIII-XX. São Paulo: Annablume, 2006. 46

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Em 1980 18,6% da população estavam matriculados no ensino primário, 2,37 no ensino médio e haviam 1.377.286 de alunos no ensino superior. A taxa de analfabetismo foi calculada em 25,84% no Brasil naquele ano. Fonte: IBGE, dados de 1980 In: PILETTI, Nelson. História da educação no Brasil. São Paulo: Ática, 1994. p. 125-7.

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no período, com depoimento oral de um professor que critica a estrutura hierárquica universitária: Segundo um dos docentes, essa estrutura administrativa é “militarmente hierárquica”, existe na universidade uma hierarquia de poder e comando muito mais fechada do que a hierarquia militar. A comunidade recebe ordens dos comandantes da universidade, fechados em colegiados absolutamente impenetráveis aonde não existe a participação democrática dos jovens professores dos estudantes e dos funcionários na medida em que sua representação simbólica e seu voto não tem qualquer possibilidade de destruir as ordens hierarquicamente emanadas. É essa “estrutura militar hierárquica” que responde pelo enfraquecimento atual da universidade e pela sua incapacidade de defesa.48Neste artigo há o debate sobre a intervenção do governo nas universidades na conjuntura dos anos oitenta, a declaração acima é incomoda, uma vez que se descreve a universidade como uma estrutura mais rígida do que a estrutura militar. Sabemos que a reforma universitária de 1968 intensificou a burocracia nas universidades, desta forma a comunidade acadêmica possuía pouco ou nenhum espaço para debate.Percebe-se que as linhas de pesquisa são voltadas para a Nova História que começava a ser debatida naquela década no Brasil. Os dois primeiros artigos que abrem o primeiro volume da revista são dedicados a discussão de teoria da história, especialmente da nova possibilidade de se escrever a história, que no ano de 1980, completa cinquenta anos. Vejamos:Há agora uma história que procura conhecer e explicar a evolução da sociedade através do tempo, uma história preocupada com o presente, preocupada em saber em que o passado longínquo ou não, está vivo entre nós [...]. Esta “Nova História” nasce já há cinqüenta anos. No entanto, um grande número de pessoas, mesmo as de cultura universitária, continua a repetir que o que interessa em história é o fato passado simplesmente.49A partir desse trecho é possível perceber que serão bastante explorados os novos recursos dessa nova maneira de se escrever pelos historiadores que contribuem com a revista História: questões e debates.50 Percebe-se também, algumas divergências quanto a explicação que define a Nova História, esta é interpretada no trecho transcrito como uma maneira de explicar a história de maneira evolutiva. Neste momento, esta nova escola51 está iniciando seu percurso historiográfico no Paraná e no Brasil, portanto será possível analisar na documentação de que maneira foi utilizada esta nova historiografia e suas mudanças ao longo dos anos. No artigo que precede ao acima citado, temos referência não apenas à uma nova maneira de escrita, mas também à uma nova temporalidade: “[...] No terreno da nova história, conciliando em certa medida uma concepção materialista de história, não se encontra um tempo homogêneo e unitário, mas uma temporalidade diferenciada para cada nível do conjunto do todo social.”52No que diz respeito ao seu projeto gráfico percebe-se que ocorreram mudanças a 48

TREVISAN, Maria José. A política educacional e o ensino de história. In: História: questões e debates: revista da associação paranaense de história. v1 n1. Curitiba, 1980. p. 30. 49 CARDOSO, Jaime Antonio. O cinqüentenário da escola dos “ANNALES”. In: História: questões e debates: revista da associação paranaense de história. v1 n1. Curitiba, 1980. p. 10. 50 O professor Odilon Nadalin, que permanece desde o primeiro volume até as edições de 1989, doutorou-se em história e geografia das populações pela Ecole dês Hautes Etudes em Sciences Sociales em 1978. Atualmente faz parte da Societe de Demographie Historique e da Unition Intenacionale pour IEtude Scientifique de La Population. 51 A Nova História francesa tem como marco inicial a publicação da Annales d’histoire économique et sociale, em 1929, dirigida pelos professores da Universidade de Estrasburgo Marc Bloch e Lucien Febvre. Nesta primeira geração a historiografia foi influenciada pela sociologia, economia, e também pela geografia humana. Agora a história é pensada como uma ciência social, sendo assim passa a não possuir mais uma metodologia tão diferenciada das outras ciências sociais, como a historiografia metódica. Por isso, neste estilo de escrita, se pode conversar com novas ciências humanas. Outro diferencial está no fato de que não se desvincula mais os eventos políticos do sujeito e da sociedade. Ver: REIS, José Carlos. Escola dos Annales: A inovação em história. São Paulo: Paz e Terra, 2000. 52 CARDOSO, Jaime Antonio. O cinqüentenário da escola dos “ANNALES”. In: História: questões e debates: revista da associação paranaense de história. v1 n1. Curitiba, 1980. p. 10.

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partir da década de 90 quando o editor, Sergio Odilon Nadalin, deixa a revista parar ocupar o cargo de presidente da Associação Paranaense de História – APAH.53 Se percebe que na edição 16 número 30 do ano de 1999, há mudanças importantes no projeto gráfico, pois a revista passa a ter ficha catalográfica e um novo estilo de diagramação, tendo em vista que passou a ser diagramada pela Editora da UFPR.54 Ser divulgado por uma editora universitária possibilita uma maior visibilidade no campo acadêmico, uma vez que lá as revistas passam a ter padrões e registros internacionais, além de poder contar com o respaldo de uma grande gama de pares. Percebe-se, também que por cerca de cinco anos a revista não foi publicada, ao longo das apresentações foi possível perceber que havia dificuldades financeiras para que a revista fosse impressa, até que finalmente a Universidade Federal do Paraná – UFPR, passa a colaborar com a revista História: questões e debates. Ainda não foi possível perceber se a publicação de resultados de eventos, projetos de pesquisa etc., como já citado acima, são uma preferência por parte do Conselho Editorial, ou se por ventura não havia demanda de produção. Contudo, somente a pesquisa poderá responder a essa questão. As revistas científicas tem sido o meio mais comum nas academias para divulgar o conhecimento que lá se produz. Nas primeiras décadas do século XXI, com a ampliação das exigências da CAPES55 houve uma proliferação dos periódicos científicos, mais e mais artigos, pesquisas, resenhas, revisões bibliográficas são publicadas, portanto, o pesquisador deve se adequar a essa demanda que se mostra cada vez mais rigorosa. Por um lado, há exigências de produção intelectual voltadas para pontuação, e por outro, os critérios de avaliação de aceite das revistas com um qualis56 considerado adequado para a pontuação e o reconhecimento dos pares. Muito se tem escrito a respeito de revistas,57 no entanto, na área que concerne à revistas científicas pouco se discute. Stumpf lembra que desde o século XVII, momento em que as revistas científicas começaram a ser publicadas elas “passaram a desempenhar importante papel na comunicação da ciência. Surgiram como uma evolução do sistema particular e privado de comunicação que era feito por meio de cartas entre os investigadores e das atas ou memórias das reuniões científicas.”58 As revistas tem sua raízes na vontade ou na necessidade do exercício da comunicação. Segundo esta mesma autora, no passado, não havia necessidade de que o material publicado fosse inédito, mas sim que fosse publicado nos mais variados 53

As edições da revista contaram com o apoio de várias instituições como CNPq, FUNDEPAR, FINEP. Secretaria de Estado da Cultura e do Esporte, CONCITEC, BANESTADO, Instituto Goethe de Curitiba e finalmente, com o apoio da Pós-Graduação em História da UFPR. 54 Até o momento não foi possível angariar todos os números publicados do Dossiê, como as edições números 28 e 29 de 1998. 55 A CAPES tem como missão a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) desempenha papel fundamental na expansão e consolidação da pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em todos os estados da Federação. Cf. < http://www.capes.gov.br/sobre-a-capes/historia-e-missao> Acesso em 18 de ago 2011. 56 Qualis é o conjunto de procedimentos utilizados pela Capes para estratificação da qualidade da produção intelectual dos programas de pós-graduação. [...] A estratificação da qualidade dessa produção é realizada de forma indireta. Dessa forma, o Qualis afere a qualidade dos artigos e de outros tipos de produção, a partir da análise da qualidade dos veículos de divulgação, ou seja, periódicos científicos. A classificação de periódicos é realizada pelas áreas de avaliação e passa por processo anual de atualização. Esses veículos são enquadrados em estratos indicativos da qualidade - A1, o mais elevado; A2; B1; B2; B3; B4; B5; C - com peso zero. O dossiê História: questões e debates, possui qualis B1 – História e B2 – interdisciplinar. Cf. http://www.capes.gov.br/avaliacao/qualis. Acesso em 10 de ago de 2011. 57 Tânia Regina de Luca, Eliane Freitas Dutra, Ana Luiza Martins, Jean-Yves Mollier entre outros, têm publicado diversos textos referentes à fontes impressas, especialmente revistas. Recentemente foram reunidos em um compêndio Política, nação e edição: o lugar dos impressos na construção da vida política, estes artigos analisam as fontes impressas em diferentes prismas, no entanto, não há nenhum artigo referindo-se à revistas científicas. Por outro lado há outras publicações de autoria de Margarete Lopes e Adriana Piscitelli que refletem a respeito de revistas científicas e gênero. 58 STUMPF, Ida Regina Chitto. Passado e futuro das revistas científicas. In: Revistas ciência e informação. vol 25 n 3. Disponível em: >. Acesso em 26 de junho de 2011. p. 1.

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X I I I E n c o n t r o E s t a d u a l d e H i s t ó r i a A N P U P R 53 meios, aumentando dessa forma o número de possíveis leitores.59As revistas se tornaram recentemente objeto de pesquisa histórica dentro da perspectiva de história da historiografia, mas agora os olhos e as indagações dos historiadores se voltam cada vez mais para elas. Há interesse em entender o porquê de publicar? Por que esse artigo e não aquele? Por que essa capa ou essa imagem? As revistas também nos proporcionam um local em que estão impressas a maneira como um determinado grupo se articula. São por muitas vezes denominadas como espelhos de uma determinada instituição. No entanto, é importante refletir esse conceito, pois a imagem do espelho é o reflexo, assim como a etimologia da palavra sugere, é uma reflexão, um raciocínio.Bruno Latour em Ciência em ação: como seguir engenheiros sociedade afora reflete sobre o processo de engenharia da produção do conhecimento, processo que passa pela produção de artigos, e estes são por sua vez são o início para novas pesquisas, apontamentos e discussões. Para o autor: “A ciência é vista como o oposto do argumento de autoridade; na qual vencem muitos por terem a verdade ao seu lado”60. A produção do conhecimento é aqui interpretada como o que Foucault denomina vontade de saber, fato que desemboca nos sistemas de exclusão. Pois o que é publicado em periódicos científicos deve possuir o status de inédito, ou seja, revelar que a pesquisa ora publicada supera os dados apresentados outrora. Processo que Latour chama de ciência em construção. Assim um artigo é denominado científico a partir do momento em que é reconhecido como tal, um porta voz com autoridade, (qualis) é que o diz, pois tal status “[...] não é atribuído a textos isolados [...] se torna científico quando tem pretensão de deixar de ser algo isolado e quando as pessoas engajadas na sua publicação são numerosas e estão explicitamente indicadas no texto”61. O quê Latour expõe são informações pertinentes, pois ser publicado por um veículo científico não é o processo como um todo, nem o fim dele, mas sim parte de um sistema de formação de pares. Ter exposto no texto o nome de uma Instituição de Ensino Superior e de um Conselho Editorial ajuda a compor a longa lista de reconhecimentos, é dizer que o outro reconhece o pesquisador; o autor é em fim importante o suficiente para ser lido.Duvidar da palavra de um porta-voz, porém exige esforço muito maior, porque agora é uma pessoa – o discordante – contra uma multidão – o autor [...]. A força vem da palavra dos representantes quando eles não falam sozinhos nem por si, mas na presença daquilo que representam.62 Assim o autor é eclipsado, para discordar dele é preciso discordar de muitos. A esse respeito cabe ressaltar a necessidade de pensarmos a revista enquanto objeto de interpretação historiográfica. Na mesma perspectiva, a partir da análise da operação historiográfica proposta por Certeau, será possível analisar a produção na escrita da história na revista a partir de um lugar social, da análise de textos e da escrita. O local social não é um detalhe na escrita da história, mas sim importante o suficiente para definir de que lugar social se fala.63 Visto que esta ligação se trata de admitirmos que o passado que estudamos fez parte de uma realidade articulada dentro de um lugar de produção com questões socioeconômicas, políticas e culturais. Assim, revistas não são locais de depósito de informações, são locais de efervescência intelectual em que se cria um viveiro, ou seja, um espaço de sociabilidade. Nesse sentido, a revista é encarada como fonte de idéias, de valores; um local em que estão impressas as maneiras como o seu grupo idealizador leu seu passado, imaginou o futuro e desenhou o espaço constituindo um território.

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Idem. LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Trad. Ivone C. Bendetti. São Paulo: UNESP, 2000. p. 56. 61 Idem. p. 58. 62 Idem. p. 120. 63 Cf. CERTEAU, Michael de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. Trad. Maria de Lourdes Menezes. 2ª ed. Forense Universitária. 60

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Associação pró-arte: um ensaio sobre a preservação da cultura alemã no Paraná Edilaine Rizzuto Cruz (Mestranda do PPGHS/UEL) Rogério Ivano (Orientador) Palavras-Chave: Associação Pró-Arte, Imigração alemã, Cultura alemã. Este trabalho tem como propósito principal refletir sobre a Associação Pró-Arte, uma entidade conduzida por emigrados judeu-alemães, voltada para a preservação da cultura alemã na cidade de Rolândia. Quando o processo imigratório, nos países europeus, tornou-se mais intenso, assim, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha intensificou as perseguições aos judeus. Nesse período, aqueles que tiveram oportunidades, saíram do seu país em busca de uma nova vida em outros lugares. Esta emigração só foi possível devido a um projeto de colonização de terras iniciado pelo governo brasileiro na década de 1920, e que contou com uma parceria entre uma companhia de colonização inglesa e um grupo alemão refugiados do nazismo, sendo majoritariamente, de origem judaica. No entanto, os refugiados não constituem uma comunidade judaica organizada ao se estabelecerem na cidade paranaense. Porém, uma prática comum onde existiam imigrantes alemães surgiu em Rolândia, uma associação cultural, a Associação Pró-Arte. Fundada em 1953, a associação organizava conferências, reuniões, palestras e demais atividades culturais como um meio de união entre os emigrados. De acordo com Max Maier, emigrado que relatou sobre os encontros em sua autobiografia, os conferencistas eram muitas vezes escolhidos entre os próprios refugiados, mas também entre pessoas de fora, seja de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e de outros países, tais como Alemanha e Estados Unidos. Grupos de teatro de São Paulo e Curitiba apresentaram espetáculos e leituras de peças precedidas e seguidas de comentários. Havia, ainda, a declamação de poesias alemãs. Os temas das conferências eram os mais diversos: desde relatos de viagem até as mais modernas técnicas de ensino. Estas realizações da Pró-Arte, segundo o mesmo autor, mantiveram os imigrantes em contato com o resto do mundo. Todas as atividades da associação eram realizadas em língua alemã, da mesma forma que o jornal mensal editado pela mesma. Este pequeno jornal chamado Roland continha artigos, informações e programações de eventos artísticos e divulgação científica. A ligação com a Alemanha era evidente não apenas na utilização da língua. O jornal, por exemplo, tinha uma coluna na qual, jovens da cidade de Bremen procuravam se corresponder com jovens de Rolândia. A tentativa de preservação da cultura alemã também se apresenta na escolha de temas referentes a fatos e pessoas importantes da Alemanha, tanto nos artigos do jornal, quanto nas conferências e palestras da Pró-Arte. Também a divulgação de datas e eventos relativos a personagens expoentes da cultura alemã mostra essa preocupação. No entanto, ocasionalmente havia artigos sobre problemas agrícolas relacionados ao café, orientações sobre plantio e colheita. Dessa forma, o jornal da Pró-Arte, embora demonstrando como orientação principal a conservação da cultura alemã, funcionava também, ainda que sem a mesma intensidade, como um veículo de integração dos imigrados à nova terra. Além disso, a Pró-Arte funcionava como ponto de encontro dos imigrantes, na sua tentativa de como se referia Max Maier (1975) de “não deixarem morrer toda a cultura alemã”. As duas funções principais da associação, clube (ponto de encontro) e cultural (realizações culturais) mostram que ela era um importante foco de relacionamento para os habitantes de Rolândia considerados como “refugiados” e, entre eles, os fazendeiros principalmente. O que não podemos deixar de observar é que ao mesmo tempo em que favorecia a reunião de imigrantes alemães, formava uma barreira aos brasileiros pela utilização do idioma alemão. Os descendentes de alemães do sul do Brasil, embora falando alemão, não tinham condições de participar das reuniões da Pró-Arte, pois, segundo os entrevistados pela autora Ethel A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Kosminsky, eles não se interessavam pela cultura alemã. O objetivo do ensaio é compreender como foi possível promover a cultura alemã a partir da Associação, em quais condições isso se deu e como se formulou uma ideia de cultura emigrante no contexto da colonização local. História da alimentação numa perspectiva da genealogia Prudentópolis (Pr), 1963 Eliane Crestiane Lupepsa Costenaro, mestranda do Programa de Pós-Graduação História e Regiões Unicentro Orientador: Professor Dr. Valter Martins Palavras-chave: História, alimentação, cultura. Este texto diz respeito ao estudo sobre a alimentação, concebida enquanto constituinte do sujeito, tendo como fundamentação, a genealogia de Michel Foucault. Tal fundamentação é considerada como uma ferramenta de análise. Discute-se também, como os discursos produzidos sobre a alimentação repercutem na constituição de modos de estar e agir dos indivíduos. Indivíduos como produtos do poder e do saber. Para tanto é importante apresentar, caracterizar e contextualizar as principais fontes analisadas. Deixar explícita a perspectiva de história da alimentação aqui considerada. E também estabelecer um entendimento sobre a genealogia de Foucault, bem como, de que modo esta genealogia auxilia na compreensão do corpo e a alimentação, dentro de um recorte espacial e temporal específico. No sentido de se identificar o processo de construção do corpo pela alimentação. Visa-se discutir sobre as relações de saber-poder no âmbito da história da alimentação. Com este objetivo é possível de se estabelecer uma reflexão sobre as relações dos indivíduos com as “verdades” de seu tempo. As fontes priorizadas são receitas e dicas culinárias que aparecem semanalmente no Jornal Prácia (Trabalho), editado em língua ucraniana na cidade de Prudentópolis-PR a partir do ano de 1963 até 1995. Porém, esse estudo contempla como uma proposta inicial de pesquisa, a análise somente dos textos do ano de 1963. Considera-se a possibilidade de se sondar esses textos a luz da genealogia de Focault. Pondera-se que os textos compreendidos nas fontes compõem uma rede discursiva sobre vários assuntos, nos atemos aos alimentos. Entende-se que essa rede cria e ensina saberes a respeito do paladar e da comensalidade e estão relacionados com os jogos de verdade da respectiva época. Nessa perspectiva considera-se o corpo como passível de historização, que traz em si as mais diversas acepções humanas, dores, prazeres, paixões, enfim, forças e fraquezas em contextos específicos. Em consulta a este jornal em especial, observou-se que há uma coluna específica dedicada exclusivamente à dona de casa, sob o título “Дгя Пaнь Дoмy” - “Para a Dona de Casa”. Estas páginas foram fotografadas individualmente, catalogadas e traduzidas do ucraniano para o português. Somam-se em torno de duzentas laudas. O jornal Prácia, editado na cidade de Prudentópolis-PR representa um aporte significativo à imprensa ucraniana no Brasil. Esta imprensa teve seu início em 1904, no momento da fundação do “Comitê da Imprensa”, criado com o intuito de difundir textos destinados aos imigrantes ucranianos, uma vez que é escrito na língua ucraniana. Esse jornal tem uma significativa amplitude nacional e internacional, pois, além de existirem assinantes que abrangem várias regiões do Paraná e de outros estados como os de São Paulo e Rio de Janeiro, esse jornal também é difundido em países tais como: Argentina, Uruguai, Paraguai, Canadá e até a Ucrânia. Essas informações pressupõem um mapeamento que está sendo aprimorado. Surgiram em Prudentópolis no início do século XX, três jornais: o “Zoriá” (Estrela), o “Prapor” (Estandarte) e o “Prácia” (O Trabalho). Dentre estes três, apenas o último jornal circula até a atualidade. Em 1912 sai o primeiro número do jornal quinzenal Prácia, a partir de 1915, torna-se semanal, editado em Prudentópolis na tipografia A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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dos padres Basilianos. Esses padres são ligados a um grupo religioso designado como pertencente à Ordem de São Basílio Magno. São eles os responsáveis pela edição do Jornal Prácia. Este jornal tinha por objetivo, incentivar os imigrantes ao trabalho, à leitura, enfim a mantê-los informados. A partir de 1933 passa a ter apenas duas de suas páginas editadas em português. Atualmente, esse jornal continua a circulando. Os textos e imagens inscritos nas fontes convertem-se em saberes culturais divulgados no Prácia e passam a fazer parte dos esquemas que os indivíduos encontram propostos por sua cultura e que de certa forma se tornam sua orientação no processo ativo de constituição de suas subjetividades e identificações. Nos estudos relacionados à História e Cultura da Alimentação, a comida e o comer aparecem como um universo no qual se preserva tradições sociais sejam elas coletivas ou familiares. A alimentação representa um elo entre o presente e o passado por meio da memória gustativa e dessa forma contribui para a constituição de identificações pelo paladar. A importância da alimentação é habitualmente associada à garantia de sobrevivência dos que dela dependem e ao cotidiano, por fazer parte da rotina dos indivíduos. Mas conforme Carlos Roberto Antunes dos Santos alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois constitui atitudes, ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações. Nessa perspectiva, o alimento constitui uma categoria histórica, está ligado a diversos aspectos da sociedade principalmente nos campos culturais e econômicos. A discussão empreendida nesse texto indica uma intersecção dos estudos culturais de viés pósestruturalista e os enunciados de Michel Foucault. A alimentação também se vincula ao viés da História Cultural. Esta perspectiva de análise histórica adquiriu vigor, sobretudo a partir da década de 1970. Tal vigor corresponde ao modo de se compreender a história, caracterizado pelo desprezo aos esquemas teóricos e generalizantes. Houve, por outro lado, um direcionamento aos valores de grupos particulares, em períodos e locais específicos. Deste modo, entram em cena as categorias explicativas de caráter regionalizado, em que as diferenças culturais assumem uma importância maior do que os elementos políticos e econômicos. As interpretações e a abrangência simbólica passam a fazer parte de um campo comum sobre o qual os historiadores se debruçam, propiciando também uma multiplicação dos possíveis objetos de estudo. Isso pressupõe um jeito diferente de pensar a cultura e considerá-la como um conjunto de significados que os homens constroem e compartilham para explicar o mundo. Desse modo, a História Cultural constituiu um campo pelos quais os historiadores engajaram-se em suas pesquisas e elucidaram novas problemáticas, metodologias e novos objetos, o alimento é um deles. A partir dessa perspectiva considera-se que nos textos jornalísticos em questão, há sentidos que podem ser tomados como verdades e em determinados contextos inscreveram nos corpos comportamentos, valores e sentimentos. As questões daí recorrentes são: Quais comportamentos, que tipo de valores e sentimentos decorre dos enunciados desses textos? Se o comer é aqui considerado para além de um ato biológico, mas também e, sobretudo, um ato cultural, o alimento pressupõe um elemento importante na configuração de identificações. Então, um aspecto importante de se analisar é como essas receitas contribuem para o processo de constituição de territórios pelo paladar e acabam instituindo fronteiras étnicas, pelos alimentos que são constantemente identificados e reafirmados como ucranianos. As receitas instigam a analisar como esses enunciados implicam em discursos a ponto de constituírem “verdades” e como essas noções constituem o corpo, não um corpo dado, prédeterminado pela genética ou tradição, mas inserido dentro de um espaço e tempo específico, imbricado nas maneiras e condições de vivência de sua época. O que pressupõe uma noção de história genealógica, isto é, que não pretende buscar as raízes de uma identidade, mas sim, fazer surgir todas as descontinuidades que atravessam os sujeitos. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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As receitas constituem saberes culinários que são convertidos em práticas e procedimentos regulados para a produção e manutenção dos enunciados. Com esta pesquisa visa-se compreender a história da alimentação como genealógica, isto é, pautada na proveniência, como uma maneira possível de se refletir sobre as relações das donas de casa com os regimes que as constituem enquanto sujeitos, enquanto corpos construídos e desconstruídos de maneiras distintas no decorrer dos tempos.

Soldados e degredados no povoamento de Guarapuava: identificações, rejeições e resistência – 1820/1853 Francisco Ferreira Junior (Departamento de História da UNICENTRO – PR) Palavras-chave: soldados, degredo, povoamento. Minhas pesquisas tem se desenvolvido no sentido de entender a importância de determinados elementos no período inicial de povoamento da cidade de Guarapuava, na primeira metade do século XIX64. Em trabalhos anteriores analisei a relação entre degredados, soldados e vadios no processo de ocupação da cidade. Ficou evidente que, devido as diversas politicas de povoamento utilizadas pela coroa portuguesa para conquista de Guarapuava65, as três categorias citadas acima se amalgamavam de diversas formas na lide colonizadora, sendo extremamente uteis, em sua presença forçada, para a guarnição do povoamento e afazeres cotidianos. Os soldados da tropa de linha que acompanharam o Tenente Coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal nos primeiros anos da expedição colonizadora de Guarapuava foram substituídos, no início da década de 1820, por soldados ordenanças. Esses soldados eram recrutados principalmente de três formas: utilizando os condenados a degredo que vieram de diversas regiões para Guarapuava, muitos deles já em serviço militar antes da condenação; entre a população pobre da região, muitas vezes recorrendo-se aos chamados “vadios”; entre os indígenas que melhor se adaptavam a presença dos colonizadores. As atividades desenvolvidas por esses soldados ordenanças, oriundos de tão diferentes realidades, era também bastante diversa, como pude entrever das fontes administrativas sobre o período. Observa-se que conforme a função e o desempenho dos soldados eles também recebiam tratamento diferenciado, que ia desde uma liberdade aparente, no caso de bom comportamento, até situações de extrema crueldade, como os degredados que trabalhavam presos com “calceta”. Os modelos diferentes de tratamento também implicavam em atitudes diferentes por parte dos soldados, que ora evoluíam de função, ora sofriam duras represálias, ora desertavam, entre outras possibilidades. É o mapeamento dessas diferentes atitudes e possibilidades dos soldados/degredados na vida cotidiana da lide de povoamento dos campos de Guarapuava na primeira metade do século XIX que essa pesquisa pretende dar conta.Tem-se como objetivo principal mapear as diversas funções, a diversidade de tratamento e os desdobramentos disso na vida cotidiana dos soldados ordenanças, recrutados entre degredados, vadios e indígenas, que participaram do processo de povoamento da Freguesia de Nossa Senhora do Belém de 64

Vide Ferreira Júnior, Francisco. A prisão sem muros: Guarapuava e o degredo no Brasil do século XIX. Orientador: Gizlene Neder. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense. E Ferreira Júnior, Francisco. Soldados, Vadios e Degredados: experiência de povoamento nos Campos de Guarapuava. Texto Completo, Anais da XXVI SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, São Paulo, 2011. 65 Vide Carta Régia de 1 de Abril de 1809 in Coleção das Leis do Brasil.

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Guarapuava entre as décadas de 1820 e 1850.A partir de vencida a resistência inicial dos índios no princípio do povoamento de Guarapuava, após 1810, e organizadas as necessidades básicas para que o povoamento se efetivasse, correspondências administrativas começaram a ser trocadas entre a expedição colonizadora e a presidência da Província de São Paulo. Tais correspondências, das quais consegui junto ao Arquivo do Estado de São Paulo um número significativo a partir de 1823, são assinadas geralmente pelo capitão militar da expedição, Antonio da Rocha Loures, ou pelo vigário Francisco das Chagas Lima, e tratam de informar as autoridades superiores sobre o andamento das tarefas colonizadoras, prestar contas e também solicitar providências em relação as atividades de Guarapuava junto a essas autoridades. Essa correspondência é dirigida quase exclusivamente à administração da província de São Paulo até 1853, data da emancipação da Província do Paraná. Em alguns momentos, a partir de 1823, são enviadas à presidência da província listas nominativas dos habitantes de Guarapuava; prática comum nas freguesias e vilas da Província de São Paulo desde a segunda metade do século XIX, as quais tinham a função principal de informar uma estimativa dos possíveis soldados que poderiam ser recrutados pelas ordenanças em momentos de necessidades. Tais listas se constituem em uma fonte privilegiada para se analisar as vicissitudes populacionais de Guarapuava no século XIX, inclusive da população de soldados e degredados. Tais correspondências enviadas, por se encontrarem centralizadas no Arquivo Municipal do Estado de São Paulo, foram fáceis de acessar. Além dessa correspondência administrativa, algumas fontes de origem eclesiástica cedo começaram a se produzir em Guarapuava, como os livros de assentos de óbitos, batismos e casamentos, que eram de responsabilidade paroquial até 1889. Eles aparecem a partir de 1810 e se encontram arquivados na Casa Paroquial da cidade ainda hoje. Essa documentação nos permite rastrear soldados e degredados nos momentos em que recorrem à autoridade religiosa ou para casamentos, ou para estrema unção.As fontes descritas acima se tratam, na sua esmagadora maioria, de fontes produzidas pelas autoridades locais da região. Seria ingenuidade acreditar que tais fontes reproduzem relatos fiéis da realidade dos soldados e degredados de Guarapuava no século XIX. De fato, em grande parte das vezes, elas sequer os mencionam. Porém são recheadas de pistas que permitem vislumbrar aspectos da vivência cotidiana e das relações sociais do povoado nesse período onde, via de regra, esses elementos estão presentes. Cumpre então tentar ultrapassar os preconceitos e visões de mundo presentes nos discursos dos documentos oficiais para chegar a uma visão mais próxima desses marginalizados, que por sua própria voz não chegam às fontes. Mas como nos fala Michele Perrot - ao tratar de um objeto muito semelhante aos soldados e degredados, porém distante no espaço e no tempo - em seu livro que já é celebre por trazer a tona os “excluídos da história”: “Esses prisioneiros, desaparecidos de sua história, tem que ser rastreado no que se diz deles”. Então, à medida do possível, é nessas fontes que procurarei enxergar a vida dos soldados ordenanças na Guarapuava do século XIX. Na interpretação da fala dos dominadores, quero desvendar os conflitos e as dificuldades da vivência dessas pessoas que, entre elementos tão heterogêneos vieram povoar essa região, bem como os efeitos que o recrutamento ou a execução da pena teve sobre os condenados e sobre a sociedade que os “acolheu”. Também, quando as fontes possibilitarem, farei cruzamentos entre elas, que permitirão um alcance mais profundo e digno de confiança ao passado que elas revelam.

Identificações e o discuso médico/eugênico no paraná: o caso João Cândido Ferreira (18641948) Gerson Pietta, Graduado em História, Universidade Estadual do Centro-Oeste – Unicentro. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Palavras-chaves: João Candido Ferreira, Eugenia, Identificações.

Este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa para mestrado na área de história, e no momento encontra-se em andamento. Objetiva basicamente analisar o discurso do médico João Candido Ferreira, contida no artigo ‘A Eugenia’, à qual vem a ser o adorno de uma série de pesquisas que segundo o autor se ‘ocupam de melhorar os destinos da humanidade’. Portanto, analisaremos alguns estudos do autor no que tange ciência e sociedade. A pesquisa pretende discutir como João Candido Ferreira percebia a medicina na sociedade, qual era o papel do médico na sociedade do fim do século XIX e inicio do XX, bem como quais foram suas influências em relação à eugenia66, ao sanitarismo e ao higienismo. Pretende-se também entender como se deu a utilização da eugenia e da medicina para uma construção identitária67 no Paraná, já que estes tinham certa autoridade científica. Estes artigos do autor foram publicados entre 1888 e 1940, portanto elegeremos essa temporalidade como objeto de pesquisa. O fim do século XIX e início do XX são reveladores de um pensamento que baseado nos princípios científicos, e que por meio da medicina e da eugenia tinham como finalidade certa redenção social do país e por sua vez a do Paraná, ou seja, era necessário restabelecer a saúde do país. Neste processo de formação de uma identidade brasileira, a ciência biológica/médica seria essencial, colocaria o Brasil em um patamar próximo aos parâmetros ocidentais. Desta forma, elegendo a doença como o símbolo de ‘transitoriedade’, é que a inteligência brasileira irá lutar contra o racismo científico que estava impregnado no pensamento social, ou seja, o atraso brasileiro era em seu fundamento uma questão de doença e descaso, portanto uma questão provisória, médica e também política – e não de degeneração social e racial, como era afirmado. Neste contexto é que se coloca João Candido Ferreira intelectual natural da cidade da Lapa, no Paraná, e que durante as primeiras décadas do século XIX esteve envolvido com a política e a sociedade de Curitiba e do Estado, e em harmonia com a intelectualidade brasileira, se coloca como um agente/intelectual preocupado com os assuntos nacionais, de modo a discutir os melhores caminhos para a saúde da sociedade paranaense. João Candido formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tendo atuado como professor de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná. Tendo assumindo também grandes posições políticas, dentre eles o cargo de Presidente do Estado no ano de 1907, ano em que Vicente Machado falece subitamente. Para interpretar a visão eugênica de João Candido, partimos de uma séria de publicações do autor, dentre elas seu estudo sobre a “profilaxia e tratamento da tuberculose e da peste branca”; do “alcoolismo” e suas funestas conseqüências e os meios de evitá-lo; a “sífilis” e sua difusão alarmante e os recursos seguros para extingui-la; e por fim, a eugenia, que para o autor abrange um sentido muito amplo. A partir de Bourdieu faremos a interpretação dos textos de João Cândido, onde entende-se que o conhecimento histórico é tecido em um campo de saber cujas lutas simbólicas que visam definir as verdades que são inerentes aquele espaço. Assim, não existe uma escrita controlada por uma estrutura que dominaria o campo científico e sim disputas internas, no interior do campo de saber. Compartilhamos que existem conflitos entre saberes performativos que visam instaurar suas próprias verdades. Quanto a essa questão Bourdieu nos ajuda ainda a entender que os sujeitos não são meros reprodutores de estruturas dotadas de poder. 66

Poder sobre a vida, ou seja, biopoder (FOUCAULT, 2005) (...) toda identidade, enquanto código de pertencimento depende da relação entre experiência e conhecimento dela derivado. Toda identidade é, por conseguinte, construída historicamente. A construção dos valores de pertencimento depende de intensos trabalhos de mediação advindos de diferentes agentes sociais. (FREITAG, 2007) 67

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Bibliografia: BOURDIEU. Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1989. CANDIDO, João. A Eugenia. Curitiba: Econômica, 1923. FREITAG, Liliane da Costa. Fronteiras Perigosas: migrações e brasilidade no extremo oeste paranaense. Cascavel: Edunioeste, 2001. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 2005. LAROCCA, L. M. Higienizar, cuidar e civilizar: o discurso médico para a escola paranaense (1886-1947). Curitiba, 2009. Tese (Doutorado) UFPR. LIMA, Nísia Trindade & HOCHMAN, Gilberto. Condenado pela Raça, Absolvido pela Medicina: o Brasil Descoberto pelo Movimento Sanitarista da Primeira República. In: MAIO, Marcos C. ; SANTOS, Ricardo V. Raça, Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro; Editora Fiocruz/CCBB, 1996. OLINTO, Beatriz Anselmo. Pontes e Muralhas: Diferença, lepra e tragédia no Paraná do início do século XX. Guarapuava: UNICENTRO, 2007.

Envelhecer na cidade: memórias de mulheres aposentadas oriundas do espaço rural (Marechal Cândido Rondon – 1980 -2011) Gladis Hoerlle Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus Marechal Candido Rondon Orientadora: Profa. Dra. Méri Frotscher. Este trabalho tem como propósito apresentar pesquisa de Mestrado em História, baseada em narrativas de mulheres idosas, que quando jovens trabalharam na agricultura e, depois de aposentadas, foram morar no espaço urbano de Marechal Cândido Rondon, Oeste do Paraná. Todas as entrevistadas viveram no campo, são filhas e esposas de pequenos agricultores, que casaram jovens e migraram dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina para o Paraná nos anos 50 e 60 em busca de melhores condições de vida para sua família através da reprodução de seu modo de vida camponês. A forma de falar e dificuldade de se expressar através de um português gramaticalmente correto denotam a origem social humilde e a baixa escolaridade destas mulheres, pois em geral freqüentaram pouco a escola de modo que mal sabem ler e escrever.Em diversos casos a forma de se expressar denota a ascendência alemã, uma vez que ainda falam aquela língua, por serem descendentes de imigrantes alemães.A mecanização da agricultura, introduzida na década de 1970, e outras transformações no processo de produção no campo desde então, provocaram profundas mudanças nos modos de viver e trabalhar. Muitos dos colonos, ao adentrar a velhice e conquistar a aposentadoria, mudaram para o espaço urbano embora ainda mantenham uma relação dinâmica entre o campo e a cidade. Apesar das dificuldades apontadas nos modos de vida no campo no passado, muitas delas ainda mantém alguns elementos que as vinculam aos modos de vida rurais vividos no passado. É perceptível na fala dessas mulheres o vínculo que ainda permanece com a vida no campo, seja pela propriedade rural que ainda possuem e que é A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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cuidada por um dos filhos ou familiares, ou, simplesmente pelos hábitos que ainda mantém. Nesse sentido, através de entrevistas de histórias de vida, analisamos a experiência da migração e as relações campo-cidade ainda existentes, os estranhamentos e a progressiva adaptação à cidade, bem como a construção de novas relações de pertencimento. Além disso, procuramos perceber as mudanças nos papéis sociais e nas sociabilidades destas mulheres, o empoderamento adquirido pela conquista da aposentadoria e significados que atribuem a este processo. A aposentadoria simboliza um período de maior independência financeira para estas mulheres, as quais, através do benefício fornecido pela Previdência Social, conquistam uma vida mais independente financeiramente do marido. Enquanto trabalhadoras rurais, as mulheres por mim entrevistadas tiveram uma grande participação no processo produtivo de sua propriedade, embora seu trabalho tenha tido pouca visibilidade além de não poderem contar com uma renda própria. Todas as entrevistadas se consideram colonas ou agricultoras, além de donas de casa, apesar de também se reconhecerem e incorporar o papel social de aposentadas. Percebe-se assim, que as novas experiências adquiridas na cidade e após a aposentadoria lhes permitem a construção de novas identidades sociais. Assim, ao relatar aspectos importantes de sua vida passada, as mulheres entrevistadas descobrem, em si mesmas, aspectos de força, coragem e superação que as fez sobreviver em situações de dificuldades enfrentadas no espaço rural em que antes viviam. Ao reconstituir suas lembranças, percebem-se capazes de, através de suas experiências individuais, reconhecer que souberam aproveitar os recursos de que dispunham para viver. Portanto, a relevância desta pesquisa é uma oportunidade de explorar os modos como essas mulheres vêm lidando com os novos aspectos de sua vida e nesta experiência encontrar os contrastes entre o presente e o passado nas suas vivências cotidianas e nas suas relações de trabalho e de lazer. E como pesquisadores ao ouvir estas narrativas, podermos refletir sobre a vida na velhice, seus significados e suas lembranças. Enfim, perceber o “espaço vivido” e os “espaços praticados” por estas mulheres. Palavras-chave: mulheres, memórias, migração campo-cidade. Entre a palmatória e a alma: educação e castigos na educação brasileira no século XIX Hélvio A. Mariano,Doutor em História, Unicentro-Guarapuava-PR. Maria C. P. Silva. Doutora em Educação, UFBA. Palavras-Chave: Infância, educação e castigo. Embora seja vigente o discurso sobre crianças e adolescentes brasileiros com direitos assegurados na legislação, o diálogo com a infância ainda é quase inexistente em vários setores da sociedade, como é visível nos meios de comunicação de massa, dominados por uma visão adultocêntrica. Isto talvez porque os direitos direcionados às crianças restrinjam-se aos de proteção e de provisão, sendo deixados de lado os de participação, considerados também legítimos atualmente. Além de ver negada, historicamente o seu direito de participação, por séculos crianças e adolescentes foram submetidas a castigos físicos no processo educacional. A prática de educar o corpo através do castigo e com a utilização de instrumentos de tortura, como a Palmatória, faz parte da história da educação no Brasil, mas também pode ser observada em outras espaços comunitários, como casas, fábricas e escolas. Se de um lado existem os castigos, do outro, fomos capazes de perceber que diversos educadores lutavam contra esta forma de violência praticada contra crianças em idade escolar. Os castigos corporais contam muito da historia educacional e social. A simbologia do castigo corporal nos remete a historia ocidental e a modelos e padrões de comportamentos a serem ensinados, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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seguidos. O presente trabalho pretende contribuir com este debate, focando a historia da educação brasileira, no que se refere a relação entre corpo e educação das crianças, em especial sobre o tema do castigo analisando as contribuições históricas de Abilio Cesar Borges medico e intelectual baiano dedicado a educação brasileira e a causa abolicionista.Utilizamos como principal fonte de pesquisa as publicações do próprio autor na imprensa brasileira na segunda metade de século XIX, compiladas e publicadas por uma editora sediada em Bruxelas, no ano de 1880. Este documento contem diversos fragmentos de textos do autor, como discursos proferidos, cartas, ofícios, documentos escolares e escritos direcionados a pais e professores e, conforme registrado, publicados no O Globo durante o ano de 1876. Consultouse, igualmente, biografias, livros e artigos sobre o tema. Identificamos concepções hegemônicas acerca da educação da criança, determinados rituais - os castigos corporais - e a compreensão diferenciada deste autor a esse respeito. Foi possível confrontar concepções a respeito do desenvolvimento da criança, da formação humana e do papel da escola. Abilio levanta uma seria argumentação contraria ao castigo corporal, considerado na época como um dos fundamentos da educação no espaço escolar e na família. Os artigos do Professor Abílio Borges, publicados no Jornal O Globo, abriu um longo debate a respeito dos castigos corporais na escola e na família, utilizando a imprensa brasileira como um veículo privilegiado desta ação. Identificamos concepções hegemônicas acerca da educação da criança, determinados rituais - os castigos corporais - e a compreensão diferenciada deste autor a esse respeito. A utilização e aceitação de castigos físicos na educação brasileira, demonstra que o conceito de infância, por ser histórico e socialmente construído, varia de acordo com o espaço no qual a criança se localiza em distintos lugares e épocas. Ao considerar a infância uma construção social, o reducionismo biológico precisa ser abandonado, em seu lugar surge o entendimento sociológico. Todavia, uma peculiaridade desta categoria social está no fato de ter a sua identidade divulgada não a partir de sua própria expressão e formas de se auto-representar, mas através da ideia e fala dos outros: os adultos.

Representações étnicas no espaço escolar matogrossense: um patrimônio cultural em evidência Janaina Rodrigues Pitas – Mestranda em História Social – Universidade Estadual de Londrina Palavras-chave: Etnias, espaço escolar, patrimônio cultural. Esta pesquisa de Mestrado em História Social pretende analisar o espaço escolar no seu interior matogrossense através das representações das diferentes etnias que compõem duas escolas estaduais no município de Primavera do Leste, no estado de Mato Grosso, á 240 km da capital cuiabana. Desse modo concepções, aqui evidenciadas, sobre identidade, memória e etnicidade delineiam um patrimônio cultural no espaço escolar na caracterização de “novos patrimônios”, uma outra percepção do patrimônio imaterial, que ganhou reconhecimento oficial pelo IPHAN e na legislação da Constituinte a partir da década de 80. A partir desse enfoque apresenta-se um patrimônio cultural a ser analisado por meio das entrevistas, caderno de pesquisa de campo, vídeos da escola, questionários sócio-econômicos, aplicados para educadores e alunos, além das fotografias recolhidas na Escola Estadual João Ribeiro Vilela e na Escola Estadual Getúlio D. Vargas. Entre alguns pressupostos encontramos reflexões de como a comunidade interna da escola se percebe etnicamente e como percebe o outro no seu cotidiano, na intenção de desnaturalizar um espaço multicultural. Nos seus registros festividades, desfiles cívicos, encontramos um quadro cultural que acentua as representações que por vezes diferem do dia-a-dia escolar. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Reconhecer as inúmeras possibilidades de reflexões sobre a historicidade que envolve o espaço escolar em análise implica no debate sobre suas ações sociais, ocultas ou não-ditas, as quais dialogam com a História local, suas representações. O conceito de representações nesta pesquisa advêm de aportes teóricos da História Cultural desenvolvidos Roger Chartier e Carlos Ginzburg, os quais buscam compreender as relações entre os diversos grupos, pautando-se numa metodologia que não visualiza verdades totalizantes, mas sim na apropriação de saberes por meio de uma análise minuciosa do contexto que perpassa o objeto de investigação, neste caso um conjunto de múltiplas identidades, memórias e práticas culturais. Entre os desafios de trabalhar com tais elementos históricos está a necessidade de integrá-los a outras temporalidades, comparados a outros espaços, redimensionando em escalas de observação que possam contribuir no esclarecimento sobre a seguinte inquietação: como a herança patrimonial produzida a partir de práticas escolares pode ajudar a entender a relação da escola com a comunidade/sociedade? Em particular, as escolas pertencentes ao município de Primavera do Leste/MT de apenas vinte cinco anos, agregam alunos e educadores bastante diversificados, fator atrelado ao intenso processo de migração nesta região a partir do desenvolvimento da cultura da soja, garimpo, entre outros aspectos. Assim a produção cultural é alimentada por educadores e alunos advindos de diversos grupos étnicos (negros, brancos, indígenas - bakairi, xavantes, kuikuro -, etc.) e de diferentes regiões do Brasil, entre elas destaco os grupos oriundos do centro-oeste, em especial indígenas, os nortistas que ainda migram em busca de novas opções de trabalho, e sulistas que por muitas vezes aparecem como pioneiros, vencedores e hegemônicos através das manifestações culturais nas escolas e na cidade. Tais implicações estão pulverizadas nas danças em praça pública, nos nomes das ruas centrais, estabelecimentos comerciais, centros de cultura gaúcha, nos hábitos alimentares, no chimarrão, etc. Aqui o sentido das celebrações, das tradições, das memórias, da história, as quais são produzidas no e do cotidiano escolar devem provocar reflexões sobre do que se valoriza e se exclui na produção de conhecimento histórico. A etnicidade ganha valorização ao percebermos que através influenciam diversos modos de agir e reagir, momentos de conflitos, aprendizagem, apropriação frente aos saberes que contornam a linguagem verbal, as danças, as vestimentas, preferências culinárias, a aceitação ou rejeição do outro, pertencente a essa comunidade escolar. Assim, o esquadrinhamento das relações culturais por meio das representações étnicas no âmbito da escola denunciam valores que podem auxiliar na compreensão sobre um viés histórico e antropológico de nossa sociedade contemporânea. Memória e construção identitária: um estudo sobre a comunidade quilombola Manoel Ciríaco dos Santos, Guaíra, PR Jéssica de Lima da Silva Mestranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), orientada pelo Prof. Dr. Robson Laverdi A presente comunicação visa discutir, a partir da produção e interpretação de relatos orais, questões referentes à construção de identidades negras/quilombolas na comunidade quilombola Manoel Ciríaco dos Santos, localizada no distrito de Maracaju dos Gaúchos, área rural de Guaíra, região Oeste do Paraná. Reconhecida como quilombola desde 2006 pelo Grupo de Trabalho Clóvis Moura, órgão responsável por mapear e identificar comunidades quilombolas no estado do Paraná, a comunidade passa por um processo de (re)construção de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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identidade étnica. Embora esse processo identitário não seja simples, podemos observar que ele está relacionado à consciência de ser negro como algo que, dentre outras características, acarreta políticas públicas, através da diferenciação dos não-negros por conta de um passado escravista que deve ser reparado. As memórias, tal como as identidades, são objetos de disputa. Mutáveis, elas se transformam na medida em que surge uma necessidade de diferenciação em relação a outros sujeitos. No caso da comunidade quilombola em questão, há uma reformulação de identidades com o reconhecimento como quilombola e o conhecimento dos direitos que são atribuídos a essa condição e ainda com a questão de posse da terra. Mais do que isso, há a identificação como negros, com um passado escravo que merece reparação e a positivação dessa característica negra, algo que não estava presente antes, quando ser negro significa ser discriminado e não “se misturar”, “ficar no seu canto”, como nos mostram alguns relatos orais já coletados. O objetivo da pesquisa é perceber como se dá o processo de construção de identidade(s) étnica(s) em uma comunidade negra, pensando no processo que ocorre desde seu reconhecimento como grupo “diferenciado”, através do contato com o movimento negro e outros elementos que colaborem nessa construção, da apropriação do que é considerado cultura negra, em oposição a uma cultura não-negra (a partir do pressuposto de que somos o que somos em relação ao outro). Buscamos perceber os conflitos que essa redefinição identitária causa dentro do grupo, através da construção mesma da imagem pessoal deles, e também o que mudou em relação à comunidade do Maracaju dos Gaúchos, a visão que o Maracaju tinha e como isso foi modificado, principalmente pela questão da terra, que se mostrou o agente gerador de um outro tipo de relação entre os não-negros e os negros, ou brancos e não-brancos. Ainda é objetivo da pesquisa, e dentro da questão maior da construção identitária, entender o conflito de terra que se estabelece na região desde que o INCRA começou um trabalho de pesquisa nas terras da região (a fim de emitir o título coletivo de posse da terra, conforme prevê a legislação sobre o tema), acentuando as diferenças entre os quilombolas e o restante do Maracaju dos Gaúchos. Refletir sobre essa problemática também nos faz entender a reação violenta (relatada em vários relatos orais) que os demais produtores tiveram quando o INCRA iniciou seu trabalho na comunidade quilombola de Guaíra. O medo do desconhecido, do outro, da força do outro, parece ter imperado nessa situação, em que, mesmo sob a alegação de que, caso houvesse a ampliação das terras quilombolas, a indenização seria justa, demonstra que as diferenças não estão resolvidas, aflorando discursos antes velados. Para compreender o processo de construção de identidades desse grupo, cujo objetivo é de se legitimar enquanto sujeitos históricos com trajetória específica (e, portanto, merecedora de tratamento específico), tomamos como base para essa pesquisa os relatos orais. Eles possibilitam o contato direto com os sujeitos que constroem em seu cotidiano a história que vivem, que constroem conceitos sobre si e sobre os outros através da linguagem, ainda mais agora em que há dois processos muito fortes na região, o já corrente da legitimação dos quilombolas e o mais recente da demarcação de terras. Nesse sentido, encaro os relatos orais como elemento constitutivo das identidades sociais sendo construídas pela comunidade quilombola. Parto da concepção deles enquanto fonte, e como tal, é preciso compreendê-los em toda sua complexidade, como construção social, obedecendo a objetivos bem específicos, nunca como algo neutro ou despolitizado, ainda mais no contexto em questão, em que estamos tratando da adoção de novas identidades durante um conflito social. As entrevistas serão realizadas tanto com os membros da comunidade quilombola, quanto com outros membros do Maracaju dos Gaúchos, partindo da idéia de que as identidades se fazem na relação com o outro. Assim, o processo de construção identitária deve ser analisado A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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partindo dos dois ângulos, da visão que os quilombolas têm de si mesmos e dos nãoquilombolas e da visão que os demais moradores da região têm de si e dos quilombolas. Mas a pesquisa também dialoga com a produção bibliográfica sobre o tema, no sentido de orientar o trabalho para questões específicas, como a memória, o trato com relatos orais, as identidades (étnicas, de forma mais específica), a história do movimento negro e suas reivindicações, a discussão sobre quilombos. Também utilizo da legislação, para esclarecer o contexto em que essas identidades têm sido (re)formuladas, e ainda os documentos oficiais do movimento negro e das comunidades quilombolas, a fim de perceber as perspectivas que pautam as lutas desses grupos em nível estadual e federal e analisar o impacto dessas perspectivas sobre as identidades do grupo analisado. Palavras chave: identidade, memória, quilombolas

Problematizando identidades e histórias: descendentes nipônicos em Assis Chateaubriand – PR. Kristian Miguel Elger; Mestrando do PPGH da UNIOESTE. Palavras chave: Imigração, Nipônicos, Assis Chateaubriand. Orientador: Marcos Stein. O objetivo deste trabalho é problematizar a construção identitária da comunidade nipobrasileira em Assis Chateaubriand. Para tanto parto do recorte temporal constituído pelo intervalo cronológico entre 1964, data da fundação da ACEAC68, até os dias atuais. Utilizarei duas possibilidades principais: O diálogo com as memórias dos migrantes, a partir da história oral, e a visão de grupos de citadinos a respeito desse grupo social, expressa no jornal O Regional, sediado nesta cidade. A cidade referente à pesquisa tem um histórico de migração de diferentes grupos, que se distinguem culturalmente (o grupo de descendentes de imigrantes japoneses talvez seja um exemplo eloquente). Sobretudo, existe uma forte diferenciação social entre os moradores, especialmente quando se considera determinadas áreas ou bairros da municipalidade, onde residem pessoas com renda sensivelmente menor, bairros estes considerados pelos moradores da cidade (e muitas vezes do próprio lugar em questão) “vila” e “periferia”. Um problema contemporâneo compartilhado por várias cidades. É possível até mesmo falar em um conflito de valores, promovido pela dicotomia entre as informações que chegam até as casas pelas diversas mídias, com um alcance quase universal, e as crenças e costumes próprios de pequenas aglomerações urbanas. Podemos então pensar o espaço citadinos não enquanto um conceito unicamente geográfico, como diz Roncayolo: Por um lado, a cidade não pode ser entendida unicamente no interior dos seus limites: ela está em relação mais ou menos estreita com o espaço que a circunda, com outras cidades e, eventualmente, com outros espaços mais distantes, e apresenta-se, pois, a níveis diferentes, como o centro de um controle territorial. Assim se desenvolvem as noções de “rede urbana” e de “estrutura urbana”. Por outro lado, a cidade não pode reduzir-se nem a um conjunto de objetos urbanos nem a uma combinação de funções: agrupa uma população caracterizada por uma certa composição demográfica, étnica, ou social; é uma forma de comunidade (em certos casos, de coexistência de comunidades) ou de coletividade; é, por principio, essencialmente política.69 Como tal a cidade é um espaço historicamente constituído, de fato ela está 68 69

Associação cultural e esportiva Assis Chateaubriand RONCAYOLO, Marcel. Cidade. In: Enciclopédia Einaudi, vol. 8. Lisboa, Casa da Moeda, 1986. 396-487.

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intrinsecamente ligada à concepção tradicionalista de civilização que o ocidente tem. A sua definição como um possível local de coexistência de comunidades, em especifico me parece interessante, pois permite pensar em um provável arranjo social, e talvez político, ou uma determinada ‘morfologia’ do espaço urbano, segundo a definição do próprio Roncayolo70. Em outras palavras a cidade, enquanto resultado da sociedade ‘urbanizante’ teria a capacidade de influir nos seus habitantes cristalizando “certos hábitos e interesses71” ao mesmo tempo em que herdaria as marcas da vivência urbana de seus habitantes. Penso que a existência de diferentes grupos, sejam eles fruto da diferenciação por critério social, demográfico ou étnico, imprime no espaço diferentes formas de arquitetura. Nesta perspectiva, pretendo problematizar relacionalmente a comunidade com a existência, e desenvolvimento da cidade em seus diversos níveis. Algumas possibilidades despontam neste caminho, uma delas é a análise de como os integrantes da população nipo-brasileira aparecem nos documentos oficiais referentes à municipalidade, tais como censos demográficos e outros documentos judiciais e processos variados, entre estas opções, trabalharei com uma forma extra-oficial de registro, o arquivo de um jornal local. A cidade tomada como uma organização não apenas geográfica apresenta possibilidades de relação cidade-comunidade que podem ser investigadas. As ondas imigratórias podem ser vistas como um dos efeitos da globalização, Graças a ela as identidades nacionais sofreram uma interposição, tal fenômeno propiciado pela experiência da emigração, tende a causar mudanças na forma como os indivíduos vivem as suas identidades, especialmente as ligadas à nacionalidade. O conceito de fragmentação da noção de identidade é útil, pois ele é concernente à situação das populações que adotam uma nova nacionalidade, ou resistem em fazê-lo. Como tal pretendo usá-lo na análise das vivências do grupo. Ocupação do território paranaense nos séculos XIX e XX: imigrantes, colônias agrícolas e discursos de identificação

Prof. Dr. Marcos Nestor Stein (Prof. do Curso de Graduação e do PPG em História da UNIOESTE) Palavras Chave: Imigrantes, Identidades, Colônias Agrícolas. Esta comunicação visa apresentar uma análise preliminar de discursos sobre grupos de imigrantes que se estabeleceram no Paraná, especialmente na forma de colônias agrícolas, durante a segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. A análise está vinculada ao projeto intitulado “Colônias Agrícolas no Paraná nos Séculos XIX e XX”, financiada pela Fundação Araucária/SETI e CNPq. O objetivo da pesquisa é localizar, coletar, analisar e constituir um fundo documental sobre a constituição de colônias agrícolas no Estado do Paraná durante o referido período. Durante o ano de 2011 e o início de 2012 foi realizado o levantamento e coleta de documentos nos acervos do Arquivo Público do Estado do Paraná e da Biblioteca Pública do Estado do Paraná, em Curitiba, no Museu dos Campos Gerais e na Casa da Memória, em Ponta Grossa, no Museu de Palmeira e no Museu da Colônia Witmarsun, localizados no município de Palmeira, no Museu Histórico de Entre Rios e no Arquivo Histórico da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, em Guarapuava. Tais documentos constituem-se em Relatórios e Mensagens de Presidentes da Província do Paraná, Relatórios de Núcleos Coloniais, Relatórios 70 71

Idem. PG. 432 Ibidem. PG. 433

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da Secretaria de Agricultura, Comércio, Indústria e Obras Públicas da Província do Paraná, Diário Oficial do Estado do Paraná, reportagens sobre colônias agrícolas publicadas em jornais e mapas, como o do município de Curitiba, de 1906, e da “Zona Colonizada do Estado do Paraná,” elaborado em 1927. Outra fonte importante são as cópias de relatórios e de mensagens dos Presidentes da Província e dos Governadores do Paraná disponíveis para a consulta no Center for Research Libraries, que podem ser acessadas pelo site http://brazil.crl.edu. Especialmente a partir da emancipação política do Paraná, em 1853, houve a instalação, na forma de colônias agrícolas privadas e/ou públicas (federais e provinciais) de um grande número de imigrantes europeus em território paranaense. Os contingentes mais expressivos de imigrantes eram formados por poloneses, ucranianos, alemães, italianos e teuto-russos. A instalação das colônias e as ações dos imigrantes era objeto dos relatórios e mensagens dos presidentes da província, os quais, além de descreverem a situação das colônias, também constroem identificações para seus habitantes. Tais identificações são criadas por meio de discursos que são produzidos por autores e/ou instituições, em locais históricos específicos. Cumpre ressaltar que tais discursos não são neutros, mas produzidos a partir de determinadas visões de mundo, vinculados aos interesses políticos e econômicos de determinados grupos. Nesse sentido, nos relatórios de presidentes da Província são freqüentes as afirmações que classificam o clima do Paraná como propício para a fixação de europeus e solo como “fertilíssimo.” Outra afirmação bastante reiterada é a de que no Paraná haveria um vazio demográfico, justificando, desta forma, a imigração e silenciando sobre a presença de indígenas na Província. Quando estes são mencionados, os termos utilizados para identificá-los são “ferozes,” “selvagens” ou “mansos,” diferentemente da forma como os imigrantes europeus, de maneira geral, são classificados: “laboriosos” e “morigerados”. Ao realizarmos uma leitura mais atenta das fontes percebemos também discursos que classificam de maneira negativa alguns grupos de imigrantes europeus. É o que pode ser verificado no relatório produzido em 1874 por Frederico José de Araújo Abranches, acerca de imigrantes ingleses que deixaram a colônia de Assungui, e do relatório, elaborado em 1879, pelo presidente de Província Rodrigo Octavio de Oliveira Menezes, sobre os “russos-alemães do Volga,” que se fixaram em colônias agrícolas localizadas nos Campos Gerais do Paraná. Portanto, a partir de discursos presentes em documentos sobre o estabelecimento de colônias no Paraná é possível analisar as diferentes formas como se produziram identificações sobre os imigrantes que se fixaram no Estado. Fontes ABRANCHES, Frederico José Cardoso de Araujo. Relatório. Curitiba: Tipografia Viúva Lopes. 1874. MENEZES, Rodrigo Octavio de Oliveira Sá. Relatório. Curitiba: Tipografia Perseverança. 1879.

Bibliografia MARTINS, Romário. História do Paraná. Curitiba: Travessa dos Editores, 1995. NADALIN, Sérgio Odilon. Paraná: Ocupação do território, Populações e Migrações. Curitiba: SEED, 2001. ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999. SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. História da Alimentação no Paraná. Curitiba: Juruá, 2007. _______________________________. Vida Material Vida Econômica. Curitiba: SEED, 2001. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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SILVA, Tomaz Tadeu da; HALL, Stuart; WOODWARD, Hathryn. Identidade e Diferença. Vozes, Petrópolis, 2003. WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná. Curitiba: Vicentina, 1995.

O jornal Folha do Oeste: imprensa, história e identidades na região centro-sul do Estado do Paraná.

MARIA, Maurício de Fraga A., Graduado em História pela Universidade Estadual do CentroOeste, UNICENTRO/ Guarapuava, Mestre em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista, Campus de Assis (UNESP/Assis), SP. Professor da Faculdade Unilagos, Mangueirinha, PR.

Palavras-chave: Folha do Oeste; produção jornalística; história; identidades.

O fim da década de 1930 definitivamente anunciou para Guarapuava a chegada de ventos de mudança para a cidade que a mais de um século havia se formado no terceiro planalto paranaense, decorrente dos processos de ocupação do Oeste do Paraná, então pertencente à província de São Paulo. No início da década, a cidade de Guarapuava ainda lembrava em muito a cidade de origem colonial que havia surgido no interior dos antigos “Campos de Guarapuava”, que se estendia até a fronteira com o território de ocupação espanhola. Extremamente distante dos grandes centros, inclusive da capital paranaense, a cidade sustentava-se economicamente do extrativismo em média escala da Erva-Mate, da madeira, da agricultura e da pecuária, que havia alcançado seu auge durante a mineração em Minas Gerais. Integrando uma região de riquíssimos pastos e constituindo-se em uma passagem quase obrigatória no transporte de muares e do gado vindo do Rio Grande do Sul, a cidade foi construída como local estratégico dentro da economia colonial. Com o declínio da mineração e o conseqüente declínio da atividade tropeira a sociedade campeira que havia se estabelecido na região começa a se desagregar. Nesse sentido, a Guarapuava do início da década de 1940 ainda vivia uma situação de crise da atividade pecuária, que havia substituído a atividade tropeira na região ainda no início do século XX. Quanto às atividades extrativas, principalmente as que haviam se desenvolvido paralelamente a atividade tropeira como a extração da erva-mate, permaneciam na cidade ainda na década de 1940 como um meio pouco rentável, porém efetivo economicamente. A outra atividade extrativa vegetal da região foi a exploração da madeira. Praticada em pequena escala nas décadas anteriores, esta atividade, a partir de 1940 passou a ganhar impulso com a mão-de-obra abundante, advinda, sobretudo, da baixa produção ervateira e com o desenvolvimento das novas redes viárias. A estrada de ferro, que em 1937 havia chegado até a cidade de Irati, distante aproximadamente 100 km de Guarapuava, contribuía para o transporte da madeira, complementada pelos caminhões então utilizados no transporte. Porém, devido as dificuldades encontradas em se transpor a “Serra da Esperança”, localizada entre Irati e Guarapuava, a chegada da estrada de ferro ainda demoraria mais de uma década. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Até a década de 1930, quando os fazendeiros ainda desfrutavam das rendas acumuladas durante períodos de maior lucratividade, a cidade havia, segundo Tembil (2007) compartilhado da presença de alguns dos elementos que “encarnavam” o sentido de urbanidade e progresso. Firmas como a Casa Comercial Missino, um dos primeiros estabelecimentos comerciais da cidade, abasteciam a elite citadina com produtos vindos das capitais e que representavam uma forma de ligação dos habitantes da distante cidade, isolada nos períodos chuvosos, com elementos presentes para as elites dos grandes centros: as fazendas de tecidos finos, chapéus, calçados, artigos de luxo, os automóveis, drogaria, gramofones, rádios, máquinas de sorvete, difundidas em Guarapuava pelo proprietário Francisco Missino. Além do comércio de produtos considerados modernos, do clube e do teatro, palcos de acontecimentos sociais reservados a elite fazendeira, esta não abria mão da tradição religiosa. As procissões, os festejos religiosos e as missas integravam o cenário social cotidiano mesclando as novas formas de sociabilidade às formas de sociabilidade mais tradicionais, agitando socialmente a cidade Porém, como apontado anteriormente, estas práticas ver-seiam enfraquecidas ao mesmo tempo em que a desarticulação das atividades econômicas então dominantes na cidade. Segundo Tembil (2007: 87), a crise econômica que se faria presente na cidade entre as décadas de 1930 e 1940, fariam com que lugares como o teatro e cinema fechassem suas portas. Dessa forma, o cenário encontrado na década de 1940 apresentava, juntamente a crise da sociedade campeira da região, a diminuição na ocorrência de atividades de cunho social e cultural na cidade, alguns tornando-se esporádicos, enquanto outros simplesmente desapareceriam. Além disso, os problemas de acesso a cidade acabavam por relegar a cidade a certo “ostracismo”. Segundo Tembil, a ausência de capitais mobilizáveis instituía a crise da economia guarapuavana (2007, 91).Este cenário, desolador, porém, trazia ventos de mudança que podem ser percebidos na imprensa da cidade. Presentes na cidade desde os “anos de ouro” da atividade tropeira, a imprensa ocupou um papel fundamental na vida social citadina. Juntamente com as transformações culturais do início do século XX, os jornais integraram a vida da cidade naquele momento, sobrevivendo aos momentos de crise. Instrumentos de difusão de valores políticos, culturais e sociais esses jornais representaram não apenas um elemento moderno presente no cotidiano, mas também formas de contribuir para o progresso e para o crescimento da cidade, mesmo que as dificuldades em se manter um jornal em Guarapuava fossem extremamente grandes (PLANALTO, 1981: 51). Mesmo com as dificuldades, vários foram os jornais que circularam na cidade, alguns de duração efêmera outros, porém, com maior freqüência e maior duração. O primeiro a circular na cidade foi O Guayra. Criado em 4 de abril de 1893 e redatoriado pelo Cel. Luiz Daniel Cleve, fazendeiro abastado da região, o jornal era editado, segundo Planalto (1981: 234) em um antigo e pesado prelo que chegou a cidade transportado de Curitiba até Guarapuava em lombo de muares pelo proprietário Serafim de Oliveira Ribas. Foram publicados ainda na cidade uma série de outros jornais, em sua grande maioria de curta duração, como o Jornal das Crianças (1893), O Paraná (1894), A Lide (1894), O Guarapuavano (1902), O Guayra (fase de 1917), O Pharol (1919), O Momento (1924), A Cidade (1932), O Independente (1935), Brasilidade (da Propaganda Integralista Brasileira - 1935), Folha do Oeste (1937), O Liberal (órgão da Revolução de 1930), A Época (1958), O Combate, O Carrapicho, O Jacobino, O Paraná Matutino, Ideal, O Trevo, Alerta, O Arauto, O Marrete, O Independente, Alfinete, Carga, Torpedo, O Planalto, O leão da Serra da Esperança, Oeste Paraná, Jornal de Guarapuava, Sentinela do Oeste, Jornal de Notícias, Tribuna Paranaense, Folha de Guarapuava, Comarca, A Columna, O Paraná, Correio do Oeste, em sua grande maioria com data de fundação e de duração desconhecida. Além disso, também foram editados na cidade uma série de jornais literários e críticos como A Alvorada (1896) O Lyrio, A Pena, O Serrote e O Farolete (1928/1929), entre outros (CARDOSO, 1969: 207-237; MARCONDES, 1998: 129; A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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PLANALTO, 1981). Em 1919, o fazendeiro Antonio Lustosa de Oliveira instalou uma oficina tipográfica para confecção de impressos comerciais. Em 1937, após a publicação de jornais como O Pharol, Brasilidade e Movimento, que tiveram curta duração, Lustosa lançou o que seria seu maior feito editorial, e sem sombra de dúvidas o maior jornal produzido até a década de 1970 na cidade, o Folha do Oeste. A composição estética e técnica do Folha do Oeste superava em muito as publicações até então existentes na cidade, inclusive sendo dificilmente acompanhada por outros jornais contemporâneos aos seus vários anos de duração, talvez fruto de uma Lynotipe trazida por Lustosa na década de 1920.Além de uma edição mais clara e mais organizada, Lustosa ainda buscou trazer para o jornal outros aprimoramentos técnicos, como as clicherias. É óbvio que não existiam na cidade condições de se construir uma clicheria, principalmente para a publicação de fotos no jornal. Para realizar esse trabalho, Lustosa comprava os clichês de São Paulo ou de Curitiba, onde esses eram produzidos. Desta forma, em algo inédito para a cidade, o Folha do Oeste possuía em suas páginas a publicação de fotos. Durante toda a existência do jornal ele foi publicado em preto e branco, porém a presença das fotografias tornou-se cada vez mais freqüente no jornal.Geralmente a primeira página do jornal trazia uma matéria de cunho político, discutindo os problemas do município, em seguida, matérias econômicas, policiais, sociais, religiosas, integravam aleatoriamente as páginas seguintes.Os ideais de Lustosa na fundação do jornal eram muito claros. Para ele o ideal jornalístico deveria ser pautado na atitude “imparcial” e “noticiosa”, sem ligações partidárias, intransigente, na defesa dos interesses do município e sua gente. Ao mesmo tempo, o jornal claramente assumia uma postura: “dentro dos elevados postulados da doutrina cristã, batendo-se pela integridade e amor à pátria, intangibilidade da família numa sociedade onde imperem os bons costumes, sob a égide protetora do Supremo Arquiteto do Universo” (“Aniversário da Folha”, Folha do Oeste, 3 de março de 1974, p.2). Além da clara opção religiosa, ao ideal de intangibilidade da família bem como dos “bons costumes”, o jornal entra em grande contradição com a idéia de ser “sem ligações partidárias”, tendo em vista que o espaço ocupado pela Aliança Integralista Brasileira era no mínimo privilegiado. Mais tarde, os espaços dados a campanha dos partidários do PSD, partido de Lustosa durante o período democrático, também atestariam essa contradição. Esta situação também é encontrada na primeira edição do jornal: “é no conflito das horas inquietantes que vivemos, a imprensa não poderá ser jamais um campo radicalmente neutro, fechado à ressonância dos clamores que agitam os ares” (Folha do Oeste, 28 de fevereiro de 1937, p.1). O primeiro editorial, do qual o trecho acima foi retirado, buscava delinear o ideário jornalístico concebido por Lustosa: O jornal sempre foi, desde os mais recuados tempos, um elemento constante de cooperação no meio guarapuavano. A história de Guarapuava é, por assim dizer, a história de sua imprensa. Na verdade, as páginas envelhecidas das gazetas locais ainda hoje retratam, ao vivo, o tumulto de todos os acontecimentos, de que foram contemporâneos, na sucessão ininterrupta dos fatos e dos homens. Nada justificava, portanto, o silêncio que, ao jornalismo guarapuavano, trouxera o desaparecimento do último semanário. E muito menos a prolongação desse silêncio, por tempo que viesse significar a morte da imprensa local. Daí a inevitabilidade do impulso que lança à publicidade esta folha. Pelo seu destino ela vem reatar a série de publicações que intermitentes ou efêmeras, asseguravam a perenidade do periodismo guarapuavano. Pelo seu programa, ela pretende ser o órgão interessado das aspirações de Guarapuava e servir ao mesmo tempo à causa sagrada da renovação nacional. Folha do Oeste surge numa época de profunda inquietação. O vulcão das reformas sociais e políticas incendeia e avassala as consciências dividindo os homens. Todos os valores morais e espirituais sofrem a mais angustiosa das revisões” (Folha do Oeste, 28 de fevereiro de 1937, p,1). A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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“A história de Guarapuava é, por assim dizer, a história de sua imprensa”. Para Lustosa, existência de um jornal era fundamental para a cidade e representava a continuidade dos jornais antes editados, um instrumento do progresso e da história com o objetivo de também assegurar a perenidade da obras realizadas no passado em tempos de mudança, como eram aqueles dias da fundação do jornal. Escrever sobre si sob o III Reich Interpretação de currículos de vida de alemães retornados à Alemanha nazista a partir do Brasil Dra. Méri Frotscher – UNIOESTE

A comunicação visa apresentar análise preliminar de relatos autobiográficos, mais especialmente currículos de vida, escritos por alemães que viviam no Brasil e retornaram à Alemanha durante o Terceiro Reich, e discutir como alguns deles expressam vínculos de identificação com a pátria e/ou o regime nacional-socialista. A proposta faz parte de investigação sobre o retorno de cidadãos alemães (Reichsdeutsche) à Alemanha durante o III Reich, a partir do Brasil, um desdobramento do projeto de pesquisa Memórias da Segunda Guerra Mundial e do Nazismo: a repatriação de cidadãos brasileiros da Alemanha após a II Guerra Mundial, que visa analisar a repatriação de cidadãos brasileiros descendentes de alemães pelo governo brasileiro logo após a II Guerra Mundial. A grande parte dos seus familiares havia retornado a partir do Brasil à Alemanha durante o regime nacional-socialista. O retorno à Alemanha durante o período assinalado mostra um pico entre os anos de 1938 e 1939, sobretudo devido às expectativas em relação à “Nova Alemanha”, ao início da Campanha de Nacionalização e à repressão ao partido nazista no Brasil. Numericamente falando, entretanto, este fluxo é pequeno se comparado ao número total aproximado de alemães e descendentes que viviam no Brasil à época, muito embora seja significativo em diversos aspectos, alguns dos quais pretendemos apontar. A remigração à pátria alemã, cabe destacar, não pode ser vista como restrita a este período da história alemã e brasileira, sendo observada em outros momentos da história das migrações entre ambos os países. Em relação aos que retornaram durante o regime nacional-socialista, uma boa parte havia se dirigido ao Brasil durante a República Weimar (1919-1932) e, assim, ainda mantinha ligações com familiares e amigos no lugar de origem. Em documentos contemporâneos a esse fluxo de retorno, ele é entendido como uma volta à pátria, às vezes caracterizada através do lema nacional-socialista Heim ins Reich, mesmo que o retorno a partir do Brasil não fizesse parte da política oficial alemã. Os cidadãos alemães retornados eram cadastrados e orientados pelo Rückwandereramt – RWA, órgão subordinado à Organização para o Exterior do Partido Nacional-Socialista Alemão, responsável pelo cadastro, controle e orientação de alemães retornados durante o regime nacional-socialista. Este órgão controlava os antecedentes políticos e criminais dos retornados e era orientado pelos princípios de inclusão e exclusão racial do regime. Através das correspondências trocadas com os respectivos órgãos do governo ou mesmo empresas privadas, se percebe a intermediação do RWA na reintegração dos retornados ao mercado de trabalho. O RWA indicava remigrados como força de trabalho a órgãos do governo e à indústria de guerra, incluindo empregos que exigiam alta confiabilidade política. Para tanto, a Gestapo solicitava informações detalhadas sobre os antecedentes do candidato à vaga ao cargo ao RWA ou vice-versa. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Uma das exigências deste órgão para o cadastramento era a entrega de um currículo de vida, em geral escrito em forma de texto e a próprio punho. Estas e outras fontes constantes das pastas do RWA permitem analisar o fenômeno do retorno tanto numa macro-perspectiva, quanto numa micro-perspectiva. Baseada nestes currículos, pretendemos analisar as narrativas de si destes migrantes, levando em conta os trabalhos da memória e esquecimento processados no ato da escrita. Na composição da memória autobiográfica, nos interessam os recortes, seleções, acentos e silenciamentos realizados. Observamos uma relação entre o conteúdo e a forma destes relatos autobiográficos com os interesses e as expectativas dos remigrados, até porque o Rückwandereramt tinha como uma de suas funções auxiliá-los a se reintegrar social e economicamente na velha pátria. Em alguns deles, observa-se como a memória autobiográfica se apropria de elementos de uma memória coletiva divulgada pelo nacionalsocialismo e ressalta elementos de identificação com o regime instalado no país. Palavras-chave: autobiografia; migração; identificações

Nas bodegas da colônia: os imigrantes e o comércio de secos e molhados em Irati-Pr na primeira metade do século XX

Neli Maria Teleginski Doutoranda em História – Universidade Federal do Paraná-UFPR Orientador: Dr. Carlos Roberto Antunes dos Santos

Palavras-chave: Comércio de secos e molhados, Imigração, Irati-PR

Esta comunicação tem como objetivo apresentar alguns resultados obtidos na dissertação de mestrado intitulada: “Bodegas e bodegueiros de Irati-PR na primeira metade do século XX”, defendida em fevereiro de 2012 no Departamento de História da Universidade Federal do Paraná-UFPR. Na pesquisa foram abordadas as diversas funções e práticas culturais relacionadas às bodegas – também conhecidas como vendas ou armazéns de secos e molhados – e a ação e importância dos bodegueiros no cotidiano da sociedade iratiense. O período delimitado para a análise foi de grandes transformações no município, no estado do Paraná e no sul do Brasil, marcado pela chegada da ferrovia São Paulo - Rio Grande Railway, pela imigração européia e ocupação de seu território através das atividades extrativistas de madeira e erva mate em larga escala, além da expansão da agricultura e da urbanização. Nesse contexto de mudanças as bodegas desempenharam papel imprescindível na vida material, econômica, social e cultural da população. Além de comercializarem grande variedade de produtos os espaços das bodegas funcionavam também como pontos de encontro, de sociabilidade e de comensalidade. Neste texto discutimos a relação dos imigrantes com o comércio bodegueiro que se configurou na cidade desde o início do século XX a partir de dois aspectos: o envolvimento de imigrantes enquanto frequentadores e fregueses dos espaços das bodegas, construindo sociabilidades diversas com os comerciantes de secos e molhados e enquanto proprietários daqueles estabelecimentos, atuando do lado de dentro do balcão e se apropriando dessa prática comercial como tática de sobrevivência e de inserção no cotidiano iratiense. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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A análise de diversificadas fontes como atas, códigos de posturas, livros de licença para negócios e cobrança de impostos da Câmara Municipal de Irati, contabilidade de comerciantes e memórias de antigos bodegueiros e fregueses, tendo Michel de Certeau como principal referencial teórico, identificamos importantes indícios das práticas cotidianas envolvendo imigrantes e o comércio bodegueiro. Um desses indícios foi a construção de estratégias mercantis por parte da empresa Manoel Gracia & Cia em um núcleo colonial criado em 1908, o Núcleo Iraty, administrado pelo Serviço de Povoamento do Solo Nacional, agência ligada ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Concomitante à chegada dos primeiros imigrantes a esse núcleo, a firma Manoel Gracia & Cia., através de uma casa comercial de secos e molhados montada na sede da colônia, realizava o abastecimento de alimentos e demais mercadorias aos novos moradores e à comissão de colonização. Nas prateleiras, sacos e balaios o comerciante dispunha alimentos como café, manteiga, biscoitos, açúcar, arroz, feijão, sal, vinagre, toucinho, charque, banha, lingüiça, pães, broas, carne fresca, ovos, peixe salgado, latas de sardinha, cebolas, farinhas de mandioca, milho e trigo, temperos, cachaça, fumo, utensílios de uso doméstico, ferramentas, entre outras mercadorias fornecidas aos imigrantes desde sua chegada. O consumo dos imigrantes na bodega era incorporado a divida colonial. A presença dos armazéns, vendas ou bodegas nas colônias e os acordos entre comerciantes e governo através das comissões de colonização foram comuns na formação dos núcleos coloniais no sul do Brasil. A historiografia aponta exemplos semelhantes para diferentes áreas de colonização europeia, verificados também em Irati, informando sobre a importância das bodegas e dos bodegueiros para que as colônias pudessem se estruturar inicialmente. A atuação dos comerciantes de secos e molhados garantia o abastecimento dos imigrantes até que pudessem realizar suas primeiras colheitas. Uma vez estabelecida a colônia e viabilizado o investimento do comerciante e seus arranjos políticos, derivava uma relação de dependência mútua entre os diversos sujeitos envolvidos nesse processo. Nas memórias sobre as colônias italianas do Rio Grade do Sul Ducatti Neto (1979, p. 57) verificou a importância das bodegas apontando que a edificação das capelas e cemitérios ocorria simultaneamente à instalação daqueles estabelecimentos comerciais que se transformavam nos principais espaços de lazer da comunidade nos quais se teciam também suas redes de solidariedade. Era na “venda” que os colonos comercializavam suas colheitas e compravam os produtos que necessitavam. Andreazza (1999, p. 172) explica que o problema da falta de circulação de moeda entre os imigrantes nas colônias paranaenses exigia que os colonos utilizassem parte de sua produção em troca de dinheiro com os comerciantes locais, que acabavam funcionando como uma espécie de “banco”. Dessa forma, era junto às bodegas que muitos imigrantes garantiam a venda de sua produção agrícola, obtinham dinheiro e também se divertiam. Quando ocorria algum revés meteorológico e a safra quebrava ou se perdia totalmente os imigrantes acabavam dependentes do “fiado” e da “cadernetinha” do comerciante para sobreviver o restante do ano, conforme apontou Alvin (1998, p. 254; 245). Essa relação entre bodegueiros e seus fregueses constituiu uma prática comercial que não se limitou ao contexto da formação das colônias, mas se estendeu ao longo do século XX. Uma prática cultural que ainda hoje pode ser observada nas localidades rurais e bairros de Irati fazendo parte das tradições locais, da memória e identidade dos moradores. Quanto à imigração verificamos que muitos imigrantes se inseriram nas atividades voltadas ao abastecimento não apenas como agricultores, mas como comerciantes de secos e molhados em suas próprias bodegas ou armazéns – ramo comercial com o maior número de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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estabelecimentos em Irati conforme registros da câmara municipal para a primeira metade do século XX, período em que o município foi marcadamente rural. Os relatos do cônsul polonês Kazimierz Gluchowski e de seu conterrâneo, o padre Casemiro José Andrejewski (BATISTA NETO, 2004), que passaram pela cidade na década de 1920 entre outros relatos também apontam para a inserção e atuação de vários imigrantes, entre eles os imigrantes eslavos estabelecidos na região centro-sul do Paraná, como bodegueiros ou “vendeiros”. Através de seus “negócios” participavam da vida econômica e material da colônia e demais localidades onde se estabeleceram. Em Irati, a exemplo de outras regiões coloniais, os bodegueiros organizavam e dinamizavam espacialidades sociais e muitas vezes assumiam posições de destaque na sociedade, na economia e até mesmo na vida política local. (TEDESCO, 2008). A partir desse viés, abordando a relação entre o processo imigratório ocorrido em Irati no início do século XX e o comércio de secos e molhados nesse contexto, propomos uma discussão em torno das táticas e estratégias de inserção social e de sobrevivência dos imigrantes através do comércio bodegueiro. Dessa forma, buscamos contribuir com elementos que visem problematizar o movimento migratório europeu em direção ao Brasil no início do século XX, a partir das especificidades encontradas na região centro-sul do Paraná. Referências Bibliográficas: ALVIN, Zuleika. Imigrantes: a vida privada dos pobres do Campo. In: NOVAIS, Fernando A.; SEVCENKO, Nicolau (orgs.) História da Vida Privada no Brasil, 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. ANDREAZZA, Maria Luiza. Paraíso das delícias: um estudo da imigração ucraniana. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999, p. 172. BATISTA NETO, Herculano. Nossa Senhora da Luz de Irati, 1904-2004. Curitiba: Gráfica Optograf, 2004. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 2. morar, cozinhar. Rio de Janeiro: Vozes, 1996. DUCATTI NETO, Antonio. A vida nas colônias italianas. Porto Alegre: EST, 1979. GLUCHOWSKI, Kazimierz. Os poloneses no Brasil: subsídios para o problema da colonização polonesa no Brasil. Porto Alegre: Rodycz & Ordakowski Editores, 2005. TEDESCO, João Carlos. De olho na balança! Comerciantes coloniais do Rio Grande do Sul na primeira metade do século XX. Passo Fundo: Méritos; Porto Alegre: EST, 2008. TELEGINSKI, Neli Maria. Bodegas e bodegueiros de Irati-PR na primeira metade do século XX. Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Paraná, 2012. Prudentópolis: experiências eslavas no centro-sul do Paraná Odinei Fabiano Ramos (História – FAFIPAR) A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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A presente pesquisa tem por objetivo analisar de que forma a noção de pertencimento tem sido reivindicada por descendentes de poloneses e ucranianos na cidade de Prudentópolis, Estado do Paraná e, em especial, o papel que os casamentos interétnicos têm desempenhado na construção/transformação da identidade sociocultural desses grupos étnicos. Percebe-se o município de Prudentópolis como local de sociabilidade, visto notar a presença massiva de imigrantes ucranianos e seus descendentes, bem como suas influentes correlações de interesses para com os descendentes de poloneses e descendentes da pequena população que já habitava a região no período anterior à imigração. Optou-se como recorte temporal para a presente pesquisa, pelos anos de 1895 a 1995, período em que a imigração foi intensa na região e quando as relações sociais desses grupos étnicos eram determinadas ora pelo Estado, ora pela Igreja. Para perceber a influência dessas instituições na construção identitária da população prudentopolitana e, consequentemente, dos seus indivíduos, será feita a análise do imaginário e das representações coletivas dos imigrantes na colonização do município supracitado. Falar sobre grupos imigrantes e suas relações interétnicas parece uma tarefa árdua, pois desencadeia uma multiplicidade de fatores que mexem com ranços tradicionais ainda em grande medida arraigados no imaginário popular cotidiano do local. Situações são criadas nos lugares de recepção dos grupos étnicos que avivam antagonismos oriundos da região de procedência, assim como a situação inversa causa um impacto irreversível na estrutura cultural de grande permanência. A área onde hoje se situa o município de Prudentópolis agrega em torno de si uma miscelânea de tradições das mais variadas, pois seu aporte cultural formado por poloneses, ucranianos, indígenas e caboclos de toda monta pode ser experienciado cotidianamente no modus vivendi do indivíduo prudentopolitano. Mas tal identidade prudentopolitana existente hoje não foi construída sem conflitos. Imaginar-se a alocação de grupos culturais tão díspares entre si em um mesmo espaço sem que este convívio tenha gerado embates, seria ingenuidade de nossa parte. Tal relação conflituosa não poderia deixar de ali aflorar, pois aparecem desde as diferenças quantitativas de indivíduos em cada grupo, quanto na forma de ajuda oficial e extraoficial que cada um obteve, bem como nas reservas monetárias e mesmo de material que cada grupo trouxe de além-mar ou obteve em sua chegada. Desta forma, para traçarmos o perfil cultural-identitário da atual população da cidade de Prudentópolis, essa pesquisa está focada em dois pontos principais. Em um deles, analisaremos qual o peso que teve na determinação da forma de organização cultural local, a disparidade demográfica entre os grupos, ou seja, analisaremos o fato não pouco relevante de que a hegemonia quantitativa da população ucraniana (e seus descendentes) do município, tenha ao mesmo tempo imposto uma supremacia, em graus variáveis sobre as representações coletivas constituintes do imaginário popular na cidade. No segundo ponto, procuraremos mostrar que a ideia de uma identidade prudentopolitana, ou seja, a ideia de uma possível conciliação cultural entre os grupos em torno de uma cultura supostamente comum, teria sido formada a partir de um processo de integração que pôde ser visualizado com do aumento significativo dos casamentos interétnicos. Assim, o estudo de populações de origem e de cultura diferentes, bem como suas relações ao entrarem em contato no seio de uma mesma sociedade, ajuda a caracterizar o objeto dessa pesquisa. A premissa parte da necessidade de compreender a sociedade prudentopolitana por meio do amálgama cultural formulado pela cumplicidade adquirida, mesmo que através do distanciamento para com o outro. Porém, o que importa aqui é compreender as fronteiras identitárias não como uma forma de rejeitar a identidade do outro, mas sim a de negociar os quadros representativos que irão definir a construção de uma nova identidade pautada na integração étnica.Diante das questões formuladas, a problemática da pesquisa consiste em analisar o processo de sociabilidade A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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diante a colonização ucraniana no município de Prudentópolis, no período de 1895-1995, bem como a permanência e/ou (des)continuidade de valores culturais e sua influência no processo de identificação étnica e cultural do município, o que por muitas vezes bateu de frente com representações coletivas tanto de poloneses como de caboclos. A análise desse material poderá indicar a integração étnica, em detrimento aos movimentos de expulsão constituídos a partir das consolidações de fronteiras identitárias. Palavras-chave: Identidade; migrações; sociabilidade.

A percepção do outro: a identidade teuto-brasileira na concepção da sociedade curitibana durante a Primeira Guerra Mundial Pamela Beltramin Fabris – Mestranda em História pela UFPR Orientação: Profº.Dr.º Sérgio Odilon Nadalin Palavras-chave: Identidade teuto-brasileira, Imprensa, Conflitos Essa proposta de comunicação discute aspectos da identidade teuto-brasileira em um período marcado pelo clima de tensão e hostilidade na cidade de Curitiba durante a Primeira Guerra Mundial. A identidade abordada é tema de discussões acirradas pela historiografia. Autores como René Gertz e Giralda Seyferth contribuíram de forma intensa para a inteligibilidade do tema. Contudo, estudos acerca de possíveis conflitos que envolvem tal identidade não são tão comuns. Com o advento da Primeira Guerra Mundial os países estavam envoltos nos fatos que marcavam o conflito. Apesar da posição de neutralidade assumida pelo governo brasileiro, a historiografia apontou que eram comuns os discursos que denunciavam a preferência da intelectualidade brasileira, expressa muitas vezes através dos jornais da época, pela Tríplice Entente, e mais especificamente pelos franceses. Nesse contexto, os trabalhos de autores como Francisco Luiz Teixeira Vinhosa e Haroldo Leitão Camargo elucidam a situação. A suspensão da neutralidade brasileira, em abril de 1917, e em seguida a declaração de guerra ao Império Alemão, em novembro de 1917, desencadeou diversas reações na sociedade brasileira. Em Curitiba os jornais, “Diário da Tarde”, “A República” e “Commércio do Paraná”, entre outros, publicavam as manifestações de rua promovidas por acadêmicos e populares que chegavam a reunir cerca de 8 mil pessoas nas praças,estes carregavam as bandeiras dos aliados, proclamavam “vivas as nações amigas do Brasil” e “morte a Alemanha”. Esses manifestantes, por vezes, acabavam invadindo associações, colégios, comércios, e outros estabelecimentos alemães ou teuto-brasileiros na cidade. O intuito em alguns momentos era arrancar e destruir bandeiras, ornamentos, retratos do Kaiser , porém em momentos de maior agitação, ocorreram apedrejamentos e até princípios de incêndios a alguns desses locais. Os jornais também ajudaram a promover a desconfiança da população no elemento germânico, pois, não raras vezes, publicavam boatos e histórias bastante fantasiosas, que contribuíram para a formação de um nítido momento de tensão na história dos contatos dos grupos de origens étnicas diversas. A imprensa, também, publicava notícias acerca da dubialidade da identidade teuto-brasileira, e cobrava, dos que assim se identificavam, uma posição objetiva, ou seja, ou se era brasileiro ou alemão, tentar abarcar dentro de uma identidade teutobrasileira os dois elementos era inaceitável para o momento de tensão em que a sociedade estava envolvida. Ao tratar do tema identidade, recorremos ao diálogo com outros campos do saber, logo, Etnologia, Sociologia e Antropologia nos oferecem instrumentos de auxílio para compressões mais apuradas. Neste sentido, autores como Denys Cuche, Philippe Poutignat, Jocelyne Streiff-Fenart, Frederik Barth e Giralda Seyferth, são, a nosso ver, de valorosa A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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contribuição. Também no campo das identidades, recorremos aos estudos de Cardoso de Oliveira. Para Oliveira, o fato de perceber diferenças gerais entre o “nós” e “eles” gera a percepção do outro, do diferente, é o que o autor chama de “identidade constrativa”. Elegemos como fontes os jornais já aqui mencionados e o documento “Crônicas das Irmãs da Divina Providencia”, cujo conteúdo registrou fatos do cotidiano das Irmãs que congregavam essa Ordem em Curitiba, e com isso, incrementa a percepção da situação, pois, nos apresenta o outro lado. Ou seja, apresenta o lado dos que estavam sendo perseguidos pela conjuntura do momento. Mas, a abordagem que propomos, também engloba temas já recorrentes na historiografia. Entre esses, a própria inserção dos imigrantes de origem germânica no ambiente urbano de Curitiba. Nós, entre outros autores, como Roberto Lamb, Maria De Boni, Denise Colatusso, Regina de Souza, Sergio Odilon Nadalin, Etelvina Trindade, acreditamos que isso não se deu de forma tão harmoniosa, ideia outrora já bastante difundida (Wilson Martins é exemplo mais ilustre nessa perspectiva), logo, abordagens que privilegiam aspectos, também, conflituosos dos contatos foram contemplados. Imersos nas balizas da história social, dialogando com outros campos do saber, tal proposta espera contribuir para a história dos contatos entre grupos de origens diversas, inserindo a identidade teuto-brasileira na problemática da questão.

Memória e Festas: o programa radiofônico Nossa Terra, Nossa Gente. WOLFART, Senaide Mestranda - UNIOESTE Orientadora: Geni Rosa Duarte Palavras-chave: Memória; Festas; Programa radiofônico Nossa Terra, Nossa Gente. Os pontos a serem apresentados no presente estudo agregam as sociabilidades, disputas e embates desencadeados no espaço das festas do programa radiofônico Nossa Terra, Nossa Gente, apresentado pelo radialista Manuel Canabarro, na cidade de Marechal Cândido Rondon no período de 1982 a 2000. Evidenciam-se os distintos sentidos e significados das festas, tanto para ouvintes, quanto participantes, organizadores e músicos. Outrossim, apresenta-se a maneira em que as festas eram organizadas, perscrutando os discursos sobre as festas, possibilitando uma análise destes, e das narrativas dos depoimentos orais de participantes, dos idealizadores do programa Nossa Terra, Nossa Gente, programação esta, dirigida às camadas populares. No entanto, o programa era visto de forma diferente pelos diversos grupos existentes na cidade. Para quem participava das atividades ao vivo, o programa eram as festas, para outros, era um programa radiofônico, visto e avaliado no campo das mídias. As questões trazidas nesta pesquisa transitam no espaço urbano delimitado, a partir de um programa de rádio e seus desdobramentos aí realizados. Na medida em que as festas do programa Nossa Terra, Nossa Gente ocorreram no espaço da cidade, permitiram outras maneiras de se perceber e estar no mundo. Entre as fontes utilizadas para a pesquisa estão os depoimentos orais de participantes das festas, de sujeitos não participantes, e de ouvintes do programa, de músicos que se apresentavam no show de calouros, além do depoimento de Manuel Canabarro. Agregando uma análise aos participantes dos diferentes pedaços (termo utilizado por José Guilherme Cantor Magnani em sua obra Festa no Pedaço) nos quais eram realizadas estas festas, remete-se assim na direção de distintas significações e apropriações específicas de cada lugar, devendo-se analisa-las de uma maneira singular. Dessa maneira reúnem-se os diversos depoimentos colhidos, fundindo análises semelhantes e/ou distintas do mesmo contexto social vivido pelos protagonistas deste arcabouço histórico. Cada narrativa sobre o passado é distinta uma da outra, a partir de quais perguntas se direcionam à pesquisa, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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destacando inclusive as próprias experiências do pesquisador. Sob o tópico referente aos depoimentos, menciono a estima em interpretar as diferentes visões e significações destas festas aos sujeitos pertencentes a circularidade de sociabilidades da cidade de Marechal Cândido Rondon.Através das memórias de participantes das festas, bem como de sujeitos não participantes, busca-se perceber os seus sentidos e significados, além dos discursos expressos pela mídia reportada ao programa radiofônico, problematizando as transformações no cotidiano das pessoas.Nessas memórias, diferentes significados imperavam, pois o tempo é lembrado como marco das mudanças no modo de viver, nas interrupções dos ritmos antes vividos nos lugares transformados, permanecendo apenas o sentido do por que e como as relações eram vividas e qualificadas nos costumes, que não mais pertencem à vida social da cidade. Deste modo os valores se reelaboram à medida que a sociedade e os sujeitos nela inseridos se transformam no seu todo. Acerca do rádio, no caso de Marechal Cândido Rondon, torna-se necessário destacar sua importância. Muitos sujeitos buscam informações pelo rádio a respeito do lugar, haja visto que, geralmente se capta o sinal da televisão via antena parabólica e não se transmitem por esse meio acontecimentos da região. Aliás, as informações contidas e repassadas pelo rádio figuram em debates e comentários a respeito da cidade e dos municípios vizinhos. Lado a lado a estas programações vincula-se a participação dos ouvintes, cedendo-lhes espaço, fazendo-os ouvir suas próprias vozes por meio de reivindicações de seus direitos na sociedade, configurando numa valorização destes sujeitos. O rádio vem se mostrando cada dia mais um agente social na cidade de Marechal Cândido Rondon, correspondendo ao principal veículo de comunicação na região, conserva ainda uma vantagem importante em relação à televisão, lado a lado com a própria imprensa local que se direciona à cidade e à região. Dessa forma, falar de um programa apresentado há mais de dez anos ainda coloca questões sobre o cotidiano da cidade e da região.

Olhares para o interior paranaense: identidade territorial e modernidade no governo de Alfredo Taunay (1885-1886) Silvia Gomes Bento de Mello – Doutora em História – UNICENTRO (campus Santa Cruz, Guarapuava) Quando governou o Paraná (29 de setembro de 1885 a 3 de maio de 1886), Alfredo d’Escragnolle Taunay fez de viagens pelo interior da província que administrava a marca distintiva da sua política governamental. De fato, conhecer a Província – seus espaços e seus habitantes – confere uma identidade muito específica a sua administração: uma política de gerência territorial se constituía como o alicerce de uma nova maneira de governar, que lhe parecia superior àquela que se restringia ao gabinete e nos aponta para uma modernidade que se insinuava no Paraná. É para essa novidade que este trabalho aponta e reflete. Compreender a emergência de uma prática que problematiza o território e lhe confere identidade: a associação entre governo e deslocamentos pelo território cria, nos âmbitos simbólico e discursivo, novos sentidos para o Paraná. Mas, para além daqueles âmbitos, as viagens de Taunay geravam transformações práticas na vida provincial: reparos em pontes, instalação de barreiras nas estradas para cobrança de impostos, consertos em estradas, fundação de sociedades de imigração. Configurava-se um Paraná cuja extensão, grandeza e importância só poderiam ser plenas quando o seu interior fosse efetivamente conhecido, posto que conhecêlo era um meio de torná-lo compreensível e próximo; conhecer é racionalizar e dominar. Assim, a necessidade de conhecer não era mera curiosidade, mas caracteriza um modo de lidar com o meio que tem uma historicidade específica. As viagens movidas pelo desejo de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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conhecer e explorar novas terras são marcas da modernidade, tão caracterizada pela ânsia de experimentar o novo. Fazia-se urgente sair dos gabinetes e dos grandes centros para conhecer, observar, experimentar os lugares distantes, desconhecidos e exóticos. As viagens de Taunay pelo Paraná não estavam desvinculadas dessa lógica: ele era um observador em trânsito pela Província, alguém que fazia da sua mobilidade a resposta à exigência moderna de conhecer o mundo, bem como de governar. Ao retornar de suas viagens pela Província, Alfredo Taunay atribuía sentido à sua experiência através de relatos de viagens. Tão importante quanto viajar, era produzir significado a respeito do que vira. De certa maneira, rememorar significativa fazer uma nova viagem. Assim, o sentido da viagem se dá no entrecruzamento entre o caminho percorrido e sua rememoração. Trata-se de processos interdependentes, mas que marcavam os contornos de uma experiência tipicamente moderna. Assim, a insurgente necessidade de produzir conhecimentos a respeito do Paraná se materializava tanto na experiência in loco, de ver e experimentar a Província, quanto em um processo reflexivo e de abstração. Há que se considerar que, na medida em que Taunay registrava sobre o interior da Província, esta ganhava materialidade. Além disso, os relatos facultavam que outras pessoas empreendessem viagens semelhantes, tornando as localidades do interior mais acessíveis e próximas. Considerando que a modernidade centraliza a produção de conhecimento – deslocando a centralidade da experiência –, mapas e registros descritivos de viagens elaborariam informações ‘objetivas’ a respeito dos espaços geográficos, facilitando que o mesmo percurso fosse realizado por qualquer um, permitindo que qualquer pessoa fizesse a mesma viagem futuramente. Acrescido a isso, governar tornava-se cada vez, um ato de planejamento e de domínio territorial. Assim, aqui e ali podemos encontrar, nos escritos de Taunay a respeito de suas viagens pelo Paraná, marcas das preocupações de um presidente de Província. As responsabilidades administrativas guiavam seu olhar, afinal, cabia-lhe detectar os problemas, reverter os atrasos, pensar o futuro, prosperar a vida na Província. Constituir, enfim, uma identidade ao Paraná que passava pelas questões territoriais. Torná-la moderna requeria reflexão e planejamento, além de prover-lhe de atributos que fossem signos da civilização e do progresso. Sendo assim, projeta uma Província através de inúmeras ações que se referem às estradas, ao abastecimento alimentar e de água, às condições de salubridade, de educação e do incentivo à política imigratória, dando corpo a uma forma de governar em que a ação transformadora era tributária do conhecer, do ver e do viajar.

Brasil e Alemanha Imperial (1871-1918): Diplomacia, Imigração e Imperialismo Wilson Maske; Titulação: Doutor em História; Instituição: Curso de História – PUCPR Palavras-chave: Política Externa Brasileira; Imigração Alemã para o Brasil; Imperialismo Alemão O objetivo da presente comunicação é apresentar os resultados preliminares do estudo que tenho desenvolvido sobre as relações históricas entre o Brasil e a Alemanha, no período compreendido entre 1871 (unificação dos Estados Alemães e fundação do Império Alemão por Bismarck) e 1918 (estabelecimento do regime republicano na Alemanha). O tema, em certos aspectos, é inédito, pois os estudos que contemplam a história das relações internacionais do Brasil no citado período, o avaliam na sua totalidade, ou estudam temas mais específicos, como as relações políticas, econômicas ou culturais de nosso país com seus principais parceiros, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, grandes potências nessa fase. As relações do Brasil com outros países, como a Alemanha, que era nosso terceiro mais importante parceiro comercial e um dos mais importantes fornecedores de imigrantes, raramente são estudados de forma mais detalhada. Na maior parte das vezes as relações com esses Estados A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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são contemplados apenas com pequenos parágrafos e/ou breves citações em obras de síntese relativas ao assunto.O olhar que se desenvolve nesse estudo historiográfico é o da perspectiva brasileira, por meio dos documentos diplomáticos brasileiros, artigos de periódicos da época, dissertações, teses e outras fontes secundárias que abordam o assunto. Em especial, gostaríamos de citar que um dos aspectos importantes que deverão ser abordados é a questão de que visão de papel do Brasil no cenário internacional, tinham os formuladores de nossa política externa, em especial figuras como o Barão do Rio Branco, que foi ministro das relações exteriores do Brasil de 1902 a 1912, e Lauro Müller que foi seu sucessor, ocupando a mesma pasta de 1912 até 1917. Mas ressaltamos que a consulta às fontes alemãs é essencial para o desenvolvimento do projeto. Devemos citar que existe a disponibilidade de fontes alemãs sobre o período, uma vez que os documentos diplomáticos alemães referentes à era imperial já foram publicados pelo Ministério das Relações Exteriores alemão. Dessa forma, um dos objetivos do presente estudo, é analisar como se desenvolveu a política externa brasileira em relação ao Império Alemão e que papel teve o fluxo de imigrantes alemães para o Brasil, assim como elucidar que posição nosso país ocupava em relação ao imperialismo alemão e às relações políticas e econômicas nos quase quarenta anos de existência da Alemanha Imperial.O presente projeto se filia aos estudos de História das Relações Internacionais, iniciados a partir do fim da Primeira Guerra Mundial pelos historiadores franceses Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle (Introdução à História das Relações Internacionais, 2000, p. 9) e redescobertos na década de 1990. Na perspectiva dos citados historiadores, a questão central em estudos sobre política externa e relações internacionais é o fato de que a sociedade internacional não é organizada por uma instância superior, que detenha o poder da soberania e o monopólio da força, como os Estados modernos que conhecemos. Assim, não existe no cenário internacional um Leviatã que proteja o mundo da anarquia e que defenda os Estados pequenos e fracos dos Estados grandes e poderosos. Dessa forma, a condução das relações internacionais é feita pela diplomacia e pela cooperação em tempos de paz e pela estratégia em tempos de conflito e de guerra. Mas, diplomacia, cooperação e estratégia tornam-se realidade e são concatenadas por indivíduos com características culturais e psicológicas distintas, que lideram países com diferentes interesses e objetivos. Para dar conta da complexidade que rege a condução dos negócios internacionais, a historiografia precisa perceber e analisar criteriosamente as forças profundas que movem os interesses dos diferentes Estados em sua inserção internacional.As “forças profundas” a que nos referimos acima são, segundo Renouvin e Duroselle (2000, p.15), aqueles eventos, tendências e características de longa duração que influenciam ou determinam as relações externas de uma determinada unidade estatal. Essas forças profundas podem estar relacionadas com as condições geográficas do território do Estado, com suas características demográficas, com seus interesses econômicos, com o jogo de sua política interna, com a questão da psicologia coletiva, com o nacionalismo, com a opinião pública, com a influência da mídia e seu controle, com a influência das religiões e dos líderes religiosos, com o papel e a ação do estadista, entre outras. Nessas condicionantes é que poderemos encontrar os fatores que determinam as relações internacionais e que servem de interpretação e de análise para a historiografia das relações internacionais.O cenário das relações internacionais conta com a participação de diversos atores que assumem certamente um papel bastante ativo no seu desenrolar. Atualmente, diversas categorias de participantes atuam no nível das relações internacionais: empresas transnacionais, organizações internacionais, organizações não-governamentais, os meios de comunicação, igrejas e comunidades religiosas e também o próprio indivíduo. Mas sem dúvida é o Estado que concentra a maior parte do peso e influência nos temas internacionais, pois é ele depositário do monopólio delas. É apenas o Estado que negocia e celebra tratados, que permitem o comércio, a circulação de capitais e de pessoas, que pode declarar a guerra ou oferecer a paz. Essa tamanha concentração de poder e responsabilidade é A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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que permite que o Estado e sua ação sejam foco do estudo e do interesse do historiador das relações internacionais.Em função dessas reflexões emergem as questões centrais da história diplomática: como agem os atores responsáveis pela condução da diplomacia e das relações internacionais? Que fatores foram determinantes para tal ação? Porque agora e não antes? Com a atenção voltada aos formuladores de política externa ou policy makers, podemos questionar que horizontes de observação lhes foram oferecidos? Que mentalidades tiveram influência ou mesmo determinaram suas decisões? Os interesses nacionais surgem por meio das influências que são geradas nos diferentes grupos de pressão no seio do Estado e são, por sua própria natureza, bastante flexíveis e mutáveis. Quais são os fatores que determinam que Estados busquem aproximação, estabeleçam relações políticas, econômicas e culturais, entrem em confronto, rivalizem entre si, declarem e estabeleçam a paz? Como princípios contraditórios de poder e moral, pragmatismo e idealismo, interferem nas negociações e na elaboração da política externa e na condução das relações internacionais?Com base nessas reflexões, pretendemos fundamentar teoricamente o estudo acerca das relações entre o Brasil e a Alemanha Imperial, no período de 1871 e 1918. A razão da escolha desses dois importantes atores internacionais reside no fato de que ambos eram, de certa forma, coadjuvantes periféricos do jogo internacional no período estudado. O Brasil, apesar de grande e promissor, era um ator bastante secundário no panorama mundial. Era apenas um fornecedor de matérias-primas, de café, açúcar, tabaco, borracha e outros produtos básicos. Gravitava entre a Grã-Bretanha, grande potência mundial, e os Estados Unidos, potência em ascensão. Ambas disputavam a proeminência política e comercial no Brasil e na América Latina. A divisão do mundo, a partir da segunda metade do século XIX entre as grandes potências industriais, diminuiu consideravelmente o mercado para os produtos tropicais produzidos pelo Brasil, pois nesse cenário, as colônias de europeus na África e na Ásia, forneciam os mesmos produtos aos países centrais, sem os ônus de tarifas alfandegárias e onde a produção poderia ser controlada pelas metrópoles. As três últimas décadas do século XIX se caracterizaram pelo surgimento de uma nova grande potência no cenário das relações internacionais, a Alemanha unificada. Apesar de que o processo de unificação dos Estados Alemães ter começado bem antes, em 1834, com a criação do Zollverein, mas essa entidade era de caráter econômico e não político. Assim, economicamente o processo de unificação alemão já estava em pleno avanço nas décadas de 1830 e 1840. No entanto, o processo de unificação política estava em pleno avanço, com idas e voltas desde a Revolução de 1848 e o fracasso da tentativa liberal de unificação por meio do Parlamento de Frankfurt, tendo em vista sua rejeição pelos governos autocratas da Prússia e da Áustria. Mesmo não estando unificada, a Alemanha mantinha estreitas relações com o Brasil, através dos diversos Estados que compunham a Confederação Germânica, em especial com as pequenas, mas importantes cidades-estado hanseáticas de Hamburgo, Bremen e Lübeck, em função dos interesses comerciais. A Áustria, em decorrência dos interesses dinásticos e das ligações da família real brasileira com os Habsburgos, havia se tornado uma parceira política importante, mas que não conseguiu traduzir esse significado em parceria econômica. Na perspectiva da imigração para o Brasil, a presença alemã já se fez sentir em 1824, quando sob os auspícios do governo imperial foi fundada a primeira colônia alemã no Brasil, que seria São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A ela seguiram-se várias outras, como Rio Negro (PR), Santo Amaro (SP), São Pedro de Alcântara (SC) e Petrópolis (RJ). Podemos também associar à imigração alemã, a contratação de mercenários alemães que lutaram na Guerra de Independência do Brasil (1823) e também na contenção das revoltas regionais do Período Regencial, em especial da Revolução Farroupilha. Assim, foram consideravelmente fortes as relações, tanto políticas, quanto econômicas, entre Brasil e os Estados Alemães, antes de 1871. Com a unificação de 1871, a Alemanha não adotou imediatamente uma política de expansão e de busca de construção de um império colonial. Tendo em vista o interesse de Otto von Bismarck, chanceler da Prússia e do jovem Império A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Alemão, de adotar uma nova política externa que pudesse isolar a França e permitir que a unificação fosse consolidada. Em função disso, a conquista de um império colonial e de uma política de expansão militar agressiva somente seria adotada quando Bismarck abandonou o poder em 1890, logo após a ascensão do príncipe Guilherme, neto de Guilherme I, em 1888. Com ele ascendeu também uma nova elite política, composta por políticos pertencentes à nobreza territorial prussiana e por profissionais liberais oriundos da burguesia em ascensão. O que os dois grupos tinham em comum era um profundo sentimento nacionalista, que considerava que a Alemanha deveria ocupar no mundo, um lugar correspondente à sua produção econômica, científica, filosófica e cultural. Assim, a Alemanha, conforme Amado Luiz Cervo & Clodoaldo Bueno (História da Política Exterior do Brasil, 2008, p. 130), agenciava as relações inter-européias e se preparava para desempenhar um papel mais ativo no cenário mundial, que se encaminhava decididamente nas vias do imperialismo. Nessa perspectiva, o Brasil interessava à Alemanha como um possível mercado consumidor de produtos surgidos com sua rápida industrialização. Nesse ínterim, as grandes colônias de imigrantes alemães serviam, na perspectiva alemã, como portas de entrada para a produção industrial da Alemanha. Também de uma perspectiva geopolítica e estratégica, a localização geográfica do Brasil em relação ao Atlântico Sul, podia servir como base para a grande marinha mercante alemã, assim como para sua frota de guerra, construída a partir de 1890 e que rivalizava fortemente com a similar britânica. Assim, o Brasil passaria a ocupar um importante papel nesse projeto de grande potência imperialista germânica. ST 05 - MEMÓRIAS CONTRA-HEGEMÔNICAS, HISTÓRIA E ENSINO DE HISTÓRIA

Experiências contra-hegemônicas na história da Educação Popular Adriana Medeiros Farias Doutorado em Educação Universidade Estadual de Londrina Na década1960, no Brasil, num contexto de efervescência cultural, política e social, os movimentos sociais e populares destacaram-se por desempenhar um papel importante nas disputas contra-hegemônicas no que tange à construção de uma proposta de educação comprometida com os interesses das classes subalternas. Referimo-nos às experiências do Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP) (1960), a Campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, da Prefeitura de Natal (1961) e os Centros Populares de Cultura (CPCs), criados em todo o país, com o apoio estrutural da União Nacional dos Estudantes (UNE), (1961/1962). Os CPCs tinham como objetivo principal a luta pela transformação da realidade brasileira e, para isso, faziam o uso da arte didática, principalmente o teatro de rua, entre outras formas de expressão cultural, o foco da sua atuação estava na pesquisa e na promoção da cultura popular. As experiências destacadas anteriormente pretendiam atender as demandas educacionais da população pobre valorizando os saberes construídos na cotidianidade da cultura popular e conduzindo à reflexão social acerca dos problemas locais. Os adultos trabalhadores se reuniam nos círculos de cultura, clubes de pais, teatros, teleclubes e cineclubes, onde eram veiculados programas de alfabetização e de educação de base por meio das escolas radiofônicas e outras formas de Educação Popular. Nesse contexto, a alfabetização de adultos se constituiu numa tarefa política e legítima de cultura popular, de “libertação das massas”. Após a realização do Encontro Nacional de Alfabetização e Cultura Popular, em 1963, percebera-se a necessidade de mudanças nas concepções e métodos A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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empregados até então: as cartilhas, os livros de leitura, os métodos de sentenciação e de palavração não eram condizentes com a concepção do adulto analfabeto, capaz de conduzir o seu processo educacional e, portanto, refletir a respeito da realidade cotidiana; surgia assim a defesa de que o processo educacional partisse da compreensão da realidade social do adulto. Nesse mesmo período, as idéias de Paulo Freire apontavam com força na primeira experiência extensiva realizada em Angicos/RN que marcou a história da Educação de Adultos e da Educação Popular. A alfabetização de trabalhadores do campo em 40 horas demonstrou a pertinência do “método”, do “sistema” Paulo Freire, fundamentado nos princípios dialógicos e humanísticos de educação. Essa experiência contribuiu para o alargamento do conceito de analfabetismo, questionando a sua relação de causalidade, ou seja, o analfabetismo como efeito e não causa dos problemas sociais e econômicos do país. Destacou-se também, a atuação do Movimento de Educação de Base (MEB) na organização e formação continuada dos animadores e monitores populares, conferindo novos contornos na condução teóricometodológica da formação de seus quadros (FÁVERO, 1983). A formação conduzida pelo MEB enfatizava a metodologia que considerava os conhecimentos e experiências da escola da vida. Todavia, com o golpe militar de 1964 a disputa em torno do projeto societário se acirrou e a resistência dos movimentos populares foi relevante para a construção de uma referência contra-hegemônica no enfrentamento da realidade educacional. Posteriormente, na década de 1980, identificaremos uma experiência singular de escola pública democrática e popular na cidade de São Paulo, em especial a experiência do Movimento de Alfabetização (MOVA), uma parceria entre os movimentos sociais e o poder público municipal, ressignificando algumas das proposições presentes nas décadas de 1950 e 1960. Com base no exposto, o presente texto tem por objetivo analisar as experiências situadas no tempo de sua proposição com o intuito de problematizar as suas características contra-hegemônicas e os desdobramentos para a constituição da história da Educação Popular e sua vigência na contemporaneidade. Para tanto, utilizaremos da análise documental e da produção bibliográfica pertinente (BENJAMIN, 1994; BRANDÃO, 2002; FÁVERO, 1983; FREIRE, 1996; GARCIA, 1994) como referência inicial para a escrita da narrativa da memória destas experiências, seguindo com a reflexão que comprometa a Educação Popular com o legado crítico e emancipatório. Palavras- chave: Educação Popular. Movimentos sociais e populares. História.

Soberania nacional vs. narcotráfico: ameaças e fatos na Colômbia contemporânea. Anderson Guilherme Albani, Camila Zanella Anderson Guilherme Albani, graduado em Relações Internacionais pela Faculdade Unicuritiba, Técnico de Comercio Exterior no Centro Europeu com MBA em Gerenciamento de Sistemas Logísticos pela Universidade Federal do Paraná - UFPR. Camila Zanella, licenciada em História pelo Centro Universitário Diocesano do Sudoeste do Paraná - UNICS, Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC-PR, Doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC-PR. Palavras-chave: Soberania; Narcotráfico; Colômbia. A soberania é um elemento essencial para a formação de um Estado, legitimando o poder governamental dentro de seu território. Onde o Estado deve suprir as necessidades de seu povo assim como garantir sua segurança. No caso da Colômbia o Estado perde o poder dentro de seu próprio território, sendo um país que sempre teve problemas internos ocasionais desde A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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sua independência. Principalmente após o período de violência conhecido como “la violencia”, aonde o estado perde poder, fragilizando sua soberania, tornando-se um ambiente favorável ao desenvolvimento do tráfico de drogas, que teve uma evolução surpreendente principalmente com a exportação de cocaína para todo o mundo, em especial os Estados Unidos. Desta forma este estudo tem como o objetivo demonstrar através de pesquisas em fontes primárias e sites relacionados ao assunto o surgimento do narcotráfico como um problema mundial, que afeta diretamente a soberania dos países da América Latina, em especial a Colômbia. Onde o Narcotráfico criou territórios dominados exclusivamente por eles, locais aonde valiam suas próprias leis, além de influenciar diretamente na economia e política do país. Os EUA, um dos principais prejudicados pelas drogas, sendo o maior mercado consumidor do mundo, adentra em uma luta contra o narcotráfico, principalmente a partir de 1986 quando considera o tráfico de drogas um problema de segurança nacional, a ser combatido fora de seu território. Neste caso acaba se tornando mais um problema para a soberania colombiana, pois os norte-americanos passam a interferir diretamente nas decisões internas do país levando até mesmo a modificação de leis como a polêmica Lei de Extradição. Sendo assim a Colômbia acaba se tornando um mero coadjuvante dentro de seu próprio território que acaba sendo dominado por narcotraficantes e pelo Estados Unidos. As facilidades trazidas pela globalização são fatores essenciais para o desenvolvimento ocorrido no comércio internacional nas últimas décadas, tendo como importante característica o surgimento de empresas transnacionais, as quais apoiadas em tecnologia de ponta, geram correntes de poder e influência em todos os países onde se encontram. Observando o comércio e as relações internacionais no mundo contemporâneo, percebe-se que o narcotráfico é um agente que se aproveita deste avanço global e assume papel importante, assim como características de verdadeiras empresas modernas, criando uma poderosa força internacional que chama atenção pelo poder que adquire ao longo de sua trajetória principalmente em países de terceiro mundo, onde “a presença de círculos clandestinos de lavagem de dinheiro e de tráfico de armas e entorpecentes são combustíveis indispensáveis ao mundo subterrâneo das relações internacionais.” (Seitenfus, 2004, p.159)O tráfico de drogas ganha destaque como um problema mundial, afetando diretamente países de todos os níveis sociais. Visivelmente um dos mais afetados é a Colômbia, onde o narcotráfico acaba assumindo o poder paralelo ao Estado, impondo suas leis e vontades em boa parte do território, afetando a soberania do país tanto internamente como externamente. Países desenvolvidos, no entanto, também acabam alvos do narcotráfico, uma vez que são considerados potenciais compradores. Os Estados Unidos se torna o maior consumidor mundial de drogas, o que os levam a tratar do problema como ameaça nacional, considerando que isso afeta gravemente os indivíduos de seu Estado e as relações entre os mesmos. Levando-os a proclamar uma “guerra ao narcotráfico” através de intervenções em países provedores de drogas como a Colômbia, foco deste estudo, que tem como objetivo principal mostrar o tamanho do poder alcançado pela indústria das drogas e a interferência disso na soberania estatal principalmente a partir dos anos 70 e intensificando ano longo dos anos 80. Através da análise da história latino-americana, até meados dos anos 90, exemplificando o início do narcotráfico na Colômbia e a sua crescente evolução como um importante ator dentro e fora do estado. Além de demonstrar a interferência norte americana no estado colombiano, que atraídos pelo combate ao narcotráfico se tornam mais um fator prejudicial a soberania do Estado.

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Memória em fragmentos; o acervo Santo Dias Carlos Alberto Nogueira Diniz (Mestrando em História UNESP-Assis) Orientador: Wilton Carlos Lima da Silva O acervo Santos Dias pertencente ao Centro de Documentação e Memória da UNESP constitui talvez em um poucos dos casos de acervos no Brasil dedicados a um único operário,os acervos pessoais geralmente tendem a reunir documentação de intelectuais, políticos, artistas ou mesmo militantes de esquerda, ou seja, mesmo os arquivos dedicados a classe operária tendem a abordar os personagens de forma coletiva, o acervo Santo Dias formado a partir da documentação reunida por seus familiares tem a importância de ser um acervo dedicado a um único operário e por isso valoriza a memória dos trabalhadores enquanto individuo e sujeito da história. Nesse sentido o fundo Santo Dias apresenta uma nova perspectiva em relação a construção da memória coletiva e a legitimação de novos atores que também fizeram e fazem a história, o objetivo desse acervo não a idealização do personagem, mas perceber a partir dos fragmentos que constituem sua memória, silêncios, lacunas e construções ajudam a compreender parte importante da participação popular na resistência e difusão de espaços alternativos de democracia e organização social. Pode-se através dos fragmentos de registros de sua vida simples, encontrar peculiaridades e sutilezas do seu cotidiano que mesmo pequenas revelam aspectos brutais e desumanos que encontraram eco em grande parte da vida dos trabalhadores brasileiros. As contradições entre o personagem e as idealizações feitas por aqueles que ajudam a construir sua memória longe de serem entendidas como deturpações ou vicios devem ser acolhidas e problematizadas em si mesmas como parte da história e de seu contexto.Dentro dessa perspectiva o estudo apresenta uma relação dialética entre sociedade e individuo na medida que pretende analisar a memória de Santo Dias a partir de sua experiência histórica e do legado constituído pelos movimentos sociais que ajudaram a construir sua memória.Estudar a memória de Santo Dias da Silva significa também problematizar parte das experiências do personagem como também do contexto que esteve inserido. Experiências estas que refletem anseios, objetivos e concepções políticas constituídas a partir da luta de trabalhadores e na construção de espaços e de práticas democráticas em uma época de autoritarismo e de repressão dos movimentos sociais.Mas o historiador ao se deparar com determinada documentação encontra também inúmeros desafios que vão desde o processo de formação do acervo à interpretação dos fragmentos e lacunas que costumam ser práxis nesses arquivos e em pesquisas que envolvam a questão da memória. A relação entre o historiador e seu objeto longe de idealizações pode ser entendida também como uma experiência histórica, já que o próprio historiador é um sujeito histórico. Nesse sentido ter como objeto de estudo a construção da memória de um operário é partilhar da experiência histórica desse individuo e daqueles que com ele conviveram. A memória e a história são representações do passado e ambas estão ligadas ao presente e tem, portanto implicações no presente. A disputa pela memória também se traduz em uma luta política e ideológica que pode por ser travada pelo historiador mesmo que não seja essa sua intenção.O historiador não é um elemento exógeno a sociedade, portanto qualquer que seja sua postura tem influências do meio social, ideológico, cultural e político em que está inserido. A busca por uma “ingênua neutralidade” pode muitas vezes levar o historiador a uma A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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perspectiva utilitarista e questionável quanto ao papel do social do historiador na sociedade atual.Nas sociedades atuais a questão da memória vem sendo uma problemática constante das ciências humanas e biológicas. Em relação a história são crescentes os números de acervos, arquivos e sistemas de informação que trazem e são responsáveis por registrar as representações mnemônicas e rememorativas das sociedades.Segundo Meneses tem havido um esforço de estabelecer uma separação entre a História e a memória, portanto, surge a possibilidade de constituir-se em uma História da memória, suas construções, apropriações e não apenas restringir-se a análise das teorias da memória. O objetivo de uma História da memória não é legitimar ou “resgatar” memórias perdidas, mas de analisar e problematizar a construção da mesma. Segundo Meneses a busca da identidade e de reivindicações através da memória tem levado cada vez mais especialistas a dedicarem-se ao tema. A historiografia mesmo contribuindo para construção da mesma, também exerce o papel muitas vezes de desconstrução da memória estabelecida, principalmente aquela constituída segundo os interesses de grupos dominantes.É preciso lembrar que também não se trata de exaltar a memória dos dominados em contraposição a perspectiva dominante ou de procurar “a verdade a partir dos vencidos”, pois os discursos mesmo dos vencidos também contem construções, lacunas e silêncios que cabem ao historiador dialogar com esses vários discursos. Palavra-chave; memória, história e arquivo Memórias do mundo do trabalho docente de história Cyntia Simioni França Docente da Unopar (Universidade do Norte do Paraná) e doutoranda em educação na Unicamp O trabalho denominado “Formação dos professores de história: memória e história” refere-se a um projeto de pesquisa em andamento (2012) na Universidade do Norte do Paraná (UNOPAR). Com alunos participantes do curso de graduação em história, contando com a participação de dois alunos de Iniciação Científica. A presente pesquisa tem como objetivo investigar a formação do docente de História, a partir do estudo dos condicionantes que determinam sua atuação e local de trabalho. Sendo assim, pretendemos investigar o mundo do trabalho docente, as suas relações de trabalho e as condições de trabalho para o desenvolvimento de suas práticas pedagógicas. As pesquisas sobre as recentes mudanças no mundo do trabalho constituem-se em um debate profícuo. No caso do trabalho docente têm revelado como a reestruturação produtiva e a precarização do trabalho atingiu o fazer dos professores. Dessa forma, a noção de mundo do trabalho é entendido como a condição na qual os sujeitos estão inseridos ao construírem suas relações de trabalho. (HOBSBAWM,1998). Para o desenvolvimento da pesquisa faremos leituras teórico-metodológicas sobre a temática e depois iniciaremos o mapeamento sobre as concepções que os professores têm da sua prática docente e sobre seu mundo do trabalho, abrangendo professores das cinco regiões do município de Londrina (região norte, região sul, região leste, região oeste e centro). É nessa perspectiva que o projeto de pesquisa tem como objetivo identificar e analisar as mudanças ocorridas no mundo do trabalho dos professores da educação básica. Priorizando o que o professor pensa sobre o seu trabalho, quais relatos tem para contar e como se desenvolveram as suas relações de trabalho, levando em conta as construções sociais de seu tempo. Nesse sentido, considerar a experiência dos professores é a base para o entendimento sobre o mundo do trabalho docente. Visto que a categoria experiência permite compreender os sentidos dos saberes produzidos do e no trabalho e, ainda o contexto em que os mesmos são (re) elaborados. Além de possibilitar a compreensão das relações que permeiam o trabalho. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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(THOMPSON (1987). Por meio das experiências nas relações produtivas, pessoais e culturais, os docentes são reinseridos na história, abrindo um campo de potencialidades no âmbito do seu trabalho. Tais experiências ainda propiciam formar um elo com a noção de “cultura”, que, segundo Thompson (1981), não acontece apenas da posição do indivíduo frente ao modo de produção, mas visíveis em seus sentimentos e nos seus valores morais. Para a coleta de dados utilizaremos questionários com questões abertas e fechadas e também entrevistas com os professores para buscar em suas memórias as experiências vividas em seu local de trabalho, pois acreditamos na importância da ressignificação do trabalho docente para minimizar a precarização da profissão e a proletarização (perda do controle do seu próprio processo de trabalho). Memórias essas que fazem a ligação entre o presente e o passado, e que, para Benjamim (1985), são como sítios arqueológicos que possibilitam a reconstrução do presente. Compreendemos aqui a memória como um local de entrecruzamento de espaços e tempos, e que, por meio dela nos tornamos sujeitos da experiência coletiva justamente pelo fato de ser vivenciada sempre na relação com os outros, e também individualmente, visto que cada fato é produtor de diferentes sentidos para os que os vivenciaram.

Salles Dounner: um livro para além das imagens Daive Cristiano Lopes de Freitas, Mestre em Educação pela UNESP - Rio Claro/SP Este artigo corresponde a dissertação “A Estética do Desamparo: Imagens e narrativas a contrapelo da História”72. Neste conheceremos os primeiros anos de vida do artista plástico e poeta francano Salles Dounner até a idade adulta e as experiências que foram relatadas pelo próprio ou por familiares e amigos. Este artigo funde um breve histórico do desenvolvimento da industrial calçadista de Franca com relatos dos entrevistados apresentando as experiências e fatos que marcaram a postura de Salles como o artista marginalizado que se apresentava. Também conheceremos o ciclo artístico de Salles Dounner em Franca em suas fases dos anos setenta, oitenta e início dos noventa. Neste trajeto percebemos um pouco da produção dos pintores que mais se destacaram localmente neste período e a importância de Salles nesse contexto. Por fim, conheceremos o livro Art-Nula - Desenhos do artista plástico e poeta francano Salles Dounner publicado em 1992. A partir deste livro, faremos uma leitura do pensamento do artista dialogando com alguns escritos de Suely Rolnik, autora de Geopolítica da cafetinagem, identificando em suas ilustrações a percepção da realidade social contemporânea.

A Formação de Professores para o Ensino da História Fábio Luiz da Silva – Doutor – Unopar/CapUEL Patrícia Marinoski – Graduanda em História - Unopar Palavras chaves: formação de professores; ensino de história; história local. Este texto apresenta algumas considerações iniciais sobre formação de professores de História realizadas a partir de informações coletadas durante a realização do projeto “Formação de 72

dissertação “A Estética do Desamparo: Imagens e narrativas a contrapelo da História” apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Biociências do Campus de Rio Claro, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Educação defendida em agosto de 2010.

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Professores no Ensino de História: Memória, História e Documento”. Trata-se de projeto de pesquisa coordenado por professores do curso de História da Universidade Norte do Paraná e tem como objetivo, analisar a formação do docente de História a partir do estudo dos condicionantes que determinam sua atuação e local de trabalho. O projeto conta com alunos de iniciação científica que, no caso deste texto, realizaram a pesquisa de campo.O curso de Licenciatura em História está entre os cursos oferecidos na modalidade Ead, pela Unopar. Foi criado em setembro de 2006 e teve sua primeira turma no ano seguinte. Atualmente, conta com aproximadamente 4800 alunos distribuídos em cerca de 40 polos presenciais situados em quase todos os estados brasileiros. Números como esses forçosamente levam à reflexão sobre a responsabilidade da instituição na formação inicial docente, pois a educação mediada por tecnologias de comunicação ainda é uma modalidade em constituição teórica e prática. Assim, considerando que a formação dos professores deve ser um dos objetos de estudo prioritários no universo das pesquisas sobre educação, espera-se que os resultados obtidos com as investigações sobre esse assunto possam contribuir para uma melhor formação dos professores e, necessariamente, para um avanço consistente na qualidade da própria educação. Um dos caminhos para a realização de estudos nessa direção passa pela colaboração mais estreita e produtiva entre a universidade e a escola. A necessidade de estreitar a distância entre a academia e a escola é mais evidente quando constatamos que a formação, na graduação, dos professores, muitas vezes, não é adequada. Diante dessa realidade, cabe à universidade realizar pesquisas que sejam realmente úteis aos professores que estão diariamente em sala de aula. Mais que isso, estudos como esse devem levar em conta as necessidades de cada região do nosso grande país, uma vez que em cada local existe uma memória histórica distinta que deve ser explorada pelos historiadores e analisada pelo professor, que também desempenha o papel de pesquisador no ambiente escolar. Neste sentido, o estudo das memórias locais como fonte para a construção do conhecimento histórico em sala de aula pode contribuir com o desenvolvimento das competências que os professores necessitam para se tornarem de fato, professores/pesquisadores da área de História. Desta forma, o estudo de cada localidade pode contribuir com a compreensão múltipla da história. Afinal, a história local permite a relação entre uma história mais geral e as micro histórias. Nesse espaço, o da história local, novos componentes sociais podem ser ouvidos e integrados à história. O professor poderá realizar o resgate de experiências individuais e coletivas que irão contribuir com a construção da consciência histórica dos alunos. A modalidade em ensino escolhida pela Unopar, ou seja, educação mediada por tecnologias de comunicação, proporciona condições muito vantajosas para estudos que considerem a diversidade social e cultural de nosso país. O dever de atender alunos que vivem em realidades diferentes, nos força a refletir sobre a formação docente e ensino de História a partir do ponto de vista das diversas experiências locais. Tendo em vista esses fundamentos, e com a finalidade de analisar a formação do docente de História a partir do estudo dos condicionantes que determinam sua atuação e local de trabalho, elaboramos um instrumento de pesquisa em forma de questionário que foi aplicado pelos alunos de iniciação científica de diversos polos. Esse texto procura, portanto, apresentar algumas das primeiras informações obtidas durante a pesquisa. Aqui, apresentamos resultados obtidos na cidade de Concórdia, estado de Santa Catarina. Neste polo, responderam 10 professores de História. No entanto, as questões que escolhemos para esta análise foram respondidas apenas por nove professores. A pergunta era: “Nas suas aulas que objetivos concentram o ensino?”. Em seguida eram apresentadas algumas frases que poderiam conter os objetivos do ensino de História. Para cada frase, havia quatro opções para que o professor escolhesse. Para o seguinte objetivo: “Que os alunos adquiram conhecimentos sobre os principais fatos históricos”, o resultados obtido foi: 55,6% responderam que esse é um objetivo que está muito presente em suas aulas e 44,4% responderam que esse é um objetivo A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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bastante presente em suas aulas. Uma primeira leitura nos leva a pensar sobre como esses professores escolhem os principais fatos históricos que pretendem ensinar aos alunos. O objetivo seguinte foi aquele que mais variação apresentou de respostas: “Que eles julguem moralmente os conhecimentos históricos de acordo com seus valores pessoais”. Neste caso, 44, 4% dos professores afirmaram que tal objetivo é bastante utilizado em suas aulas, 44, 4% indicaram que suas aulas apresentam pouco ou muito pouco desse objetivo e 11,2% responderam que tal objetivo apresenta-se muito em suas aulas de História. Parece-nos que esse objetivo causou alguma confusão no momento da leitura, o que é compreensível, dada a ambiguidade da pergunta. Afinal, o professor de História precisa evitar o anacronismo e ao mesmo tempo sabendo que toda história parte das preocupações presentes. O terceiro objetivo apresentado aos professores foi: “Que eles imaginem o passado, tomando em consideração vários pontos de vista”. Neste caso o resultado coletado indicou que este objetivo aparece bastante nas aulas de 55,6% dos professores e muito, nas aulas de 44,4% dos casos. As respostas podem ser animadoras, mas precisam ser melhor verificadas e comprovadas. Por fim, temos o último objetivo: “Que eles compreendam o comportamento no passado, reconstruindo os quadros da vida e pensamento do período em que essas pessoas viveram”. Aqui, de maneira semelhante à informação anterior, 100% dos professores afirmaram que esse é o objetivo presente muito ou bastante em suas aulas. Se levarmos em consideração o terceiro e quarto objetivos e compará-los ao segundo, podemos, talvez, perceber alguma contradição. Sem querer esgotar as análises possíveis, podemos concluir, temporariamente, que as respostas coletadas revelam a tensão existente entre a teoria e a prática do ensino de História. Conflito que as instituições de ensino superior têm o dever de minimizar.

A Implantação do Estado de Israel e gênese dos conflitos Israelo-Arabés na Palestina Luciano Kneip Zucchi ; graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul ,Mestrando em História Social da Universidade Estadual de Londrina, Orientador Sylvia Ewel Lenz, Doutora pela Universidade Federal Fluminense. Palavras-chave: Israel, Palestina, Sionismo. Nossa pesquisa trata de um tema que por toda metade do século XX tem sido manchete das noticias do meio de comunicação de todo mundo (e é sabido entrou no século XXI sem perspectiva clara de elucidação a curto prazo); “O Conflito Israelo-Arabé” surgido logo após a proclamação do Estado de Israel em 1948, com ensaios preliminares anteriores mas com a real deflagração quando nesse ano o mediador da ONU conde Bernadot é assassinado em Jerusalém por sionistas e os Britânicos boicotam o plano de partilha das nações unidas (rejeitado por todos os estados árabes) e se retiram deixando um vazio total.Enfatizamos que muito embora para opinião pública em geral esse conflito seja secular e tão difundida a versão do “ódio entre árabes e judeus” seja algo inerente a suas culturas (e opinião essa, que deveras equivocada, não raro tenho encontrado amparo religioso), sabemos que isso é uma inverdade e que tal ódio era inexistente e ambas culturas coexistiram na ampla maioria das vezes pacificamente por séculos, e tantas vezes trabalharam juntas como no califado de Córdoba na península Ibérica (dos Omíadas), onde muçulmanos, cristãos e judeus viveram juntos e construíram uma das mais avançadas civilizações da Idade Média. Objetivaremos demonstrar através de uma argumentação séria e comprometida e com dados, tanto quanto na análise da política internacional (ditada pela guerra fria e confronto velado Leste comunista versus oeste capitalista) que a gênese dos conflitos na palestina entre árabes e judeus está inserida dentro A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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um contexto global e tem como seu cerne interesses Imperialistas e também no bipolarismo surgido pós segunda guerra mundial, e não em rivalidade ou ódios seculares entre povos, muito embora esse discurso (o étnico/religioso) tenha conseguido inúmeras vezes mascarar a verdade. O ponto de partida de nossa análise partirá do inicio do movimento sionista na Europa (dos Pogrons), e sua evolução com vistas a todos os fatores condicionantes, até o ponto culminante deste com a formação do Estado de Israel (1948) pós segunda guerra mundial, e por conseguinte pós o genocídio nazista, configurando-se a proclamação como algo já previsto pela declaração Balfour de dois de novembro de 1917, que muito embora tenha se configurado numa solução de compromisso para o problema “anti semita” no continente europeu redundará entretanto e paradoxalmente num novo “estranhamento” e em novos conflitos, agora entre os judeus e árabes da região palestina (e de todo o Oriente Médio); As potências europèias nesse contexto deságuam uma contradição que é sua no mesmo movimento em que reiteram seus preconceitos transportando-os para o Oriente Médio.E também enfatizamos que basta um rápido mirar sobre a situação do Oriente Médio póssegunda guerra mundial, para ser perceber que um dos principais problemas originados com a criação do estado de Israel e a imediata guerra travada com os países árabes, foi o da população refugiada (750.000 na época). “Expulsos de suas terras, segundo os árabes, ou, instigados a partir por seus lideres, segundo Israelenses, ou quem sabe uma mescla de ambas as coisas, ou ainda outra. Seja como for seu ‘êxodo’ além de um fator de desestabilização para região como um todo (apesar de Israel ter sido beneficiado no inicio, pois assegurou a maioria judaica no novo estado), isso constitui uma questão de fundamental importância e imprescindível resolução para o mundo contemporâneo e para todos aqueles que ainda creem que o mundo sem barreiras advindas da causa absurda da “discriminação” étnica ou religiosa é possível”. E sem dúvida (e isso é percebido pelas potências ocidentais), quando ocorrer um grande e real acordo Israelo/Árabe de sinceras e inequívocas intenções será citando Isaac Akcelrud: “O sinal desencadeante de um imenso e generalizado movimento de libertação de todo o Oriente Médio”. Com as atuais rebeliões em países árabes no último ano redundando pelo menos por enquanto em quatro quedas de regimes ditatoriais, Tunísia, Egito, Líbia, Yemen (de vieses diversos claro!), podemos depreender que a frase de Akcelrud a mais de vinte anos atrás, que na época parecia deveras otimista demais, hoje não parece tão absurda, pois vemos que até em Israel a opinião pública em sua maioria não suporta mais o estado de guerra perpétua e anseia por uma paz duradoura e talvez agora (em minha opinião) a alternativa de estado único e democrático compartilhado por árabes e judeus e defendida pelo já saudoso Edward Said que já notara que a “Palestina Histórica” é hoje uma causa perdida, e também como Tony Judt diz: “isso vale também para a Israel histórica. De um jeito ou de outro, uma entidade institucional única, capaz de respeitar as duas comunidades, terá de emergir, embora o quando ou de que forma isso possa acontecer pareça obscuro”. Sou compelido a achar isso também à melhor solução, porém também considero o como de tal ocorrer uma incógnita.

Professores PDE de História retornando à sala de aula: o que mudou na prática escolar. Maria de Fátima da Cunha – Doutora em História (UEL). Palavras-chave: Professor PDE; Saberes Docente; Formação Continuada. Atualmente considera-se extremamente necessário repensar a respeito da formação e dos saberes dos professores e geral, e em especial na nossa área de história, e perceber como os mesmos acessam esses saberes em seu cotidiano. Assim, este projeto tem como objeto A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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investigar de que forma os professores que fazem parte do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) mobilizaram os saberes aos quais tiveram acesso durante o período em que faziam o PDE, quando retornaram para a sala de aula. Nossa atenção se volta particularmente para aqueles que ingressaram no ano de 2008, de Londrina e região, porque já participaram em momento anterior de uma outra pesquisa sob nossa coordenação. A respeito da discussão dos saberes docentes, vários autores como Ana Maria Monteiro, Tardif, Lessard e Lahaye, Perrenoud, Schön e Schilman, afirmam que, ao realizar o trabalho de análise do saber docente, destacam sua complexidade, demonstrando seu caráter plural. É interessante observar que eles buscam superar o modelo da racionalidade técnica chamando a atenção para a existência dos saberes da experiência, que não são para e sim da prática, aqueles que têm origem na prática cotidiana do professor em confronto com as condições da profissão. E é a partir destas preocupações que esta pesquisa vem sendo realizada tentando pensar a partir dos referenciais indicados "saberes docentes", como uma categoria que permite focalizar as relações dos professores com os saberes que dominam para poder ensinar. E ver também aqueles que ensinam, sob uma nova ótica, ou seja, mediadas por e criadoras de saberes práticos, que passam a ser considerados fundamentais para a configuração da identidade e competência profissionais, ou seja, não ver o professor apenas como um instrumento de transmissão de saberes produzidos por outros. Entendemos que é de fundamental importância investigar alguns resultados decorrentes da experiência do Programa PDE, para pensarmos de forma os professores fazem uso do contato que estabelecem mais intimamente com a universidade após, geralmente, um longo período de afastamento. Pois, como considera Victor Seal da Cunha, é em sala de aula que os desafios acontecem e conforme as dificuldades são apresentadas os professores recorrem ao seu repertório de saberes adquiridos em espaços diversos, como o da formação e do fazer docente, sem uma fidelidade a nenhuma determinada matriz teórica. Pois, a aula “tem que dar certo” dependendo do momento e da situação. Também percebemos através de alguns que ministramos aos professores uma angústia e decepção por parte dos mesmos com relação à formação que tiveram e o que enfrentaram posteriormente nas suas práticas. Pudemos constatar essas emoções nas falas dos professores que participaram de nossa pesquisa recém terminada, assim como a idéia de que é na prática que eles aprendem. E na maioria dos casos a persistência de um olhar de que é um trabalho solitário. Por outro lado, tais idéias dos professores de que se aprende de fato na prática, coadunam com as discussões realizadas por Elison Paim, quando afirma que é na prática de sala de aula que acontece o “fazer-se” do professor. formar alguém não é uma coisa definitiva e muito menos feita como se estivéssemos inseridos em uma linha de produção, embora tal idéia ainda prevaleça em muitos cursos de licenciatura. Ao contrário, o “fazer-se” professor implica uma ruptura com muito do que está instalado e vem sendo praticado ao longo da história da formação de professores. Tal idéia propõe que pensemos a partir das ruínas e não de forma determinista. Assim, segundo Paim, a formação de professores descortina-se como um imenso campo de possibilidades, em especial para pensarmos o profissional que sai da universidade com autonomia suficiente para que possa ser sujeito do processo educacional, percebendo-se como produtor de conhecimentos em conjunto com seus alunos. O que requer, por outro lado, levar em consideração as diferenças, especificidades e compreensão dos alunos como possuidores de saberes que precisam ser respeitados .

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Identidade e diversidade cultural na prática de ensino em história: problemáticas e perspectivas Melina Lima Pinotti Graduada em História-Licenciatura UFMS/CPNA Nas últimas décadas, sobretudo a partir de conquistas dos movimentos sociais que reivindicaram os direitos de negros e índios, iniciou-se uma discussão sobre a percepção da diversidade cultural que constitui o Brasil atual. Com os movimentos indígenas e de consciência negra, um forte olhar foi lançado para esses grupos por vezes esquecidos e não respeitados em seus direitos na sociedade. A diversidade cultural passou a ser, então, uma problemática que aos poucos vem sendo discutida com intensidade, seja nas academias, nas políticas públicas para juventude e nas políticas públicas educacionais, dentre outras. Nesse sentido, o presente trabalho visa apresentar as problemáticas e perspectivas no âmbito da disciplina História e, por extensão, no ambiente escolar, como um dos principais responsáveis por criar mecanismos que visem inserirem negros e índios no contexto social que lhes são de direito. Tais mecanismos podem ser atribuídos à prática de ensino que vise uma História fundamentada na Nova História Cultural, na Etno-História, entre outras, no objetivo de trabalhar com formas interdisciplinares, possibilitando novas abordagens que evitem exageros com a história dos heróis. Visando uma História que propicie ao aluno o reconhecimento de sua cultura e identidade ao estudar aspectos históricos das relações entre os homens e suas manifestações nas mais variadas expressões culturais. Palavras-chave: Identidade; Cultura; Ensino de História.

Cultura indígena e ensino de história: possibilidades de trabalho com a estratégia de projetos em uma perspectiva transversal Ricardo Fernandes Pátaro – Mestre em Educação – Unespar/Fecilcam Cristina Satiê de Oliveira Pátaro – Doutora em Educação – Unespar/Fecilcam Palavras-chave: Ensino de História. Cultura indígena. Transversalidade. O trabalho parte de dados coletados em pesquisa de Mestrado e tem como objetivo discutir alternativas no ensino de História com base na estratégia de projetos em uma perspectiva de transversalidade. A prática pedagógica em questão tem como foco o desenvolvimento de projetos de trabalho a partir de temática voltada para a formação ética, relacionada ao cotidiano, aos interesses e necessidades das crianças e da sociedade. Tal temática deve se articular aos conteúdos escolares, os quais são trabalhados de forma interdisciplinar e servem para auxiliar os estudantes na compreensão dos temas e das questões abordadas no projeto. Na perspectiva de transversalidade, os conteúdos escolares são vistos como meios para se discutir a temática transversal que compõe o foco do projeto e abrange questões relacionadas à formação ética e à cidadania.Ao analisar as possibilidades desta prática pedagógica, essa A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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comunicação visa discutir o ensino de História a partir de um projeto cuja temática abrangeu as diferenças culturais, com enfoque para a cultura indígena – em atendimento à Lei n° 11.645, que prevê a inserção da história e cultura afro-brasileira e indígena no currículo.Compreendese o estudo da História enquanto possibilidade de formação da consciência histórica e de compreensão da vida dos seres humanos e das sociedades, ao recuperar e analisar os significados das experiências humanas no tempo. Quanto ao ensino de História, busca-se alternativas para o modelo tradicional e positivista que vem, há muito, caracterizando a disciplina de História. A concepção que embasa o presente trabalho orienta a seleção dos conteúdos da disciplina de História, os quais deixam de enfatizar apenas os eventos políticos e os “heróis” de uma “história oficial” e passam a englobar o cotidiano dos indivíduos e grupos, bem como as representações simbólicas construídas nos diferentes momentos históricos, permeadas pela cultura. Essa concepção incide, ao mesmo tempo, na diversidade de recursos metodológicos e de fontes históricas que passam a ser consideradas para a produção historiográfica e para o ensino, atentando-se para a relevância de tais materiais como elementos que influenciam os processos de subjetivação e a construção das identidades. Nesse sentido, a utilização de diversas fontes e recursos metodológicos no ensino de História visa favorecer o desenvolvimento da consciência histórica, a aproximação dos estudantes com os métodos de trabalho do historiador e o desenvolvimento da autonomia para a leitura crítica da sociedade.Ressalta-se, ainda, as relações entre a formação da consciência histórica e a constituição da noção de identidade, buscando-se estabelecer relações entre as identidades individuais, sociais e coletivas. Nesse movimento, a problematização acerca das diferenças culturais – neste trabalho representada pelas relações entre as culturas indígenas e nãoindígenas – torna-se fundamental, na medida em que possibilita a reflexão acerca de diferenças e semelhanças na relação com o outro, bem como das mudanças e permanências que permeiam as lutas, as tensões sociais, as relações de tolerância/intolerância, os processos de ocupação do espaço, as relações econômicas e de trabalho, dentre outros.No presente trabalho, são analisadas atividades desenvolvidas em sala de aula, que partiram de problemáticas trazidas pelos estudantes, visando a reflexão sobre as diferenças culturais e a abordagem de eixos temáticos da disciplina de História. O projeto foi desenvolvido junto a crianças do 4º ano do Ensino Fundamental, em uma escola da rede particular localizada no município de Campinas – SP. Destaca-se, dentre as atividades desenvolvidas: a realização de pesquisas a respeito da chegada dos portugueses ao território que hoje constitui o Brasil; a busca por documentos, livros, jornais e revistas com informações sobre a vida cotidiana dos povos indígenas no Brasil; a produção de textos evidenciando as mudanças resultantes do contato entre os povos; o debate a partir de materiais que expressam diferentes pontos de vista envolvidos na situação conflituosa estudada; o contato pessoal com comunidades de descendentes diretos de diferentes etnias indígenas, entre outras. A partir da análise das atividades realizadas, os resultados apontam que a estratégia de projetos pautada na transversalidade possibilita a problematização e compreensão de questões voltadas para a cultura indígena articuladas ao ensino de História. A prática em questão possibilitou a compreensão não apenas de mudanças e permanências nos costumes e cultura indígena ao longo da história, mas também das semelhanças e diferenças entre a cultura indígena e o cotidiano dos estudantes. Tendo em vista a temática transversal (diferenças culturais), os conteúdos da disciplina de História possibilitaram a valorização da cultura indígena – apresentada, inclusive, a partir dos próprios sujeitos indígenas –, a compreensão dos processos de luta e resistência desses povos, o questionamento e a reflexão de preconceitos, fomentando um olhar para os índios de “carne e osso”. Nesse sentido, o trabalho contribuiu para a compreensão de que a história dos povos indígenas não se prende apenas ao passado – em uma perspectiva romântica e idealizada associada ao período da colonização brasileira –, mas está também no presente, nos índios e nos povos que, até a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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atualidade, mantêm traços culturais que permaneceram mesmo após o contato com as culturas não-indígenas. Quando a vida parece novela: memórias de mulheres das camadas populares Tânia Maria Gomes da Silva – Doutora/história – Faculdade Metropolitana de Maringá Palavra-chave: história oral; memória; vida cotidiana Este artigo aborda a história de vida de duas mulheres de baixo poder econômico e cultural, moradoras de Mandaguari, pequena cidade do norte do Paraná. Os depoimentos colhidos versaram especialmente sobre a conjugalidade, a infância, as estratégias de enfrentamento da pobreza, o cuidado com os filhos, as redes de solidariedade com parentes e vizinhos. Originalmente, parte de uma tese de doutorado em História e que contou com a participação de vinte entrevistadas. A pesquisa etnográfica nos colocou diante de experiências de vida muito intensas e que, no dizer delas próprias, “dariam uma novela”. O trabalho aqui apresentado faz um recorte privilegiando os depoimentos de duas dessas mulheres, ficticiamente chamadas de Teresa e Neuza. A ideia é, através da análise dessas memórias individuais, perceber as práticas de resistências e adaptações aos valores e costumes com que estas mulheres defrontam no grupo social a que pertencem, bem como as diferentes estratégias de enfrentamento da pobreza. ST 06 - CULTURA E LETRAS NO BRASIL E PORTUGAL (SÉCULOS XVIII E XIX) O ofício de secretário e a escrita de cartas na administração do império luso-brasileiro Adriana Angelita da Conceição Pós-doutorado – UNICAMP Palavras-chave: Secretário – Cartas – Império Luso-Brasileiro

No século XVI o escritor espanhol Antonio de Torquemada, que também exerceu o ofício de secretário, escreveu uma importante obra intitulada Manual de Escribientes, destinada a ensinar a prática de escrita de cartas. Ao apresentar as qualidades indispensáveis de um secretário, sublinhou que este deveria ser “como una arca en que se encierran los secretos del señor a quien sirve”, sendo que a condição de guardião dos segredos de seu senhor foi enfatizada por basicamente todas as obras modernas que se dispuseram a tratar da relação entre o ensino da prática de escrita de cartas e o ofício de secretário. Neste sentido, com as grandes navegações e, consequentemente, com os governos ultramarinos, a prática de escrita de cartas passou a ser responsável pela manutenção da administração entre as diferentes partes dos impérios. Com isso, tivemos a emergência de construções discursivas que se dedicaram a pensar a política envolvida pela escrita, oferecendo aos secretários normas e formas para o domínio do discurso epistolar. Assim, estes manuais tinham um público-alvo, conforme destacou o importante historiador da Cultura Escrita, Antonio Castillo Goméz, “os membros de uma comunidade mais restrita composta fundamentalmente por secretários, burocratas, profissionais da escritura e, em geral, os representantes da sociedade de corte, onde mais efetiva podia ser sua funcionalidade retórica e social” (GOMÉZ, 1998, p. 32). De acordo com Pedro Cardim, o domínio das práticas de escrita se converteu em uma competência indispensável às ações de governo, especialmente, para as ações empreendidas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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no ultramar (2002, p. 291). A carta inserida no contexto luso-brasileiro do século XVIII, não representava unicamente o meio técnico responsável pela troca de informações entre metrópole e colônia – na escrita estava a representação e manifestação do poder. Na idade moderna o ofício de secretário se vinculava intrinsecamente a arte de governar, envolvendo preocupações com o registro da memória do governo e com o bem governar. Neste trabalho, iremos considerar que os manuais de secretário foram importantes instrumentos para o ensino da arte de compor cartas. Estes guias, entre suas distintas funções, pretendiam regularizar o ensino e aprendizado da escrita, destacando os intentos de uma civilidade controlada por normas e valores de corte que se preocupavam com as maneiras pelas quais os governadores deveriam representar-se e conter-se diante do outro. Os secretários encaixavam-se em um tipo de mentalidade burocratizada e intimamente ligada ao poder da escrita, já que a prática epistolar era uma peça chave da administração ultramarina. O secretário, ao possuir o domínio da palavra falada e dos segredos, era visto como um dos principais serventes de um senhor. Assim, como estudo de caso, nos propomos a pensar a relação do ofício de secretário com os administradores ultramarinos, estudando, especificamente, a presença dos secretários no governo e na escrita de D. Luís de Almeida, mais conhecido como 2º marquês do Lavradio. Em 1769, D. Luís de Almeida chegou ao Brasil para ser governador da capitania da Bahia e passado um ano e alguns meses deixou esta para se tornar vice-rei do Brasil, deslocando-se para o Rio de Janeiro. Ao chegar ao vice-reino, escreveu muitas cartas públicas e particulares para noticiar suas impressões da nova função. Uma das escritas foi enviada ao secretário João Pires de Carvalho e Albuquerque, nela desabafou “naõ hé crivel a falta q me fa | zem os meus estimaveis Secretarios q deixei no Gover | no da B.a todos os dias o publico asim, ainda que | a algumas pessoas custe o ouvirem estas verdades |”. (BR_AN_C_1095_f 156v). Em outro momento, o vice-rei, diante de suas inúmeras atribuições, ao escrever a um dos seus genros, destacou: "Meu filho e S.r muito da minha veneraçaõ naõ me sendo || possivel o escrever a v. de maõ propria continuo aproveitarme | da liberd.e q v. me deu de poder escreverlhe por Secretr.o o q. | faço pedindolhe me dé a estimavel Serteza de boas novas suas | q me devem sempre o maior interesse |" (BR_AN_C_1095_f 216 e 216v). Com estas duas passagens, podemos visualizar diferentes sociabilidades que perpassavam as relações estabelecidas entre os governadores ultramarinos e seus secretários. Portanto, como o ofício de secretário aparece na escrita de D. Luís de Almeida? O marquês do Lavradio durante seu governo produziu um valioso acervo epistolar e para conciliar o exercício de governar com a escrita, contou com alguns secretários de governo e particulares. Contudo, este texto tem como objetivo refletir, através das missivas de D. Luís de Almeida, em torno do ofício de secretário e o poder da escrita de cartas na administração do império luso-brasileiro no século XVIII. Simpósios temáticos:

Para formar homens capazes de “discernimento e de percepção”: reformas educacionais em Portugal (segunda metade do século XVIII) Antonio Cesar de Almeida Santos – Doutor em História – Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (DEHIS/UFPR) Palavras-chave: Pombalismo; Reformas educacionais; Administração Considerando o conjunto das reformas educacionais ocorridas durante o reinado de D. José I (1750-1777), alguns estudiosos do período, como Joaquim Veríssimo Serrão, afirmam que o A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Marquês de Pombal entendia a educação como “um meio de valorizar as estruturas sociais e mentais do Reino” (p. 144). Para esta avaliação, são considerados, além da elaboração dos novos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772) e da reforma geral nos “Estudos das Letras Humanas, nestes Reinos e todos os seus domínios”, ocorrida a partir do Alvará de 28 de junho de 1759, a criação do Real Colégio de Nobres e, ainda, o funcionamento da Aula de Comércio (1759), esta com a finalidade de formar pessoal familiarizado com a escrita fiscal e outras atividades concernentes à atividade mercantil, como conversões de pesos e medidas. A preocupação com a formação de novas “estruturas mentais” também é percebida pela atividade editorial, muitas vezes anunciada como sendo patrocinada pelo próprio soberano. Nesse sentido, em julho de 1766, o então Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Mello, ocupando o cargo de secretário de estado dos negócios do reino, enviou ao governador da capitania de São Paulo, D. Luís Antonio Botelho de Souza Mourão, “alguns exemplares da Instrução dos Ofícios de Cícero”, com a finalidade de “V. Sa. aí formar alguns Homens que sejam Capazes de discernimento e de percepção” (AHU. Códice 423. Carta de 22 de julho de 1766). Ainda conforme a carta que acompanhava os mencionados livros, eles haviam sido impressos sob ordem de D. José I, que os “mandou estampar para a educação da Nobreza do Seu Real Colégio desta Corte”. Como sabemos, o Real Colégio de Nobres, criado por carta régia de 07 de março de 1761, tinha o objetivo de preparar os filhos da nobreza do reino para a ocupação de cargos na administração do estado português. Não obstante a menção aos “Ofícios de Cícero”, entende-se que Carvalho e Mello estava fazendo referência ao livro “Ostres livros de Cicero sobre as obrigações civis, traduzidos em lingua portugueza para uso do Real Collegio de Nobres”. Trata-se de uma tradução realizada pelo italiano Miguel Antonio Ciera, que havia sido contratado como professor de matemática do Colégio de Nobres. Ciera não verteu os “Ofícios” diretamente do latim, mas de uma versão italiana produzida por Giácomo Facciolati, tomando-a como “a mais correta”. De certo, não se trata de fazermos uma crítica à tradução produzida pelo matemático italiano, mas sim de procurarmos afirmar a importância de se oferecer a jovens nobres portugueses uma obra entendida como essencial à formação desses mesmos jovens. Aliás, em 1777, o intelectual espanhol Manuel Blanco Valbuena publicou, em Madri, uma tradução dos Ofícios de Cícero. Esse professor de poética e de retórica do Real Seminário de Nobres da corte espanhola, afirmava que “entre todos los libros que nos quedan de los antiguos, apenas se poderá señalar outro más útil para enseñanza de los jóvenes que se dedican al estúdio de la lengua latina, que este de los Ofícios de Ciceron, asi por la propriedad y elegancia de su estilo, como por la doctrina que enseña de las obligacionaes que contituyen á los hombres buenos ciudadanos” (nosso destaque).Entendemos que essa preocupação em “ensinar as obrigações que constituem um homem em um bom cidadão” foi a mesma que incitou a tradução dessa obra latina na língua portuguesa, especialmente se considerarmos que Os Ofícios é obra reconhecida como “o tratado moral mais importante de Cícero” (SKINNER, 2010, p. 14). Para a moral ciceroneana a principal virtude constituía-se na honestidade, de maneira que os sujeitos deviam sempre conduzirem-se “da maneira mais virtuosa possível” (idem, p. 53). Em especial, as pessoas que ocupassem posições de autoridade deveriam evitar qualquer desvio de conduta. Nesse sentido, Skinner registra que, desde a Renascença, verifica-se a busca por uma educação “verdadeiramente humana”, a qual ofereceria “o melhor preparo para a vida política” e despertaria, em cada um, os valores necessários “para bem servir o nosso país: a disposição de subordinar os interesses privados ao bem publico; o desejo de combater a corrupção e a tirania; a ambição de buscar os mais nobres fins entre todos: a honra e a glória não só pessoais, mas de todo o país” (idem, p. 13). Especificamente no que se refere ao caso português, a formação de “bons cidadãos”, adotando o termo utilizado por Valbuena, foi um objetivo buscado por Carvalho e Mello, e esta disposição pode ser percebida naquilo que designamos por “mecanismo político A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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pombalino” (ver SANTOS, 2010 e 2011), o qual deriva, em grande medida, de proposições originadas em textos de William Petty (1623-1687) e Charles Davenant (1656–1714). Nesse sentido, é especialmente significativa a presença de uma tradução em português de um livro de Charles Davenant dentre as diversas obras trazidas desde Londres para Lisboa, por Carvalho e Mello, quando do término de sua estada na corte londrina a serviço da secretaria de estado dos negócios estrangeiros (1738-1744), no reinado de D. João V. Em “Observação sobre os methodos prováveis de fazer a huma nação lucroza no ballanço do Commercio” [An Essay upon the probable means of making a People gainers in the Ballance of Trade (1699)], um dos objetos de atenção de Davenant era justamente considerar “que um Pais não pode crecer em riqueza e poder senão fazendo os homens particulares seus deveres ao publico e por hum inteiro curso de honestidade e sciencia naquelles em cujos se repoz a administração dos negócios” (BNP. Coleção Pombalina. Códice 168, p. 71).Assim, em linhas gerais, pretende-se abordar alguns dos mecanismos utilizados, durante o reinado de D. José I, para a formação de homens capazes de “discernimento e de percepção” e que pudessem, como “homens particulares”, cuidar dos “negócios públicos”. Percebe-se, nesse sentido, que a formação de “bons cidadãos” estava associada à utilidade pública e à conduta moral, aspectos que serão abrangidos pelas reformas educacionais daquele período. Referências bibliográficas ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO (Portugal). Códice 423; carta de 22 de julho de 1766, ms. Bibliografía hispano-latina clásica (Catulo-Cicerón). Edición preparada por Enrique Sánchez Reyes. Alicante : Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2008. [Edición digital a partir de Edición nacional de las obras completas de Menéndez Pelayo. Vol. 45, Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1952. Disponível em http://www.cervantesvirtual.com/obra/bibliografia-hispanolatina-clasica-catulociceron--0/. Acesso em 10/02/2011] BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL. Coleção Pombalina. Códice 168, pp. 71-240, ms. CÍCERO, Marcus Túlio. Los Oficios de Ciceron, con los dialogos de la Vejez, de la Amistad, las Paradojas, y el Sueno de Escipion, traducidos por Don Manuel de Valbuena, de las Reales Academias Latina-Madrilense, y Espanhola. Tercera Edicion. Madrid : Imprenta Real, 1818. CÍCERO. Ostres livros de Cicero sobre as obrigações civis / traduzidos em lingua portugueza para uso do Real Collegio de Nobres. Lisboa : Oficina de Miguel Menescal da Costa, 1766. [cópia digital – Biblioteca Nacional Digital – disponível em http://purl.pt/6476/2/; acesso em 15/06/2011]. Livro dos Ofícios de Marcus Tullio Ciceram, o qual tornou em linguagem o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra (edição crítica, segundo o ms. de Madrid, prefaciada, anotada e acompanhada de glossário, por Joseph M. Piel). Coimbra : Universidade de Coimbra, 1948. SANTOS, Antonio Cesar de Almeida . O mecanismo político pombalino e o povoamento da América portuguesa na segunda metade do século XVIII. Revista de História Regional, v. 15(1), p. 78-107, 2010. SANTOS, Antonio Cesar de Almeida . Pombal e a política econômica portuguesa na segunda metade do setecentos. Anais do V Congresso Internacional de História. Maringá : Editora da UEM, 2011, v. 1, p. 2797-2805. [DOI: 10.4025/5cih.pphuem.1901]. SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Marquês de Pombal : o homem, o diplomata e o estadista. 2.ed. Lisboa : s/e. 1987. SKINNER, Quentin. Maquiavel. Porto Alegre : L&PM, 2010. SKINNER, Quentin. Visões da política : sobre os métodos históricos. Algés: Difel, 2005.

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Feitiçaria, leitura e esforço editorial em Portugal no século XVIII. Cláudio DeNipoti Doutor em História Professor associado - UEPG Palavras chave: livros, tradução, Iluminismo português Dois livros sobre feitiçaria foram traduzidos e publicados em Portugal, na segunda metade do século XVIII. O tradutor foi o vice reitor do Colégio dos Nobres, José Dias Pereira. Os livros eram a Defeza de Cecilia Faragó, que foi publicado pela primeira vez em 1771, e a Arte Mágica Aniquilada, publicado em 1783.73 Em si, esses fatos não deixam o historiador em alerta, uma vez que a segunda metade do século XVIII é profícua em traduções e publicações sobre a mais ampla gama de assuntos que se possa imaginar, desde os princípios daquilo que hoje conhecemos como ciência, até sólidas correntes literárias da tradição ocidental. Porém, a singularidade reside no fato de que esses livros foram os dois principais libelos italianos de meados do século XVIII a combaterem a existência de feitiçaria. Essas duas obras são peças em um amplo debate europeu sobre a existência da bruxaria e da feitiçaria, que envolveu diversos nomes do pensamento ilustrado, mas também operou como um elemento de definição identitária das camadas ilustradas da sociedade, como o judiciário e o parlamento ingleses e o clero anglicano, que, a partir do fim do século XVII, adotaram uma atitude cada vez mais cética com relação à existência da feitiçaria. De fato, a última execução inglesa por feitiçaria foi em 1684 e o último indiciamento, em 1717. Verificou-se, portanto, um "gradual processo de descolamento eclesiástico e judicial das preocupações populares com problemas da feitiçaria. O medo da feitiçaria que outrora unira o povo e o estado, crescentemente tornou-se uma preocupação exclusivamente popular".74 Neste conjunto de práticas (sobre livros e leitura), os livros sobre feitiçaria, traduzidos por José Dias Pereira surgem como obras que buscar resumir o conhecimento científico sobre os fenômenos “mágicos” com o intuito de combater a própria crença na magia. Inseridas em um debate em torno do redimensionamento na crença nos fenômenos da magia e da feitiçaria, essas obras alinham-se com outras, principalmente entre os pensadores do Iluminismo ibérico, como aquelas do monge beneditino Benito Jerónimo Feijóo. Em seu esforço por "entronizar o newtonianismo como o pensamento filosófico dominante"75 na Espanha, ele declarou guerra às falsas possessões "apresentando-se como um denunciante das falsas crenças" numa guerra entre duas forças conflitantes: "a luz da razão versus o crepúsculo da superstição ou ainda o bem comum contra os interesses pessoais de certos indivíduos que capitalizavam na ingenuidade excessiva da maioria das pessoas".76 À mesma época, na Itália, o debate sobre a existência ou não de magia, feitiçaria ou bruxaria, envolveu os principais intelectuais italianos, inclusive Giuseppe Corini Corio com sue Politica, 73

PEREIRA, José Dias. Traducção da defeza de Cecilia Faragó, accusada do crime de feitiçaria : obra útil para desabusar as pesoas preoccupadas da arte magica, e os seus pretendidos effeitos Off. Manuel Coelho Amado, 1775; _____. A arte magica anniquilada do marques Francisco Scipaō Maffeo, traduzida da lingua Italiana na Portugueza. Accresce huma nova prefaçaō, que escrivia o traductor. Publicado por Na officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1783. 74 DAVIES, Owen . Withccraft, magic and culture, 1736-1951. Manchester: Manchester University Press, 1999, p. 79. 75 ISRAEL, Jonathan I. Radical Enlightenment; Phylosophy and the making of modernity. Oxford: Oxford University Press, 2001, P. 534. 76 TAUSIET, Maria. From Illusion to disenchantment: Feijoo versus the 'falsely possessed' in eighteenthcentury Spain In: DAVIES, Owen & DE BLÉCOURT, Willen, eds. Beyond the witch trials. Witchcraft and magic in Enlightenment Europe. Manchester: Manchester University Press, 2004, p. 45-48.

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diritto e religione, publicado em 1742, Ludovico Antonio Muratori, com Della forza della fantasia umana , de 1745, Girolano Tartarotti e seu Del congresso notturno delle Lammie de 1749, e finalmente, Scipione Maffei – muito mais conhecido hoje por ter sido o primeiro descritor do piano moderno - com os dois títulos sobre o tema publicados entre 1749 e 1754: L'arte magica dileguata, e L'arte magica annichilata.77 Inclue-se ai também a defesa que Giuseppe Rafaelli fez de Cecilia Farago, meeira italiana acusada de feitiçaria em 1769. A tradução desses livros por José Dias Pereira, ainda que inscrita no contexto de um iluminismo católico português que visava "combater a ignorância e a superstição [...] com relação à feitiçaria" a partir dos exemplos do iluminismo italiano,78 é também, como dito acima, parte do esforço pombalino de inserir sua prática política no contexto da palavra impressa como parte de empreendimentos de poder, visando marcar claramente o que deve ser lembrado e esquecido com relação à religião e à ciência em geral.79O caso, através da obra de Rafaelli, teve repercussão fora da Itália, como exemplifica a notícia dada, já em 1772 no Journal politique, ou Gazette des gazettes, também conhecido por Journal de Bouillon, dirigido por Jacques Renéaume de La Tache (que também foi autor de Observations physiques et morales sur l'instinct des animaux, publicado em 1770 em Amsterdam). L'année dernière, une femme appellée Cecilia Farago, fut accussée de magie par la veuve Victoire Rosseti, qui imputoit à ses maléfices la mort de son fils unique Don Antonio Ferraiuolo. L'Auditeur d'Elia reçut ses plaintes & ses depositions; il ne douta point de la possibilité du fait; il le jugea même très grave, parceque le mort étioit Prètre. Son procès verbal & toutes les procédures qui en furent la suite, n'offroient que des irrégularités. Un crime absurte, imaginé & cru par l'ignorance, faillit à conduire au bûcher une femme innocente. Le Roi heureussement ordonna la revision de ce procès ridicule, & il vient de justifier Cecilia Farago; il lui accorde les réparations & les dédomagemens qui lui font dus aprés une affaire criminelle injustement intentée, qui l'a exposée à des pertes considérables, & qui lui a fait subir une prison longue, rigoureuse, & acccompagnée des inquiétudes les plus vives sur son sort; il lui permet de prendre á partie ses accusateuers, de vérifier les motifs de leur conduite, & de les poursuivre a son tour au criminel, s'il y a lieu."80 Em 1775, o processo foi mencionado também no volume 5 do Neueste Religionsgeschichte, do teólogo alemão Christian Wilhelm Franz Walch como exemplo de uso indevido da crença no diabo. A repercussão foi duradoura, pois, em 1817, José Hipólito da Costa enalteceu, nas páginas do Correio Brasiliense, o mero fato das traduções portuguesas de Arte mágica Aniquilada e da Defesa de Cecilia Farago estarem disponíveis à venda, anunciados nas gazetas do Rio de Janeiro. Para ele, "O simples offerecimento destas obras á venda publica nos mostra, que no Brazil ha patriotas assas entendidos, para conhecerem a importância de desabusar o povo; elliminando os erros comuns em mateiras desta natureza; e que tendem a embrutecer o espirito humano." Outros autores acharam necessário continuar o esforço de esclarecimento sobre o mundo sobrenatural, referenciando o debate do século XVIII. Em 1820, Manoel Borges Carneiro em seu Portugal Regenerado retomou o tema da feitiçaria na sua Parábola 4, "A magia e mais superstições desmascaradas". Após considerar que os "delírios [de que] é capaz o juízo humano, quando jaz nas trevas da ignorância" geram o medo que, por sua vez, produz a superstição "a qual, supplantando o bom senso, a boa razão, e a Filosofia, se torna origem fecunda de erros, illusões, e fantasmas de uma imaginação esquentada que converte tudo o que toca em lobishomens, bruxas, demonios e almas de outro mundo", Borges Carneiro lembrou da obra de Maffei como um dos exemplos 77

CASABURI, Mario. La “fattuchiera” Cecilia Farago._L'ultimo processo di stregoneria e l'appassionata memoria di Giuseppe Raffaeli. Messina: Rubbertino, 1996. p. 9-11. 78 SOUZA, Evergton Sales. The Catholic Enligtenment in Portugal. In: LEHNER, Ulrich & PRINTY, Michael, eds. A companion to the Catholic Enlightenment in Europe. Leiden: Brill, 2010, p. 378. 79 TAVARES, Lembrar, esquecer, censurar... 80 Journal politique, ou Gazette des gazettes (1771). Lutton, 1772, p. 31.

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de autores que tentaram escrever sobre "as desgraças que a humanidade tem sofrido em consequencia da credulidade sobre a magia" ainda que não mencionasse o processo de Cecília Farago.81As traduções portuguesas tiveram um percurso relativamente curto, pois a Defesa... foi publicada, em primeira edição, em 1775, na oficina tipográfica de Manoel Coelho Amado, com 78 páginas e novamente em 1783, impressa pela Academia de Ciências, numa edição de 149 páginas, ao passo que a Arte Mágica só teve a edição de 1783, impressa na "officina de Simão Thaddeo Ferreira".O tradutor, por sua vez, era um presbítero secular, poeta bissexto, que participou da Arcádia82 e, pela posição que ocupava na estrutura de poder pombalina, estas traduções podem ser entendidas como o desempenho de uma missão oficial. Isso nos permite pensar neste empreendimento editorial como parte de um processo de domesticação da Inquisição portuguesa, cujo objetivo era acabar com a crença na feitiçaria e dirigir a atuação da Inquisição para crimes políticos e comportamentais dos sacerdotes. Esse tipo de uso que Pombal faz do livro caracteriza um modus operandi que pode ser observado em várias das suas ações político-administrativas, como exemplificou Rui Tavares em seu texto sobre as ações da Real Mesa Censória.83 Leituras e Viagens nos Brasis: Apropriações das obras dos naturalistas luso-brasileiros setecentistas pelos viajantes oitocentistas Daniela Casoni Moscato Mestre em História Cultural pela Unesp – Assis, SEED e bolsista CAPES/UAB Palavras chaves: Império português, nação e leitura. O século XIX, no Brasil, pode ser compreendido como um terreno profícuo para contendas e análises historiográficas. Tal período apresentou um espaço privilegiado de expressões, divulgações e informações acerca da nação e nacionalidade brasileira, enfim, uma gama de discussões que moldou um debate nacionalista objetivando delimitar, construir e caracterizar a nação brasileira. A busca do caráter nacional tinha o objetivo precípuo de atribuir um sentido histórico à sociedade brasileira.Tal tarefa acabou sendo realizada, principalmente, por intelectuais da época que tiveram o papel de definir os traços de nossa nação e nacionalidade. Esses intelectuais contaram com apoio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro(geralmente eram membros ativos do IHGB) que ampliou esse projeto de escrita da história nacional e, por meio de relatos de viajantes, crônicas, documentação inquisitorial, adentrou em um trabalho de “descobertas nacionalistas”, fornecendo possibilidades de estudos e análises nesse processo de caracterização histórico-nacional. Podemos afirmar que os relatos de viagem influenciaram diretamente nessa construção da nação no XIX e, especificamente, os realizados por viajantes estrangeiros. Um pequeno levantamento de trabalhos historiográficos dedicados ao Brasil Império já aponta a valorização e – em muitas análises - canonização dos relatos de conhecidos viajantes como Saint-Hilaire, Spix e Martius e Wilhelm Ludwig von Eschwege . Acredita-se, até hoje, que eles aqui chegaram e encontraram uma tábula rasa de conhecimento do território e por meio da observação da natureza e da sociedade fundaram uma ideia de Brasil.

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CARNEIRO, Manoel Borges. Portugal Regenerado. Parábola 4, "A magia e mais superstições desmascaradas". Lisboa: Typografia Lacerdina, 1820, p. 12. 82 MORATO, Francisco Manuel Trigoso de Aragão, Memórias de Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, começadas a escrever por ele mesmo em princípios de Janeiro de 1824 e terminadas em 15 de Julho de 1835, revistas e coordenadas por Ernesto de Campos de Andrada, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933. 83 TAVARES, Rui. Lembrar, esquecer, censurar. Estud. av. vol.13 no.37 São Paulo Sept./Dec. 1999.

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Posto desta forma, a historiografia clássica brasileira excluiu um outro grupo de viajantes que antecipou caminhos, pesquisas, observações e lugares tão visitados pela geração do oitocentos: os naturalistas luso-brasileiros que, após realizarem seus estudos na Universidade de Coimbra e participarem do Iluminismo lusitano, percorreram o território português na América. Tais colonos viajantes, retornavam ao Brasil aptos a conhecerem a natureza e a comunidade que aqui viviam e, como agentes do Império, produziram uma vasta documentação que era encaminhada -muitas vezes acompanhada de exemplos de espécimes da fauna e flora da Colônia – aos órgãos fundados após a reforma Pompalina como é o caso da Academia Real das Ciências de Lisboa. Entre eles podemos destacar: Francisco José de Lacerda e Almeida, José da Silva Feijó e José Vieira Couto. Mas qual a relação entre essas duas gerações de viajantes, além do mesmos locais e da busca do conhecimento de um vasto território? Da mesma forma que a historiografia clássica excluiu o grupo lusitano acima referido, definiu os viajantes do oitocentos como os primeiros observadores da natureza e sociedade brasileira e, em nenhum momento, enquanto leitores de relatos e pesquisas anteriores que colaboraram com seus escritos e ideário de nação no XIX. Em uma rápida leitura da obra “Pluto Brasiliensis; memórias sobre as riquezas do Brasil em ouro, diamantes e outros minerais v.2” de Wilhelm Ludwig von Eschwege identificamos – além da citações de seus colegas de geração - a menção de alguns naturalistas luso-brasileiros com destaque a José Vieira Couto. Dito isto, este Simpósio tem como objetivo apresentar algumas impressões de uma possibilidade de análise dessas gerações por meio de fragmentos de leituras dos viajantes do século XIX sobre as obras de naturalistas luso-brasileiros que escreveram acerca da América portuguesa em meados do século XVIII e início do XIX. Tal apreensão permitirá, a partir dos instrumentos teóricos desenvolvidos pela História da Leitura, o acesso aos padrões culturais do grupo oitocentista que, além de observadores e inventores de “Brasis” também foram leitores. De Manuel do Cenáculo, Bispo de Beja para o desembargador Antonio Ribeiro dos Santos: a correspondência entre dois entusiastas do livro Jamaira Jurich Pillati graduada em História – UEPG Palavras-chave: História do Livro; Portugal; século XVIII. Quando se trata de aspectos culturais fortalecidos no século XVIII, a organização de bibliotecas, Academias de “Sciencias”, música e literatura foi um fenômeno comum aos reinos europeus afoitos por ostentar o legado e as práticas de cultura de suas majestades e sua corte. Dessa forma, para que estas instituições fossem alimentadas e levassem a grandiosidade cultural que os anos das luzes pedia a um reino - assim como o desenvolvimento da técnica das diferentes áreas, promovendo o crescimento científico pelo bem de um já buscado crescimento econômico - era necessário que as doações fossem constantes. Não ficando esta prática reclusa á realeza, reforçou-se a importante figura, que já havia sido de suma importância para o desenvolvimento do Renascimento, a do mecenas, financiador e defensor do desenvolvimento cultural da época. Em um momento em que o Iluminismo deu margem as grandes obras, sejam de manifestação de ideais políticos ou das Ciências Naturais, o desejo era que os reinos – e até suas colônias, como no caso de Portugal – fossem permeados pela razão e a técnica, desde que não ultrapassassem o limite dos domínios políticos de seus monarcas, como no claro exemplo português. Ainda no século XIV, relata-se a preocupação dos monarcas com a educação das crianças e, pouco mais tarde, com a recuperação da história do reino, fez A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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com livros fossem reunidos na corte. Afonso V (1438-1481) foi quem se deu conta da importância de dispor as obras aos estudiosos, originando a conhecia Livraria Real. Com a dominação espanhola, que perdurou até 1640, muitas obras foram levadas e a biblioteca real deixada sem importância. Foi em meados dos setecentos, época de riquezas da colônia e paz por certa hegemonia portuguesa, que d. João V passa a investir verdadeira mente em uma biblioteca real. D. João teve uma imagem dividida entre o rei de exacerbação religiosa, glutão, colecionador de amantes e desinteressado da política, retratado em crônicas do tempo, e o rei que adorava os livros na juventude e o rei “Magnânimo” da cultura, como ficou conhecido.Não só a Livraria Real, como as bibliotecas de academias, conventos e ordens religiosas, tiverem grande crescimento naquela época. Com a morte de d. João V, em 1750, d. José I veio a substituí-lo, um novo rei não parecia ser um grande interessado político e cultural, independente disso, a biblioteca já estava bem alocada e administrada, mesmo assim não poderíamos saber seu futuro nas mãos do novo rei, em 1755 o grande terremoto que destruiu quase toda a cidade, que seguido de um incêndio, consumiu rapidamente não só todos os livros como o prédio.Após a destruição da capital do país era necessário se reconstruir o país, em todos os sentidos. Neste momento um ministro do rei d. José I, Sebastião José de Carvalho e Mello teria papel fundamental nas futuras políticas de Estado em Portugal, tamanha importância que se tornaria em 1759, Conde de Oieras, e em 1769 Marquês de Pombal. O ministro do rei tomou uma política de centralização de poder nas mãos do monarca, e realizou diversas reformas administrativas, cercando-se daqueles em quem confiava. Dentre importantes figuras intelectuais responsáveis pela organização de instituições educacionais e culturais deste momento da história do Reino de Portugal, encontram-se Frei D. Manuel do Cenáculo - Bispo de Beja e Arcebispo de Évora, que integrou a Real Mesa Censória do reino e integrante da reforma educacional do Marquês - e Antonio Ribeiro dos Santos – que organizou bibliotecas de várias instituições, incluindo a Real Biblioteca Pública da Corte. Esses dois humanistas tiveram grande participação no cenário intelectual que aflorou na segunda metade do século XVIII em Portugal, principalmente no que se diz a respeito da formação de bibliotecas e seu funcionamento. A proposta de trabalho trata da relação de Beja e Antonio Ribeiro com uma História do Livro e da Leitura em Portugal. Através do estudo de um códice que arquiva a troca de correspondência entre os dois, pretende-se uma análise da relação de ambos com o mercado livreiro e sua importância na constituição de espaços de conhecimento, sua importância como públicos e como foram compostos em meio a um ideal de progresso do Reino de Portugal, através das letras e das luzes. Algumas considerações sobre Moçambique na literatura de viagens da segunda metade do século XVIII

José Roberto Braga Portella Doutor em História Departamento de História – Universidade Federal do Paraná Palavras-chave: literatura de viagens – iluminismo – Moçambique

No que concerne à escrita sobre as colônias, durante os séculos XVI e XVII desenvolveu-se no Império Português do Oriente uma modalidade específica de descrição. O Império Oriental caracterizou-se por uma proliferação de feitorias ancoradas em fracas bases territoriais, compondo uma espécie de arquipélago composto pelas muitas “pérolas” da coroa. A tal configuração corresponde uma forma quase colecionista de conceber e relatar o Império, que A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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aparece tanto nos textos como nos muitos álbuns de representações iconográficas de cidades, fortalezas e feitorias. Pode-se especular se essa configuração não seria mesmo determinada pela conformação territorial do Império Oriental. Dependendo do autor e seu objetivo, enfatiza-se um aspecto. Ora são as rendas da coroa, ora os cargos públicos disponíveis, ora as riquezas, ora as igrejas, ora os direitos e privilégios. Assim, a descrição desse universo era um desfiar das contas de um rosário, outra imagem possível para esta modalidade de descrição.No século XVIII os relatos de viagem já constituíam um campo editorial próprio, com um público leitor bastante interessado. A proliferação de inúmeras compilações de narrativas de viagens comprova o prestígio dessa literatura, que cumpria um papel importante para as elites intelectuais, ao ser utilizada como fonte de informações sobre o universo além-mar, compensando de algum modo a falta de contato direto com esses espaços e povos.Num contexto em que a coroa portuguesa tenta estruturar a sua administração para inverter o acentuado ritmo de decacência econômica de Moçambique e procura expandir os limites de sua soberania torna-se indispensável conhecer, com alguma propriedade, os espaços, tanto os já dominados, como os vizinhos. É a hora e a vez dos chamados Diários de Viagens Philosophicas, Descripções, Memmórias, Memoriais, Cartas, Notícias e Relações, os quais são motivados principalmente por demandas do estado central. Quando não são escritos sob encomenda esses textos são provocados por um desejo do autor em “mostrar serviço”, ou ainda como forma de cair nas graças de algum patrono a quem são dedicados. Outras vezes, eles estão voltados ao mundo acadêmico e produzidos especificamente com o objetivo de serem veiculados nos “periódicos científicos” da época, publicados principalmente nas Memmórias da Academia das Sciencias de Lisboa. Para Fernando Cristóvão, a literatura de viagens seria constituída pelo conjunto de textos que buscam na viagem uma identificação especial. Tal concepção é bastante próxima da defendida por Joaquín Rubio Tovar, para quem “es el viaje y lo que éste conlleva (el encuentro com un medio extraño, la información histórica, política o geográfica de los territorios que se recorren, la aventura, etc.) lo que da su último sentido al escrito”. Com o acréscimo da noção de “contraste (outra forma de deslocação)”, Cristóvão concebe a viagem como “deslocação, percurso mais ou menos longo”. Com isto amplia-se significativamente o terreno dos possíveis discursivos contemplados pela designação de literatura de viagens. Desse modo, pertencem a esse território não só o conjunto dos “textos documentais ou literários que à viagem (por mar, terra, ar ou percursos imaginários) vai buscar uma identificação especial”, mas também o que “por ocasião da viagem” venha a testemunhar aquilo que se considerou “digno de ser registado: a descrição da terra, dos usos e costumes dos seus habitantes, das situações históricas e antropológicas, que, por contraste (...) com as origens dos viajantes, forma um texto homogéneo e participa da mesma intencionalidade”.Tzvetan Todorov integra a noção de literatura de viagens num complexo ato de conhecimento, tendo como eixo de estruturação a viagem, do qual se produziria “narrativas de viagens”, descrições da natureza ou dos homens, poesia ou relatos de aventuras. As viagens de descoberta permitiriam explorar o desconhecido, enquanto nas de regresso se operaria a reaproximação com o familiar. De qualquer modo, sem depender em exclusivo, da existência anterior de uma viagem real a partir da qual o gênero se definiria, a idéia de uma literatura de viagens adotada traduziria uma concepção eclética. A denominação literatura de viagens integraria -, muito mais do que a compartimentação de designações exclusivamente temáticas ou ideologicamente marcadas -, todas as manifestações discursivas que a viagem, direta ou indiretamente, proporcionou ou possibilitou.Esse aspecto abrangente não anula a coexistência com o espectro de certo desencanto e de alguma dúvida relativamente ao seu caráter de verdade. Dúvida que assegura, afinal, a emergência de um meio de apropriação do real cada vez mais específico: a literatura que se reclama produtora de um real contíguo à realidade contatada. Ou seja, no caso da construção de Moçambique enquanto território em termos tanto administrativos como discursivos. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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A viagem foi um tema constante no imaginário dos cientistas do século XVIII. Ela viabiliza um dos pressupostos do conhecimento ilustrado: tendo por destino a natureza selvagem e intocada, apresenta o mundo natural destituído de qualquer simbologia relacionada às antigas formas de pensar, com as quais o movimento se debatia; proporciona o contato direto, mediado pela experiência, entre o sujeito do conhecimento e o seu objeto, assim como adota como referenciais a observação e a reflexão racional.Ao descreverem a natureza colonial em suas viagens científicas, os europeus em geral e os portugueses em particular, sempre a exaltaram e a viram como bela e rica em recursos naturais. Ela era uma natureza “paradisíaca”, que estava criada, e agora caberia ao homem transformá-la em seu benefício próprio.A ciência tinha como função social resolver problemas. A utilidade era a vértebra da própria concepção de ciência. O conhecimento científico encontrava-se ao serviço do homem, da sociedade. Para os cientistas e demais indivíduos influenciados pelo pensamento iluminista, a ciência era prática, aplicada, deveria ajudar a resolver os males que imperavam na sociedade. A prolixa difusão de conhecimentos científicos deve ser entendida como um verdadeiro receituário para enfrentar os problemas cotidianos. A sua função era semear ideias úteis pela sua sociedade.Ao propor que a ciência deveria gerar utilidades à sociedade, contribuindo para solucionar os problemas que nela existiam, acreditava-se que os nossos personagens partilhavam da utopia do pensamento ilustrado de que o conhecimento científico contribuía para o aperfeiçoamento das sociedades, tornando-as melhores e perfeitas.A crença na razão, como a única forma de se alcançar o verdadeiro conhecimento; a observação e a experimentação, como os elementos chaves do “fazer ciência”; a busca do domínio e conhecimento da natureza; a preocupação com a verdade científica e a afirmação da ciência útil são as características presentes no pensamento de nossos personagens e que nos permite integrá-los ao clima de opinião pública típico da Ilustração.

Panacéia da dor: o espaço social português e os preceitos reformadores da “Geração Nova” de 1870. Lucélia Rodrigues de Oliveira Mestranda do PPGHS/UEL Orientadora: Célia Regina da Silveira Palavras-Chave: Portugal, Intelectuais, Anticlericalismo. O trabalho em questão busca perscrutar os termos e os valores pertinentes ao entrave religioso e anticlerical ocorrido em Portugal na segunda metade do século XIX. Pautado na ferocidade das palavras impressas em jornais, romances e periódicos da época e no número elevado de fatos e acontecimentos que alimentavam os discursos, o convulcionismo entre a igreja católica e o “militantismo” laico acabaram por constituir um dos pontos nodais em que mais acentuadamente se concentraram as contradições que estiveram no espaço social e ideológico da sociedade portuguesa em fins do XIX. Pagamento de indulgências, privilégios, confissão, dogmas, celibato; todos estes termos por serem considerados próprios e fundamentais á igreja tornan-se alvo da crítica anticlerical de figuras de renome da época como o poeta Guerra Junqueiro, exímio representante da geração de intelectuais portugueses de 1870 e que, fazendo coro à “classe laica” acusava padres, bispos, sacerdotes e todos os seus de pregarem uma visão de mundo e uma moral anacrônica, que atravancava os ideais de progresso e impedia as transformações sociais. Ao publicar seu poema intitulado A Velhice do Padre Eterno, Junqueiro traz a lume uma série de 50 poemas, segundo ele “50 balas que partindo de todos os pontos, vão todas bater no mesmo alvo”; expondo de forma severa as A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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práticas e nuances considerados comuns no cerne da igreja católica da época. Na segunda metade do oitocentos, a sociedade européia vive os reconhecidos efeitos da Revolução Industrial e do amplo progresso científico e tecnológico que a acompanha. Também é significativo, neste período, o surgimento de novas correntes científicas e filosóficas, como o Positivismo de Comte, o Determinismo de Taine, a teoria de Seleção Natural de Darwin, entre outras. Assim, o que se visualiza na época, além dos termos de uma fermentação políticosocial, é uma “onda” de cientificismo e materialismo que configura não somente um novo contexto sociopolítico e científico como também uma alteração nos modos de vida de homens e mulheres. No entanto, no espaço da sociedade portuguesa estes aspectos não se faziam sentir de forma linear, aliás, da segunda metade do século XVIII até fins do XIX, Portugal vivenciou problemas tangentes que iam desde uma “pobreza concisa” proveniente de doutrinações econômicas e tentativas (quase sempre mal sucedidas) de industrialização; até anseios de renovação política e cultural; dificuldades latentes de uma sociedade “predominantemente rural” e que se mostrou pouco apta a seguir os caminhos “inovadores e civilizacionais” em voga. Segundo críticos coevos, a situação econômica e política de Portugal poderia ser entendida como a soma dos “fracassos” e das “derrotas” oriundos de movimentos como a Regeneração e o Fontismo; com as dívidas contraídas ao estrangeiro mais precisamente com a Inglaterra, feitas para pagar os investimentos em infra-estruturas; com as “confabulações políticas” que dominavam as instituições - principalmente a Igreja Católica além do predomínio da mentalidade rural sobre a urbana; do abarrotamento das cidades e da indústria moderna “mal desenvolvida”. Nestes termos a campanha laica que se constituiu em meados da década de 1870, impulsionada em grande parte pela “classe intelectual” da época e ai se destacam escritores, poetas, jornalistas, jovens acadêmicos, entre outros - se punha a contestar e a pensar formas mais “viáveis e justas” de transformação da grei portuguesa. Utilizando-se dos recursos que tinham a disposição - como jornais e periódicos - para apresentar suas ideias; buscavam “sanar” os males que a muito assolavam a nação, e que, quase sempre dificultavam qualquer tentativa de aproximação com “os ares desenvoltos” que provinham do restante da Europa. E essa manifestação crítica promovida pela vertente contrária aos valores institucionais promovidos pela Igreja católica e a realidade econômicosocial pouco satisfatória; tem os momentos altos de sua atuação condicionados por conjunturas de crise política e social e que, “aportando” no cerne da sociedade portuguesa ainda que de forma não literal - tem por finalidade denunciar os “malefícios” civilizacionais e de conduta que o clero católico estaria a provocar enquanto agente educativo, assistencial e religioso. Heranças de histórias? A posse de livros nos inventários post mortem de castro, entre 1800 e 1870. Luciana Cristina Pinto (Mestranda UFPR) Orientador: Dr. Antônio Cesar de Almeida Santos (UFPR) Palavras-chave: Paraná, manuscritos, posse de livros. Nossa fonte principal de estudo são as informações que trazem os inventários post mortem e testamentos anexados em parte deles, redigidos na cidade de Castro (PR), entre 1800 e 1870. A investigação dos documentos fornecerá o objeto mais específico dentro da nossa proposta, que são os registros dos livros neles inventariados, possibilitando uma pesquisa na área da História Cultural. A análise da documentação seguirá o seguinte procedimento: a. Apreender as características da cidade de Castro no século XIX, para situar a sociedade em estudo; A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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b. Identificar os possíveis proprietários de livros no período e região considerados; c. Traçar um perfil destes proprietários, considerando o universo sociocultural no qual estavam inseridos; d. Apreender qual era, afinal, a posição ocupada por este objeto (o livro) no interior da sociedade de Castro (e brasileira). É necessário compreender as fontes em seu contexto; mas antes, devemos compor um quadro geral de informações sobre o que significava possuir livros no século XIX num contexto mais amplo. Como esta pesquisa está em andamento, o percurso da dissertação organiza-se da seguinte forma: a. Objetivo: compreender os hábitos culturais da sociedade de Castro no século XIX, a partir de informações contidas em inventários post mortem, especificamente aqueles que apresentam livros como bens arrolados. b. Problemática: apreender o que a posse destes objetos (livros) significava no interior daquela sociedade. c. Metodologia: com referência ao italiano Carlo Ginzburg84, considerar a possibilidade de utilização de um método indiciário; a partir dos nomes próprios indicados nos inventários, coletar pistas da presença dos envolvidos no tecido social da cidade de Castro, (em outros documentos além dos inventários) para saber quem eram aqueles possuidores de livros. Em relação ao objeto livro, entendemos que, ao determinar a posição social dos seus possuidores, será possível inferir sobre seu valor para aquela sociedade.A história da leitura vem sendo estudada por muitos pesquisadores em todo o mundo, com vários enfoques analisados; mas a maioria destes investigadores segue um objetivo comum, de capturar, metaforicamente falando, os leitores do passado. Assim, a proposta deste projeto de pesquisa é também investigar o livro e o leitor no passado, a partir dos registros de livros avaliados em inventários post mortem do século XIX, arquivados no Fórum da Comarca de Castro (PR), e que constituem nossa principal fonte e objeto de estudo. Há que considerarmos, em nossa busca, as diferenças dos hábitos culturais e mesmo sociais que envolviam a leitura em tal contexto. O historiador Roger Chartier chama nossa atenção para uma história da leitura que nos escapa no tempo e no espaço, uma leitura que era diferente da nossa.Uma história da leitura não deve, pois, limitar-se à genealogia única da nossa maneira contemporânea de ler em silêncio e com os olhos. Ela tem, também e sobretudo, a tarefa de encontrar os gestos esquecidos, os hábitos desaparecidos. Essa iniciativa é muito importante, pois revela, além da distante estranheza de práticas antigamente comuns, estruturas específicas de textos compostos para usos que não são mais os mesmos dos leitores de hoje.85 Outro trabalho importante que abordou o tema da leitura é o artigo Diferentes formas de ler de Márcia Abreu:No século XVIII e início do XIX, o conceito de leitura parece confundir-se com a fala e a audição, podendo prescindir da habilidade de decifração dos sinais gráficos de que se compõe a escrita. Se entre intelectuais o processo de ouvir ler fazia parte das formas de sociabilidade, parecendo coisa comum, qual não seria o poder de divulgação dos escritos entre os não letrados? Por meio da leitura oral, iletrados também poderiam entrar em contato com conteúdos registrados por escrito (...) durante a primeira metade do século XIX a leitura oral era uma das formas de mobilização cultural e política dos meios urbanos e dos operários.86A 84

GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico. In: GINZBURG, Carlo. MicroHistória e outros Ensaios. Lisboa: Difel, 1989. 85 CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. p. 17. 86 ABREU, Márcia. Diferentes formas de ler. Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/Marcia/marcia.htm. Acesso em: 11 jan. 2008. Nota n° 1 do texto:

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partir das informações de Chartier e Abreu começamos a “reconstituir” um cenário de história da leitura no século XIX, pois precisamos, de certa maneira, adentrar nesse contexto cultural, para investigar os possuidores de livros que moravam em Castro (PR) entre 1800 e 1870. Sabemos que, durante esse período, a leitura oral de textos, comum às pessoas bem instruídas, funcionava como espaço de sociabilidade e, aos menos instruídos, como acesso à informação contida nos textos.87Torna-se necessário compreender parte da longa trajetória da leitura, que sofre transformações desde a forma dos livros, o suporte da leitura e consequentemente, nas maneiras de ler:Os gestos mudam segundo os tempos e lugares, os objetos lidos e as razões de ler. Novas atitudes são inventadas, outras se extinguem. Do rolo antigo ao códex medieval, do livro impresso ao texto eletrônico, várias rupturas maiores dividem a longa história das maneiras de ler.88Buscamos, portanto, uma visão mais clara do universo dos envolvidos nos inventários post mortem, universo esse que traz uma prática de leitura específica, gestos sócio-culturais específicos; investigar os gestos esquecidos89, eis a tarefa do historiador, como alertou Chartier.Falando mais especificamente dos nossos inventários, eles estão em bom estado de conservação, o que facilita seu manuseio; mas torna-se importante explicar que alguns fragmentos desses inventários foram transcritos por pessoas do Museu do Tropeiro em Castro. Estas transcrições apresentam o cabeçalho, os envolvidos e a avaliação dos bens. Tal esforço segue no sentido de disponibilizar ao pesquisador as informações sobre os inventários, facilitando, de certa forma, o acesso e a leitura dos mesmos; pois não existe uma sala para pesquisa no Fórum e a caligrafia dos documentos exige tempo por parte do pesquisador para lê-los.Nosso objetivo é trabalhar diretamente com as fontes primárias, mas as transcrições nos auxiliaram num primeiro momento, pois nos informaram que livros foram avaliados em certos inventários. Para sermos mais exatos, a equipe do Museu realizou o levantamento de inventários entre 1800 e 1870, período em que delimitamos, por uma questão metodológica, nosso recorte temporal. A partir desses dados, nossa pesquisa torna-se possível, porque juntamente com as fontes, a bibliografia levantada e o contato com o Museu do Tropeiro, que conserva boa parte da história local e de seus habitantes no século XIX, encontraremos pistas dos proprietários de livros na região de Castro. Contudo, nosso objetivo nesta pesquisa é compreender os hábitos culturais da sociedade de Castro no século XIX, a partir de informações contidas em inventários post mortem, especificamente aqueles que apresentam livros como bens arrolados.A opção metodológica por estudarmos, o período que segue entre 1800 e 1870, apóia-se em dois momentos: primeiro na informação que tivemos no Museu do Tropeiro em Castro, de que livros foram avaliados em inventários neste período. Depois recebemos uma lista com fragmentos de inventários já transcritos, que apresentavam livros como herança. Em segundo lugar, para ter acesso aos documentos originais foi necessário pedir autorização ao Juiz de Direito da Vara Cível da Comarca de Castro: José Eduardo de Mello Leitão Salmon, que em janeiro de 2008 aceitou nosso pedido. No ofício redigido ao senhor Juiz precisávamos especificar que período iríamos investigar, e assim delimitamos o recorte já levantado pelo Museu (1800 – 1870).Nossa pesquisa concentra-se em um determinado período da história do Brasil, em que a historiografia registrou muitos acontecimentos. Obviamente seria impossível relatar todos esses acontecimentos, mas é de suma importância para a compreensão do leitor discutirmos, de maneira breve, o contexto do final do século XVIII e início do XIX, para situarmos no tempo e no espaço nosso objeto de pesquisa. No Brasil do período analisado: “Originalmente apresentado na Mesa-redonda Práticas de Leituras: história e modalidades, no XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Intercom, Campo Grande, 2001.” 87 CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. p. 16, 17. 88 CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 77. 89 CHARTIER, Roger. A ordem dos livros... p. 17.

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Alguns fatos significativos balisaram as transformações do mundo ocidental, a partir de meados do século XVIII. Em 1776, as colônias inglesas da América do Norte proclamaram sua independência. A partir de 1789, a Revolução Francesa pôs fim ao Antigo Regime na França, o que repercutiu em toda a Europa, inclusive pela força das armas. (...) O mundo colonial é afetado também por outro fator importante: a tendência a limitar ou a extinguir a escravidão, manifestada pelas maiores potências da época, ou seja, a Inglaterra e a França. É comum ligarse essa tendência ao interesse britânico em ampliar mercados consumidores, a partir da vantagem obtida sobre os concorrentes com a Revolução Industrial.90Com relação ao estado do Paraná, é preciso inseri-lo num debate mais amplo com a história do Brasil, porque sabemos a priori que não existe uma história do Paraná “desligada” de uma história do Brasil. O contexto vivido nos Campos Gerais de fins do século XVIII e início do XIX é reflexo do que estava acontecendo no mundo: Todo e qualquer viajante, comerciante ou aventureiro que se dirigisse por terra de São Paulo para o extremo sul do país, nos finais do século XVIII e nos inícios do século XIX, deveria atravessar as terras da Comarca de Castro, alcançando o bairro de Ponta Grossa, que se constituía, à época, num local obrigatório de passagem, ligada que estava ao Caminho do Viamão.91Segundo as autoras, “desde o século XVIII, 1730, o Caminho do Viamão cumpre a finalidade de ligar São Paulo ao extremo Sul”.92 Wachowicz complementa os argumentos das autoras acima: No início do século XIX, esta sociedade campeira que nasceu paulista, transformou-se em paranaense e recebeu forte influência riograndense. Nesta época, já estava integrada social, política e economicamente aos núcleos que formariam o Paraná. Apesar dessa integração, as populações não latifundiárias dos Campos Gerais eram relativamente pobres. Em 1820, as casas de Castro eram de pau a pique. Na Lapa, as primeiras casas de alvenaria surgiram em 1824. Mas em 1844, algumas casas de Palmeira, Ponta Grossa e Castro já eram de pedra e cal.93Acreditamos, entretanto, que uma história do livro abrangendo o período entre 1800 e 1870, com documentos ainda não utilizados para pesquisa historiográfica e, com uma base teórico-metodológica nos auxiliando, será possível, sim, trazermos para discussão o que guardam aqueles manuscritos raros que se encontram em Castro.Sabemos perfeitamente que muito antes de serem proprietários de livros nos documentos de Castro, aqueles homens tinham sua vida pessoal, social e profissional; que viviam no estado do Paraná, num Brasil do século XIX. O que propomos, nesse aspecto, é investigar esse cotidiano de outrora, que nos dará subsídios para compreender as práticas de leitura do nosso estado, estudar os envolvidos nos inventários e, principalmente, divulgar nossa fonte de pesquisa. Convém explicar que esses inventários são inéditos para a pesquisa historiográfica; eles foram manuseados apenas pelo pessoal que organizou/catalogou os mesmos. No período de nosso recorte temporal (1800 até 1870) foram levantados pelo Museu do Tropeiro aproximadamente 801 inventários post mortem, dentre os quais 11 apresentam livros como herança, como mostra a tabela abaixo: PERÍODO

N° DE INVENTÁRIOS DE ANO LIVROS

1800 - 1810

3 Inventários

1806, 1809, 1810

1811 - 1820

1 Inventário

1811

90

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004. p. 108. PINTO, Elizabete Alves; GONÇALVES, Maria Aparecida Cezar. Ponta Grossa – um século de vida (1823-1923). Ponta Grossa: Kugler Artes Gráficas Ltda., 1983. p. 17. 92 Idem. p. 17. 93 WACHOWICZ, Ruy Christowam. História do Paraná. Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. p. 79. 91

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PERÍODO

N° DE INVENTÁRIOS DE ANO LIVROS

1821 - 1830

1 Inventário

1829

1831 - 1840

2 Inventários

1832, 1836

1841 - 1850

1 Inventário

1841

1851 - 1860

1 Inventário

1856

1861 - 1870

2 Inventários

1864, 1866

Assim, de um total de aproximadamente 801 documentos, apenas 11 apresentam livros no arrolamento dos bens. Contudo, o fato da documentação chegar até nós de forma intacta e recheada de informações, de pistas sobre a população da cidade Castro, já nos parece bastante positivo; além disso os oito inventários representam, de certa maneira, a circulação de livros e seu papel como legado para as gerações futuras, ou seja, os herdeiros envolvidos nos autos de inventários. Além disso, não podemos negar o frenesi que nos provocam aqueles manuscritos; alguns deles foram escritos há mais de duzentos anos por homens em seu contexto específico. Quem eram esses homens? Como se relacionavam? Quem possuía livros? As perguntas são muitas e a inquietação maior ainda, pois nunca saberemos ao certo as respostas.Contudo, no que concerne ao método desta pesquisa, com referência ao italiano Carlo Ginzburg94, considerar a possibilidade de utilização de um método indiciário; a partir dos nomes próprios indicados nos inventários, coletar pistas da presença dos envolvidos no tecido social da cidade de Castro, (em outros documentos além dos inventários) para saber quem eram aqueles possuidores de livros. Em relação ao objeto livro, entendemos que, ao determinar a posição social dos seus possuidores, será possível inferir sobre seu valor para aquela sociedade. Com uma leitura prévia do inventário de Joaquim Teixeira Cardoso Pimentel, datado de 1866, “vemos” um homem de muitas posses, com um armazém de secos e molhados, escravos, terras, e a interessante relação de livros, que apresenta: 1 livro de Lei das Terras, avaliado em 4$000, 1 livro da Guarda Nacional, avaliado em 2$000, e 1 livro Advogado do Povo, avaliado em 3$000. A proposta deste subitem é comparar, observando no arrolamento de bens, os extremos sociais presentes na documentação, ou seja, a vida abastada de Joaquim Pimentel com a vida humilde de “Pedro de Tal, francês” (inventário de 1856). Não aparece o sobrenome desse indivíduo que possuía, dentre poucas coisas, 2 dicionários em francês avaliados em 2#000, 5 livros dominicanos avaliados em 4#000, 2 livros de metalógica avaliados em 3#000 e 2 manuais avaliados em 1#000; teve seus bens leiloados, por não haver herdeiros. Retomando certos aspectos já apresentados anteriormente, pretendemos refletir/discutir hipóteses sobre a problemática analisada, ou seja, tentar identificar o significado do livro para a sociedade de Castro naquele período. Essa análise dependerá de situarmos qual camada social predominava em tal região, a partir dos pertences arrolados nos inventários. Com isso, será importante situar no tempo e no espaço nossos proprietários, para saber em que meio circulavam os livros arrolados na documentação.Curiosamente, no contexto da morte, muitos queriam quitar suas dívidas, nomear seus credores, seus filhos (legítimos ou não), e enfim, manifestar seus interesses em testamento. Compreendendo que todos os bens deixados pelo morto são heranças, e que podem representar certa forma de redenção diante da morte, neste subitem discutiremos as especificidades dos inventários e testamentos que dispomos como fontes de pesquisa; afinal, são documentos diferentes, produzidos por pessoas diversas em contextos 94

GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico. In: GINZBURG, Carlo. MicroHistória e outros Ensaios. Lisboa: Difel, 1989.

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diferenciados. Temos também como objetivo analisar os testamentos anexados a inventários (num total de onze inventários, quatro deles apresentam testamentos). Torna-se importante saber o que os testamentos dizem sobre a problemática levantada nessa pesquisa: apreender o que a posse de livros significava no interior da sociedade de Castro. Um interessante estudo sobre testamentos é a obra “A morte como testemunho de vida”, de Júnia Ferreira Furtado onde a autora ressalta a pertinência de se problematizar estes documentos.A partir da compreensão de parte dos hábitos culturais dos habitantes da região de Castro, apontaremos hipóteses sobre a problemática da pesquisa. Assim, ao conhecer mais sobre os possuidores de livros, poderemos mapear parte do universo cultural dos oitocentos, especialmente daquela região do Estado do Paraná. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, Márcia. Diferentes formas de ler. Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/Marcia/marcia.htm. Acesso em: 11 jan. 2008. Nota n° 1 do texto: “Originalmente apresentado na Mesa-redonda Práticas de Leituras: história e modalidades, no XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Intercom, Campo Grande, 2001.” CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. ______. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora UNESP, 1999. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004. GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico. In: GINZBURG, Carlo. Micro-História e outros Ensaios. Lisboa: Difel, 1989. PINTO, Elizabete Alves; GONÇALVES, Maria Aparecida Cezar. Ponta Grossa – um século de vida (1823-1923). Ponta Grossa: Kugler Artes Gráficas Ltda., 1983. WACHOWICZ, Ruy Christowam. História do Paraná. Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. O Iluminismo Português e a Independência do Brasil: a implantação da intrução pública no Brasil em seu processo de emancipação política (1808-1831) Taíse Ferreira da Conceição Nishikawa Mestre em História Social Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)

Palavras-Chave: Reformismo Português – Independência - Instrução O reformismo ilustrado luso brasileiro é demarcado pelo atraso econômico e isolamento cultural de Portugal. O esforço da manutenção da política econômica mercantilista e da monarquia absolutista, o que inclui a continuidade da união de Portugal com suas colônias, são características exclusivas do Estado Português nos anos que antecedem a emancipação do Brasil. Estes fatores são decisivos para a história de Portugal e, através deles, entendemos os rumos do pensamento crítico, a profundidade das reformas e os desdobramentos posteriores na metrópole e na colônia. Neste contexto de organização das políticas econômicas e administrativas do Império português, ocorre a instalação da corte portuguesa na cidade do Rio de Janeiro, e com isso reproduz-se toda a estrutura política e administrativa do Estado Português no Reino do Brasil. Segue-se, de acordo com o plano da ilustração portuguesa, a criação de cursos e de instituições para a “instrução da mocidade”, responsáveis pela formação dos quadros administrativos do Império. Todas estas ações no campo político e A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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administrativo do Império Luso Brasileiro inauguram um novo processo para a formação do Estado Brasileiro. O princípio da unidade sempre esteve presente nas discussões das cortes, em ambas as partes do hemisfério. Porém os encadeamentos políticos com relação à formação do império Luso Brasileiro, acabaram por afastar cada vez mais o Brasil de Portugal. Havia o sentimento de união entre os dois reinos, porém os grupos se articulavam em torno do príncipe regente como o “Defensor Perpétuo do Brasil”, exigindo a sua presença e a reciprocidade política entre os dois reinos. A ruptura da unidade luso brasileira aparecia como decorrência da atitude das Cortes Constitucionais que pretendiam fundar o seu poder na ignorância dos povos, com a ressalva do desejo de permanência dos vínculos fraternos com Portugal.Este projeto de pesquisa é o desdobramento da análise iniciada na graduação em História e no mestrado em História e Sociedade. Durante o tempo em que foram desenvolvidas as atividades do mestrado, houve a reflexão da problemática do reformismo ilustrado português e sua influência nas decisões governamentais entre os anos de 1822 e 1831. Mas temos o objetivo de aprofundar estes questionamentos para compreender quais eram as idéias e ideais que configuraram os discursos e as atitudes governamentais. Neste sentido o primeiro reinado e a instrução pública deste período continuam como alvos desta pesquisa. Mas agora lançamos à pesquisa o desafio de compreender todo o período que a historiografia clássica tratou como uma fase importante, porém transitória, que culminou com a emancipação política do Brasil. Neste sentido encontramos fôlego para trabalhar a partir de 1808, data da Vinda da Corte para o Brasil até 183, momento em que o Imperador do Brasil abdica o trono em favor de seu filho D. Pedro II.Desde a transferência da família real, ocorrida em 1808, de Portugal para seus domínios coloniais no continente americano, observamos a incidência de leis, decretos, cartas, alvarás e decisões de governo, direcionados para a questão educacional. Cursos, arquivos, bibliotecas, cadeiras de ensino, faculdades, são implementados no decorrer dos anos, tendo em vista os “benefícios aos habitantes das províncias”, com o objetivo de “imprimir na mocidade os primeiros conhecimentos.”95Evento articulado e planejado pelos políticos ilustrados da época, a fim de conseguir proteger as maiores riquezas de Portugal, juntamente com a defesa de sua coroa, a transferência da corte para a colônia no continente americano, correspondeu a mais uma das atitudes que demonstram a articulação das políticas ilustradas de Portugal para a emergência de um Poderoso Império no Novo Mundo. De acordo com as práticas reformistas empregadas a partir do século XVIII, que dentre elas, as reformas da administração portuguesa frente aos seus domínios coloniais, ficam acertadas as políticas de arregimentação dos laços entre as colônias e a metrópole, através do projeto de reestruturação do Reino Português.96O reformismo ilustrado luso brasileiro é demarcado pelo atraso econômico e isolamento cultural de Portugal. O esforço da 95

BRASIL. Decisão de Governo de 18 de fevereiro de 1808: Manda criar uma Escola de Cirurgia no Hospital Real da Cidade da Bahia. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891. P. 2. BRASIL. Decreto de 1 de abril de 1813: Aprova o plano dos Estudos de Cirurgia no Hospital de Misericórdia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1890. P.8.BRASIL. Decreto de 23 de fevereiro de 1808: Cria na cidade do Rio de Janeiro uma cadeira de Ciência Econômica. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1891. P.2. BRASIL. Marinha. Decisão de Governo de 05 de maio de 1808: Manda estabelecer a Real Academia de Guardas Marinhas no Convento de São Bento. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891. BRASIL. Carta lei de 4 de dezembro de 1810: Cria uma Academia Real Militar na Corte do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891. 96 A mudança da corte portuguesa para uma de suas mais “ricas possessões”, não foi uma solução pensada por acaso. Nas situações em que a coroa portuguesa se vê pressionada pelos poderes externos e mais fortes é recorrente a opinião do refúgio para uma de suas colônias. Destacam-se os fatos que acompanharam o momento de fragilidade do reino português como em 1580, com a invasão da Espanha e a conseqüente união dos dois reinos; Com a guerra de restauração no período de 1640-1668; No reinado de D. João V em 1707-1750; Enfim, constatamos que em todas estas ocasiões em que a transferência foi cogitada a fim de salvaguardar os bens da coroa portuguesa, esta atitude vem acompanhada da vontade de transformar o Reino Português no mais rico Império do Ocidente. LYRA, Maria de Lourdes Viana. A Utopia do Poderoso Império: Portugal e Brasil: Bastidores da Política 1798-1822. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994. p. 107 e 108.

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manutenção da política econômica mercantilista e da monarquia absolutista, o que inclui a continuidade da união de Portugal com suas colônias, são características exclusivas do Estado Português. Estes fatores são decisivos para a história de Portugal e, através deles, entendemos “os rumos do pensamento crítico, a profundidade das reformas e os desdobramentos posteriores na metrópole e na colônia”. 97 Dentre seus principais pensadores e estudiosos apontamos D. Rodrigo de Souza Coutinho 98, que em suas memórias apresentou a melhoria das atividades de mineração, incremento da agricultura e do comércio no interior do Brasil e a melhoria das vias de comunicação. Este elaborou um programa de reformas a fim de melhorar a administração do Império.99O reformismo ilustrado luso brasileiro caracteriza-se pela importação das idéias, na tentativa de superação do atraso intelectual em relação à Europa; possui caráter moderado visando a integração da tradição com as inovações, tanto no plano político, com a manutenção da monarquia, quanto no plano econômico, através da “modernização” da administração mercantilista. Destacamos o ecletismo na adoção das idéias e um ajuste dos esquemas teóricos importados e o pragmatismo através da sua implantação na conjuntura política portuguesa. 100Todo este processo do reformismo ilustrado português efetivou o caráter laico da instrução, pela crença na cientificidade e na razão, estimulando a produção intelectual, o contato com instituições do Velho Mundo, a criação de Academias, como a Academia Real das Ciências de Lisboa, a reforma na Universidade de Coimbra e organização de museus e bibliotecas. Providências que visavam à propagação das luzes: Aos intelectuais - os “filósofos” – cumpria investigar a realidade, com as luzes da razão; aos agentes do poder (ministros educados no poder soberano) implantar as reformas: assim se dominaria a natureza e regeneraria a sociedade voltando a Idade do Ouro. 101 No Brasil, a política de modernização do Império português intensificou a implantação das reformas através dos estudos sobre a “agricultura, maquinaria, ciências e artes” e da “verificação dos recursos disponíveis nas capitanias do Brasil”. A casa Literária Arco do Cego e a criação do Seminário de Olinda, corresponderam às propostas ilustradas de divulgação de práticas inovadoras e novos saberes científicos e a formação dos quadros administrativos do Império. Ainda no contexto da ilustração portuguesa e a adoção de políticas reformistas no Brasil, destacamos a agitação social, de caráter local, nas diversas capitanias do Brasil, entre elas Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro, que concentraram maiores esforços das autoridades portuguesas para o asseguramento da união entre a metrópole e a colônia. 102Neste contexto de organização das políticas econômicas e administrativas do Império português, que vemos o início do processo da independência do Brasil através da instalação da corte portuguesa na cidade do Rio de Janeiro. O Decreto de 11 de março de 1808, “Nomeia os Ministros e 97

As características do reformismo ilustrado português são apontadas por Fernando Novais no artigo “O Reformismo Ilustrado luso Brasileiro: Alguns Aspectos.” Revista Brasileira de História. Nº 7. V. 4. São Paulo. Março/1984. P. 105. 98 Segundo Maria de Lourdes Viana Lyra, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, desde cedo foi preparado para atuar como agente no governo português pelo seu professor e padrinho, o Marquês de Pombal. Iniciou seus estudos no colégio Real dos Nobres e na Universidade de Coimbra. Lyra, Idem. P. 61. 99 Destaca-se o avanço da Ilustração portuguesa na virada do século XVIII para o XIX, principalmente pela postura frente aos pontos básicos da reforma administrativa do então príncipe regente D. João VI. Nota-se uma mudança nas definições das diretrizes para a configuração do Novo Império, tendo em vista a sistematização do conhecimento e a firmeza na condução dos negócios do Estado. LYRA, Maria de Lourdes Viana. Op. Cit. P. 63. 100 Na tentativa de conter o atraso político, econômico e intelectual de Portugal frente aos demais países europeus, Marques de pombal, em 1750, inicia as reformas ilustradas. As características acima apontadas indicam o “clima geral do movimento ilustrado” , decisivas para entender todo o processo que se inicia no século XVIII e culmina com a transferência da corte para a colônia americana. O estudo de todo este processo revela a continuidade do reformismo iniciado no reinado de D. José I, passando pelo reinado de D. Maria I e conseqüente regência de D. João. Novais. Op. Cit. P. 106. 101 NOVAIS, Idem P. 107. 102 Lyra, Op. Cit. P. 83 e 89.

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Secretários do Estado”, em que se destacam D. Fernando José de Portugal como Ministro Assistente ao despacho e Presidente do Real Erário e também Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Brasil e da Fazenda. D. Rodrigo de Souza Coutinho, nomeado como Ministro e secretário de Estado dos Negócios da Guerra e Estrangeiros e Visconde de Anadia, como Ministro e Secretário dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos.103Segue-se, de acordo com o plano da ilustração portuguesa, a criação de cursos e de instituições para a “instrução da mocidade”, responsáveis pela formação dos quadros administrativos do Império. Destacamos somente em 1808, a criação, no Rio de Janeiro, de uma cadeira de Ciência Econômica104, a criação do arquivo militar 105, da Escola de Cirurgia no Hospital Real da cidade da Bahia e o estabelecimento da Academia de Guardas Marinhas.106 Todas estas ações no campo político e administrativo do Império Luso Brasileiro, inauguram um novo processo para a formação do Estado Brasileiro.107 Ressalta-se que a experiência única de uma colônia que se torna sede do Império, provoca sérias mudanças dentro do que Portugal achava seu. A questão aqui elaborada é, dentro de todo o processo que vai desde 1500, com a colonização até a elevação à categoria de reino unido, em 1808, o Brasil desenvolveu experiências particulares, que, por mais que as iniciativas de Portugal em manter a união com a colônia fossem implantadas, mesmo assim, o Brasil se configurou como um território de lutas de interesses particulares. E o processo de interiorização da metrópole, os regionalismos provocados pela extensa falta de comunicação entre as capitanias durante os séculos de colonização?108 Desde a formação colonial do Brasil, com a formação dos núcleos isolados de povoamento no continente, sem as mesmas finalidades, não houve uma unidade Algumas dessas áreas haviam passado por uma fase de diversificação e expansão de suas atividades econômicas durante a segunda metade do século XVIII, como resultado de políticas metropolitanas e das necessidades do mercado internacional... Na Bahia e em Pernambuco... a ampliação das zonas dedicadas à lavoura da cana foi acompanhada de investimento na criação de gado e no cultivo de outros gêneros. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, novas áreas projetaram-se como importantes produtoras de açúcar..., tabaco, arroz , algodão e anil... A região centro sul foi uma das mais favorecidas nesse processo de expansão, aliando a exploração do ouro e diamantes em Minas Gerais...109 Tudo isso vem à tona, no momento em que se discute a possibilidade da retomada do Brasil como colônia e com o retorno da corte para Portugal no início da década de 1820. Desde 1808 verificamos o intenso trabalho das cortes portuguesas na viabilização do território do reino do Brasil para se tornar à sede do Império Português. Neste sentido, empenham-se em regulamentar as comunicações com todo o território brasileiro, delimitar as fronteiras, e promover o relacionamento entre as províncias, visando à fundamentação da unidade através

103

BRASIL. Decreto de 11 de maço de 1808. Nomeia os Ministros e Secretários de Estado. In: Coleção das Leis do Brasil de 1808.Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891. P. 4 104 BRASIL. Decreto de 23 de fevereiro de 1808. Cria na cidade do Rio de Janeiro uma cadeira de Ciência Econômica. In: Coleção das Leis do Brasil de 1808. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1891. P. 11 105 BRASIL. Decreto de 7 de abril de 1808. Cria o Real Arquivo Militar e dá-lhe regimento. Op. Cit. P. 12. 106 BRASIL. Decisão de Governo. N.2. Brasil. Em 18 de fevereiro de 1808. Manda criar uma Escola de Cirurgia no Hospital Real da Cidade da Bahia. In: Coleção das Decisões de Governo de 1808. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891. P. 2. BRASIL. Decisão de Governo. N.9. Marinha. Em 5 de maio de 1808. Manda estabelecer a Real Academia de Guardas Marinhas no Convento de S. Bento. Op. Cit.P.9. 107 LYRA, Op. Cit. P. 136. 108 DIAS, Maria Odila. “A interiorização da Metrópole 1808-1853”. In: MOTTA, Carlos Guilherme (org). 1822 Dimensões. São Paulo: Perspectiva. s/d. 109 BERBEL, Márcia Regina. A Nação como Artefato: Deputados do Brasil nas Cortes Portuguesas 1821-1822. São Paulo: HUCITEC, 1999. P. 31 e 32.

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dos interesses recíprocos, sendo o Rio de Janeiro, o pólo dinamizador das políticas administrativas para o Reino e para as demais partes de Portugal.110 Assim, as políticas para a instrução neste período demarcam a efevercência do programa das reformas, que também visavam a sua propagação nacional. Para o estabelecimento e financiamento das instituições educacionais no Brasil, o governo português aceita a oferta dos comerciantes da corte do Rio de Janeiro, que se interessam por enviar fundos para o estabelecimento da “instrução Nacional”. 111 Também se cria no Banco do Brasil, a relação de nomes das pessoas que “igualmente animadas” podem também contribuir com o estabelecimento de escolas de “tão manifesta e geral utilidade” 112. Estas iniciativas no campo da instrução nacional demarcam o interesse do governo português, na promoção da unificação de todo o território português, e a necessidade transformar os dois reinos em um Poderoso Império.

ST 07 - HISTÓRIA E LINGUAGENS A escrita da história e o debate sobre pós-modernidade, virada linguística e interpretação Alfredo dos Santos Oliva Professor Adjunto da UEL no Departamento de História e Doutor em história pela UNESP/Assis Palavras-chave: Teoria da História; Virada Lingüística; Pós-modernidade.

Creio haver um mal-estar no campo historiográfico contemporâneo. Penso que este desconforto poderia ter uma dupla origem: a) as discussões que teriam originado no interior do próprio campo historiográfico e que estariam em andamento desde o início do século XX, quando alguns pesquisadores teriam começado a questionar a natureza do trabalho do historiador e as dificuldades ou impossibilidades deste construir conhecimento “objetivo” acerca do que aconteceu no passado; b) os debates que teriam se iniciado fora do campo historiográfico, que parecem ter um caráter mais propriamente filosófico e que envolveriam a conceituação e a análise do que seria a modernidade e a pós-modernidade, bem como as implicações da virada lingüístico-pragmática para a filosofia contemporânea e, por fim, a dimensão do caráter interpretativo das ciências humanas.Nós historiadores estamos razoavelmente familiarizados com os debates e polêmicas originados no interior do campo historiográfico, mas começamos a esbarrar em dificuldades quando temos de enfrentar as repercussões dos trabalhos filosóficos sobre o nosso ofício. Talvez estes desafios existam porque ainda não estamos totalmente imunes à aversão filosófica que está presente no nosso meio desde o início do processo de profissionalização do ofício do historiador e que jamais cessou de ressurgir entre nós. Ou, quem sabe, porque estamos tão ocupados em sermos excelentes como historiadores que passamos a achar que estar em sintonia com debates de outros campos do saber nos desviaria desta tarefa. Claro que não sei porque isso acontece, mas aposto na hipótese de que não poderemos ter grande sucesso no nosso trabalho a menos 110

LYRA, Op. Cit. P. 138. BRASIL. Decisão de Governo. N.5. Reino. Em 5 de março de 1816. Agradece o oferecimento que fazem os negociantes desta praça, de formarem um capital, cujo rendimento seja perpetuamente aplicado a estabelecimentos que promovam a instrução nacional. In: Coleção das decisões de Governo de 1816. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1890. p. 3. 112 Brasil. Decisão de Governo. N.6. Reino. Em 5 de março de 1816. Manda fazer no Banco do Brasil um registro dos subscritores para a fundação do estabelecimento que promova a instrução pública. In: Op. Cit. P. 5. 111

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que nos esforcemos para entender os temas oriundos do campo filosófico.Um primeiro exemplo do que estou dizendo, seria um embate teórico que travei com um colega de profissão. Estávamos como que colocados de lados diferentes de uma trincheira, guerreando com palavras e posicionamentos teóricos. Eu assumia o papel (talvez fictício?!) de um historiador pós-moderno e ele o de um pesquisador moderno. À medida que tentávamos avançar na discussão, o debate se tornava complexo e desgastante. Até que paramos para nos perguntar sobre o que pensávamos ser a modernidade e a pós-modernidade. Quando começamos a definir ou expressar o que compreendíamos dos termos, ficamos surpresos ao vermos que defendíamos os mesmos valores e conceitos. O que aconteceu foi que tínhamos apenas conceitos distintos do que seria modernidade e pós-modernidade. Eu pensava a pósmodernidade como um estágio crítico da modernidade, mas que não a renegava em absoluto. Ele pensava que a pós-modernidade deveria ser algo como uma apologia dos anti-valores da modernidade.Um segundo exemplo da confusão no campo historiográfico que tem como origem mal-entendidos filosóficos, penso serem as ácidas críticas que alguns historiadores113 têm feito a pensadores como H. White. Ele tem sido acusado de afirmar que o trabalho historiográfico só pode ser pensado na atualidade como uma simples e mera redução à sua dimensão narrativa. O próprio autor já se defendeu desta posição114 em um artigo, mas parece que seus “acusadores” não querem ouvi-lo. Creio que o conflito deve ser compreendido como sendo de natureza eminentemente filosófica. H. White pensa e escreve como um autor que leva em consideração o debate filosófico denominado de virada lingüístico-pragmática, mas seus opositores o criticam a partir de um ponto de vista pré-virada lingüístico-pragmática. Um verdadeiro diálogo de mudos e surdos... Um terceiro e último exemplo poderia ser tirado da interpretação da obra de Michel Foucault. Em minha opinião, dois dos melhores comentadores de sua obra são P. Rabinow e R. Dreyfus. O titulo do livro que escreveram sobre o filósofo francês é revelador: Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. A tese central do livro é a de que o pensamento de Foucault se caracteriza como uma terceira via entre as duas escolas filosóficas mais em evidência nos anos 1960 e 1970, a estruturalista e a hermenêutica. F. Dosse115 é insistente em afirmar que, embora Foucault tenha negado que em algum momento tenha sido um estruturalista, alguns de seus trabalhos dos anos 1960 foram produzidos sob influência do estruturalismo. Creio que algo parecido se poderia dizer sobre a filosofia hermenêutica. Foucault edificou seu discurso teórico através de uma relação polêmica com a filosofia hermenêutica porque pensava que esta só poderia ser uma forma de filosofia do sujeito (algo que ele combateu veementemente nos seus livros e artigos). Apesar disso, quando lemos os seus cursos dados no Collège de France 116 entre os anos 1970 e 1980, podemos visualizar o seu brilhante trabalho de leitura e interpretação de uma farta documentação. Foucault “anti-hermeneuta” fazendo hermenêutica? Talvez! Para afirmar isso, eu precisaria explicar o que entendo por hermenêutica e interpretação para, depois, procurar desfazer mais um mal-entendido.Como se pode notar, os exemplos que explorei se referem a três conceitos ou conjuntos de conceitos 113

Um exemplo é o texto do historiador brasileiro: CARDOSO, C. F. No limiar do século XXI. Tempo, Rio de Janeiro, vol.1, n. 2, 1996, p. 7-30. 114 Ver WHITE, H. Teoria literária e escrita da história. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 13, 1991, p. 21-48. 115 Ver o ensaio do autor sobre Foucault em: DOSSE, F. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: Unesp, 2001. 116 Alguns desses cursos já foram traduzidos para o português: FOUCAULT, M. O poder psiquiátrico: curso dado no Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006. Id. Os anormais: curso no Collège de France (19741975). São Paulo: Martins Fontes, 2002. Id. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 2005. Id. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008. Id. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008. Id. A hermenêutica do sujeito: curso dado no Collège de France (1981-1982). São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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fundamentais para o debate teórico em torno do trabalho do historiador na atualidade. Para mim, a questão é que se trata de categorias complexas e traiçoeiras. Por isso, gostaria de oferecer uma modesta contribuição para o esclarecimento desses termos, bem como avaliar as implicações de cada um deles para o ofício historiográfico na atualidade. Vou proceder bem ao estilo moderno de argumentação ao tentar definir e explorar cada um dos três conjuntos de conceitos para, por fim, analisar as implicações de cada um deles para o trabalho historiográfico. As palavras na história: a virada linguística e a historiografia Aline Loretto Garcia Palavras Chaves: História e Linguagem, Teoria da História, História das Ideias. Como fazer história quando não se tem mais confiança na linguagem? Os historiadores sempre souberam que as palavras eram para eles fonte de problemas ou pelo menos sempre houve entre eles quem advertisse que a continuidade das palavras devia ser rompida pela identificação das palavras historicamente específicas que lhes definem o sentido. Mas a reviravolta linguística na historiografia do pós-guerra foi muito mais que o risco mortal do anacronismo (PESANTE, 1997, p.151). Muitas pessoas acreditam que a preocupação dos historiadores com as palavras é algo recente. Grande engano. Já temos no manual de Langlois e Segnobos ,escrito no final do século XIX ,uma crítica aqueles que liam os textos acreditando encontrar neles informações diretas .No entanto ,embora esta preocupação seja antiga, os historiadores continuaram a centrar sua atenção nos conteúdos dos textos aquilo sobre o que falavam. A forma com que o texto se estruturava internamente, sua dimensão discursiva ,não eram vistas como pertinentes a uma análise em história.Nos anos 60 vemos o postulado acima ser abalado, devido principalmente ao encontro da história com a Linguística, um movimento que se convencionou chamar Linguistic Turn. Com a reviravolta linguística na historiografia ou o chamado Linguistic Turn as palavras passaram ser concebidas não como instrumentos neutros, como meio transparente da nossa relação com o mundo, mas como múltiplo de manipulação e de interpretação desse mundo, como universo de possibilidades linguísticas dos quais é impossível fugir. Nesse contexto, a tensão que se instaura ao historiador não é mais aquela entre significado e significante, mas sim uma outra bem mais difícil de apreender entre sentido e experiência entre procedimentos linguísticos pelos quais os homens atribuem sentido à experiência que vivem e os processos extralinguísticos nos quais agem e sofrem.É certo que a reviravolta linguística não foi aceita entre os historiadores sem cisões. A grande divisão entre os que se voltaram para a linguística se deu entre aqueles que tentaram definir a tensão entre o sentido e experiência, e aqueles que, ao contrário, escolheram decompor o mundo conhecível na linguagem. Haiden White, autor de Metahistory é talvez o grande exemplo nessa segunda direção.Dessa forma a questão que atinge muitos historiadores é: se um texto elabora uma nova visão da sociedade, e, portanto, não reproduz um alhures situado fora dele mesmo, isso não equivale na realidade à impossibilidade de articulação do texto com situações extralinguísticas? Para Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas, considerar o conteúdo histórico de um texto dependente de sua forma, não implica reduzir a história ao texto, ou negar haver história fora do discurso. Pelo contrário, trata-se de buscar as relações entre ideias contidas nos discursos, as formas pelas quais elas se exprimem e o conjunto de determinações intratextuais que presidem a produção e manutenção dos discursos. (CARDOSO; VAINFAS, 1977).Por outro lado, negar a redutibilidade da história ao discurso, não significa dizer que haja uma história independente do texto. A história é sempre texto, ou melhor, discurso, e é somente através da análise dos discursos que exprimem ou contém a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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história poderá o historiador realizar o seu trabalho. (CARDOSO; VAINFAS, 1977).Em outras palavras, existindo a convicção da não transparência da linguagem, de que o sentido de um texto não é atingível pela sua simples leitura, a questão central em torno da qual se debruçam muitos historiadores é o da relação entre linguagem, história, mundo. Em meio a essas constatações indagações desenvolvi um projeto de pesquisa, que tem como objetivo verificar como este debate acerca da difícil relação historiador, linguagem, mundo, esteve presente na historiografia brasileira nos últimos 40 anos. Com isso pretendo analisar como os historiadores brasileiros receberam o Linguist Turn, observar os desdobramentos e reconhecer as repercussões da virada linguística na historiografia brasileira.

A nova história cultural e a utilização da literatura para a pesquisa historiográfica Bethânia Cristina Gaffo Mestranda – UEL Orientador: Prof. Dr. Rogério Ivano Palavras-chave: Literatura, história, fonte. Quando iniciamos uma investigação histórica, partimos de um tema e buscamos nele um recorte temporal. Imediatamente passamos a refletir sobre as fontes que utilizaremos para desenvolver o assunto e responder as questões pertinentes a ele. Refletir sobre quais fontes devemos utilizar para a pesquisa historiográfica nunca foi tão vasto como hoje. Atualmente qualquer espécie de vestígio deixado pelos homens nos revela como viveram o seu tempo. A poesia pode nos mostrar as transformações de linguagem e escrita ocorridas durante o renascimento, bem como as obras de arte deixadas por seus representantes. Os códices onde encontramos representações em imagem deixadas pelos Astecas nos retratam o dia a dia desta civilização. As canções entoadas durante a ditadura de 64 no Brasil nos permitem ingressar na mentalidade dos oprimidos pelo governo militar. Enfim, hoje podemos contar com um arsenal múltiplo e enriquecedor de fontes, mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que falar da literatura como fonte histórica, por exemplo, suscitava polêmica. Na segunda metade do século XIX, a história passou a ser uma disciplina acadêmica e fonte significava documento. Estes conduziam o pesquisador à verdade histórica e como representava o real, a história passou a buscar um status de ciência. A Escola Metódica francesa se encarregou de definir quais parâmetros utilizar para a pesquisa historiográfica. As fontes teriam como principal objetivo “assegurar a autenticidade documental para reconstituir objetivamente o passado”.117 Neste contexto, apenas documentos oficiais poderiam ser utilizados para atestar a veracidade histórica. Textos literários e demais fontes artísticas não poderiam ser considerados documentos capazes de levar o historiador a construir uma pesquisa digna de atestar a verdade.No século XX mudanças significativas no repertório de fontes possibilitariam a ampliação do que poderia ser considerado objeto para estudo da história. Conhecido como Nova História ou História Cultural, o movimento começou na França com a revista Annales d’Histoire Économique et Sociale, fundada em 1929 por Lucien Febvre e 117

FERREIRA, Antonio Celso. A fonte fecunda. In: PINSKY, Carla; LUCA, Tânia (orgs.). O historiador e suas fontes. São Paulo: contexto, 2009. p. 63.

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Marc Bloch. “Contrapondo-se à historiografia político-factual da Escola Metódica, eles colocaram em pauta uma História problema”. 118 Com este movimento houve uma “ampliação no repertório das fontes históricas e a metamorfose do próprio conceito de fonte”. 119Os historiadores deste período passaram a atentar para a sociedade atingindo seus aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais. Passaram também a se dedicar a investigar o homem em sua complexidade, não apenas o que ele deixou registrado em documentos oficiais, mas também o que deixou de relevante para a análise de seus aspectos mentais. A ampliação das fontes levou a pesquisa histórica a assumir uma postura interdisciplinar, pois para atingir a diversidade de fontes almejada, deveriam se enveredar para outros ramos das ciências humanas, como a geografia, sociologia, psicologia, entre outras. É neste meio de revolução de escrita da história que a literatura passa a ser vista e utilizada como fonte para a pesquisa historiográfica. È na mudança do foco de abordagem que uma contribui de maneira significativa com a outra. Ambas compartilham do mesmo interesse, ou seja, o interesse em narrar acontecimentos humanos. “O homem alçado à condição de objeto de conhecimento.” 120 A utilização de fontes literárias ocorre através de múltiplas formas, pois os significados operados também são múltiplos e podem variar dependendo dos gêneros, sejam prosas, contos, romances, ou outros. Cada qual com suas características específicas podem nos fornecer diversificado aparato para a pesquisa histórica. 121 Cabe ao historiador recolher, organizar e selecionar qual a espécie de narrativa mais adequada para a figuração e dotação de sentido do passado que deseja retratar. Estas fontes podem nos dizer muito sobre os personagens e a época em que viviam, nos proporcionam grandes possibilidades de compreensão e de interação com tempos passados. Neste sentido a obra literária é explorada pelo historiador que de seu tempo escolhe os caminhos a serem percorridos “buscando possibilidades nessa incessante relação de construção do passado.” 122Em sua vivência em sociedade o homem está em constante criação. Dia a dia ele produz artefatos que ao longo do tempo nos revela seu modo e vida ou de percepção de seu tempo. Na letra de uma canção entoada, no retrato feito em família, no romance que costumava ler, nos desenhos ou pinturas que produzia, nas construções que erguia, nas receitas que fazia especialmente para as reuniões familiares ou o pão de cada dia, nas roupas que costurava ou que simplesmente vestia, nas cartas que escrevia à pessoa amada, nos contos que contava ou nos livros que escrevia, enfim produtos sociais ou formas de arte que descrevem os modos de vida, e que servem como objeto de investigação do historiador. Raul Seixas e a contracultura: Uma viagem pelas idéias de Luiz de Lima Boscatto e Vitor Cei Bruno Nielsen Venancio (Graduado em História, Universidade Estadual de Londrina) Orientador: Prof. Dr. Gabriel Giannattasio Palavras-chave: Raul Seixas. Lei de Thelema. Contracultura. Os escritos a seguir tem como proposito estabelecer uma relação entre Raul Seixas e a CONTRACULTURA, porém, inicialmente procura-se estabelecer uma descrição a respeito da 118

Ibid, p. 63. Ibid, p. 63. 120 CAMILOTTI, Virgínia; NAXARA, Márcia Regina C. História e Literatura: fontes literárias na produção historiográfica recente no Brasil. In: História: Questões e Debates – Revista do programa de pós graduação em história UFPR, N. 50. Curitiba, jan./jun. 2009. Disponível em: Acesso em: outubro, 2010. p. 20. 121 Ibid, p. 40. 122 Ibid, p. 44. 119

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pessoa Raul Seixas. Ele, conforme o livro RAUL SEIXAS: E O SONHO DA SOCIEDADE ALTERNATIVA de Luciane Alves123, teve sua curiosidade despertada para o tema do ocultismo levando-a a estudar a relação entre Crowley e Raulzito. Raul nasceu no ano de 1945, dia 28 de junho, filho de dona Maria Eugenia e do engenheiro Raul Varela Seixas e cujo avô também se chamava Raul124. Raulzito foi criado nos moldes de uma família de classe média baiana, e desde pequeno já questiona sobre aspectos variados da vida, como por exemplo, a dificuldade que Raul tinha em se encaixar na sociedade também com relação à instituição educadora, já que este detestava escola preferia ficar trancado em seu quarto com suas poesias. Isto é notório também pelo fato de que aprendeu inglês com o Rock’n Roll de Elvis que era o seu ídolo maior, de quem Raulzito montou o primeiro Fã Club do Brasil, e o teve como seu mestre não só musicalmente falando, mas no que ele chamava de Atitude do Rock, que por si só já era transgressora, o que por si só é característica básica dessa grande recusa que pela qual se caracterizou segundo teóricos, a contracultura, e isso terá como veremos a frente influências inclusive, de diversos pensamentos de cunho místicos, espiritualistas que mostram diferentes aos olhos de diferentes autores como Vitor Cei e Luiz de Lima Boscatto.Para tal parte-se de um reflexão sobre o paralelo feito por Luiz de Lima Boscato cria entre Raul e os movimentos de rebelião sociais juvenis, colocando-o como um arauto destes, traçando pontos convergentes entre os ideais da Lei de Thelema e suas ações. Estabelecendo também um pensamento e um paralelo da relação que Vitor Cei estabelece, entre as mudanças das eras Astrais e a sua influencia no pensamentos daqueles que questionariam as ordens estaticas estabelecidas pelo discurso tecnocrático da sociedade, este que abrange toda uma gama, sendo representado principalmente pelos ditos tecnicos especialistas, que aprovam e comprovam tudo o que é conveniente a esse discurso da Tecnocracia, para isso ele compara o novo e o velho Aeon. Caracterizando o perfil da formação praticamente autoditada que vem desde sua infância passando por uma adolescencia desajustada e os pensamentos de um adulto que através de suas letras procurava transmitir a mensagem do faça o que tu queres a de ser tudo da lei, principio da Lei de Thelema que o acompanhou até o fim da vida.Logo não se trabalha com a pessoa Raul, nem o ente, ator, compositor ou produtor musical, mas sim se reflete a despeito do que tanto Vitor Cei quanto Luiz de Lima Boscato, procuraram estabelecer dessa desconexa relação entre Raul Seixas e Contracultura, demonstrando também, que há várias formas de interpretações, e algumas delas serão apresentadas ao longo destes escritos.E como fazendo tal paralelo entre os dois textos tanto o de Vitor Cei quanto o de Luiz de Lima Boscatto, o presente trabalho não tem como presunção estabelecer nenhum tipo de verdade ou inverdade, posto que o propósito deste fosse demonstrar duas das várias interpretações possíveis da relação que pode ou não ter havido entre Raul Seixas e a contracultura, e isso parte de um recorte que o próprio texto já se assume como arbitrário e até mesmo anacrônico, pois as relações são feitas sem acesso a fonte primária, mas apenas por leituras, depoimentos, entrevistas, e músicas.

Júlio Ribeiro no universo literário da imprensa paulista (1870-1890) Célia Regina da Silveir Pós-doutorado Instituição: niversidade Estadual de Londrina – UEL 123

Historiadora graduada em 1992 pela Pontíficia Universidade Católica da cidade de São Paulo cuja monografia versava sobre a Caça as Bruxas e o Tribunal da Inquisição na Idade Média. 124 É daí que Raul Seixas explica seu apelido de Raulzito. Segundo ele, seu avô era Raulzão, seu pai Raul e ele Raulzito.

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Palavras-chave: Júlio Ribeiro; universo folhetinesco; recepção Na pesquisa de pós-doutorado, empreendeu-se uma análise da experiência social de Júlio Ribeiro no âmbito das letras paulistas, entre as décadas de 1870 e 1890, tendo como base os seus escritos políticos e literários. Ao recompor parte da trajetória desse letrado à luz dos debates socipolíticos de contestação do status quo imperial na província de São Paulo, deparou-se com uma questão ampla: o que era ser um homem de letras na província de São Paulo, especialmente quando se tinha pretensões literárias? Para responder a essa pergunta, impôs-se, outra mais específica: nesta localidade quais eram os espaços sociais de produção, divulgação e reconhecimento de um autor? Dessa questão, emanou, o percurso que se trilhou na pesquisa do pós-doutorado. Considerou-se, fundamental, inserir o autor em estudo num horizonte mais amplo das letras paulistas, levando em conta os mecanismos de produção, recepção e circulação da literatura, especialmente das décadas de 1870 e 1880. Para tal, o corpus documental principal, foi a imprensa paulista, especificamente três jornais. Dois deles localizados na cidade de Campinas: Gazeta de Campinas (1868) e Diário de Campinas (1874), e o outro na capital da província, A Província de São Paulo (1875). Essa escolha se deu, porque além de Júlio Ribeiro ter publicado nos jornais campineiros citados, esses três jornais congregaram uma elite letrada paulista das duas principais cidades da província de São Paulo, que encetou discussões político-literárias – marcadas pelos ideais republicanos e abolicionistas, os quais nem sempre andaram juntos –, e promoveu a circulação de livros, homens e idéias na província e, sobretudo, entre eles. Esse último aspecto, chamou a atenção na pesquisa com os jornais paulistas; pois, embora houvesse um corpo de redatores e colaboradores relativamente fixos em cada um deles, notou-se, que eles compareciam com freqüência nos três jornais e, por sua vez, os assuntos e debates eram comuns. O percurso trilhado no pós-doutorado iniciou-se com a recepção crítica dos romances do autor – Padre Belchior de Pontes e A Carne – realizada por coetâneos e pósteros a ele, passando pela elaboração de um pequeno mapeamento das discussões literárias que apareceram nos jornais mencionados, especialmente o debate entre o Romantismo e o Realismo na literatura brasileira, ocorrido na década de 1870, o qual permitiu verificar as tensões e divergências presentes num momento de transição entre essas duas escolas literárias – da qual, aliás, o romance de estreia de Júlio Ribeiro, Padre Belchior de Pontes, é um exemplo – chegando à questão da circulação de livros na província, realizado por meio da pesquisa dos anúncios de livreiros e de seus agentes, publicados nos jornais paulistas. No que toca a esse último aspecto, foi realizado um pequeno cotejamento na Gazeta de Notícias (1875), do Rio de Janeiro, para estabelecer a comparação com as listas dos livreiros de São Paulo. Os jornais eleitos para a pesquisa, constituíram-se em novos espaços sociais de vocalização político-literária da elite letrada paulista. E o autor focalizado foi um dos beneficiados por essa nova estrutura das letras na província de São Paulo, pois teve o seu primeiro romance, Padre Belchior de Pontes, publicado no rodapé do jornal Gazeta de Campinas, entre os anos 1876 e 1877. Essa publicação mobilizou a imprensa paulista e foi assunto do Diário de Campinas e d’A Província de São Paulo, tanto sob a forma de resenhas e comentários, quanto sob a forma de anúncios. Os jornais, portanto, foram fontes valiosas para inserir a produção literária de Júlio Ribeiro no horizonte de expectativa de sua época, permitindo, assim, uma análise diacrônica e, também, sincrônica. Tendo como eixo a publicação de romance Padre Belchior de Pontes na Gazeta de Campinas, propõe-se, nesta comunicação, mostrar o trabalho de pesquisa efetivado com relação à publicação de narrativas literárias no rodapé dos jornais, bem como tal romance foi lido e avaliado no momento de sua publicação. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Raul Seixas, filósofo trágico baiano Gabriel Giannattasio Doutor – Universidade Estadual de Londrina Palavras-chave : História das ideias, pós-modernidade, virada linguística O presente ensaio parte da formulação de duas questões fundamentais para a historiografia pós virada linguística: a primeira diz respeito ao da autoridade da metaficção historiográfica, que deve ser tratada nas mesmas condições de autoridade que os outros gêneros narrativos, ou seja, os gêneros que se creem não ficcionais, e a segunda que trata da análise das categorias acadêmicas modernas, colocando-as sob suspeição, tais como: o conhecimento visto não mais como um tratado e sim como gênero ensaístico, a crítica ao eu autoral como garantia da unidade da obra e, por fim, a dimensão do vivido como aquilo que escapa à linguagem. Dito isto, podemos anunciar do que trata nosso tema em questão.Raul Santos Seixas, baiano de nascimento, deixou uma expressiva obra musical, reunindo nela suas influências literárias e filosóficas. Sabe-se que o músico baiano, nascido em 28 de junho de 1945, teve no ambiente contracultural a sementeira de seu trabalho, mas não se confundiu com os movimentos estético-musicais à ele contemporâneos, tais como, a bossa nova, a música de protesto, a jovem guarda e os tropicalistas. Realizou seu próprio caminho e não se confundiu com a ‘linha evolutiva da música popular brasileira’. E, ainda que a contracultura tenha sido seu ambiente gestacional, realizou seu próprio balanço dela, a seu modo dizia: ‘não há propósito de existir se não for pra deixar a sua marca’. E ele deixou a dele e esta, só a ele pertence.Anunciou, através de seu trabalho, três ideias que, de certa forma, o acompanhariam durante sua vida musical, a saber: a metafísica, Raul alimentava a ideia de escrever uma obra metafísica e já havia dado um nome a ela, se chamaria ‘verbalóide’ [isto porque reconhecia no verbo a origem do que chamamos de homem e humanidade, o homem só era homem porque ele tinha a linguagem]; a ópera como obra de arte total e no seu caso uma ópera bufa [este foi um outro projeto que Raul alimentou, o de produzir uma ópera-rock que também já tinha um nome, se chamaria ‘opus 666’]; e, por fim, o rok’n’roll como atitude, para além de um gênero musical, o que significa dizer que foi esta atitude que ele levou para os mais variados gêneros musicais, a atitude rock’n’roll contaminou o brega, o bolero, a valsa, o baião, o country, o samba, a moda de viola [a atitude rock’n’roll é a atitude desafiadora, é o pensar e produzir crítica e livremente ou aquilo que numa linguagem nietzscheana chamaríamos de um pensamento extemporâneo]. Para perseguir tais argumentos, selecionarei os ‘momentos filosóficos’, por excelência, da metafísica verbalóide do filósofo baiano, a saber: Metamorfose Ambulante, como argumento para a dissolução do eu autoral colocando em cena o conceito de máscara, Sim, enquanto atitude afirmadora da existência, Minha viola, que situa a obra musical raulseixeana no espírito da filosofia trágica dos gregos arcaicos, Caminhos, que oferece a compreensão propriamente filosófica à ideia do conhecimento e da vida como processo, como experimentação, Nuit, como expressão maior do incerto e do indeterminado e que pode ser traduzido pela máxima ‘minha filosofia de mim, nem bem veio e já se foi’ e, por fim, Carpinteiro do universo, tomado aqui pela máxima nietzscheana do ‘tornar-se o que se é’, ou seja, ‘carpinteiro de mim’. Aqui é importante que se diga que a ópera, enquanto obra de arte total, seria capaz de dissolver na cena operística a existência musical do artista mascarado Raul Seixas. Entretanto, no caso do nosso personagem baiano, sua ópera seria uma ópera bufa, em virtude do seu caráter e apelo popular e do seu aspecto cômico, seu escárnio e maldizer, fariam da alegria o antídoto contra a vida sisuda e séria. Daí que falar da obra raulzeana exige que falemos dela A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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musicalmente, ou como gostava de dizer o alemão de ‘testa larga e bigode farto’ um pensamento trágico é aquele capaz de por as dores do mundo pra dançar.O que se propõe aqui é realizar uma leitura raulzeana à sombra do pensamento nietzscheano.

Dor e Alegria na Música de Raul Seixas Jeferson Santana Brandão Mestrado em História da Universidade Estadual de Londrina. Orientador: Gabriel Giannattasio Palavras Chave: Raul Seixas, Alegria, Dor. Para chegar a um ponto de vista acerca da alegria peculiar que emana de meu objeto de pesquisa, trago um diálogo com um interlocutor, que se harmoniza em diversos aspectos com o meu protagonista: “[...] ele é, em primeiro lugar e sobretudo, um músico filósofo, músico levado à meditação filosófica por uma reflexão incessante sobre a natureza do júbilo musical. [...]” (2000, pg. 46). A citação bem poderia estar presente em uma das biografias de Raul Seixas, compositor da “obra de si” que é objeto desta pesquisa. Mas, no entanto, a referência de Clement Rosset, presente no Livro “Alegria Força Maior”, diz respeito ao pensador alemão Friedrich Nietzsche. O músico brasileiro Raul Seixas, muito ligado às grandes questões filosóficas da humanidade, a exemplo de Nietzsche, encontra na música a principal chave para a alegria. A alegria aqui é tratada como força fundamental no processo criativo, e na própria valorização da vida como bem maior do ser humano. Se a grande força motriz da filosofia musical de Nietzsche foi a afirmação da Alegria em meio às dores de uma existência trágica, não seria exagerado dizer o mesmo da música filosófica de Raul Seixas. “Sempre avante no nada infinito” segue nosso herói trágico, armado com sua guitarra em punho, de onde propaga, junto com sua voz, o seu Rock n’ Roll trágico da alegria e do privilégio existencial, mesmo quando sente-se em meio ao “nada”.Entendendo a construção da vida e obra do músico como a construção de uma grande obra de arte produzida a partir de si próprio. Aqui percebemos os movimentos do herói trágico alegre, que em meio às contradições e mesmo em meio a dor, não perde a força transformadora da alegria. “[...] só há verdadeira alegria se ela é ao mesmo tempo contrariada e se está em contradição com ela mesma: a alegria é paradoxal ou não é alegria. [...]” (ROSSET, 2000, pg. 25). Desde o seu primeiro álbum solo, encontramos a afirmação dos elementos de contradição que marcarão toda a sua obra: “eu vou desdizer, aquilo tudo que eu lhe disse antes, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..” (Krig-ha-bandolo, 1973).Nessa construção de si, encontramos um Raul que se apropria do ritmo alucinante do “iê-iê-iê”, tão bem sucedido na década de 60, para falar da “realidade”, negando assim, o romantismo do sucesso rítmico que contagiava o Brasil no início de sua carreira. Em 1977, quando o gênero já não fazia mais o mesmo sucesso de outrora, ele diz: “eu quero mesmo é cantar iê-iê-iê, eu quero mesmo é gostar de você. Eu quero mesmo é falar de amor, eu quero mesmo é rimar amor com dor...”. (O dia em que a terra parou). É notável, que mesmo ao se render ao que antes ele chamava de “iê-iê-iê romântico”, esse romantismo, não é ingênuo e idealista como aquele da jovem guarda. Aqui ele rima o amor com a dor. O amor que é o sentimento que ao se exceder produz uma alegria vital no ser humano, traz de carona em si os postulados da dor.O herói alegre que tal qual o Zaratustra de Nietzsche conversa com o sol ao amanhecer, no disco “Raul Seixas”, se depara também com os abismos dionisíacos do absurdo, responde ao pessimismo tentador do “espírito de gravidade” com o riso eufórico: “E eu guardo cada pedacinho de mim Pra mim mesmo / Rindo louco, louco de euforia... Eu e o coração, companheiros de absurdos no noturno no soturno. No A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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entanto, entretanto e portanto... Bom dia Sol” (1983). Zaratustra, que começa sua jornada trágica falando ao sol, afirma de forma semelhante sua alegria: “E, quando vi o meu Diabo, achei-o sério, metódico, profundo, solene: era o espírito de gravidade - a causa pela qual todas as coisas caem. Não é com a Ira que se mata, mas com o riso. Eia, pois, vamos matar o espírito de gravidade!” (NIETZSCHE, 1998, pg. 67)No mesmo disco, que leva o nome do nosso protagonista, ele diz: “E aquela coisa que eu sempre tanto procurei, é o verdadeiro sentido da vida: Abandonar o que aprendi - parar de sofrer. Viver é ser feliz e nada mais...”. Aí está o objetivo simples e direto do homem alegre. Utilizar o “egoísmo sadio” em direção a si mesmo, afim de chegar na felicidade, e nada mais. “Eu tenho uma viola, que canta assim... Minha dor ela consola [...].” A música sertaneja no repertório do roqueiro, que busca o consolo da dor com a música, culmina na alegria que evita o choro: “Canta a minha alegria, canta para eu não chorar. Entrarei no céu contigo, quando minha hora chegar.” (Abre-te Sesamo, 1980). O herói trágico não nega a dor e o sofrimento, antes usa todas estas forças (que causam aos niilistas a mais profunda tristeza) como objeto de afirmação jubilosa de sua alegria. Referências: Discos de Raul Seixas citados: 1973- Krig-ha, bandolo! 1977- O Dia Em Que a Terra Parou 1980- Abre-te Sésamo 1983- Raul Seixas NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. ROSSET, Clement. Alegria a Força Maior. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. Justine de Sade e a crítica literária Juliana A. de Lima Arruda (História Social, UEL) Orientador: Dr. Gabriel Giannattasio Palavras-chave: Justine, Linguagem e Crítica Literária. Essa é a história de uma moça que aos doze anos conheceu a crueldade dos homens, a hipocrisia humana e a realidade de um século corrompido, o século XVIII. Educada em um dos melhores conventos de Paris, acostumada aos bons livros, bons conselhos e bons mestres, viu seus dias de serenidade se desfazerem diante de seus grandes olhos azuis, pois “tudo lhe faltou num único dia.” Seu autor, Donatien Alphonse François de Sade, conhecido como o Marquês de Sade, escreve este misterioso romance em apenas quinze dias do ano de 1787, sendo ele, “Os infortúnios da virtude” seu livro mais lido. Apesar de seus nobres e cândidos traços, Justine é acusada e condenada por uma série de crimes que afirma não ter cometido, mas, que seu excesso de virtude provocou. Passado quinze anos de desventuras e desgraças, ela é levada à Paris para receber a confirmação de sua sentença de execução. É neste instante que a delicadeza de seu feitio chamam atenção da Sra. de Lorsange125, que pede aos guardas um dia com a moça para ouvir de seus próprios lábios os infortúnios que lhe trouxeram até ali. 125

Lorsange é o sobrenome que Juliette recebeu após seu casamento. Juliette é a irmã mais velha de Justine, sendo que ambas se separam após terem sido expulsas do convento. Juliette ao contrário de Justine leva uma vida desregrada, construindo carreira sob o vício, e ganhando com seus crimes apenas prosperidades. As duas irmãs passam o desenrolar do romance sem saberem seu parentesco, e a descoberta da fraternidade só será revelada ao fim do romance.

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E a partir desta conversa, a personagem Justine narra sua história, descrevendo ao longo do romance todas as atrocidades e desgostos que lhe aconteceram, a história de uma desventurada moça que apesar de ser continuamente violentada, humilhada e ultrajada, continuou virtuosa, com uma fé inabalável e sempre surpreendida pela maldade humana. Mas, como todos que contam uma história, Justine é também uma ficcionista, ela tinha seu segredo, gozava ao ser ultrajada. E apesar dos demasiados detalhes das noites ditas involuntárias de Justine, ao longo do romance, nunca podemos perceber o que ela está experimentando, o que está sentindo. De Justine, só podemos construir nossas próprias suspeitas.Tomando, contemporaneamente, a história como uma metaficção historiográfica, caminhamos nos limites da história com a ficção, entendendo que em seu processo de fabricação, a história deve respeitar as contradições humanas, bem como o papel ativo do leitor na produção de sentidos, e ter a consciência de que ela mesma, só pode ser acessível por meio da linguagem. E justamente por esta característica, que lhe é imanente, a de ser meramente um discurso, é que devemos incluir a crítica literária no horizonte de teorias fundamentais para a construção da história. A partir disso, pretendemos problematizar Justine, seu contexto, seus ditos, seus interditos, a máscara a qual ela se transforma para seu autor, procurando trazer as discussões da Crítica literária para nossa pesquisa. Buscaremos, portanto, compreender um pouco do papel da literatura na vida de Sade, e no caso de “Os infortúnios da virtude”, porque, entre tantos estilos literários, Sade nos leva a ler Justine como um conto de fadas, onde o final é sempre previsível, onde o bem sempre vence, onde a heroína sempre alcança o final feliz, mas, só que ao contrário. Quais são as ferramentas que Sade usa para esconder, mas sem nos proibir de suspeitar do segredo de Justine? Afinal, como bem observa Saussure, a “linguagem molda imagens da realidade, mas não se refere a essa”. De forma que a confissão de Justine, bem como toda e qualquer narrativa, vem a ser uma construção linguística, e se tudo na linguagem é tropo retórico, o que podemos tentar construir, segundo lições nietzscheanas, é uma história esteticamente construída. Pois, afinal de contas, como concluem Hayden White, Derrida, Foucault, entre outros grandes pensadores, a linguagem não se refere a algo externo, mas somente a si mesma, tornando o historiador um prisioneiro do mundo ao qual ele mesmo construiu, do qual ele se pensa, pensamentos estes estabelecidos a partir de categorias de linguagem nas quais ele opera. Portanto, nada mais proveitoso, e deleitável, que mergulhar na narratividade da própria Justine, ouvir sua fala queixosa, tornar-se sua cúmplice.

Uma delação silenciada: memórias “esquecidas” acerca da atuação do “capitão Carlos” nos conflitos pela terra nos arredores de Porecatu(1940-2011) Leandro Cesar Leocádio Mestrando em História Social (UEL) Orientador: Prof. Dr. Rogério Ivano Palavras Chave: Memória, silenciamento, PCB. Este trabalho tem como objetivo analisar algumas entrevistas de pessoas que participaram de corpo presente dos conflitos pela terra que ocorreram entre finais de 1940 e início de 1950 no Norte do Paraná, de forma mais específica na região onde hoje se concentram as cidades de Porecatu, Jaguapitã, Guaraci, Miraselva, Florestópolis, Alvorada do Sul, Centenário do Sul, Lupionópolis e Cafeara, um território de aproximadamente 120 mil hectares de terras. Em tais entrevistas, realizadas após trinta anos do final do conflito, é nítido perceber o ódio, a amargura, a revolta contra, segundo tais entrevistados, a delação A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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empreendida por Celso Cabral de Mello, mais conhecido na região como “capitão Carlos”, que teria vindo a mando do PCB (Partido Comunista Brasileiro) com um único propósito: auxiliar os posseiros na defesa de terras que consideravam suas e que, devido a constantes invasões por parte de grileiros, jagunços e fazendeiros, optam por empunhar armas no intuito de assegurar o direito a tais posses. O período em que ocorreram tais acontecimentos, entre as décadas de 1940 e 1950, o Norte do Estado do Paraná era uma localidade inóspita, praticamente inexplorada econômica e demograficamente. Como incentivo à ocupação de territórios semelhantes a este espalhados pelo Brasil afora, o governo de varguista lança uma proposta política que ficou nacionalmente conhecida como Marcha para o Oeste que, resumidamente, baseava-se na seguinte perspectiva: quem tivesse o interesse em ocupar tais espaços territoriais teria como obrigação derrubar a mata, plantar e produzir por um período de seis anos. Como garantia, receberiam um comprovante provisório garantindo que, após o término deste período, seria repassado o título em definitivo de tais posses, desde que comprovassem o pagamento dos respectivos tributos acerca destas. Muitas foram às famílias que, oriundas de diversas localidades do Brasil, chegaram à região acreditando em tais promessas. Porém, o que estas famílias não esperavam era que outras pessoas também acabaram se interessando por tais terras, principalmente fazendeiros compadrios políticos de Moisés Lupion, governador eleito do Paraná para assumir o posto deixado pelo interventor Manoel Ribas, deposto após o fim da ditadura do Estado Novo. Tal situação acabou dando início a intensos confrontos entre posseiros e jagunços contratados para expulsar estas famílias de suas posses. É neste momento que o PCB aproxima-se destas famílias de posseantes com o intuito de auxiliá-los na defesa de suas terras. E, para isso, o Partidão envia a região Celso Cabral de Mello, dirigente comunista que chega com o intuito de treinar estas pessoas e arquitetar estratégias de resistência. Passados alguns meses da chegada desta figura, o mesmo é preso pelas autoridades competentes e, ao ser interrogado, acaba por delatar planos, estratégias de lutas, a quantidade armamentista utilizada pelos posseiros e suas principais lideranças. Após empreender tal depoimento, Celso conseguiu fugir e, até os dias de hoje, pouco se sabe acerca de seu paradeiro.Após o final de tais embates, isso no início de 1950, podemos perceber um silenciamento tanto por parte de órgãos governamentais quanto por parte do próprio PCB. E, em relação as pessoas que lutaram por seus direitos, não lhes foram disponibilizados nenhum canal de comunicação para que pudessem narrar sobre o que vivenciaram. Somente em finais de 1970 e início de 1980 é que começam a ser publicados alguns trabalhos abordando tais acontecimentos. Em meados dos anos de 1980, o jornal Folha de Londrina, através do repórter Pedro Paulo Felismino, realiza uma série de entrevistas com pessoas que teriam participado ativamente de tais embates. Ao serem questionados sobre a participação do PCB e a atuação de Celso Cabral de Mello podemos constatar que, com o longo período de aproximadamente trinta anos em que ficaram impossibilitados de falar acerca do que vivenciaram, suas lembranças foram sendo alimentadas com pesadas cargas de rancor, mágoas profundas, um ódio latente, uma completa aversão que não se restringe aquele que, para tais entrevistados, traiu todo um movimento de resistência, mas também contra o próprio PCB que, revestidos de uma pseudo aura de heroísmo, opta por fazer vistas grossas em relação a sua direta participação nos confrontos pela terra que eclodiram no Norte do Paraná. Os “modos de compreensão” de Louis Mink Marcus Telles Mestrando em História Social – PPGHIS/IH/UFRJ, orientado por Felipe Charbel Teixeira Bolsista da CAPES

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O nome de Louis O. Mink é frequentemente citado, a um só fôlego, ao lado de outros como Dray, Gallie e Danto, como exemplo de pensadores responsáveis pela ascensão do narrativismo. Mais raras, porém, são as análises detalhadas das nuances de sua obra. Neste texto, buscaremos discutir a importância de um dos mais importantes conceitos avançados por este pensador: aquele que afirma existirem diferentes "modos de compreensão", relativamente próximos (embora não identificáveis) ao que se produz nas ciências naturais, na filosofia e nas narrativas históricas e ficcionais. Para este autor, compreensão é o ato de “ver junto” aquilo que só pode ser apreendido pela mente em série. A historiografia, neste sentido, é, como a ficção, fornecedora de uma “compreensão configuracional”, que enxerga os elementos das estórias como “um rio visto de cima”. Na primeira parte do teto, nosso intuito é o de mostrá-los à luz de uma mudança paradigmática mais ampla no campo da teoria da escrita histórica: a do esgotamento do modelo unitário da explicação defendido por Hempel, com a ascensão de uma crescente historicidade na compreensão das ciências, tal como se pode ler em A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn. Para Mink, a proposta do positivismo lógico era a mais recente manifestação de uma tendência milenar do “imperialismo” de um dos modos de explicação sobre os demais. Uma das consequências de sua proposta é combater tais tendências imperialistas, concebendo a compreensão fornecida pela história como alternativa à fornecida pelas ciências. Já não se poderia mais, como fazia Hempel, afirmar que a história fornecia apenas “esboços de explicação”. Argumentaremos que – ainda que especificamente dentro da chamada “filosofia analítica da história” – Mink não apenas exemplifica a mudança do paradigma hempeliano para o kuhniano, como também contribui para sua edificação. Especial importância, neste caso, reside em sua atenção à temporalidade inerente à compreensão histórica. Este aspecto, vastamente negligenciado pelos positivistas lógicos, é trazido à tona nas obras de Arthur Danto, Louis Mink e Hayden White. A segunda parte do texto busca analisar a apropriação feita por White da argumentação de Mink. Tendo em mente a importância de outro pensador na formação de White, o historiador da literatura Erich Auerbach, trata-se especialmente, neste caso, de explorar a comparação feita por Frank Ankersmit entre os conceitos de “compreensão configuracional”, de Mink, e “figura”, de Auerbach. Em ambos os casos, trata-se de uma crescente atenção não mais à “explicação” do tipo existente nas ciências naturais, mais a outro tipo de compreensão, marcada por um tipo de causação essencialmente retrospectivo. Esta abordagem, por sua vez, demanda que a narrativa seja compreendida como um juízo sinóptico, na qual início, meio e fim formam um todo coerente, produtor de sentido. Se para Mink, porém, a narrativa história seria típica do modo de compreensão configuracional, para White todos os três tipos de compreensão encontram-se presentes neste tipo de narrativas. Esta ligeira mudança na argumentação de Mink permite a White (como aponta Frank Ankersmit) desenvolver outro insight fornecido pela obra de Auerbach: o da importância da mistura de estilos. Em White, os modos de explicação não podem ser combinados indiscriminadamente. Uma ideologia radical, por exemplo, não é compatível com um enredo satírico. Há afinidades eletivas entre os modos. Mas nada implica que essas combinações sejam necessárias. De fato, para White, a característica de todo historiador “magistral” é a criação de uma tensão dialética com a combinação de modos incompatíveis, o que cria um estilo próprio. Daí que, segundo Ankersmit, “tanto Auerbach quanto White propõem seus protocolos linguísticos e estilísticos apenas para demonstrar como a realidade histórica pode ser feita visível não por uma submissão dócil, mas uma evasão sutil e poética destes protocolos”. Nossa conclusão buscará esclarecer e ressaltar a importância da obra de Mink para o pensamento histórico contemporâneo. Palavras-chave: Louis Mink, Hayden White, modos de compreensão. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Religião e rito: uma interpretação foucaultiana do jejum de Daniel no âmbito do neopentecostalismo Marina Fazani Manduchi (Graduação em História e Especialização em Religiões e Religiosidades – Universidade Estadual de Londrina) Orientador: Prof. Dr. Alfredo dos Santos Oliva O presente trabalho aborda o neopentecostalismo, uma modalidade da religiosidade contemporânea do Brasil. Desde sua chegada ao Brasil, em 1910, o pentecostalismo sofreu inúmeras mudanças; foram tantas, que pesquisadores do fenômeno religioso acabaram por classificá-los em categorias distintas. Ao abordar uma dessas formas de pentecostalismo, a proposta deste trabalho estaria enquadrada de acordo com a classificação utilizada pelo sociólogo Paul Freston, que afirma existirem três ondas pentecostais, além da utilização do termo neopentecostal, tal como é usado pelo sociólogo Ricardo Mariano. Reconhecendo a diversidade de instituições pentecostais e neopentecostais, o trabalho estará focado em uma instituição específica, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Ao eleger uma única instituição, considerando sua história, sua rápida expansão e inserção em diversos campos (econômico, político, social, midiático), devemos recortar e escolher um aspecto a ser analisado. Dessa forma, diante da multiplicidade da Igreja Universal, optei por explorar um rito presente nas ações cotidianas na IURD, denominado de “Jejum de Daniel”. A “campanha”, fazendo uma alusão ao profeta Daniel, que por 21 dias fez um jejum alimentar se sacrificando em nome de Deus, propõe aos fiéis que jejuem por 21 dias. No entanto, o “sacrifício” proposto não é alimentício e sim, midiático. A campanha, difundida pelos templos da Igreja em períodos específicos, também está disponível no site oficial da IURD, onde é possível compreender o que é o rito e quais os objetivos e resultados pretendidos. O que mais chama atenção são os benefícios, os resultados, que são amplamente divulgados por meio de testemunhos dos fiéis. São esses resultados que pretendo abordar com base no conceito de cuidado de si explorado pelo filósofo Michel Foucault nos seus últimos cursos no Collège de France. O trabalho busca compreender de que forma essa campanha proposta pela IURD adquire um caráter normativo, e que pretende, através dessa normatização disciplinar o corpo, privar os adeptos de meios midiáticos por 21 dias para que eles possam experimentar e sentir a presença do Espírito Santo. A campanha que propõe uma “limpeza espiritual” por meio do jejum de meios midiáticos, estabelece algumas regras a serem seguidas, e são essas regras e os testemunhos daqueles que as seguiram, que podem ser aplicadas ao conceito de cuidado de si. Palavras-chave: Religião; Michel Foucault; Cuidado de si; Neopentecostalismo.

O real, o ficcional e o historiográfico em Ararat, de A. Egoyan Rogério Ivano, Doutor, UEL Palavras-chave: História, Cinema, Memória No filme “Ararat” (Canadá, 2002), o diretor Atom Egoyan problematiza as difíceis questões que envolvem a memória contemporânea, tanto no plano coletivo quanto individual; além disso, a partir da narrativa cinematográfica, reflete os complexos problemas que A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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envolvem a historiografia atual naquilo que o historiador e filósofo francês Michel de Certeau chamou de “operação historiográfica”. Nascido no Egito e naturalizado canadense, Egoyan filmou um aspecto capital de sua história pessoal em meio à história coletiva dos seus ancestrais: imergindo na memória do evento conhecido como “genocídio armênio”, o cineasta colocou em cena o massacre de milhares pessoas cometido pelo exército turco em 1915. Apesar de ser um acontecimento quase centenário, este é o primeiro filme a retratar esta tragédia ocorrida no então Império Otomano. E esta é uma das questões que fazem parte daquilo que Egoyan chama “Armenian issue”, ou seja, a negação do massacre como sendo um genocídio. Assim, não bastaria apenas contar o que aconteceu, mas enfrentar a “mecânica da negação”, isto é, o arsenal de livros e artigos do ponto de vista turco e a surdez da opinião pública geral. É nesse sentido que “Ararat”, segundo o cineasta, é uma história de “transmissão do trauma”. Nesse sentido, o filme faz parte daquilo que os pesquisadores identificaram como a “memória dolorosa”, um tipo ou qualidade de memória de diferentes grupos sociais que reclamam a dor e o sofrimento das tragédias vividas no violento século XX. Egoyan classifica o próprio filme como sendo um film-within-the-film, ou seja, um “filmedentro-do-filme”: “Ararat” conta a história do diretor Sorayan e seus conflitos na filmagem do genocídio, embora o enredo obedeça a tradição épica do filme histórico. No discurso metalingüístico proposto pela obra, diferentes narrativas relacionam-se, como a pesquisa de uma professora universitária sobre o universo artístico de um pintor armênio, que por sua vez tem a história contada no filme; as razões pessoais do diretor e os conflitos de um ator que tem origem turca. É assim que o filme de Egoyan aponta para as questões historiográficas atuais que, segundo Certeau, implicam na percepção sobre o lugar – social, econômico, cultural - de onde o historiador produz o seu discurso, as técnicas e procedimentos de análise dos acontecimentos e a formulação de um texto, de uma escrita que singulariza sua prática enquanto cientista social. É a combinação dessas instâncias e a consciência dessa operação que pode fazer a história voltar-se para uma reflexão metodológica e epistemológica, ponderando o valor do seu saber e a forma com que ele constrói o mundo. Assim, na contemporaneidade, a historiografia pode se ver de dentro, history-within-the-history, compreender a partir de si as formas que organizam e legitimam seu saber, sem necessidade de subterfúgios ideológicos ou científicos para pensar suas categorias de elaboração da realidade. Ao leitor, assim como ao espectador, pode ficar explícito os mecanismos, as formas e as limitações da escrita do historiador, deixando-a livre de mistérios metodológicos e conceitos inexplicáveis na abordagem dos fatos. Como diz Egoyan, a verdade histórica de nada adianta se não houver alguém para escutá-la. Além disso, na elaboração da memória contemporânea, o historiador não é o ator principal que joga com o passado. Jornalistas, legisladores, juristas, publicitários, políticos, cineastas, porta-vozes de grupos sociais variados, testemunhas e vítimas protagonizam a formação das narrativas da memória, que por sua vez não tem apenas nos livros e monumentos seu lugar privilegiado; hoje o palco das lembranças pessoais e coletivas são também os periódicos, as tribunas, os parlamentos, a tela de cinema, os sítios da internet. Pressionados por um “dever de memória”, historiadores reagiram de modo extremo, ora reafirmando suas desconfianças em relação à capacidade da memória em assegurar a verdade, relembrando sua dimensão subjetiva, ideológica e impressionista, ora tomando-a como objeto mesmo de investigação histórica, resultando em conhecidas expressões, como os “lugares de memória”, elaborado pelo francês Pierre Nora (1993) nos anos 1970.

Literatura e transgressão: o caso Sade em 1801 Sara Vicelli De Carvalho A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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(Graduada em História – Universidade Estadual de Londrina) Palavras-chave: literatura; transgressão; Sade. Em primeiro de março de 1801 as autoridades parisienses foram informadas de que o autor de romances considerados imorais e já condenados pela política de moralisation des moeurs – implantada pelo então imperador Napoleão Bonaparte – pretendia publicar em breve novas edições de suas horríveis obras. As obras em questão eram Justine e Juliette, o autor, o Marquês de Sade. Justine era um “nome conhecido” como protagonista dos romances, havendo publicações desde 1787 com os títulos: Les infortunes de la ventu, Justine ou Les malheurs de la vertu e La nouvelle Justine , a nova publicação teria o título de Juliette, nome da irmã de Justine. Sendo assim, Bonaparte decidiu tomar medidas drásticas para combater esse mal emergente. Em 15 de março ano de 1801, foi realizada uma operação à livraria e editora Massé, que publicava as obras. De acordo com os informantes, Sade estaria lá munido do manuscrito. A informação conferia e quando os policiais chegaram, lá estavam as obras, em edição ilustrada em dez volumes de La nouvelle Justine e em manuscrito Juliette e, carregando o manuscrito, estava Sade. Foi-lhe entregue imediatamente um mandado de prisão e o Marquês foi detido e preso sem julgamento, tendo permanecido sob a condição de enclausurado até sua morte.O Marquês ficou sob esta condição, privado de liberdade e violado em seus direitos individuais, por três anos, até 1804, quando seu caso foi enfim examinado. A obra Justine teve grande repercussão na época, seus leitores eram muitos e dos mais variados. Alguns leitores, mesmo repudiando a obra, não deixavam de lê-la. E, especificamente esta última edição, foi considerada o maior empreendimento das livrarias clandestinas jamais realizado. Mobilizava boa parte das livrarias da França e quase monopolizava a atividade literária clandestina da Europa inteira. Segundo o prefeito parisiense da época, o romance era terrível e nada foi poupado para tornar a edição mais perigosa que as anteriores.Na condição de autor, as audácias do Marquês de Sade adquirem outro status, são registros, provas materiais de obscenidades, sendo assim, seus crimes se acumulariam em sua escrita. Suas obras são deste modo, monstruosidades, maledicências impressas e disseminadas. E o suposto mal contido nas obras, um fermento, induzindo à possíveis práticas depravadas e corruptas. Expondo assim os polidos cidadãos franceses ao perigo, sujeitando-os a contaminação pelas terríveis obras do maldito Marquês. A forma de pensamento que levou Sade a sua última prisão, coloca, autor e obra numa equivalência, uma vez que, tudo o que for considerado degenerativo, infame, criminoso dentro de sua literatura, todo mal cometido e propagado pelos personagens nos romances deve ser associado a seu autor e, sendo assim ambos são condenados e punidos.Este material licencioso circulava havia muito tempo pela sociedade francesa. Indagamos a partir do que estas obras, mais especificamente as sadeanas, se tornam merecedoras de aniquilação por serem perigosas, por corromperem e/ou ultrajarem a sociedade. Neste momento, não são exclusivamente os atos algo que leva à condenação e à punição, mas também a expressão de pensamentos torna-se crime.O que indagamos é a relação entre o plano simbólico – no sentido de signo, figura que represente algo, em nosso caso a literatura libertina do Marquês de Sade, um símbolo de perigo no determinado contexto – e o real, entre imaginário e prática, se eles correlacionam-se de modo que resultem em efeitos “realmente” criminosos. Outro aspecto em nossa problemática refere-se às distâncias e/ou proximidades entre autor e personagens, se um pode responder pelo outro. Se um comportamento, ato ou qualquer prática que seja, pode ser unicamente atribuídos a obras literárias. Pautados nessas premissas, baseados nos indícios encontrados em análise de nossas fontes de pesquisa, construímos uma interpretação de quais teriam sido as motivações que levaram à condenação definitiva de Sade em 1801 e a partir daí discorremos sobre o poder e significância da literatura, especificamente a literatura licenciosa, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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naquela sociedade francesa do século XVIII e início do XIX, sua representação, interpretação, isto é, suas leituras e leitores.

A Assembléia de Deus é nossa!: o embate entre a liderança brasileira e os missionários suecos na Convenção de 1930. Wesley Américo Bergamin Granado de Paula Universidade Estadual de Londrina Mestrando Orientador Alfredo dos Santos Oliva

Em 1911, chegam ao Brasil dois missionários suecos, Gunnar Vingren e Daniel Berg, que viveram alguns anos nos Estados Unidos da América em busca de melhores condições de vida frente a depressão econômica que havia atingido o país da Escandinávia. Durante os anos no país situado ao norte do continente americano tiveram contato com os movimentos de avivamento que atingiram várias regiões, de Los Angeles à Chicago. Impulsionados pelo “chamado divino” e pela experiência com o batismo no Espírito Santo decidiram propagar tal mensagem. Este “ chamado divino” orientou os missionários a partirem rumo á um lugar chamado Pará, que posteriormente, através de um mapa, foi localizado no país tupiniquim, sobre o qual tinham poucas informações. Chegaram ao Brasil, em Belém do Pará, com o intuito de anunciar a mensagem pentecostal e o batismo no Espírito Santo. Após uma dissidência na Igreja Batista de Belém, justamente por conta de sua nova mensagem de fé, que para outras denominações era considerado uma heresia, Gunnar Vingren e Daniel Berg deram continuidade ao projeto missionário e fundaram a Missão de Fé Apostólica no Brasil, que mais tarde, especificamente em 1918, tornar-se-ia a Assembléia de Deus do Brasil. Este movimento cresceu vertiginosamente em relação aos padrões de crescimento das igrejas protestantes ou evangélicas no início do século XX. Católicos e Protestantes históricos acompanhavam impressionados as perspectivas e avanços deste movimento. O número de fiéis aumentava consideravelmente, principalmente entre as classes consideradas subalternas ou marginalizadas. A região Norte e Nordeste do Brasil foram os campos iniciais para a propagação aleatória e “militante” desta mensagem. Entretanto, em 1930, uma Convenção determinou os novos rumos para este movimento, novas perspectivas que se tornaram fundamentas para a continuidade do crescimento. Além disso, esta Convenção apresentou-se relevante quanto aos aspectos políticos, sociais e culturais que estavam inseridos nesta denominação que iniciava a caminhada no campo religioso brasileiro. Dessa forma, com os campos do Norte e Nordeste estabilizados, os obreiros brasileiros decidiram que estavam capacitados para dirigem os “trabalhos” sem a presença dos missionários suecos. Contudo, esta era, para os missionários suecos, uma impossibilidade, pois o movimento perderia força e controle. Dessa forma, a Convenção de 1930, realizada em Natal, no estado do Rio Grande do Norte, tornou-se um momento determinante na história da denominação. Nesta reunião foi convocado Lewi Pethrus, pastor pentecostal sueco da Igreja Batista Filadéfia de Estocolmo, grande liderança sobre os missionários que estavam no Brasil, com o intuito de mediar os discursos e as alas de defesa tanto dos missionários suecos, quanto dos obreiros nativos. As decisões tomadas nesta Convenção foram determinantes para o crescimento da denominação, que se tornou a maior igreja protestante do Brasil na década de 1950. Entretanto, tal ocorrência na década de 1930 expõe um tema que atingiria esta denominação durante toda a sua “construção histórica” e que gerou como conseqüências diretas a formação da maior denominação protestante no Brasil em números de membros e templos, mas esfacelada, sem A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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unidade doutrinal e com muitas lideranças aspirando pelo poder. Atualmente, tal denominação tem sofrido de cismas, conflitos e crises devido ao embate entre as lideranças nordestinas que se estabeleceram em 1930 e a nova ala de pastores que questionam a hierarquia coronelista assembleiana. Desse modo, torna-se fundamental analisar tal período, buscando analisar os embates nesta Convenção e sua importância para o crescimento da denominação no eixo Sudeste-Sul-Centro Oeste, para a manutenção da igreja até a década de 1990 e suas crises e conflitos no século XXI. Palavras-Chave: Religiões e Religiosidades; Religiões no Brasil; Pentecostalismo no Brasil; Assembléia de Deus; Convenção de 1930.

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ST 08 - HISTÓRIA: COTIDIANO, SABERES E PRÁTICAS TRADICIONAIS A influência externa do relato oral Ana Paula Aparecida Cunha (Graduada em História – Universidade Estadual de Maringá)

Palavras-Chave: História Oral; Influências; Aspectos emocionais; A utilização da História Oral como fonte Histórica, após seu ressurgimento com maior intensidade, sofre a influência direta dos grupos sociais em seus relatos. Questiona-se a possibilidade de uma memória estritamente individual, sendo que as influências externas afetam o relato de forma até mesmo imperceptível. Pode-se não convencer, mas as memórias individuais acabam se fundindo com as do meio, não reconhecendo uma lembrança em especial. Discuti-se a visão de autores como Maurice Halbwachs, Maria I. Pereira de Queiroz e Daniéle Voldman, em suas obras referentes à memória e história oral, utilizando-se também da visão de Jacques Lê Goff e Roger Chartier, que relatam mais sobre o documento escrito, e o aspecto emocional do depoimento, e procura-se estabelecer relações entre os autores citados. Voltando os olhos para a questão emocional do depoimento, esse registro da experiência vivida está diretamente ligado as emoções; quando ocorre a transmissão do fato é impossível fazer o relato sem deixar, mesmo que inconscientemente, suas emoções influenciarem no depoimento. Quando há referências de emoções pessoais, Maurice Halbwachs remete a principal questão de sua obra``Memória coletiva´´: Se há a possibilidade de uma memória estritamente individual. A afirmação de Maurice Halbwachs é de que a memória individual existe à partir da memória coletiva e os grupos sociais, a qual a sociedade está inserida, influenciam diretamente. Maria P. de Queiroz, afirma sobre a impossível tarefa de escapar das influências exteriores. De forma mais metodológica``Usos e abusos da história oral´´, obra de Daniéle Voldman com coordenação de Marieta de Moraes Ferreira e Janaína Amado , quando faz referência aos grupos sociais, remete a seleção das testemunhas, interrogando se a história é a mesma com cada tipo de testemunha. O ideal de``eco´´, de Maurice Halbwachs, que é o que se pode chamar de poder de persuasão de um grupo, consiste em ouvir as palavras e eventos do grupo social e acreditar que são pessoais. Não se percebe essa influência, porque não é interesse do grupo que seja percebida. Essa transmissão de idéias do grupo, como sendo individuais, está presente no exemplo dos militantes. A legitimidade procurada pelo grupo tem sua forma mais expressiva nos depoimentos de seus membros.Admitindo-se a idéia que de há sempre uma mediação exterior expressando o individual, estaremos sempre num meio coletivo. Logo, é conveniente, além de perguntar-se sobre a origem e natureza do documento, atentar para os diferentes modos de construção do testemunho, algo que no presente artigo não é o foco de estudo, logo não será aprofundado.Partindo do princípio da influência do grupo social e do pensamento de Roger Chartier na obra `` Á beira da Falésia´´, o grupo social em si merece uma atenção especial. Um Grupo social nunca é original, ele é resultado de muitas interações e conflitos, interações estas que também estão presentes na obra de Maurice Halbwachs. As manifestações não podem ser tidas particularmente elitistas ou populares. Sendo toda relação uma relação de poder, todas as relações conseqüentemente são de confronto. Percebe-se facilmente essas interações na sociedade em manifestações concebidas como populares e mais tarde elitizadas, como o carnaval. De todas essas interações, conflitos e confrontos mentais, vêm a dificuldade de trabalhar com mentalidades. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Mais exercida do que teorizada, esta história das mentalidades ``à francesa´´ repousa sobre um certo número de concepções mais ou menos comuns a seus práticos (CHARTIER, 1982:p 34).As lembranças são resultado de pensamentos variados e justapostos, mesmo parecendo estranho que as lembranças mais pessoais são resultados de uma fusão. Sendo assim, não atribuí-se a nenhuma lembrança em especial, espera-se pelo acaso, pela causalidade, para que as memórias apareçam e se sucedam na consciência individual.A exposição dos autores citados permite concluir que a memória individual existe à partir da memória coletiva, como relata Maurice Halbwachs. As influências do grupo social insere-se no círculo de memórias deste grupo, e essas memórias são tão fortes que a percepção delas é de como uma memória particular. O termo``círculo de memórias´´ exprime bem esta relação, pois além desta transmissão interna do grupo, há a possibilidade de interações com outros grupos.

Problemáticas dos espaços de formação docente: o liso, o estriado e a poética da História Claércio Ivan Schneider Doutor – Professor do Departamento de História da Unicentro, Campus de Irati. Palavras-chave: formação docente; espaço liso; espaço estriado. O ensino de história e a formação docente agregam práticas e saberes de todas as ordens. Saberes tradicionais, conhecimentos científicos e imaginação histórica se inter-relacionam na prática do ensino, apontando os diferentes caminhos que a experiência e a reflexão docente oportunizam na representação da história. As relações inter e transdisciplinares, as múltiplas formas de narrativa, as novas tecnologias educacionais e a valorização da heterogeneidade das manifestações culturais implicam diferentes posturas e compreensões no saber fazer histórico. Problemas estes que tornam o ofício de professor de História uma atividade educativa que exige mais do que nunca criação e criatividade voltadas à essência da razão poética como perspectiva sensível para as interpretações, as percepções e os sentidos, sempre plurais e inconclusivos, que o ensino e a pesquisa implicam no mundo contemporâneo. O docente deve estar atento às novas formas de comunicação e de linguagens, compreendendo a importância decisiva que as subjetividades, as sensibilidades e as narrativas fazem entender, investindo na dimensão poética da arte de se compreender, ensinar e escrever histórias. Neste texto em particular, coloca-se em evidência os papéis formativos dos sujeitos no campo educacional, objetivando problematizar os espaços que intermedeiam a relação entre a formação docente e as perspectivas de ensino de História. Como entender os espaços, as linhas, as direções e as dimensões que implicam direta e indiretamente na formação dos docentes em História? O que permanece e o que modifica na natureza do percurso dessa formação? De que forma os valores tradicionais e tecnológicos, entre os sujeitos e a instituição, são misturados, urdidos ou antagonizados neste ou por este processo? Qual a importância da dimensão poética no saber e no aprender histórias? Há uma constante tensão entre a lógica docente e a discente. Espaços, perspectivas, interesses e subjetividades superpõem-se, situando professores e discentes em campos que ora se aproximam ora se opõe entre o respeito e a crença às regras institucionais ou a indisciplina e a busca pela quebra das hierarquias. No cotidiano escolar, questões socioculturais são engendradas nas experiências dos sujeitos na e a partir da Instituição, seja ela pública ou privada. As tensões demarcam posições características que remetem as posturas do professor de um lado, aluno de outro; o ensino de história de um lado e o saber A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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discente de outro; a instituição de um lado, os estudantes de outro. Direta ou indiretamente, estas formas dualistas de situar os papéis dos sujeitos e as regras na universidade correspondem à distinção que Gilles Deleuze e Félix Guattari constroem na obra Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia entre o que identificam como espaço estriado e espaço liso e que para este texto se torna substancial discussão teórica para se lidar com os problemas acima destacados. A conceituação possibilita refletir duas formas de se situar no campo de formação universitária: de um lado a do professor, investido pelas regras institucionais, que caracteriza o espaço estriado; de outro, os discentes, sujeitos cujas lógicas transgridem, ameaçam, zombam ou mesmo colocam em xeque o sentido institucional do ensino que recebem ou que são alvos. Estes são entendidos no espaço liso, caracterizado pela “ausência” das regras, que implica resistência e descrença para com a instituição. Nas palavras dos autores:O espaço liso e o espaço estriado – o espaço nômade e o espaço sedentário – o espaço onde se desenvolve a máquina de guerra e o espaço instituído pelo aparelho de Estado – não são da mesma natureza. Por vezes podemos marcar uma oposição simples entre os dois tipos de espaço. Outras vezes devemos indicar uma diferença muito mais complexa, que faz com que os termos sucessivos das oposições consideradas não coincidam inteiramente. Outras vezes ainda devemos lembrar que os dois espaços só existem de fato graças às misturas entre si: o espaço liso não para de ser traduzido, transvertido num espaço estriado; o espaço estriado é constantemente revertido, devolvido a um espaço liso126.É possível perceber que os espaços não se comunicam entre si da mesma maneira, embora se misturem. Esta complexidade que faz com que os dois espaços se comuniquem, entre oposições e misturas, é identificado no meio educacional. Tensão que perpassa por todos os graus de formação e que implicam posturas que, como será visto, parece reverter as posições no espaço. Em outras palavras, o campo educacional de formação docente agrega dimensões que urdem os espaços, fazendo com que docentes e discentes percorram espaços lisos e estriados concomitantemente, em prol da formação multicultural. Nesse sentido, por mais que os acadêmicos sejam disciplinados, vigiados e instruídos pelos professores “técnicos” às regras institucionais, a permanência de valores e atitudes “marginais” superpõe-se à organização imposta pelo Estado. Assim, o controle não é eficaz, até mesmo porque os currículos também abrem brechas como formas de resistências discentes e mesmo docentes. O espaço estriado, entendido como o espaço institucional, é dirigido e modificado segundo a natureza do percurso. Em se tratando do campo educacional, principalmente na área de formação do docente em História, os currículos, entendidos como mapas ou roteiros de viagem, que são os instrumentos do espaço estriado, institucionalizado, identificam um percurso mensurável. O discente, no entanto, embora consciente do percurso estriado, mantem um espaço de intensidade, de valor e de interesse incerto, afrontando entre o liso e o estriado. A universidade, nesse sentido, não significa espaço estriado por natureza, uma vez que nela ocorrem os dois espaços, o liso e o estriado, que se comunicam, se contaminam, não necessariamente são opostos. Por questões como esta, a universidade, apesar da intenção uniformizadora e das ferramentas de estrialização (regras, estatutos, currículos) dominante de seu espaço, continua abrindo brechas para os estudantes preservarem os espaços lisos. Impossível neutralizar ou estrializar este sujeitos em sua completude. Em meio a esta discussão que intermedeia a relação entre os espaços dos sujeitos no campo educacional, é fundamental compreender os diferentes sentidos que a educação, o ensino de História e a formação de professores implicam na atualidade. Este texto busca mapear a natureza e as implicações dos afrontamentos que caracterizam este universo relacional. Defende-se a necessidade de investimento em uma perspectiva de história que sobrevalorize a 126

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.5. Ed. 34, São Paulo, 1997. Pp.157,158.

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dimensão poética. A construção de uma sociedade participativa pautada no respeito à multiplicidade de manifestações e sentidos é um compromisso que extrapola os espaços formativos e que sugere novas formas de investimentos de sentidos, de subjetividades, de sensibilidades no espaço do saber fazer histórico. Nesse sentido, para a análise que se propõe, associa-se às formulações de Deleuze e Guattari, a noção de poética da história, promovida por Paul Zumthor.

O papel social da leitura em uma comunidade tradicional – faxinal Marmeleiro de CIMA (Rebouças-Pr) Jacieli Domingues Pereira (Mestranda em História e Regiões – Universidade Estadual do Centro-Oeste) Orientador: Prof. Dr. Ancelmo Schörner Palavras-chave: Leitura, Práticas, Representações, Faxinal O presente trabalho procura averiguar a validade de uma história cultural da leitura no âmbito de um grupo ainda pouco estudado pela história e que conserva uma tradição oral muito forte: os faxinalenses. O intuito principal é compreender historicamente as práticas de leitura dos moradores do Faxinal Marmeleiro de Cima, localizado na cidade de Rebouças-Paraná, e seu papel social nas décadas de 1930 e 1940. Os faxinais, por serem ainda pouco estudados, oferecem uma gama variada de possibilidades de pesquisa, pois a relação que seus habitantes estabelecem com a natureza, com o mundo e com o sobrenatural dota esses grupamentos de características muito peculiares e ao mesmo tempo intrigantes.A leitura é hoje tida como um ato normal, corriqueiro, mas nem sempre foi assim. Em diferentes momentos e grupos sociais ela assumiu variadas formas, atribuindo-se a ela maior ou menor importância de acordo com o contexto vivido.127 “Toda leitura interage com a cultura e os esquemas dominantes de um meio e de uma época”, isso significa que a apropriação que se faz dela varia de um grupo humano para outro.128 As finalidades a que se destina seu aprendizado e os modos como este ocorre também são os mais variados e podem revelar aspectos da cultura de um povo.Sabe-se que a leitura não é algo inato ao homem, ou seja, não nasce com ele, não faz parte dele naturalmente. Longe disso, requer todo um processo de aprendizado, pautado em técnicas e estratégicas institucionalizadas. Este, em geral, ocorre no reduto escolar sendo, pois, a escola o lugar da leitura por excelência. Mas e o que dizer do faxinal, onde não havia escolas até o final da década de 1940? Supomos que por não haver a necessidade de seguir regras e métodos impostos pelo governo, na localidade em questão o aprendizado da leitura se dava de modo diferente e visava outros propósitos, que não os da escola formal naquele período histórico. “A leitura se inscreve numa dada época e circunstância”129, porém, sabemos que nem sempre é possível acessar os seus significados por meio da escrita, principalmente quando se trata de uma comunidade que dá grande valor a tradição oral, e não cultiva o hábito de preservar os documentos escritos. A deficiência de fontes escritas, no entanto, não significa um empecilho, pois as narrativas sobre a leitura nos fornecem elementos fundamentais para 127

DARNTON, Robert. História da Leitura. In: BURKE, Peter, org. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1989, p.199-236 128 JOUVE, Vincent. A Leitura. Trad. Brigitte Hervor. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 22. 129 PANDINI. Carmen Maria Cipriani. Ler é antes de tudo compreender... uma sintese de percepçào e criação. Disponível em

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compreendermos seus significados. A história oral, portanto, é nossa grande e principal aliada.Num momento em que não dispunham de espaços institucionalizados para ter acesso ao aprendizado da leitura, os faxinalenses buscam novas alternativas para estabelecer tal contato. O propósito de garantir às crianças a oportunidade de ingressarem no mundo letrado nos provoca inquietações. Inseridos em um meio eminentemente rural, onde o destino provável era do trabalho na roça, os faxinalenses queriam aprender a ler, mas que motivos vislumbravam a tal ponto? Em que medida a leitura poderia fazer diferença na vida de um agricultor, dedicado quase que exclusivamente ao cultivo da terra? Ainda que não possamos estabelecer uma generalização, observamos por meio dos relatos que o motivo principal de se aprender a ler, mesmo estando fora da escola, era a possibilidade da obtenção de um elemento distintivo diante dos demais membros do Faxinal, o que conferia ao sujeito um status. Mas isso não é tudo. O contato com a leitura permitia também ao individuo se afirmar diante de seus pares como alguém que não mais seria enganado por não conhecer as letras, além de propiciar sua mobilidade fora de seu habitat. Ou seja, saber ler garantia ao faxinalense inserir-se em outros grupos que não o seu e compreendê-lo de forma independente. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS DARNTON, Robert. História da Leitura. In: BURKE, Peter, org. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1989, p.199-236 JOUVE, Vincent. A Leitura. Trad. Brigitte Hervor. São Paulo: Editora UNESP, 2002 PANDINI. Carmen Maria Cipriani. Ler é antes de tudo compreender... uma sintese de percepçào e criação. Disponível em

Escrevendo a História dos e nos Entremeios: Lugar e Espaço em Michel de Certeau e o Papel Social do Historiador João Rodolfo Munhoz Ohara (graduado em História (UEL); mestrado em História Social (UEL orientação André Luiz Joanilho) Palavras-chave: escrita da história; Michel de Certeau; práticas historiográficas

As práticas espaciais ocupam lugar privilegiado no pensamento de Michel de Certeau, historiador francês do século XX. Considerado por colegas como o “historiador passante”, um marcheur, os termos de François Dosse, Certeau devotou grande atenção ao estudo das sutilezas das reações microfísicas e cotidianas ao poder disciplinar, tão bem descrito por Michel Foucault. Da análise dessa tensão entre a disciplina e sua recepção, pode-se dizer que surge, entre outros, o par conceitual Lugar/Espaço, tal como compreendido em A Invenção do Cotidiano. Nessa obra, o lugar designa a ordem estabelecida segundo a qual determinados elementos são distribuídos determinadamente; já o espaço designa o lugar praticado – algo como a somatória de possibilidades de invenção em torno dos referenciais impostos, como se possível. Tomando a comparação feita pelo próprio Certeau, o lugar está para a linguagem como o espaço está para a fala. Assim, por mais detalhada e minuciosa que seja a atuação do poder disciplinar, cartografando e categorizando o tecido social e atravessando corpos, Certeau se interessa aqui pelas reações, subterfúgios, pelas práticas sub-reptícias que se A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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aproveitam das ranhuras para escapar, minar ou torcer tal ordem. Este trabalho expõe a hipótese segundo a qual podemos compreender a prática da escrita da história a partir de uma comparação metafórica que aproxime a prática historiográfica das práticas espaciais a fim de discutir o papel social contemporâneo do historiador. Tal proposição toma como referência central a ideia de Certeau de que a história é produto de uma série de operações técnicas que visam domesticar e colonizar a alteridade do passado para representá-la no texto. Para construir a seguinte reflexão, tomarei a noção de “entremeio” (entredeux), usada recorrentemente por Certeau para designar justamente o espaço de “fronteira”, no qual se vê muito claramente se amalgamarem traços do Mesmo e do Outro, e, portanto, inversamente, no qual as referências se encontram menos claramente definidas. Mostrarei que “escrever a história do entremeio” e “escrever a história no entremeio” são proposições que permitem problematizar a operação historiográfica, retomando e atualizando a discussão empreendida por Certeau nos anos 70 do século XX. Em seguida, construirei o paralelo entre as práticas historiográficas e as práticas espaciais tendo por base o “entremeio” para, finalmente, reconhecer o potencial transformador do ofício historiográfico pela ótica do poder inventivo do caminhante do cotidiano. Esta discussão tem por pano de fundo a emergência contemporânea do que se chamou “história pública” (public history). Embora ainda sem contornos muito claros no Brasil, essa tendência já vem sendo discutida abertamente nos Estados Unidos e na França, principalmente, a fim de pensar tanto o posicionamento do historiador em relação ao público (tanto como esfera política quanto como esfera econômica) quanto as condições da escrita de uma história pública, de interesse público. Esse setor emergente também fomenta ainda mais a discussão em torno das relações entre memória, história e esquecimento, buscando soluções para o tratamento da história de momentos históricos traumáticos, bem como o uso de novas mídias na construção, difusão e debate do conhecimento histórico. Pensar o discurso historiográfico como discurso transformador significaria então pensar uma dimensão ampliada da didática, para além das salas de aula e do conteúdo acadêmico, no sentido da construção de uma dimensão que Foucault chamaria de “postura crítica” com relação à nossa sociedade. Nesse sentido, encarar o historiador como alguém que é capaz de questionar os fundamentos do presente de maneira histórica traz uma dimensão pública importante aos debates a respeito do papel social de nossa profissão e sobre nossas contribuições para a sociedade contemporânea. Maria das Graças Alves de Jesus

O método arqueológico e a história. Pedro Ragusa – Mestrando – Universidade Estadual de Londrina . Orientador: André Luiz Joanilho. Metodologia – História – Teoria.

O objetivo deste trabalho é estudar o percurso interno da trajetória do método arqueológico de Michel Foucault e a temporalidade, sendo esta uma categoria da História. Partiremos então da seguinte problemática; O que pretendeu Foucault com a pesquisa arqueológica no campo da História? Podemos afirmar que ele compreendeu esta como um saber que se faz pelo conhecimento de séries sobre as tramas narrativas dos discursos do saber e do poder. E por pesquisa arqueológica, entendemos ser esta, a forma de pesquisa no campo da História realizada por Foucault no início de sua trajetória acadêmica, na década de 1960 principalmente, e que busca descrever os enunciados discursivos e neles encontrar as A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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possibilidades das praticas humanas em sua relação com os objetos.A pesquisa arqueológica marcou seus primeiros trabalhos, dessa forma o estudo se dará a partir da análise inicial dos livros escritos nos anos de 1960, para esse trabalho em especial vamos estudar principalmente o livro intitulado; A Arqueologia do saber130. Esse livro foi escolhido por representar o último trabalho na fase arqueológica, e por ser extremamente técnico quanto ao método, trata-se de uma explicação sobre a pesquisa que vinha sendo feita nos anos de 1960. Dessa forma, nosso estudo possibilitará uma compreensão de como se deu a prática do método de Foucault com o saber historiográfico, além de compreendermos a relação com desse método com a história. Além das análises sobre a arqueologia, consideramos também compreender, como se relacionam os conceitos de continuidade e descontinuidade na temporalidade histórica, a noção de série como contextualização histórica, e a idéia de ruptura demonstrando sempre haver mudanças, transformações e singularidades nos acontecimentos da História, para isso também deixaremos claro a noção de individualidade e rarefação dos acontecimentos. No livro A Arqueologia do Saber, Foucault procura por explicar toda a rede conceitual que faz parte da aplicação do método arqueológico, e isso implica em uma definição conceitual que passa pela história, pela análise do discurso e pela filosofia. Conceitos como os de formação discursiva, enunciado, regras de formação, positividade, descontinuidade e sujeito fazem parte desse esclarecimento que nos ajuda a compreender o que foram as histórias arqueológicas, e o próprio método arqueológico. Método este que de tão singular, por muitas vezes nem é interpretado como um método, mas como um procedimento de pesquisa.Acontece que as historias arqueológicas não possuem algo como uma essência ou uma prática operacional homogênea que possa se traduzir sob a condição de uma unidade metodológica de pesquisa que faça a verdade aparecer limpa e tranqüila, afinal para a arqueologia a história (textos e documentos) não existe como um “dado” onde o historiador busca encontrar uma essência onde estará a verdade. Quando pensamos na arqueologia foucaultiana em sua relação com a prática historiográfica devemos já ter em mente que esta operação não é fixa, e que também não procura estabelecer ou iluminar os acontecimentos com verdades oferecendo ao passado uma realidade objetiva, que possa ser traduzida como uma narrativa. As histórias arqueológicas são moveis, pois deslocam-se através dos discursos e pelas suas camadas (formações discursivas), contornando os saberes e procurando descrever e individualizar os enunciados discursivos encontrados supondo uma regularidade que os faz funcionar o seu sentido de verdade. A arqueologia também não assume o caráter de uma ciência, seu horizonte não é o de uma racionalidade histórica buscando encontrar a inteligibilidade entre os acontecimentos. Enfim, a arqueologia não procura descrever os discursos das disciplinas científicas em sua relação com as verdades que estes discursos podem revelar, mas procura descrever seus limiares, suas rupturas, seus limites e pontos de cruzamento, o que Foucault chama de um “emaranhado de interpositividades”.

Entre discursos institucionais e práticas faxinalenses: a infestação de gafanhotos e peste suína em Irati-Pr na década de 1940 Regiane Maneira (Mestranda em História) – UNICENTRO Hélio Sochodolak (Orientador) – UNICENTRO Palavras-chave: Infestação de gafanhotos; Peste Suína; Faxinais. 130

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007a.

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O artigo que pretendemos desenvolver possui como objetivo principal identificar e analisar historicamente os discursos presentes nos documentos institucionais e nas narrativas faxinalenses sobre a infestação de gafanhotos e a peste suína, bem como acessar os sistemas de práticas e significações produzidas pelos faxinalenses em relação a estes dois eventos ocorridos no final da década de 1940. Para isso, analisaremos os documentos produzidos pela prefeitura municipal de Irati e pelo governo do Estado do Paraná que fazem referência à infestação de gafanhotos e a peste suína, como mensagens, telegramas, relatórios e ofícios. Também nos utilizaremos de entrevistas que já foram realizadas e tiveram como depoentes pessoas que viveram ou ainda vivem nos faxinais de Irati, mais especificamente no Faxinal do Rio do Couro e Faxinal dos Mellos, e que presenciaram a infestação de gafanhotos e a peste suína. A coleta das entrevistas seguiu a metodologia da História Oral, sendo utilizados os procedimentos já consagrados, como o termo de ciência e esclarecimento, a transcrição com assinatura do depoente e o termo de autorização do uso das informações para uso acadêmico.O Sistema Faxinal possui como característica principal o uso coletivo da terra na criação de animais em regime de compáscuo. O faxinal é, regra geral, dividido em terras de plantar, destinadas ao cultivo agrícola, que são delimitadas por uma cerca construída coletivamente, e também em terras de criar, destinadas à criação de animais de várias espécies. A agricultura faxinalense tradicional baseia-se na produção de gêneros alimentícios como arroz, feijão, milho, batata, mandioca entre outros, que são destinados ao consumo das famílias e também para a venda do excedente. Há também a criação extensiva de animais, especialmente porcos, que faz parte da prática cultural dos faxinalenses. Na década de 1940, mais especificamente em 1946, Irati-Pr teve suas plantações destruídas por nuvens de gafanhotos. Nos anos seguintes, a peste suína assolou a criação de porcos no município. Nesse período, a maioria das comunidades da área rural de Irati estavam organizadas no sistema de faxinal, que possuía como característica principal a criação de animais - especialmente porcos e a prática da agricultura de subsistência.A infestação dos gafanhotos e a peste nos porcos afetaram a base do sistema de faxinal e colocaram a prova não só seu funcionamento, como também a permanência das pessoas no campo e ainda sua própria sobrevivência. Sem a possibilidade de criar os porcos para o consumo, por conta da peste suína, sem a lavoura de subsistência, esta atacada pelos gafanhotos, era de se esperar a ruína do faxinal. Um êxodo para as cidades, uma migração em massa. Contudo, percebemos que ao invés disso, os faxinalenses permaneceram no campo e produziram significados, explicações para esses eventos. E mais ainda, percebemos que os discursos presentes nas narrativas faxinalenses divergem dos discursos produzidos pelo governo do Estado do Paraná e pela prefeitura de Irati no que tange a estes fatos.Os significados/interpretações que aparecem nas narrativas faxinalenses apontam, quase sempre, para a religiosidade. Em algumas narrativas a infestação de gafanhotos e a peste suína são interpretadas como castigo divino, sendo que os faxinalenses se utilizaram de rituais para tentar combater esses “males”. Em relação aos gafanhotos, os faxinalenses começaram a realizar rezas nas casas dos moradores da comunidade. Além disso, algumas benzedeiras também faziam alguns rituais, na tentativa de expulsar os insetos dos campos. Ao contrário das narrativas faxinalenses, os documentos institucionais encerram narrativas calcadas em discursos científicos e higienistas que valorizam o controle, o registro, a disciplina e as normas de saneamento. Com relação à peste suína os faxinalenses deveriam seguir algumas normas como vacinar os porcos e não consumi-los. Já os gafanhotos, deveriam ser combatidos com pesticidas e lança-chamas.Como podemos perceber, os eventos do final da década de 1940 produziram, e ainda produzem, inúmeras narrativas. Podemos afirmar que há, por um lado, uma narração institucional, da governança, e por outro, as narrativas das pessoas que mais vivenciaram os eventos e seus efeitos, os faxinalenses. Identificar e analisar A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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historicamente esses discursos, tanto institucionais como dos faxinalenses, figura dentre nossos objetivos.A nosso ver, nossa pesquisa contribuirá na compreensão histórica da cultura faxinalense e na ampliação dos conhecimentos acerca desse modo de vida tradicional. Além disso, permitirá uma maior visibilidade desses sujeitos, que por muito tempo foram negligenciados pela historiografia. História cultural: teoria e metodologia em Pierre Bourdieu e Michel Foucault Renan Saab Rodrigues Manaia Mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina A seguinte comunicação tem como proposta expor de que forma podemos trabalhar com os pensadores franceses Pierre Bourdieu (1930 – 2002) e Michel Foucault (1926 – 1984) junto a História Cultural. A História Cultural que nas palavras de Peter Burke não seria uma subárea da história na qual a cultura surgiu no âmbito da anunciada crise dos paradigmas e esses autores possuem um caráter fundamental para essa construção. Pierre Bourdie, sociólogo de ofício teve um papel fundamental na elaboração de conceitos que sustentam as ideias dos objetos trabalhados pela Historia Cultural. A sua obra teve a capacidade de ultrapassar limites acadêmicos , realizando uma interdisciplinaridade com enorme grau de leveza , fundamentos e grandes resultados. A história foi uma das ciências a se beneficiar com esses diálogos , principalmente no campo da história cultural. Uma das suas grandes obras a ter destaque nessa afirmação é a de 1992 , As Regras da arte onde a literatura , a história e a sociologia interagem de uma qual maneira que todos os conceitos elaborados, desenvolvidos e executados por ele ficam claro para o historiador. Nesse livro , parafraseando Chatier , Bourdieu considera as lutas de representação, que levam ao estabelecimento de quem é digno da categoria de artista, ou de um título, como no caso do título acadêmico. Assim , Bourdieu dialoga com as novas analises a frente da literatura e principalmente junto as manifestações culturais – interagindo com a obra de Michel de Certeau e o discurso/autor de Michel Foucault . Ele também foi fundamental para a criação de conceitos que auxiliam os historiadores ao trabalharem com a cultura. O conceito de campo e habitus são um dos mais desenvolvidos e utilizados pelos historiadores que dão fundamentos para a utilização de outros teóricos como Foucault ou Koselleck junto a suas pesquisas. O campo ganha destaque na obra de Bourdieu , principalmente ao se relacionar junto a ideia de “campo cultural”. Esse conceito começou a ser trabalhado na obra de 1964 em colaboração com Jean-Claude Passeron , Les heretiers , onde marca um grande contato com etnografia para fundamentá-lo.A seguinte comunicação tem como objetivo principal destacar a importância de Pierre Bourdieu junto a história cultural e de que formos podemos utilizar cada vez mais as suas ideias a fim de articularmos nossas pesquisas. De outro modo, Michel Foucault Se observarmos detidamente o comentário de Peter Burke, as formulações críticas de Michel Foucault sobre a história iam de encontro aos pressupostos fundamentais da História tradicional. Encontramos nele um demorar-se sobre o documentado, o efetivamente dito e o efetivamente feito; um cuidado meticuloso com a historicidade das palavras e das coisas, das práticas e dos discursos, dos objetos e dos sujeitos. Ao mesmo tempo, trata-se de um pensamento extremamente comprometido com a renovação da prática historiográfica a partir de uma crítica radical da própria razão histórica. ST 09 - AS MULTIFACES DO PODER NA HISTÓRIA E CIÊNCIAS HUMANAS Uma análise da imagem de Rei e da Nobreza a partir dos escritos do Conde Pedro Afonso de Barcelos

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Adriana Mocelim de Souza Lima Doutoranda em História pela Universidade Federal do Paraná sob orientação da professora Drª Fátima Regina Fernandes. Professora de História da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Palavras-chave: Linhagens – Crônica – Espelho Este trabalho tem como objetivo apresentar resultados de uma problemática que pesquisa elementos identificadores da construção de uma imagem ideal de rei e de nobreza, levantada a partir de duas obras atribuídas ao Conde Pedro de Barcelos, filho bastardo do rei Dinis de Portugal: o Livro de Linhagens de 1340, e seus modelos de atuação, e a Crônica Geral de Espanha de 1344. As duas obras em questão, ligadas ao passado da Península Ibérica, trazem elementos que visam apresentar uma determinada ordem do mundo: a ideia de “hispanidade”, ou seja, de uma unidade histórica e cultural, dentro da Península Ibérica. Essa problemática tem sido trabalhada desde a monografia de conclusão do curso de História, onde foi analisado o Livro de Linhagens, escrito em 1340. A partir desse primeiro estudo foram suscitados novos questionamentos que levaram à elaboração da dissertação de mestrado, defendida em 2004, intitulada “Por meter amor e amizade entre os nobres fidalgos da Espanha. O Livro de Linhagens do Conde Pedro Afonso no contexto tardo-medieval português.” Na dissertação foi analisada a construção de uma imagem ideal de Rei e de Nobreza a partir dos trechos de narrativas históricas presentes na obra. Embora curtas, aparecem em grande quantidade ao longo do texto, tendo sido analisados cerca de quarenta e cinco trechos, ligados a tradições familiares. Dentre eles encontram-se anedotas, trechos que põe em relevo valores da vassalidade e outros que se aproximam bastante do gênero histórico presente nas Crônicas. A partir desta análise veio o interesse em continuar a pesquisa, ingressando assim no doutorado analisando outra obra do mesmo autor a Crônica Geral de Espanha de 1344. Tratase de uma obra com outras características, um novo universo a ser desvelado. A presente proposta visa apresentar alguns elementos que foram levantados até o presente momento da pesquisa destinada à elaboração da Tese de doutorado, cuja problemática está ligada à análise da Crônica Geral de Espanha de 1344 levantando elementos que possam caracterizar uma determinada representação de rei e de nobre ideal. São atribuídas ao Conde Pedro Afonso diversas obras literárias, de variada natureza, no qual se inclui a Crônica Geral de Espanha de 1344 e o Livro de Linhagens, além de cantigas. Tais obras foram escritas na primeira metade do século XIV, época essa marcada pela transição de valores tradicionais do reino. Percebe-se em seus escritos forte influência da Corte castelhana, na leitura de textos históricos e no método historiográfico, colocado em prática por seu bisavô Afonso X. É reconhecido ainda como um dos primeiros escritores de língua portuguesa, estando seu nome ligado às raízes do movimento historiográfico português. O século XIV, período em que o Conde escreveu suas obras, foi marcado por uma colaboração cada vez maior de clérigos e leigos na constituição da cultura profana em Portugal. Nessa conjuntura, o Conde aparece como um sintetizador de tais influências. Para escrever suas obras recolheu tradições ligadas ao mundo profano e clerical, histórias e narrativas das Cortes Régias e Casas Senhoriais. A história transparece nas obras do Conde Pedro Afonso como vista através de um espelho, onde são refletidos os feitos dos grandes homens, seus atos heróicos e conduta exemplar, fundada em ideais de honra e valentia. Não deixando de condenar em suas obras determinadas atitudes, que não condizem com essa imagem idealizada que busca consolidar. A obra do Conde Pedro Afonso tem como característica desvendar o quadro senhorial português que antecede a grande crise da primeira dinastia. Além de constituir, a esse título, um notável documento histórico para compreender a fase inicial do Reino através da descrição das tradições e da mentalidade da nobreza. No contexto, entre o final do reinado de Dinis e o início do reinado de Afonso IV, período em que o Conde escreveu o Livro de Linhagens e a Crônica Geral de Espanha de 1344, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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é que se encontra o foco principal da presente proposta de comunicação, que tem por objetivo apresentar o ideal de rei e de nobreza a partir das obras do Conde Pedro de Barcelos.

O processo de individualização do homem e a idéia do retorno à vida comunitária através das lutas sociais a partir da concepção marxista Anderson Prado Docente do Departamento de História da Universidade Estadual do Paraná – Campus Paranaguá - Mestre em História Social

Este estudo tem por finalidade fazer uma abordagem sobre alguns conceitos dos Movimentos Sociais mais atuantes na sociedade contemporânea, sobre tudo, movimentos sociais ligados a “luta pela terra”. Para tal, lançarei mão de alguns conceitos já formulados e outros ainda em “formação”. Tendo como base teórica alguns autores que flutuam entre a sociologia, história e filosofia, tentando assim, achar o ponto de orientação para a legitimação histórica/teórica para os Movimentos Sociais, que ao que nos parece justifica-se em Marx e sua concepção de separação entre “homem natureza”. Nos Grundrisse, que é o texto dos esboços de O capital, Marx – tentando romper com toda esta justificação de um suposto “direito natural” à propriedade privada da terra – explica que os homens, em suas origens, não são proprietários individuais. Marx explica que os homens são, originariamente, seres gregários que vivem em comunidade. A relação inicial de apropriação das coisas aparece como relação de apropriação comunal das riquezas naturais, onde a terra aparece como “o fundamento mais elementar de toda a existência humana, como o arsenal natural que possibilita extraírem-se as mais básicas condições objetivas para o simples existir dos homens em comunidade”. Os homens se relacionam entre si e com a natureza como co-proprietários dela (não no sentido jurídico do termo). Nestas origens, a terra é o lócus objetivo possibilitador do surgimento de uma subjetividade regedora do princípio comunal/natural da comunidade. Marx explica, portanto, que a criação do indivíduo – da individualidade, no sentido moderno do termo – é histórica: o homem é por natureza um ser comunal (um ser gregário, um ser de rebanho); o que o individualiza é o processo histórico, que interpõe, em seu desenvolvimento, a figura do proprietário entre os membros da comunidade e a natureza; interpõe-se, separando a figura do indivíduo apropriador, do indivíduo que impõe seu Eu (sua vontade subjetiva) objetivamente ao modo de apropriação da riqueza material (natural e ou já produzida pelos homens) como também sobre as vontades dos demais membros da comunidade. Estes, agora, nesta nova relação, nem são exatamente sujeitos (no sentido forte do termo) – pois sua subjetividade/vontade está determinada pela vontade do proprietário – nem mais são proprietários naturais de suas condições objetivas de existência, passando a ter, então, uma relação de alienação – perda de controle, de compreensão, “não-consciência” de seu real status, no sentido marxista/hegeliano do termo – tanto com a natureza quanto consigo próprio e com seus semelhantes. Assim, para se justificar a justeza da luta pela terra na atualidade, pensamos que não é no direito burguês que devemos buscar tal explicação – que fala de direito universal à propriedade, mas que assegura ao mesmo o direito inalienável do proprietário privado (e como já está pressuposto aqui que todas as riquezas do mundo são hoje, de alguma forma, propriedade de alguém [privada ou estatal], acreditamos que seria ingenuidade imaginarmos numa bondade quase divina dos mesmos em redistribuir seus bens de livre e espontânea vontade). A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Pensamos que o lugar onde devemos buscar tal justificativa para a justeza da luta pela terra está na formação histórica da sociabilidade humana, tal qual fez Karl Marx, pois pensamos que é somente na compreensão histórica do processo de separação entre homem e natureza (como dissemos acima) é que podemos compreender e justificar a tentativa de retorno dos homens à sua relação mais fundamental com a natureza: as lutas sócias podem oportunizar a possibilidade do retorno ao campo, no caso dos movimentos de lutas pela terra, o retorno àquela relação originária, simples, do homem com o solo, com seu arsenal de objetos e meios para sua subsistência.

OS DISCURSOS JURÍDICOS NOS PROCESSOS CRIMINAIS DA COMARCA DE REBOUÇAS/PARANÁ DIANTE DA PRÁTICA DO INCESTO.

Eduardo Mady Barbosa – Mestrando de História Orientadora: Profª Drª Luciana Rosar Fornazari Klanovicz - UNICENTRO. Palavras chave: Incesto, Representação, Poder. Esta pesquisa tem por objetivo analisar as representações discursivas encontradas nos processos criminais instaurados para apurar a prática de crimes sexuais, delimitados ao incesto, na comarca de Rebouças (que engloba os municípios de Rebouças e Rio Azul), no estado do Paraná no período de 1935 – 1985.O incesto – união ou cópula ilícita entre parentes próximos – é culturalmente considerado tabu, uma prática profana condenada pela maioria das religiões e ilegal na maioria das sociedades em que se manifesta. A prática do incesto, estudada pelos diversos campos das humanidades, é entendida pela antropologia estruturalista de Levi Strauss como tabu universalmente presente em todas as sociedades, sendo fundamental para se compreender as especificidades das culturas (LÉVI-STRAUSS, 2005, p.15). A proibição do incesto não é nem puramente de origem cultural nem puramente de origem natural, e também não é uma dosagem de elementos variados, tomados de empréstimos parcialmente à natureza e à cultura. Constitui o passo fundamental graças ao qual, pelo qual, mas sobretudo no qual se realiza a passagem da natureza à cultura. Em certo sentido pertence à natureza, porque é condição geral da cultura, e por conseguinte não devemos nos espantar em vê-la conservar da natureza seu caráter formal, isto é, a universalidade. Mas em outro sentido também já é cultura, agindo e impondo sua regra no interior de fenômenos que não dependem primeiramente dela (LÉVI–STRAUSS, 1982, p.62). Já a psicologia clássica define esta prática como impulso animal, inerente a natureza humana e ao mesmo tempo enquanto representação de uma região não civilizada: “O incesto é antissocial e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele” (FREUD, 1980, p.21).O tabu é uma proibição primeva forçosamente imposta (por alguma autoridade) de fora, e dirigida contra os anseios mais poderosos a que estão sujeitos os seres humanos. O desejo de violá-lo persiste no inconsciente e aqueles que obedecem ao tabu têm uma atitude ambivalente quanto ao que o tabu proíbe (FREUD, 1980, p.55).O uso de processos criminais como fonte de pesquisa tem se tornado prática comum e entre historiadores e outros profissionais. A historiografia demonstra que, cada dia mais, a utilização de processos judiciais como fonte histórica vem tomando conta das Ciências Humanas. Historiadores, sociólogos e antropólogos baseiam-se nos dados contidos nesses documentos para o encaminhamento de suas pesquisas, realçando a existência de ricas informações sobre o cotidiano e as práticas dos indivíduos envolvidos na ação criminal. (RIBEIRO, 2004, p. 12). Tal posição é corroborada por Ginzburg em sua obra “O inquisidor como antropólogo” ao afirmar que documentos antes não A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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utilizados (tais quais processos inquisitórios), são tidos como importantes, propiciando uma tendência historiográfica que permite estudar aqueles que não tiveram chance na historiografia, como os “grupos sexuais ou sociais como mulheres e camponeses, normalmente mal representados no que podemos chamar de fontes „oficiais‟.” (GINZBURG, 1991, p. 31). Ao pensar na pesquisa histórica tendo como fonte os processos judiciais Mariza Corrêa observa a exigência de um conhecimento da singularidade desta fonte, para que os estudiosos possam ter uma percepção do todo aparato jurídico, não desvinculado da sua importância ou significado social (CORRÊA, 1983, P. 51). A investigação preliminar nos processos de crimes praticados em Rebouças e Rio Azul, demonstrou a possibilidade da existência de um padrão comportamental tendente a justificar tal prática de incesto como normal, tanto pelo autor do crime como por seus familiares: De parte do acusado: “ (...) que a menor nunca cuidou direito das suas obrigações, costumava dar confiança para todos os rapazes que passavam, chegando a tomar cerveja no negocio com os homens (...) que as vezes sumia para o mato (...)”. Nos mesmos autos: “Devem aguardar em cartório a apresentação de atestado de miserabilidade e prova de idade da ofendida. Rebouças, 2/10/1946”.“Defiro o requerimento acima. Intime-se a requerente. Em, 4-10-1946. Juiz de Paz em Exercício”. Os excertos citados aqui, apenas exemplificam o rico conteúdo do que é possível ser encontrado no conjunto muito mais significativo disponível nos arquivos do judiciário da comarca de Rebouças, que apresentam expressões indiciárias da validade dos questionamentos preliminarmente levantados. Da mesma forma, em outro processo a vítima de estupro, uma garota orfã de apenas 14 anos de idade que morava com o tio, aparece qualificada como pessoa de comportamento social e sexual duvidoso pelo réu, diz o depoimento:“(...) que a menor nunca cuidou direito das suas obrigações, costumava dar confiança para todos os rapazes que passavam, chegando a tomar cerveja no negocio com os homens (...) que as vezes sumia para o mato (...)”, afirmações que em tese desqualificariam sua denúncia, artifício freqüentemente utilizado em crimes sexuais segundo Edméia Ribeiro “algumas palavras retiradas de depoimentos e pareceres dos juristas refletem uma dupla moralidade existente em relação às práticas sexuais (RIBEIRO, 2004, p. 88)Como se pode perceber há uma série de construções que direta e indiretamente permitem perceber o posicionamento dos diversos atores, e de certa maneira da própria sociedade por meio do posicionamento dos representantes de suas instituições. Em termos quantitativos foram encontrados até o momento, nos arquivos do fórum da comarca aproximadamente trinta processos de crimes sexuais diversos em que houve prática efetiva de incesto entre os anos de 1935 a 1985. Aparentemente esta quantidade de processos, apurados em um levantamento preliminar, poderia mostrar um índice pequeno da ocorrência de casos de incesto na região. Porém esta quantidade de casos apurados não representa toda a realidade factual, pois a violência sexual intrafamiliar é caracterizada pelo medo, pela vergonha, pelo silêncio das relações consubstanciadas em uma sociedade basicamente patriarcal, fazendo parte da chamada “cifra negra” das condutas criminais humanas que chegam a ser investigadas e sentenciadas (concluídas).Consideramos desta forma que os processos são representações sociais, e criam eles mesmos representações sobre papéis do que é o feminino e do masculino, e dos lugares que cada um ocupavam, ou deviam ocupar na sociedade espelhando algumas vezes as concepções já constituídas, reforçando-as em outras e mesmo criando-as muitas vezes. A investigação preliminar realizada nos processos findos apresenta como diapasão os pressupostos teórico-metodológicos da análise do discurso propostas por Michel Foucault. A opção por este tipo de análise, parte do pressuposto que o discurso jurídico institucionalizado é essencialmente um espaço de conflito, resultado da existência de uma tensão entre o poder constituído, de que a produção jurídica é permeada por relações de poder presentes na A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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sociedade, o que abre a possibilidade de que o incesto neste caso específico seja analisado enquanto uma prática de fundo sociocultural.Cabe ressaltar que os processos que serão usados, enquanto fontes neste trabalho, serão entendidos enquanto narrativas, construções tipicamente discursivas, representações portanto dos acontecimentos. Nesse sentido é importante observar que objetivo deste trabalho não é estudo do incesto e sim as representações sociais criadas a seu respeito pelo judiciário da Comarca de Rebouças.

A construção do poder divino dos reis: as representações religiosas influenciando na política Jacqueline Rodrigues Antonio (Graduada em História – professora na UTFPR campus Cornélio Procópio) Palavras-chave: Representações. Cultura. Poder. Este trabalho se baseia no conceito de poder político supremo, sustentado por Marc Bloch, comparando com pinturas em locais sacros em que figuras sagradas são retratadas como reis. As curas realizadas pelos reis no medievo, em especial na França e na Inglaterra, somada a identificação criada por meio do imaginário religioso, torna este estudo uma reflexão sobre a Cultura Política da sociedade do ocidente medieval. Nesta pesquisa foi utilizado o livro Os Reis Taumaturgos, em especial o seu segundo capítulo, As origens do poder curativo dos reis. Para o imagético foi escolhido as figuras dos Reis Magos, em especial as confeccionadas pelo florentino Giotto. Esta escolha pelos Magos do livro canônico de Mateus é fundamentada na afirmação de Argan. Seus estudos auxiliam a compreender a escolha do texto canônico de Matheus. Ele afirma ainda que as temáticas em obras de arte são escolhidos intencionalmente. No caso da Adoração dos Reis Magos, há a representação dos poderosos homenageando o Deus nascido na pobreza. (2003, p. 143)Esta afirmação cabe na produção de Giotto no afresco Adoração dos Reis Magos, da Capela Arena. Esta capela foi encomendada por um rico mercador Enrico Scrovegni, que a fez para se redimir da sua usura e de seu pai, escolhendo como tema a passagem do nascimento de Jesus. Como no século XIV que, dentre diversas imagens religiosas, os burgueses utilizaram dos Magos para uma identificação divina, a nobreza também o fez.Os Magos como Reis, indicados pelo uso de coroas, são próprios do reinado de Otto II, imperador do Sacro Império Romano, próximo ao século IX. A cena da adoração dos Reis Magos foi propícia para elevar o seu poder. Uma pintura contemporânea a este reinado ilustra a cena com Magos-Reis, investidos de suas coroas de aro de ferro, que se prostram diante da sagrada família, que estão de frente do seu “estábulo”, que tem a arquitetura de uma pequena igreja, e humildemente entregam suas oferendas (RUSSO, 1996).Quanto à questão proposta por Bloch do poder político supremo no medievo encontra-se em tempos remotos. Através de estudos o autor afirma que pelos germânicos, anterior à cristianização, o rei era escolhido em ramos de famílias nobres, sendo algumas possuidoras de uma “virtude sagrada”. Entre os Godos os príncipes eram denominados “semideuses”. Porém é importante ressaltar que neste período os reis não eram necessariamente curandeiros, pois eram raros os reis-curandeiros. Esta “força miraculosa” foi na maioria das vezes destinada a propósitos coletivos, para o bem estar de todos, e não privilégios a alguns indivíduos, ou seja, o seu poder sobre a natureza tangia a um bem público, como o ato de fazer chover. Com o advento do cristianismo, o poder político dos reis se fortaleceu por se tornarem chefes de Estados, porém oficialmente interromperam sua trajetória de personagens divinos. Neste período pós-cristianização nota-se que membros de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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linhagens reais anglo-saxão e merovíngia eram venerados como santos após sua morte. Já do lado da tradição romana tem como personagem central Carlos Magno que foi coroado por um papa romano. Em Bizâncio os imperadores se denominaram como divinos. Deste modo sempre permaneceu esta áurea de divindade em torno da realiza europeia medieval, sendo posteriormente justificada através da Bíblia.Dessa maneira este trabalho tem a necessidade de uma metodologia baseada em Panofsky, para o campo das imagens, da qual baseia-se na observação, detalhamento da obra e contextualização. Também utiliza da comparação entre imagens e os dados da obra do Bloch.A Cultura Política, sendo definida para “designar o conjunto de atitudes, normas, crenças, mais ou menos compartilhada pelos membros de uma determinada unidade social e tendo como objetos fenômenos políticos.” (BOBBIO, 1998, p. 306), assim este trabalho se enquadra neste campo.A partir dessa comparação entre os quadros medievais da adoração dos reis magos, com o conceito de poder politico supremo elaborado por Bloch, tem uma construção de um poder político com bases religiosas.

Poderes locais e contextos plebiscitários no sudoeste paranaense (1960-1968) Jonathan Marcel Scholz (mestrando em Programa de Pós-Graduação em História - UEM) Orientador: Reginaldo Benedito Dias

Palavras-chave: história, cultura política, elites, plebiscitos, sudoeste paranaense.

Os litígios territoriais são fenômenos frequentes no Brasil, ocorrendo principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste, mas com presença considerável em todas as regiões do território nacional.131 Para um país com dimensões continentais, as disputas territoriais envolvendo municípios e Estados da Federação tornam-se inevitáveis, sobretudo, por implicarem diretamente interesses políticos, econômicos, culturais e sociais, que se opõem e contrastam em certos momentos históricos. Nesse meio, muitos dos conflitos envolvendo esses litígios territoriais têm seu desfecho no Poder Judiciário, em disputas travadas nos tribunais. Isso ocorre ainda mais comumente porque sempre há população diretamente envolvida. Nesses casos, a efetivação da Democracia Participativa132 através de plebiscitos é a alternativa recorrente para determinar o rumo e o destino dos territórios. Dessa maneira, delega-se à população envolvida nesses conflitos o poder de decisão. Cabe a ela a resolução final do imbróglio. No entanto, aliado a tais aspectos formais e jurídicos que envolvem a realização de um plebiscito, nota-se como fundamental problematizar outros elementos que compõem o desenvolvimento e a forma de uma “consulta popular”. Esses princípios são de uma natureza política e se referem aos interesses e estratégias socioeconômicas elaboradas pelos atores públicos envolvidos. Assim sendo, entende-se que a realização de um plebiscito não é isento de intencionalidades e motivações. Existem inúmeros fatores que estimulam a emergência desse mecanismo de Democracia Participativa. Todavia, o mesmo é normalmente entendido e reconhecido apenas 131

Dados disponíveis em: IBGE. Séries estatísticas & séries históricas. Disponível em: Acesso em: 02 set. 2010. 132 Entende-se como mecanismos da Democracia participativa ou Democracia semidireta - presentes na Constituição brasileira de 1988 - o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular.

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como um avanço democrático que insere e aproxima as pessoas da política e do poder, sem lembrar que sua outra faceta constrói pretensões políticas e ideológicas. É nessa perspectiva que a presente comunicação oral se integra, analisando as relações políticas estabelecidas entre os poderes locais dos municípios de Chopinzinho, São João e São Jorge D´Oeste, localizados no sudoeste paranaense, no que tange ao processo de organização e desenvolvimento de três plebiscitos durante a década de 1960.Sustentando um denso envolvimento regional entre os municípios em pauta, intentar-se-á explorar os possíveis interesses políticos, econômicos, sociais e culturais presentes nos contextos plebiscitários, pensando quais estratégias foram elaboradas e utilizadas pelos homens públicos para legitimar ações efetivas nesse panorama. Nessa perspectiva, torna-se relevante investigar a atuação dessas elites políticas em três escalas: 1°- Em relação aos próprios eventos. Como esses atores se posicionaram e se apropriaram das discussões em torno da realização dos plebiscitos. 2°Perante aos políticos das cidades em litígio. Explorar as relações e vínculos políticos entre os membros dos corpos dirigentes de Chopinzinho, São João e São Jorge D´Oeste. 3°-Diante as populações envolvidas nos três plebiscitos. Analisar como os atores políticos legitimaram os plebiscitos frente aos seus munícipes.Para tal análise, a pesquisa se vale, conceitualmente e metodologicamente, das contribuições do grupo de historiadores costumeiramente conhecido por ter renovado os estudos em história política. Nesse meio, as reflexões propostas por Serge Berstein acerca do conceito de cultura política são de grande valia, pois a categoria analítica permite discutir a complexidade dos comportamentos humanos, pensando, por exemplo, a presença do cultural no fenômeno político.Segundo Berstein:Para o historiador, o interesse da identificação desta cultura política é duplo. Permite em primeiro lugar pelo discurso, o argumentário, o gestual, descobrir as raízes e filiações dos indivíduos, restituí-las à coerência dos seus comportamentos graças à descoberta das suas motivações, em resumo, estabelecer uma lógica a partir de uma reunião de parâmetros solidários, que respeitam ao homem por uma adesão profunda [...] Mas, em segundo lugar, passando da dimensão individual à dimensão coletiva da cultura política, esta fornece uma chave que permite compreender a coesão de grupos organizados à volta de uma cultura. Factor de comunhão dos seus membros, ela fá-los tomar parte colectivamente numa visão comum de mundo, numa leitura partilhada do passado, de uma perspectiva idêntica de futuro, em normas, crenças, valores que constituem um patrimônio indiviso, fornecendo-lhes, para exprimir tudo isto, um vocabulário, símbolos, gestos, até canções que constituem um verdadeiro ritual.133Desse modo, ao averiguar as relações políticas estabelecidas entre os representantes públicos dos municípios do sudoeste paranaense, é notável o aparecimento de problemáticas envolvendo as motivações dos atores políticos em jogo. Os múltiplos interesses (políticos, econômicos, sociais), normas e preceitos de tais grupos aparecem e são revelados através de suas ações, reações e posicionamentos perante aos desdobramentos litigiosos. Com isso, tais fatores estabelecem uma estreita ligação com as motivações dos homens públicos envolvidos.Devido a isso, entende-se que é de fundamental importância identificar a atuação de uma ou mais culturas políticas que eventualmente revestem o cenário político representado pelas classes dirigentes dos municípios em destaque, porque desse modo, torna-se possível analisar coerentemente as posturas e relações de tais grupos perante aos desdobramentos plebiscitários.Para tais abordagens interpretativas, vale dizer que essa comunicação oral traz à tona algumas abordagens discutidas em um mestrado que se iniciou nesse ano de 2012. Propõe-se assim, instigar certas reflexões – principalmente àquela que se refere à atuação das elites políticas de Chopinzinho, São João e São Jorge D´Oeste no que tange aos contextos plebiscitários suscitados na década de 1960 – que estão em desenvolvimento.nfim, percebe-se que para o atual momento dessa pesquisa, inserida nos domínios da história política renovada, 133

BERSTEIN, Serge, A cultura política. Para uma História cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1992. p. 362-363.

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a problemática em torno das relações políticas engendradas pelos poderes locais é pensada através do conceito de cultura política estabelecido pelo historiador francês Serge Berstein. Nessa dinâmica, os interesses políticos, econômicos e sociais elencados por tais representantes públicos são decisivos para os desdobramentos plebiscitários. Propõe-se assim, investigar as ações, os posicionamentos e os discursos que compõem o meandro plebiscitário, analisando para além do estereótipo que entende o plebiscito enquanto unicamente um mecanismo de Democracia Participativa que universaliza a participação popular e é isento de interesses políticos, econômicos e sociais. Referências bibliográficas AUAD, Denise. Mecanismos de participação popular no Brasil: Plebiscito, referendo e iniciativa popular. Revista Unibero de produção científica, São Paulo, set. de 2005. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2009. BENEVIDES. Maria Victoria. A cidadania ativa. Referendo, plebiscito e iniciativa popular. São Paulo: Editora Ática, 1991. BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean-Pierre; SIRINELLI, Jean-François (orgs.). Para uma História cultural. Editorial Estampa, 1992. GEMMA, Gladio. Plebiscito. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco (orgs.). Dicionário de Política. 11. ed. Brasília: Editora UNB, 1998, p. 927. ______. Referendum. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco (orgs.). Dicionário de Política. 11. ed. Brasília: Editora UNB, 1998, p. 1074-1077. RÉMOND, René. As eleições. In: ______. (org.). Por uma História política. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003, p. 37-56. WINOCK, Michel. As idéias políticas. In: RÉMOND, René (org.). Por uma História política. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2003, p. 271-294.

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Imigração ucraniana para Prudentópolis-PR: relações de poder na divisão dos espaços Lourenço Resende da Costa - Mestrando - UNICENTRO-I Orientador Dr Jair Antunes – UNICENTRO-I Palavras-chave: Imigração ucraniana; Prudentópolis-PR; Relações de Poder. A imigração ucraniana para Prudentópolis-PR remonta ao final do século XIX e início do XX. Desde então as relações de poder entre os descendentes de ucranianos e pessoas que não tem essa ascendência é bastante perceptível no município. A partir do discurso, às vezes implícito outras vezes explícito, percebe uma divisão dos lugares na sociedade. Como exemplo, podemos citar a existência de duas paróquias católicas na cidade, uma de rito latino e outra de rito oriental bizantino. A paróquia de rito oriental utiliza a língua ucraniana em suas celebrações. Na zona rural do município existem diversas comunidades que possuem duas igrejas católicas, uma brasileira e outra de descendentes de ucranianos. Há também um A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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hospital conhecido como “o hospital ucraniano”. Outro exemplo diz respeito aos cemitérios, pois além do cemitério municipal há aquele que é denominado de ucraniano. Além disso, existe na cidade, circulando desde o final do século XIX, o jornal “O Pracia” editado pelos padres ucranianos da Ordem de São Basílio Magno. O periódico era até início do século XXI escrito exclusivamente com o alfabeto cirílico, o que limitava o público leitor. Em algumas escolas estaduais da cidade é ofertada uma disciplina de língua ucraniana. Sendo que em uma delas, o idioma faz parte da grade curricular na parte diversifica do currículo escolar reservada a uma língua estrangeira moderna. Na cidade existe o Museu do Milênio dedicado à imigração ucraniana. Fato instigante nesse caso é que diversos objetos “típicos” da cultura ucraniana podem ser associados a outros imigrantes eslavos, sobretudo poloneses, mas são tidos como exclusivamente ucraniano. A partir desses dados preliminares pode-se observar uma diferenciação étnica no município. O intuito é empreender uma análise das relações de poder submersas nessas divisões. A partir dos enunciados de Michel Foucault a respeito do poder, pretende-se iniciar uma reflexão a respeito das possibilidades de se pensar as relações desse grupo de imigrantes com os demais grupos existentes em Prudentópolis-Pr. O pesquisador da imigração ucraniana, e de outros grupos imigratórios, acaba se deparando com um número de questões teóricas e metodológicas que merecem atenção e cuidado: a busca da origem do grupo pesquisado é uma questão recorrente. A pesquisa histórica, a partir de uma perspectiva fundamentada nos textos de Foucault, não deve buscar a harmonia e sim a multiplicidade, pois os atores sociais são diversos e possuem diferentes objetivos. O rótulo deve ser evitado. Classificar o ucraniano como vítima secular da exploração russa, austríaca ou polonesa não ajuda a entender o imigrante ucraniano. O poder não deve, segundo Foucault, ser pensado a partir de uma oposição binária: dominante-dominado, forte-fraco, por exemplo. O poder não é inteiramente negativo e nem completamente positivo. A oferta da disciplina de língua ucraniana nas escolas estaduais de Prudentópolis é um exemplo de um micro-poder. A escola pode ser entendida como local em que micro-poderes atuam. Essa oferta cria uma “identidade” e a partir daí faz-se um discurso da importância da disciplina e da preservação da cultura ucraniana. Essa questão, a primeira vista, passa despercebida como um exercício do poder. Mas quando se faz um contraponto com os poloneses, outro grupo eslavo no município, mas que não possui uma disciplina de língua polonesa percebe-se que essa disciplina, mesmo que na maioria dos casos seja ofertada em caráter optativo ou em contra turno, é um exercício efetivo do poder. A questão do poder na imigração ucraniana em Prudentópolis nos leva a questionar as “verdades” como algo construído a partir de um discurso que produz saber. Os discursos são sempre construídos a partir de um lugar social, diria Certeau, e a partir de uma episteme, diria Foucault. Essa assertiva permite questionar as verdades, não com o intuito de mostrar a inverdade num sentido pejorativo e sim com o objetivo de mostrar a construção dessas verdades. A presente pesquisa encontra-se em fase inicial, portanto o exercício aqui tem como preocupação central iniciar uma problematização de algumas das divisões citadas, tentar compreende-las como resultante de relações de poder e contra-poder. Nesse sentido, chamar para a construção histórica da diferença.

O MÉTODO BIOGRÁFICO E A MICRO-HISTÓRIA: RELAÇÕES ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE Lucimara Koss – Mestranda – UFPR Orientadora Dr. Maria Luiza Andreazza - UFPR Palavras-chave: Biografia; micro-história; indivíduo.

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Este estudo faz parte de uma reflexão realizada em uma disciplina sobre biografia que foi ofertada em 2011 no Programa de Pós-graduação em história da UFPR. O método biográfico é uma das formas de se produzir história e desde o seu surgimento tem passado por diversas modificações. Em alguns períodos aproximou-se da história e em outros de escritos literários. Foi criticado por alguns e estimado por outros. Em meio a estas oscilações desenvolveram-se múltiplas formas de se abordar a vida de um indivíduo. Este trabalho tem por objetivo apresentar algumas destas possibilidades promovendo um debate historiográfico sobre as relações entre: biografia, indivíduo, sociedade e micro-história. Para atingir esta finalidade primeiramente a discussão se detém em um debate teórico sobre o surgimento da biografia e as diferentes formas de abordagens. A discussão gira principalmente em torno de escritos historiográficos de autores como: Pierre Bourdieu, Peter Burke, François Dosse, Sabina Loriga, Carlo Ginzburg, Giovanni Levi, Jacques Revel e Regina Célia Lima Xavier. Ao mesmo tempo em que se procura demonstrar as diversas possibilidades de se abordar a vida de um indivíduo, busca-se estabelecer uma relação entre biografia e micro-história. Neste caso, os escritos de Carlo Ginzburg são imprescindíveis, pois a história individual permite perceber aspectos sociais mais amplos. Um exemplo disso é o moleiro Domenecio Scandela, que no século XVI permitiu a Ginzburg pensar o mundo rural da Itália e formas como os camponeses poderiam refletir a respeito de coisas que aparentemente estavam restritas à camada letrada daquele século. Outro exemplo da micro-história partindo de um indivíduo para pensar uma sociedade mais ampla é o texto de Giovani Levi sobre o padre Chiesa. A herança imaterial mostra como uma pessoa pode revelar atos mentais e sociais de uma época. O estudo biográfico não se fecha no particular, sua abrangência vai além da vida singular e aparentemente pouco relevante a um olhar desatento. Uma conduta individual não reflete a sociedade como um espelho, a biografia ajuda o pesquisador a pensar as tensões, os capitais simbólicos manipulados e utilizados, o lugar social, as relações de poder que estão contidas numa trajetória individual. No que diz respeito à situação do indivíduo chama-se pra discussão Pierre Bourdieu, pois o indivíduo é investido de um capital simbólico que o autoriza a se posicionar diante de determinadas situações. O pai do padre Chiesa, estudado por Levi, era investido por um capital simbólico. A herança deixada por ele era imaterial em sentido literal, a condição para que o padre usufrua desse capital está ligada a sua capacidade de “ler”, de saber interpretar esse capital. O lugar na sociedade que o indivíduo ocupa pode ajudar a perceber as relações entre os diferentes capitais simbólicos e suas implicações na vida social da pessoa. Em um segundo momento a discussão transpassa as barreiras deste debate teórico, e volta-se para a exemplificação destas relações na prática. Os cenários selecionados para demonstrar qual é a relação da biografia com a micro-história, foram os armazéns de secos e molhados de João Koss localizado na cidade de Ivaí Paraná de 1948 a 1971, e de Pedro Derkatcz localizado no interior desta cidade em meados da década de trinta a década de cinqüenta. Os registros comerciais destes estabelecimentos permitem encontrar elementos capazes de reconstruir o modo de vida dos indivíduos. Por meio dos nomes de indivíduos citados nos livros caixa e dos produtos que eram consumidos, é possível reconstruir as práticas que se desenrolavam neste cenário e o modo de vida desta sociedade. Por meio destes documentos e de fontes orais, buscou-se visualizar como a vida de um indivíduo esta atrelada ao restante da sociedade. Neste caso o contexto e as relações sociais influenciavam nas escolhas dos consumidores. As relações entre biografia, indivíduo, sociedade e micro-história fogem do campo teórico e refletem-se nas práticas comercias destes cenários.

Os sentimentos de honra na literatura política do antigo regime Thiago Rodrigo Nappi (Mestrando – UEM) A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Prof. Dr. Sezinando L. Menezes Palavras-chave: sentimentos de honra; ideias políticas modernas; Antigo Regime. Durante praticamente três séculos, isso é, no período que abrange a Época Moderna, a honra possivelmente pode ser apontada como o sentimento dominante no cenário político-social. Falar em honra hoje, bem como em sentimentos de glória, parece algo fora de propósito e sem relevância alguma. Porém, sabendo que “a honra matou mais homens do que a peste, suscitou mais controvérsias do que a misericórdia, mais rixas do que o dinheiro”134, então ela não pode simplesmente ser rebaixada a um segundo plano e banida do cenário intelectual contemporâneo. A predominância da honra como motor das ações humanas teve seu auge, de fato, no Antigo Regime, e isso é passado. Mas, é por isso mesmo que “hoje, estudar a honra é estudar a sua história; e é perguntar por que foi esquecida, como paixão relevante, por que é encoberta em sua importância.”135 Estudar as leis ou concepções de honra é algo relevante por motivos históricos e até presentistas haja visto que, quando compreendemos as sociedades do passado, adquirimos a possibilidade de entender melhor a sociedade em que se vive nos dias atuais. Com o entendimento das questões da honra nas sociedades da Modernidade, obtém-se também uma ampla compreensão da estrutura política da época, uma vez que a honra sustentava as hierarquias sociais existentes naquele período, o status social era validado mediante os ditames dos sentimentos de honra. Nas palavras do pensador político francês Montesquieu, tal sentimento fez com que aos poucos, no interior de um regime monárquico, todos se tornassem bons cidadãos. Esse sentimento o filósofo caracterizou como “o prejulgamento de cada pessoa e de cada condição.”136 Ainda segundo ele, a essência da honra estaria no fato de requerer preferências e distinções para determinados indivíduos perante os demais. Desse modo, é possível dizer que o que importava era a opinião que os outros estabeleciam sobre essa ou aquela pessoa, não o que ele efetivamente era, mas aquilo que achavam que ela fosse no interior de um grupo ou de uma sociedade num determinado contexto. Nas palavras do historiador Jean-Pierre Vernant, que aqui cabem plenamente para caracterizar os sentimentos predominantes na Época Moderna, cada um “está sob o olhar do outro, cada um existe a partir desse olhar. Se é o que os outros veem de si. A identidade de um indivíduo coincide com sua avaliação social: da zombaria ao louvor, do desprezo à admiração.”137E o que interessa aqui, em primeiro plano, é a sua relação com o âmbito político, já que tal conceito insere-se num sistema de regras de conduta no interior das sociedades do Antigo Regime, estabelecendo, assim, uma valorização dos indivíduos que acaba por implicar na hierarquização dos mesmos. Entre as concepções dos filósofos políticos, parece ser possível visualizar que, desde Aristóteles, a honra é um objeto presente nas suas obras. A honra se adquire por nascimento ou por mérito. Porém, e isso é apontado como um fato essencial, a sua perda por parte do indivíduo é algo que está a todo momento na iminência de acontecer, ou seja, ele vive constantemente sob máxima pressão de tornar-se um ser desonrado. “Essa mobilidade, isto é, o declínio e ascensão social de famílias no interior da sociedade de ordens, é determinada inicialmente por fatores sociais; ou seja, não é criada por nenhum indivíduo, por nenhum rei. [...] o declínio e a ascensão das famílias são a princípio

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PITT-RIVERS, J. A doença da honra. In: GAUTHERON, M. (org.) A honra: imagem de si ou dom de si - um ideal equívoco. Porto Alegre: L&PM, 1992. p.17. 135 RIBEIRO, R. J. A glória. In: NOVAES, A. (org.). Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.116. 136 MONTESQUIEU. De l’esprit des lois. In: Œuvres complètes I. Paris: Éditions Gallimard, 2001. p.256. 137 VERNANT, J.-P. A "bela morte" de Aquiles. In: GAUTHERON, M. (org.). A honra: imagem de si ou dom de si - um ideal equívoco. Porto Alegre: L&PM, 1992. p.34.

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X I I I E n c o n t r o E s t a d u a l d e H i s t ó r i a A N P U P R 152 manifestações da dinâmica inerente de tal figuração”.138Nas cortes do Ancien Régime francês, por exemplo, o nobre perderia a honra, o que seria a mesma coisa que perder a razão de sua própria existência, quando não mais gozasse do privilégio de se distinguir dos comuns, das petites gens, os quais correspondiam aos que não estavam incluídos no círculo que rodeava o rei, a esfera própria de contato pessoal dos nobres. Um dos caminhos por meio do qual se fazia presente o embate pela conquista ou a manutenção da honra, era o duelo. De fato, os duelos se davam só e unicamente entre iguais, ou melhor, entre nobres. Era impensável um indivíduo de posição privilegiada entrar em confronto direto com alguém que não detinha um nível semelhante ao seu, que não pertencesse ao seu círculo social. Isso, contudo, não quer dizer que as questões de honra não estavam presentes na vida dos homens comuns. De todo modo, parece que para os nobres cortesãos ao tempo da monarquia absolutista, possuir ou não possuir honra era, respectivamente, o mesmo que viver ou estar morto.Com o poder fortemente centralizado a partir da segunda metade do século XVII, o Estado absolutista tomou para si, de fato, a prerrogativa da punição dos delitos, tanto na esfera pública quanto na privada. Graças à formação desse monopólio da força, a ameaça que um homem representava para os demais ficou sujeita a um controle mais rigoroso e tornou-se, assim, mais calculável. Os nobres, dessa maneira, sofreram uma mudança capital em seus costumes, passando a exercer uma função básica, que era a de viver ao lado do rei, prestando serviços considerados meramente domésticos. Mesmo porque à medida que se viu despojada de seu papel militar, a nobreza precisava encontrar outros meios de justificar seus privilégios; tinha a necessidade de mostrar que era diferente dos outros. O refinamento dos modos sociais dos indivíduos estava consolidado. Mas a honra continuou a estar na ordem do dia na vida de tais pessoas. Claro que agiam das mais diversas formas para mantê-la ou adquiri-la, mas agora de um jeito mais refinado e sutil. A adulação com relação ao rei, fazendo com que esse preferisse determinados indivíduos em detrimento de outros, por exemplo, foi uma estratégia largamente utilizada para tal fim, dentre inúmeras outras maquinações elaboradas por parte dos nobres cortesãos. Enfim, o processo da civilização dos costumes abrandou os impulsos de violência da aristocracia. A civilidade cortesã acabou por criar um ambiente muito favorável para que as novas leis civis do Estado monárquico se tornassem o expediente de resolução dos conflitos. Talvez os chamados “gritos do sangue” não cederam totalmente aos “decretos” do poder político central, mas há vários indícios de que os vigores da nova ordem jurídica acabaram por alterar os velhos usos e costumes arraigados no universo aristocrático.

ST 10 - HISTÓRIA AMBIENTAL: QUESTÕES, TEMAS E PERSPECTIVAS NO PARANÁ Pinheiro-do-Paraná: símbolo de identidade regional ou emblema de uma história de desflorestamento? Alessandra Izabel de Carvalho (DEHIS – UEPG) Palavras- chave: araucária, identidade, desflorestamento Em uma publicação de 1930 que relatava uma viagem realizada dois anos antes, o pesquisador naturalista Francisco Carlos Hoehne designou de “Araucarilândia” a região sul do Brasil predominada pelas florestas com araucárias. Provavelmente não havia nome melhor para um 138

ELIAS, N. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p.89.

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ecossistema cuja delimitação é definida exclusivamente pela presença do pinheiro-do-paraná, ou pinheiro-brasileiro, como é conhecida a Araucaria angustifolia, uma espécie de pinheiro de porte agigantado, tronco reto e copa típica e inconfundível na forma de candelabro. Na mesma obra, no entanto, Hoehne chamava a atenção para o fato que, se não houvesse um manejo de tais florestas, em poucas décadas elas deixariam de existir.Na mesma época em que Hoehne publicava seu livro, o Paraná vivia a ebulição do Movimento Paranista, um movimento que reuniu artistas e intelectuais preocupados em criar uma identidade regional para o estado. Nesse contexto, a Araucaria angustifolia se tornou a árvore símbolo do Paraná, e desde então seus elementos que já figuravam nas representações oficiais, passaram a estar presentes também em vários espaços das cidades (principalmente em Curitiba, capital do Estado, cuja toponímia indígena significa exatamente terra de muitos pinheiros), tais como nos monumentos, na arquitetura das fachadas, nas calçadas, nos parques, nas escolas, nas logomarcas comerciais, enfim. Mas o grande valor simbólico e cultural erigido entorno das araucárias não conseguiu protegê-las da violência destrutiva que lhes foi empregada. Somente o estado do Paraná, há pouco mais de 100 anos, possuía uma área equivalente a quase 8 milhões de hectares de floresta com araucária. De acordo com os dados de 2001 da Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná, fragmentado em pequenas ilhas com não mais do que 300 hectares, apenas 0,8% desse montante perdura em um razoável estado de conservação, ou seja, na forma de floresta em estágio avançado. Hoje os números devem estar entorno de 0,5% ou menos.Esta apresentação descreve um projeto de pesquisa em andamento que tem como um dos objetivos investigar a história das florestas com araucária, ou Florestas Ombrófilas Mistas, como são tecnicamente conhecidas, nas formas de uso e exploração dessas reservas florestais que no passado ocuparam somente no Paraná 40% do seu território. Vale salientar que no início do século XX o extrativismo das florestas com araucária foi elevado à categoria de principal atividade econômica dos estados do sul do Brasil. O foco principal da pesquisa, no entanto, tem sido analisar o processo de transformação das araucárias em patrimônio simbólico coletivo, ou ainda, em elementos-chave na constituição da identidade do povo paranaense (ou, pelos menos, de parte dele). Mais especificamente, a pesquisa busca estudar se e como o processo de produção de subjetividade e de enunciação da identidade desse grupo, em si heterogêneo, se altera quando a paisagem territorial sobre a qual sua identidade se assenta é modificada substancialmente, a ponto de deixar de existir (como atualmente está acontecendo com as FOM). Os resultados obtidos até o momento delineiam um campo de debate muito interessante sobre a relação entre a constituição de um processo de identificação cultural de um grupo entorno de uma espécie específica presente no seu meio ambiente, no caso a Araucaria angustifolia, e, por outro lado, como essa mesma espécie se torna o símbolo do processo predatório causado por esse grupo no mesmo entorno ambiental. É fácil perceber, ao lançarmos um rápido olhar sobre o passado, que o grau de influência e interferência dos seres humanos nos ecossistemas do planeta tem aumentado consideravelmente. Isso se evidencia claramente quando nos voltamos para a história das florestas com araucárias brasileiras do último século. Porém, se considerarmos que as pessoas somente se apropriam daquilo a que atribuem uma significação, ou seja, daquilo que lhes faz sentido, então toda forma de apropriação material é também uma apropriação simbólica. Neste estudo, são as dimensões material e simbólica, em seu caráter de complementaridade e não em uma perspectiva dicotômica, do ambiente natural que servem de balizas para a análise da construção discursiva da identidade regional em questão. Estratégias e concepçoes da natureza na criação e ações da APPEMMA – Londrina 1970/1992. Aparecida Cristina Leite A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Mestranda – (Programa de Pós Graduação em História Social da universidade Estadual de Londrina). Gilmar Arruda (orientador). Palavras-chave: Folha de Londrina, era da ecologia, história ambiental. Apresentamos este trabalho como parte de um projeto de mestrado em História Social que se encontra em fase inicial de desenvolvimento. Dessa forma o que segue são algumas possibilidades de entendimento acerca do contexto histórico no qual esteve imerso o processo de criação da primeira associação ambientalista de Londrina, a APPEMMA em 1978. O referencial teórico que respalda a pesquisa está no campo da História Ambiental, através do qual buscamos um entendimento das relações entre homem e natureza, ou mais especificamente sobre a emergência dos movimentos no mundo ocidental.Os movimentos ambientalistas surgem a partir da década de 1970, período em que ser observada a expansão da chamada “era da ecologia”. Nesse período, pelo menos nos países industrializado ou em vias de industrialização as pessoas teriam despertado para os efeitos degradantes que as ações humanas poderiam estar causando no meio ambiente. As questões envolvendo o meio ambiente global teriam surgido após a Segunda Guerra Mundial, mais especificamente após o inicio dos testes com a bomba atômica. O primeiro teste teria acontecido no Novo México, sudoeste dos Estados Unidos. A partir daí grupos de cientistas passariam questionar e analisar os efeitos que os testes nucleares poderiam causar na natureza. Essas discussões tornaram-se mais popularizadas nas décadas 1960/1970, quando emerge o Novo Ambientalismo. O período 1970/1980 seria marcado pela proliferação dos movimentos e associações ambientalistas. Na cidade de Londrina-PR, a primeira associação ambientalista surgiria em 1978. Quando o engenheiro agrônomo Marco Antônio Silveira Castanheira fundou a APPEMMA – Associação Paranaense de Proteção e Melhoria do Meio Ambiente. Foi a primeira associação ambientalista a ser criada no município uma das primeiras associações ambientalistas do estado do Paraná. De acordo com seu estatuto, o mote principal da associação seria compatibilizar o desfrute dos recursos naturais a todos os cidadãos. Desde sua fundação em 1978 e durante a década de 1980 a associação esteve envolvida em várias ações relacionadas ao contexto ambientais. Uma dessas questões foi a mobilização para tentar impedir o processo licitação internacional para as obras que executariam a implantação do Sistema Tibagi em 1982. Esse projeto consistiria na captação das águas do rio Tibagi para o abastecimento da cidade de Londrina. Nesse contexto integrou a Comissão Comunitária em 1983 e fez parte do Movimento Pró Água em 1985-1986. Outra questão na qual a APPEMMA atuou foi no caso da Mata dos Godoy. A citada mata seria uma das ultimas áreas remanescentes da Mata Atlântica, a floresta que teria sido a cobertura vegetal “original” da região. Na década de 1980 a floresta estaria em vias de ser desmatada e transformada em loteamento. Esta área de mata fazia parte de uma extensa propriedade que em por décadas teria sido uma próspera fazenda cafeeira. A cultura cafeeira foi introduzida em Londrina logo nos primeiros anos após a fundação do município no inicio da década de 1930 e teria predominado como a principal atividade econômica que proporcionaria o desenvolvimento da cidade. O cultivo do café entraria em declínio a partir da década de 1960, sendo substituída então por outras culturas poupadoras de mão de obra; e altamente mecanizadas como soja, trigo, milho e cana. Esta transformação na agricultura pode ter provocado alterações consideradas altamente impactantes sobre o solo e as fontes de água. Uma vez que demandava uso excessivo de defensivos agrícolas. Um dos suportes documentais para o estudo será o Jornal Folha de Londrina, mais especificamente as edições publicadas entre 1970/1992. Todas as suas edições se encontram arquivadas no Centro de Documentação Histórica da Universidade Estadual de Londrina – CDPH/UEL. Na sistematização dessas fontes selecionamos matérias, reportagens, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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cartas e artigos que fizessem menção ao meio ambiente, ambientalistas, associações ambientais, natureza, ações ecológicas empreendidas por instituições ligadas ao poder público, organizações não governamentais e também ações particulares. Além da fonte jornalística utilizamos também outros documentos escritos. Como as coleções de documentos pessoais de personagens envolvidos na fundação da APPEMMA. Essas coleções são constituídas de recortes de jornais, cartas, memorandos, atas, discursos manuscritos, relações de associações ambientalistas do Paraná, convites para palestras. Partindo dessas considerações o objetivo geral deste projeto é problematizar o surgimento e as ações da primeira associação ambientalista de Londrina, APPEMMA no período 1970/1992. Nesse sentido procuramos investigar quais teriam sido as motivações que levaram a fundação da associação; problematizar a participação do jornal Folha de Londrina na difusão da “era da ecologia” no município; entender as possíveis concepções de natureza que possam ter perpassado o discurso dos ambientalistas; quais foram os principais meios e as estratégias de ação utilizadas pelos ambientalistas para divulgar suas ideias; contextualizar as relações que teriam se estabelecido entre os ambientalistas e as instituições de poder público no período. Em um contexto mais amplo, percebemos que o Brasil passaria pelo processo de reabertura política em meados de 1970 até a elaboração da nova Constituição Federal em 1988. Foi também durante a década de 1980 que o governo brasileiro empreendeu reformas e ampliações em instituições públicas estaduais e federais ligadas ao meio ambiente, formulando em 1981 a Lei de Política Nacional de Meio Ambiente - CONAMA - e o Sistema Nacional de Meio Ambiente - SISNAMA que atuariam nos estados. O decorrer da década de 1980 e inicio dos anos 90 tem sido apontado como o período em que acontece no Brasil o boom das organizações ambientalistas, isso poderia ser explicado pela proximidade Segunda Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que aconteceria no Rio de Janeiro em 1992, a Rio – 92 ou Eco – 92. A emergência dos movimentos ecológicos se constituiria num ponto de inflexão da história das mobilizações sociais e das ações coletivas, em analogia aos movimentos pacifistas propagariam ideias e valores universais que transporiam fronteira de classe, sexo, idade e raça. Contudo poderiam ser caracterizados como altamente complexos em sua capacidade de agregar indivíduos com origens e formações diferentes, como profissionais liberais, estudantes, camponeses, burocratas, operários, executivos e outros. Os movimentos ecológicos sugeririam uma ressignificação de valores sustentada principalmente no equilíbrio ecológico e na justiça social. A Universidade Estadual de Londrina E O Rio Tibagi: a participação dos cientistas no Projeto Tibagi (1980-2000) Eliane Aparecida Biasetto, Mestranda em História Social da Universidade Estadual de Londrina. Orientador: Professor Doutor Gilmar Arruda. Palavras-chave: Cientistas, “Era da Ecologia”, Projeto Tibagi A participação de cientistas e instituições na questão ambiental, ou em outros termos, na investigação do Rio Tibagi tornou-se evidente no final dos anos de 1980 e início da década seguinte quando a Universidade Estadual de Londrina-PR, especialmente o Departamento de Biologia Animal e Vegetal, firmaram um convênio com a empresa Klabin Celulose e Papel, de Telêmaco Borba-PR, e com o COPATI- Consórcio de Municípios do Rio Tibagi, para desenvolver pesquisas com o objetivo de promover a sua recuperação, dado o grau de deterioração no qual se encontrava nos anos de 1980. A empresa entraria com um aporte de um milhão de dólares, a universidade desenvolveria as pesquisas necessárias e o COPATI ficaria responsável pela articulação do projeto junto à comunidade. Esse convênio deu origem ao Projeto A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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“Aspecto da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi” em 1989, que comumente passou a ser chamado de Projeto Tibagi. Este projeto foi esquematizado para ser realizado em três etapas, com a duração de onze anos. A primeira etapa tinha como objetivo fazer um levantamento da fauna e da flora da região; na segunda etapa, foram realizados estudos para entender a relação da comunidade biológica com o ambiente e na última etapa, buscaram criar propostas para a recuperação ambiental da bacia. Esse convênio envolveu dezenas de pesquisadores de diversas áreas, inúmeros projetos e temas, resultando em dissertações, teses e centenas de publicações. Como hipótese, a participação destes cientistas da universidade no Projeto Tibagi pode ter sido resultado da emergência do ideário ecológico na cidade, pois foi a partir da década de 1980 que as denunciais e ações de combate a poluição começaram a se tornas mais efetivas e amplas. Objetivo Geral desta pesquisa consiste em investigar a contribuição de cientistas no envolvimento da UEL no Projeto Tibagi. Os objetivos específicos versam em investigar o significado simbólico da instituição, o impacto no projeto na carreira e no departamento de biologia da UEL e investigar as contribuições de cientistas no desenvolvimento da “era da ecologia” na cidade de Londrina. Para investigar os problemas propostos, o recorte temporal desta pesquisa compreende ao período de 1980 até 2000, em virtude das questões relacionadas à natureza terem tornado-se mais significativa na cidade de Londrina a partir dos anos de 1980. Com a criação de associações ambientalistas, órgãos governamentais especializados e legislação específica. Neste contexto, nasce o Projeto Tibagi em 1989 que teve a duração de onze anos, chegando ao seu fim oficialmente em 2000. A pesquisa está sendo desenvolvida à luz da historiografia ambiental, este é um campo de pesquisa da história que nasce com o objetivo de compreender, como os seres humanos foram no decorrer do tempo, influenciados pelo seu ambiente natural e como eles afetaram esse ambiente. Donald Worster (2003) define a história ambiental, como um novo campo de pesquisa da história, que investiga a interação entre a sociedade e a natureza. O suporte documental que está sendo utilizado para realizar a pesquisa, está disponível na Universidade Estadual de Londrina-PR, no acervo do Projeto História Ambiental do Rio Tibagi e no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da UEL. As fontes consistem em entrevistas realizadas com os coordenadores e participantes do Projeto Tibagi; reportagens do Jornal Notícia, publicado pela Universidade Estadual de Londrina do período de 1989 a 2000 que fazem menção ao projeto, reportagens do Jornal Folha de Londrina da década de 1980 e 1990, que trazem informações sobre a natureza da cidade e os relatórios produzidos pelos cientistas da universidade, que contêm informações sobre todas as atividades e resultados obtidos durante o desenvolvimento do projeto. Estes relatórios foram adquiridos, por meio do arquivo do COPATI. Importante lembrar que a presente pesquisa esta em andamento. ST HISTÓRIA AMBIENTAL

Tecnodesastres e História Ambiental Prof. Dr. Jo Klanovicz (DEHIS-PPGH-UNICENTRO) Palavras-chaves: História Ambiental; desastres; risco

A década de 1980 representou um período de intensa movimentação cultural, social e política em torno do uso e abuso da energia nuclear, nos mais variados setores da sociedade, em países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Desde a década de 1950, o mundo vivia sob a ótica da “pacificação do átomo”, ou seja, um processo de deslocamento do uso da tecnologia nuclear do mundo militar para o mundo civil, e a energia elétrica gerada por usinas nucleares A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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era alardeada como o estágio mais avançado de modernidade alcançado pela humanidade. As duas grandes potências políticas mundiais orgulhavam-se de estar na ponta desse processo de “pacificação”, utilizando a energia nuclear como o exemplo máximo de sua tecnologia e contribuição civilizadora. Contudo, os riscos inerentes ao uso de diversos produtos oriundos da tecnologia nuclear sempre estiveram intimamente conectados com seu próprio desenvolvimento. Desastres como o meltdown da Usina de Three Miles Island (EUA, 1979), ou os pequenos acidentes que envolveram a história da usina de Angra dos Reis (Brasil, década de 1970), já serviam de exemplos para um crescente movimento mundial anti-nuclear. O ponto crítico de todo esse desenvolvimento e as consequências socioambientais negativas de um acidente vieram com a explosão do reator 4 da usina de Chernobyl, na República Soviética da Ucrânia, na madrugada de 26 de abril de 1986. Esse desastre trouxe à tona diversos elementos novos para se entender a modernidade, o que acabou resultando numa maciça produção intelectual que passaria a questionar conceitos como cidadania, responsabilidade ambiental, além dos problemas eminentemente técnicos do uso de energia nuclear e da construção de usinas. Pouco tempo depois, no Brasil, um outro acidente corroborava a presença do risco como elemento fundamental da vida cotidiana daquela década. O rompimento de uma cápsula de Césio-137, de uma máquina de radiologia abandonada e desmontada por dois homens que pensavam obter lucros com a venda de suas partes para um ferro-velho, contaminou mais de 100 pessoas em Goiânia, em 1987. O evento demorou mais de 15 dias para ser identificado como um desastre, devido ao despreparo das autoridades civis, científicas e militares brasileiras ante o acontecimento. Se Chernobyl foi motivo de discussão na imprensa brasileira, Goiânia foi motivo de discussão na imprensa soviética, e ambos os eventos, dessa forma, acabaram sendo incorporados na construção de novas relações entre sociedades e risco em nível global.O objetivo deste trabalho é discutir alguns aspectos ligados ao significado que a catástrofe da explosão do reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl exerceu no desenvolvimento da sociedade civil e suas manifestações com relação à ideia de risco, por meio da imprensa, na União Soviética e no Brasil, de maneira comparada. Em certa medida, pretende-se amparar a leitura a partir da análise das lógicas das sociedades civis e seu comprometimento com reações sobre esse tipo de desastre nos dois países na década de 1980, e perguntar como a discussão sobre riscos de energia nuclear levaram a uma contínua desqualificação da fé no progresso, de um lado, e como essa desqualificação tornou-se uma força diretiva para o envolvimento social com conceitos como o de "transformação".Na perspectiva de visualizar esse fenômeno para além das metáforas a ele inerentes, e perguntar diretamente em que sentido o argumento de que Chernobyl tornou-se o símbolo da modernidade de risco, buscarei discutir notícias sobre eventos ligados à insegurança nuclear, publicados no Brasil e na União Soviética. Algumas questões são diretamente ligadas ao que Ulrich Beck chamou de "choque antropológico" a respeito de fenômenos catastróficos. Eles se tornaram mais virulentos no Ocidente ou nos países diretamente afetados do Leste? A experiência de Chernobyl teve mesmo um impacto democratizador sobre as sociedades, como sugere Beck, ou criou mais desigualdades e potenciais para mobilizações sociais e políticas? Muito já se falou sobre esse evento, e ocorrências similares, tais como o acidente radiológico de Goiânia, no Brasil, em 1987. Contudo, a discussão aqui proposta está ligada ao campo da História Ambiental, que apenas agora começa a destinar mais atenção a esse tipo de problematização.

Cidade e Natureza: “Era da Madeira” Maicon Mariano A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Mestre em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC

A exploração dos recursos madeireiros está presente entre as práticas de ocupação do território paranaense. Constituiu-se como um setor de destaque na economia do Estado. Em relação à região oeste do Paraná, esse processo alcançou sua fase mais expansiva a partir da segunda metade do Século XX. No espaço da cidade de Cascavel, emancipada em 1952, a extração madeireira dinamizou as principais atividades de trabalho, influenciando nos deslocamentos e ocupação do solo urbano, no período correspondente entre 1945 a 1970, marcado para a história local como a “era da madeira”. Que veio a findar com o esgotamento dos recursos naturais e a produção agroindustrial em larga escala. Essa comunicação pretende discutir as ambiências dos espaços citadinos, através da memória sobre o período, visualizadas em fragmentos de jornais, como também por meio das experiências socioculturais de homens e mulheres vivenciadas em um espaço permeado pelas relações entre cultura e natureza. Palavras-chave: Cidade, Ambiências, Natureza Educação ambiental na revista Amigos da Natureza: meio ambiente e história no oeste do Paraná

Nicheli Rodrigues Santos Mestranda no Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) bolsista da CAPES Orientador: Professor Dr Robson Laverdi

Palavras chaves: Práticas; Educação Ambiental; Revista Amigos da Natureza

Ao pensar um recorte espacial, o Oeste do Paraná, encontra-se um espaço que sofreu e sofre no século XX e neste início do XXI, um intenso e dramático processo de ocupação. Este resultou em deslocamentos populacionais complexos, na derrubada quase integral da floresta que lhe revestia, na implantação de um modelo monocultor voltado à exportação, na urbanização de cidades, e dentre outros mais, na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu (uma das maiores do mundo). Os impactos e as tensões gerados nesses processos, juntamente com a ideia sentida e compartilhada em âmbito global de que ‘vivemos uma crise ambiental’ tem incentivado o desenvolvimento de práticas de educação ambiental. Dentre tais práticas encontradas na região estão as da revista Amigos da Natureza.O presente trabalho tem como proposta problematizar concepções e práticas de educação ambiental presentes e atuantes nessa revista. A Amigos da Natureza faz parte de um material produzido pela editora de mesmo nome que, desde 2001, atua na produção de materiais voltados à educação formal, regular ou não para muitas cidades do país. A editora com sede em Marechal Cândido Rondon, está situada no espaço denominado Oeste do Paraná. Pretende-se assim discutircomo a revista tem significado os atuais problemas ambientais vividos na região e a partir delas tem construído uma atuação na busca de soluções para tais problemas. As principais concepções presentes no material tem sido as de sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, conservação e preservação. Noções e concepções estas, que também estão presentes em documentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), a lei sobre Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), ou ainda em programas governamentais como o Programa A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Nacional de Educação Ambiental (ProNEA). Constituem-se assim, em concepções que surgem da observação, da vivência nesse espaço e também das discussões nacionais e internacionais acerca das necessidades de cuidado com o meio ambiente e de como isso deve ser feito.O percurso selecionado para realizar esse trabalho foi o de análise de textos, imagens e proposta editorial da revista atentando-se para a maneira como o conjunto vem sendo estruturado e aplicado por seus produtores. Nesse sentido, o material constitui fonte e objeto de pesquisa na medida em que se busca compreender o momento histórico em que a revista nasce, com quais sujeitos tem buscado dialogar, quais projetos de sociedade tem tentado construir, e ao que e a quem se contrapõem ou se alinham em termos de interesses políticos e econômicos locais e regionais. Nesse percurso, a educação ambiental não está sendo compreendida como algo dado e acabado, mas sim enquanto um conjunto de práticas que possuem uma historicidade. Portanto, o trabalho dialoga com fontes como documentos brasileiros de políticas públicas, além de artigos, teses e dissertações que tratam sobre educação ambiental e trazem um panorama de como esta tem sido pensada, discutida e implantada no país. Assim, busca-se fazer uma discussão histórica acerca do sentimento de crise, de uma crise ambiental tem provocado uma preocupação não só em educar as pessoas, mas também em propor como esses sujeitos devem ser educados para que tenhamos uma relação melhor entre seres humanos e natureza. Nesse percurso, a educação ambiental não se constitui em um campo em que se firmam apenas determinadas ideias e discursos, mas também determinadas práticas e articulações de interesses variados. A noção de sustentabilidade encontrada em PCNs, em documentos como o PNEA e o ProNEA, ou ainda na Amigos da Natureza parece estar se constituindo num sistema de sentimentos, significados e práticas, por vezes contraditórias, ambíguas e com outras projeções distanciadas do foco fundador. Nesse complexo processo algumas ideias baseadas na noção de sustentabilidade como a solução para os problemas ambientais tem se tornado as mais comuns, inclusive organizando a sociedade e muitos sujeitos que acreditam que elas devam ser vividas, implementadas. Constitui-se assim enquanto uma prática e não apenas um pensamento do que virá, do que se quer criar, mas sim, na própria criação, portanto, constituindo-se numa historicidade que buscamos pensar nesta comunicação.

Sentidos em disputa: A Estrada/Caminho do Colono em Narrativas

Nivia M. Bogoni Grapiglia – Unioeste (Mestranda em História) Davi F. Schreiner – Unioeste (Doutor em História Social – USP) Palavras-chave: Memórias, Caminho do Colono, Narrativas O trabalho aborda os múltiplos significados e sentidos atribuídos ao Caminho do Colono a partir das narrativas de ambientalistas, representantes do poder público e de mulheres e homens que, de algum modo, tiveram em suas trajetórias de vida experiências vividas em deslocamentos e ou se engajaram nas mobilizações pela reabertura da referida estrada. As mobilizações são cotejadas na relação com as representações de defesa do meio ambiente do Parque Nacional de Iguaçu e, de outro lado, pelo olhar dos agricultores(as), moradores contíguos à reserva florestal ao Parque. A problemática do Caminho do Colono, apesar do enfoque regional, repercute em questões ambientais debatidas a nível nacional. Na medida em que a estrada corta o Parque Nacional do Iguaçu, qualquer decisão sobre o Caminho A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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envolve outras áreas de conservação. Diversos foram os momentos de luta travada pela população em relação ao Caminho que foi fechado pela primeira vez no ano de 1986, quando o Departamento de Estradas e Rodagem do Paraná (DER) começava a asfaltar a estrada e uma denúncia do militar aposentado Arnóbio da Silva, alegando prejuízo a natureza, foi encaminhada ao Ministério Público Federal. Foi reaberto no dia 08 de maio de 1997, depois fechado novamente no dia 13 de junho de 2001. Foi ocupado por moradores que circundam o parque e de cidades da região como Medianeira, Capanema, Serranópolis do Iguaçu, São Miguel do Iguaçu no dia 04 de outubro de 2003, voltando a ser fechado no dia 08 de outubro de 2003 situação que permanece até os dias atuais. Tramita, atualmente, no Congresso Nacional, o Projeto de Lei 7123/2010 de treze de abril de 2010. Esse projeto foi proposto pelo Deputado Federal Assis do Couto do Partido dos Trabalhadores do Paraná e busca a criação da Estrada - Parque Caminho do Colono no Parque Nacional do Iguaçu. Um dos primeiros desdobramentos dessa ação foi à constituição de uma comissão para avaliar e discutir novamente as questões relacionadas ao caminho, o que tem promovido audiências públicas na região. Uma diversidade de memórias foi produzida acerca do Caminho do Colono, que não obstante de temporalidades diversas, se entrecruzam, algumas foram ressaltadas outras silenciadas. É importante compreender que por mais que a reabertura apareça como “vontade geral” da população da região, não há unanimidade. Entender como e porque a reabertura do Caminho do Colono aparece no discurso do poder público municipal como interesse de toda a população implica analisar as múltiplas dimensões e interesses acerca da reabertura ou fechamento da estrada.Da mesma forma torna-se necessário pensar o outro lado do conflito, o Estado na ação e intervenção de suas instituições representativas como IBAMA, Ministério Público Federal, Ministério do Meio Ambiente e as ONGs (organizações não governamentais) que interferiram no processo, sem desatrelá-las das políticas de estado destinadas a proteção do meio ambiente. Neste sentido, a abordagem centrar-se há nas memórias produzidas e ou evocadas pelo poder público municipal e por ambientalistas no campo das disputas pela ou contra a reabertura da Estrada/Caminho do Colono. A disputa de memórias revela-se como enfrentamentos de diferentes sujeitos por espaços e interesses diversos, entre os quais a defesa de interesses econômicos, ambientais, políticos e históricos, como a vinda dos migrantes de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Tais memórias permeiam o campo de disputa dos sujeitos e são elaboradas a partir de um contexto, reproduzindo valores e representações sociais. As mobilizações para a reabertura do Caminho do Colono, neste sentido, foram representadas, entre outros pela imprensa, e a imagem que se disseminou pela teia social foi a de um movimento de e feito por homens, no entanto, as narrativas das entrevistas apontam para outro olhar acerca dessas mobilizações. Denotam um Movimento constituído por uma diversidade de sujeitos que empreenderam uma multiplicidade de significados e interesses em relação à reabertura ou fechamento do caminho a partir dos valores presentes em suas memórias. Alguns desses valores se constituem como bandeiras para o movimento, outros são silenciados ou lembrados apenas de maneira informal. As mulheres participaram em grande número, inclusive em ações coletivas de ação direta, como de enfretamento ao aparato policial. Conhecer as vivências das mulheres nas mobilizações para a reabertura do Caminho do Colono, a partir de suas narrativas, permite, além de reconhecer a sua participação efetiva, compreender como se fez o Movimento Pró-Reabertura, seus sentidos e significados sob uma nova perspectiva, ampliando o campo de compreensão sobre o Movimento e sobre as próprias mulheres. Esta perspectiva possibilita explicitar como as mulheres redimensionaram-se ao questionarem as relações nas quais viviam, abrindo novas possibilidades de participação política.

A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Vida e trabalho: memórias de pescadores sobre a pesca artesanal na Ilha do Amparo após o acidente do navio Vicuña em 2004. Priscila Onório Figueira (Mestranda em História pela UFPR). Orientador: Dr. Luiz Geraldo Silva

Palavras-chave: Acidente ambiental; Memória; Pesca Artesanal. No dia 15 de novembro de 2004 ocorreu o acidente do Navio Vicuña na Baía de Paranaguá. Devido ao acidente houve o derramamento de cerca de 290 mil litros de óleo combustível no meio ambiente. Logo após o evento, várias comunidades pesqueiras locais tiveram que paralisar suas atividades, e devido a isso tais comunidades receberam indenizações e compensações pelos dias em que ficaram paralisadas. Através de jornais e o relatório técnico produzido em 2005, o acidente foi descrito se concentrando nas seguintes informações: as áreas atingidas pelo derramamento de óleo, as empresas autuadas, as medidas compensatórias aos pescadores e os possíveis impactos no meio ambiente. O presente trabalho investigou o modo como a comunidade de pescadores de Amparo localizada no Litoral do Paraná constrói a percepção do acidente de 2004. A pesca praticada pela comunidade estudada pode ser associada às características de uma comunidade tradicional caiçara. Nesses termos, os pescadores seriam “tradicionais”, por adquirirem e transmitirem seus conhecimentos pela oralidade, por conhecerem ciclos naturais, dependerem deles para a sua sobrevivência, e por utilizarem técnicas de baixo impacto sobre a natureza como no caso da pesca artesanal. A pesca artesanal define-se pela utilização de barcos pequenos, e instrumentos de pesca fabricados artesanalmente. Integram-se a essa, técnicas de manejo cujo aprendizado se compreende no âmbito tradicional. Partindo da compreensão de que na comunidade estudada a pesca além de uma atividade econômica está ligada a vida dos pescadores, as questões que permearam essa pesquisa foram: Como os pescadores da comunidade de Amparo percebem o acidente de 2004? Quais as possíveis mudanças que o acidente provocou na pesca local? Através de entrevistas baseadas na metodologia em história oral foi possível perceber uma construção nos relatos dos entrevistados, construção essa associada à memória. Ao empregarmos o termo memória, entendemos que essa trabalha com o vivido, algo que é socialmente construído e selecionado. Considerando a memória enquanto uma fonte histórica, estudar as razões que levam os indivíduos a construir suas memórias de certas maneiras se torna relevante, pois, o processo de relembrar é um meio de explorar os significados subjetivos da experiência vivida e da natureza da memória. Através da história oral pretendemos trazer a subjetividade dos narradores, a experiência vivida pelos indivíduos e como eles representam isso através de suas palavras. Entendemos que a história oral não é um método para fornecer informações sobre o passado, mas sim para entender a experiência vivida pelos indivíduos. O modo como a comunidade em questão visualiza o acidente se dá numa forma dinâmica de tempo. O tempo como elemento fundamental no estudo histórico é também uma vivência concreta, assim, a visão dinâmica de tempo construída pelos indivíduos é algo que parte do vivido. Deste modo, a percepção que os pescadores fazem do “antes” e do “depois” do acidente se mostra como uma possibilidade do historiador perceber a historicidade presente no que foi vivenciado. No campo da História a pesquisa se enquadra dentro das delimitações da Etno-História, e interage também com as preocupações da História Ambiental, nesse campo particularmente tais estudos vem demonstrando interesse com acidentes ambientais e as mudanças que tais eventos vem causando ao meio ambiente e no modo de vida das populações. O diálogo com a obra de E. P. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Thompson ajudou a compreender o modo como os pescadores concebem a pesca. Como uma prática em que não há uma dissociação clara entre vida e trabalho, nessa formulação a pesca é percebida enquanto uma pratica simbólica e material, ou seja, ligada a realidade em que surge, e não de forma distinta. As percepções construídas através da memória, além de “distorções” mostram indícios de contradições, de resistências e conflitos. Pensar sobre a pesca artesanal implica refletir acerca das representações dadas pelos pescadores a essa prática na qual vida e trabalho se entrelaçam.

A história oral na história ambiental: o meio ambiente em ressignificações rituais tradicionais Robson Laverdi Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense-UFF Universidade Estadual do Oeste do Paraná-UNIOESTE Palavras-chave: história oral, história ambiental, ressignificações rituais tradicionais Esta comunicação propõe fazer uma discussão sobre possibilidades e contribuições interpretativas da metodologia da história oral ao campo da história ambiental. Diante de tal intuito, convém dizer que ao mesmo tempo em que a história ambiental se afirma como um campo frutífero de reflexão histórica, propondo variadas abordagens e perspectivas de construção historiográfica, matizadas por percepções e sensibilidades plurais sobre relações de pertença entre homem e natureza no tempo, assim como modulações interpretativas intelectuais, políticas e socioculturais variadas, a história oral tem buscado se firmar como metodologia de inscrição de significados e sentidos produzidos na vida cotidiana. Embora não sendo a história oral uma prática inovadora ao universo de preocupações dos historiadores ambientais, os termos deste possível diálogo permite abrir campos para incorporar a força alternativa de reelaborações constitutivas das relações entre natureza e cultura, especialmente em relação às memórias do e sobre o meio natural em tempos de “crise ambiental”. Ao se colocar desse modo, a prática da história oral talvez possa ir além de seu caráter estritamente metodológico, na medida em que permite incorporar ao conhecimento não apenas um saber acabado sobre relações temporais concluídas de homens com o seu meio. Mas também, e sobretudo, de também compreender a construção/atuação de imagens e significados do meio natural ao horizonte de atuação política dos agentes envolvidos em lutas de pertencimento cultural nas dinâmicas de conflito ambiental contemporâneas. No escopo conceitual dessa articulação temática e metodológica, toma-se de empréstimo aportes teóricos de Raymond Williams (1921-1988), entre as quais as categorias importantes: tradições seletivas, cultura ordinária e estrutura de sentimentos. Entre outras perspectivas a partir daí demarcadas, está a de pensar como dadas representações sobre a natureza, bem como seus usos em narrativas estruturadas em rememorações de rituais tradicionais específicos não podem ser apenas tomados como reflexos de um meio ambiente concebido ou imaginado, mas constitutivas de uma realidade em transformação em dadas experiências e reelaborações que assumem identificações políticas alternativas. Ou seja, não circunscritas apenas por imagens acabadas, mas potencialmente atuantes em lutas de preservação de recursos naturais e modos de vida com eles imbricados, tanto quanto de construção de horizontes de pertença indentitária em cenários reais de devastação, destruição ou deslocamentos populacionais forçados. Com base nestas referências, toma-se para o exercício de demonstração a interpretação de dois relatos indígenas gerados em práticas de pesquisa realizadas nos últimos anos. A primeira delas, decorrente de uma pesquisa interinstitucional realizada no Rio Madeira, estado de Rondônia, em diálogo com populações ribeirinhas num contexto A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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dramático da construção das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. A segunda, realizada na região de Romang, Província de Santa Fé, Argentina, numa ocasião de formação de professores do ensino regular com populações aborígenes. Para esta discussão, toma-se a interpretação de dois relatos específicos: a) de uma jovem indígena de 30 anos, da etnia karitiana, realizada em 2009, em Porto Velho-RO, que narrou sobre significados rituais ancestrais na ambiência do rio pelo seu grupo; b) de um maestro primário, da etnia mocoví, de 50 anos, diretor de uma escola interétnica em Romang, Província de Santa Fé, Argentina, também de 2009, produzido numa oportunidade de contato em um projeto interinstitucional de formação interétnica, sobre a prática do el camiño del sueño, sobre o significado das árvores para aquela cultura, por sua vez, ressignificado numa dinâmica escolar fortemente marcada pela pressão do currículo escolar regular formal da nação argentina. Na esteira destas interpretações, marca-se o intento de perceber como estes dois sujeitos se utilizam de referências culturais de elementos da natureza, sob a forma de uma tradição seletiva, ao mesmo tempo em que dialogam com uma dada estrutura de sentimentos mais ampla, que pressiona com ameaças de destruição específicas para seus grupos. Ao mesmo tempo, visa destacar como tais narrativas são constitutivas de culturas ordinárias, nas quais o meio natural não se faz apenas rememorado com representações abstratas, mas também ativadas por meio de imagens atuantes nestas realidades, entre ameaças, perdas e possibilidades de transformação construídas com o meio ambiente e não a partir dele.

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“Tapando o Sol com peneira”: a camada de ozônio no foco dos cientistas e políticos (19701989) Roger Domenech Colacios (Doutorando – FFLCH/USP) Orientadora Profa. Dra. Maria Amélia Mascarenhas Dantes Palavras-chave: Meio Ambiente, Ciências, Camada de Ozônio. As inovações tecnológicas da década de 1970, incentivadas pela corrida espacial do período de Guerra Fria e a Conquista da Lua em 1969, promoveu a intensificação do olhar científico para o próprio planeta. Especialmente pela a introdução de satélites espaciais de observação, que carregados de instrumentos científicos permitiriam a interpretação de novos dados e a realização de novas “descobertas”. Localizada na Estratosfera, a camada de ozônio foi um dos alvos desses novos equipamentos e dos cientistas atmosféricos. Suas características e funções foram mapeadas no início dos anos 1970, mas principalmente os problemas gerados pela ação humana sobre esta camada também foram observadas neste momento. De maneira geral, o ozônio é compreendido pelos cientistas como um elemento químico que na atmosfera auxilia no bloqueio dos raios ultravioletas, impedindo que estes cheguem na superfície planetária e nos seres humanos com uma intensidade que seria prejudicial à saúde e à manutenção da vida. Porém, mesmo com sua utilidade ao meio ambiente global, os estudos científicos sobre o ozônio entre os anos 1970 até meados de 1985 o caracterizavam de duas formas: como um poluente urbano, devido a episódios de alta concentração na Troposfera, que prejudicariam as populações das cidades. Ou então, como uma “vítima” dos tempos modernos, quando ocorre a degradação desta camada por elementos químicos emitidos pela ação humana, formando um “buraco” que permite a entrada excessiva dos raios solares sobre o planeta. Essa duplicidade se mantém até 1985, quando ocorre a observação in loco de J. Farman da existência de um “buraco” sobre a Antártica, a partir deste momento o “buraco” torna-se o assunto de maior relevância para os cientistas. O “ralo do planeta” como chamou Farman, teria sido provocado por vários compostos químicos: óxido nitroso, bromo, hidróxidos, cloros, e por fim, já no final de 1970 os CFCs (Clorofluorocarbonetos), que levava à divisão química das moléculas de ozônio e à diminuição de sua quantidade em locais onde a espessura fosse fina. Mas não somente nestes locais particulares foram notadas mudanças na presença do gás ozônio, sobre o Ártico também foi feita esta constatação e houve sua diminuição sobre o trópicos. O CFC, foi considerado pelas ciência como o principal responsável pelo problema, era proveniente de produtos industrializados que faziam uso do gás para a refrigeração. Bebidas, geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, se tornaram os vilões da atmosfera. Era necessária a diminuição ou a total paralisação das emissões do CFC na camada de ozônio. Mas até a publicação de Farman apresentando fatos concretos do problema, a comunidade científica e os governos não tinham se dedicado ao assunto. Quando os trabalhos de Farman repercutem nos meios acadêmicos, a comunidade científica interessada neste “buraco”, procurou constatar o fenômeno divulgado, inclusive com vôos in loco na região onde se daria o fato, impulsionando os debates nas revistas científicas. Além disso, o que antes era uma possibilidade de estar ocorrendo foi tratado como um fato, levando a governos criarem meios de conter o avanço do CFC sobre a atmosfera. Em 1987, um ano após a observação in loco de um buraco de grandes dimensões na camada de ozônio sobre o pólo sul, foi realizada a primeira convenção organizada pelas Nações Unidas que buscava conter os avanços deste problema ambiental. Nesta convenção foram consideradas como suas causas as atividades humanas e seus efeitos adversos sobre a atmosfera. O Protocolo de Montreal como ficou conhecido o documento assinado pelos países participantes procurava eliminar dos processos industriais os elementos químicos nocivos ao ozônio, os clofluorocarbonetos e os A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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haloncarbonados. Baseados nos resultados de pesquisas científicas realizadas desde a década de 1970 sobre os efeitos destes dois compostos sobre o ozônio, o Protocolo pretendia científicamente resolver este problema econômico e social que afetava o meio ambiente global por seus efeitos climáticos. O documento, apesar de confirmado pelos países envolvidos, não gerou os resultados esperados e teve de ser revisto em uma nova reunião entre as partes, na cidade de Viena no ano de 1989 - Convenção de Viena. A discussão aos poucos vai sendo transferida de um processo científico, para uma ótica governamental, com a elaboração de mecanismos, leis e acordos que auxiliassem na mitigação dos CFCs na atmosfera. Estas medidas não significaram a recuperação da camada de ozônio, mas uma redução do tamanho do buraco nos anos subseqüentes, e até mesmo a constatação da existência de outros, um acima da linha do Equador e mais um sobre o Ártico, nas extremidades do planeta. Nesta comunicação pretendemos analisar a questão científica e ambiental da Camada de Ozônio. Este estudo tem como intenção compreender os processos de construção do enunciado científico e o papel político das convenções e protocolos governamentais relacionados ao “buraco” nesta camada no periodo de 1970 a 1989, tendo como fontes os artigos científicos publicados nas revistas Science Magazine e Nature.

Do “lixão” ao aterro: história das políticas públicas ambientais em Guarapuava/PR (1970 – 2010) Vladson Paterneze Cunha – Mestrando em História Social – UEL – bolsista CAPES/CNPq – Orientador: Dr. Jozimar Paes de Almeida. Palavras-chave: História Ambiental, Políticas Públicas, Lixo. As mudanças sociais, políticas e culturais que se iniciaram nos anos 60 do século XX levaram ao desenvolvimento de preocupações sociais e intelectuais chamadas de “ecológicas” nos anos 70, e também ao início dos primeiros acordos ambientais entre países no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, com uma maior ou menor intensidade, as chamadas “questões ambientais” foram incorporadas ao debate sócio-político e também às pesquisas acadêmicas em todos os países do mundo durante o século XX. A sociedade passou a se preocupar com os efeitos negativos e devastadores da ação humana sobre a natureza e procurou-se, ao longo do tempo, produzir tecnologias, leis e uma nova consciência humana que visassem uma diminuição desses impactos no meio ambiente. Motores a combustão menores e mais eficientes, fontes de energia alternativas, limpas e renováveis, acordos internacionais contra a pesca predatória e pela preservação de ecossistemas ameaçados, tratados a respeito de mudanças climáticas, separação e reciclagem de materiais são alguns exemplos dessas novas demandas sociais ocasionadas por essa forma de pensar a relação Homem/Natureza. Nesse contexto, apesar das preocupações gerais, o aumento populacional urbano e a crescente produção de bens e mercadorias no sistema capitalista levaram também ao aumento da produção de lixo e resíduos que, depositados irregular ou inadequadamente na natureza, acabaram produzindo efeitos danosos ao meio ambiente natural assim como a toda a sociedade. Tais mudanças de pensamento em relação ao “lixo” também são percebidas no âmbito econômico valorizando-se certos materiais (latas de alumínio, papel, plásticos, metais) como importantes para a economia de matérias-primas e energia, além de notarmos nesse período a organização de um “novo” ramo de negócio envolvido com a coleta e beneficiamento desses materiais que une esforços que vão do catador à grande indústria da reciclagem, passando pela educação da população para colaborar nessa empreitada. Nosso objetivo geral é investigar as políticas públicas ambientais implementadas no município de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Guarapuava/PR durante os anos de 1970 a 2010, relacionadas à produção, coleta e destinação do “lixo” urbano doméstico, bem como entender quais foram as forças sociais e políticas que atuaram para conferir a essa cidade sua atual política pública ambiental. Compreendemos as políticas públicas como um conjunto de ações desenvolvidas pelos poderes públicos (ou com sua colaboração direta ou indireta a iniciativas particulares), amplamente discutidos e definidos por agentes sociais e políticos, que tem como objetivo resolver problemas da coletividade, evitar tensões sociais e melhorar a qualidade de vida da população. Dessa forma também enfatizamos que entendemos o “lixo” como objeto de pesquisa/interpretação histórica devido às relações que podemos estabelecer com as transformações do espaço urbano, da produção/consumo na sociedade capitalista e dos impactos gerados ao meio ambiente natural e social. Analisaremos o tema por meio de uma investigação histórica a respeito da constituição/formulação da legislação municipal específica a respeito da questão (projetos de leis, Leis, atas da Câmara de Vereadores, justificativas de projetos, debates parlamentares, audiências públicas), da análise dos discursos de jornais e periódicos locais que trataram do assunto e também do diálogo com obras e pesquisas científicas sobre o tema em diferentes áreas do conhecimento. Entendemos ser salutar o diálogo com outras ciências e outras formas de abordagem do problema, pois o tema abriga uma miríade de interpretações e contribuições que não podem ser desprezadas pelo pesquisador, devendo antes serem valorizadas e utilizadas pelos historiadores no seu ofício. Procurando interpretar e interrelacionar as práticas sócio-político-culturais com a emergência de uma legislação e uma mentalidade mais preocupadas com os impactos negativos das ações humanas para a natureza e a sociedade, pretendemos relatar nossos resultados preliminares de pesquisa e colaborar na construção de uma prática historiográfica socioambiental que visa uma ampliação das perspectivas de compreensão de nosso tema inserido na dinâmica da sociedade local.

ST 11 - MEMÓRIAS, IDENTIDADES E CONFLITOS SOCIAIS

O processo de individualização do homem e a idéia do retorno à vida comunitária através das lutas sociais a partir da concepção marxista Anderson Prado Docente UNESPAR – Paranaguá-PR Este estudo tem por finalidade fazer uma abordagem sobre alguns conceitos dos Movimentos Sociais mais atuantes na sociedade contemporânea, sobre tudo, movimentos sociais ligados a “luta pela terra”. Para tal, lançarei mão de alguns conceitos já formulados e outros ainda em “formação”. Tendo como base teórica alguns autores que flutuam entre a sociologia, história e filosofia, tentando assim, achar o ponto de orientação para a legitimação histórica/teórica para os Movimentos Sociais, que ao que nos parece justifica-se em Marx e sua concepção de separação entre “homem natureza”. Nos Grundrisse, que é o texto dos esboços de O capital, Marx – tentando romper com toda esta justificação de um suposto “direito natural” à propriedade privada da terra – explica que os homens, em suas origens, não são proprietários individuais. Marx explica que os homens são, originariamente, seres gregários que vivem em comunidade. A relação inicial de apropriação das coisas aparece como relação de apropriação comunal das riquezas naturais, onde a terra aparece como “o fundamento mais elementar de toda a existência humana, como o arsenal natural que possibilita extraírem-se as mais básicas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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condições objetivas para o simples existir dos homens em comunidade”. Os homens se relacionam entre si e com a natureza como co-proprietários dela (não no sentido jurídico do termo). Nestas origens, a terra é o lócus objetivo possibilitador do surgimento de uma subjetividade regedora do princípio comunal/natural da comunidade. Marx explica, portanto, que a criação do indivíduo – da individualidade, no sentido moderno do termo – é histórica: o homem é por natureza um ser comunal (um ser gregário, um ser de rebanho); o que o individualiza é o processo histórico, que interpõe, em seu desenvolvimento, a figura do proprietário entre os membros da comunidade e a natureza; interpõe-se, separando a figura do indivíduo apropriador, do indivíduo que impõe seu Eu (sua vontade subjetiva) objetivamente ao modo de apropriação da riqueza material (natural e ou já produzida pelos homens) como também sobre as vontades dos demais membros da comunidade. Estes, agora, nesta nova relação, nem são exatamente sujeitos (no sentido forte do termo) – pois sua subjetividade/vontade está determinada pela vontade do proprietário – nem mais são proprietários naturais de suas condições objetivas de existência, passando a ter, então, uma relação de alienação – perda de controle, de compreensão, “não-consciência” de seu real status, no sentido marxista/hegeliano do termo – tanto com a natureza quanto consigo próprio e com seus semelhantes. Assim, para se justificar a justeza da luta pela terra na atualidade, pensamos que não é no direito burguês que devemos buscar tal explicação – que fala de direito universal à propriedade, mas que assegura ao mesmo o direito inalienável do proprietário privado (e como já está pressuposto aqui que todas as riquezas do mundo são hoje, de alguma forma, propriedade de alguém [privada ou estatal], acreditamos que seria ingenuidade imaginarmos numa bondade quase divina dos mesmos em redistribuir seus bens de livre e espontânea vontade). Pensamos que o lugar onde devemos buscar tal justificativa para a justeza da luta pela terra está na formação histórica da sociabilidade humana, tal qual fez Karl Marx, pois pensamos que é somente na compreensão histórica do processo de separação entre homem e natureza (como dissemos acima) é que podemos compreender e justificar a tentativa de retorno dos homens à sua relação mais fundamental com a natureza: as lutas sócias podem oportunizar a possibilidade do retorno ao campo, no caso dos movimentos de lutas pela terra, o retorno àquela relação originária, simples, do homem com o solo, com seu arsenal de objetos e meios para sua subsistência.

Um olhar à esquerda: a Força Expedicionária Brasileira. Carlos Henrique Lopes Pimentel. Mestrando do Programa de História Social da Universidade Estadual de Londrina. Orientador: Prof. Dr. Francisco Ferraz. Palavras-Chave: História Política, FEB, Esquerda Militar. Nos últimos anos, os estudos sobre a história política no Brasil encontram-se também em mudanças, o maior acesso às fontes e o aumento, de pesquisadores que se debruçam nos estudos desta área, ampliou interesses acerca deste tema, fazendo com que a historiografia cresça em quantidade e qualidade. Consequentemente, esse debate vem ampliando sua variação temática, mudando os aspectos teóricos e metodológicos, com proveitos recíprocos. Ao invés de se ocuparem apenas com os grandes personagens da história brasileira, os fenômenos de nosso passado passaram a ser analisados em um âmbito geral, sem prejuízo de suas relações com a as diferentes classes existentes na sociedade e com os demais campos do conhecimento histórico. Com o resgate da história política, estenderam-se os debates, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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proporcionando aos pesquisadores aproximações antes impensadas, ou ainda, refazendo contatos tidos como esgotados, ampliando temáticas e aproximando campos. Uma relação que tem se fortalecido nos últimos tempos é o da política com a história militar, contribuindo de grande maneira para as pesquisas sobre a história do Brasil. Assim, compreender o passado e o presente do país passa direta ou indiretamente pela abordagem da instituição militar brasileira, núcleo de forças e relações atuantes na constituição do Estado desde seus primórdios. Tornando-se fundamental a compreensão dos diferentes sujeitos que agiram, e ainda agem, em seu interior, a fim de obter uma leitura mais completa sobre determinados períodos da história nacional, nos quais as Forças Armadas atuaram de forma decisiva.Nessa nova relação entre política e militares, um dos tópicos que tem atraído a atenção dos estudiosos é a Força Expedicionária Brasileira (FEB). A transformação dos estudos despertou o interesse desses novos pesquisadores que, se utilizando de novas abordagens, vêm ampliando os campos de pesquisa nesse assunto. Os estudos sobre a memória, a reintegração social dos veteranos de guerra, as relações dos veteranos com a política nacional, têm permitido algumas dessas mudanças. A literatura sobre a FEB é vasta, existindo inúmeros relatos, memórias, diários de combatentes, narrativas sobre batalhas, principalmente de seus líderes. Entretanto, a maioria das abordagens sobre a Força Expedicionária Brasileira tem sido analisada com um viés conservador, ou seja, sob a antiga óptica da história política que se preocupa, em sua maior parte, em relatar e enaltecer os grandes acontecimentos e os seus heróis, reconstruindo apologeticamente seus feitos e atos. Percebendo que a maioria dos trabalhos sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial analisa as conjunturas políticas e econômicas da entrada e da ação dos brasileiros no conflito, narrando desde a neutralidade do país no início dos combates; passando pela influência norte-americana na tomada de posição, algumas abordam a ação dos soldados brasileiros em solo europeu. Mas poucos se preocupam em analisar e discutir o que aconteceu com esses soldados ao retornarem às suas vidas cotidianas depois de terem presenciado e vivido diretamente os horrores de uma guerra, poucos ainda trabalham com a criação de uma associação, local em que preservaram suas memórias, reivindicando melhorias em suas condições, e menos ainda foi escrito em relação às diferentes posturas políticas que constituíram a FEB e a participação política desses excombatentes no cenário nacional do pós-guerra. Assim, instigado por essas questões, pretende-se, no presente trabalho, discutir e problematizar a participação de militantes de esquerda na Força Expedicionária Brasileira (FEB), principalmente a inserção político-social desses ex-combatentes na conjuntura nacional do pós-guerra. Para tanto, se buscará analisar a entrada desses sujeitos na FEB, suas primeiras ações ainda em solo europeu, até culminar com a formação da Associação de Ex-Combatentes do Brasil (AECB) e a consequente disputa político-ideológica em seu interior, nos anos de sua fundação. Traçando e debatendo as trajetórias desse grupo de veteranos que combateram as forças do Eixo em solo europeu e que, por possuírem ideias contrárias da maioria das Forças Armadas e dos governantes do país, foram esquecidos na historiografia brasileira, como se não existissem. Além de apontar a existência desses sujeitos, pretende-se também, nessa pesquisa, contribuir para o conhecimento de um assunto pouco estudado pela história política do país, a existência de militares de esquerda no seio das Forças Armadas nacionais, ampliando a gama de olhares sobre um determinado fenômeno histórico, inserindo-lhe novos personagens. Portanto, devese ressaltar que por mais esquecida ou apagada que possam ser a ação desses militantes, não se pode negar essa existência. Este trabalho compreende que tal desconhecimento não é natural, acredita-se que por influência de forças conservadoras, principalmente no seio das Forças Armadas, a existência e as consequentes ações de sujeitos contrários a uma lógica, que irá se hegemonizar no pós-1964, foram sendo, de maneira arbitrária, apagadas da história política e militar do Brasil. Crendo na função social do historiador de ampliar o debate acerca de diferentes fenômenos históricos, mostrando aspectos pouco analisados no processo de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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construção narrativa, esse trabalho buscará mostrar um viés que foi sendo obscurecido com o passar dos anos, com o intuito de ampliar o debate acerca da história republicana do país, mostrando que as Forças Armadas não são caixas fechadas com ideias e práticas prontas. Essa será a lógica pela qual se analisará o debate acerca dos veteranos de esquerda na FEB, fortalecendo um enfoque que ainda se encontra longe de seu esgotamento.O recorte temporal da pesquisa se colocará entre os anos de 1942, período em que o Brasil começa a se aproximar de forma concreta dos Estados Unidos da América (EUA) e também dos Aliados, ocorrendo progressivamente o rompimento diplomático e a consequente declaração de guerra ao Eixo; passando pelos anos seguintes quando o país formou e enviou tropas que participaram da Segunda Guerra Mundial; o retorno; a inserção e o problema que os veteranos de guerra sofreram. Até 1952, período em que a chapa nacionalista, da qual alguns veteranos de esquerda faziam parte, foi derrotada nas eleições do Clube Militar. Este recorte permite problematizar como agiram esses sujeitos e as consequências dessas ações, em uma conjuntura fortemente bipolar, não só na sociedade militar como também na civil, anos em que esses veteranos atuaram com certa relevância na agenda política nacional. Experiências de Militantes Petistas de Santa Helena-Pr (1980-2012): memórias e significados. Diná Schmidt; Mestranda do PPGH da UNIOESTE, sob orientação da Professora Drª. Geni Rosa Duarte. Chaves: militantes petistas; experiência; Santa Helena. proposta de comunicação tem por objetivo colocar em discussão, com os pares da disciplina, o projeto inicial de minha dissertação de mestrado, iniciado em março deste ano. O intento desta proposta está mais ligado a busca de contribuições para o desenvolvimento e amadurecimento da pesquisa, do que a apresentação de trajetória de pesquisa a conclusões a respeito da problemática em questão. Neste resumo, apresentarei uma síntese da proposta de pesquisa. A pesquisa aqui esboçada, tem por objetivo compreender e problematizar as experiências, e os sentidos construídos em torno destas, de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) do município de Santa Helena, localizado no extremo Oeste do Paraná, as margens do Lago de Itaipu, entre 1980 e 2012. A partir de entrevistas orais, busco perceber na narrativa desses sujeitos o impacto de suas experiências militantes em suas trajetórias de vida. Observando, atentamente, como (re)significam em suas memórias, os caminhos percorridos na militância e nos cruzamentos destes caminhos com outras dimensões de suas vidas, como a pessoal e profissional.O interesse por esse objeto dialoga com o contexto histórico atual, no qual o Partido dos Trabalhadores atingiu, em âmbito nacional, uma projeção significativa a partir da conquista da presidência da república nas últimas três eleições (2002, 2006 e 2010). Pode-se observar que essa projeção tem se dado em três direções: a institucional, projetando o Partido; em torno de militantes com maior visibilidade pública a partir de postos assumidos no governo petista; e em torno do ex-presidente Lula com a construção de um mito pessoal em torno de sua trajetória. Sem negar a importância de discutir esses três eixos, a proposta desta pesquisa é colocar em pauta as trajetórias de pessoas que contribuíram para a construção e ascensão do partido e do projeto petista, mas não ganharam projeção política, social ou em trabalhos acadêmicos. Assim, este trabalho se constrói na aspiração de compreender e problematizar um objeto que ainda não possui grande inserção acadêmica. Apesar de possuir grande relevância social, visto que compartilho da ideia de que o momento histórico vivido hoje pelo Brasil, com seus avanços e problemas, só foi possível a partir da ação desses sujeitos. A opção pela produção de narrativas a partir da história oral está diretamente ligada às características do objeto de pesquisa que apresento. Ao buscar compreender e A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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problematizar as experiências e os significados que os sujeitos constroem em torno delas, documentos burocráticos do Partido, materiais de campanhas eleitorais ou documentos do Fórum Eleitoral não seriam satisfatórios. Embora atendam a outras questões, essas fontes não poderiam atender aos meus objetivos com tanta propriedade quanto as narrativas orais. Pois como nos adverte Alessandro Portelli, a historia oral é largamente frutífera quando pretendemos nos ater mais aos significados produzidos pelos sujeitos do que sobre os fatos.Até o presente estágio de formulação deste objeto, o referencial teórico utilizado para pensar a trajetória desses sujeitos dialoga com o as postulações de Thompson a cerca do conceito de Experiência. Para Thompson, a experiência se define como o conjunto de ações que se dão em um determinado contexto histórico diacrônico e constroem a consciência dos homens e de grupos, especialmente da classe. Assim, a experiência se constrói em um diálogo entre a base material, que condiciona a vida dos sujeitos, e os constructos culturais que permeiam o tempo e espaço de vivência do grupo, e que condicionam igualmente suas experiências.Considerando as proposições de Thompson, compreende-se que o sujeito se constitui ao passo que molda seu contato com o mundo a partir da construção de sua experiência. Assim, para os termos desta pesquisa, compreende-se que os sujeitos constroem suas experiências a partir de diversas variáveis que agem de forma relacional. Portanto, a compreensão e problematização das experiências dos sujeitos partem de igual atenção dirigida ao lugar que ocupam na estrutura produtiva ao longo de suas trajetórias; pressupostos religiosos, culturais e ideológicos que assumem ao articular suas leituras e ações; pressupostos da mesma natureza a que se opõem ao agir e narrar; e ainda o contexto histórico em que se deram a construção desses pressupostos, suas ações e que articulam suas narrativas.

Memórias da Greve: Análise dos Relatos de Professoras da Rede Pública Estadual do Paraná sobre a Greve de 1988. Fabiane Luzia Menezes – Mestranda em História Social – UEL Orientadora: Profª. Drª. Ana Heloisa Molina Palavras-chave: Memória, professores, greve de 1988. A greve dos professores da rede pública do Paraná do ano de 1988 é o foco desta pesquisa porque ainda é a mais lembrada da categoria no Estado, devido ao fato de terem sofrido repressão do Governo. A greve ocorreu nos meses de agosto e setembro daquele ano, e transcorridos quase um mês do movimento, especificamente no dia 30 de agosto, os professores organizaram uma passeata que se encerraria no Palácio do Iguaçu (sede do governo do Estado), mas ao chegarem em frente ao lugar planejado foram recebidos pela cavalaria da Polícia Militar, e a partir daí teve início o confronto. Vários professores saíram feridos pelos cassetetes dos policiais e por estilhaços de bombas de efeito moral. Após o incidente a greve ainda permaneceu, e foi encerrada no dia 22 de setembro, mas, os professores não alcançaram as reivindicações que motivaram o início do movimento, o governador do Estado, Álvaro Dias, se negou ao diálogo ou qualquer tipo de negociação durante a greve, além de cortar os salários e ameaçar os professores que trabalhavam pelo regime CLT de serem demitidos. Devido a tudo isso, os professores resolvem retornar ao trabalho. Mas, esta greve se tornou um ícone da luta da categoria, que relembra todos os anos, com paralisação e passeatas, o dia 30 de agosto e toda a repressão sofrida pelos professores. O sindicato dos professores, APP (no período da greve ainda era apenas Associação dos Professores do Paraná, no ano seguinte, 1989, se torna APP sindicato), é a promotora desta rememoração anual e produz material para que os professores discutam A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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sobre o movimento atual da categoria. Desta forma, a partir dos depoimentos de professoras que atuavam na rede estadual do Paraná na época da greve, vamos realizar uma análise desta memória, tentando perceber os sentimentos e as representações construídas a partir daquele fato histórico vivenciado, e constantemente reconstruído na dinâmica do movimento e das relações entre os professores. Esta análise faz parte da pesquisa desenvolvida para o programa de Mestrado em História Social da Universidade Estadual de Londrina, em que foram entrevistadas oito professoras da rede estadual de ensino do Paraná, tendo como critério o fato de estarem vinculadas ao Estado como docentes no período da referida greve. Destas oito professoras, quatro foram selecionadas na capital do Estado, Curitiba, e as outras quatro em Londrina e região. Como os fatos aconteceram em Curitiba, a seleção foi realizada a fim de conter relatos tanto da participação ativa nos conflitos, como também o acompanhamento destes conflitos à distância, a fim de perceber, também, a construção de uma memória coletiva, e as nuances das memórias individuais. É interessante ressaltar que duas professoras, conforme citado anteriormente, já estavam aposentadas durante o movimento de 1988, mas, se encaixaram na proposta desta pesquisa porque atuavam no movimento, mesmo depois de aposentadas. E atuam até o presente momento, pois fazem parte de um grupo denominado Coletivo de Aposentados, que está vinculado a APP sindicato. Este coletivo, como pôde ser percebido, é formado por professores já aposentados, mas, que permanecem atuantes, continuam discutindo, debatendo as questões referentes à categoria. Esse grupo foi encontrado em Curitiba, e a seleção não foi proposital, mas, trouxe os membros mais antigos, pois já transcorreu um período significativo do momento de referência aos dias atuais, são 23 anos.A entrevista realizada com estas professoras foi direcionada por um tema, no caso, a greve dos professores de 1988, e trouxe cinco eixos principais, como: O cotidiano da greve; Sobre o governador Álvaro Dias; A volta ao trabalho; sobre a APP; e sobre a identidade. Estes cinco eixos nortearam a elaboração das questões, a fim de contemplar todos os aspectos referentes àquela greve. O procedimento metodológico para realização da pesquisa, recolhimento e transcrição, bem como análise das entrevistas tem como base a História Oral, e também as discussões próprias do conceito de memória. Assim, tendo como referencial teórico as discussões de Paul Thompson, Michel Pollak, Pierre Nora, algumas contribuições de Maurice Halbwachs, os trabalhos com memória desenvolvidos por Ecléa Bosi, Lucília Delgado, Sônia de Freitas, dentre outros, o objetivo é compreender qual a memória que permaneceu para estas professoras entrevistadas sobre a greve da categoria de 1988. Do bandeirante histórico ao bandeirante mítico: a construção do mito historiográfico paulista. Flávio Raimundo Giarola Mestre e Doutorando em História Universidade Federal de Minas Gerais Palavras-chave: Guerra dos Emboabas; Bandeirantes; Historiografia A figura do bandeirante paulista tem sido tema de livros e pesquisas desde o final do período colonial. Hora representado como mestiço e algoz das tribos indígenas, hora visto como o pioneiro na construção da nação e alargador do território nacional; a imagem do bandeirante caminhou entre esta dualidade, indo de anti-heróis para heróis da história do Brasil. Durante o período colonial, os bandeirantes eram estigmatizados pela “legendanegra”, que os desqualificavam como insubordinados, incivilizados, impuros. Diante do olhar dos portugueses, esses homens eram inferiores, ainda que necessários para o projeto de conquista do interior e para o descobrimento de minerais preciosos. Essas características apareciam, principalmente, nos escritos dos jesuítas espanhóis, adversários dos paulistas, que A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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invadiam diversas missões em busca de mão-de-obra indígena.A Guerra dos Emboabas contribuiu para acirrar essas representações, visto que os imigrantes portugueses que seguiam em direção às Minas, consideravam os homens do Planalto de Piratininga indignos de receberem mercês da Coroa, devido a todos os atributos negativos elencados acima.No entanto, ainda no século XVIII, tentativas de ressignificação da imagem do bandeirante foram empreendidas por Pedro Taques de Almeida Paes Leme e Frei Gaspar de Madre de Deus. Porém, a tendência, em grande parte do século XIX, sobretudo no período de predomínio do indianismo, foi de representar os bandeirantes como anti-heróis, assassinos dos indígenas e obstáculos para o empreendimento dos jesuítas. Em fins dos oitocentos, entretanto, a historiografia paulista, movida por seu regionalismo, iniciaria um resgate do personagem, exaltando-o como o grande desbravador do território nacional. O bandeirante tornou-se o construtor do Estado nacional, através do devassamento dos sertões e da incorporação de imensas regiões ao domínio brasileiro. Mesmo a composição miscigenada foi ressignificada por essa historiografia, passando a ser positivada. A mestiçagem paulista teria um aspecto diferente pois teria seguido em direção à adaptação aos trópicos. O envolvimento destes indivíduos na Guerra dos Emboabas também foi reavaliado. O conflito passou a ganhar ares de luta nacionalista, onde os corajosos paulistas guerrearam em defesa dos interesses da pátria, que estavam sendo ameaçados pelos reinóis.Ainda que alguns trabalhos tivessem buscado destacar os atos violentos praticados contra os indígenas, como no caso de Capistrano de Abreu ou Darcy Ribeiro, na grande maioria dos autores, estes acontecimentos passaram como simples notas, ou como movimentos necessários para a civilização dos gentios. Deste modo, configurou-se no imaginário nacional a imagem do herói paulista, ensinada ainda hoje em muitas escolas. Nas próprias representações imagéticas que se percebem em pinturas e estátuas presentes em diversos museus, o homem descalço, com feições mestiças, é transformado em um indivíduo com aspectos nobres e traços europeus. Assim, do século XVII ao século XX, a distância entre o bandeirante histórico e o bandeirante mítico tornou-se um fosso que, somente nos anos recentes, a historiografia vem tentando transpor. Dito isto, nosso trabalho pretende analisar todo este imaginário em torno do bandeirante. Num primeiro momento, intencionamos visualizar este personagem em seu período histórico, tratando das representações dos paulistas nos séculos XVII e XVIII, principalmente no período do conflito contra os portugueses. Em seguida, buscaremos abordar os trabalhos historiográficos que focalizaram as bandeiras, tratando desde as obras que deram destaque às visões indianistas, que ressaltavam o extermínio dos índios pelos mesmos, até a construção do herói bandeirante, centrando a análise nos principais autores que, em fins do século XIX e início do XX, elevaram tal figura histórica a símbolo da nação. Objetivamos, portanto, entender os caminhos que levaram os “mamelucos paulistas” de indivíduos de sangue impuro e sem civilidade a ilustres membros do panteão de heróis nacionais.

Considerações sobre a cultura política libertária George Araújo Mestrando em História e Culturas Políticas pela UFMG – Orientadora: Kátia Gerab Baggio Palavras-chave: Cultura política libertária, Anarquismo, História das ideias políticas e sociais A história do anarquismo e de sua influência no movimento operário-social ao redor do mundo foi, durante muito tempo, relegada ao esquecimento ou considerada de importância menor. Fosse porque a maioria dos historiadores que se dedicou a esse tema pertencesse aos quadros dos Partidos Comunistas ou Socialistas, fosse porque os autores de alguma maneira simpáticos A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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ao anarquismo fizessem uma espécie de hagiografia, fosse por ter sido basicamente ignorada pelos historiadores tradicionais que, ao considerar história política apenas a história do Estado, das instituições e partidos políticos, simplesmente desprezavam-na. Esse paradigma, contudo, seria superado pela historiografia do século XX, particularmente com a renovação da história política, a partir dos anos 1960. A partir daqueles anos houve um intercâmbio cada vez maior da história com a ciência política. O resultado desse diálogo foi uma história política renovada e ampliada, chamada por alguns historiadores de “nova história política”. A consequente expansão do campo de abrangência da história política, anteriormente referida, trouxe novas perspectivas e parâmetros para a abordagem dos fenômenos políticos, como o conceito de cultura política, a nosso ver útil para a caracterização do anarquismo e sua práxis. Certamente, nenhuma cultura política é estanque pois pode modificar-se a si mesma para responder ao surgimento de novas questões e problemáticas sociais, bem como ser influenciada por outra no decorrer do tempo. Não se trata, então, de empregar esse conceito para atribuir ao anarquismo uma identidade fixa, imutável, mas antes de utilizá-lo como uma ferramenta que, sem desconsiderar a importância da duração, auxilie a caracterizar o anarquismo em determinados contextos históricos e, a partir disso, reconhecer sua linguagem, seus ícones e símbolos, além de discutir quais eram suas ideias, leituras do passado, esperanças e visões de mundo, bem como sua práxis no movimento operário-social. A formação de uma corrente política libertária, apartada das outras vertentes do movimento socialista, resultou de um processo de diferenciação no interior do movimento operário francês, que começou com a insurreição de 1848 e culminou com a cisão entre “socialistas autoritários” e “socialistas libertários” durante as sessões da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Ainda no século XIX, algumas características já conferiam à cultura política anarquista uma originalidade que permite diferenciá-la de outras culturas políticas próximas, como a socialista. A cultura política anarquista está marcada pelo signo de uma radicalidade — buscada, reivindicada valorizada —, que cumpre a função de prover os militantes libertários de uma identidade distinta às outras correntes políticas que buscam uma transformação mais ou menos completa do status quo. Contudo, em meia a essa radicalidade, é a revolta o valor aclamado pelos anarquistas, e não a violência. Revolta contra o obscurantismo clerical, contra a manutenção da ignorância popular, contra as eleições (“fraudulentas”) que visam legitimar um sistema socioeconômico (“corrupto e opressor”). Identidade radicalizada que — a despeito de sua similaridade com vários grupos filiados ao movimento socialista — busca símbolos próprios de expressão (a bandeira negra, o A estilizado), reafirma-se em diferentes redes de sociabilidade (festas, encontros familiares, relações de camaradagem) e procura referências históricas (a Comuna de 1871, por exemplo) que vão compondo a mitologia política dessa corrente. Mas a cultura política libertária, como qualquer outra cultura política, não pode ser concebida como um dado imutável, alheio às influências do tempo, do espaço e da cultura local. Durante o século XIX, ela esteve profundamente ligada ao movimento operário, disputando sua direção com o movimento socialista. Entretanto, Outubro de 1917 e a expansão da influência do bolchevismo e do comunismo soviético representaram um grande desafio para a cultura política libertária, que buscou, ao longo do século XX, adaptar-se e reinventar-se, incorporando novas demandas que foram sendo colocadas pelos mais variados movimentos de cunho social, político, cultural e ambiental. A presença judaica na produção historiográfica brasileira: um balanço Helena Ragusa (mestre pelo curso de História Social da Universidade Estadual de Londrina)

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O presente trabalho tem como objetivo analisar os estudos que vem sendo feitos em torno dos cristãos-novos na América Portuguesa, buscando dialogar as diferentes nuances entre um e outro, considerando a ampla e diversa inserção desses agentes na sociedade à qual passaram a integrar. A partir da segunda metade do século XVI, um grande fluxo de judeus neoconversos oriundos da Espanha e de Portugal chegava ao Brasil fugindo das perseguições ibéricas. Desempenharam os mais diversos papéis nos diferentes setores da sociedade desde os primórdios da colonização até os dias de hoje. Muitos dos que para cá vieram acabaram prosperando e lucrando com as atividades que faziam parte do cenário da época, fosse à atividade marcada pela exploração do pau-brasil, matéria-prima extremamente valorizada pela Coroa; o estabelecimento da empresa açucareira, que pelo menos por um século foi a principal fonte de lucro para os portugueses; ou ainda atraídos pelas oportunidades do ouro nas Minas Gerais. O sentido de se narrar uma história sobre tais personagens no mundo luso-brasileiro seria compreender sua atuação na sociedade e as dificuldades que enfrentaram diante das perseguições sofridas por parte da mesma, e pela Inquisição, indicando resistências em relação à cultura e à religião que lhes eram impostas. Uma das características marcantes da colônia era a diversidade cultural e religiosa vivida e, portanto, inserida no dia a dia das populações que aqui se encontravam, apresentando traços católicos misturados a outras formas de crença, estando entre elas, o judaísmo.É certo que a saída de judeus e cristãos-novos da Península Ibérica envolveu questões muito mais amplas, que se reconstituídas tendem a contribuir para uma melhor compreensão sobre o estabelecimento desses personagens em nosso território. Os estudos em torno do cristãonovo no Brasil avançou não só na quantidade de pesquisas realizadas nessa área, mas também na qualidade com que elas se apresentam. Os primeiros trabalhos partiram de um viés mais econômico. A história sobre a vida dos cristãos-novos na colônia referia-se ao Brasil como um lugar de excelentes oportunidades de enriquecimento, compreendendo que essa seria uma razão bastante forte para que os judeus batizados tivessem interesse em se estabelecer no país na esperança de encontrar um ambiente próspero e favorável.Com o passar do tempo, outras temáticas relacionadas à presença cristã-nova no Brasil foram inseridas na historiografia. O fator social, cultural e religioso passou a fazer parte dos estudos que buscavam compreender a atuação desses indivíduos na sociedade que aqui se formava. Desse modo, o interesse pelas relações cotidianas que ao longo do tempo foram se consolidando entre esses sujeitos e os demais habitantes da colônia tornou-se objeto de uma grande variedade de estudos. As manifestações culturais da religião foram transmitidas de uma geração para outra, e, embora existam aqueles que apontem para certo afastamento do judaísmo, é possível perceber que a prática da tradição judaica não foi abandonada, e aos poucos, não todos, mas alguns neoconversos trataram de inseri-la na esfera pública à qual pertenciam. Atentando para a importância desses agentes no período colonial, o interesse de estudiosos que buscaram e buscam compreender as diversas maneiras do cristão-novo lidar com essa ascendência, suscita cada vez mais pesquisas voltadas para as movimentações e adaptações decorrentes da expulsão e conversão forçada ao cristianismo, assim como os múltiplos comportamentos possíveis, enquanto mantenedores ou não da cultura judaica.Vale lembrar que a proposta de se realizar um estudo sobre os cristãos-novos no Brasil não é tarefa simples, posto que, dentre outros fatores, sua origem está dissolvida entre os povoadores e imigrantes portugueses, confundindo-se entre eles. Mas, o fato, porém, é que a existência de um número bastante significativo de documentos e fontes propiciam ao historiador desvendar outras faces do neoconverso e de sua atuação no Brasil Português, fazendo com que sua presença não seja compreendida apenas sob uma perspectiva. Por trás das atividades exercidas pelos cristãos-novos no Brasil enquanto colônia, muitos elementos culturais e religiosos – se codificados - podem revelar a existência de uma A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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memória histórica que legitima a importância de se estudar a presença desses personagens na construção do Brasil. Nesse sentido, foi se abrindo e abre-se cada vez mais, um universo de possibilidades, sobretudo, as inúmeras fontes existentes tornando possível identificar e desvendar os papéis desenvolvidos por tais personagens em nosso território, relacionados aos costumes, ao comportamento e às tradições que eles traziam. Palavras-Chave: Cristãos-novos; América Portuguesa; historiografia

Memória e identidade do Partido Comunista do Brasil. Jean Rodrigues Sales. Doutor em história pela UNICAMP. Professor Adjunto da UFRRJ. Palavras-chave: memória, identidade, comunismo. Os partidos comunistas dedicam uma atenção especial ao passado. Diferentemente de outras organizações, é comum entre os comunistas a prática de escrever e reescrever a sua própria história. Essa tradição desempenha um papel importante na vida partidária na medida em que, na maioria dos casos, o passado é utilizado para respaldar as escolhas políticas do presente e dar coesão e identidade política à organização.Se tal prática é comum entre os partidos comunistas de forma geral, no caso do Partido Comunista Brasil (PC do B) ganha um destaque ainda maior. O fato de ter surgido de uma cisão dentro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o levou, desde o seu nascimento, a utilizar o passado para justificar a sua própria existência e as suas escolhas políticas. Nesta comunicação, além dos aspectos amplos da relação do PC do B com o seu passado, discutiremos mais especificamente a forma como o partido tem escrito a história da guerrilha do Araguaia, evento que é constantemente apontado como prova e exemplo maior da coerência revolucionária do grupo.Para tratarmos do tema, partiremos da apresentação da abordagem e dos pressupostos teóricos do livro de Marie-Clair Lavabre Le fil rouge. Sociologie de la mémoire communiste. Em seguida, discutiremos as possibilidades de utilização dessa abordagem para o estudo da história do PC do B e, ao mesmo tempo, com a pretensão de que seja útil para compreensão da história de grupos, partidos e organização comunistas de uma forma geral. Em resumo, partindo do pressuposto básico de que é a partir do presente que o passado toma forma na memória comunista, a autora apresenta quatro hipóteses com as quais trabalha analisa a memória do Partido Comunista Francês: 1. A referência ao passado é uma função dos imperativos do presente na historiografia, na retórica política e na memória viva. 2. As histórias de vida individuais podem ser lidas como tentativas de justificativas de práticas presentes. 3. Certos momentos (os primeiros anos de militância; o ponto culminante de lutas sociais; momentos de vitória ou derrota, etc.) são privilegiados tanto na memória partidária quanto individual. 4. A apropriação da memória partidária deixa espaço para traços particulares que tem a ver com as diferenças de geração, tradição familiar, aprendizagem escolar, momento da adesão, etc. Acreditamos que as principais hipótese e conclusões do trabalho de Marie-Clair Lavabre podem úteis para o entendimento da história do PC do B, particularmente no que diz respeito ao uso do passado para legitimar as opções políticas no presente e, ao mesmo tempo, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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assegurar a coesão de sua identidade política. Para a análise, escolhemos um exemplo particularmente importante para a história e a identidade partidária: a construção da memória sobre a guerrilha do Araguaia. Antes de tudo, vale lembrar que o PC do B surgiu, em 1962, de uma cisão no interior do velho Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922. No momento da separação, ficou no PCB a maior parte dos militantes, que ademais viveu entre os anos de 1962 e 1964 o seu momento de maior importância política. O PC do B, por sua vez, aos poucos, e com muita dificuldade, procurava demarcar o seu território político e ideológico em relação ao PCB. Sem forças políticas, entretanto, a sua atuação no período anterior ao golpe de 1964 se resumiu praticamente ao proselitismo político nas páginas de seu jornal A Classe Operária. Uma das principais ferramentas – se não a principal - utilizada pelo PC do B na demarcação de seu território político e na coesão de sua identidade foi exatamente a história e a memória partidária desde a sua fundação. Com efeito, o discurso político que fundamenta a criação do partido foi estruturado a partir do respaldo no passado, e que tem como exemplo mais aparente o fato de ao surgir ou, como querem seus membros, ser "reorganizado" em 1962, reivindicar para si o nome e o patrimônio simbólico do velho partido comunista fundado em 1922. Foi exatamente através dessa história que o PC do B tentou convencer os seus militantes e interlocutores que seria o verdadeiro partido comunista atuante no Brasil, que se mantivera dentro das autênticas tradições marxista-leninistas, enquanto o outro teria se afastado desse caminho. Podemos dizer que essa disputa com o PCB pelo patrimônio simbólico representado pela tradição do comunismo brasileiro desde 1922 marcou toda a história do PC do B, e a ela o partido dispensou muito de suas energias, o que podemos perceber pelo lugar especial que a questão ocupa na história que o PC do B conta de si mesmo. Juntamente com a problemática de sua origem, o tema da guerrilha da Araguaia é, sem dúvida, o que ocupa maior destaque na construção da identidade partidária. Hoje, pode-se afirmar que todos os militantes do PC do B se identificam com o episódio como o mais emblemática do caráter revolucionário e coerente de seu partido, o que lhe confere grande força simbólica. Um exemplo marcante de tal significado foi o pedido feito pouco antes de morrer pelo dirigente mais importante do Partido, João Amazona. O velho dirigente, que chegou a participar da preparação da guerrilha, pediu para que as cinzas de seu corpo fossem jogadas na região do Araguaia. No dia 21 de junho de 2002, o seu pedido foi aceito e foi realizada uma cerimônia na cidade de Xambioá para lançar as suas cinzas, ao mesmo tempo que se anuncia a construção de um memorial sobre a guerrilha na região. A escrita da História da cidade - memórias e narrativas: Alagoinhas como objeto de atentos viajantes e memorialistas – 1889-1960 José Jorge Andrade Damasceno – Dr-UFF; Professor Adjunto na Universidade do Estado da Bahia – Campus II, Alagoinhas Palavras chave – memória, Alagoinhas, memorialistas. Desde os fins do século XIX, aos meados do XX, Alagoinhas chamava atenção daqueles que por lá passassem, que para lá fossem ou que lá vivessem, sob quaisquer pretextos. Sua condição de entroncamento ferroviário e de entreposto comercial da região, a colocava ao alcance de olhares atentos e argutos, produzindo neles as mais diversas impressões, que acabaram por alçá-la à condição de objeto de descrições e reflexões perpetuadas em obras memorialísticas, que aqui se pretende analisar, como parte de um projeto maior e mais ambicioso, a saber, o de (re) visitar a história de Alagoinhas. Fazendo uso de diferentes fontes escritas e orais, pretende-se reconstruir memórias, apreender e analisar os silêncios, de modo a permitir ao pesquisador, compreender os A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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“esquecimentos” e/ou “apagamentos” de evidências relacionadas aos vestígios e eventos, episódios e/ou circunstâncias formadoras do devir da cidade e de seu povo. Neste sentido, convém salientar que, com este projeto ora em construção e aberto às sugestões, pretende-se chamar a atenção para a existência de um conjunto de obras de caráter memorialista, a partir do qual, aqueles que pretendam realizar pesquisas em torno da história local, poderão estar diante de um farto material de trabalho, com o qual poder-se-á empreender incursões no tempo histórico da cidade, com o fim de conhecer muitos momentos da vida cotidiana, de diversas fases do processo de consolidação de Alagoinhas, enquanto cidade “cabeça” da região Agreste da Bahia.Tomando como ponto de partida textos escritos por um viajante, dois observadores e duas memorialistas que, em recortes temporais diferentes e descontínuos, registraram as impressões deixadas pela cidade em seus espíritos, este trabalho pretende analisar a “escrita da história de Alagoinhas, interessado que está seu autor, em apreender e discutir as razões pelas quais aquela pequena localidade do interior baiano, dos finais do século XIX e meados do XX, chamara a atenção do viajante Durval Vieira de Aguiar, dos observadores Euclides da Cunha e Rui Barbosa e, das memorialistas Joanita Cunha e Maria Feijó, ao ponto de seus escritos e observações, se tornarem fontes privilegiadas no trabalho de pesquisa histórica. Fontes de consulta obrigatória para aqueles que se enveredem por caminhos que busquem conhecer e escrever a respeito dos diversos aspectos da história da cidade, em conjunto, os escritos dos viajantes, observadores e memorialistas, permitem ao pesquisador ter uma viva idéia de como eram seus contornos espaciais, seus hábitos culturais, seus avatares políticos, bem como traços do modo de ser e pensar, daqueles que tomavam parte do cotidiano local, na construção dos espaços de convivência, assim como das estruturas sociais e econômicas, sobre as quais repousavam os elementos formadores dos “lugares de memória”. Saliente-se, por fim, que, para que tão ousado propósito tenha algum êxito, se faz imprescindível a participação ativa e decisiva de estudantes e professores do curso de História da Universidade do Estado da Bahia, bem como o seu proponente, precisará contar com a colaboração de colegas integrantes de outros cursos de História, com idéias e sugestões, no sentido de ajudar em sua formulação teórica e metodológica, com o fim de tornar este projeto defensável junto aos órgãos de fomento de pesquisa, bem como tornar sua execução viável.

A memória da guerra através dos livros: relatos de ex-combatentes paranaenses da Segunda Guerra Mundial Maico José Moura Aluno de Pós Graduação em Patrimônio e História pela Universidade Estadual de Londrina A participação brasileira na Segunda Guerra Mundial é, entre os eventos históricos do século XX, um dos mais comemorados por diversas comunidades de memória, e um dos menos estudados pela historiografia acadêmica, nas universidades e institutos de pesquisa. Mesmo os livros didáticos, ao longo de mais de seis décadas desde o final do maior conflito bélico da história, pouco abordam tal envolvimento (NEVES, 1995; FERRAZ, 2005; FERRAZ, 2010). Dentre as diversas modalidades de participação do país na guerra, o envio de mais de 25 mil jovens cidadãos civis, recrutados por todo o país, para lutarem na Itália, contra o nazi-fascismo, desponta como a mais visível desta, e traz consigo também a maior parte dos esforços comemorativos. Contudo, mesmo este evento apenas recentemente tem atraído mais a atenção das novas gerações de pesquisadores, contrastando com a quase absoluta falta de pesquisas sobre o tema até meados da década de 1990.Um dos campos de estudos mais A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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procurados nos últimos anos tem sido o dos estudos das memórias sociais, nos quais se examina as razões pelas quais os eventos históricos podem ser lembrados ou esquecidos, quais os critérios e valores que traduzem sua relevância, ou não, para a posteridade, e quais os meios e estratégias de criação, recuperação, manutenção e transformação das memórias inscritas em uma sociedade como a brasileira. A pesquisa aqui proposta visa oferecer uma contribuição para estas questões, abordando como um fato histórico específico (a participação de uma unidade expedicionária brasileira na Segunda Guerra Mundial) foi construído como objeto de pesquisa histórica, seja através de memória social pelos seus próprios atores - os combatentes, suas famílias e agremiações – bem como pelos diferentes agentes sociais que elaboram narrativas e interpretações históricas relacionando-as com outras memórias sociais, construídas a seu modo pela instituição militar, pelos historiadores e por outros agentes culturais, como os meios de comunicação de massa e as instituições escolares.Devemos entender que uma das principais bases desta “comunidade de memorias” são as associações de ex-combatentes, que a priori foram criadas com o intuito de ser a voz de seus membros, ou seja, os representando junto aos órgãos oficiais, ou como um ponto de encontro social. Porém, como já dito anteriormente, também foram organizadoras e fomentadoras da memória social deste grupo. Este fenômeno pode ser observado também em outros países:No mundo todo, as associações de veteranos ou de ex-combatentes sempre possuíram mais ou menos essas mesmas funções: a) constituir-se um ponto de encontro, sede de eventos sociais de seus membros; b) organizar a luta pelos direitos de seus afiliados; c) representar coletivamente os ex-combatentes e pronunciar-se em seu nome; d) organizar as comemorações e toda expressão de memória de seus feitos, como a edição e/ou divulgação de memórias escritas, a ereção de monumentos, a participação em desfiles e cerimônias comemorativas, a administração de museus relacionados à guerra em que combateram. Por todas estas razões as associações são “lugares de memória”, tanto no sentido físico quanto no sentido representativo.139(FERRAZ, 2003, 241)Como pode ser observado ao erigir monumentos, museus, publicar livros entres outras ações estas associações estão fomentando a criação de um patrimônio dentro deste grupo social.Nesta pesquisa pretende-se trabalhar a criação de um “patrimônio literário” com base nos testemunho dos ex-combatentes, e muitos dos livros editados por “pracinhas” eram financiados pelas associações de ex-combatentes. Segundo Hartog, o presentismo tem transformado o modo de como grupos sociais se relacionam com a história, e com isso acelera o surgimento de novos “patrimônios” e de vários tipos, sendo assim me permito uso o termo para a produção memorialística dos ex-combatentes da FEB.

Mestres em greve? Memórias e representações de professoras do movimento docente de 1968 no Paraná.

Melissa Colbert Bello, professora da rede pública, mestranda na Linha de História e Historiografia da Educação do Programa de Pós Graduação em Educação da UFPR, orientação da Drª Nadia Gaiofatto Gonçalves. Palavras Chave: Docentes, professores, associativismo.

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FERRAZ, Francisco César Alves: A guerra que não acabou: A reintegração social dos veteranos da Força expedicionária Brasileira, 1945-2000. São Paulo: Tese de Doutorado em História Social Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/Universidade de São Paulo, 2003.

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Este trabalho é parte da minha pesquisa de mestrado que busca compreender como se dava a participação de mulheres professoras nos movimentos docentes da década de 1960, como essa atuação em movimentos reivindicativos contribuía para a o atendimento das suas reivindicações nas políticas educacionais das quais as/os professoras/es eram alvo, e principalmente compreender como associam-se as representações de feminino, às de docência no período buscando avaliar como a prática da atuação política dessas mulheres professoras se relacionava, acomodando-se ou conflitando, com essas representações. Para empreender essa análise delimitamos um recorte bem específico, a primeira grande paralisação de professores do Estado do Paraná, o chamado “Congresso do Magistério”, realizado em 1968, com duração de cerca de quinze dias, com adesão de professores/as de todas as regiões do Estado. O objetivo é tomar as memórias de professoras participantes desse movimento como fonte, para compreendermos quais eram suas representações de gênero, da profissão docente, das Associações de Professores, e sobre sua participação nos movimentos realizados nesse contexto. Como ponto de partida e base de comparação utilizaremos também fontes escritas como fragmentos da imprensa diária e de documentos da Associação de Professoras/es do Paraná (APP) e da Delegacia de Ordem Política e Social do Paraná (DOPS). O trabalho com as memórias de professoras se justifica no fato de que embora a categoria profissional docente seja composta majoritariamente por mulheres, nem sempre encontramos nos registros documentais escritos referências à atuação dessas mulheres na esfera pública.Nesse sentido, os referenciais teóricos que vêm articulando as discussões de gênero, de memória e de docência buscam compreender a profissão docente como uma profissão marcada pelas relações de gênero que compõem a sociedade e também as instituições escolares. Esse artigo buscará contribuir nesse sentido, trazendo ao diálogo autores da historiografia que tratam da memória como Pierre Nora (1993), Michael Pollack(1989), Peter Burke (1992) e autoras que tratam especificamente das interfaces da memória, gênero e educação como Guacira Louro (1990), Denice Catani, Cinthia Souza, Belmira Bueno e Maria Cecília Souza (1996, 2000a, 2000b). Os diferentes interesses nas memórias tanto na educação, como pelas ciências sociais, pela história, e pela história da educação podem ser atribuídos ao sentimento de aceleração das mudanças, vivido na contemporaneidade (NORA,1993; NUNES, 2002/2003), podem também ter relação com a retomada dos estudos que consideram o papel do sujeito na vida social. Com a crítica das grandes explicações e das determinações estruturais no campo das ciências sociais e da educação as pesquisas quantitativas, antes predominantes, passaram a dividir espaços com os estudos de caso, as análises qualitativas, as pesquisas participantes que trouxeram para os debates a experiência dos sujeitos envolvidos nos processos educacionais. As leituras históricas da profissão e dos sujeitos professores e professoras, em suas múltiplas relações, inserem-se nesse processo. As memórias passam a ser privilegiadas por darem a conhecer as práticas e representações de sujeitos que de outra forma não poderiam ser percebidas. Diversos autores afirmam que não há uma hierarquia ou determinação unilateral das estruturas sociais sobre os sujeitos, mas sim, articulações entre ambos. O sujeito é agente de mudanças sociais, contudo destaca-se que sua ação também se dá em meio a constrangimentos sociais. (CHARTIER, 1994). Nesse sentido interrogar os sujeitos pode contribuir para compreender as instituições a que pertencem e o meio em que se inserem, assim como o caminho inverso também é verdadeiro. Daí o interesse na utilização e cruzamento de fontes diversas articuladas aos relatos orais destacando-se que as memórias são consideradas formas privilegiadas para conhecer a experiência dos sujeitos que eram silenciados em fazeres históricos mais tradicionais. É relevante considerar as interseções entre os estudos de memória, da educação e das reflexões sobre gênero, nesse caso tramados em relação à participação das professoras em movimentos associativos de sua categoria profissional. Com esse diálogo pretendemos perceber como se articulam os diferentes discursos que versam sobre a identidade docente, as políticas de identidade estabelecidas no A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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discurso educacional oficial, a história familiar e pessoal, as condições de trabalho e ocupacionais, o discurso da associação de professores e outros discursos na configuração da memória dessas docentes. Essa análise pode ser um exercício fecundo no reconhecimento das práticas desses sujeitos bem como das representações sobre elas. A s rebeliões regenciais na Corte Imperial: a construção de uma memória moderada. ZANQUETTA, Pedro Jr. (Mestre em História e Sociedade pela UNESP-Assis) Palavras-chave: Sedições Militares, Brasil Império, Memória. Esta comunicação tem como objetivo uma abordagem sobre a memória histórica construída acerca das Sedições Militares, de influência liberal exaltada, ocorridas em julho e outubro de 1831 no Rio de Janeiro pós-Abdicação. Pretendemos analisar, com base nas considerações expostas por Pierre Nora, François Dosse e Hannah Arendt em relação à problematização da memória pela história, as interpretações relativas a esses eventos realizadas pela historiografia. Tendo como base, por um lado, as análises realizadas no final do século XIX pelo membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Manoel Duarte Moreira de Azevedo e por João Manuel Pereira da Silva e, por outro, os estudos realizados me meados do século XX por Octávio Tarquínio de Sousa e pelo professor da Universidade de São Paulo, Paulo Pereira de Castro, objetiva-se primeiramente, identificar o porquê desses eventos situarem-se em uma zona de sombra e esquecimento dentro da memória nacional e ainda, avaliar, nos momentos em que foram eleitos para uma abordagem, quais traços de seu presente foram buscados pelos autores nas suas construções sobre as Sedições Militares de 1831, visando justificá-los, negá-los ou reconstruí-los de acordo com a temporalidade em questão.

Discursos ocultos: narrativas identitárias de profissionais do sexo

Priscilla de Castro Campos Leitner Mestranda em Interdisciplinar em Ciências Humanas Universidade Tuiuti do Paraná. Orientadora: Profª. Maria Ignês Mancini de Boni Doutora em Ciências Humanas Simone Aparecida Soares Mestranda em Interdisciplinar em Ciências Humanas Universidade Tuiuti do Paraná. Orientador: Prof. Rafael Tassi Teixeira Doutor em Sociologia

Palavras-chave: Identidade. Narrativa. Prostituição.

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Este trabalho tem como objetivo articular o conhecimento científico, tratando dos elementos de formação cultural e identitária, tendo como foco investigativo compreender as narrativas encontradas no discurso de mulheres profissionais do sexo na cidade de Curitiba. A análise das entrevistas tem como base teórica a Sociologia e Historiografia Contemporânea e a Psicanálise, em que a articulação destes pensamentos possibilita a investigação sobre as dificuldades objetivas e subjetivas encontradas nas narrativas e na construção identitária destas mulheres.A análise da narrativa construída pelas mulheres profissionais do sexo possibilita diversas leituras, mas interessa-nos compreender como se dá a construção da identidade social através da narrativa, a qual relata a história de vida de personagens excêntricos, ou seja, àqueles que ficaram à margem da história entendida como oficial. Na narrativa são incorporados os discursos dos “associais” que tiveram suas vozes conscientemente excluídas da “memória enquadrada”. Esse relato é permeado por lembranças que revelam o vínculo familiar, a sociedade, o trabalho, a sexualidade e os aspectos culturais das mulheres entrevistadas. A este respeito considera-se que as memórias individuais são pontos de vista sobre uma memória coletiva. Assim a narrativa individual pode ser entendida como uma voz entre tantas vozes que compõem as “interdiscursividades” por meio das quais se tem acesso ao passado. Foucault afirma que toda produção do discurso envolve um processo de controle, seleção, organização e redistribuição e se constitui em mecanismos de exclusão, que revelam vontade de saber e relações de poder. O discurso é um veículo por meio do qual se estabelecem as relações de poder. Não são apenas representações a partir de signos, são sistemas que determinam a forma com que o sujeito vê, fala e compreende o mundo em que vive. Ele manifesta o desejo ao mesmo tempo em que revela o objeto de desejo. O sujeito sempre está submetido a uma forma discursiva, é derivado de um discurso. Não há autonomia por parte desse sujeito, tendo em vista que ele não poderá ser imparcial a esse discurso. Ao analisar o discurso cabe saber, portanto, o que é dito, como é dito e por que é dito desta forma e não de outra. A compreensão do sentido do discurso revela as relações de poder que estão implícitas nas práticas discursivas. Tomando como base a idéia de Certeau, que cada indivíduo pode ser entendido através de uma incoerente pluralidade de relações e interações, podemos dizer que há uma necessidade de compreender a trama narrativa e os contextos que se encontram este indivíduo para então fazer uma aproximação no que se entende como uma construção identitária propriamente dita.A dimensão privada e o cotidiano tomam uma nova e astuta roupagem na atualidade, pois a identidade, principalmente a identidade social, é tomada a partir de construções subjetivas, encontradas nas narrativas, e estabelecidas nas diferenças, nas ambiguidades e na pluralidade relacional do sujeito. A sexualidade está ligada os aspectos afetivos, à historia de vida, os valores culturais e religiosos, os quais contribuem para a formação da identidade e para os componentes da identidade sexual como o papel de gênero e a orientação sexual. E sendo algo inerente do ser humano, está associada aos primeiros vínculos, ao equilíbrio emocional e as manifestações dos sentimentos. Os comportamentos sexuais são influenciados inevitavelmente pelos cenários culturais, as instituições e a mídia. A cultura tem uma relação muito próxima com a forma que os indivíduos vivenciam, aprendem e desenvolvem o prazer. Um dos maiores paradoxos da contemporaneidade é sem dúvida o ressurgimento das identidades como princípios essenciais de vida pessoal e de atuação social. Este processo é acompanhado de uma exacerbação das identidades particulares e da reinvenção da diferença.A identidade social é contemporaneamente estruturada como um sistema interativo, construída no decorrer da história através de transformações tanto na sociedade quanto no indivíduo. Podemos entender a identidade como um personagem o qual representa o papel para determinada situação social. Não se pode entender a identidade sem olharmos para o meio social e cultural em que ela está inserida, a crença na identidade como representante do eu e como marco de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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uma essência que caracteriza o sujeito revela-se produto da ordem liberal e moderna, definindo o sujeito contemporâneo.

O conflito agrário e a inspiração da Guerra Do Contestado, no município do Pinhão – PR (19701994).

Rene Wagner Ramos Mestre em História, UPF Secretaria de Estado da Educação

O artigo aborda a resistência dos camponeses do município do Pinhão, na região Centro-Sul do Estado do Paraná, frente à ocupação e expropriação de suas terras pela Madeireira José Zattar S/A. Para tanto, apresenta-se um retrato do panorama da história do processo de ocupação e do modo de vida dessa população. A delimitação temática partirá da premissa das transformações políticas, econômicas e culturais, além de outras variáveis também experimentadas pelos camponeses com adoção de um novo modelo agrícola no Estado, ancorado nas exportações de grãos e no controle do setor por grandes grupos econômicos ou cooperativas, que provocaram inúmeras conseqüências no universo rural, na política regional e estadual. Essa pesquisa, em especial, tem o propósito de investigar a introdução do modelo agroexportador de grãos no centro-sul do Paraná e as repercussões, sobretudo social com a desagregação de uma economia voltada à produção de subsistência e os laços de compadrio que garantiam as elites locais o mando político, portanto, o epicentro desse trabalho se basilará na tentativa de apreender a visão dos caboclos praticantes de uma agricultura de subsistência frente a esse processo de tensão/modificas e na relação com a Guerra do Contestado. A resistência ao modelo agroexportador, que teve a indústria madeireira a frente da ocupação das áreas do campesinato, com objetivo de ‘limpar’ o campo para chegada do latifúndio agroexportador. Ocasionou a total leniência das autoridades políticas regionais e estaduais, levando os camponeses a se organizarem, tendo como referência a Comissão da Pastoral da Terra, de singular importância, mas pouco estudado pela historiografia. Observa-se que, o forte sentimento religioso se faz presente no campesino, a forte presença da veneração ao Monge João Maria. Tese esta investigada pelo surgimento em inúmeras entrevistas realizadas na pesquisa da dissertação O impacto da construção da Usina Hidrelétrica Governador Ney Braga, na região do médio Iguaçu, os relatos apontam no sentido que houve uma fuga de inúmeros guerrilheiros do contestado, das forças governamentais, e que as matas do interior deste município, seria perfeitas para se esconder das autoridades. Os mesmos entrevistados afirmavam que seus país e ou avós fugiram seguindo curso do Rio Iguaçu, até chegarem na região que atualmente encontram-se os municípios do Pinhão, Bituruna e Reserva do Iguaçu. Quando entravamos em suas residências uma observação fazia intrigante, em quase todas as pobres casas havia um oratório do Monge João Maria, demonstrando a ligação religiosa com a região do Contestado. Nesse cenário, percorremos uma estrutura de trabalho buscando reconstruir essa história de resistência campesina, dando continuidade a trabalho anteriormente iniciado. A metodologia utilizada para a execução da pesquisa baseiase na história oral, tendo como universo, caboclos, fazendeiros, migrantes ex funcionários da Madeireira Zattar S/A, inclusive um descendente direto dos conhecidos empregados intitulados ‘pistoleiros’. O período estudado encontra-se entre os anos de 1950 a 1994, destacando-se a história político econômica do estado do Paraná frente às diversas mudanças de postura, no que concerne ao gerenciamento do país. A análise historiográfica compreendeu A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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a utilização da micro escala, para permitir o reconhecimento das particularidades locais, ocultas nas macro abordagens históricas. As considerações finais, da pesquisa, chegam até a Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná, resultando em documento que estabelece o direito as terras aos camponeses. Recorremos a microhistória para uma análise que não verificamos nas grandes abordagens, como meio para alcançarmos uma conclusão de maior alcance, partindo do micro para o macro. Desta forma alguns aspectos da sociedade não percebidos nas macroabordagens passam a serem objeto de estudo e pesquisa.

Palavras-chave: Resistência campesina; Religiosidade; História-Paraná.

Sandra Regina Barbosa da Silva Souza

Memórias da luta armada na Bahia: a vida na clandestinidade e a historia no cinema (19691971) Sandra Regina Barbosa da Silva Souza – Dra. UFBA; Professor Auxiliar na Universidade do Estado da Bahia – Campus XVIII, Eunapolis Palavras chave – memória, Salvador, ditadura A presente comunicação pretende discutir aspectos da memória política da esquerda armada urbana na Bahia. Foi minha intenção compreender ao longo da pesquisa como aconteceu a resistência à ditadura militar em Salvador/Bahia, através da memória dos ex-militantes. A formação, estrutura e funcionamento das organizações de esquerda armadas urbanas, que atuaram em Salvador entre os anos de 1969 a 1971: a Vanguarda Armada RevolucionáriaPalmares (VAR-Palmares), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), foram os principais objetos de pesquisa. Conclui através das memórias em confronto com jornais, IPMs e processos militares que a Bahia não teria sido apenas uma “área de recuo”, e que a resistência ocorreu de forma isolada, sem inserção na sociedade, fato que também aconteceu com as organizações de esquerda armada em outros estados da federação. É bom que se lembre, uma luta de vanguarda, que terminou em trágica derrota.Consideramos que os depoimentos processuais militares, em confronto com os depoimentos orais dos ex-militantes foram importantes reveladores dos códigos de comportamentos dos militantes nas organizações armadas pesquisadas. Outra fonte importante a ser considerada no presente trabalho é a literatura de testemunho. Essas fontes balizarão a forma como a participação na luta armada se construiu, com o objetivo de desvelar a maneira como esses ex militantes avaliam as experiência vividas por eles num período recente da historia do pais.José Carlos Sebe Bom Meihy e Alessandro Portelli, em seus estudos sobre a memória, construíram caminhos com histórias de vida marcadas por eventos traumáticos, seguindo estes autores daremos destaque para as memórias com seus silêncios sobre a vida na clandestinidade, uma experiência dinâmica e de difícil sobrevivência e para alguns sendo concluída com prisões e torturas.Analisaremos também quais tipos de relações sociais foram construídas na clandestinidade e como foram relacionadas às memórias com seus silêncios e lutas contra o esquecimento, entendendo como se davam as representações e reconstruções das memórias que focalizam suas vivências, durante os “anos de chumbo” .A A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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ultima parte da comunicação destacará o filme documentário com direção e roteiro de Renaildo Pereira dos Santos, (Reizinho), “Do Buriti á Pintada: Lamarca e Zequinha na Bahia”, inserindo-se no campo das reflexões que dialogam com cinema, história e memória acerca do regime militar brasileiro (1964-1985), enfatizando a temática da resistência armada existente no período. O documentário apresenta-se de maneira participativa, com filmagens durante entrevistas, fotografias e imagens de arquivos – Comício na Central do Brasil em 1964, passeatas estudantis no Rio de Janeiro em 1968, prisão de estudantes em Ibiúna e depoimento do pai de Zequinha, Jose Barreto questões relativas à passagem de Carlos Lamarca e Zequinha Barreto pelo Buriti Cristalino, povoado de Brotas de Macaúbas, Bahia, com o objetivo de organizar um núcleo de resistência armada contra a Ditadura Militar brasileira.O filme resgata a memória dos moradores da região, pessoas que conviveram com Zequinha e Lamarca, conhecem a trajetória ou testemunharam a chegada da repressão militar na cidade. São personagens envolvidos, direta ou indiretamente em alguns dos principais momentos do assassinato dos guerrilheiros, em 17 de Setembro de 1971 pelo Exercito brasileiro, no povoado de Pintada (Ipupiara-Ba)As imagens do filme nos levam ao contexto da ditadura, realizando uma revisão de ações e fatos ocorridos durante a morte de Zequinha Barreto e Carlos Lamarca, preenchendo lacunas históricas e historiográficas, dando uma contribuição à valorização da memória política do Brasil, num contexto de lembrança dos 40 anos da morte dos guerrilheiros e suas lutas contra o regime militar brasileiro.A comunicação procura discutir alguns conceitos como o de memória, o de “memória coletiva”, formulado pelo sociólogo Maurice Halbwachs, “memória, esquecimento, silencio” de Michael Pollack e o de “lugar de memória”, formulado por Pierre Nora. Abordaremos também o conceito de representação, concebido por Roger Chartier.

O Fascismo na América do Sul: Inter-relações entre Brasil, Uruguai e Argentina na década de 1930. Daniela Moraes de Almeida – (Graduada em História pela UEM e mestranda UEM). Victor Raoni de Assis Marques – (Graduado em História pela UEM e mestrando UEM). Orientador: Prof. Dr. João Fábio Bertonha. Palavras Chave: Fascismo, Integralismo, Cone Sul. O período entre-guerras foi marcado pela ascensão de movimentos de extrema direita política, na Europa e também na América do Sul. Estes grupos denominados fascistas se contrapunham aos valores liberais imperantes até então nas sociedades em que disputavam o poder, causando em alguns países o colapso destes valores. A forte influencia que as ideologias europeias exerceram na América do Sul, bem como a imigração oriunda de diversos países contribuíram para a disseminação dos ideais fascistas nos países desta região, sendo, portanto, as colônias de imigrantes os primeiros agrupamentos a serem atingidos por estas concepções. Essa influencia é nítida, e um exemplo disso é a formação no Uruguai em 1931, do Partido Nazista, antes mesmo de Hitler assumir o poder na Alemanha. No Brasil também houve uma sucursal do Partido Nacional-Socialista Alemão.No entanto, é imperativo salientar que os movimentos fascistas não ficaram restritos apenas às colônias de imigrantes. Nos países do Cone Sul algumas experiências nesse campo ideológico foram de extrema importância e não podem ser classificadas apenas como miméticas. Entre esses grupos estão a Ação Integralista A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Brasileira – AIB, o maior partido fascista fora da Europa, a Liga Patriótica Argentina e a Acción Revisionista del Uruguay. O surgimento desses movimentos nacionalistas de âmbito fascista mereceu diversos estudos. Na Argentina o que prevaleceu foram grupos com caráter marcadamente nacionalista-militar e influenciados pelo catolicismo. Ainda assim, o nacionalismo argentino foi classificado como fascista, devido à sua relação com fontes ideológicas fascistas e seus contatos com grupos e agentes do fascismo europeu. No caso Uruguaio, os estudos apontam a influencia de grupos fascistas com base em colônias alemãs sobre grupos de extrema-direita nacionais, mas o anti-semitismo nesse caso, foi a principal bandeira de luta dessas agremiações. Nos dias atuais os estudos sobre estes movimentos fascistas no Cone Sul chegou a um bom nível de conhecimento. As historiografias destes países, em maior ou menor grau produziram uma quantidade salutar de informações a respeito desses grupos. Porém, a questão é que o foco utilizado está basicamente no âmbito nacional. Sabemos pouco sobre como estes grupos viam-se uns aos outros, quais as relações que mantinham entre eles e qual o grau de aproximação ou distanciamento que nutriam. Aspecto esse de nossa pesquisa que entendemos ser de grande relevância para a melhor compreensão da história da extrema-direita regional. Nosso objetivo, portanto, é traçar as linhas que unem e dividem esses movimentos fascistas de cada país. Podemos afirmar que o anti-liberalismo, o anti-comunismo, o anti-semitismo e o nacionalismo são algumas das principais características comuns a todos eles. Entretanto, justamente este último, o nacionalismo exacerbado, também é a característica que pode subtrair desses grupos a aparente fisionomia de união e homogeneidade que apresentam.Para realizar tal empreitada, esse trabalho tem como pilar de sustentação os jornais da época publicados por estas agremiações, tais como A Offensiva, Acção e a Revista Anauê, o jornal Corporaciones do Uruguai e os informativos Crisol e Pampero da Argentina.Elegemos também a década de 1930 do século XX como recorte temporal, por ser neste período que se situa os movimentos fascistas mais importantes e intensos nos países que são alvo do estudo, além de podermos perceber também que é neste período que diversos líderes da região flertam com as políticas das potencias fascistas, a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini.Sem dúvida, as relações de que tratamos nesse trabalho, inseridas dentro de movimentos e partidos políticos, como a Ação Integralista Brasileira, a Acción Revisionista del Uruguay ou a Liga Patriótica Argentina, se dão no interior da sociedade dentro de um plano de disputas de poder. Isto posto, nos propomos através desse trabalho à apresentar uma discussão e realizar uma exposição em torno de tal tema, procurando dialogar com a bibliografia existente sobre o assunto e enriquecendo o debate por meio de alguns dados já obtidos através da análise das fontes citadas no Brasil.

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ST 12 - PATRIMONIO HISTORICO-CULTURAL: REFLEXÕES E RELATOS DE PRÁTICAS Educação e patrimônio: o acervo Coriolano Benício do CDH-FURG como uma ferramenta para a difusão da educação patrimonial no local Carmem G. Burgert Schiavon, Dra., FURG. Júlia Silveira Matos, Dra., FURG. Palavras-chave: Centro de Documentação Histórica, educação; patrimônio.

O presente texto tematiza as relações estabelecidas entre o Centro de Documentação Histórica “Professor Hugo Alberto Pereira Neves” da Universidade Federal do Rio Grande (CDH-FURG) e o desenvolvimento de atividades do Programa de Educação Patrimonial (PEP) no local. Neste sentido, ressalta-se que o CDH-FURG está ligado ao Instituto de Ciências Humanas e da Informação da mencionada Universidade (ICHI-FURG) e teve origem nos primeiros anos da década de oitenta do século anterior, a partir do esforço coletivo dos professores do antigo Departamento de Biblioteconomia e História (DBH-FURG). Por outro lado, evidencia-se que o Programa de Educação Patrimonial da FURG foi criado em 2009 e visa fornecer às Escolas locais, uma atividade de reflexão crítica acerca de seu currículo escolar, permitindo-lhes apropriar-se de um instrumental teórico-metodológico e, sobretudo, prático, para a apropriação singular dos bens culturais da comunidade escolar e suas adjacências; em síntese, almeja-se a sensibilização da comunidade rio-grandina para a valorização dos seus bens culturais e naturais, a partir das especificidades da cultura e do meio natural locais. Desse modo, as propostas do Programa de Educação Patrimonial da FURG estão fundamentadas em um vasto referencial teórico e metodológico, podendo este ser elencado em três grandes áreas: a Educação Patrimonial, a Educação Ambiental e, ainda, a História. Traçando um ponto de convergência entre estas três temáticas, pode-se visualizar a importância do trabalho da História e suas metodologias, como a história oral, a memória e a didática da História e a sua articulação com a Educação Patrimonial, a fim de realçar a identificação histórica a partir do patrimônio cultural e dos laços identitários das comunidades envolvidas em sua relação com o pertencimento, objetivando o exercício da reflexão crítica acerca das problemáticas socioambientais presentes. Além disso, considerando seu envolvimento afetivo com artefatos culturais envolvidos no processo de construção das práticas pedagógicas, esta metodologia adquire ainda maior relevância para a relação ensino-aprendizagem, tendo em vista a possibilidade de experiências a partir do contato direto com estes artefatos históricos, culturais e ambientais.Ademais, os registros informacionais dos Centros de Documentação são vistos como material didático de grande relevo, haja vista que sua leitura proporciona o desenvolvimento de habilidades relacionadas à pesquisa e, ainda, à reflexão conceitual na área. Inclusive, destaca-se que, no Brasil, a adoção dos PCNs de História, em 1997, incentiva o contato dos educandos com documentos já no primeiro ciclo da aprendizagem. Com base nesses pressupostos, o CDH, notavelmente, o acervo Coriolano Benício representa um espaço privilegiado para a prática da Educação Patrimonial, haja vista que o desenvolvimento de atividades educativas em Arquivos e Centros de Documentação vem aumentando nos últimos anos, vindo a se constituir em espaços diferenciados para a adoção de novas metodologias educacionais, como é o exemplo da Educação Patrimonial.Neste sentido, o Acervo Coriolano Benício – que é constituído de recortes, folhas de anotações e prospectos relacionados às atividades culturais como, cinemas, teatros, clubes e circos, as quais ocorreram na cidade do Rio Grande, no período de 1923 até 1982 – representa um espaço privilegiado para o A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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desenvolvimento de práticas de Educação Patrimonial, tendo em vista que o mesmo contém as atividades relacionadas ao cinema, teatro e companhias teatrais, bem como as revistas que noticiaram a realização de tais eventos. Além destas documentações, o acervo conta, ainda, com anotações que versam sobre a sua própria vida e que contam a trajetória do Clube Carnavalesco Irresistíveis e da Companhia de Teatro Amador Beira-Mar. O teatro rio-grandino é outro destaque no acervo Coriolano Benício e esta parte é composta por fotografias, desenhos (realizados pelo próprio Coriolano), assim como alguns modelos de alegorias carnavalescas e cenários de teatro elaborados para o carnaval em Rio Grande. Por fim, cabe mencionar que esta riqueza documental do Acervo Coriolano Benício vem proporcionando o desenvolvimento de atividades que estão voltadas às especificidades da cultura local, assim como ao trabalho com os laços societários constituídos, visando fortalecê-los, a fim de se construir com os educadores e educandos envolvidos no Programa de Educação Patrimonial da FURG, uma possibilidade de análise crítica deste processo e o despertar do sentimento de pertencimento para com o patrimônio cultural local. Arte no silêncio: educação patrimonial em cemitérios Clarissa Grassi (Relações Públicas, presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais) Palavras-chave: cemitérios, educação patrimonial, arte tumular A presente comunicação relata o desenvolvimento da visita guiada “Arte no Silêncio”, uma iniciativa conjunta com o SESC Araraquara para o projeto “A cidade é uma viagem”, que desenvolve roteiros nos quais a cidade e seu entorno são apresentados da perspectiva de um novo olhar, com foco na valorização da história, cultura e identidade local. Com o objetivo de proporcionar uma nova leitura a respeito dos cemitérios, apresentando estes espaços para além da sua funcionalidade, enquanto patrimônio cultural capaz de revelar aspectos importantes sobre a cidade, sua história e seus personagens, o passeio “Arte no Silêncio” foi estruturado e realizado no Cemitério São Bento, nos anos de 2011 e 2012, atendendo no total a mais de 70 participantes.Estes encontros dos moradores com sua cidade se constituem como importantes instrumentos de educação para o conhecimento, assim como para ampliação do sentimento de pertencimento das pessoas em relação a sua comunidade, tornando-se, portanto, fundamentais para o exercício da cidadania e o fortalecimento de uma relação harmoniosa entre pessoas, espaços e culturas. É nesse contexto que o turismo patrimonial surge como uma ferramenta que tem potencial para viabilizar a propagação dos cemitérios enquanto locais repletos de registros e manifestações. Aliar a visitação ao cemitério com a divulgação de imagens escultóricas de relevância foi a maneira encontrada para se promover o evento localmente. Segundo Dominique Poulot, a apropriação por um público – a maneira como o patrimônio é visitado, interpretado e exerce influência – está associada também às formas de sua apresentação, ao olhar, bem acolhido ou importunado, aos catálogos ou aos itinerários. Para tanto, foi criado um guia ilustrado com os 38 túmulos constantes no passeio, mapa com roteiro, juntamente com uma leitura simbológica acerca das esculturas elencadas, além de um pequeno histórico sobre o cemitério e a arte tumular.O maior entrave a ser ultrapassado era suscitar na população a vontade de fazer parte do passeio em um local por muitos considerado como lúgubre. Diante disso, optou-se pela estruturação e difusão do passeio através de imagens que não configurassem literalmente túmulos e sim detalhes das esculturas de maior relevância artística. Foram realizadas duas visitas com duração média entre duas a três horas, com dois momentos distintos: uma apresentação feita no SESC Araraquara falando sobre a origem da arte tumular e a potencialidade de pesquisa dos campos santos, sendo seguida de transporte dos participantes para o Cemitério São Bento. Ao final do A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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passeio, foram aplicados os questionários padronizados pelo SESC Araraquara e que visam avaliar o passeio, estruturação, conteúdo entre outros itens.Inaugurado em 1895, o Cemitério São Bento configura-se hoje como o campo santo mais antigo de Araraquara. Em suas 11 mil sepulturas, que abrigam mais de 70000 inumações, é possível observar a história de pessoas e fatos, recontados por meio da arte tumular. Seguindo um traçado planejado, com túmulos horizontalizados, o cemitério, que sofreu ampliações ao longo dos anos, abriga em áreas específicas produções escultóricas de artistas renomados.Resgate do passado, exemplos da vivência de uma cultura. Entre lápides e sepulturas, os cemitérios oferecem uma história a ser recontada. Citados como museus a céu aberto, esses campos santos trazem muito mais do que o culto aos mortos. Classificados como espaços simbólicos e culturais que fazem parte das diversas sociedades em que estão inseridos, os cemitérios passam a ser usados como lugares de construção de memória, poder e status. É nestes espaços que artes e artistas imprimem uma maneira de cultuar os mortos e de produzir uma mentalidade naquilo que diz respeito aos fins últimos do homem.Para o historiador português Francisco Queiroz, no século XIX os cemitérios foram concebidos quer para os mortos, quer para os vivos. Ou seja, os cemitérios criados no período Romântico foram concebidos precisamente para serem visitados e admirados pelas obras de arte neles contidas, obras essas que eram muitas vezes representativas do que de melhor se fazia na época. Com o declínio do romantismo, os cemitérios são deixados de lado e somente retornam à tona, nas décadas de 70 e 80, imbuídos de noções como a herança cultural e de patrimônio.Por sua importância histórica, os cemitérios integram parte do patrimônio cultural brasileiro e alguns já são reconhecidos como parte dos bens valorados em diferentes localidades por meio de ações de preservação. Para Poulot, “ao olhar instruído, o monumento ou as ruínas oferecem o livro aberto da história. Uma espécie de imediatidade da leitura, resultados de longos esforços preliminares culminam em uma história que se absorve pelos olhos”. Nas últimas décadas, as atenções começaram a voltar para os cemitérios enquanto fonte para estudos, representação da cultura e do passado e locais inspiração artística e visitação turística. As potencialidades de tais locais são múltiplas e podem ser desenvolvidas nas áreas da cultura, patrimônio, história e turismo.A exemplo de países como França (sendo o Cemitério de Père Lachaise o 4º ponto turístico mais visitado em Paris), Itália, Espanha, Argentina, Chile e Estados Unidos, que já possuem programas de turismo cemiterial, o Brasil vem implantando lentamente programas de visitação em seus principais cemitérios, a citar Cemitério da Consolação (em São Paulo), Cemitério São João Batista (no Rio de Janeiro) e Cemitério da Santa Casa (em Porto Alegre). Ainda que sejam ações iniciais, prevendo a implantação de guias e folders com mapas de localização de túmulos relevantes, é inédita no Brasil a proposta ora apresentada, pois dedicam-se apenas à sinalização de alguns túmulos, ora contendo o estilo arquitetônico, ora abordando a biografia da pessoa ali enterrada. Trata-se de uma leitura parcial da potencialidade de resgate histórico/cultural que estes campos santos oferecemA presente comunicação visa discutir, avaliar e analisar a potencialidade de ações similares como contribuição para a divulgação dos cemitérios enquanto patrimônio e fonte histórica, fazendo um contraponto entre a ação realizada na cidade de Araraquara, em parceria com o SESC e visitações realizadas na cidade de Curitiba/PR, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, durante o evento Corrente Cultural, no mês de novembro de 2011. São abordagens distintas, uma vez que o passeio em Araraquara se baseou na arte tumular como gancho de divulgação, enquanto no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, em Curitiba, a abordagem foi a de conhecer personagens da história curitibana e paranaense tendo em comum o cemitério como local de sepultamento.

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Programa de Educação Patrimonial na Lapa – PR: práticas da educação para a valorização do patrimônio cultural lapeano. Cláudia Bibas do Nascimento Mestre em História das Sociedades Iberoamericanas PUCRS Palavras-chave: educação patrimonial, preservação, cultura lapeana. O presente trabalho visa expor os resultados do Programa de Educação Patrimonial, desenvolvido pela 10ª Superintendência do IPHAN em parceria com a Metamorphose História e Arqueologia, no Museu Casa Cel. Joaquim Lacerda, situado no município da Lapa- PR. Criada para valorizar o patrimônio cultural lapeano, a proposta de trabalho abrangeu temas como o tropeirismo, a Congada da Lapa e o Boi da Lapa, e abrangeu cerca de 120 crianças estudantes de escolas públicas e particulares do município. Neste simpósio, pretende-se relatar a experiência educacional vivenciada, as metodologias de ensino aplicadas e os trabalhos derivados da Semana do Patrimônio Cultural Lapeano.

Patrimônio Cultural Religioso e Identidade no Paraná dos séculos XIX e XX Cláudia Eliane Parreiras Marques Martinez - Professora do Departamento de História, da Universidade Estadual de Londrina Patrimônio Cultural Religioso, Identidade, Paraná, Séculos XIX e XX Este comunicação faz parte de um projeto desenvolvido no Departamento de História, da Universidade Estadual de Londrina140. Pretende-se averiguar como a arte e a arquitetura se configuraram no sul do Brasil além das fronteiras mineiras relacionadas, sobretudo, às irmandades e aquelas alicerçadas no litoral nordestino e do Rio Grande do Sul, essencialmente jesuítico. O trabalho com as fontes tem apontado que as edificações sofreram várias intervenções, reformas e alterações estilísticas ao longo dos séculos. Se por um lado tal realidade dificulta a “identificação”, por outro, torna o objeto de pesquisa mais complexo e permeado de sobreposições. Até o momento foram realizadas pesquisa de campo em algumas cidades do Paraná (Morretes, Antonina, Paranaguá, Castro, Lapa além de Curitiba), Santa Catarina (São Francisco do Sul) e no Rio Grande do Sul (a região dos Sete Povos das Missões). Dentre as cidades e edificações pesquisadas atenção especial será dada, nesse momento, a Igreja de São Sebastião do Porto de Cima e a Igreja de São Benedito, ambas pertencente ao município de Morretes. E a partir da história da igrejinha de São Sebastião, por exemplo, que algumas considerações preliminares serão alinhavadas. O caso aqui destacado permite estabelecer, concomitantemente, um paralelo com as ideias mais gerais do referido Projeto de 140

O projeto de pesquisa “Barroco no Sul do Brasil: arte, política, imagens e representações” está vinculado ao Departamento de História, da Universidade Estadual de Londrina e conta com o apoio da Fundação Araucária.

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Pesquisa e um diálogo mais direto com as propostas deste simpósio temático. A Igreja de São Sebastião está localizada em frente à praça principal de Porto de Cima. Margeada pelo Rio Nhundiaquara e a seis quilômetros da sede do município de Morretes. A ermida é contornada também por montanhas cobertas por matas verdes de vários matizes. O viajante francês Auguste de Saint-Hilaire quando por lá esteve na década de 1820, percorreu grande parte da região destacando, em primeiro lugar, a exuberância da natureza, a abundância e a qualidade da água de seus rios, a atividade econômica, os aspectos da população, suas casas e Igrejas. O crescimento e desenvolvimento da povoação levaram, em 1779, a construção de uma capela sob a invocação de N. Sra. Da Guia e de São Sebastião e contou com o comando do tenentecoronel D. Afonso Botelho de Sampaio e Souza e o capitão Antônio Rodrigues de Carvalho. Com o esgotamento do ouro de aluvião e aproveitando às facilidades de transporte e de força motriz oferecida pelo rio o lugar passou a abrigar, na primeira metade do século XIX, engenhos hidráulicos de beneficiamento de erva-mate. O produto assumira grande importância no mercado internacional, por causa de problemas e conflitos políticos na região platina. Desse segundo “surto” econômico e do conseqüente crescimento da população tornou-se, então, necessário ampliar a antiga capela construída no século XVIII. Seus zeladores receberam na década de 1840, autorização para as devidas obras. No entanto, com a transferência dos engenhos ervateiros para o planalto e a construção da ferrovia ligando-o ao litoral, Porto de Cima e Morretes sofreram um esvaziamento levando várias fazendas de erva-mate à falência. Tal declínio econômico acabou por afetar não só a vida de seus moradores, como também, atrasou a reforma e ampliação da capela. Adolpho Lamenha Lins, Presidente da Província do Paraná, em 1876, informou em seu relatório que:(...) ultimamente foram concluídas as obras da capella mor, sacristia e mais dependências, fazendo-se uma despesa de mais de três contos de réis, que não foi paga, por não constar a autorização dada por um dos meus antecessores para essa construção. Entretanto a obra feita é bastante sólida e elegante, e deve ser paga, para o que é preciso que (votem) voteis o necessário crédito. Apesar de estar vaga a parochia, a igreja de Porto de Cima é uma das mais “aceladas” das províncias. O curioso dessa história é que dois anos antes o Presidente da Província, Dr. Frederico José Cardoso de Araújo Abranches, declarou em seu relatório que a Igreja de Porto de Cima: “concluiu-se a capella-mor, faltando o corpo da Igreja que deve(ria) ser demolido por não conservar proporção e symetria”.Não se sabe por que a parte original, a antiga fachada, não chegou a ser demolida, como previa a reforma. Nesse sentido, a inconclusa reforma e ampliação da Igreja de Porto de Cima revelam uma história no mínimo curiosa. Como a nova fachada foi construída do lado oposto, a igreja ficou dotada de dois frontispícios – o antigo (século XVIII) e o “novo” (século XIX). Por que inverter a fachada da igreja? Por que não demolir a outra fachada? Por meio dessa história muitas questões referentes não só da localidade de Morretes e seu distrito Porto de Cima podem ser descortinadas. Além dos relatos/diários de viajantes estrangeiros que passaram pela região, dos Relatórios de Presidentes de Província pretende-se, também, analisar os processos de Tombamento realizados no século XX e a relação de identidade que a comunidade atual possui com as referidas igrejas. A restauração realizada na Igreja de Porto de Cima, após o tombamento estadual, em 1963, tentou atenuar a situação agravada pelos quase três séculos de alteração e transferência de seu frontispício. No caso da Igreja de São Benedito uma restauração atual em sua fase de conclusão - permitirá verificar com mais detalhes a relação dos bens patrimonializados com os moradores de Morretes141.Se as modificações artísticas e arquitetônicas apagadas/destruídas pelo tempo e pelo homem não contribuíram para a permanência das características originais – o que facilitaria muito o trabalho do historiador – 141

Além da parte arquitetônica as imagens sacras também estão sendo restauradas.

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outros tempos, outros homens e mulheres fornecem e adicionam elementos importantes para a reflexão e análise da sociedade e, principalmente, sua relação com a arte e arquitetura religiosa que ali existiu e permanece ainda nos dias atuais.

A memória dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial: ensino, pesquisa, extensão e o patrimônio histórico do Museu do Expedicionário (Curitiba/PR) Dennison de Oliveira Doutor, Ciências Sociais, UNICAMP (1995) PGHIS/UFPR Palavras-chave - Museu do Expedicionário; patrimônio histórico; Segunda Guerra Mundial;

Esta comunicação se refere as recentes experiências de ensino, pesquisa e extensão realizadas no Museu do Expedicionário, localizado na cidade de Curitiba (PR). As atividades de pesquisa se referem ao estudo das fontes legadas pela Legião Paranaense do Expedicionário (LPE), atual gestora do Museu. A LPE foi, em sua origem, uma das mais importantes entidades da sociedade civil brasileira a se engajar no esforço de reintegração social do ex-combatente no Brasil do segundo pós-guerra. O projeto Reintegração social do ex-combatente no Brasil: o caso da Legião Paranaense do Expedicionário (1945-1980), o qual conta com estudantes bolsistas de Iniciação Científica, se dedica ao estudo do acervi documental da LPE. Nele, o foco são as fontes que contém informações sobre o esforço desenvolvido pela entidade no processo de reintegração social dos ex-combatentes. As atividades de extensão se realizam no âmbito do Programa de Extensão Universitária “Guia do Museu do Expedicionário” do qual sou coordenador. Este programa se destina a treinar estudantes de graduação do curso de História da Universidade Federal do Paraná para atuarem como monitores de visitas guiadas àquele Museu, pesquisadores da história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e autores de material didático e instrucional para apoio àquelas visitas. O emprego de relativamente elevado número de estudantes voluntários nessas atividades (18) tem revelado diversas possibilidades de interesse do desenvolvimento de métodos e técnicas do uso do patrimônio histórico para a o ensino de história em todos os níveis, manifestas em duas dimensões.Em primeiro lugar, a equipe de monitores dá um caráter mais dinâmico e interativo à visitação ao respeitar as preferências dos visitantes e propiciar um diálogo permanente deles com os monitores. A possibilidade de circular pelas salas do Museu, de conversar com os monitores e mesmo com os colegas de classe acabou de vez com qualquer associação que se pudesse fazer entre a visita ao Museu e aula expositiva. O espaço museológico foi transformado em um autêntico fórum de debates, dinâmico e participativo, no qual os escolares eram tratados pelos monitores como seus iguais, isto é, como interessados como eles em conhecer e pesquisar a história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Naturalmente que a pouca diferença de idade entre os estudantes da Educação Básica e os universitários muito favoreceu essa interação e identificação. Não podemos descartar a possibilidade de que, em certo número de casos, os universitários tenham sido tomados como modelos sociais pelos estudantes de Educação Básica. Se isso de fato ocorreu, os monitores teriam inspirado pelo menos alguns estudantes dos níveis fundamental e médio a considerarem a possibilidade deles próprios virem a optar pelo curso de História quando da realização de seus estudos universitários. Em segundo lugar, permitiu um aprofundamento no tratamento dos conteúdos de cada espaço expositivo. Em vez de um único monitor “generalista” que falava sobre todo o museu de uma única vez, agora se dispunha de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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monitores que se especializaram no espaço expositivo pelo qual se tornaram responsáveis. Muitas horas de leitura, pesquisa e orientação foram necessárias até que cada um dos monitores pudesse afirmar que dominava integralmente o conteúdo daquela parte do Museu que era de sua responsabilidade. Mesmo porque, na elaboração do guia de visitação daquele Museu, todos monitores envolvidos participaram como autores do capitulo relativo ao seu espaço. Assim, os visitantes não mais se frustravam com explicações aborrecidas, parciais ou genéricas sobre os tópicos que eram de seu interesse e que desejavam aprofundar, à medida que tinham contato com pesquisadores com amplo conhecimento de causa da exposição a que se referiam. Mais ainda, dividiu-se dessa forma o extenso trabalho intelectual que se refere ao tratamento de uma variedade de suportes informacionais (fotos, jornais, objetos, armas, uniformes, etc.) cuja análise e interpretação sempre requer distintas metodologias.Simultaneamente às atividades de pesquisa que estruturam as práticas extensionistas, vem sendo desenvolvido um projeto de pesquisa do extenso e valioso acervo documental da Legião Paranaense do Expedicionário (LPE), gestora do Museu do Expedicionário. Os estudos sobre o processo de Reintegração social dos ex-combatentes desenvolvidos no Brasil em tempos recentes, principalmente aqueles produzidos por profissionais da disciplina da História, tem se voltado para o exame de questões como a aplicabilidade das leis de amparo aos veteranos de guerra, a luta pela empregabilidade, a continuidade ou início da vida escolar, atendimento médico e hospitalar, vida social e familiar, envolvimento político das associações de ex-combatentes, etc. Contudo, esses trabalhos – embora responsáveis por suscitar questões da mais alta relevância para os pesquisadores - até aqui não puderam contar com uma base ampla, significativa e diversificada de casos grande o suficiente para arriscar conclusões que pudessem ser generalizadas. O recente contato com o vasto, diversificado e valioso acervo de documentos e fontes históricas da LPE, até aqui desconhecido dos pesquisadores, nos permite lançar novas luzes sobre essas importantes questões.

Digitalização de acervos locais: uma proposta de fluxos de trabalho baseados em equipamentos abertos e software livre Edson Armando Silva, titulação: doutor em história, UEPG e Gerson Kniphoff da Cruz, titulação: doutor em física, UEPG. Este texto procura sistematizar um conjunto de experimentações de tecnologias que objetivam uma solução barata para o processo de digitalização documental levando em conta as boas práticas da arquivística na produção, organização e preservação de objetos digitais.A transformação de nossos arquivos na sua forma de organização da informação e novas tecnologias de preservação documental é um dos efeitos de uma amplo processo de informatização de nossa cultura, que se faz sentir também no âmbito da atuação do historiador e do arquivista. Por isso antes de descrever os processos testados para digitalização de documentos históricos convém aqui explorar alguns conceitos a partir dos quais os procedimentos estão organizados. Um objeto digital é um arquivo que guarda informações que devem ser mantidas por um longo período de tempo. A questão central aqui é que um arquivo é no fundo um imenso conjunto de zeros e uns que só é corretamente interpretado pelo software que o gerou. A velocidade da transformação tecnológica entretanto é um dos fatores que mais coloca em risco a preservação de objetos digitais. Justamente por isso qualquer projeto de preservação digital deve optar por padrões abertos, descritos em normas que possam ser mantidas de maneira independente dessa ou daquela empresa de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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software.Atualmente existem dois padrões competindo para atender a esta necessidade. O DjVu e o PDF-A. Além de atender à necessidade de ter o seu padrão descrito em normas publicadas, o que permite que vários softwares adotem o uso destes tipos de arquivo, estes arquivos permitem uma excelente representação de objetos reais mantendo a possibilidade de diversos planos de informação. O primeiro é a preservação da imagem. Noutro plano temos a possibilidade de manutenção de uma camada de texto integral, além de bookmarks e metadados. Uma outra distinção conceitual é necessária antes da descrição dos procedimentos. Um objeto digital pode ser um documento original ou uma representação de um objeto físico. Hoje temos diversos documentos produzidos diretamente por sistemas informatizados. Neste caso, o objeto digital é o original é o original e a versão impressa desse arquivo a cópia. Um exemplo dessa situação pode ser dada no atual sistema tributário controlado por sistemas de gerenciamento eletrônico de documentos bastante especializado que permite a declaração e a conferência dos documentos de forma totalmente virtual. Uma situação diversa ocorre no processo de digitalização de acervos originalmente no papel. Neste caso, o objeto digital é uma cópia. Pode ser uma cópia certificada e assinada digitalmente. Mas uma cópia o que não autoriza o descarte de documentos que merecem ser preservados. Feitas estas considerações, passamos a descrever, rapidamente nos limites deste espaço, uma proposta de fluxo de trabalho que permitiria colocar as tecnologias de gerenciamento eletrônico de documentos ao alcance de pequenos acervos locais. Vamos organizar esta explanação a partir dos seguintes tópicos: a captura, o pós processamento das imagens, a transcrição e incorporação de informações de descrição documental, a criação do objeto digital e seu armazenamento em repositórios digitais. A primeira fase do processo de digitalização de acervos se inicia na captura. O rápido desenvolvimento dos processadores incorporados em máquinas fotográficas digitais de baixo custo permitiu desenvolver, no Laboratório de Usinagem do Departamento de Física da UEPG, um equipamento de captura relativamente barato a partir dos seguintes princípios: - mobilidade - para a movimentação do equipamento entre ambientes- acessibilidade - baixo custo para que qualquer pessoa possa adquiri-lo,- divisibilidade - fácil de montar e desmontar,- durabilidade - que não tenha que ser reparado- facilidade de utilização- preservação - que o documento a ser registrado não sofra dano no processo de digitalização- rapidez – que o sistema seja rápido o suficiente para acelerar no sequenciamento de registros. Este equipamento permite em alta velocidade a captura de documentos encadernados e frágeis sem danificá-los. Os equipamentos para captura, entretanto é uma pequena parte do processo. Tratar esses documentos para convertê-los em objetos digitais confiáveis sem os custos de licenças de software exigiu uma ampla pesquisa em projetos de software livre para descobrir quais deles estavam maduros no desenvolvimento e quais apresentavam o melhor resultado. Assim montamos um fluxo que trabalho nos quais foram testados com sucesso os seguintes softwares que atendem às seguintes fases do processo: pós-tratamento da imagem: scantailor; ferramentas para auxílio na transcrição: ocropus e tesseract (OCR) e GiDoc (auxiliar na transcrição de manuscritos); DjVu Libre na produção de objetos digitais (utilizado com sucesso através de algumas interfaces gráficas) e finalmente o Ica-Atom como repositório digital para preservação e divulgação dos documentos.O desafio nas próximas fases do projeto é a integração de todos desses procedimentos em uma ferramenta única com interface web.

Educação histórica e patrimônio: experiências da educação patrimonial em Paranaguá -PR (2009 a 2012) Evandro Cardoso do Nascimento A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Graduado em História pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciência e Letras de Paranaguá – FAFIPAR, pesquisador do Laboratório de Pesquisas em Educação Histórica da Universidade Federal do Paraná – LAPEDUH – UFPR Palavras–chave: Patrimônio Histórico; Ensino de História; Narrativas Históricas. O presente trabalho é resultado de quatro anos de pesquisas e práticas de educação patrimonial em Paranaguá PR que propõe analisar as possíveis relações entre o patrimônio e a educação histórica no processo de ensino e aprendizagem. Com o objetivo de delimitar ainda mais este campo de investigação optou-se por apresentar, neste artigo, investigações sobre as ideias históricas, desenvolvidas em contato com o patrimônio, por alunos do 6º ano da Escola Estadual Lucy Requião de Mello e Silva localizada na Ilha do Mel – Paranaguá PR. Neste sentido o trabalho em sala de aula com o patrimônio local, pode constituir uma alternativa para desenvolver a consciência histórica dos alunos, pois a proximidade possibilita maior empatia dos alunos com relação ao passado histórico, criando uma identidade histórica com a comunidade local. (EHLKE, 2008) Porém, como podemos utilizar fontes em sala de aula? Quais tipos de pesquisas poderiam ser realizadas com estas fontes? Como construir didaticamente esses conhecimentos? Estas entre outras questões problematizam esta investigação, que busca contribuir para o campo da educação histórica através de uma análise da cultura material e popular no contexto escolar, procurando identificar suas possibilidades didáticopedagógicas.Nesta perspectiva a presente pesquisa objetiva analisar a consciência histórica dos alunos, após o trabalho em sala de aula, com o patrimônio material e imaterial da Ilha do Mel, tomando como princípio a construção de narrativas históricas; outros objetivos se constituem em analisar o processo de ensino e aprendizagem, a partir da aproximação dos alunos à história local; e realizar um levantamento, do patrimônio histórico da Ilha do Mel, utilizando-o como fonte de pesquisa para construção de narrativas históricas.Tendo como ponto de partida as teorias históricas elaboradas por Jörn Rüsen sobre os conceitos de consciência histórica e narrativa histórica, (RÜSEN, 2001) e os conceitos elaborados por Peter Lee, tais como, empatia histórica e conceitos de segunda ordem; (LEE, 2003) este trabalho busca dialogar estas referências com a linha de pesquisa da educação histórica dentro de uma proposta de educação patrimonial. Os métodos utilizados foram selecionados sob as perspectivas da educação histórica, que visa à utilização de fontes primárias no ensino. (SCHMIDT, 2009)Os resultados desta pesquisa revelam que o patrimônio imaterial local utilizado como fonte de pesquisa por alunos no ensino da história torna-se uma ferramenta útil, quando inserido sob a perspectiva da educação histórica. A investigação realizada mostra que, no processo de ensino e aprendizagem da história local por intermédio do patrimônio, ocorre um considerável progresso da consciência histórica dos alunos. Nas narrativas históricas escritas pelos alunos, a consciência histórica dos mesmos com relação ao passado histórico é revelada, mostrando que estes alunos conseguem relacionar o patrimônio imaterial com os lugares de memória da Ilha, sempre interligados ao tempo histórico. Ainda antes da intervenção pedagógica os alunos, em seus conhecimentos prévios, conseguem atribuir sentidos históricos ao patrimônio, e após a intervenção pedagógica eles alcançam um nível ainda maior de empatia histórica, passando a narrar a história numa perspectiva mais complexa.A pesquisa histórica realizada pelos alunos com o patrimônio histórico da Ilha os aproximou à história local, permitindo que a cultura popular seja interpretada no processo de ensino, eles percebem que a história da Ilha também é composta de valores culturais, que formam a identidade local. O inventário realizado junto aos alunos possibilitou o ensino da história através de fontes primárias, onde eles participaram de todas as etapas da construção do conhecimento histórico. Através das Aulas Oficinas os alunos aprendem a ler e a escrever a história, ao visitar o conjunto patrimonial da Ilha do Mel alguns alunos percebem o que antes A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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não percebiam; os valores e significados históricos presentes nos monumentos, nos lugares de memória, nos saberes e nas práticas culturais agora são reconhecidos, e, a partir de leituras históricas ganham sentido, que os alunos passam a expressar por meio de narrativas, suas interpretações históricas. Neste sentido a educação histórica garante uma educação patrimonial dinâmica e produtiva, que busca desenvolver a consciência histórica dos alunos, garantindo o reconhecimento e a preservação do patrimônio imaterial na comunidade escolar.

Educar para civilizar: origens da escola pública em Londrina

Fábio Luiz da Silva – Doutor – Unopar/CapUEL Palavras-chave: Escola; Arquitetura; Educação.

Quando pensamos em civilização, imediatamente relacionamos essa palavra à ideia de cidade, pois ser civilizado sempre correspondeu a viver na cidade. A cidade, por sua vez, somente pode ser compreendida se nos atentarmos à Arquitetura que a constitui. No caso de Londrina, as constantes referências às construções como sinais do progresso são evidências suficientes. Em 1933, o interventor Manuel Ribas nomeou Remy Duszczak como professor da primeira escola de Londrina que, na época, era parte do município de Jatahy. Era uma escola de madeira de 10 m2 A escola isolada, como era conhecida, ficava onde hoje é o Edifício Júlio Fuganti. Remy era um jovem de cerca de vinte anos de idade, que havia nascido na Polônia e vindo para o Brasil ainda bebê.Foi o professor Remy que teve de providenciar todo o equipamento necessário, pois quando chegou sequer havia sido preparado qualquer espaço para a escola. Além de ser de madeira, característica de todas as construções do início da ocupação dessa região, a pequena sala não possuía forro e onde chovia mais dentro do que fora. Também não havia luz elétrica. No ano seguinte à chegada do professor Remy, outro recém-formado chegou a Londrina. Era Luiz Vergés Dutra, vindo de Curitiba com apenas 19 anos de idade. Ambos moravam na pensão Esperança. O professor Remy lecionava no período matutino e Luiz no período vespertino. Em 1936, a escola foi entregue à professora Mercedes Martins Madureira que, mais tarde, veio a ser diretora do Grupo Escolar Hugo Simas. Vinda de Curitiba, onde estudara na Escola de Professores, não tinha 20 anos quando chegou. Ela afirmou que estava bastante ansiosa devido à precariedade da escola que assumia e com medo da febre amarela que, na época, matava muita gente (MADUREIRA, 1985). A sua primeira turma tinha quarenta alunos, da 1ª, 2ª e 3ª série que estudavam todos juntos em classe multisseriada. No Paraná, em 1935, havia 1043 escolas isoladas mantidas pelo estado, (PARANÁ, 1935). No caso de Londrina, a sala de aula possuía vinte carteiras duplas, um armário e um pequeno quadro-negro. O material que a escola precisava, como giz, apagador ou livro de chamada, vinha de trem.A população de Londrina cresceu muito nesse período. Em 1934, moravam em Londrina cerca de 7500 pessoas, mas em 1936 já havia 20527 habitantes; um aumento de mais de 173% em apenas dois anos! Então fica claro que a escola isolada não daria conta do aumento de crianças em idade escolar. A inauguração do Grupo Escolar de Londrina, em 1937, pode ser interpretada como resposta a essa situação. Logo no primeiro ano de funcionamento a nova escola contava com 587 alunos. Mais tarde, em 1941, passou a ser chamado Grupo Escolar Hugo Simas. Além disso, a criação de uma nova e moderna escola em Londrina nos anos 30 deve ser entendida a partir do “otimismo pedagógico” característico A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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desse período. A escola passou a ser entendida como capaz de eliminar todos os males do país, devendo garantir a propagação do sentimento patriótico e do conhecimento necessário ao progresso da nação (PROSSER, 2004). Os grupos escolares construídos no Paraná, nesse período, seguiam os princípios do Art Déco. Esse estilo foi “[...] a linguagem de desenho mais representativa da primeira modernidade arquitetônica brasileira [...]” (OLIVEIRA, 2008, p. 63). Para Oliveira (2008), esse estilo estava estreitamente vinculado ao governo Vargas, portanto, facilmente podemos compreender a sua adoção na construção dos edifícios escolares na década de 30 e parte dos anos 40, no Paraná. Todas essas mudanças exigiam a construção de novas escolas, cujos edifícios deveriam corresponder a esse desejo de tornar científica a prática escolar. A edificação primaria pela racionalidade. No caso do Paraná, o estilo Art Déco representa esse projeto de educação. Essa racionalidade era manifesta na simplificação dos ornamentos, no uso de formas geométricas e de volumes. Essa solução apareceu, além das escolas, em muitos edifícios públicos das décadas de 30 e 40 (OLIVEIRA, 2008).É significativo que a primeira edificação pública em Londrina tenha sido uma escola. Um estabelecimento que já “[...] trazia em seu cerne a modernidade, a disciplina e a racionalização do uso dos espaços escolares” (FARIA, 2010, p. 61). Em uma época de hegemonia das construções de madeira, o Grupo Escolar Hugo Simas foi construído em alvenaria. Contava com salas amplas que se ligavam, por um corredor, à administração da escola, que se localizava na entrada do edifício. Era a materialização dos desejos de modernidade da população da jovem Londrina e ser moderno era equivalente a ser civilizado. Então, a civilização seria o resultado do progresso. Essas três ideias: “modernidade”, “civilização” e “progresso”, dependiam diretamente do controle sobre a natureza. Para melhorar o aspecto de “urbs moderna”, porém, não bastava legislar sobre os materiais com os quais se podia ou não construir a cidade. Havia algum tempo que a educação era vista como a solução para os males da sociedade. O Grupo Escolar Hugo Simas teve, portanto a missão de formar a mentalidade moderna, mais adequada ao novo modo de vida que se construía na cidade. Durante algum tempo, o Grupo Escolar Hugo Simas pareceu responder aos anseios mais imediatos pela escolarização. No entanto, sabemos que suas salas de aula já de início não comportavam o número de alunos que buscavam matricular-se. Em 1939, por exemplo, o prefeito de Londrina teve de alugar o prédio onde funcionara, algum tempo antes, a Escola Alemã, para abrigar o número crescente de alunos. Três anos depois, o grupo escolar utilizava diversos espaços alternativos, o que somava 27 salas em 1942, (FARIA, 2010). Todo esse “esforço”, porém, ainda deixava grande parte da população em idade escolar, que era a maioria da população, fora das salas de aula (BONI, 2009). O desejo da modernidade era contido pela realidade política.

Referências

BONI, Paulo César. As transformações geográficas e populacionais de Londrina na década de 40. In: BONI, Paulo César (org.). Certidões de nascimento da história: o surgimento de municípios no eixo Londrina – Maringá. Londrina: Planográfica, 2009. FARIA, Thais Bento. Em Traços de modernidade: a história e a memória do Grupo escolar “Hugo Simas” (Londrina-PR, 1937 -1972). 2010. 190 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2010. MADUREIRA, Mercedes Camargo Martins. Entrevista concedida a Mariana Almeida, 6 de jan. de 1985. Museu Histórico Padre Carlos Weiss. CD 097, FC020. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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OLIVEIRA, Marcel Steiner Giglio de. Arquitetura em São Paulo na Era Vargas. O Art Déco e a arquitetura fascista nos edifícios públicos (1930 – 1945). 2008. 139 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. PARANÁ. Mensagem apresentada pelo Exmo. Snr. Governador Manuel Ribas à Assembléa Legislativa do Estado. Curitiba, 1935. Disponível em: < http://www.arquivopublico.pr.gov.br/arquivos/File/pdf/Ano_1935_MFN_938.pdf>. Acesso em: 01 de fev. de 2012. PROSSER, Elizabeth Seraphin. Cem anos de sociedade, arte e educação em Curitiba: 1853 – 1953. Curitiba: Imprensa Oficial, 2004.

Organização, catalogação e digitalização dos processos da vara civil da comarca de Campo Mourão Dr. Frank Antonio Mezzomo Palavras-chave: Patrimônio, Documento, Processos civis. A pesquisa em desenvolvimento, que conta com apoio financeiro da Fundação Araucária e é desenvolvida junto ao Grupo de Pesquisa Cultura e Relações de Poder, tem como objetivo organizar, catalogar e digitalizar os processos da Vara Civil da Comarca de Campo Mourão, relativos aos anos de 1961 a 1976. Na presente comunicação busca-se discutir a pertinência e atualidade das ações voltadas para a preservação documental, assim como destacar resultados parciais relativos às atividades desenvolvidas na higienização, catalogação e organização do referido fundo documental.A atualidade do tema da organização e catalogação de documentos, sobretudo da digitalização, coloca a sociedade diante da questão dos usos contemporâneos do passado. A contemporaneidade não é distinta e serve para confirmar que as sociedades se distinguem pelos usos que fazem do passado. Ao contrário das sociedades tradicionais que justificam seus atos pela lembrança de seus mitos de origem ou seus ancestrais, as sociedades na atualidade se caracterizam por viver sob a lógica do progresso própria da crença na modernidade e que aposta na superação progressiva dos tempos. Desse modo, a memória não acompanha os atos cotidianos e o passado é situado em espaço próprio para demarcar a diferença entre o antigo e o novo (FREITAS; KNAUSS, 2009, p. 2).Com isso, as sociedades de hoje cultivam seus museus e arquivos como lugares de memória, para usar a noção proposta originalmente por Pierre Nora cuja valorização e preocupação no Brasil é muito recente no entendimento da historiadora Yara Aun Khoury. Centros de Documentação e museus, sobretudo a partir dos anos de 1970, vêm se constituindo, reunindo e disponibilizando acervos e informações para a pesquisa, atendendo a uma demanda de maior acesso à informação e ao patrimônio documental do país. Articulados a questões em debate na universidade e na sociedade, firmam-se como mais um espaço de preservação de memórias variadas (KHOURY, 2005, p. 407).A valorização da documentação, e por extensão dos lugares A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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da memória, na concepção de Carla Freitas e Paulo Knauss, surge na pesquisa histórica na medida em que o conflito de interpretações passou a substituir o fetiche do documento que justificava a si mesmo como revelador da verdade. Diante da importância da interpretação histórica, o interesse em revisitar os mesmos dados ou documentos instala o espaço do debate como condição da construção do conhecimento. Assim, os arquivos que nos seus primórdios quase não recebiam público e se caracterizavam pelo entesouramento dos documentos, dedicaram-se a publicar fontes documentais de referência assumidos como o atestado da existência da nação. Não é demasiado dizer que a preocupação com a reprodução e a difusão de fontes históricas é fruto da valorização do sentido interpretativo da atividade do historiador dos tempos atuais.Há que se considerar, na esteira desse entendimento apontado acima, que existe uma revolução paradigmática iniciada sobretudo em finais dos anos de 1920, quando o horizonte epistemológico do pesquisador, sobremaneira nas ciências sociais, apontava para uma nova concepção acerca da produção e as condições do fazer ciência. Doravante o paradigma positivista e historicista, enquanto concepção de natureza, de cultura e de conhecimento é colocado em cheque sem, contudo, deixar de fincar raízes na estrutura social. O papel do pesquisador não consiste mais em achar e encaixar provas documentais senão interpretar, interrogar e criar fontes históricas, estas, por sinal, podendo ser “escritos de todos os tipos, documentos figurados, produtos de escavações arqueológicas, documentos orais, etc. Uma estatística, uma curva de preços, uma fotografia, um filme, um pólen fóssil, uma ferramenta, um ex-voto são, para a história nova, documentos de primeira ordem”. (LE GOFF, 1995, p. 28).Bem ou mal, o certo é que políticas de investimentos na preservação e a disponibilização de fontes históricas para a pesquisa já não aparecem como excentricidades ou mesmo motivo de comentários jocosos. Talvez impulsionados por políticas de arquivos, talvez resultado de discussões surgidas no âmbito da academia ou de organismos de classe, é possível dizer que existem no Brasil, atualmente, experiências bem sucedidas de usos eletrônicos do passado em que a digitalização de documentos tem-se revelado um recurso importante na democratização e acesso à informação. Ademais, vale ressaltar a existência de diversas experiências de conservação e digitalização realizadas por Centros de Documentação, Fundações de Pesquisa e mesmo Bibliotecas e Museus, ligadas ou não as universidades, que vêm implantando procedimentos inovadores no tratamento documental e na adoção de tecnologias modernas para disponibilização de acervos digitalizados. É na esteira dessa problemática que a pesquisa em desenvolvimento vem promovendo ações de organização, catalogação e digitalização dos processos oriundos do Fórum da Comarca de Campo Mourão. Precedido pelo processo de higienização de aproximadamente cinco mil processos, abrangendo o período de 1961 a 1976, que se estendeu entre os anos de 2008 até 2010, atualmente as atividades estão voltadas para duas frentes de trabalho que estão sendo desenvolvidas concomitantemente. A primeira das frentes está relacionada à organização e catalogação dos processos relativos aos anos de 1971 a 1976. Ao todo foram conferidas e catalogadas informações de três mil seiscentos e quarenta e um processos (3.641). Esta atividade compreendeu a reorganização dos processos nas caixas arquivos conforme o ano da ação judicial; a leitura do processo averiguando dados como: tipo da ação judicial; nome dos envolvidos na ação, número do auto; nacionalidade, escolaridade, profissão, sexo, cor, profissão, idade, estado civil e endereço dos envolvido; data da sentença e do arquivamento; descrição resumida da ação. Para realização dessa atividade elaborou-se uma ficha eletrônica em que são extraídas tais informações. A segunda frente do trabalho consiste no lento processo de digitalização dos autos civis e organização em banco de dados apropriado para viabilizar o acesso e a consulta ao fundo documental. Por fim, a relevância dessa pesquisa consta na iniciativa de encetar ações de preservação e disponibilização eletrônica do patrimônio histórico da Mesorregião Centro-Ocidental Paranaense materializado, nesse momento, nos processos civis do Fórum da Comarca de Campo Mourão. Os documentos, em A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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organização, reservam uma significativa contribuição para a comunidade de pesquisadores e para aqueles que, na situação de sujeitos históricos, participam da construção da memória coletiva da região. Referências FREITAS, Carla Regina e KNAUSS, Paulo. Usos eletrônicos do passado: digitalização de documentos e política de arquivos. Revista Patrimônio e Memória. Assis, v. 4, n. 2, jun. 2009. KHOURY, Yara Aun. No rastro de memórias silenciadas. Revista Projeto História, São Paulo, (30), jun. 2005. LE GOFF, Jacques. A História Nova. 3ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 1995.

Memória gastronômica: a alimentação de imigrantes e seus descendentes, nas décadas de 1930 – 1950, em Londrina-Paraná

Gilberto Hildebrando Mestre em História e aluno do curso de Gastronomia (UNIFIL) Leandro Henrique Magalhães Doutor em História e docente do curso de Gastronomia (UNIFIL). Palavras-chave: Gastronomia; Memória; Imigrantes O trabalho propõe uma abordagem sobre os elementos da cultura gastronômica do município de Londrina – Paraná, notadamente daqueles presentes em famílias de imigrantes e seus descendentes, nas décadas de 1930 a 1950, procurando desvelar sinais do que se convencionou chamar de uma memória da alimentação. As referências concretas destes sinais são pratos denominados típicos e que mesmo com a vinda destes imigrantes para o Brasil e com a possível substituição de alguns ingredientes, mantiveram-se presentes nos hábitos alimentares. Outra questão significativa para a pesquisa é a solidificação do campo de pesquisa em patrimônio imaterial, no tocante à alimentação e às técnicas de produção do alimento, alinhavando-se a outros métodos de investigação histórica na formação da cidade de Londrina.Entre os objetivos do trabalho constam reflexões teóricas em patrimônio cultural, na sua vertente imaterial, estudos sobre a formação étnica da cidade de Londrina e a busca pelas referências de uma memória gastronômica, como elementos afetivos dos países de origem, bem como do uso de técnicas de cocção com apetrechos e ingredientes locais.O trabalho foi estruturado para compor o que procuramos chamar de quadro étnico da formação da sociedade londrinense nas décadas iniciais da colonização do norte do Paraná, nas margens esquerdas do Rio Tibagi, ao longo das décadas de 1930 a 1950. Com o apoio e auxílio de fontes documentais presentes no Museu Histórico de Londrina e no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica, ambos pertencentes à Universidade Estadual de Londrina, além de fontes orais, a pesquisa foi programada para se abordar os traços mais significativos e persistentes de imigrantes italianos, japoneses, árabes, alemães, portugueses e espanhóis. A proposta de finalização das etapas do projeto de pesquisa dar-se-á com uma reflexão acerca dos migrantes chegados em Londrina, no mesmo período identificado, particularmente aqueles de origem paulista, mineira e nordestina. Pautou-se nas fases iniciais da pesquisa, por aprofundar o campo teórico acerca da formação histórico-cultural da cidade de Londrina, uma cidade de formação recente, cujo empreendimento colonizador deu-se a partir das primeiras décadas do A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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século XX. Buscou-se compreender a dinâmica colonizadora, empreitada pela Companhia de Terras Norte do Paraná, de capital inglês e paulista, cujo incentivo à venda de pequenos lotes a imigrantes e migrantes, ajudou a desenhar a ocupação territorial do norte do Paraná, especificamente em Londrina, primeira sede e foco prioritário da ação da Companhia. Par e passo com o estudo da formação étnica, buscou-se identificar também os sinais das referências gastronômicas neste processo. Pratos típicos, técnicas de cocção, uso de ingredientes locais em substituição àqueles tradicionais que não se podia encontrar nas novas terras, constituíram-se como referências para o trabalho de pesquisa. Ao lado destas referências, buscou-se compreender também, quais os sentidos da consolidação de uma alimentação que foi aos poucos se adaptando ao paladar de cada etnia, porém, com os ingredientes encontrados e conhecidos no norte do Paraná.No momento, a pesquisa, ainda em andamento, agregou resultados acerca de imigrantes italianos, o maior grupo étnico que adquiriu lotes em Londrina na primeira metade do século XX, seguidos pelos japoneses. Quanto aos imigrantes árabes, os mesmos foram incluídos como campo de estudo, uma vez que sua presença na formação da cidade de Londrina, nas décadas citadas, foi extremamente significativa, por seu envolvimento no comércio local e atuação frente à compra e venda de ingredientes para os diversos moradores recém chegados à cidade. Sua gastronomia particular, adaptada à realidade local, foi se consolidando em meio ás diversas famílias de origem árabe e entre as demais etnias, que passaram a incorporar diversas preparações.Sinais da dependência de uma alimentação baseada na natureza local, no caso do palmito, que era consumido de todas as formas, a caça e a pesca, junto com os ingredientes de fácil acesso e de cultivo relativamente rápido foram encontrados praticamente em todas as etnias já estudadas. Caso, por exemplo, da polenta, por ter seu ingrediente principal, o fubá ou farinha de milho, grande facilidade de armazenamento e comércio e por ser uma cultura que logo se adaptou à terra e ao clima. A limitação do acesso ao trigo também influenciou na gastronomia local. Algumas citações encontradas em entrevistas realizadas com imigrantes dão conta que, pela dificuldade de obtenção da farinha de trigo, os pães que eram mais comumente consumidos, ao longo do ano, eram as broas de fubá, não somente entre os de descendência italiana. ____________________________ Fontes consultadas: Associação pró-memória de Londrina e região. Raízes e dados históricos - 1930-2004. Londrina, 2004; Museu Histórico de Londrina. O povo que fez e faz Londrina: Exposição Comemorativa 70 anos. Londrina, 2004; _______________. Entrevistas realizadas com imigrantes e seus descendentes. _______________. Jornal Paraná Norte. Edições microfilmadas – 1934/1950. YAMAKI, Humberto. Labirinto da memória: paisagens de Londrina. Londrina: Humanidades. 2006.

A difícil prática de entender e preservar o patrimônio histórico e cultural no Brasil. Janaina Girotto da Silva – Mestre em História Social – IFCS/UFRJ. Fundação Municipal de Cultura – Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Palavras-chave: Patrimônio; trabalho; preservação. A presente comunicação propõe levantar algumas questões sobre a atuação dos profissionais que se dedicam à temática do patrimônio histórico e cultural no Brasil. A começar pela dificuldade das duas denominações: do que se trata quando se fala em patrimônio histórico e patrimônio cultural? Não seria o patrimônio histórico um patrimônio cultural? Ou então, um patrimônio cultural é um patrimônio histórico, por que, como bem socialmente construído pelo homem, possui trajetória no tempo e espaço passível de registro e compreensão? Entre patrimônio cultural e patrimônio histórico existem diversos caminhos que por vezes se entrecruzam, e outros em que há um distanciamento. O que diferenciará um do outro, na maioria das vezes, é a formação preliminar do profissional que está tratando do objeto em questão o que culminará no caminho que será escolhido. Os historiadores têm competência historicamente construída ao longo de pelo menos dois séculos para cuidar da área da memória, patrimônio histórico/cultural material e mais recentemente do patrimônio imaterial. Dotado de um amplo leque de ferramentas teórico-metodológico que confere autoridade à fala histórica. Contudo, podemos constatar que nos últimos anos ampliaram-se sobremaneira as áreas reconhecidas como legitimas para gerir ou atuar no abrangente campo denominado de patrimônio cultural. Boa parte dessa abertura se dá, sem dúvida, pela ampliação do próprio conceito de cultura, a contribuição da antropologia foi valiosa e proporcionou a inclusão de diversos aspectos da vida do homem nos estudos das demais ciências humanas e sociais. Outro fator importante é a preocupação com a preservação da memória e cultura que levou à consolidação da noção de patrimônio cultural no Brasil. O processo de inclusão dos diferentes agentes sociais, ao longo do século XX, contribuiu para que o conceito fosse se alargando cada vez mais. Neste processo, um passo foi fundamental para entendermos a política de preservação do patrimônio, que ainda hoje está em vigor, é a constituição brasileira de 1988 – chamada entre juristas de constituição cidadã – em seu artigo nº 216, prevê que “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira...”142. Tal conceito é extremamente abrangente para se tentar justamente conseguir, mesmo que por meio de lei, a incorporação de diversos atores sociais que durante um longo período da história do Brasil ou foram esquecidos em determinados momentos, ou renegados em outros, para enfim, serem incorporados ao grande caldeirão genético e cultural que contribuiu para a constituição da cara do Brasil.Se a legislação caminhou para a inclusão de objetos, pessoas e grupos antes esquecidos, devido entre outros ao forte apelo da sociedade civil por incluir, a prática da preservação não experimentou o mesmo caminho. É comum encontrarmos a debilidade do poder público frente à forte demanda por proteção de bens materiais e imateriais, o poder executivo encontra dificuldade para acompanhar o extraordinário aumento de bens a serem protegidos, um exemplo relativamente recente é a inclusão da categoria de patrimônio genético. Outro exemplo dessa debilidade diz respeito às ínfimas dotações orçamentárias para restauração de bens imóveis espalhados pelos rincões desse país, ou ainda, a dificuldade em conjugar crescimento econômico das grandes e médias cidades com a preservação de espaços naturais ou edifícios. Quando se fala em formas de proteção o lugar comum nos leva até o poder executivo, a ação governamental ganha espaço, porém ao cidadão comum a tarefa está posta. Diante de todos os desafios colocados, um dos atores ainda não mereceu a devida atenção. A atuação do profissional que está incumbido de proteger. Mesmo considerando que o agente público é naquele momento a voz do Estado, não podemos olvidar que pessoas das 142

Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 216. http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=75638&norma=102408

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mais diversas áreas, formações e trajetórias é que interpretam e colocam em prática todo um arcabouço teórico-metodológico para que se cumpra não apenas a determinação legal, mas, também aquilo que se julga o mais apropriado para o bem em questão. O aumento dos cursos de pós-graduação que oferecem especialização em patrimônio cultural ainda não foi o suficiente para sanear as dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo profissional em patrimônio cultural, sobretudo no âmbito municipal. Diante destas questões é que procuraremos delinear as principais frentes de trabalho, com suas potencialidades e fragilidades, usos e lacunas do patrimônio histórico e cultural.

Os Cavaleiros de São Sebastião e as práticas culturais em Cambira, Paraná João Paulo P. Rodrigues (Mestrado/UEM) Sandra C. A. Pelegrini (PhD/ UEM) Palavras-chave: Patrimônio Cultural, Memória, Cambira A presente comunicação pretende tecer algumas considerações sobre a “Cavalgada de Cambira143” realizada na cidade homônima desde 1998. Apesar da ocupação de Cambira ter ocorrido no final da década de 1930, a partir do desenvolvimento da agricultura cafeeira, as cavalgadas geraram o interesse da população residente a pouco mais de dez anos e estão relacionadas à sedimentação das atividades pecuárias.Essa prática cultural pode ser dividida em três momentos: o primeiro chamado “Partida”, no qual cavaleiros, autoridades eclesiásticas, políticas, lideranças sócias e a população nativa se reúnem e dão inicio as solenidades festivas. Nesse estágio, o pároco local “abençoa” todos os cavaleiros que participam do encontro e estimula as atividades subsequentes do “Passeio” onde os cavaleiros percorrem os limites territoriais da zona rural do município até a Capela de São Sebastião. Nesse espaço começa a terceira e última etapa do encontro: “A Festa”, na qual são premiadas as comitivas e oferecido o almoço – “prato típico” – para a população que acompanha os cavaleiros. Por fim, a confraternização entre os festeiros é acompanhada de música, antigas canções sertanejas. Apresentado os ritos de tal festividade, torna-se fundamental a apreensão da importância dos significados dessa prática cultural para a comunidade cambirense, que nesse caso fundamentou-se na metodologia proposta pela “Micro história”, conforme princípios apontados por Revel (1998) e Levi (1992; 2000). Levi e Revel propuseram uma mudança de escala para a análise histórica, entretanto, alterar a escala de observação não significa representar uma realidade constante em tamanho maior ou menor, e sim, transformar o conteúdo da representação.Os historiadores que se dedicaram a Micro História estavam convictos de que as vidas de diversas pessoas também faziam parte da história, e por meio deste procedimento metodológico seria possível reconstituir determinados contextos a partir das vivências dos indivíduos, nesse caso observadas e analisadas mediante a coleta de depoimentos dos Cavaleiros de São Sebastião, de lideranças sociais e demais moradores de Cambira que prestigiam a festa. Para aprender as manifestações de fé em São Sebastião buscou-se como fonte principal os depoimentos dos participantes da Cavalgada que manifestaram ter alcançado alguma graça, de modo a reunir subsídios para compreensão dos fenômenos místicos representados nas práticas dos cavaleiros. Assim, buscou-se analisar 143

Localizada na região Norte Central do Estado do Paraná a 310 km da capital Curitiba.

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referenciais como a memória individual e coletiva, e a utilização dos conceitos de representação e identidade, com a finalidade de atentar-se para as disparidades de sentidos e percepções que essa manifestação cultural vem despertando entre a população cambirense. Além disso, fez-se necessária a compreensão das práticas de sociabilidade estabelecidas pela comunidade durante a Cavalgada e sua relação com os “Cavaleiros de São Sebastião”.Por outro lado, detectou-se que as atividades e celebrações relacionadas aos Cavaleiros de Cambira apresentam inspiração em práticas milenares que retomam histórias de fé e de devoção em São Sebastião, um sentimento que vem nutrindo o sentido de pertença da população residente que acompanha e acolhe essa manifestação. Talvez, em um futuro longínquo as cavalgadas adquiram os contornos do que poderíamos definir como bens culturais imateriais, tal como determinam os estudos de José Reginaldo Gonçalves (2003), Regina Abreu (2003) e Sandra C. A. Pelegrini (2006; 2008; 2009). Vale ressaltar que presente o estudo faz parte de uma série de pesquisas realizadas no ano de 2009-2010, vinculadas ao projeto de extensão “História Local: a Educação Patrimonial e o Exercício da Cidadania”, desenvolvido com o apoio da Secretaria de Estado de Ciências, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) 144 – Universidade sem Fronteiras –Modalidade Licenciaturas, coordenado pela professora Dr. Sandra C. A. Pelegrini, que teve como um dos objetivos difundirem o conhecimento sobre a história local dos Municípios e valorizar o bens culturais das populações residentes, por meio da socialização e popularização do conhecimento.

A Virgem Maria e suas interfaces no catolicismo popular: A Festa de Nossa Senhora das Águas. João Paulo P. Rodrigues (Mestrado/UEM)

Palavras-chave: Religiosidade Popular, Patrimônio Cultural, Nossa Senhora das Águas.

Nos últimos séculos, a figura da Virgem Maria, paulatinamente, vem angariando tributos a sua imagem. De mãe, advogada e justiceira dos povos, Nossa Senhora vem ocupando posições singelas como a protetora dos Bens Naturais e das causas impossíveis. A mudança de tal quadro pode ser atestado num dos maiores artefatos utilizados na Igreja Católica no últimos séculos: As Festas em louvor a santa. As festas do catolicismo popular são manifestações da cultura religiosa que pressupõem relações de dádiva e contra dádiva. Para compreender como esse fenômeno ocorre a fundamentação metodológica recorre-se ao grupo de autores que debatem o universo do catolicismo popular e as dualidades entre o sagrado e o profano, na qual podemos considerar as contribuições de Mircea Eliade (1992; 1996), Rita de Cássia Amaral (1998), Ivan A. Manuel e Solange Ramos de Andrade (2010). Assim o objetivo principal dessa comunicação é atentar como as festas em louvor a Virgem tem sido utilizada como instrumentos para a popularização e a permeação da figura de Maria para os seus fiéis, como estudo do caso foi selecionado o louvor a Nossa Senhora das Águas, a festa, na cidade de Ivatuba145.O núcleo documental desse estudo se concentra em dois tipos de fontes: discursos 144

O Programa Universidade sem Fronteiras, da SETI – Paraná vem apoiando o desenvolvimento de projetos concernentes aos subprogramas: Licenciatura; Incubadora dos Direitos Sociais; Apoio aos Núcleos da Infância e da Juventude; Diálogos Culturais; Apoio à Agricultura Familiar; Apoio à Produção Agro-ecológica Familiar; Apoio à Pecuária Leiteira; e Extensão Tecnológica Empresarial (EDITAL n.42007- SETI-PR). 145 Ivatuba é uma cidade localizada no norte do estado do Paraná, a 468 km de Curitiba

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textuais e imagéticos. As primeiras foram construídas e analisadas a partir das sugestões de Tânia Regina de Luca (2005), Cardoso e Vainfas (1997) respectivamente.. Tânia Regina de Luca (2005) aponta alguns passos primordiais para aqueles que propõem o estudo de arquivos periódicos. Para a historiadora é essencial observar a materialidade do impresso, compreendendo que a grande variação no seu visual é uma conseqüência da relação de troca entre métodos de impressão disponíveis em um determinado instante e o lugar social tomado pelas publicações. Já o trato das imagens, uma abordagem especifica embasada nas proposições de Peter Burke (1992), segundo o qual a fotografia deve servir como instrumento para suscitar novas questões. Ela jamais deve ser usada como ilustrações de acontecimentos. O pesquisador afirma que embora essa metodologia tenha se difundido nos meios acadêmicos a partir das décadas finais do século XX, há estudos que evidenciam o seu uso no final do século XIX O historiador ao analisar uma fotografia deve pesquisar as motivações do fotógrafo, as suas relações sociais e culturais, com qual finalidade e para quem a foto foi produzida. Sobre os cuidados que o historiador deve tomar ao utilizar a imagética como fonte de pesquisa histórica. Cabe ressaltar que as festas religiosas são comemorações abertas à coletividade e seus preparativos podem ser idealizados em diferentes níveis: o primeiro se refere àqueles que estão no controle da Igreja, porque neles estão manifestos rituais particulares que devem ser conduzidos pelo clero. Exemplificando tem-se a festa de Corpus Christi, a Páscoa e o Natal. Há outras que abarcam um país e são sancionadas pelo poder civil, como a festa de Nossa Senhora Aparecida no dia 12 de outubro. Existe ainda aquelas que são particulares de uma cidade, e por fim, celebrações específicas de uma comunidade ou grupo que fundamentam-se na relação de dádiva-contra dádiva. É preciso considerar que além de manifestações lúdicas, essas celebrações expressam comportamentos, valores e visões de mundo de uma comunidade, nessa linha de abordagem, procurou-se pontuar algumas questões articuladas às festas religiosas e como elas configuram bens imateriais para uma determinada população. A celebração, de Nossa Senhora das Águas, que ocorre desde o fim do século XX as margens do rio Ivaí146, relaciona-se ao catolicismo e reúne valores que abrangem a devoção, a piedade e o compromisso. Nesse espaço, a Virgem Maria é denominada também de a Protetora dos Bens Naturais, uma causa nova e emergente que segue uma linha tênue nos dias atuais com os debates da preservação do meio ambiente.

Imagens e cultura nos faxinais José Adilçon Campigoto (Doutor - História- UNICENTRO/Irati.) Palavras-chaves: Cultura – historiografia – faxinais. Os faxinalenses são considerados como povos tradicionais, e têm vivido um longo período de conflitos no âmbito da conservação do território, da preservação ambiental e da manutenção do patrimônio imaterial. Muitas dessas povoações sofrem com a violação dos direitos humanos de que são vítimas, devido, inclusive à invisibilidade social a que foram relegadas no conjunto da sociedade brasileira. No Estado do Paraná, os povos dos faxinais têm se organizado na defesa de seus direitos e na luta por condições dignas de vida. Chama-se 146

Segundo Deste Fani (2005), a bacia hidrográfica do rio Ivaí é a segunda maior do estado do Paraná. Com uma área de 36.587 km² e um percurso de 680 km, o rio é afluente da margem esquerda do curso superior do rio Paraná e apresenta uma vazão média de 363 metros cúbicos. O Ivaí nasce em Prudentópolis, na região centro-sul do Estado do Paraná, no encontro entre os rios dos Patos e São João.

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sistema de faxinais a certo modo de utilização das terras em comum, delimitada por cercado, para a criação de animais, existente na região sul do Brasil e que se tem classificado como manifestação cultural dos povos tradicionais. Assim, o faxinal é dividido em terras de criar, ou área de compáscuo - um cercado composto por matas e pastagens em que localizam-se as habitações dos faxinalenses; na parte interior a essas área comum, que pode pertencer a um proprietário não morador do faxinal, ou a vários proprietários, são criados animais de várias espécies, tais como bovinos, eqüinos, caprinos, ovinos e suínos, além de vários tipos de aves domésticas. Soltos no grande cercado, esses animais alimentam-se da grama existente, de pequenos arbustos e dos frutos nativos tais como a gabiroba, a cereja, a pitanga e, principalmente, o pinhão. Os donos dos animais lhes oferecem suplementação alimentar nos períodos de maior escassez. As casas são dispostas no interior da área cercada, sendo boa parte delas protegida por um cercado menor, ao entorno dos quais as criações circulam livremente. As entradas e saídas dessas áreas são protegidas por porteiras e cancelas ou por uma espécie de pequenas pontes, construídas sobre valas escavadas especialmente para tal fim. Esses artefatos, chamados de mata-burros, são feitos intercalando-se uma prancha e um vão, de modo que as pessoas e os automóveis possam transitar sem a necessidade de abrir porteiras, enquanto que os animais os evitam. As terras de plantar, a outra parte divisória do faxinal, localizam-se fora do cercado e podem pertencer ao proprietário que as cultiva ou serem arrendadas. São de propriedade particular e, exploradas individualmente, exceto nos casos em que se recorre ao trabalho em mutirão. O faxinal pode ser facilmente vinculado à frente oriental paranaense de extração da erva mate e à cultura da criação de suínos em sistema extensivo praticado nesta região desde o século XVII. Os coletores de erva mate, quando viam escasseando os recursos do lugar em que estavam instalados, adentravam à mata, transportando consigo os apetrecho de que necessitavam, os recursos alimentícios e alguns animais para transportar carga e para o consumo. Vincula-se o surgimento dos faxinais à crise econômica do tropeirismo e do ciclo da erva-mate, ou seja, entre meados do século XIX e a década de 30 do século XX. Desde pelo menos essa época, os faxinalenses cultivam formas características de apropriação do território tradicional, baseando-se no uso comunal dos criadouros de animais, dos recursos florestais e hídricos, praticando a agricultura de subsistência. Sua relação com a natureza, o mudo ao seu entorno e o sobrenatural representa um conjunto de saberes e tradições vinculados ao uso comum e privado dos recursos naturais, sendo considerado como cultura diferenciada existente na Região Sul do país. A legislação vigente no Estado do Paraná reconheceu os faxinais como Área Especial de Uso Regulamentado – ARESUR, através do decreto estadual n°. 3.446, seguindo as mesmas diretrizes de utilização das Áreas de Proteção Ambiental (APAS), no ano de 1997. O mesmo decreto criou mecanismos de repasse de ICMs Ecológico às populações residentes nestas áreas. Além disso, os representantes destes grupos foram incluídos na Comissão Nacional de Povos e Populações Tradicionais do Ministério do Meio Ambiente, no ano de 2005. Precisamos considerar, entretanto, que conforme Relatório Técnico do Instituto Ambiental do Paraná (IAPAR), apenas quarenta e quatro das mais de uma centena das áreas mapeadas são consideradas como remanescentes, ou seja, mantém a organização social típica do faxinal e a paisagem de matas de araucária; cinqüenta e seis, estão desativadas, isto é, preservam apenas a paisagem de florestas nativas; e cinqüenta e duas estão extintas, uma vez que perderam suas características originais. Estima-se que, há dez anos, existiam cerca de cento e cinqüenta deles. Isso quer dizer que, arruinou-se uma dezena destes grupos a cada ano, na última década. A pressão externa enfrentada pelos faxinalenses foi descrita num dossiê, elaborado pelo setor organizado dos faxinais em conjunto com várias entidades de apoio, e entregue, no dia 3 de julho de 2007, no Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná. No documento, há várias denúncias sobre o embate cultural e o impacto ambiental provocado pela intromissão de agricultores vindos de outras regiões do país, que adquirem terras nas proximidades ou no A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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interior do território tradicional, em desacordo e à revelia das tradicionais normas de conduta e dos saberes acumulados pelos povos dos faxinais. Trata-se, por exemplo, do embate a respeito do acesso e do uso dos recursos hídricos e agro florestais, do desmatamento das nascentes, da contaminação das águas, da colocação de cercas no interior dos criadouros comuns, do desmate e plantio de pinus ou erva-mate e da plantação desregrada de milho e soja, que provocam a contaminação de fontes de água pelo uso de venenos e plantio de florestas constituídas homogeneamente por espécies exóticas sobre as nascentes. Frente a isso, representantes de 34 faxinais, organizaram o 1º Encontro dos Povos dos Faxinais, realizado na UNICENTRO, Campus de Irati, entre os dias 5 e 6 de agosto de 2005. Ali, a questão fundiária, a construção de planos de uso sustentável do território e a valorização das práticas e conhecimentos tradicionais foram considerados como eixos de luta dos moradores de faxinais. Criou-se, nesse encontro, a Articulação Puxirão que, desde então, tem coordenado as reivindicações dos faxinalenses. O projeto de pesquisa Cotidiano faxinalense – mananciais de memória vincula-se, portanto, ao terceiro eixo de lutas estabelecido pelos faxinalenses no seu primeiro encontro. Algumas pesquisas sobre esta temática já estão sendo realizadas no âmbito do Departamento de História e do Laboratório de História e Cultura dos Faxinais, este último, criado em 2006. Destaque-se os temas como o ritual da benção das águas, realizado no faxinal do Itapará, em que o rio que atravessa o território era limpo pelos jovens na véspera de realização do ritual. Outro destaque diz respeito aos olhos d’água de São João Maria, andarilho ligado ao movimento do Contestado (conflito envolvendo caboclos e o exército brasileiro no contexto das disputas limítrofes entre Paraná e Santa Catarina, 1912 – 1916) que benzia e mandava preservar as nascentes de água. O presente projeto visa a história do tempo presente, recorrendo-se às imagens, mais basicamente a fotografias para a escrita da história. A fotografia representa um momento que um dia foi vivido, e que posteriormente coloca suas representações “à mira” de olhares e críticas.147 A análise de fotografias, unida à discussão de autores que abordam o uso de fotografia como documento histórico, traz à cena interpretações capazes de revelarem aspectos importantes para o estudo dos faxinais. Conforme Carla Fernanda da Silva, a fotografia como fonte histórica tem usos distintos: o historiador poderá utilizá-la como ilustração da sua pesquisa, de modo a comprovar a ocorrência de determinado fato; ou poderá escrever a história a partir da análise de fotografias, opção que oferece inúmeras maneiras de construir o relato histórico, podendo-se lançar muitas interpretações sobre uma fotografia. 148 Para Ana Maria Mauad, a fotografia lança ao historiador um desafio: como chegar ao que não foi imediatamente revelado pelo olhar fotográfico? Como ultrapassar a superfície da mensagem e ver através da imagem?149 Assim, a fotografia é capaz de revelar aspectos fundamentais no fenômeno de modificação dos faxinais, mas para tanto é necessário uma abordagem de leitura sobre a fotografia com maior amplitude, vendo o que para ser lido nessas imagens. Não se trata somente de uma visão sobre fotografias, mas de suas histórias. As características do que se expõe na fotografia se fazem realmente interessantes após sua leitura detalhada, “o primeiro e o segundo olhar” (Boris Kossoy150). Deste modo, temos um olhar que é agente do recorte de um aspecto do mundo visível, que seleciona o conteúdo da imagem e a forma de apresentá-lo o que, por si só já é a matéria de estudo, tanto quanto a cena representada na imagem. De outro lado, temos o leitor que vai decodificar a imagem à sua maneira e com os condicionamentos de seu tempo e sua inserção social. A fotografia, de acordo com Ana Maria Mauad, é uma fonte histórica que demanda do historiador um novo tipo de crítica, mas também não deixa de lado o 147 Carla Fernanda da Silva, Grafias da luz: narrativa visual sobre a cidade na Revista Blumenau em Cadernos (Blumenau: Edifurb, 2009), 71. 148 Silva, 48. 149 Ana Maria Mauad, Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias (Niterói: Editora da UFF, 2008), 34. 150 Boris Kossoy, Fotografia e História (São Paulo: Ateliê, 2ª. ed., 2001), 99.

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testemunho, pois este sempre será válido, independente do motivo do registro fotográfico, mas não se pode esquecer que a fotografia além de informar, tem o papel de conformar uma visão de mundo. Ela é criada por meio de múltiplos aspectos, que envolvem o autor (fotógrafo), o assunto e a mensagem transmitida, que devem ser entendidos em conjunto151. Deste modo, elas são portadoras de elementos presentes na história, pois dependem do contexto histórico que as produziu e das diferentes visões de mundo que as influenciaram, assim, elas guardam a marca do passado que as fez e faz existir. Assim, se o que está presente nas fotografias desaparece, entretanto, a memória presente no documento sobrevive. Dessa forma, como a história está presente no documento, o documento fotográfico também tem sua história, que envolve o passado de uma imagem em particular. Ana Maria Mauad enfatiza que ao longo da história da fotografia, surgem diversas polêmicas ligadas ao seu uso e funções. Logo após seu surgimento, no século XIX, houve uma grande comoção no meio artístico naturalista, pois via-se na fotografia um obstáculo que deixava em segundo plano qualquer tipo de pintura, uma vez que a presença fotográfica era capaz de reproduzir o real com qualidade técnica, tornando, segundo Zita Possamai152, o contrato de fotógrafos muito comum pelas administrações municipais, para realizar o registro de bairros inteiros que sofreriam reformas urbanas. A idéia de que o que está impresso na fotografia é a relidade pura, passou por um “percurso histórico” dentre diversos críticos e teóricos da fotografia, como o filósofo francês Philipe Dubois. Por isso ele faz um panorama das teorias sobre a fotografia, abordando as questões do realismo e do valor documental da fotografia dividindo este percurso em três posições epistemológicas: a fotografia como realidade pura (espelho); a fotografia como transformação do real (o discurso do código e da desconstrução), e a fotografia como traço de um real (o discurso do índice e da referência)153. Desde a sua apresentação até os dias atuais, a fotografia registra em uma linguagem de imagens, mostrando uma história múltipla, que se construiu por eventos, lugares e pessoas. Mas, como propõe Ana Maria Mauad, a fotografia lança ao historiador o desafio de chegar ao que foi revelado pelo olhar fotográfico e ultrapassar a superfície da imagem fotográfica, vendo através da imagem154. O desvendar do momento que envolveu a criação da imagem e o assunto registrado, são definidos como a “segunda realidade”, momento que envolve mais do que um simples olhar. No momento em que se faz o estudo de fontes fotográficas, observando e analisando-as, o pesquisador põe-se diante da realidade do documento, ou melhor dizendo, a segunda realidade. O sentido deste tipo de documento não reside somente no fato de representar algo e ser um “objeto estético de época”, mas sim em ser um artefato que além de estético, contém um registro visual e é portador de informações multidisciplinares.155

151 Mauad, Poses, 37. 152 Zita Rosane Possamai, “Cidade fotografada: memória e esquecimento nos álbuns fotográficos - Porto Alegre, décadas de 1920 e 1930” (Tese de Doutorado, História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005). 153 DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. 13ª. ed. Campinas: Papirus, 1993. 154 Mauad, Poses, 37. 155 Kossoy, 152.

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Educacão patrimonial e arqueologia: desvendando a presença de caçadores e coletores, guarani, espanhois, jesuitas, bandeirantes e arqueólogos na história de Santo Inácio-Pr.

Josilene Aparecida de Oliveira LAEE/UEM-MHSI

A intensificação de ações de proteção, preservação e valorização da Redução Jesuítica de Santo Inácio as vésperas dos quatrocentos anos nos fazem recordar que as primeiras pesquisas arqueológicas que evidenciaram a importância desse patrimônio arqueológico e histórico foram realizadas ainda nas décadas 1960 e 1970, pelos primeiros arqueólogos paranaenses. Naquela época foram feitos levantamentos topográficos, prospecções e escavações que evidenciaram as sucessivas camadas de ocupações humanas no local da Redução Jesuítica de Santo Inácio. Primeiramente de populações caçadoras e coletoras datadas 6.165 anos antes do presente, seguida de populações Guarani. Por fim, as ruínas das estruturas de paredes de habitações da antiga Redução e da Colônia Indígena de Santo Inácio do Paranapanema completam a estratigrafia do atual Município de Santo Inácio. Esses resultados foram reafirmados também nas décadas seguintes de 1980 e inicio de 1990, durante a construção do lago do reservatório da Usina Hidrelétrica de Taquaruçu, conforme podemos observar em seu EIA-RIMA. No entanto a realização de novas pesquisas arqueológicas nos últimos anos, pela equipe do Laboratório de Arqueologia Etnologia e Etnohistória da Universidade Estadual de Maringá, fez renascer o interesse da comunidade e, resultou na construção do Laboratório de Pesquisas Arqueológicas da Redução Jesuítica de Santo Inácio e na criação do Museu Histórico de Santo Inácio. E ao recordar, podemos verificar que o Município de Santo Inácio sempre esteve envolvido por pesquisas arqueológicas realizadas por importantes instituições, e nesse momento com a contratação de uma arqueóloga busca formas de disponibilizar o conhecimento produzido ao longo de cinqüenta anos sobre a ocupação humana do seu território que possibilitem e oportunizem o desenvolvimento regional. Palavras – chave: EDUCAÇÃO PATRIMONIAL, ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA.

Possibilidade de espaço para educação patrimonial: o parque histórico de Carambeí Bianca Viviane de Lima Barão – Historiadora – UEPG; Juliana Pegoraro Kus – Historiadora – UEPG. Palavras-chave: Parque Histórico de Carambeí; Patrimônio Histórico; Imigração holandesa, Memória. Com objetivo de contribuir para a divulgação de possibilidades para se desenvolver atividades visando a Educação Patrimonial, este trabalho se caracteriza por ser fruto das atividades desenvolvidas por historiadores desde março de 2010 no Parque Histórico de Carambeí. O principal espaço analisado será a Casa da Memória, formada a partir da organização de descendentes de holandeses com intuito de preservar a história de seus antepassados e divulgá-la para brasileiros que tenham interesse. Este interesse os levou a constituir a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Associação Parque Histórico de Carambeí (APHC) que administra todo o Parque.Para entendermos o processo de formação da Casa da Memória, é necessário remontarmos algumas características da composição da cidade. Em 1911, teve início nos Campos Gerais um bem sucedido movimento imigratório holandês. A experiência holandesa na agricultura contribuiu para acelerar o desenvolvimento dessa comunidade e para impulsionar a produção de lacticínios, uma das características da cultura europeia. O resultado obtido pelos imigrantes pioneiros em Carambeí trouxe novos imigrantes e solidificou a presença holandesa no recémemancipado Estado do Paraná. Estruturada economicamente através da gestão cooperativa de uma grande agroindústria brasileira, Carambeí foi emancipada em 1995. A consolidação da cidade ajudou a desenvolver uma identidade local, e a continuada relação com as origens europeias manteve o intercambio de informações, conhecimento e valores culturais com o antigo continente. Retomando essa parte da história, é possível iniciar o estudo sobre a necessidade de preservação da memória. Neste caso, ressaltamos que foi a associação formada pela iniciativa de membros da comunidade que se reconhecia como descendente holandesa quem deu impulso e prezou pela preservação do acervo que, segundo a própria comunidade, representava as suas tradições socioculturais. A Casa da Memória de Carambeí tem sua estrutura instalada no antigo estábulo que pertencia à família De Geus. A edificação data de 1946 e possui 1.100 m². Sua estrutura é dividida em dois pisos e conta com milhares de itens que foram utilizados pelos imigrantes holandeses e suas famílias, desde utensílios domésticos e equipamentos agrícolas até representações imagéticas. O acervo é composto ainda por livros, documentos, entre outros.Levando em conta a descrição acima partimos do pressuposto que a criação e o funcionamento de um Museu se estabelecem a partir do seguinte tripé: formação de acervo; organização desse acervo, o que pressupõe sua catalogação; e a exposição e disponibilização para a comunidade interessada. Tendo consciência desse pressuposto inicial, podemos analisar que a Casa da Memória de Carambeí possui um acervo rico e diversificado sobre a colônia imigrante holandesa local no decorrer de seus quase 100 anos, expondo grande parte do material coletado entre os membros dessa colônia. Contudo, até o ano de 2010, essa diversidade de peças museais não havia passado por um trabalho de catalogação ou organização em coleções, dificultando assim o pleno conhecimento do que possuía, assim como o conhecimento do histórico de cada objeto doado. Segundo o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, “os museus hoje podem ser compreendidos como fenômenos sociais complexos, que se apresentam, ao mesmo tempo, como lugares de memória, de esquecimento, de criação e de tensão.” 156 Dessa forma, atualmente se defende que os museus são capazes de atuar na inclusão social, na criação artística e científica, na preservação do patrimônio e na promoção do direito cultural de todos os cidadãos, pois permitem a transversalidade, articulando variados temas como arte, história, memória, esporte, educação, lazer, saúde,religião, trabalho, turismo, ciência, entre outros. Nesse sentido firmou-se uma parceria entre a APHC e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) a fim de fornecer profissionais capacitados para o trabalho na Casa da Memória. Ao todo, foram contratados sete historiadores e sete estagiários no início do projeto. O trabalho se encaminhou de forma tal que grupos foram elaborados para o melhor andamento do processo: um grupo para catalogação (historiadores diretamente na catalogação da Casa da Memória), outro grupo para trabalhar somente com a catalogação de livros e uma equipe para digitalizar documentos e fotos. Atualmente, a Casa da Memória conta com a contratação fixa da historiadora Bianca Viviane de Lima Barão que está presente desde o início do trabalho. A primeira etapa do processo de catalogação já foi concluída, revelando inicialmente um acervo com 1.370 peças. É interessante ressaltar que este número é 156

MOREIRA, Gilberto Passos Gil. Relatório do 2º Fórum Nacional de Museus. Brasília: MinC/IPHAN/DEMU, 2008, p.10.

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consideravelmente maior, pois algumas peças foram catalogadas como conjuntos por possuírem características que as aproximavam. Além disso, há também as obras de arte a serem catalogadas. Em andamento encontram-se o processo de higienização de livros e documentos impressos, o processo de produção de fotografias digitais para o Banco de Dados Donato (ofertado pelo Museu Nacional de Belas Artes), o preenchimento do mesmo, e processos rotineiros de acondicionamento, preservação e conservação do acervo.Com a observação da organização das peças da Casa da Memória, é possível analisar uma gama considerável de aspectos além da forma como os imigrantes viviam nos primeiros anos da formação de Carambeí. Podemos destacar, por exemplo, como a metodologia educacional se alterou, excluindo a palmatória e o mimeógrafo. A partir dos documentos presentes no acervo podemos também entender um pouco mais sobre o processo de imigração específico da análise em questão e suas relações cotidianas, entre inúmeras outras análises. Para mudar a visão resignada do “sempre foi assim”, é imprescindível mostrar aos sujeitos sociais em formação que o cotidiano da sociedade da qual fazem parte já foi bem diferente. Com a atuação da Educação Patrimonial, isto se torna concretizável se empregadas as possibilidades que elencamos acima além de inúmeras outras disponíveis. Para tanto, a contextualização de espaços museais e tudo o que abrigam é indispensável. O que queremos dizer é que os museus têm potencial para servirem de base na construção de conhecimento histórico principalmente para crianças do ensino fundamental, pois, com a observação das exposições, é comum que estabeleçam relações entre seu cotidiano e as peças apresentadas.

Patrimônio Cultural e Gastronomia: A contribuição de Italianos, Japoneses e Árabes para a Alimentação Londrinense

Gilberto Hildebrando Mestre em História e aluno do curso de Gastronomia (UNIFIL) Leandro Henrique Magalhães Doutor em História e docente do curso de Gastronomia (UNIFIL).

Palavras-chave: Patrimônio Cultural, Gastronomia, Alimentação

A preocupação com a memória e o Patrimônio Cultural vem ganhando espaço entre os profissionais da Gastronomia, exigindo diálogo constante com estudiosos de áreas como história, artes, pedagogia, arquitetura e urbanismo, antropologia, sociologia e turismo. Nesta perspectiva, vem adquirindo importância o chamado Patrimônio Cultural Imaterial, marcado por manifestações, saberes, formas de expressão, celebrações e lugares. O texto aqui apresentado pretende aprofundar teoricamente os vínculos entre a Gastronomia e o Patrimônio Imaterial, identificando quais pratos e práticas londrinenses podem ser considerados como bens culturais e, assim, mereçam ser inventariados. Visa ainda reconhecer e explorar referências de memória gastronômica de imigrantes/migrantes e seus descendentes no processo colonizador da cidade de Londrina, nas décadas de 30 a 50 (século XX). A proposta básica é estruturar um campo discursivo acerca dos pressupostos culturais que nortearam a formação histórica e social da cidade de Londrina, identificando as referências gastronômicas armazenadas no campo da memória de migrantes/imigrantes e seus descendentes, além da consolidação de uma área de pesquisa em Patrimônio Imaterial, investigando práticas alimentares e pratos típicos que poderiam ser reconhecidos como bens culturais. A pesquisa A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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está respaldada em análises de documentos, parte deles do acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, que possibilitou a identificação das nacionalidades daqueles que adquiraram lotes de terras nos primeiros anos de colonização da cidade de Londrina. A partir destes documentos, foi possível verificar quais os imigrantes e descendentes com maior número de famílias na cidade e, a partir daí, deu-se início a pesquisa em torno da contribuição dos mesmos para a constituição de uma cozinha local. No ano de 2011, a pesquisa abordou três nacionalidades: os italianos e os japoneses que, respectivamente, foram os grupos estrangeiros em maior número que adquiriram terras na primeira década de colonização, e os arábes, grupo que, devido as suas características, acabaram por se establecer no núcleo urbano da cidade. Neste sentido, os objetivos do estudo foram: GeraisAprofundar os vínculos entre a Gastronomia e o Patrimônio Imaterial, além de identificar pratos e práticas gastronômicas londrinenses, com referenciais em imigrantes, migrantes e descendentes, que podem ser integrados na categoria de bem cultual.EspecíficosInvestigar temas do patrimônio cultural em geral e a composição étnica londrinense nas primeiras décadas da colonização (30 a 50), desvelando contribuições específicas para a formação histórico/cultural da cidade de Londrina/PR, e;Realizar estudos teóricos sobre o conceito de Patrimônio Cultural em geral, e sobre Patrimônio Imaterial em particular, e seu vínculo com a Gastronomia.No aspecto metodológico, optou-se pela aliança entre uma análise teórica e conceitual e a pesquisa de campo, em arquivos da cidade. Daí a importância de pesquisas de campo em torno da história local, com o intuito de reflexão sobre práticas culinárias e pratos que se firmaram, ao longo das décadas, como pilares da memória gastronômica da sociedade londrinense. Neste sentido o conceito de memória torna-se fundamental para as reflexões do projeto.Entende-se que os grupos sociais acumulam lembranças vividas entre os seus membros e nas relações que se estabelecem com os demais grupos. Este arsenal de vivências constitui o que se convencionou chamar de memória, incorporando os lapsos, os esquecimentos e as lacunas das experiências tornadas realidade a cada momento. Sabe-se que este depósito não armazena literalmente as experiências, dado que delas restam somente fragmentos e como tais, reorganizam-se continuamente no território ora seguro, ora turbulento das reminiscências (LE GOFF, 2003).Lembranças dos antepassados são continuamente repassadas pelos filtros sempre atuantes de quem as recebeu e neste sentido, lembrar dos hábitos alimentares, dos sabores prediletos e dos aromas que frequentavam as cozinhas de nossas avós é um ato de reviver uma memória que herdamos e da qual nos tornamos responsáveis por seu cultivo. O que deixamos para nossos descendentes carrega um pouco de nós mesmos e de nossas experiências, ao lado (e quase sempre mescladas) daquelas que recebemos.A partir da definição dos grupos a serem estudados, iniciou-se nova fase de pesquisa em documentos nos arquivos da cidade, além da análise de entrevistas com imigrantes e seus descendentes, arquivadas nestes órgãos. Estes documentos possibilitam múltiplos olhares sobre as práticas gastronômicas, geralmente agregadas as práticas sociais, possibilitando que se identifique os hábitos alimentares, dificuldades encontradas, adaptações necessárias para a sobrevivência em uma região recém colonizada, e as permanências. Referências ARIAS NETO, José Miguel. O Eldorado: Representações da Política em Londrina (1930-1975). Londrina: EDUEL, 1998. ASSOCIAÇÃO PRÓ MEMÓRIA DE LONDRINA E REGIÃO. Raízes e Dados Históricos - 1930-2004. Londrina, 2004.

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Conservação e Preservação do Acervo Fotográfico: Estudo de caso Museu Histórico de Londrina “Padre Carlos Weiss”

Lucinéia Chamorro e Silva – Esp. Patrimônio Cultural e Identidades - Unifil Célia Rodrigues de Oliveira – Esp. Patrimônio Cultura e Identidades - Unifil

Palavras Chaves: fotografia; patrimônio; conservação; memória.

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Esta pesquisa foi realizada como parte das atividades do curso de Especialização em Patrimônio Cultural e Identidades, promovido pela Unifil e orientado pela professora Patrícia Martins Castelo Branco. As fotografias produzidas no mundo podem, um dia, vir a fazer parte do acervo de instituições de guarda da memória, como bibliotecas, centros de documentação e museus, que possuem o dever de conservar, preservar os documentos fotográficos. Pois,[...] identidade cultural de um país, estado, cidade ou comunidade se faz com memória individual e coletiva. Somente a partir do momento em que a sociedade resolve preservar e divulgar os seus bens culturais é que se inicia o processo de construção de ethos cultural e de sua cidadania. (LE GOFF, 1997, p. 138) No Museu Histórico de Londrina, por exemplo, ocorrem a guarda, a preservação e a conservação do patrimônio imagético de Londrina e região. Assim, para serem integradas ao acervo, as fotografias doadas por famílias ou instituições são diagnosticadas, tratadas e acondicionadas adequadamente.O Museu Histórico de Londrina “Pe. Carlos Weiss”, inaugurado em 18 de setembro de 1970, pertence a Universidade Estadual de Londrina e ocupa o prédio da antiga Estação Ferroviária de Londrina, desde 10 de dezembro de 1986, está localizado na região central de Londrina; ele é considerado um patrimônio cultural da cidadeNeste trabalho, analisamos, por amostragem, se as fotografias recebidas em doação estão em bom estado físico e pontuaremos qual seriam as atividades necessárias para a sua melhor preservação e conservação. Para realizar esta pesquisa foi elaborada uma Ficha Coleta de Dados, a ser utilizada pelo Centro de Conservação e Preservação - baseada na adotada pela FUNARTE. A análise documental foi realizada em das 10 (dez) imagens (pertencentes ao período entre os anos 1900 e 1975), coletadas por amostragem nas coleções fotográficas do Museu Histórico e recebidas em doação. Constatou-se que o estado de conservação é precário, pois possuem marcas deixadas sobre o suporte decorrentes da má conservação e guarda inadequada por parte dos seus antigos proprietários; como por exemplo, danos físicos, químicos e biológicos. A deterioração da imagem fotográfica é a grande inimiga dos conservadores, obrigados a driblar tanto aquela causada por fatores intrínsecos aos materiais fotográficos, quanto a decorrente de fatores externos a que eles estão submetidos. Nessa inter-relação entre a estabilidade física e química das fotografias e o meio ambiente em que vivem, este último tem papel fundamental, podendo funcionar como agente acelerador ou retardador do processo de deterioração fotográfica. Daí a necessidade e um micro clima propício para a preservação dos materiais fotográficos, no qual será possível a prevenção e a inibição de processos destrutivos, característicos da estrutura de todo material fotográfico, independente do suporte e da camada formadora da imagem.(FILLIPI; CARVALHO, 2002, p.17)Sugerimos, portanto, que as fotografias diagnosticadas devam ser estabilizadas e higienizadas. Algumas deverão ser restauradas e todas deverão ser copiadas para que pesquisadores futuros possam utilizar, enquanto as originais devem ser acondicionadas em papel sem acidez e armazenadas em local climatizado. Depois de todos esses procedimentos, estas dez fotografias estudadas estarão protegidas, conservadas e preservadas, dentro das limitações desta instituição, por muitos anos; permitindo que a memória e o patrimônio cultural regional possam ser consultado pelas próximas gerações sem dificuldade.Como a maior parte do acervo fotográfico foi adquirida, pelo Museu, através de doações, constatou-se que a maioria dos danos encontrados nas fotografias são provocados pela falta de conhecimento de como conservar o material fotográfico. Assim, o trabalho da equipe do Museu deve ser, exatamente, fazer com que as fotografias recebidas em doação possam ser conservadas de maneira ideal ou, na impossibilidade disso, que os problemas possam estar estabilizados evitando maiores danos físicos às imagens. Referências A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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FILIPPI, Patricia de; LIMA, Solange Ferraz; CARVALHO, Vânia Carneiro de. Como tratar coleções de fotografias. São Paulo: Arquivo do Estado: Imprensa Oficial do Estado, 2002. LE GOFF, Jacques. Patrimônio Histórico, cidadania e identidade cultural: o direito à memória. In: BITTENCOURT, C. (Org.) O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1997, p. 137-140.

A Colonização do Noroeste do Paraná: O Caso da COBRIMCO – Icaraíma (1950-1970) Murilo Rebecchi – Mestrando em História pela Universidade Estadual de Maringá Orientador: Lúcio Tadeu Mota Palavras-chave: Colonização, Patrimônio, Conflitos. O foco do trabalho a colonização do noroeste do Paraná: o caso da COBRIMCO; Icaraíma, (1950 – 1970) partirá do ponto histórico que pode ter motivado a colonização e fixação de uma sociedade nesta região. Nossa perspectiva é de mostrar que trata-se de um processo de reocupação das terras, pois as populações indígenas já habitavam tais territórios cerca de 8.000 anos antes do presente. A partir disso traremos uma discussão sobre os mitos que envolvem a historiografia regional, mitos estes criados e por tempos atribuídos como verdade por grupos dominantes, seja por interesse econômico, político ou acadêmico. Assim a história de Icaraíma não deve ser tratada apenas a partir de sua fundação enquanto Município, na metade do século XX e nem os chamados pioneiros pela historiografia tradicional foram os primeiros que ocuparam estas terras. Todo este território foi palco de uma série de relações de conflitos, amizades, traições travadas pelas populações autóctones mesmo antes da chegada dos viajantes europeus. Com a chegada dos europeus este território foi visitado inúmeras vezes por expedições de reconhecimento com a finalidade de encontrar riquezas, metais preciosos. No século XVII padres jesuítas e bandeirantes atuaram por estas terras com diferentes objetivos, em todo o território denominado Guayrá. Viajantes, bandeirantes, padres jesuítas entram em contato com os grupos indígenas que habitavam estes territórios e promovem uma luta constante entre as diferentes partes para cumprir seus objetivos, principalmente a conquista e a manutenção dos territórios.(MOTA, 1998). Nos séculos XVIII e XIX se intensificaram as expedições de reconhecimento no interior do Brasil. A região que mais tarde seria denominada Norte do Paraná chama a atenção das autoridades políticas, principalmente a partir da criação da Província do Paraná em 1853. O Governo provincial inicia uma política de imigração no “Norte Pioneiro” bem como a política de demarcação de terras indígenas. Na virada do Século XIX para o século XX, quando da Proclamação da República do Brasil em 1889, tem início uma política de imigração muito forte anunciada na Europa, baseada na rápida e fácil concessão de terras, terras que tinham baixos custos, alta fertilidade e que trariam a possibilidade de modificar o quadro instável que parte da população européia enfrentava no setor produtivo agrícola e por conseqüência no setor econômico. Haveria no Brasil, e assim no Norte do Paraná a perspectiva de mudança do quadro socioeconômico na visão dos imigrantes, visão essa alimentada pela propaganda feita pelos governos federal e estadual no continente europeu. Além disso, destacamos a política de demarcação de terras indígenas, situação antes não adotada e que agora toma ganha força pelo fato de que estão A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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chegando ao território comunidades que poderiam atender aos interesses pelos quais o governo brasileiro estava motivado em fazer tão grande e messiânica propaganda aos então chegados imigrantes. O fato de que o Oeste brasileiro, e o oeste do Paraná era uma região de terras abundantes e férteis, com potencial agrícola e acima de tudo econômico, firmou as bases de política de interiorização das populações no território brasileiro e isso se explica já que a política nacional adotada no início do século XX visava a independência brasileira frente aos campos produtivos europeus. A Partir do ano de 1930 quando Getúlio Vargas assume o governo brasileiro tem início um movimento que ficaria conhecido como Marcha para o Oeste; movimento este de caráter nacionalista e que pretendia atender segundo as idéias do governo brasileiro, de se tronar em primeiro lugar auto-suficiente em relação aos campos produtivos da Europa e em segundo momento alavancar a economia brasileira, e que portanto, se fazia necessário o mapeamento destas terras, pois eram vistas como terras produtivas e com potencial capaz de satisfazer o anseio dais quais alimentava a ideologia do Estado Novo. Neste sentido destacaremos as questões que estão ligadas aos conflitos que socorreram no oeste brasileiro, e especificamente no oeste paranaense, já que estas terras já estavam ocupadas por populações indígenas desde tempos mais remotos, assim como a situação de posseiros e grupos que já estavam fixados nestas terras quando da política de “doação” destas mesmas terras, seja a companhias colonizadoras, seja a famílias de imigrantes. E nesta abordagem queremos dar espaço ao diálogo sobre a reocupação do território do noroeste do Paraná feita pelas companhias colonizadoras a qual queremos discorrer. Empresas como a Companhia de Terras Norte do Paraná, liderada pelo senhor Arthur Thomas organizaram na região um modelo a qual eles chamaram de Colonização-Dirigida, onde o objetivo era fazer chegar até estas terras colonos, que depois comprassem títulos para repovoar a região, bem como para o desenvolvimento das terras e também da ocupação dos núcleos urbanos que estão se formando (STECA; FLORES, 2002).Outro ponto que queremos discutir é a ocupação das terras onde hoje se localiza o Município de Icaraíma por meio da colonização feita pela COBRIMCO (Companhia Brasileira de Imigração e Colonização brasileira), que segundo os relatos e documentos existentes, remontam a ocupação nestas terras a partir da década de 1950, no entanto, entendemos que os dados existentes são insuficientes para contar com mais clareza a ocupação de Icaraíma, e desta maneira teremos como objeto de investigação o rastreamento e assim a unificação de materiais que expliquem por exemplo a distribuição das terras da região ( escrituras, documentos oficiais da colonizadora, entre outras fontes), para que possamos satisfazer os anseios que nos cercam para o entendimento da formação da sociedade local, cumprindo assim parte do papel da investigação historiográfica que nos é incumbida.

Flexões de uma Rua: Perspectivas sobre a memória e o patrimônio histórico-cultural da Rua Sergipe da cidade de Londrina-PR Patricia Martins Castelo Branco (Mestre em História, Professora do Centro Universitário Filadélfia - UniFil)

Esta apresentação pretende mostrar reflexões relacionadas à memória e o patrimônio sobre a perspectiva de uma rua, Rua Sergipe, na cidade de Londrina-PR. A pesquisa esta vinculada ao Projeto Educação Patrimonial VII, desenvolvido na cidade de Londrina-PR, com o apoio da Diretoria de Patrimônio Histórico Artístico da Secretária Municipal de Cultura - PROMIC. Especificamente este projeto espera promover ações educacionais que envolva o patrimônio A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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londrinense. Através de um trabalho que conta com a participação de profissionais das áreas de história, pedagogia e arquitetura (outras áreas como turismo e geografia já participaram pelo projeto em outras edições); almejamos despertar a população em geral para a riqueza do próprio patrimônio que esta a sua volta, mas nem sempre é apreciado ou vivido.Quando direcionamos nosso olhar para esta importante rua para os londrinenses encontramos alguns aspectos que ansiamos estudar: primeiramente que foi uma rua que faz parte no nascimento e crescimento da cidade; segundo a rua pode ser vista como uma representação de desenvolvimento econômico; e por fim a arquitetura que permeia e integra a história e memória. Desta forma, esta breve discussão pretende apresentar esta três perspectivas através de metodologia de pesquisa que envolveu um levantamento da história da Rua Sergipe, além de dados práticos tanto arquitetônicos alcançados no desenvolvimento de dois anos de projeto. Neste sentido, partimos para compreensão de determinados conceitos como a memória que confere identidade a uma pessoa ou localidade, é composta por seu presente e passado e não fica concentrada em um objeto, fazendo uma conexão entre a objetividade e a subjetividade do homem. Assim, o patrimônio constitui-se em fragmento de memória, e ao observarmos o que uma dada sociedade elege como representação do seu passado, pode-se tentar compreender a identidade social que esta localidade deseja que apareça, ou mesmo que fique obscura. No caso, a Rua Sergipe faz parte da problemática urbana, que esta dentro do movimento histórico, ciente disso, precisamos ter em mente à constante mudança social e arquitetônica. Neste caso existe grande importância em estudar e registrar, sendo funções necessárias para não se perder o passado, que pode fica obscurecido com a ideia de novo e progresso; preservação é um conceito que sofrem com os prazos curtos e a falta de interesse do público em geral. Já algum tempo que a cidades brasileiras pautadas nas ideias de modernidade tem sistematicamente destruindo sua memória edificada esmaecendo o passado, que muita vezes só ficar registrado em uma lembrança pessoal. Isto persiste devido à fragilidade dos órgãos públicos de proteção ao patrimônio em relação aos interesses particulares que visam o novo; ao desconsiderar a importância da identidade cultural que tem uma relação intrínseca com o patrimônio histórico-cultural. Esta atitude acaba transformando os grandes centros urbanos em ambientes hostis e estranhos a população, que acabam não formando vínculos afetivos, o que intensifica o desinteresse e proporciona o vandalismo. Uma das preocupações constantes no Projeto Educação Patrimonial se refere à questão da historicização da memória, compreendemos que suprimir a população do seu patrimônio levaria a teatralização da memória. Neste sentido, a confecção de dispositivos para relatar o passado depende primeiramente do envolvimento dos agentes sociais que constituem a identidade cultural. Portanto, não devemos solicitar à memória individual a que esta venha salvaguardar o conhecimento produzido pelo homem, graças à relevância que a memória coletiva adquire e aos novos “locais da memória”. Nesse âmbito, uma gama de pesquisadores se vertem sobre o passado, tanto elegendo o que deve ser “guardado” na memória como relativizando a noção da linearidade histórica pela pluralidade oferecida. Desta forma, trabalhar com a noção de memória seja ela individual ou coletiva da comunidade de Londrina, foi uma das preocupações e esperamos que seja uma contribuição para manutenção, e se for o caso reconstrução, da história social da cidade. Palavras-chave: Memória Urbana, Patrimônio Histórico-Cultural, Memória da Rua Sergipe, Patrimônio Arquitetônico.

O monumento nacional aos mortos da Segunda Guerra Mundial e a memória dos excombatentes brasileiros A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Pauline Bitzer Rodrigues (Especialização – Patrimônio e História/UEL) Sylvia Lenz (Orientadora) Palavras-chave: Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial; Memória; Excombatentes.

Dentre os acontecimentos do século XX, a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial se encontra entre os mais comemorados por grupos de memória, e entre os menos abordados por pesquisadores acadêmicos. Uma das possíveis razões para esse “esquecimento” é a associação da imagem dos ex-combatentes, de forma generalizada, aos militares participantes do golpe de 1964, fazendo com que a memória dos mesmos fosse questionada durante muito tempo.Apesar do silêncio acadêmico, e devido ao esforço dos grupos e comunidades de memória, o número de monumentos representativos da memória dos ex-combatentes é grande se comparado ao número de veteranos brasileiros: até meados dos anos 1980 havia 192 monumentos em todo o Brasil, numa média de aproximadamente um monumento para cada 121 ex-combatentes, e de lá até os dias atuais observa-se a construção de vários outros. (FERRAZ, 2003; FERRAZ, 2005)Tais monumentos, enquanto parte de um patrimônio cultural, são constituídos de grandes e pequenos testemunhos se tornando símbolos de uma memória e uma identidade, não homogêneas e nem prontas, mas em constante movimento e transformação. Um tema tão complexo como esse também gera interpretações e opiniões diversas nos pesquisadores, como, por exemplo, a discussão em torno da militarização (aproximação e influência das instituições militares) ou não militarização das comunidades de memória ex-combatentes e seus conjuntos monumentais. (FERRAZ, 2003; ROSENHECK, 2008)Partindo dessa perspectiva dos monumentos enquanto representação, produtos e produtores, ao mesmo tempo, de memórias e identidades, são eles o objeto dessa pesquisa, e em especial o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial (MNMSGM), localizado no Aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro. O MSNMSGM se caracteriza não só por ser o maior do país, mas também por ser um mausoléu, tendo os mortos no centro de sua homenagem, enquanto a maioria dos monumentos no país foca em todos que foram para a Itália e voltaram, vivos ou mortos. Ele foi inaugurado em 22 de Dezembro de 1960 com a transferência das urnas dos soldados mortos para o mausoléu; desde então as três forças armadas revezam-se na guarda do monumento, e várias cerimônias passaram a ser realizadas no local. (FERRAZ, 2003)Objetivos A proposta deste trabalho em desenvolvimento na especialização de “Patrimônio e História” é, então, analisar o patrimônio cultural dos ex-combatentes brasileiros da Segunda Guerra, o que envolve o monumento físico em conjunto com seu aparato imaterial, ou seja, todo ritual ou festividade do monumento e a memória da qual é guardião. A partir dessa análise, o objetivo é tentar reconhecer que tipo de narrativa, que tipo de história o MNMSGM pretendeu e pretende contar, desde o seu planejamento, passando por sua construção e os anos do governo militar, chegando ao seu papel hoje, de guardião e transmissor da história dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial.Metodologia e FontesDessa forma, o próprio MNMSGM é tomado como fonte principal, um monumento transformado em documento e que precisa ser desmontado, demolido em suas estruturas e transportado “do campo da memória para o campo da história”. (LE GOFF, 1984). Ele é abordado neste trabalho enquanto um lugar de memória e em todos os seus sentidos: material, simbólico e funcional. Além do monumento em si, um conjunto documental também é usado como fonte para a pesquisa. Tais documentos consistem em reportagens jornalísticas (sobre o Monumento, a FEB, etc.), fotos e desenhos dos projetos concorrentes para o monumento, o Memorial Descritivo do A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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MNMSGM, atas e ofícios (sobre a construção, os cerimoniais e comemorações, etc.), contratos, cartas oficiais e da Associação Nacional de Veteranos da FEB (ANVFEB), entre outros. (FELIX, 1998)Discussões e ConclusãoO patrimônios e monumentos, quer tenham suas condições de existência devido à aceleração da história ou ao presentismo, se tornam símbolos de determinadas identidades, ou então, quando estas não existem, os patrimônios estão lá para construí-la. O patrimônio está essencialmente ligado à identidade e à memória de tal forma que ele não deve ser visto somente a partir do passado, mas sim como uma ação do presente sobre o presente de acordo com as necessidades legitimadoras de valores e grupos sociais. É essa dialogia presente-passado-presente na relação entre sociedade e patrimônio, que mantém este último vivo, e é a partir destas premissas que o MNMSGM será tomado enquanto monumento-documento. (FELIX, 1998; HARTOG, 2006) Referências Bibliográficas FELIX, Loiva Otero. História e Memória: A problemática da pesquisa. Passo Fundo: Ediupf, 1998. FERRAZ, Francisco César Alves. A Guerra que não acabou. A reintegração social dos veteranos da Forças Expedicionária Brasileira (1945-2000). São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Tese de Dutorado em História Social, 2003. _________________________ Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. HARTOG, François. Tempo e Patrimônio. Varia História, Belo Horizonte, vol. 22, n.36, pp. 261273, jul/dez., 2006. LE GOFF, J. Documento/ monumento. In: ROMANO, Rugiero (Org.). Enciclopédia Einaudi. Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1984. v. 1, p. 95-106. ROSENHECK, Uri. Entre a comemoração do passado e a construção do futuro: os monumentos da FEB em seus contextos. In: Revista Militares e Política, n. º 3 ( jul . -dez. 2008) , pp. 7-16.

O patrimônio cultural “Casa Gasa”: análises através do imaginário social de Marechal Cândido Rondon Paulo Henrique Heitor Polon (Mestrando em Sociedade, Cultura e Fronteiras, Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus de Foz do Iguaçu – PR). Orientador: Prof. Dr. Valdir Gregory (Docente do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Cultura e Fronteiras da UNIOESTE, Campus de Foz do Iguaçu – PR). Palavras-chave: Imaginários; Patrimônio; Cultura. Situada no perímetro urbano do município de Marechal Cândido Rondon – PR, a “Casa Gasa” foi uma das propriedades do Sr. Heribert Hans Joachim Gasa. Está localizada na área central da cidade, na esquina entre a Rua Santa Catarina e a Rua Independência. A partir do momento em que ele começou a construção da casa, também se deu o início de imaginários a respeito da sua vida e da casa que estava construindo.Esses imaginários permanecem, ainda nos dias atuais. Sustentados pela história de vida de Gasa – um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial pelo Eixo – e por suas práticas cotidianas incomuns para a época (formação intelectual, autodidatismo, gosto por cálculos complexos e um vida de pouca sociabilidade), ainda pelas características arquitetônicas peculiares criadas por ele próprio. Esses aspectos foram e são um campo úbere na formação do Imaginário Social.Já no final da década de 1960, no período da Ditadura Civil-Militar brasileira, são produzidos documentos que buscavam comprovar que haviam grupos de alemães nazistas em Marechal Cândido Rondon, e esses A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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documentos foram divulgados na imprensa local e regional. Sem bases concretas para fundamentar essas afirmações, esses documentos teriam apenas por base os imaginários criados acerca da Casa e de seu proprietário. Atualmente a Casa Gasa é sede do “Instituto Cultural Casa Gasa” com o apoio da UNIOESTE e da Prefeitura de Marechal Cândido Rondon, sendo que o imóvel pertence a Dorothea Kocko Gasa, viúva de Joachim Gasa. O local está aberto a visitações, e também ocorrem alguns projetos de pesquisa e extensão vinculados à Universidade.Esse espaço ganhou uma maior notabilidade pelo Poder Público Local quando foi divulgado no site da Secretaria Municipal de Turismo. A Casa Gasa transformou-se em ponto turístico do município de Mal. Cdo. Rondon. No entanto, o projeto de bem público/patrimônio não está tão simples de se tornar concreto. O imóvel continua pertencendo a um dono particular, e a ajuda dos apoios – Universidade e Poder Público Local – é insuficiente para mantê-lo ativo. Portanto, a manutenção do imóvel pode ser comprometida e a locação do local para usos diversos poderia ocasionar na descaracterização do lugar, além de ocasionar algumas dificuldades ou impossibilitar a visitação. No entanto, a Casa Gasa desde a sua construção tornou-se um tanto curiosa para a população de Marechal Cândido Rondon e região, despertando o imaginário social. Gasa afirmava que em sua casa havia uma confluência de diversas culturas nos traços arquitetônicos e nas decorações internas. Como exemplo, um mosaico de ladrilhos formando a figura de um pássaro, que, segundo o seu autor (Gasa), é a representação do Condor Andino, símbolo do império Inca. Porém, por muitas vezes é confundido com a ave representada na insígnia utilizada nos uniformes da SS (um dos exércitos alemães nazistas). Essa comparação é dada a semelhança das duas figuras e, aliada aos imaginários da população, essa imagem se remete à suposta identificação de Gasa com o nazismo. Mesmo que oficialmente Gasa negasse qualquer relação entre as figuras e dele mesmo com o III Reich. No entanto, em muitas culturas aves com asas abertas são utilizadas como símbolos culturais.Através de todos esses imaginários advindos dos mistérios das interlocuções de homens comuns nos discursos sobre a Casa Gasa e seu proprietário, pode-se constatar até o momento, a formação de uma identidade dos cidadãos de Marechal Cândido Rondon. Identificação essa, relacionada também com outra identidade, a da germanidade. Incidida dos costumes, hábitos, linguagem comuns compartilhada pela maioria dos colonizadores e parte da população de Marechal Candido Rondon e cidades vizinhas. Assim, o que faz a casa de Heribert Hans Joachim Gasa tornar-se a “Casa Gasa” são os frutos das relações que as pessoas tecem no seu cotidiano, motivadas sempre pela memória, pela História Oficial, pelas histórias circunstanciais produzidas pelos atores sociais. E claro, por meio dos imaginários: produzidos, difundidos e reproduzidos pelos indivíduos, oriundos dos mistérios que rondam o lugar. As perspectivas de salvaguarda do patrimônio imaterial e o jongo em Cunha – São Paulo Sandra C. A. Pelegrini e Welington Vilanova Doutora em História Social pela USP e pós-doutora em Patrimônio Cultural pela UNICAMP; e Pesquisador do Centro de Estudos das Artes e do Patrimônio Cultural/CEAPAC/UEM (respectivamente).

Palavras-chave: Identidades étnicas, patrimônio imaterial, preservação.

A discussão ora proposta envolve atenção que a preservação jongo como patrimônio imaterial brasileiro, pois como sabemos o Brasil tem adotado políticas preservacionistas que o coloca algumas vezes em posição de vanguarda em relação a outros países. Este foi o caso da A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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catalogação no livro de registro do nosso primeiro patrimônio imaterial que se antecipou as decisões políticas desse órgão mundial, responsável por gerenciar as questões que abrangem a preocupação com a proteção dos bens culturais, reveladores dos aspectos tradicionais de várias comunidades, bem como, das suas práticas de sociabilidade.O nosso interesse em estudar o jongo praticado durante as celebrações em honra do Divino Espírito Santo, na cidade de Cunha (São Paulo), se deve ao sentido de pertença dos devotos e dos jongueiros, além disso, o jongo reúne as práticas de poesia, música, dança e religiosidade. Elas não devem ser decodificadas de maneira separada, porque corremos o risco de comprometer a apreensão dos significados que cada elemento representado na cultura afro-brasileira. Como forma de expressão característica de um grupo, o jongo deve ser reconhecido por uma leitura que considera a transmissão de saberes de geração em geração e que exige um conhecimento especifico das temáticas e dos ritos estabelecidos, conferindo-lhe singularidades que garantem seu reconhecimento como patrimônio imaterial. Antes de adensarmos as discussões sobre o jongo em na cidade de Cunha, cabe-nos lembrar que as manifestações favoráveis à preservação o patrimônio cultural imaterial da humanidade surgiram das necessidades próprias do nosso contexto de mudanças aceleradas onde a rapidez da informação e o estimulo a mudança comprometem formas singulares de costumes e modo de viver. Deste modo, a partir do final do século XX vários pesquisadores têm concentrado esforços em garantir a proteção e difusão do patrimônio intangível. Para nossa sociedade, a atribuição do conceito de patrimônio a algum artefato, manifestação religiosa, práticas cotidianas ou alimentares, remonta a uma herança representativa com algum valor para a comunidade, por estar associado as suas memórias e identidades. No entanto, ao longo do processo histórico temos percebido que os bens de valor material têm sido visto com mais cuidado, talvez porque garantam a perpetuação dos valores eurocêntricos de cultura, em detrimento das produções de outras localidades, que não tendo reconhecido seus bens de valor material para a humanidade, são contempladas com a escolha de bens intangíveis, limitando o reconhecimento da cultura dos países em desenvolvimento a esse campo. O patrimônio esta relacionado às práticas e saberes que compõe os processos culturais das várias sociedades. A cultura é um bem supervalorizado na conjuntura, sendo vista como redentora das mazelas sociais, conferindo a ela uma funcionalidade que a limita como forma de expressão resultante da maneira como as pessoas se organizam. Como salienta Sandra C. A. Pelegrini, a cultura não é algo dado, uma simples herança que se possa transmitir de geração em geração. Para a historiadora trata-se de uma produção histórica, integrante das relações entre os grupos sociais. (PELEGRINI, 2008, p. 19). Consideramos a cultura como um bem hibrido fruto das interações existentes na sociedade, que se articula em um jogo de influências, adquirindo contornos em função processos de assimilação e acomodação, capaz de lhe conferir um sentido dinâmico. A compreensão da cultura nesses termos por parte dos historiadores é uma conquista recente, elaborada a partir de uma mudança na concepção, que em muito se deve a aproximação dessa área do conhecimento com a antropologia. Além disso, não devemos nos esquecer da revolução dos métodos historiográficos que questionavam antigas formas de pensar, fundamentais para a efetivação de mudanças como a ampliação no uso das fontes, assim como a postura que deve ser adotada pelo pesquisador perante elas, incentivando a utilização de novas abordagens, metodologias e questionamentos necessários para a realização do trabalho. Essa conjuntura de fatores possibilitou o interesse dos estudiosos por temas renegados até então, abrindo caminhos para o desenvolvimento de pesquisas envolvendo a temática sobre feiticeiras, boêmios, relações cotidianas e as festas, assuntos que cada vez mais passaram a ganhar notoriedade entre os historiadores. O estudo da cultura ampliou-se e difundiu-se, renegando através de uma perspectiva antropológica a concepção de cultura evolucionista e hierarquizada. O estudo da cultura popular passou a fazer parte do interesse dos pesquisadores e demonstrou por meio do rigor metodológico ser A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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um caminho viável para compreensão das formas de organização da sociedade. A cultura produzida por pessoas comuns ganhou destaque e reforçou questões relevantes como os conflitos e disputas existentes âmbito social, renegando a ideia de uma cultura popular homogênea. Neste sentido, é possível nos dedicarmos ao estudo do Jongo, uma importante prática realizada pelos escravos e seus descendentes, relevante por revelar a diversidade do nosso patrimônio imaterial. O Jongo é uma celebração que envolve ritmos, dança e o jogo de palavras na forma metafórica, comum a população de origem africana que vive no Brasil. Herança dos tempos de senzala, a prática do jongo constitui uma forma de linguagem própria, sendo cantado na forma de enigmas que visam dificultar a compreensão por parte dos senhores de escravos e seus capatazes sobre os assuntos mencionados na roda. Sua composição poderia ter diversos objetivos como o de garantir o divertimento dos escravos e libertos negros, o de ser uma demanda que necessita de decodificação da metáfora pronunciada ou ainda de ser realizado para exaltar divindades católicas ou o panteão de deuses afro-brasileiros. Essa manifestação assim como tantas outras existentes no Brasil transita entre o mundo do profano e do sagrado, se reveste de um formato de diversão, no entanto, essa prática não se desvincula do respeito pelos ancestrais que carregaram a tradição do jongo, assim como, dos deuses, protetores dos jongueiros. Daí a relevância de seu estudo e da compreensão dessa prática como bem patrimonial imaterial brasileiro na cidade de Cunha, interior de São Paulo.

O legado cultural e artístico de Diego Rivera e as políticas preservacionistas da UNESCO. Sandra C. A. Pelegrini Doutora em História Social pela USP e pós-doutora em Patrimônio Cultural pela UNICAMP; Docente da Universidade Estadual de Maringá Palavras-chave: arte e patrimônio; políticas preservacionistas; história e linguagens O muralismo é considerado pelos especialistas da História Cultural e da História das Artes como uma fase de “renascimento” da arte mexicana, uma vez que constituiu um movimento artístico singular, relevante para a arte mundial no século XX.Do ponto de vista da pluralidade cultural das etnias americanas, da importância da preservação de suas manifestações patrimoniais (tangíveis e intangíveis) e de suas produções artísticas, consideramos oportuna a abordagem do muralismo de Diego Rivera (1886-1957), cujas obras estão correndo sério risco de deterioração. As representações impressas nessas obras do artista e ativista Rivera integram o patrimônio cultural mexicano, e sem dúvida, trazem uma significativa contribuição ao conhecimento da história desse continente e de suas paisagens naturais e citadinas. Neste sentido, o objetivo da presente comunicação de pesquisa está centrado na análise das políticas preservacionistas da Unesco, em especial no campo da arte pública, bem como na apreensão das obras de Rivera como fontes documentais para apreensão da história e dos bens culturais, principalmente porque se tratam de produções que constituem representações de uma determinada memória social e remetem aos embates relativos ao período da colonização do continente americano. A análise das narrativas discursivas expressas nessas produções, cujas características temáticas, estéticas e simbólicas referem-se às fronteiras entre o mundo civilizado e a barbárie, entre os povos colonizados e os colonizadores tornam-se capitais para a desmistificação de alguns conceitos equivocados de patrimônio cultural, de arte pública, e também, contribuem para a interpretação das relações entre o homem e mundo natural, para a apreensão das articulações entre as comunidades residentes e o sentido de pertença que se edifica por meio de redes de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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relações sociais e de práticas que se desenvolvem em determinado espaço e temporalidade. Tal empreendimento investigatório implica a adoção de referenciais teóricos e metodológicos sugeridos E. Gombrich (2000); Carlo Ginzburg (1989), Erwin Panofisk (2007), Robert Cumming (1996), Jose Reginaldo Santos Gonçalves (2004) e Roger Chartier (1990; 2009). Aliás, enquanto Panofisk sugere o método iconológico para adequada percepção plástica e estética, parece-nos que a esta metodologia deva ser associada à apreciação dos processos de “tradução cultural”. Entendemos que as obras de arte devem ser apreciadas criticamente, mediante a observância da sua comunicabilidade e intertextualidade, verificadas a partir da percepção das mensagens que a norteiam, da capacidade das linguagens e das técnicas utilizadas pelo artista exprimirem e difundirem idéias e posturas sobre a existência humana e outros temas que fundamentam sua obra. Além disso, pressupomos que seja fundamental a atenta percepção dos murais de Rivera no âmbito de sua receptividade social; no seu contexto histórico e no campo das leituras que são efetuadas pelas políticas preservacionistas internacionais. Outros dois elementos a serem examinados dizem respeito à interatividade e ao sentido de pertença despertado pelos murais de Rivera entre a população residente no México ou entre aqueles que assumem a identidade nacional mexicana.Exposto isto, lembramos que uma leitura atenta da obra implica percepção detalhada dos seus elementos compositivos, Robert Cumming (1996) chama a atenção para alguns desses elementos, destacando a necessidade de análise de, no mínimo, seis aspectos concernentes à confecção de uma obra, quais sejam: o tema; a técnica; as formas de representações de espaço e luz; o simbolismo expresso nos elementos estéticos; o estilo a que se vincula e a interpretação pessoal para cada uma das produções estudadas (CUMMING, 1996, p. 6-7).Por fim, ressaltamos que, embora as entidades internacionais, como a UNESCO, se posicionem em defesa da diversidade cultural e do respeito às diferenças, na prática as relações internacionais continuam sendo regidas por imposições econômicas e geopolíticas que precisam ser revistas.

Referências BARBOSA, Carlos Alberto Sampaio. A construção, consolidação e o espetáculo do poder no México revolucionário. Diálogos. Universidade Estadual de Maringá, Departamento de História, Programa de Pós-Graduação em História, v. 8, n. 2, p. 153-187. CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: EDUSP, 1998. BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina: da Independência até 1870. Trad: Maria Clara Cescato. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, imprensa Oficial do Estado; Brasília, DF: Fundação Alexandre Gusmão, 2001. v. 3. CHARTIER, Roger. História cultural – entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. CHASTEEN, John, Charles. América Latina: uma história de sangue e fogo. 3. ed. Trad. Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Campus, 2001. CHOAY, Françoise . O reino do urbano e a morte da cidade, in: Projeto História, no. 18, São Paulo, maio/ 1999. CUMMING, Robert. Para entender a arte. São Paulo: Ática, 1996. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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DE EUGÊNIO, Marcos Napolitano. História e arte, história das artes, ou simplesmente história? In: Simpósio Nacional da Associação Nacional de História / História: fronteiras /Associação Nacional de História. São Paulo: Humanitas / FFLCH / USP: ANPUH, 1999. GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC-Editora, 1999. LE GOFF, Jacques. Memória. In: História e memória: 3. Ed. Trad. Bernardo Leitão. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1994. PELEGRINI, Sandra C. A. Cultura y Patrimonio Histórico. Estrategias de conservación y rehabilitación del paisaje urbano y centros históricos latinoamericanos. In: Latinoamérica. Revista de Estudios Latinoamericanos. México: CCyDEL- Universidad Nacional Autónoma de México, 2003. PRADO, Maria Lígia Coelho. América Latina no século XIX: tramas, telas e textos. 2. ed. SP: EDUSP, 2004. (Ensaios Latino-americanos). READ, Herbert. "Pintura Mural" in: Dicionário da Arte e dos Artistas, Lisboa, Edições 70, Colecção Lexis, 1989, p.328. __________ "Realismo Socialista" in Dicionário da Arte e dos Artistas, Lisboa, Edições 70, Colecção Lexis, 1989, p.385. RIVERA, Diego. In: Gênios da pintura: do surrealismo ao expressionismo. SP: Editora Abril Cultural, 1980. v. 8. SILVA, Geysa .Imagens da Revolução Mexicana. In: Hispanista. Revista Electronica de los Hispanistas de Brasil. Niterói – Rio de Janeiro. Disponível em http://www.hispanista.com.br/revista/artigo68esp.htm. Acesso em agosto/ 2005. Obras do muralismo mexicano. 2005. Disponíveis em site: www.museosdemexico.org/ e http://www.imagenlatina.com/site/cultura_muralismo.html . Acesso em abril/2012. UNESCO. World Heritage Centre. Disponível em site: whc.unesco.org/ letters Acesso abr./2012.

As lentes captam o que o coração sente: permanências e transformações no patrimônio arquitetônico da cidade de Londrina Profª. Drª Sandra Regina Ferreira de Oliveira Universidade Estadual de Londrina Palavras chave: patrimônio histórico cultural; ensino de história; ensino e aprendizagem. Este artigo tem como finalidade socializar as experiências e os resultados das ações desenvolvidas no PIBID - Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina. Trata-se de um programa cujo objetivo é fomentar a formação inicial de profissionais do magistério e conta com o financiamento da CAPES com recursos para custeio e bolsas de iniciação à docência para alunos de cursos de licenciatura e para coordenadores e supervisores responsáveis institucionalmente pelo A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Programa.O subprojeto de Pedagogia elegeu como um dos temas para trabalhar no período 2011/2012 o Patrimônio Histórico, com foco na arquitetura, porque se considerou que o ensino e a aprendizagem da História nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental estabelece interface direta com a Educação Patrimonial. Os professores, em seu cotidiano, desenvolvem diversos trabalhos a partir de diferentes concepções do que venha a ser Patrimônio Histórico, com intuito de fomentar nos alunos a relação com o passado, com a memória, identidade e com a ideia de preservação e transformação. Aliada a essa prerrogativa, influenciou diretamente na escolha do tema os excelentes materiais do acervo da Secretaria de Cultura da cidade de Londrina. Dentre tantos, destacam os produzidos desde 2005, por pesquisadores e demais envolvidos no Projeto Educação Patrimonial, que conta com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC. Os materiais citados compõem-se de folhetos, livros, CD-ROM, livros de literatura infantil, dentre outros, e que estão, em sua maioria, disponibilizados nas escolas, mas não são utilizados com frequência por grande parte dos professores para atividades em sala de aula ou para planejamento do trabalho com o “conteúdo” História de Londrina. Paralelamente ou, contraditoriamente, é crescente a observação entre os professores quanto à falta de material para se trabalhar com a história da cidade. Foi a partir desse contexto que o subprojeto “As lentes captam o que o coração sente: permanências e transformações no patrimônio arquitetônico da cidade de Londrina” foi elaborado. Nessa temática, a partir do trabalho com o acervo de imagens do Museu Histórico Padre Carlos Weiss e com o material produzido no Projeto Educação Patrimonial, iniciaram-se estudos com os alunos e professores supervisores sobre as permanências e transformações na cidade de Londrina, permeado por construções de textos que expressam a compreensão das crianças sobre os lugares no presente e as imagens do passado. Simultaneamente, os mesmos materiais foram trabalhados com os alunos do curso de Pedagogia, na disciplina de Didática da História para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental.A intenção última foi trabalhar com tais materiais como potencializadores para o processo de ensinar e aprender História na escola. Portanto, as ações foram desenvolvidas com alunos que apresentavam, segundo as avaliações advindas das escolas nas quais estudam, “dificuldade para aprender”. Considerando as peculiaridades do espaço escolar, assume-se a prerrogativa de que a relação professor-aluno é marcada pelas características desse espaço. Compreende-se a escola enquanto espaço de luta pelo poder concretizada na relação conflituosa entre o novo e o velho, entre a tradição e a inovação. Portanto, infere-se que, quando o material do Projeto Educação Patrimonial chega à escola sofre um processo de didatização, de (re) leitura por parte de professores e alunos. A não utilização dos mesmos também pode ser compreendida a partir do que venha a ser didatizar algo que não foi produzido com a finalidade única de ser utilizado em sala de aula (e essa é a grande riqueza do material). Nessa linha, estão contemplados os referenciais teóricos e metodológicos deste trabalho: as análises em torno da relação sempre posta entre o saber e poder, entendendo a escola como uma “instituição de sequestro”, no sentido impetrado por Foucault, na qual passamos por um processo de disciplinarização. Alia-se a tal prerrogativa o anunciado por Sacristán (1995) de que a docência, aqui entendida como o ofício diário do professor de trabalhar com determinados saberes frente a um grupo de alunos, é uma profissão na qual cada passo deve ser fruto de um processo ou deliberação que resultará em caminhos específicos. Portanto é impossível determinar todas as variáveis que estão envolvidas no fazer docente. Consequentemente, soma-se também neste trabalho a perspectiva de que o processo de formação de professores será sempre heterogêneo. Compreende-se que a aprendizagem de professores e alunos gira em torno de um eixo: um determinado saber. Charlot (2000) alerta para o fato de que o saber não é puro objeto institucional, sendo sempre e, simultaneamente, o resultado de atividade que responde a normas especificas do saber científico, às normas epistemológicas de um determinado campo (2000, p. 18). Sendo uma forma de nos relacionarmos com o mundo, conosco e com os outros, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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a relação com o saber ocorre via sensibilidade e ao conter dimensão social é ato de compartilhamento, que implica em relação com os lugares, com a escola, com os professores, com os alunos, com os pais. Contendo relações com o passado, com o presente e o futuro tem dinâmica temporal que torna fonte de embasamento o conhecimento que no contexto se configura como fundamental. Não sendo um processo acumulativo, mas um conjunto de relações valorativas entre pessoas, grupos sociais e com os processos e produtos do saber, o desejo será ponto de partida fundamental para a criação de relações com o saber. Nesta perspectiva, essa relação será determinada pelo próprio sujeito, na medida em que aprende a apropriar-se do mundo e nele constituir-se como sujeito. Nesse texto, apresentam-se os resultados de duas investigações partes do Projeto “As lentes captam o que o coração sente: permanências e transformações no patrimônio arquitetônico da cidade de Londrina”. A primeira trata de um estudo sobre o processo de aprendizagem dos alunos de duas escolas municipal na cidade de Londrina a partir do estudo da Rua Sergipe, lugar importante na constituição e na memória da cidade. Trata-se de uma rua de comércio popular com prédios das décadas de 1950 – 1960, datação esta significativa para uma cidade com 78 anos e, ainda mais significativa para crianças de 9 a 12 anos. A proposta de trabalho foi elaborada a partir de um dos produtos do Projeto Educação Patrimonial e transitou por outras áreas de conhecimento tornando-se interdisciplinar e contribuindo de forma significativa para o processo de aprendizagem. A segunda pesquisa versa sobre um processo paralelo de construção de saberes vivenciado pelas acadêmicas e professores supervisoras a partir do estudo do Calçadão da cidade de Londrina. Para tessitura das análises sobre tal lugar utilizouse fontes orais, escritas e imagéticas além de pesquisas bibliográficas. Traçando uma linha do tempo sobre os impactos sociais causados em cada transformação do Calçadão, o objetivo foi realizar reflexões e elaborar um material para ser levado para a escola a partir do resgate histórico sobre o lugar em questão, tendo por linha narrativa as reformas realizadas no mesmo. No ano de 2011, durante a retirada do piso, uma parte do passado esquecida por alguns e não vista por outros se tornou presente: os desenhos de ramos de café que enfeitavam a Praça Gabriel Martins na década de 1970. As reflexões aqui apresentadas foram elaboradas na interseção entre a Educação Patrimonial, a partir dos conceitos elencados no Projeto Educação Patrimonial, e o processo de ensinar e aprender História na escola. Espera-se colaborar com ideia de que o patrimônio histórico é um elemento deflagrador para entendermos quem somos e participar ativamente do lugar a partir do qual somos.

Arte e memória: os retratos de Felipe IV de Diego Velázquez e idéia de identidade nacional espanhola na contemporaneidade Susana Aparecida da Silva Mestre em História Social – UEL Palavras-chave: Velázquez; memória; identidade nacional O pintor espanhol Diego Rodriguez de Silva e Velázquez (1599-1660), durante o período em que foi pintor oficial da corte de Felipe IV da Espanha, realiza vários retratos desse rei. Neste trabalho pretende-se estudar a recepção da obra de Velázquez após sua morte: as possíveis relações entre a obra de Velázquez e a identidade nacional espanhola no na contemporaneidade. Igualmente, a temática da pesquisa abrange o período em que tais pinturas passaram a interessar colecionadores e serem vendidas para galerias de arte do mundo todo. Nos meios historiográficos, o trabalho com as obras de Velázquez e a identidade nacional conta com vasta bibliografia na Espanha. No Brasil, pelo contrário, as pesquisas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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envolvendo esta temática ainda são reduzidas, configurando-se como tema inovador.Os textos a serem utilizados enquanto base teórica são os de Walter Benjamin, Maurice Halbwachs e Dominique Poulot. Já para o aporte metodológico serão utilizados os textos de Juan Pérez Garzón, Tomás Pérez Vejo, Iara Andrade, Giselle Martins Venâncio.Walter Benjamin157 auxilia a pensar o fenômeno desta pesquisa ao delinear as mudanças pelas quais o estatuto da arte passa, ao lidar com a era do capital. Fala da memória e da rememoração do passado como característica da sociedade contemporânea.Por sua vez Maurice Halbwachs traz uma importante contribuição para historiografia e sociologia ao estudar a conceituação de memória coletiva. Por outro lado, Dominique Poulot158 discute as principais questões concernentes ao meio patrimonial na atualidade.Juán Sisinio Pérez Garzón aborda a formação da identidade nacional espanhola, bem como Tomás Pérez Vejo que trata da questão a partir da chamada “pintura de história” na Espanha. Iara Andrade trata do conceito de identidade nacional a partir de Benedict Anderson. E Giselle Martins Venâncio trabalha com pinturas do Brasil e a construção de identidade nacional.É interessante lembrar que a acepção do termo identidade a que se refere esta proposta de trabalho é a de que existam várias identidades e determinado espaço sócio-histórico e não apenas uma única identidade. Esta “modalidade identitária” a qual Iara Andrade denomina de identidade subjetiva é a que se refere este trabalho.Pretende-se estudar a recepção das obras de Velázquez, desde o momento em que começa a interessar colecionadores e as primeiras galerias de arte do mundo e na contemporaneidade. O enfoque, no entanto, é a(s) possível (is) relação(es) entre as obras de Velázquez e a construção de identidade (s) nacional(is) espanhola(s) nos dias atuais.Diego Rodriguez de Silva y Velázquez (1599-1660) nasceu em Sevilha e posteriormente, em Madri, se torna um dos pintores oficiais da corte de Felipe IV da Espanha. Designado para pintar o rei a família real, Velázquez tem sua fama obtida principalmente por sua reconhecida habilidade de retratista.Velázquez realizou várias pinturas no palácio, dentre as quais, vários retratos do rei. O reinado de Felipe IV passou por tantas dificuldades econômicas e conflitos com conterrâneos europeus, que os retratos feitos pelo pintor sevilhano parecem ter sido uma tentativa de Felipe IV de glorificar seu poder e legitimar a sua autoridade real através da arte. No entanto, a arte de Diego Velázquez arte se tornou emblemática e chamariz de turismo cultural espanhol muitos anos após o reinado de Felipe IV. Desta forma, a questão que se coloca aqui é a seguinte: O que faz com que pouco mais de três séculos após sua morte, a imagem do pintor Velázquez seja uma das primeiras a lembrada quando se fala em arte espanhola? Acredita-se que a arte de Velázquez através da memória coletiva, segundo a concepção determine identidades. Neste sentido, pensa-se que a arte na atualidade deva ser vista pelo viés do patrimônio. Desta forma, estudar os mecanismos pelos quais a arte patrimonial através da memória constrói identidades é um dos objetivos deste trabalho.

ST 13 HISTÓRIA DO CORPO: MASCULINIDADES, FEMINILIDADES E GÊNERO

“Tão estranho como nós”: representações homossexuais na TV e na Internet

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BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1986.pag. 158

POULOT, Dominique. Uma história do patrimônio no ocidente, séculos XVIII-XXI: do monumento aos valores. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

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Caroline Stefany Depieri (Mestranda-Unioeste) Orientadora: Geni Rosa Duarte ( Prof. Dra. - Unioeste) Palavras chaves: Homoafetividade, História, Internet Este comunicação visa analisar as formas de representatividades homossexuais na mídia utilizando como aporte a TV e a Internet, que se caracteriza como parte de minha Dissertação de Mestrado. Queer as Folk foi inicialmente produzida de forma independente no Reino Unido pela Red Production Company para o canal Channel 4 em 1999, o seriado teve 2 temporadas entre 23 de Fevereiro à 22 de Fevereiro de 2000. O seriado idealizado por Russel T. Davies focava o cotidiano de 3 amigos homossexuais Stuart, Vince e Nathan. em Manchestter na Inglaterra. Mas a produção inglesa contou apenas com essas 2 temporadas e acabou sendo cancelada. O objeto principal desta pesquisa é o seriado estadunidense Queer as Folk, esta série foi exibida no Brasil durante os anos de 2000 à 2005, contou com 5 temporadas. Adaptado por Ron Cowen e Daniel Lipman a versão estadunidense foi baseada na versão inglesa criada por Russel T. Davies. O seriado foi distribuído pela Warner Bros. Television. O nome da série permaneceu o mesmo da versão original inglesa, que brinca com um ditado popular "ninguém é tão estranho como nós" ("nobody is so weird as folk") transformado e parafraseado em "ninguém é tão gay como nós" ("nobody is so queer as folk"), no Brasil foi traduzido como “Os Assumidos”. Queer as Folk foi considerada pelos telespectadores e pela crítica em geral como aquela que conseguiu representar os homossexuais da forma mais satisfatória, assim se caracterizando como um marco televisivo no que diz respeito a abordagem dos personagens homossexuais. Ao mesmo tempo em que a série Queer as Folk se caracteriza como diferente e tendo uma abordagem nova, ela não está totalmente livre de todos os clichês, estereótipos geralmente relacionados ao senso comum. Algumas vezes são abordados e inseridos nos episódios e nos próprios personagens alguns estereótipos que são remetidos aos homossexuais, como o culto a beleza, o ideal de belos corpos, a busca da “eterna” juventude, etc. Mas é inegável que existem diferenças claras e pontuais entre Queer as Folk e outros programas que contam com personagens homossexuais em suas produções. O seriado foi um sucesso de público e de crítica, muitos a apontam como um marco na luta pelos direitos GLBT's. Por onde passou a série acumulou muitos fãs e “seguidores” que até hoje se lamentam pelo fim da série, pedem sua volta ou até mesmo uma versão em filme. O seriado tinha como propósito principal representar o cotidiano de um grupo de amigos homossexuais, pontuando questões como trabalho, família, sexo, filhos, violência, homofobia, preconceito, AIDS, entre outras temáticas. Durante a pesquisa me deparei com um número sugestivo de telespectadores de Queer as Folk no Brasil. Fazendo uma varredura no site de relacionamentos Orkut encontrei inúmeras comunidades destinadas para discussão do seriado, com base nessa informação e agregando uma nova categoria de fonte que é a Internet, pude observar uma gama de problemáticas para serem abordadas pelos telespectadores no espaço da Internet que poderiam ser pontuadas e investigadas nesta pesquisa. As inquietações inciais foram: Porque as comunidades no Orkut ainda são tão frequentadas, mesmo após quase 7 anos do fim do seriado? O que se discute no espaço dessas comunidades virtuais? O que as comunidades significam para esses membros? Que tipo de relação eles constroem com os demais? Percebendo os diversos usos e apropriações que os internautas fazem do campo cibernético pude notar algumas peculiaridades, há uma espécie espaço para confidências e relatos pessoais dos internautas, relacionando suas vivências com o que é representado pela série. Importante salientar que as comunidades não são frequentadas apenas por homossexuais, elas se colocam como “abertas” qualquer telespectador que acompanhou o seriado pode ser aceito, assim como eu fui. Contudo as análises do campo virtual se mostraram bastante pertinentes tendo em vista os desdobramentos que esses discursos tem A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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na práxis social. A Internet assim como a TV não são meios passivos eles exercem influência no cotidiano e consequentemente no meio social. Utilizar uma Rede Social como fonte de pesquisa é algo bastante instigante e arriscado, percebendo que meu foco é principalmente um site de relacionamentos, adentrando nas comunidades que por lá se encontram e finalmente analisando os fóruns e debates. Percebi que muitas vezes as conversas virtuais se iniciavam com os comentários sobre os episódios e acabavam com relatos de vivência, ou seja, passava de uma conversa “ficcional” para um debate “real” onde a prioridade era a narrativa de vida, as experiências pessoais desses telespectadores e internautas. Esses relatos foram bastante provocativos e não pude ignora-los, traziam falas riquíssimas que muito poderiam contribuir para esta pesquisa.

Espaços luxuosos e espaços de dominação: a Revista Careta criando a falsa liberação feminina na Belle Époque carioca Douglas Josiel Voks Mestrando Universidade do Estado de Santa Catarina –UDESC Orientadora: Profª. Drª. Sílvia Maria Fávero Arend O final do século XIX e início do século XX viu florescer não apenas a constituição de uma república no Brasil, mas também constantes transformações urbanísticas e principalmente sociais. Em grande medida, essas transformações podem ser atribuídas a uma parcela da elite brasileira que desejava a todo custo estabelecer nos trópicos uma sociedade aos moldes europeus, tendo como referência primordial a França. Desta feita, nas grandes capitais esse período é conhecido também como a fase da Belle Époque brasileira. Não é essa uma fase que se inicia propriamente nesse período, mas é nas primeiras décadas do século XX que ela vai chegar ao seu auge, em especial na cidade do Rio de Janeiro, a então capital brasileira. O prefeito Francisco Pereira Passos, inspirado nas modificações francesas estabelecidas por Hausmann, embelezou o Rio de Janeiro, criando diversos espaços públicos destinados para a sociabilização das classes mais abastadas, além de inaugurar diversos Boulevards e tentar mudar hábitos e costumes que eram vistos como inapropriados para uma sociedade que se desejava civilizada. Mesmo com tais reformulações nos espaços públicos, as classes abastadas que mantinham um contato com a Europa, percebiam que existia uma distância muito grande entre a nossa sociedade com o que se considerava “civilização”. O que se estabelecia era uma falsa modernização, já que modernizar-se ia muito além de embelezamentos arquitetônicos e a adoção de costumes que eram em grande medida inapropriados para a nossa realidade. Essa ideia de modernização era difundida pelas revistas ilustradas, as quais se constituíam em um marco do progresso e da modernidade, já que junto dessa virada do século chega ao Brasil novas tecnologias de reprodução e impressão, que possibilitam uma maior agilidade na produção e um volume maior de impressão, além de melhorar a qualidade e a estética gráfica com o uso de papel do tipo couché, o qual proporcionava mais brilho e luminosidade nas impressões coloridas. Essas revistas ilustradas, ao contrário de suas antecessoras que tinham a sua permanência no mercado por vontade de seus idealizadores, eram empresas voltadas para uma maior lucratividade, e consequentemente tiveram uma maior circulação nacional. São justamente essas melhorias tecnológicas que possibilitaram que essas revistas saíssem do âmbito local e restrito a capital, e passassem a circular pelos demais centros urbanos, levando essas ideias de modernização e civilização da Belle Époque. No âmbito desse desenvolvimento destaca-se a Careta, uma revista ilustrada de generalidades que buscava abranger um público seleto, tentando agradar esse público com o seu designe gráfico. Por ser uma revista ilustrada, deu-se uma maior visibilidade para as suas charges, as quais vão ter um importante destaque A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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em suas publicações, sempre imbuídas de críticas e representações sociais do que ocorria na sociedade carioca e do que se desejava que acontecesse por uma parcela da sociedade. No entanto, como toda fonte histórica a Careta não pode ser lida fielmente às cegas, de forma a crer que ela é uma representante da verdade e de que todas suas páginas nos mostram fielmente o desejo de toda a elite carioca, suas aspirações, desejos e contradições. Todas essas transformações são evidenciadas nas páginas da Careta, em fotografias de mulheres andando pelos boulevards do Rio de Janeiro, fazendo compras entre outras cenas cotidianas de uma vida social fora do ambiente caseiro. Era desejo da revista apresentar essa modernização, já que uma sociedade civilizada é uma sociedade que faz uso de espaços públicos e elegantes. Nesse sentido, outra ideia de modernização se dá em torno das mulheres, pois a revista passa uma imagem de liberação feminina, porém essa era uma falsa liberação, já que estas continuam sendo vigiadas e tuteladas pelos homens. Dessa forma, a revista cria em suas páginas um ideal de mulher, a qual deveria ser mãe e cuidadora da família e ao mesmo tempo participar de uma vida elegante fora do ambiente caseiro, porém sem nunca questionar a autoridade do marido e sempre dever obediência e submissão a ele. Em contra partida, a revista traz outra representação feminina, a qual seria uma crítica às mulheres que eram verdadeiramente modernas. Mulheres que ousavam no jeito de se vestir, pensavam criticamente e faziam uma outra leitura da sociedade, não aceitando a submissão e inferiorização social. Tendo em vista todas essas peculiaridades que envolvem o início do século e o surgimento da revista Careta e as suas mais diversas representações das mulheres, tenho como objetivo nesse trabalho analisar as relações conflituosas de gênero que foram impressas nas páginas dessa revista. Buscando compreender como a Careta se tornou um meio que tentou disciplinarizar as mulheres para um ideal que ela construiu e que propagandeava como o correto e socialmente aceito para os padrões da época. Palavras Chaves: gênero, imprensa, discursos. Uma história dos kama-sutras: Inglaterra da era vitoriana Felipe Salvador Weissheimer Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) Orientadora Profa. Dra. Ivonete Pereira

Esta comunicação visa historicizar o Kama-sutras de Vatsyayana, que foram traduzidos pela Sociedade Hindu Kama-Shastra, na figura de Richard Francis Burton. Nossa pesquisa tem por foco o contexto da primeira publicação (Inglaterra em 1883), em que propomos discutir a inserção dos kama-sutras, na sociedade inglesa do período, a partir das discussões de Michel Foucault, e suas considerações sobre os "dois grandes procedimentos para se produzir uma verdade sobre o sexo": Ars Erotica e Scientia Sexualis. Para ele, Ars Erotica - ou arte erótica caracteriza as práticas culturais das sociedades chinesas, indianas, japonesas, romanas, onde "a verdade [sobre o sexo] é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência. Enquanto que a Scientia Sexuais caracteriza o surgimento na Idade Moderna da sexualidade, procedimento que se tornou hegemônico nos países ocidentais. Nestes, a Scientia Sexualis (ciência sexual) criou um poder-saber científico capaz de produzir uma "verdade sobre o sexo", que determina comportamentos “normais”, permissões, restrições e interdições. Observamos no corpus dos kama-sutras a instituição de saberes à A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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construção de sentidos e significados em relação à sexualidade, ao erotismo e as relações de gênero. O preceito Kama (prazer) é central na formação discursiva de Vatsyayana, que é definido como o “gozo dos objetos pelos cinco sentidos” (audição, visão, tato, paladar, olfato). Portanto, Kama abrange vários aspectos da vida, não apenas o “prazer erótico”. Embora Burton tenha traduzido e publicado os Kama-sutras na íntegra (inclusive os capítulos que não abordam diretamente o “prazer erótico”), nos parece que o mesmo utilizou-se dos aforismos para formar um discurso pragmático que o distanciava, em alguns aspectos, ao discurso de Vatsyayana. Assim, na pragmática de Burton aos Kama-sutras, o erotismo tem maior importância que outros aspectos abordados por Vatsyayana: Edward Rice enuncia que Burton achava que os kama-sutras eram importantes para os ingleses, pois continha “muitas coisas novas e interessantes sobre a união dos sexos”. Além disso, observa que a ignorância acerca dos kama-sutras levava o homem inglês a não desfrutar totalmente dos prazeres matrimoniais, além de não satisfazer plenamente os desejos sexuais de sua esposa. Contudo, Vatsyayana instituiu nos kama-sutras saberes para as relações conjugais poligâmicas, fato aparentemente negligenciado por Burton, em função de sua perlocução pragmática dos aforismos, sobretudo em relação ao “prazer erótico” e seu pensamento monogâmico.O “jogo de luzes e sombras” que percebemos nos discursos da Sociedade Hindu Kama-Shastra, na figura de Richard Francis Burton, é a evidência de uma formação discursiva que se contrapõe às práticas sexuais “normais” aos vitorianos. Pierre Bourdieu destaca que “a emergência da sexualidade como tal é indissociável também do surgimento de todo um conjunto de campos e de agentes concorrendo pelo monopólio da definição legítima das práticas e dos discursos sexuais”. E, desta forma, a construção dos sentidos do discurso dos kama-sutras institui concepções e perspectivas que se inserem, rivalizam, interagem e, em certos aspectos, alteram as representações sexuais hegemônicas na época. Edward Rice destaca as contribuições da publicação dos Kama-sutras, pois enfatiza que Burton abriu campos sexuais em que a Inglaterra vitoriana não se atrevia a entrar, pois Burton declarou taxativamente que as mulheres gozam como os homens, isso numa época em que, ao se casar, as noivas vitorianas ouviam o conselho: “Fique imóvel e pense no Império”. Burton traduziu uma série de livros que hoje são clássicos na área, além do Kama-sutra, o Ananga Ranga, o Jardim Perfumado e até mesmo as Mil e uma noites, contribuindo para o surgimento de novas posturas em relação ao sexo no mundo o ocidental. A partir deste contexto, os kama-sutras se constituíram na cultura ocidental enquanto signos do erotismo e do exotismo hindu. Contudo, analisar sua primeira publicação no contexto inglês, a partir do diálogo com as obras de Foucault, possibilita entendermos uma forma "não convencional" de ação política-cultural: a apropriação-publicação de elementos da "cultura oriental" (kama-sutras) como empreendimento de transformação da moral sexual vigente no contexto inglês do século XIX ("moral vitoriana"). PALAVRAS-CHAVE: Sexualidade; Moral Vitoriana; Kama-sutras.

A pornografia na pós-modernidade: manutenção de discursos de gêneros

MIOTTO, Franciele Siqueira (Especialista em Educação Ambiental e Educação Especial). OLIVEIRA, Edinéia Aparecida Chaves de.(Doutoranda da UNISUL). O objetivo desse trabalho é questionar o conceito e o uso da pornografia no mundo pósmoderno. Para tanto, fez-se necessário retomar os papéis femininos e masculinos que foram se ressignificando ao longo da historia, demonstrando assim diferentes discursos, identidades A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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e organizações sociais. Nesse sentido, diversos autores trabalham com o papel da mulher nas sociedades (BOFF, 2002; DEL PRIORI , 2000; STEARNS, 2007;), bem como a influência da mídia na construção de identidades sexistas (SARUP, 1996; BUTTLER, 1990; CASTELLS, 2001). A partir dessa trajetória e observando a própria história da pornografia (HUNT, 1988, LEITE JÚNIOR, 2006; MORAES e LAPEIZ, 1985;), foi possível perceber que a pornografia veio caminhando para uma nova representação pós-moderna, ou seja, a opacidade das fronteiras entre o erótico e o pornográfico, sobretudo em função do discurso consumista. Essa tendência já é apontada na história da pornografia, todavia o presente estudo traz os resultados parciais da pesquisa de doutorado sobre a comodificação feminina na rede de práticas discursivas multimodais que promovem o Funk; trabalho que discute as diferentes redes textuais que promovem o discurso Funk: as letras de músicas funk, as capas de CDs funk e os textos e imagens vinculados no Jornal Folha de São Paulo sobre as “Mulheres Fruta”. Usando como base a ACD (FAIRCLOUGH, 1992, 2003, 2006), a pesquisa, constatou que a representação feminina foi e é a estrutura principal do discurso pornográfico, mas observa que a pornografia ganhou força maior como instrumento para o consumo na pós-modernidade. Através dela, vendem-se diferentes produtos, sempre partindo do uso da imagem feminina objetificada, comodificada em um discurso sexista. A imagem feminina é ao mesmo tempo instrumento e produto de venda. Sendo assim, a aceitação da pornografia e suas novas formas de representação em discursos legalizados representa um novo momento social, que pela influência do discurso do consumo naturaliza um discurso sexista contra a mulher. Palavras-chave: Discurso, Sexismo, Pornografia.

O poder de “dar a luz”: discursos e representações sociais acerca da prática do parto em Florianópolis Gabriela de Oliveira Ribeiro Mestranda do curso de História da UFSC Orientadora: Renata Palandri Palavras-chaves: Parto – Discursos - Medicalização A historiografia desde fins do século XX até inicio do século XXI tem passado por transformações significativas no campo do estudo da história cultural, principalmente no que diz respeito às relações de gênero. Nessa perspectiva, o corpo feminino vem sendo uma temática cada vez mais visada e aprofundada. São mudanças ocorridas nas visões, nas representações e nas categorias de análise históricas, nas práticas e experimentações das relações humanas construídas através de discursos imbuídos de relações de poder sobre a visão do corpo. O entendimento das relações de poder a organização social, material e simbólica é determinado pela compreensão de que as imagens, visões de mundo, discursos, enfim, todas as formas de representação social são percebidas como participantes do processo de formação de condutas.A escrita do artigo fundamenta-se em preceitos da História Cultural. A proposta de pesquisa procura estabelecer uma análise das experiências voltadas para a observação de mudanças/permanências culturais entendidas sob os efeitos das relações de poder e resistência a partir de aportes discursivos utilizados para investigar as diferentes formas de realização do parto no período de 1980 a 2010. A pesquisa apresentada visa trabalhar com os variados discursos da medicalização do corpo feminino e da humanização do parto. Desta forma, trabalhar-se-á com os discursos médicos e com relatos de experiências de parto. São discursos que vem passando por uma mudança gradual, quando observados A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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historicamente. Através de fontes orais e impressas, como portarias, manuais, matérias de jornais, será realizado um estudo investigativo sobre discursos e representações sociais sobre o “nascer” na cidade de Florianópolis. As fontes históricas empregadas para a elaboração dessa proposta de pesquisa serão de caráter qualitativo constituídas por fontes orais, textuais de mídia impressa, discursos médicos e governamentais. Serão utilizados como fontes de pesquisa depoimentos orais relativos ao evento do nascimento, pois em se tratando de uma história inscrita no Tempo Presente, o uso de depoimentos das personagens que estão vivenciando ou vivenciaram o processo é imprescindível. Serão entrevistadas mães que optaram por diferentes formas de partos, desde o parto hospitalar (normal ou cesariana) bem como as que fizeram a opção pelo parto domiciliar. Serão colhidos também depoimentos das enfermeiras-obstetras, que realizam partos hospitalares e domiciliares. Outras fontes de pesquisa serão as publicações e documentos institucionais, manuais informativos para gestantes, portarias governamentais com relação à saúde da gestante e realização do parto, bem como a produção que defende a realização do parto humanitário. A pesquisa buscará perceber as práticas discursivas do governo, médicos e gestantes, observando as tensões existentes. Matérias vinculadas em importantes jornais da capital catarinense serão analisadas, principalmente no período da fundação da Maternidade Carmela Dutra e nos dias atuais, com o intuito de observar de que forma o parto é exposto pela mídia.

Campina Grande, espaço escolar e corpos masculinos no magistério infantil (1909-1941): experiências modernas à contrapelo? Helio Santana Garcia Soto Titulação: Mestrando em História/UFRN Orientador: Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior Palavras-chave: Modernidade; espaço escolar; masculinidades

A pesquisa pretende cartografar as experiências de homens professores durante os anos iniciais do século XX em Campina Grande, quando ocorre a expansão da escolarização e de novas sensibilidades em torno das mudanças sociais desencadeadas por esse processo educativo, considerando esse período privilegiado para observação das relações de gênero, sobretudo das apreensões acerca da masculinidade. Temos como objetivo principal discutir a relação entre o avanço da escolarização e a diminuição da presença masculina no magistério infantil, questionando em que medida esses aspectos se relacionam na constituição de experiências modernizadoras do espaço escolar durante os primeiros anos republicanos em Campina Grande-Pb. Trata-se também de uma discussão sobre a instituição de um novo modelo escolar – o Grupo Escolar - e os movimentos que deram visibilidade ao mesmo. O grupo escolar, segundo Roberto Carlos Cury, é um agrupamento, uma reunião de um múltiplo que põe em ação e unifica sob o mesmo espaço arquitetônico séries, classes, controles, novos sujeitos de uma outra organização educacional sob um projeto de modernização do ensino e da própria cidade. Com isso, a escolarização no contexto histórico que estudamos compreende também um processo de incorporação de novos saberes, discursos e práticas que alteraram o panorama geral das atividades educativas, como a passagem das cadeiras isoladas para os grupos escolares, da inovação dos métodos educativos que deixaram gradativamente de serem instrucionais para se tornarem formativos, da criação das seriações que dividiram os A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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alunos e alunas por estágio de desenvolvimento, de uma maior especialização dos professores e professoras, em suma, das transformações que racionalizaram o ensino, tornando-o afeito aos ideais burgueses e republicanos. A partir dessas mudanças, verificamos que algumas gradações foram criadas para a atuação profissional do homem no espaço escolar, sendo mais comum vê-los durante as primeiras décadas do século XX entre os segmentos posteriores ao ensino primário ou nos cargos administrativos, de coordenação e direção, o pode revelar as práticas e tramas discursivas da constituição das relações de poder baseadas nas diferenças de gênero no espaço da cidade. Por isso, partimos da ideia de que a cidade enquanto vitrine do processo de construção da modernidade, aparece como (re) definidora de novos modelos de papéis sociais para homens e mulheres, e por conseguinte, de novas percepções em torno dessas mudanças. A educação escolar de crianças passa a ser uma atividade feminina, marcadamente construída pelo seu avesso (o masculino), logo, dos homens como sujeitos que tornam-se poucos aptos a educar crianças. Investigaremos a trajetória masculina nesse contexto avesso a fim de expressar as representações que contribuem para (re) constituir as especificidades da docência exercida por eles, bem como das demais funções que estes desempenhavam no espaço escolar. Para isso faremos uso principalmente das memórias inscritas nas fontes impressas como livros, jornais e documentos escolares a partir dos diálogos teóricos estabelecidos com Chartier (representação), Scott (Gênero como categoria de análise histórica), Foucault (saber/poder e discursos), Judith Butler (limites discursivos do sexo/materialização do gênero) e Certeau (relatos/práticas de espaço). Buscamos apresentar as mudanças na forma de praticar o espaço escolar no Brasil republicano e suas reverberações na cidade de Campina Grande. Em seguida tratamos das especificidades da interface entre o espaço escolar e as representações da masculinidade no ensino de crianças. Nesta interface percebemos que o espaço escolar fora constituído como um espaço de apresentação de um paradigma moderno de se portar no espaço público, de destacar as diferenças de gênero fazendo uso produtivo destas, ou seja, o trabalho docente passou a ser reelaborado para atender a sociedade burguesa em transformação, primeiro com a presença significativa das mulheres e depois com a extinção de práticas “artesanais” para dar espaço a uma tendência técnica e racional ao ensino, através da qual os grupos escolares passam a ser representativos, colocando homens e mulheres no mesmo território, mas em espaços de atuação diferentes. Logo, investigamos o recorte espaço-temporal que compreende Campina Grande durante o período de 1909 a 1941 questionando em que medida a espaço escolar como fenômeno essencialmente moderno ligado a cidade invisibilizou e indizibilizou a atuação dos corpos masculinos no magistério, sobretudo no ensino primário, criando outras espacialidades para estes no ensino formal, a partir de um discurso racionalista e modernizante.

A construção da idéia de prostituição sagrada no terceiro e segundo milênio a.C. Keila Fernandes Batista – pós-graduanda no curso de especialização em Religiões e Religiosidades - Universidade Estadual de Londrina. Orientadora;: Profª Drª Monica Selvatici Gênero; prostituição sagrada; historiografia. O presente texto pretende discutir as relações de gênero inseridas na construção da idéia da “prostituição sagrada” no antigo Crescente Fértil, entre o terceiro e segundo milênio a.C.. Para isso analisaremos como a produção historiográfica tem tratado o assunto, desde a primeira metade do século XX, até trabalhos mais atuais. Considerando essas obras, poderemos pensar o papel da mulher na sociedade mesopotâmica e como ele é discutido na historiografia de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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acordo com o contexto do qual fala o historiador.A análise foi baseada nas discussões trazidas pelo estudo de gênero, e como este tem sido utilizado pelos historiadores. Assim será possível refletir como a mulher está colocada na sociedade antiga a partir da construção das relações de gênero e como o seu lugar ele é analisado e discutido pelos historiadores de nosso tempo.Mesmos sendo recente, o estudo de gênero tem se modificado e atualizado constantemente, e tem contribuído cada vez mais para a pesquisa histórica, inicialmente, entre as décadas de 1960 e 19870, com a história das mulheres, que cada vez mais inseridas no meio acadêmico, buscavam o seu lugar nos temas das pesquisas, depois, entre as décadas de 1980 e 1990, quando passou a utilizar-se o termo gênero para designar construção cultural das diferenças sexuais, e sofrendo ainda mais desdobramentos, o estudo de gênero tornou-se ainda mais amplo, trazendo a tona além das mulheres, homens, crianças, jovens, homossexuais, antes silenciados na historiografia, dando voz ás diferenças, e à forma como nos construímos de acordo com nossa cultura e sociedade. Como a categoria gênero é ampla, devo dizer que nesse trabalho o foco será sobre o lugar ocupado pelas mulheres chamadas de “prostitutas sagradas” na Mesopotâmia e na terra de Canaã e como a forma de enxergar essas mulheres tem se transformado ao longo das pesquisas históricas sobre o assunto.É possível perceber, na própria produção historiográfica, como o papel dessas mulheres é desconstruído e reconstruído ao longo do tempo, de acordo com os fatores que influenciam na escrita do historiador e que “uma leitura do passado, é sempre dirigida por uma leitura do presente” (Certeau, 1975: 34), ou seja, o pesquisador irá pensar e escrever sobre esse tema de acordo com o período e sociedade na qual vive e pela qual é influenciado, mesmo que de forma subjetiva. Segundo Joan Scott, “a História é tanto objeto da atenção analítica quanto um método de análise.” Portanto, utilizarei a historiografia, também, como objeto de análise da construção das diferenças de gênero de acordo com o contexto do qual fala o historiador, me basearei sobre as obras já escritas para pensar como os vestígios do passado podem causar diferentes reações nos pesquisadores, reações essas desencadeadas pela bagagem sóciocultural que estes já possuem.O debate a respeito da existência da prostituição sagrada na Mesopotâmia tem sido tema de pesquisas sobre a antiguidade. Existem os autores que afirmam a existência da prática, e aqueles que questionam o termo prostituição, visto que a prática do sexo ritualístico não pode ser encarada com os valores morais da sociedade ocidental contemporânea. Robert Dofour, autor do século XIX, baseado nos relatos de Heródoto e da Bíblia hebraica, afirma a existência da prática da "prostituição sagrada” nos templos mesopotâmicos e se utiliza de juízos de valor para colocar a prostituição como prática imoral. Para Stephanie Lynn Budin a prostituição sagrada nunca existiu, pois as fontes não tratam de nada parecido, e todas as definições são abstratas. A autora fala que oferece não é apenas uma definição de um ritual ou prática, mas sim um esboço de uma aglomeração de idéias artificiais que foram postas juntas na imagem de um ritual, instituição ou prática. Há autores, como Gerda Lerner, que defendem a transformações dos valores ao longo do tempo. De sacerdotisas importantes e mulheres independentes e sexualmente livres, as “prostitutas sagradas” se tornam meretrizes comuns de acordo com a modificação da mentalidade que passa a ser patriarcal. Para embasar esse pensamento, os autores se utilizam também da categoria gênero para analisar a mentalidade da sociedade mesopotâmica, e como esta foi se alterando.Podemos perceber que o momento do qual fala o historiador influencia em sua análise do objeto. Dofour escrevem em Lisboa do século XIX, quando imperavam o conservadorismo moral e os valores masculinos, enquanto Budin e Lerner, embora tenham visões um pouco diferentes escrevem nos EUA, a primeira em 2008, a segunda em 2010, influenciadas pelo estudo de gênero e as novas perspectivas históricas. Assim, podemos pensar o gênero como uma categoria útil de análise histórica (SCOTT, 1990) para refletir sobre as relações colocadas nos trabalhos desses autores, relações construídas em seu contexto e A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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refletidas em seus trabalhos.Margareth Rago traz a reflexão sobre a utilidade do gênero na pesquisa histórica: “O gênero tornou-se um instrumento valioso de análise que permite nomear e esclarecer aspectos da vida humana com que vínhamos trabalhando, impulsionados pela pressão dos próprios documentos históricos.” (RAGO, 1998: 96) Pensar uma prática do passado a partir da perspectiva do gênero faz com que personagens antes silenciados por uma visão tradicional, ou por valores subjetivos presentes nas produções historiográficas sejam trazidos à luz pelo historiador.É o historiador que diante dos diversos materiais deixados pelo passado, de testemunhos que procuram guardar o sentido de cada momento e de cada experiência vivenciada pelos sujeitos históricos, escolhe aqueles que terão direito de aparecer, é ele quem seleciona, recorta e faz aparecer os discursos que terão a oportunidade de apresentar enquanto conhecimento histórico de uma época e lugar. (SIQUEIRA, 2008: 111)Utilizando-me da perspectiva dada pelo estudo de gênero e partindo da hipótese defendida por Stephanie Lynn Budin e Gerda Lerner da não existência da prostituição sagrada e das transformações de valores pelas quais passou a sociedade mesopotâmica, pretendo discutir como a idéia de prostituição sagrada é construída pelas relações de gênero presentes na sociedade antiga, e como o papel das sacerdotisas chamadas mais tarde de prostitutas sagradas, foi se alterando ao longo dos processos de mudança de mentalidade na sociedade, e depois, como essa idéia foi reconstruídas pela historiografia, de acordo com a ótica do historiador, dado o momento e condições sócio-culturais na qual ele está inserido

Entre Dona Feia e os concursos de beleza: Relações de gênero nos discursos sobre o corpo feminino na imprensa de Fortaleza nos anos 1920 Luciana Andrade de Almeida Doutoranda em História Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Orientadora: Profª Drª Denise Bernuzzi de Sant’Anna Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) Palavras-chave: História do corpo, beleza/feiúra, Fortaleza Em 1926, um texto intitulado Dª Feia aparecia na revista Ba-Ta-Clan, publicada na cidade de Fortaleza. O autor, identificado como Gregorio, descrevia a melancólica visão de uma mulher “desgraçada”, a quem eram negados os menores prazeres, desde um simples riso – sempre amargurado e angustiado –, até o amor e a maternidade. Tudo isso devido a um fator: sua aparência. Ele escreveu: “A natureza tem desses caprichos: dar tudo a alguns e negar tudo a outros. E foi assim para com ella – D. Feia: não lhe deu um só encanto. Tem-nos ao corpo, feio e magro, aos cabellos, ralos e poucos, aos pés, grandes e largos, ao nariz, longo e recurvo, aos olhos baços e fundos, á bocca, rasgada e enorme ás faces, descoradas e murchas. (...) A intelligencia, que possue brilhante, não lhe permitte desconhecer a sua desventura e envergonha se de tanta infelicidade. (...) E’ uma grande desgraçada. (...) As crianças, de longe, a apontam, receiosas, como que vendo no seu vulto o de uma bruxa das lendas, esquivandose-lhe aos carinhos que, tantos ! quizera fazer lhes, na expansão do instincto maternal, já agora a esterilizar-se-lhe no intimo. Pois se ninguem a pode ver, ninguem a poderá, jamais, amar!...”As qualidades físicas repercutiam na subjetividade da personagem e na sua atitude retraída. Também lhe negava a existência, um devir e uma história. A natureza “não lhe deu um só encanto” – embora sua inteligência fosse “brilhante”. No entanto, muito mais que a feiúra, a beleza era um tema que conquistava espaço nos jornais e revistas, presente em diversas crônicas, em propagandas (direta ou indiretamente), nas fotografias e ilustrações. A A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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beleza era observada, almejada, redefinida e ganhava enorme visibilidade na cidade que se modernizava e refletia anseios cosmopolitas no começo do século. O corpo feminino – ou melhor, determinadas regiões dele – e o gestual eram submetidos a um conjunto de normas e ao julgamento dos editores e leitores nos diversos concursos promovidos pelas revistas ilustradas que circulavam entre os bem nascidos de Fortaleza, como Ba-Ta-Clan, A Jandaia e Ceará Illustrado. Os atributos de beleza e, por conseguinte, o novo perfil de mulher, eram avaliados em competições como “Os mais lindos olhos”, “A mais bela cabeleira à la garçonne”, “A mais bela pianista”, “A mais bela freqüentadora do Passeio Público”, “A mais bela freqüentadora do cine Moderno”. Não por acaso, todos exemplos aqui mostrados referem-se às mulheres. A leitura dos textos e imagens encontrados nas fontes pesquisadas, dos anos 1920, mostram o quanto o corpo feminino era colocado no centro das atenções, sendo exaustivamente observado, julgado, redefinido em novos padrões e disciplinado de várias formas – embora passasse a desfrutar também de liberdades inéditas até então. Virtudes e desvirtudes femininas também passavam pelos corpos e pelas proximidades e distâncias que eles guardavam das noções de beleza e fealdade. Reconhecemos o corpo como variável historicamente – e também são variáveis os sentidos a ele conferidos em diferentes culturas, espaços e temporalidades. Nesses termos, não abordamos a beleza e a feiúra de forma dicotômica, mas compreendendo que essas noções são sempre provisórias, com fronteiras fluidas, incessantemente remodeladas. Este recorte faz parte de uma pesquisa mais ampla, realizada no doutorado, intitulada “Jogos de aparências: beleza e fealdade em Fortaleza nas primeiras décadas do século XX”. O objetivo desta comunicação é historicizar a construção social das distâncias entre os corpos segundo padrões estéticos socialmente aceitos e/ou rejeitados, observando de que forma as relações de gênero participam desta elaboração da beleza e da feiúra. Trata-se de um processo complexo que também abrange outras dimensões, como o saber médico, interesses econômicos do mercado emergente, princípios religiosos em contraste com o mundanismo que ganhava terreno no espaço urbano, entre outras. Neste momento, focalizamos a cidade de Fortaleza nos anos 1920, em uma reflexão que parte de dois eixos. Primeiramente, os discursos encontrados nas imprensa foram, em sua maioria, produzidos por homens sobre a beleza e/ou feiúra das mulheres – o que já fornece uma série de elementos para pensar em jogos de poder. Em segundo lugar, deseja-se mostrar neste estudo algumas repercussões da proliferação desses discursos sobre a mulher, tanto sobre os corpos femininos quanto os masculinos

Leituras comparadas sobre engenheiras no sul do Brasil Profa. Dra. Luciana Rosar Fornazari Klanovicz (UNICENTRO-DEHIS-PPGH) Palavras-chaves: gênero; engenharias; história Com legitimidade para racionalizar os problemas da realidade, engenheiros passaram a ter cada vez mais presença na sociedade, na cultura, e na política brasileiras ao longo do século 20. Muitas vezes, acabaram por ser identificados com um campo de saber homogêneo e monolítico, onde não existiriam conflitos de interesses, nem disputas entre escolas de formação, ou entre homens e mulheres. Contudo, o campo das engenharias, dos engenheiros, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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e, principalmente, das engenheiras no Brasil carece de maior investigação histórica, independentemente de os compararmos aos médicos e à Medicina, de longe uma temática melhor coberta, como lembra Silva F. de M. Figueirôa (2010, p.123). Além disso, é necessário lembrar que a centralização das engenharias no mundo urbano, no atendimento de anseios das classes médias e do aparelho estatal, sempre empurra historiadores e historiadoras a pensar esse campo científico como território de disputas entre saberes, entre regiões detentoras de centros de excelência desse conhecimento, e olhar para disputas pelo entendimento e pelo público interno e externo que se beneficiará do campo. O Sul do Brasil é região importante para a discussão histórica desses pontos, principalmente porque, na atualidade, concentra parcela significativa dos principais cursos de graduação e de pósgraduação em Engenharias do país. Comumente, a região é conhecida por ser referência em engenharias em todo o país, o que superficialmente forma uma ideia de homogeneidade do campo. Contudo, há tensões importantes entre as universidades e os cursos, entre modelos oferecidos de graduação e de pós-graduação, e, principalmente, diferenças e deslocamentos de ingresso, permanência e saída de homens e mulheres nas áreas de engenharia, que foram sendo construídas historicamente.São expostos aqui os resultados de pesquisa sobre a participação de mulheres nas Engenharias no sul do Brasil a partir de uma leitura histórica qualiquantitativa, e da problematização desse mesmo campo de análise. Materiais e métodos A ciência, segundo Gornick (2009) nunca é resultado de um só sexo, e nas relações de poder entre homens e mulheres dentro de laboratórios, não se pode deixar de vislumbrar a perspectiva de multiplicidade da agência de pesquisa, muitas vezes partilhada entre os gêneros. Portanto, acredita-se que é necessário acompanhar e refletir sobre as questões de gênero envolvidas na produção e reprodução destes saberes científicos no Brasil, proporcionando a estas agências financiadoras nacionais, dados científicos que lhes permitam aproximarem-se daquelas de países como os Estados Unidos da América, o Canadá, a GrãBretanha ou da União Europeia, no que diz respeito ao reconhecimento da importância de se compreender e ampliar a participação das mulheres na produção do conhecimento cientifico e tecnológico. O Sul do Brasil concentra alguns dos melhores cursos de Engenharias do país, com grande procura por candidatos a vestibulares oriundos não só do Sul e Sudeste, mas de outras regiões brasileiras. Em sua maioria são cursos recentes e estruturados em universidades públicas federais e estaduais, tais como os da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, estado de Santa Catarina e os da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em Maringá, Paraná. Dessa forma, a ideia de estabelecer um estudo qualiquantitativo na perspectiva proposta por Abramson et al. (2009), permite interpretar a presença de mulheres em cursos de Engenharia no sul do Brasil a partir de um ponto de vista que pode pensá-las como agentes tecnológicos em espaços importantes para sua atividade científica, que vão da casa à academia, da interação entre novas tecnologias, crenças e práticas sociais, do impacto do desenvolvimento tecnológico e científico na família e na sexualidade, e, principalmente, do impacto da cultura sobre a percepção da mulher em espaços acadêmicos majoritariamente masculinos. História, Gênero e Ciência O campo das Engenharias não recebeu interpretação histórico-quantitativa no sul do Brasil e ainda a maioria das pesquisas de gênero e Engenharias são qualitativas e circunscritas a poucos espaços (TEBET, 2009). Os dados de uma pesquisa histórica qualiquantitativa, especialmente na área de Gênero e Ciência, permitem conversações interdisciplinares e A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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documentam como a relação entre o gênero e a ciência é recíproca e com mudanças históricas em diferentes tempos e espaços (BAUR, 2009). Segundo R. Heap (2006), esse processo representa um deslocamento da leitura da “mulher e a ciência” que focalizava apenas o papel da mulher em setores dominados pelos homens, como é o caso de algumas pesquisas já realizadas no sul do Brasil, que versam sobre casos de “mulheres pioneiras” nesses campos de conhecimento como a Engenharia, para uma leitura histórica na qual existe uma demonstração da participação ativa das mulheres no campo científico e tecnológico. A tecnologia e a ciência constroem o gênero, bem como as definições modernas sobre o que é ciência e o que não é. Contudo, é a partir de estudos históricos que essas relações são colocadas em perspectiva de tensões e contingências, onde o papel de homens e mulheres muda, já que gênero e ciência também são construções históricas (HEAP, 2006). Heap (2006), ao pensar essas relações entre ciência e história, historicizou o deslocamento ocorrido na interpretação sobre a ligação entre mulheres cientistas e ciência, desde as posições feministas até a perspectiva de gênero. Para ela, se as feministas tinham contribuído para o discurso da “mulher como vítima” das tramas científicas masculinas, o que resultava em poucas histórias de sucesso de mulheres no campo científico, a incorporação da categoria de gênero fez deslocar a mulher do papel de vítima e reposicioná-la dentro da complexidade social na qual as cientistas constroem sua trajetória acadêmica e profissional (HEAP, 2006, p.8). De todo, as mulheres ainda são invisíveis se comparadas às histórias de sucesso no campo da ciência. Talvez essa constatação seja apenas superada a partir de pesquisas mais sensíveis, como pensa Heap (2006, p.8), à diversidade de experiências de vida de mulheres, em diferentes tempos e contextos, mas também de homens cientistas em leitura comparativa ou contrastiva. Discussão A partir do delineamento das IES públicas que ofertam cursos de Engenharia no Sul do Brasil, foi necessário estabelecer reduções, uma vez que o trabalho com 15 instituições não seria viável, e nem todas elas teriam dados consolidados a oferecer no que diz respeito aos elementos perscrutados na pesquisa. Optou-se, portanto, em desconsiderar universidades que não tivessem dados consolidados a informar para todo o período de publicação dos Censos do CNPq. Assim, levando em conta a estratificação dos grupos de pesquisa em Engenharia, foram excluídas as instituições Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina (CEFET/SC) e Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), o que trouxe para 12 o número de universidades possíveis de serem estudadas a longo prazo. Por fim, restou identificar, no todo, as universidades que apresentassem maior dinamismo em termos de constituição de grupos de pesquisa. Novamente, a estratificação dos grupos de pesquisa levou à conclusão de que as universidades a serem elencadas para o estudo, por apresentarem similaridade no dinamismo da constituição de grupos de pesquisa em engenharias (seguindo alguns critérios como a velocidade de formação de novos grupos), seriam a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Estadual de Maringá (UEM). Os casos da Engenharia Elétrica e da Engenharia Mecânica na UFSC demonstram a tendência tradicional desse curso constatada também na UEM. No caso da UFSC, das 100 vagas anuais ofertadas no vestibular, as mulheres não alcançam 10% das aprovações, num período que vai de 1998 a 2009. O exemplo da Engenharia Elétrica é seguido de perto pelos dados coletados sobre a entrada de mulheres no vestibular para o curso de Engenharia de Produção Mecânica da UFSC, no mesmo período (COPERVE, 2010). Apesar da Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica e da Engenharia de Produção Mecânica apresentarem esses dados, o caso mais exacerbado de disparidade entre homens e mulheres no que diz respeito a vestibulares na A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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UFSC é o da Engenharia de Controle e Automação Industrial, entre 1999 e 2009. Das 60 vagas anuais do vestibular, não ocorreu a entrada de mulheres em diversos vestibulares, com poucas exceções. Como já descrito em tabelas anteriores, se, em números absolutos da UFSC há maior entrada de homens nos cursos de engenharia, há que se levar em conta a relação intracursos e o caráter não monolítico ou homogêneo desses campos de conhecimento. Conclusões Apesar de um incremento significativo da entrada de mulheres em um curso específico de Engenharia, que é o de Alimentos, na UFSC, os dados arrolados até aqui demonstram que existe ainda uma majoritária entrada de homens nos demais cursos, pelo menos em dois pólos de formação de engenheiros e engenheiras no sul do Brasil, Maringá e Florianópolis. Mas que por outro lado, os dados observados mostram que há uma entrada constante, às vezes menor, às vezes maior, mas constante. Tal deve ser pensada como a conquista de um espaço, pequeno, por certo, mas é um espaço conquistado e constante. O aumento das escolas e cursos de ensino superior assim como a maior segmentação das Engenharias podem ser mecanismos de atração para tornar esta área, assim como outras, alvo de interesse tanto para mulheres quanto para homens. A equidade de condições de estudo e de carreira pode ser possível ultrapassar esferas construídas artificialmente, que são reiteradas diariamente, e que, portanto não são naturais. Engenharias são diversas assim como são as aspirações de inúmeras mulheres. Na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), segundo reportagem institucional publicada em 16 de março de 2011, Mulheres são destaque nos cursos de engenharia da Udesc Joinville (UDESC, 2011). De acordo com a matéria, há cerca de 1500 estudantes nos cursos de engenharia da UDESC campus de Joinville, e, desse total, cerca de 20% são mulheres. Contudo, o número absolutamente superior de homens matriculados nesses cursos não obscurece o fato de as mulheres terem as melhores notas dos que se formam, fato que “vem se repetindo a cada formatura do Centro de Ciências Tecnológicas da UDESC” (UDESC, 2011). Ainda assevera a reportagem da UDESC que, “A exemplo da formatura do primeiro semestre de 2011, durante a cerimônia de outorga de grau do dia 19 de fevereiro, dos 96 formandos (18 em elétrica, 28 em mecânica, 13 de civil e 37 de engenharia e produção e sistemas), a formanda Mariana Peixoto, do curso de engenharia mecânica, foi a primeira colocada no cômputo das turmas de engenharia, por ter cursado todas as disciplinas na UDESC e não ter tido nenhuma reprovação ao longo do curso, com média geral de 8,63. O resultado mostra dedicação e força de vontade” (UDESC, 2011). Na formatura de Engenharia Elétrica da UDESC na mesma data, a melhor aluna foi Jucieli Frena; no curso de engenharia civil, Helena Paula Nierwinski e no curso de engenharia de produção e sistemas a aluna Michelle Neves (UDESC, 2011). Em certa medida, os dados comemorados pela UDESC no que diz respeito às formaturas de engenharia de 2011, têm ligação com uma tendência já relatada em 2004 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), do Ministério da Educação (INEP, 2011). Na reportagem Aumenta participação feminina em cursos de engenharia, de 8 de março de 2004, o INEP, ao interpretar dados do Censo da Educação Superior, ponderava o seguinte: “Espaço de predominância masculina, os cursos de engenharia contam cada vez mais com a participação das mulheres nos seus quadros de matriculados. É o que pode ser constatado na comparação dos dados de 1991 e 2002 do Censo da Educação Superior realizado pelo INEP (INEP, 2011). E a reportagem continua dizendo que, Em 12 anos, o número de alunas nas engenharias cresceu de 25,5 mil para 42,8 mil – um aumento de 67,8%. No mesmo período, a quantidade de homens nesses cursos ampliou 38,7%. Com essa diferença, a representatividade feminina em relação ao total de matrículas subiu de 17,4% para 20,3% (INEP, 2011). A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Depois de apresentar dados de estabilidade no que diz respeito à entrada e homens e mulheres nas áreas da Saúde, das Sociais Aplicadas e das humanidades, o INEP ressaltava, em 2004, que “em todos os níveis de ensino, as mulheres são maioria entre os concluintes. A mais significativa diferença está na educação superior, onde representam 63% dos formandos (INEP, 2011). O Instituto finalizava a reportagem nos seguintes termos: “A comparação entre a matrícula total e o número de concluintes sugere que, em todos os níveis de educação, as mulheres tem mais persistência para permanecer no sistema de ensino e chegar até as séries finais (INEP, 2011). Tanto o INEP, em 2004, quanto a UDESC, em 2011, enfatizam como importantes os dados referentes ao aumento da participação de mulheres nas engenharias. O fato de as respectivas assessorias de imprensa darem vez e voz a esse processo, demonstra, em primeiro lugar, que as instituições estão percebendo a modificação da dinâmica de entrada e saída de graduandos, no que se refere ao sexo. Por outro lado, isso pode representar que o mercado de trabalho está em plena mudança. O trabalho voltou-se à leitura da inserção de mulheres na Engenharia. Não significa, contudo, naturalizar os dados de uma superioridade numérica de mulheres em outros campos como humanas. Não se pode deixar de notar, por exemplo, que há menos mulheres do que homens na Filosofia, inclusive numa proporção menor ainda do que a das engenharias. Obviamente que essa constatação sugere novos pontos para novas perguntas, novas pesquisas. Ao finalizar esta exposição, não se pode deixar de apresentar algumas estratégias que vem sendo realizadas em outros países, no sentido de diminuir a desproporção entre a participação masculina e feminina nas engenharias. Cada caso é um caso, e a realidade brasileira é diferente, inclusive de região para região, da de outros países. Contudo, a exposição de exemplos continua pertinente. Assim podemos inferir, que em tal área de conhecimento que articula gênero e ciência, há possibilidades futuras, como a leitura crítica do estabelecimento de redes de pesquisadoras, que levantam questões como a permanência de pesquisadoras na grande área de engenharia, a confecção de grupos de pesquisa liderados por mulheres na área, entre outras. Como afirma Heap (2006) ao citar Marianne Ainley, é necessário olhar as carreiras das mulheres das engenharias com “lentes diferentes”, perguntando para elas como definem carreira e sucesso por elas mesmas, antes de se compararem apenas suas trajetórias com aquelas dos homens com quem trabalham (AINLEY apud HEAP, 2006, p.14). Referências bibliográficas e webgráficas ABRAHAMSON, M.; BOLLEN, K.; GUTMANN, M.; KING, G.; PIENTA, A. Preserving quantitative research-elicited data for longitudinal analysis. New developments in archiving survey data in the U.S. In: Historical Social Research – Historische Sozialforschung (HSR): An international journal for the application of formal methods to History. Köln, n.129, v.34(3), p.51-59, 2009. BASE DE DADOS. Universidade Estadual de Maringá. Disponível em: «http://www.asp.uem.br/site/index.php?option=com_content&view=frontpage&Itemid=23» Acesso em: 10 out. 2010. Anos 2003, 2004, 2005, 2006, e 2007. BOLETIM DE DADOS UFSC. Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: «www.pip.ufsc.br/index.jsp?page=arquivos/boletim.html» Acesso em: 10 out. 2010. Anos: 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2007. BAUR, N. Measurement and selection bias in longitudinal data.A framework for reopening the discussion on data quality and generalizability of social bookkeeping data. In: Historical Social Research – Historische Sozialforschung (HSR): An international journal for the application of formal methods to History. Köln, n.129, v.34(3), pp.9-50, 2009. BITTENCOURT, H. R.; VIALI, L.; BELTRAME, E. A engenharia de produção no Brasil: um panorama dos cursos de graduação e pós-graduação. In: Revista de ensino de engenharia, v.29, p.1, p.11-19, 2010. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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A relação Corpo/Moda: Acepções e Transformações no começo do Século XX na cidade de Paris

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Maria Cecília Gonçales Pimenta – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina sob a orientação da Profᵃ. Drᵃ. Cláudia Elaine Parreiras Marques Martinez Palavra-Chave: Corpo, Moda, década de 1920 Esta comunicação anseia discorrer sobre parte de uma dissertação que, por sua vez, pretende refletir sobre a relação do corpo, moda e os usos destes como fonte histórica, porém, não de um ponto de vista de uma historiadora, mas sim do de uma designer que pretende realizar um trabalho como historiadora, em que fará análise e pesquisa sobre as mutações do vestuário feminino da década de 1920 na cidade de Paris e o uso da moda como instrumento de comunicação. E que, por se tratar de um olhar de novo ângulo, a moda, neste texto, não se coloca como causa, e tampouco como conseqüência das transformações do corpo, mas sim ambas, e o mesmo se afirma do contrário (o corpo sendo causa ou conseqüência das alterações da moda). Por conta disto, acredita-se que no século XX a ligação corpo/moda é muito mais complexa do que fora até então, e o que este implexo foi aumentando conforme o decorrer deste período. Afirma-se isso, primeiramente, porque devemos lembrar que a moda, como nas circunstâncias atuais, não é existente a todos os povos, e nem a todas as épocas da humanidade, conforme o pensamento do filosofo francês G. Lipotevetsky em seu livro O império do Efêmero: A moda não pertence a todas as épocas nem a todas as civilizações [...] Contra a idéia de que a moda é um fenômeno consubstancial à vida humano-social, afirmamola como um processo excepcional, inseparável do nascimento e do desenvolvimento do mundo moderno ocidental. Durante dezenas de milênios, a vida coletiva se desenvolveu sem culto das fantasias e das novidades, sem a instabilidade e a temporalidade efêmera da moda [...] Só a partir do final da Idade Média é possível reconhecer a ordem própria da moda, a moda como sistema, com suas metamorfoses incessantes, seus movimentos bruscos, suas extravagâncias [...]E, além das afirmações de Gilles, se calcula que passados o renascimento, a idade das luzes e século XIX, foi somente nos anos loucos, com as privações de materiais, decorridas da primeira guerra mundial, é que se fez uso, mais do que nunca, de processos projetuais extremamente estudados e discutidos, instituindo, então, pela primeira vez a configuração contemporânea da moda. Em segundo lugar pelo motivo de que, a sociedade ocidental, sua cultura e valores morais sofreram, por questões econômicas e políticas (também oriundas da primeira guerra), abalos inéditos até então ocorridos na sua história, e conseqüentemente atribui-se uma nova acepção do corpo, segundo filósofo fenomenólogo francês, Maurice Merleau-Ponty em seu livro Signes, publicado em 1960:Nosso século apagou a linha divisória do ‘corpo’ e do ‘espírito’ e encara a vida humana como espiritual e corpórea de ponta a ponta, sempre apoiada sobre o corpo [...]. Para muitos pensadores, no final do século XIX, o corpo era um pedaço de matéria, um feixe de mecanismos. O século XX restaurou e aprofundou a questão da carne, isto é, do corpo animado.Sendo assim, foram os deslaços destas novas situações, portanto, o que causou modificações à estética dos corpos, vestuário e às representações destes. Outro ponto a ser colocado é que, por não mais se dissociar a carne de l'esprit, por conseguinte o corpo adquire dupla função, em que ele pode ser ator e cenário histórico. Ele é suporte para ostentar e manipular a cultura material (onde a moda está inserida e estes objetos, inclusive do vestuário, lhes servem de signo, porque a moda é, também, discurso) e ao mesmo tempo ele é a própria fonte por esta característica proteiforme que possui, ou seja, ele expõe objetos que sofrem alterações e também diretamente se altera nesta intrincada conjuntura moda/corpo. Como já foi mencionado anteriormente, no período entre as duas grandes guerras, sufragistas parisienses na ânsia por igualdade de direitos entre os gêneros, se utilizaram da moda como ferramenta de comunicação, estas mulheres utilizaram objetos do vestuário masculino na tentativa de sensibilizar os senadores franceses A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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de uma igualdade de pensamento entre homens e mulheres, dando desta maneira, origem a moda garçonne entre as francesas tendenciosas à vida moderna. Portanto, este recorte histórico e geográfico proporcionará, a esta comunicação interrogar historicamente as relações de causa e conseqüência entre corpo e moda, e situar o corpo como agente e cenário histórico, e, deste modo, igualmente proporcionar que se rume a futuros trabalhos e em que se questionarão os usos destas relações no século XIX, que por lógica tendem a ser m

A sensualidade no Cemitério da Consolação: esculturas femininas de Leopoldo e Silva Maristela Carneiro Doutoranda em História / PPGH - Universidade Federal de Goiás Orientadora: Profa. Dra. Maria Elizia Borges Palavras-chave: Escultura funerária; Francisco Leopoldo e Silva; Sensualidade. Propõe-se inquirir o uso da sensualidade na composição das imagens femininas na escultura funerária brasileira, a partir do estudo de caso de duas obras do artista paulista Francisco Leopoldo e Silva (1879-1948). As obras funerárias encontram-se no Cemitério da Consolação, em São Paulo, o qual é compreendido enquanto um espaço de arte. O escultor iniciou seus estudos de escultura e modelagem no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, sob orientação de Amadeu Zani e, posteriormente, na Itália, teve aulas com Arturo Dazzi. Suas obras mais conhecidas se encontram no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A primeira obra selecionada das imagens selecionadas, a qual exemplifica o uso da sensualidade na composição da imagem feminina, está na sepultura do advogado Teodureto de Carvalho e sua esposa. Ali encontramos o primeiro nu feminino do Cemitério da Consolação, datado de 1922. A obra “Solitudo” é representativa do modernismo que chegava a São Paulo nos anos vinte. Trata-se de uma mulher sentada, envolta num véu translúcido, a partir do qual simultaneamente se encobre e se mostra a nudez da imagem feminina enlutada. Ao realçar as formas femininas, a sensualidade da mulher é implícita, complementada pela posição da cabeça, inclinada para trás, o que sugere aparente êxtase sensual. Outra imagem em granito cinza, do mesmo artista, é chamada “Interrogação”. Trata-se de outra mulher nua, sentada e com as pernas estendidas, a representar um ponto de interrogação. A mulher, semi-reclinada e pesarosa, expressa o desafio de compreensão da morte de Moacir de Toledo Piza (1891-1923), ao celebrar a memória de uma tragédia. Moacir Piza, advogado da turma de 1915 da Faculdade de Direito, matou-se com um tiro, numa noite, dentro de um táxi, após matar sua amante Nenê Romano. A partir destas esculturas, questionamos que aspectos artísticos, sociais e culturais referenciam tais imagens femininas, atentando-nos para as funções próprias do espaço cemiterial – um local até então tido como sacro. Ou seja, quais são as implicações do uso dos traços de sensualidade identificados nestas esculturas modernistas; quais são os diálogos possíveis com a produção de obras realizadas por outros artistas da época (Antonio Moya; Celso Antonio de Meneses; Victor Brecheret); quais são os dados contextuais, as subjetividades e as identidades próprias do ambiente e temporalidade que as alimentou e produziu. A representação do corpo masculino: fotografias do jornal Lampião da Esquina A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Muriel Amaral (Mestrando em Comunicação Midiática – UNESP/Bauru) Esse trabalho faz parte da minha dissertação de mestrado que está em fase de conclusão pelo programa de Comunicação Midiática da Universidade Estadual Paulista (UNESP/Bauru). A dissertação terá como tema central as representações pelas imagens do corpo masculino em veículos homoeróticos. O recorte para esse artigo é para apresentar as análises de fotografias dos corpos masculinos no primeiro veículo de comunicação de cunho homoerótico de circulação nacional: o jornal Lampião da Esquina, que circulou em os anos de 1978 e 1982. A proposta de análise das fotografias da capa desse jornal é de pensar como foram articulados os signos de representação de identidade e cultura no universo homoerótico naquela época e perceber as intenções da articulação para a construção desse discurso fotográfico. O jornal Lampião da Esquina foi o primeiro veículo alternativo direcionado à comunidade gay que circulou com maior abrangência em território nacional. A intenção dessa publicação era de promover o reconhecimento dos homossexuais como cidadãos, na tentativa de amenizar estigmas e preconceitos quanto a esses indivíduos frente aos seus desejos, práticas e identidade. O jornal deixou marcas na história da imprensa alternativa (também conhecida como nanica) por realizar o enfrentamento das estruturas de poder e ir de encontro com a promoção de indivíduos considerados “marginalizados” pela sociedade. As imagens são construídas de forma discursiva, ou seja, são compostas por signos que quando são articuladas com outros signos pertencentes à composição da fotografia oferecem significação. Além dessa articulação, a imagem que a fotografia oferece não se restringe apenas aos elementos fotográficos para a promoção de sentido, mas também aos contextos culturais, sociais e econômicos. Por isso, que a imagem que a fotografia carrega é considerada como uma representação de um determinado momento histórico daquilo que está sendo retratado (Kossoy, 1989)159. Certamente, esse recorte não se articula de maneira isenta de intenções, há alguma necessidade, mesmo que inconsciente, para haja a significação do processo de produção fotográfico. Por isso, que as imagem também são dotadas de significações que não se limitam aos processos de registros, mas podem ser interpretadas como símbolos de representações sociais e marcos de uma narrativa discursiva. Como é o caso das representações midiáticas das imagens do corpo. As imagens midiáticas são na mesma proporção um reflexo do tempo e do espaço em que foram retratadas um caminho a ser seguido pelo público receptor, ou seja, uma retroalimentação dos discursos midiáticos. Com a aplicação da metodologia para análise de fotografia (Felici, 2011)160, esse trabalho pretende verificar como são articulados os signos imagéticos nesse jornal e interpretá-los, levando em consideração não apenas a composição dos signos fotográficos, mas também as marcações sociais e históricas que levaram à formação desse discurso fotográfico. Com a análise de imagens dessas fotografias, pode-se perceber que houve uma polifonia discursiva quanto às representações imagéticas do corpo, em que essas não se limitam em apenas apresentar o corpo como uma forma de prazer e desejo, rente aos ideais capitalistas de consumo. Ao contrário das publicações atuais direcionadas a essa parcela da sociedade em que há extrema valorização do corpo, ainda mais quando se encontra fora do alcance das marcas do tempo, preserva a juventude e posterga a morte.

História do corpo: masculinidades, feminilidades e gênero. 159 160

Kossoy, Boris. Fotografia e História. Editora Ática:- São Paulo, 1989 Felici. Javier Marzal. Cómo se lee una fotografía: interpretaciones de la mirada. 4ª ed. Cátedra: Madri, 2011

A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Dra. Rosemeri Moreira (Faculdades Guarapuava/LEGH-UFSC, [email protected]) Dra. Luciana Rosar Fornazari Klanovicz (UNICENTRO, [email protected]) Levando em consideração a perspectiva teórica de que o corpo (os corpos) é percebido através de conjuntos de representações mentais, com a mediação dos discursos sociais e dos sistemas simbólicos, este GT objetiva propiciar a discussão sobre as leituras sobre os corpos e as construções de masculinidades e feminilidades que sobre eles incidem. A inteligibilidade do corpo no mundo moderno se encontra permeada pela construção de hierarquias sociais pautadas nessa pretensa materialidade. Partindo da categoria gênero este debate visa aprofundar como os produtos midiáticos, as culturas institucionais, a cultura política, os discursos da Medicina, do Direito, da Moda, etc., se estruturam a partir da lógica binária masculino/feminino.

Virilidade, combatentes e um feminino tão fora de lugar... MOREIRA, Rosemeri Dra. História Faculdades Guarapuava/LAHG-UNICENTRO

Palavras-chave: Gênero; Masculinidades; Militares. Este artigo é uma reflexão sobre a construção da masculinidade vinculada a atividade de combate, à guerra. O corpo do combatente, o corpo viril/militar, é ainda uma das mais eficazes construções discursivas que incidem sobre os corpos pensados como femininos ou masculinos. Corpos estes classificados através da dicotomia ausência/presença da capacidade viril. Este texto reflete sobre o corpo do guerreiro, a erosão e/ou transformação da virilidade ocidental no século XX a partir da Guerra Total. A capacidade guerreira é uma das principais características históricas da percepção sexual dimórfica do corpo no mundo ocidental: ser homem ou ser mulher se inscreve de forma excludente na sua presença ou ausência. Mesmo estando afastadas simbolicamente da instituição da guerra, a presença constante de mulheres nos mais diversos combates e conflitos armados (CAIRE, 2002) exemplifica a percepção do gênero que incide sobre a capacidade/incapacidade do corpo; sua dualidade sexual dentro da visão anatomoclínica e o encarceramento corporal do feminino e masculino, entre si pensados como excludentes. É importante apontar que a premissa da não virilidade, que até o início do século XX excluía o corpo de mulheres do mundo da caserna, foi utilizada nas justificativas simbólicas da necessidade de inclusão de mulheres nesse espaço, como forma de humanizar, civilizar e modernizar as forças policiais e as forças armadas em fins do mesmo século. A ideia de militar – militarismo e militarização – pressupõe enfoques que se entrelaçam. Primeiro, externamente, como a função/organização e capacidade para a guerra, a arte de se sobrepor com a utilização da força, a capacidade para a ação. Segundo, pensado internamente a partir dos aspectos fundantes da disciplina e da hierarquia: a autoridade baseada na “situação de guerra” contra o inimigo que precisa ser neutralizado e o “medo de ser contra” - ser o inimigo – (BOURDIEU, ) e deixar de fazer parte do grupo. A militarização funda-se no sentido da unicidade, ao mesmo tempo em que cria o sentido da diferenciação entre o nós/outros. O “perceber-se” enquanto grupo no interior das profissões militares, segundo Celso Castro (2004, p. 34), tem por base, principalmente, a crença na superioridade física e moral de seus integrantes, uma representação coletiva que forja coesão e homogeneidade. A ideia de A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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minoria dos melhores, marcada pelo distanciamento com os “paisanos”, é perceptível nessa representação de nobreza e altivez moral que se funda no corpo. A crença de “viver de maneira correta” e possuir as qualidades descritas diferenciam e hierarquizam militares e civis, e principalmente os homens e as mulheres. A busca pela coesão interna se dá através da ênfase da percepção de si como diferentes e melhores. Traduzido como espaço eminentemente masculino, o militarismo e a virilidade encontram-se entrelaçados como a capacidade para a guerra, para a ação, para a violência. Stéphane Audoin-Rouzeau assinala que o afastamento simbólico do corpo das mulheres dos combates é uma “invariante universal que em todas as sociedades humanas afasta o corpo das mulheres do porte das armas [...] de toda possibilidade de agressão à barreira anatômica que provoque derramamento de sangue” (2008, p. 414). Pela leitura sexual dimórfica e biologicista, a capacidade de suportar e infligir violência, necessária ao combate, encontra-se encarcerada no corpo de homens. Corpo esse biologicamente pensado como detentor de força física e também força moral de proteger os demais corpos carentes de virilidade: os corpos infantis, os corpos das mulheres e os corpos envelhecidos. Helena Carreiras (2009) discute o processo em que os termos masculinidade e militar foram plasmados numa “grelha simbólica”, que dicotomiza a relação mulheres-paz e homens-guerra. Processo em que a imagem do “outro-mulher”, mesmo que não unívoca, desempenha um papel crucial na definição de militar como alteridade referencial. A ideia de mulher, segundo a autora, cristalizada pela sua ausência, constitui um elemento estruturante do universo simbólico da cultura militar.

ST 14 - HISTÓRIA DA MÍDIA E HISTÓRIA NA MÍDIA As projeções de Brasil na Revista Em Guarda (1942-1945) Aline Vanessa Locastre – Mestre em História Social (UEL) Palavras-chave: História Política; Projeções; Mídia. Abordar as projeções que um determinado governo construiu sobre o futuro de um estado é, em grande medida, aventurar-se em projetos nacionais de desenvolvimento político, econômico e social, nos quais se fundem políticas reais, já em andamento na atual gestão ou que a longo prazo possuem condições de serem implementadas à aspirações sobre o ‘vir a ser’ e os impactos que tais políticas ocasionariam no país, em todos os aspectos.Tais projeções podem ser compartilhadas pelos mais diferentes setores de uma sociedade, seja no aspecto positivo, da aprovação das políticas adotadas a negativo, pela desaprovação dos possíveis rumos que em se espera trilhar. O fato é que, oriundo de um grupo de pessoas, esses projetos nacionais chegam a significativas parcelas de uma população, por meio principalmente das ferramentas que a mídia dispõe para a propagação desses planos. Percebemos assim, que a política e a propaganda sempre andaram em vias bastante paralelas, a primeira utilizando largamente dos meios que a segunda dispõe. Ao verificar as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a América Latina, especificamente com o Brasil, na década de 1940, verificamos uma grande quantidade de propagandas de superioridade que foram criadas pelos Aliados para uma efetiva adesão dos países latino-americanos na Segunda Guerra Mundial. Por meio do cinema, revistas, rádio ou mesmo de produtos importados verificou-se uma nação adentrando bruscamente as fronteiras latino-americanas, trazendo consigo preceitos morais, políticos e econômicos. Este trabalho procura fazer uma análise de uma revista dos anos 1940, denominada Em Guarda, que por muitos anos esteve em silêncio nas prateleiras empoeiradas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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da História. Hoje ela se incorpora, gradualmente, nos estudos sobre diferentes assuntos vivenciados no período de sua vigência, mas principalmente por tratar de temáticas intrinsecamente ligadas a Segunda Guerra Mundial, podemos, a partir dela, compreender fatos relacionados à Política da Boa Vizinhança, Armamentos de Guerra, Relações diplomáticas dos Estados Unidos com a América Latina, entre outros relacionados ao contexto beligerante.Partindo da temática referente às colaborações que se deram entre o Brasil e os Estados Unidos no contexto do maior conflito do século XX, buscaremos compreender os projetos políticos que foram fomentados pela mídia de guerra estadunidense na tentativa de estreitar as relações entre os dois países e criar nos brasileiros um sentimento positivo no que dizia respeito à luta de seu governo para com a causa bélica Aliada. Não buscamos mostrar que a Revista ‘Em Guarda’ possa sozinha, ser suficiente para o entendimento deste complexo período, mas acreditamos que ela concentra algumas características bastante significativas, elevando a sua analise como norteadora do presente trabalho. Por si só o seu surgimento possui uma especificidade para a historiografia, uma vez que ela foi um dos inúmeros objetos criados dentro da ‘Política da Boa Vizinhança’ e serviu como ferramenta da mídia para mostrar o estilo de vida e sociedade trazido por seus idealizadores. A revista “Em Guarda”, da primeira a ultima página foi recheada por reportagens de diferentes assuntos (relacionados à Guerra) e não trazia propagandas de marcas famosas. Mesmo que este produto midiático não tenha sido vendido, mas sim distribuído ao grande público americano, o analisamos com os instrumentais semelhantes àqueles usados para abordagem de uma revista comercial, uma vez que difunde um modelo de sociedade, com valores morais, políticos e econômicos apresentados como sem precedentes na História.Procuraremos identificar as projeções de Brasil que se faziam para um pós-guerra, caso se estreitasse os acordos entre Roosevelt e Getúlio Vargas, verificando essas aspirações de futuro do ‘gigante’ promissor da América do Sul, incentivados, principalmente, pelas políticas de desenvolvimento do governo de Vargas e dos investimentos para tais programas concedidos pelo governo dos Estados Unidos. A posição de inferioridade do Brasil não sai de cena, uma vez que ainda é medido pela carga ideológica de menosprezo de seus vizinhos, ao mesmo tempo, parece existir uma chance real de mudança, que está atrelada à sua equiparação à sociedade estadunidense, resultante da interação entre os dois povos durante a Segunda Guerra Mundial. A Batalha de Stalingrado: Uma Narrativa Digital André Luiz de Vasconcelos (Mestrando História Social UEL) Orientadora: Profª Drª Sylvia Ewel Lenz - UEL Palavras Chave: Memória - Documentário - Experiência.

O intuito desta pesquisa é compreender, através do documentário “Stalingrad”, a condição daqueles que estiveram envolvidos nesta batalha. A fim de esclarecimentos a Batalha de Stalingrado foi um dos confrontos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial, ocorridos em solo russo pelos exércitos alemão e soviético entre 1942 e 1943. Dados de arquivos mostram que os soviéticos sofreram cerca de 1.130.000 baixas, sendo 480 mil mortos e prisioneiros e 650 mil feridos em toda área de Stalingrado. Na cidade, 750 mil foram mortos ou feridos. Além disso, 40 mil civis soviéticos foram mortos em Stalingrado e seus subúrbios numa única semana de bombardeio aéreo, enquanto o 6º Exército e o IV Exército Panzer se aproximavam da cidade em julho de 1942; o total de civis mortos nas áreas fora da cidade é desconhecido. No total, a batalha resultou num total de 1,7 a 2 milhões de baixas de ambos os lados. Deste modo, para realizar está pesquisa as idéias de Walter Benjamin vinculadas aos seus inscritos A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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sobre memória e experiência, encaixam-se alegoricamente com os conceitos que permeiam esse tipo de produção. Além da finalidade deste formato de filme que visa transmitir determinada experiência vivida por certas pessoas, em um período de suas vidas o que possibilita uma maior compreensão sobre o tema. O tema em questão é fruto de monografia realizada para concluir a Especialização de História Social e Ensino da História, da Universidade Estadual de Londrina em março deste ano. Tendo como objetivo desenvolver uma pesquisa que se encaixa, nos moldes de uma monografia foi feito a escolha de um documentário como fonte denominada “Stalingrad” realizado no ano de 2006 pelos diretores alemães Jörg Müllner e Sebastian Dehnhardt. Esta produção fílmica retrata a questão social de civis e militares, sejam alemães ou soviéticos ao longo da Batalha de Stalingrado. Esse filme documentário é interessante pelo fato de fazer uso da memória de sobreviventes que estiveram no ocorrido para tentar refazer uma reconstrução da história. Ao longo da pesquisa apresento breve discussão entre os temas: Cinema Documentário, Memória e História, haja vista que esta pesquisa passa por estes campos de reflexão. A seguir, reflito sobre a relação cotidiana dos civis e militares a partir da fonte pesquisada, tendo como suporte a bibliografia selecionada. Só então, passei para análise do conteúdo do filme, ou seja, a crítica interna. Deve-se observar o que foi colocado de forma explícita ao longo de todo filme e a seguir, procurei aspectos implícitos, ou seja, o que os produtores tencionavam passar, mas não o fizeram diretamente.Entendemos que, em certo sentido, o filme do gênero documental é empreendido como dispositivo adequado para os rearranjos da memória. Desta forma, o passado é narrado e ressurgem no presente so b forma de silêncios, pausas, hesitações, sofrimentos, uma vez que, para a lém das intenções do cineasta, tem -se acesso a sentimentos não expressos em palavras. Assim, o do cumentário tem certa conotação revolucio nária neste ato de rememorar, principalmente na perspectiva benjaminiana, como um meio que potencializa a experiência d o outro como sentido de revelação de significados, sentimentos ou ressentimentos ocultos/silenciados. Assim, o documentário torna -se um lugar afetivo da memória ao permitir que os entrevistados sejam eles, ex -combatentes ou civis, possam rememorar e reler o seu passado, os seus traumas, as suas experiências.Em síntese a idéia dessa pesquisa é usar como referencial algumas idéias de Walter Benjamin, para compreender a fo nte no caso o filme documentário, como um meio que potencializa a rememoração. Coloca o e spectador com os agentes da história, no caso pessoas que viveram e experimentaram daquele trauma. È a tecnologia fazendo co m que as pessoas possam relatar, contar o ocorrido em diferentes partes do mundo, uma forma de nós podermos ter contato com pessoas que dificilmente poderiam expressar, suas memórias a nós se não fosse por esse meio de comunicação e interação.

A conjuração mineira pelas páginas da imprensa são-joanense (1877-1889) Augusto Henrique Assis Resende (mestrado – UNESP/Assis) Orientador: Prof.º Dr. Áureo Busetto Palavras chave: Inconfidência; imprensa; Tiradentes. A Conjuração Mineira foi um tema bastante recorrente no século XIX. Em sua primeira metade o movimento mineiro foi abordado principalmente pela tradição oral, sendo mais detalhado, difundido e imaginado em sua segunda metade por meio de literatos ligados ao Romantismo, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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pelos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro assim como pela imprensa. No Brasil a Conjuração foi primeiramente descrita pelos românticos – em Portugal a insurreição mineira também foi lida e comentada –, cujo primeiro escrito surgiu pela pena de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa com a obra Gonzaga ou a revolução do Tiradentes, publicada em duas edições (1848-51). Ao poeta fluminense se seguiram outros escritores de destaque e projeção nacional, como Antônio Frederico Castro Alves, Bernardo Joaquim da Silva Guimarães e Joaquim Maria Machado de Assis. No âmbito propriamente historiográfico a primeira obra que tratou da Inconfidência Mineira se deveu ao achado de Joaquim Norberto de Sousa e Silva, funcionário da Secretaria de Estado do Império e sócio do IHGB. Sousa e Silva encontrou documentos há muito esquecidos sobre a sublevação mineira, os autos de devassa realizados pelas autoridades portuguesas no Rio de Janeiro. Utilizando-se deste documento e de mais duas fontes contemporâneas à Inconfidência Sousa e Silva escreveu o livro História da Conjuração Mineira, são elas: Memória do êxito que teve a conjuração de Minas e dos fatos relativos a ela acontecidos nesta cidade do Rio de Janeiro – desde o dia 17 até 26 de abril de 1792, obra anônima; e a obra que se acredita ser do frei Raimundo de Penaforte: Últimos momentos dos inconfidentes de 1789 pelo frade que os assistiu de confissão. Muito comentado no período de seu lançamento, 1873, este livro pôs definitivamente os inconfidentes na história do Brasil. O autor de História da Conjuração Mineira foi muito criticado por se portar de maneira inventiva em sua escrita, beirando o ficcional por ser demasiado rebuscado com as palavras e também por ser autor de alguns poemas, o que punha em dúvida sua credibilidade como historiador. Outro agravante se deu pelo fato de Sousa e Silva ter denotado um aspecto secundário a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, na conspirata. Na sociedade brasileira, mas, sobretudo na mineira percebemos que a imprensa, mormente a partir dos anos 1870 se pôs a escrever sobre os conjurados mineiros. Certamente os redatores dos jornais não começaram a se dedicar ao tema da Inconfidência de uma forma abrupta, repentina, esse fato se deu num contexto político pelo qual o país passava, qual seja uma visível fragilidade da Monarquia Brasileira frente a problemas de difícil resolução, como a questão da mão de obra escrava e muitas dificuldades políticas; aliado à ascensão de um movimento republicano que ganhava força com o correr dos anos 1880. Porém notamos nesses jornais uma maior incidência de artigos e manifestos relativos à Inconfidência nas duas últimas décadas do regime monárquico. Alguns jornais eram diretamente atrelados aos partidos políticos do oitocentos, assim vemos legendas em alguns deles, como: “Órgão do partido Conservador” e “Órgão da ideia republicana”. Em nosso trabalho destacamos três jornais da cidade mineira de São João del-Rei: O Arauto de Minas, ligado ao partido Conservador e que teve sua fundação em 17 de março de 1877 e sua última edição se deu em 24 de dezembro de 1889; S. João d’ElRei, do partido Liberal e que funcionou de dezembro de 1885 a novembro de 1886; e A Pátria Mineira, unida ao partido Republicano e cujo período vai de abril de 1889 a maio de 1894. Propomos com este trabalho investigar como e por que se deu a utilização simbólica dos conjurados mineiros pelos jornalistas do último quartel do século XIX. De modo que esses jornais tinham laços estreitos com os partidos políticos pretendemos compreender até que ponto os políticos se beneficiaram ou tentaram obter privilégios ao utilizar o lado mítico e os bens simbólicos atrelados às figuras dos inconfidentes. Que apesar de terem sua causa oficialmente já reconhecida durante o Império foi somente com a implantação da República que eles alcançaram definitivamente o panteão cívico nacional, em especial Tiradentes, que foi decretado herói da pátria logo no início do regime republicano.

“O Brasil de hoje defende o Brasil de amanhã”: Cartazes de propaganda de guerra do Brasil na 2ª Guerra Mundial. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Caroline Loise Dähne (Graduada em Licenciatura em História- UEPG) Palavras-chave: História e Mídia; História e Imagem; Cartazes de Propaganda de Guerra. Os meios de comunicação de massa foram constantemente utilizados durante a 2ª Guerra Mundial para divulgar mensagens dos governos envolvidos no conflito, um exemplo disso são os cartazes de propaganda de guerra que além de serem distribuídos em lugares de grande circulação urbana, muitas vezes eram publicados em jornais ou revistas visando que sua informação interagisse com o inconsciente coletivo para atingir e sensibilizar o público. Diversos países utilizaram os cartazes como propaganda de guerra, esse tipo de divulgação alcançava vários grupos da sociedade, o seu custo de produção e divulgação era baixo e eles podiam tratar sobre diversos temas, desde arrecadação de fundos e recrutamento de soldados até o reforço do patriotismo e a desvalorização das nações inimigas. O Brasil durante o início da 2ª Guerra Mundial se manteve neutro devido às relações econômicas e políticas que mantinha com a Alemanha e os EUA, sua participação foi anunciada oficialmente em 22 de agosto de 1942 quando o país se declarou contra a Alemanha e a Itália. Essa participação na guerra se deu principalmente com o fornecimento de matéria prima para a produção bélica aos países aliados, e com a criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que enviou aproximadamente 25.334 soldados brasileiros para combater na Itália. No Brasil também foram produzidos cartazes de propaganda de guerra no intuito de enaltecer as Forças Armadas, demonstrando o bom trabalho que essas estavam realizando na proteção do país e também convocando os cidadãos a participar dos esforços de guerra, sendo com a compra de bônus ou com o convite para se alistar ao exército. Esses cartazes brasileiros foram produzidos por diversas entidades como a Liga de Defesa Nacional e a União Nacional dos Estudantes, mas o principal órgão a divulgar os ideais do governo no período da 2ª Guerra Mundial através dos cartazes foi o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado por Getúlio Vargas em dezembro de 1939 e que buscava controlar a propaganda nacional e divulgar as ações do Estado Novo para a população. Esta pesquisa, na fronteira entre diversos campos de conhecimentos, pretendeu, a partir dos cartazes selecionados, estabelecer uma análise das imagens e suas mensagens juntamente com o contexto histórico do período em que foram produzidos e da participação do Brasil na guerra. Para isso a análise do material ocorreu a partir de pesquisas que vem sendo realizadas no interior de outras áreas do conhecimento além da História, como o Jornalismo, a Publicidade, e as Artes. A metodologia utilizada é resultante dos estudos de MOLES e também nos de MELO a respeito de cartazes como veículo de propagandas ou publicidades, na qual se busca analisar os elementos que compõe os cartazes selecionados, dentre eles os aspectos gráficos, visuais e verbais, bem como sua a Função, ou seja, o que a mensagem esperava transmitir. A utilização de alguns elementos que compõe o cartaz visam um choque visual no observador, para reforçar certos detalhes da mensagem, como é o caso da utilização de efeitos gráficos para destacar uma palavra ou frase, o uso de simbolismo que remete a idéias ou comportamentos vigentes no país, bem como aspectos que visam o apelo sentimental da população. Dentre os principais referenciais teóricos que embasaram esse trabalho estão, principalmente estudos de HOBSBAWM no que se refere à Segunda Guerra Mundial, MOLES a respeito da utilização de cartazes como propaganda, JOLY sobre a análise de imagens e BURKE quanto à utilização de imagens em pesquisas de história, entre outros. Levando em consideração tais aspectos, esse estudo busca analisar cartazes de propaganda de guerra produzidos pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial, inserido na perspectiva da relação entre História e Imagem. Espera-se que as reflexões aqui levantadas contribuam na noção de cartazes como instrumentos de propaganda de guerra, demonstrando que no Brasil, assim A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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como em muitos outros países houve produções desse modelo de transmissão de mensagens do governo para a população.

A inserção do Jornal do Brasil dentro do contexto do jornalismo na década de 1960. Dayane Cristina Guarnieri, Mestrando em História Social, Programa de Pós-Graduação em História Social pelo CCH, pela Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina- Paraná BrasilOrientador José Miguel Arias Neto

O objetivo do texto reside em contextualizar a posição do Jornal do Brasil dentro do contexto da década de 1960, para compreender seus posicionamentos, qual grupo melhor representava qual sua situação econômica e administrativa. Enfatiza-se o seu processo de desenvolvimento dentro da sociedade brasileira e principalmente, qual seu discurso diante das transformações da linguagem do jornalismo brasileiro. Nessa perspectiva considera-se relevante pontuar a trajetória do periódico juntamente com as características do jornalismo vigente cuja informação publicada pretende ser o retrato da realidade e da verdade, assim também, procura-se compreender como o cenário de mudanças na área política influência a transmissão da notícia e o lugar do Jornal do Brasil no mercado de comunicação. Esse artigo é resultado de questionamentos surgidos a partir da utilização desse jornal como fonte de pesquisa e da necessidade de situá-lo dentro das particularidades desse momento histórico. A pesquisa investiga por meio da análise de conteúdo dos periódicos como as fontes construem e transmitem os principais temas e campanhas, assim como as bases argumentativas que servem para orientar as defesas ou críticas ao novo Governo de Execeção implantado em 1964, que necessita se legitimar perante a sociedade ratificando seus posicionamento e objetivos, considerando-se a especificidade de determinado contexto histórico, procura-se perceber qual a relação e a atuação dessa imprensa diante de uma situação política, que marca o início de um processo de intensificação da arbitráriedade. O texto consiste em uma breve análise que visa identificar no meio da linguagem jornalística as principais ideias que se relacionam diretamente com a instituição do Estado de Exceção no Brasil.O cenário brasileiro pós golpe-civil militar é exposto no Jornal do Brasil, como o momento de “reorganização”, volta de uma certa normalidade. Os editoriais criam expectativas em torno de uma futura administração da chamada “revolução” de 1964 que faria transformações estruturais em um curto período de tempo. Pressupõem-se que a linguagem forma o discurso, e este é passível de interpretação, todo discurso possui um objetivo implícito ou explicito, tendo em vista tal concepção compreende-se a necessidade da contextualização da fonte, o que permite inseri-lo no seu respectivo ambiente político, social e econômico e tentar delinear os principais interesses e procedimentos comuns e particulares do grupo que os periódicos pertencem. Portanto a fonte não matiza diretamente seu próprio cenário, assim como sua relação com o poder público, mas a sua linguagem e os posicionamentos e idéias contidas nela permitem ao pesquisador decifrar partes dessas relações ocultadas na “linguagem produto”, que foi vendida para o leitor. O periódico carioca Jornal do Brasil, até década de 1950 possuía uma das menores tiragens da cidade, fato que ira mudar no processo de transformação que consagra o mito do fim da opinião e começo da informação com o respaldo da modernidade. Esse periódico assim como outros de baixa tiragem se empenharam na construção de um ideal que os colocariam como pioneiro em inovação tanto no abordar da notícia, na técnica, no estilo e na prática jornalística, tal estratégia possibilitou maior credibilidade perante o público. No entanto, em meio as falas que ressaltam a desvinculação personalista e opinativa e a A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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neutralidade como meta alcançada na década de 1960, a realidade é que a maioria dos jornais pertencem à famílias e continuam a defender seus interesses por sobrevivência, ou seja de apoio por parte dos anunciantes e do poder do Estado. Com a intensificação da arbitrariedade do Estado, os grandes periódicos com o suporte da objetividade e da informação passam a praticar a autocensura, para angariar a segurança de sua existência.Busca-se contextualizar temporal, espacial e historicamente a fonte, para localizar e interpretar a sua linguagem que resulta na sua produção periódica e as intencionalidades desta. Palavras-chave: Periódicos, Jornal do Brasil, Discurso. Cinema, cultura histórica e didática da história:aportes teóricos e horizontes de pesquisa Éder Cristiano de Souza Professor Colaborador – Dpto História - UNESPAR/FAFIPAR Doutorando em Educação – UFPR Orientadora: Maria Auxiliadora M. S. Schmidt

Palavas-chave: Filmes históricos; Cultura Histórica; Educação Histórica. Nas duas últimas décadas observa-se certo entusiasmo quanto aos filmes como objeto de reflexão e crítica por parte de historiadores profissionais. Na esteira desse processo, as pesquisas e ensaios quanto às possibilidades metodológicas e os fundamentos teóricos do trabalho educativo com filmes no ensino de História se tornaram recorrentes.A história está presente no cinema de diversas maneiras e pode ser abordada por vários ângulos. E há produções cinematográficas especificamente preocupadas em retratar, ou tematizar, fatos históricos. Há também a possibilidade compreendê-los no jogo de forças políticas e sociais de produção de sentidos e discursos sobre a história. O presente trabalho apresenta reflexões teóricas a partir de diálogos com a teoria da história de Jörn Rüsen, no sentido de compreender as dimensões do cinema como produtor de sentidos históricos difusos, e abordar a formação histórica como elemento central nas discussões sobre a presença do cinema como artefato no ensino de História.Os filmes históricos são pensados como transmissores de um determinado saber histórico, que atinge as pessoas e as informa sobre o passado. Produções que não se ancoram na preocupação científica com a racionalidade histórica, uma vez que geralmente se configuram como mercadorias da cultura de massa. O que se destaca em seu relevo, na maior parte dos casos, é o potencial de difusão e rentabilidade da obra, não seus critérios de cientificidade.Os filmes geralmente são tratados como documentos históricos, aos quais se recorre para aprofundar a reflexão sobre o período em que as películas foram produzidas. Os filmes também são pensados como discursos sobre a história, sobre os quais se constroem críticas historiográficas a partir das análises de suas abordagens históricas. Há ainda um terceiro enfoque que deve ser também levado em consideração, que se trata de entender os filmes como agentes da história (ROSENSTONE, 1997). Ao exercer influência sobre os olhares do público a respeito da história o cinema tem se tornado, nesse sentido, um agente que produz uma forma particular de conhecimento histórico. O filme também pode ser considerado como produtor de novas abordagens, indutor de outros olhares não pensados ou testados pela própria historiografia (SALIBA, 1993). A cultura histórica, segundo Rüsen (1994) é o “campo em que os potenciais de racionalidade do pensamento histórico atuam na vida prática”. Rüsen observa como as obras de arte atuam nas dimensões da cultura histórica, construindo sentidos estéticos, políticos e cognitivos. Os sentidos históricos diseminados pelas produções cinematográficas podem ser compreendidos A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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como elementos da cultura histórica, que é operada nas consciências históricas dos indivíduos. Tal hipótese pode ser formulada a partir da observação da grande difusão de determinados filmes históricos, e do interesse que atraem no grande público. A produção de sentidos operada pela produção cinematográfica trás uma aparente transparência, o “efeito janela”, contudo sua real dimensão pode ser revelada a partir da compreensão de sua opacidade, uma vez que os processos produtivos geralmente não estão explícitos na tela (XAVIER, 1977). A percepção estética estimula o entendimento histórico, possibilita um desempenho cognitivo e reforça o enquadramento jurídico da vontade de poder e a vontade de poder serve à descoberta da verdade. Tal articulação, entre difusão do conhecimento voltada a convencer pela estética, termina por reforçar significados que muitas vezes se voltam para convencimentos, que geralmente não se fundamentam numa racionalidade da ciência histórica (RÜSEN, 1994). A indústria cinematográfica tem produzido, de maneira intensa e bem sucedida, narrativas contundentes, com força estética e retórica, que podem conformar olhares históricos pelo viés das emoções e do fascínio estético. Problema de grande relevância quando se toma por referência a necessidade de se pensar as formas e as funções do pensamento histórico na orientação da vida prática. Com a perda da plausibilidade racional do discurso histórico, desloca-se o sentido e a posição desta história na orientação da vida prática.Rüsen (2007) pensa num caminho para superar tal risco: a formação histórica. Dotando os sujeitos de competências cognitivas e narrativas que possibilitem a prevalência da racionalidade científica na formação da consciência histórica. Professores e alunos estão inseridos num contexto de apreensão de significados históricos, a partir da produção cinematográfica. A presença do conhecimento histórico sob uma forma não científica que se dissemina rapidamente na cultura histórica e chega à sala de aula, onde se relaciona com a didática da história, possivelmente criando formas particulares de apropriação. Investigações fundamentadas nos estudos da consciência histórica e da cultura escolar podem nortear novas reflexões sobre o pensamento acerca dos filmes históricos e sua presença na cultura histórica (SCHMIDT, 2009). É possível, portanto, inferir que o filme histórico, que é um produto da dimensão estética da cultura histórica, se torna um artefato na cultura escolar e passa a produzir sentidos sobre a dimensão cognitiva da história. A constituição de sentido histórico por filmes históricos é complexa e se relaciona de forma intensa com a cultura histórica. Portanto, é na consciência histórica operada pelos sujeitos da cultura escolar que se pode encontrar um caminho para compreender o movimento de atribuição de sentidos em relação aos filmes históricos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003. RÜSEN, Jörn . “Que es la cultura historica?: reflexiones sobre uma nueva manera de abordar la historia”. Trad. F. Sánchez Costa e Ib Schumacher. Original in: Füssmann, K., Grütter, H.T., Rüsen, J. (eds.): Historische Faszination. Geschichtskultur heute, 1994, pp.3-26. _____________. História Viva. Teoria da História III: tormas e funções do conhecimento histórico. Tradução de Estevão Rezende Martins. Brasília: Editora da UNB, 2007. SALIBA, Elias T. “A produção do conhecimento histórico e suas relações com a narrativa fílmica” IN: Falcão, A.R. & Bruzzo, C. (Orgs). Lições com cinema. São Paulo: FDE, 1993. p. 87-108. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel. Aprender História: Perspectivas da Educação Histórica. IJUÍ: Ed. Unijuí, 2009. XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: opacidade e transparência. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

Narrativa cinematográfica: reflexos e reflexões históricas Fernando Rossi (Mestrando/UEL) Orientadora: Dra. Maria de Fátima da Cunha Palavras-chave: história; cinema; narrativa. Este trabalho procura estabelecer algumas relações entre a narrativa histórica e a narrativa cinematográfica de modo a nos instrumentalizarmos e assim conseguirmos perceber o discurso histórico dentro da linguagem artística. A partir disto passamos a refletir sobre os usos dos filmes históricos como possibilidade de expressão sobre a história, incluindo-se aí o exercício reflexivo e interpretativo que contribuiriam para o entendimento tanto do passado como do presente. Preocupamo-nos com as narrativas dos chamados filmes históricos, ou seja, aqueles em que há uma intenção ou até um comprometimento por parte de seus realizadores em abordar o passado e reproduzi-lo, de acordo com seu posicionamento, para o público espectador. Entendemos que tanto a História como o Cinema possuem uma narrativa organizada com o objetivo de transmitir um discurso que tende a envolver o leitor/espectador e convencê-lo dos seus argumentos. O que nos impulsiona neste trabalho é entender de que modo esta narrativa presente nos filmes pode ser comparada à narrativa dos trabalhos historiográficos, pois, por serem suportes midiáticos distintos, acabam por terem características e limites díspares.Ao longo da nossa investigação, percorremos as definições de narrativa de alguns autores como Jörn Rüsen, Lawrence Stone, Hayden White e Robert Rosenstone e tentamos estabelecer pontos de convergência e divergência entre estas duas formas de expressão humana. Através da discussão bibliográfica entre autores de diversas linhas de pesquisa pudemos traçar um panorama conceitual sobre a questão das narrativas e do uso do cinema enquanto meio também capaz de comportar expressões acerca da história. A nossa preocupação aqui não é esgotar o assunto proposto ou buscar a definição de conceitos através de um único autor ou grupo de autores. Cada autor produziu ao seu tempo e com as suas preocupações um saber que é utilizado por nós como vozes que são interrelacionadas e contribuem para a formação do entendimento aqui buscado. Procuramos fazer uso destes autores da mesma forma que um pesquisador se vale em seu trabalho do confronto de agentes e da comparação de múltiplas fontes como subsídio para criar um entendimento amplo e complexo a respeito das temáticas destacadas.Ao analisarmos seus trabalhos podemos pensar em modos pelos quais a informações contidas em filmes históricos podem se relacionar com os conhecimentos históricos textuais e as fontes utilizadas pela historiografia, dialogando, concordando ou divergindo destes. Segundo as observações de Lawrence Stone (1979) entendemos que as narrativas nos possibilitam ver a cultura e a vontade individual das pessoas também como agentes causais importantes de mudanças ocorridas (STONE, 1979, p. 9). A narrativa histórica torna-se uma forma de expressar esse modo de visão, pois esta permitiria darmos atenção à vida e ao comportamento dos sujeitos e investigarmos o subconsciente dos atores sociais como forma de lançar luz na compreensão dos movimentos mais amplos de culturas e sociedades (STONE, 1979, p. 19). A narrativa torna-se, portanto, A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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uma organização lógica e inteligível de fatos com a intenção de discorrer sobre um assunto histórico de modo que se pretenda trazer ao leitor uma compreensão sobre o tema. A narrativa dos eventos ou da vida de uma única pessoa tem o potencial de ser reveladora do lugar em que ocorreram. Jörn Rüsen entende a narrativa como o ato de situar conteúdos empíricos no contexto próprio de sua ocorrência dando uma inteligibilidade e seqüência temporal aos fatos. Deste modo as particularidades destacadas podem tornar-se indicativas de mudanças temporais mais amplas (RÜSEN, 2001, p. 155). Para Rüsen, a forma narrativa é constituída por: um conteúdo cognitivo (informação), explícito ou implícito, a ser transmitido ao receptor; uma racionalidade política expressa na seleção e organização do discurso; e uma estética que tem por objetivo sensibilizar o receptor para seus argumentos.Entretanto, como nos mostra Roger Chartier (1991), o receptor não é passivo diante do texto lido. Para Chartier, existe um “mundo do leitor” rico e complexo em que leitores com diferentes habilidades de leitura utilizam-se dos textos de diversas formas e realizam diferentes entendimentos dos mesmos por meio dos seus “utensílios intelectuais”. (CHARTIER, 1991, p. 179) Portanto, entendemos que a narrativa permite visualizarmos, interpretarmos e questionarmos ela própria a partir do nosso referencial de entendimento do mundo, dos referenciais trazidos pelo autor ou implicados no seu posicionamento e na comparação de uma narrativa com outras. Robert Rosenstone entende que os filmes não seguem a mesma linguagem que os textos acadêmicos. Em maior ou menor grau, tanto o cinema quanto a história escrita não visam ser literais na sua expressão do passado, mas podem ser entendidos como sugestivos, ou no caso dos filmes, simbólicos e metafóricos, acrescentando um conhecimento a mais a um processo de entendimento histórico mais amplo advindo da humanidade (ROSENSTONE, 2010, p. 54).Para José Carlos Reis, removendo algumas barreiras entre ficção e história podemos pensar as abordagens históricas dos filmes como uma “comunicação viva” em que há uma interpretação e apropriação do texto – ou do filme – criando a possibilidade de interpretarmos a nós mesmos – e nossas experiências no tempo. (REIS, 2010, p. 68). Além disso, o caráter estético da narrativa tem a possibilidade, então, de estimular a sensibilização do espectador. Suas experiências vividas, seus conflitos éticos e morais tornam-se fundamentais na sua interpretação do que significam as imagens assistidas e até na possibilidade de criar uma relação de empatia com os personagens retratados.Reis entende que ao apreciarmos visões múltiplas sobre o passado obtemos várias referências para o nosso mundo atual, deixando de experimentá-lo em silêncio e isolamento. Ao usarmos tanto a narrativa histórica como cinematográfica para criarmos várias referências sobre o nosso passado, damos à história uma utilidade pragmática para entendimento da mesma e do nosso presente. Para o autor, este diálogo entre presente e passado aumenta, no presente, o número de participantes no debate e das capacidades inventivas, pela introdução dos homens e das criações passadas. (REIS, 1996, p. 89).Nessa busca por um entendimento da história através dos filmes, acreditamos que estes podem e devem ser desconstruídos em suas composições textuais, imagéticas e sonoras a fim de que consigamos aplicar uma metodologia analítica com profundidade suficiente para que compreendamos o que está implícito na obra. Ao mesmo tempo, o filme também precisa ser compreendido como um todo, onde os elementos que o compõem interagem entre si e se relacionam. Enquanto obra artística, o filme não é apenas um texto lido, mas uma narrativa interpretada, ambientada sonora e visualmente e que se relaciona tanto internamente quanto com o contexto sócio-cultural em que é produzido e exibido.A execução da análise da narrativa fílmica exige que cruzemos informações com outras fontes de modo que possamos perceber onde a “realidade” abordada pelo cineasta está inclusa. Assim, podemos buscar na narrativa cinematográfica uma experiência concreta dos homens na medida em que o ficcional relaciona-se com o conhecimento empírico trazido pelas fontes e constitui-se enquanto um conhecimento histórico. Para Rüsen, a história como ciência pode ser verificada através da operação de pesquisa histórica. “A narrativa de histórias é vinculada, pois, ao recurso às A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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fontes” (RÜSEN, 2001, p. 102). Deste modo, Rosenstone percebe que a investigação da narrativa cinematográfica pode frustrar historiadores mais ortodoxos com expectativas de um conhecimento histórico “limpo e higienizado”; e como solução a este impasse podemos alinhar seu pensamento ao de Rüsen já citado, o qual nos sugere uma forma de garimpar em meio às informações e tentar confirmar se o que nos é apresentado é realmente o que procuramos. Como nos coloca Rosenstone, “o passado contado por imagens em movimento não elimina as antigas formas de história – vem se juntar à linguagem que o passado pode usar para falar” (ROSENSTONE, 2010, p. 20). Hayden White entende que as metáforas, a simbologia e os elementos tropológicos podem nos auxiliar, acrescendo algo mais à análise lógica, através da representação de uma temática, do enredamento em uma narração lógica e estabelecendo um sentido cognitivo, ético ou estético (WHITE, 1994, p. 29).Se Rüsen considera, apesar de problemática, a separação entre narrativa ficcional e histórica pelo comprometimento desta última com o desenvolvimento da identidade humana, Rosenstone (1995) considera que certos filmes também comungam de algumas características desta narrativa histórica ao se comprometerem com tentativas de interferência nesta identidade. Para este autor, a aproximação entre as produções históricas escritas e cinematográficas ocorre quando percebemos que o trabalho escrito também possui seu quinhão de criação sobre as fontes e o filme histórico também pode possuir um comprometimento com as fontes e com a sociedade no qual está inserido.O filme histórico apresenta-se então como uma construção sobre a história. História que é feita de modo diferente da que é posta com tinta no papel. Mas que nem por isso deixa de contribuir para a função e o estímulo ao pensamento histórico. É necessário que analisemos a produção cinematográfica de acordo com suas características próprias da linguagem, sem, contudo, abandonarmos certas exigências do fazer histórico que determinam o conhecimento como científico. O passado criado nos filmes será diferente daquele do trabalho escrito; será permeado pelas características desta linguagem. Enredos dramáticos, personagens, tensões emocionais se inter-relacionarão com eventos históricos e épocas passadas. Invenção, condensação, simplificações e metáforas são exigidas pelas características próprias da linguagem cinematográfica. O que em um primeiro olhar pode ser entendido como uma falha da narrativa em relação ao que já se conhece sobre o passado, em outras análises pode aparecer como uma saída dada pelos produtores para que simbolicamente ou em sentido mais amplo a sua intenção seja dada ao espectador. Precisamos, no entanto, compreender as regras de expressão deste meio para que não classifiquemos tudo como mera invenção ou como não fidedigno ao “real” e descartemos produções que poderiam servir ao propósito de compreensão do passado e do presente. Isto não que dizer que não possamos – assim como já fazemos com as produções históricas de nossos pares – a checagem das fontes e a comparação com outras produções sobre o assunto. Deste modo, temos a capacidade de analisar se o filme é capaz de realizar uma incursão sobre a história, sem, contudo, sermos prepotentes ou inflexíveis a ponto de acharmos que apenas a história escrita é a forma “correta” de expressá-la. Ou mais, que apenas os historiadores devem produzir histórias. Concluímos este trabalho por entender que as narrativas históricas possibilitam o entendimento tanto do passado como do presente ao permitirem análises pontuais de sujeitos ou comportamentos como significantes de um processo mais amplo de sociedades e culturas. Da mesma forma, a narrativa cinematográfica também tem a capacidade de dialogar com as fontes históricas e as produções historiográficas para, assim, realizar incursões sobre a história, exibindo narrativas sobre algum tema do passado. Através do uso de técnicas e metodologias próprias do fazer historiográfico podemos analisar os filmes e, cientes das características próprias da sua linguagem cinematográfica, entender como estas narrativas podem contribuir para o entendimento do passado e do nosso presente ao adicionarem ou questionarem os mesmos. A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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Referências CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estud. av., São Paulo, v. 5, n. 11, 173-191, Apr. 1991. Disponível em . Acessado em 09 Maio 2012. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141991000100010. REIS, José Carlos. A História: entre a Filosofia e a Ciência. São Paulo: Ática, 1996 __________. O desafio historiográfico. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2010. ROSENSTONE, Robert A. Visions of the past: the challenge of film to our idea of history. Cambridge; Londres: Harvard Press, 1995. __________. A história nos filmes. Os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra, 2010. RÜSEN, Jörn. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Trad: Estevão de Rezende Martins. Brasília: Ed. UNB, 2001. STONE, Lawrence. The Revival of Narrative: Reflections on a New Old History. Past and Present. Oxford, n. 85. 3-24, nov. 1979. Disponível em Acessado em 05 de nov. 2011. WHITE, Hayden. Teoria Literária e Escrita da História. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 7, n. 13, 21-48, 1994.

Pedagogias do corpo na Revista Capricho Flávia Mantovani Mestranda PPGHS - UEL Orientadora: Prof. Dra. Márcia Elisa Teté Ramos

Palavras-chave: Revista Capricho, cultura midiática, corpo. A Revista Capricho, já muito conhecida entre jovens meninas em razão de sua considerável circulação, é uma revista de consumo voltada ao público feminino adolescente entre 10 e 19 anos161. Atualmente tem edição quinzenal e tiragem aproximada de 300.000 mil exemplares162, mas surgiu ainda na década de 1950, como uma revista de fotonovelas. Passou por inúmeras transformações de projetos gráficos e editoriais até chegar ao formato atual, que privilegia o público denominado teen, e assumir este aspecto: revista jovial e descontraída, que partilha da cultura juvenil, midiática e de consumo. Portanto, enquanto ponto inicial para nossa pesquisa, podemos considerá-la um item da cultura midiática que, produto de seu tempo, expressa valores, visões de mundo, veicula modelos de pensamento e comportamento, padrões de gosto e de consumo e, ainda, enquanto produto midiático atua também na produção de identidades específicas – neste caso, destaca-se a produção de identidade de gênero – como acontece com qualquer produto da mídia que privilegie o consumo. Neste contexto, buscamos neste trabalho discutir a função pedagógica que assume a Capricho – considerando os exemplares que correspondem aos anos de 2004 a 2006 – na medida em que pretende orientar modos de ser e de pensar as suas leitoras. Na revista, podemos observar esta intenção “educativa” – direcionada, sobretudo ao corpo – em um simples folhear: o corpo 161 162

Ver http://www.publiabril.com.br/marcas/capricho/revista/informacoes-gerais Idem.

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exposto em suas páginas ganha destaque a cada matéria. Quase como um manual, a revista vai ensinando normas, condutas, regras de cuidados através de suas dicas de conquista, beleza e moda. Assim, a Capricho apresenta aspectos que configuram como um espaço informal de aprendizagem, que participa na busca da adolescente pelo aperfeiçoamento de “si mesma” através de cuidados voltados ao seu corpo. Podemos ainda considerá-la “educativa” na medida em que busca interferir na subjetividade de suas leitoras. Uma vez que a Capricho é uma revista de consumo, um de seus fins principais é o lucro, portanto um de seus aspectos, além da educação do corpo, é a orientação para o consumo: no que diz respeito a estas orientações, a Capricho aborda assuntos relacionados ao universo feminino e adolescente, como se a leitora precisasse de suas dicas e, através de certas estratégias discursivas – imperativos, linguagem informal e pretensamente próxima à leitora, como se esta fosse sua “melhor amiga” – constrói esta necessidade de consumo nas leitoras. Neste sentido, o corpo assume um aspecto fundamental de expressão de identidade, lugar privilegiado onde a garota afirma seu “eu”, sua personalidade – tanto na revista como, provavelmente, para as suas leitoras. É importante ressaltar que, em nosso entendimento, ainda que a revista intencione impor sua visão de mundo ao seu público leitor, não há garantia de que isto ocorra devido às múltiplas e imprevisíveis apropriações que estas podem fazer da revista. Aqui, há preocupação com a questão da recepção da revista – embora ignorada neste artigo, dada sua dimensão e questões de recorte temático – entendida como importante ao passo que as práticas de leitura são sempre inventivas, pois implicam em ressignificação do texto e dos discursos que, muito provavelmente, são interpretados pela leitora conforme os seus próprios códigos culturais. Assim, buscamos refletir sobre como a Revista Capricho busca ensinar cuidados com o corpo as suas leitoras, ou seja, de que maneiras ela desempenha estas pedagogias e através de quais práticas discursivas? Neste sentido podemos considerar que o cuidado com o corpo prescrito pela revista subentende uma política cultural específica, que envolve diretamente: a questão do consumo que se coloca diante do sujeito contemporâneo; a questão de gênero, pois a revista ensina veicula uma noção específica de feminilidade que, segundo o discurso da revista, se exerce através do corpo; buscamos ainda explorar este material e sua relação com a adolescência, entendida enquanto um grupo de particular de consumidores na mira da mídia.

Observações teórico-metodológicas acerca do emprego de revistas periódicas como fontes de pesquisas historiográficas Igor Luis Andreo, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História e Sociedade da Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Campus de Assis, sob a orientação do Doutor Carlos Alberto Sampaio Barbosa. Palavras-chave: revistas; metodologia; história da imprensa. Nosso objetivo consiste em apresentar alguns pressupostos teórico-metodológicos quanto ao emprego de revistas periódicas como fonte e, concomitantemente, objeto da investigação historiográfica, a partir dos quais – dentre outros – pretendemos nortear os passos iniciais de nossa pesquisa de Doutoramento, que consiste em uma proposta de análise comparada entre duas revistas – uma brasileira e outra mexicana – ligadas ao universo da chamada “renovação progressista católica” e à Teologia da Libertação, focando o período que vai de meados dos anos 1960 até meados da década de 1980. Para realizar tal tarefa procuramos partir de questões que tentamos extrair de uma muito sucinta história da imprensa e de determinados aspectos de pesquisas que empregaram documentação periódica como fonte e objeto para, posteriormente, nos debruçarmos sobre as questões suscitadas e apresentarmos algumas A Escrita da História, Universidade Estadual de Londrina 12 a 15 de Outubro de 2012

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orientações metodológicas sugeridas por autores consagrados no campo latino-americano das análises de revistas culturais e acadêmicas, enfatizando, sobretudo, os apontamentos Tania Regina de Luca, que recomenda trabalhar a documentação periódica como fonte e simultaneamente objeto da pesquisa historiográfica, ou seja, propõe uma metodologia que procura superar o uso instrumental que tornava os periódicos como meros receptáculos de informações a serem selecionados, extraídos e utilizados arbitrariamente pelo pesquisador. Um primeiro aspecto importante que pretendemos destacar refere-se à materialidade das revistas, que devem ser caracterizadas a partir de sua constituição quanto aos formatos, tipos de papel, qualidade da impressão, capa, periodicidade, cores, imagens, padrões estéticos, etc., uma vez que a aparência das revistas não é algo natural, mas sim resultante da interação entre os métodos de impressão disponíveis no momento e as escolhas feitas para as revistas, o que contribui para revelar o lugar social ocupado pelas mesmas. Outro aspecto diz respeito às intencionalidades. Deve-se buscar perceber: quais eram os destaques e temas recorrentes na publicação; a estruturação e divisão interna dos conteúdos e as motivações para essas escolhas; as relações mantidas (ou não) com o mercado; a publicidade ou a ausência dela; o público-alvo; o número de exemplares publicados; quais eram os colaboradores mais assíduos; e os objetivos que se visava alcançar. Tudo isto se relaciona com a verificação do grupo responsável pela linha editorial. Além disso, não se pode esquecer que os posicionamentos e ideias defendidos e difundidos por uma revista, apesar de serem dirigidos por uma linha editorial específica não são homogêneos. Levar em conta a existência de diálogos e embates entre textos presentes nas revistas poderá contribuir para a análise das transformações pelas quais elas passaram no que se refere às temáticas pesquisadas. Desta maneira, essas análises da materialidade e da intencionalidade não podem estar dissociadas do contexto sociocultural nos quais as revistas se inseriam e, portanto, outra questão elucidada deverá ser a de qual é o lugar que as revistas ocuparam em relação a outros veículos e na história da imprensa no período que se pretende investigá-las. O primeiro passo é discernir a natureza dessas publicações, isto é, se elas se enquadram como revistas ilustradas, de variedades, de “popularização”, que visavam uma faixa de consumo genérico (apesar de ser possível identificar ênfases em determinado público-alvo) ou revistas acadêmicas, culturais ou literárias, com textos densos e destinados a públicos especializados. Uma das formas para percepção do lugar que o